SATURNO EM OPOSIÇÃO (Saturno contro, 2007, Medusa Film, 110min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Gianni Romoli. Fotografia: Gian Fillippo Corticelli. Montagem: Patrizio Marone. Música: Giovanni Pellino "Neffa". Figurino: Alessandro Lai. Direção de arte/cenários: Massimiliano Nocente. Produção: Tilde Corsi, Gianni Romoli. Elenco: Stefano Accorsi, Margherita Buy, Piefrancesco Favino, Serra Yilmaz, Ennio Fantastichini, Ambra Angiolini, Luca Argentero, Michelangelo Tommaso, Milena Vukotic, Luigi Diberti, Lunetta Savino, Isabella Ferrari. Estreia: 23/02/07
Por nome talvez os espectadores não saibam logo de saída quem é Ferzan Ozpetek. Basta, porém, citar alguns de seus filmes para que os cinéfilos mais antenados com a produção italiana do começo do século XXI percebam de quem se está falando. Diretor de "Um amor quase perfeito" (2001), "A janela da frente" (2003) e "O primeiro que disse" (2010), entre outros menos conhecidos, o turco radicado na Itália é um dos nomes mais relevantes do novo cinema europeu - mesmo que nunca tenha tido a sorte de, por exemplo, chegar a ser indicado a um Oscar. Premiado em diversos festivais de cinema mundo afora, Ozpetek é um cineasta com características marcantes (personagens complexos, histórias que valorizam a amizade como uma forma de família, a simpatia pela comunidade LGBT) e elas ficam bastante claras em "Saturno em oposição", seu sexto longa-metragem, lançado em 2007 e que reúne o trio de atores de seu "Um amor quase perfeito" (Stefano Accorsi, Margherita Buy e Serra Yilmaz). Uma bela história sobre laços afetivos e luto, seu filme arrebatou sete indicações ao David di Donatello (o Oscar italiano) e, apesar da pouca repercussão no Brasil, é mais um pequeno grande filme do diretor.
Sua trama, como de costume, é simples e direta - o que não significa, de modo algum, que é simplória ou superficial: sem um protagonista específico, ela gira em torno de um grupo de amigos que, confrontados com a efemeridade da vida, são obrigados a rever seus conceitos e prioridades - assim como seus próprios relacionamentos interpessoais. Se algum dos personagens pode ser considerado o principal, este é Lorenzo (Luca Argentero), um jovem bonito e saudável que vive feliz com o namorado, o escritor Davide (Pierfrancesco Favino), e está em franca ascensão profissional. De repente, em meio a um jantar oferecido ao tradicional grupo de amigos, ele sofre um derrame cerebral e se torna o centro das atenções de todos - que deixam seus problemas de lado para se revezarem no hospital, enquanto lidam com suas próprias questões. Antonio (Stefano Accorsi) e Angelica (Margherita Buy), um casal aparentemente feliz, se descobre em meio a um tumultuado caso de adultério; a tradutora Nerval (Serra Yilmaz) tenta manter a união de todos e a paz de seu casamento com o policial Roberto (Fillipo Timi); o ex-namorado de Davide, Sergio (Ennio Fantastachini), mantém a amizade com o novo casal; os mais jovens, Paolo (Michelangelo Tommaso) - um aspirante a escritor - e Roberta (Ambra Angiolini), envolvida com drogas, testemunham os embates dos mais velhos; e Davide enfrenta o conservador pai de Lorenzo, Vittorio (Luigi Diberti), que não aceita totalmente a orientação sexual do filho único.
Dividindo sua atenção entre todos os seus personagens - com um pouco mais de ênfase no casal Antonio e Angelica, que se sobressaem também pelo carisma de seus intérpretes -, Ferzan Ozpetek brinda o espectador com cenas de uma delicadeza ímpar, nunca apelando para o sentimentalismo exagerado ou o caminho mais fácil. Ao dotar suas criações com uma série de nuances que os afastam do maniqueísmo, o diretor e roteirista permite aos atores que explorem com menos pressa e avidez o âmago de cada um deles. Ozpetek é mestre em trabalhar com sutilezas, como um olhar triste, um sorriso esperançoso, um abraço redentor, e faz isso com abundância, recheando de calor humano uma história que apresenta, em sua origem, poucas novidades. "Saturno em oposição" é, mais do que um filme de trama forte, uma obra de personagens interessantes e situações verossímeis, que encontram eco no público justamente por sua simplicidade aparente. Com o uso adequado da trilha sonora - comovente e eficaz em sua função de ilustrar passagens que exigem uma emoção mais forte - e um respeito absoluto pela humanidade de cada um (na tela e na plateia), o filme de Ozpetek faz parte de um tipo cada vez mais raro de cinema: aquele que retrata e embeleza o cotidiano.
Todos os problemas dos personagens de "Saturno em oposição" são graves - em níveis distintos e em graus maiores ou menores, mas definitivamente graves. Doença, morte, adultério, uso de drogas, problemas financeiros e o medo do fracasso atormentam sem descanso o grupo de amigos. Mas o roteiro faz questão de nem dourar a pílula e fazê-los de resolução milagrosa nem tampouco torná-los impossíveis de contornar. Oferecendo uma boa dose de generosidade a todos, Ferzan Ozpetek parece acenar com um gesto de esperança para cada um deles - e consequentemente também para o espectador. Em alguns momentos pode ser difícil segurar as lágrimas, mas no final das contas, o filme deixa claro que a amizade, a união e o respeito podem fazer grande diferença - não milagres, mas a quantidade necessária de conforto e carinho para que se possa manter a espinha ereta e o coração tranquilo. Mais uma vez acertando em cheio na emoção e na sensibilidade, Ozpetek se torna, com "Saturno em oposição", um diretor indispensável.
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O PRIMEIRO QUE DISSE
O PRIMEIRO QUE DISSE (Mine vaganti, 2010, Fandango/Rai Cinema, 110min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Ivan Cotroneo. Fotografia: Maurizio Calvesi. Montagem: Patrizio Marone. Música: Pasquale Catalano. Figurino: Alessandro Lai. Direção de arte/cenários: Andrea Crisanti/Lily Pungitore. Produção: Domenico Procacci. Elenco: Riccardo Scamarcio, Nicole Gramaudo, Alessandro Preziosi, Ennio Fantastichini, Lunetta Savino. Estreia: 13/02/10 (Festival de Berlim)
Quem já assistiu ao belo "Um amor quase perfeito" (2001) - em que a médica interpretada por Margherita Buy descobre a vida dupla do marido depois que ele morre atropelado - e ao melancólico "A janela da frente" (2003) - que mostra Giovanna Mezzogiorno e seu charmoso vizinho Raul Bova investigando o passado de um desmemoriado senhor de idade encontrado vagando pelas ruas de Roma - sabem que o cineasta Ferzan Ozpetek sempre encontra um jeito de retratar de forma poética e respeitosa a homossexualidade, além de colocá-la frequentemente como ponto de suma importância em seus roteiros. Às vezes mais discretamente e em outras explicitamente, o assunto é peça fundamental de suas narrativas, e em "O primeiro que disse" é o ponto de partida para uma história que fala de hipocrisia, preconceito e da necessidade de se lutar pelos próprios sonhos. Um tanto melancólico mas com pitadas saudáveis de humor, seu filme é um libelo a favor da liberdade individual - ainda que para conquistá-la seja obrigatório romper padrões e expectativas alheias.
Tommaso Cantone (Riccardo Scamarcio) é o filho caçula de uma tradicional família proprietária de uma bem-sucedida fábrica de massas no interior da Itália. Vivendo há anos em Roma, ele sente-se livre para ir contra todos os planos dos pais, fazendo o curso de Letras, tentando a carreira de escritor e vivendo um romance com Marco (Carmine Recano). Em uma visita à casa paterna, ele decide contar a verdade sobre sua vida na capital e, assim, fugir da responsabilidade de comandar uma empresa com a qual não tem a menor afinidade. Para sua surpresa, porém, seu irmão mais velho, Antonio (Alessandro Preziosi) sai do armário antes dele, confessando seu amor por um antigo empregado da fábrica. Com o irmão expulso de casa pelo pai - que tem um enfarte logo em seguida - Tommaso se vê impedido de dar seguimento a seus planos e é obrigado a continuar morando na cidade e sendo a ligação entre a família e a empresa. Suas tentativas de esconder sua vida alternativa sofrem um duro golpe, no entanto, quando Marco resolve visitá-lo em busca de notícias - e chega acompanhado de um grupo de amigos nada discretos.
Assim como em "Um amor quase perfeito", Ozepetek cria, em seu filme, uma galeria de personagens coadjuvantes que emolduram a trama principal com graça e inteligência. Enquanto no primeiro filme eram os amigos de Michele (Stefano Accorsi) - um grupo de homossexuais que se tratavam como uma família alternativa - que roubavam a cena, em "O primeiro que disse" essa missão cabe aos familiares de Tommaso, um conjunto de personalidades que varia do patético (como a tia solteirona que alega ter ladrões invadindo constantemente seu quarto) ao hipócrita (o pai preconceituoso e cioso dos valores familiares mas que tem uma amante à vista de todos). Sob o olhar prescrutador da matriarca da família (Ilaria Occhini) - cujo passado tem um drama que a faz perceber o mundo com um ponto de vista mais benevolente e carinhoso - todo o clã vive sua rotina tentando encontrar maneiras de lidar com seus próprios problemas, retratados com sensibilidade e humor. Evitando a todo custo pesar a mão seja na questão da sexualidade ou na dos preconceitos arraigados do interior da Itália - onde meninas são obrigadas desde crianças a se comportarem como pequenas damas e a fofoca é quase um esporte nacional - o cineasta (um turco que vive na Itália desde os anos 70) trata seus personagens como um pai compreensivo, nem sempre concordando com eles, mas respeitando seus pontos de vista por piores que possam ser. Essa generosidade é uma das maiores qualidades de seu texto, que, além disso, injeta um bem-vindo senso de humor na hora mais do que apropriada.
Justamente quando "O primeiro que disse" está se levando a sério demais e as dúvidas de Tommaso a respeito de suas decisões estão a ponto de tornar o filme um dramalhão, Ozpetek surge com a brilhante ideia de jogar um bocado de sol na trama. A chegada de Marco e seus amigos - três gays espalhafatosos tentando disfarçar sua sexualidade para não chocar a conservadora família Cantone - dá um choque de humor na trama e a direciona para sua reta final, quando decisões terão de ser tomadas e/ou repensadas. Sem deixar seu roteiro cair na mesmice ou no didatismo, o cineasta encerra sua trama com uma bela e onírica sequência que mais faz pensar do que determina desfechos. Pode não ser uma opção que agrade a todos, mas ao menos é corajosa e coerente com a proposta de sacudir o status quo. "O primeiro que disse" é um filme que não apenas entretém: como toda a filmografia de Ferzan Ozpetek, é uma obra aberta a discussões que em momento algum perde sua qualidade de entretenimento. Louvável!
Quem já assistiu ao belo "Um amor quase perfeito" (2001) - em que a médica interpretada por Margherita Buy descobre a vida dupla do marido depois que ele morre atropelado - e ao melancólico "A janela da frente" (2003) - que mostra Giovanna Mezzogiorno e seu charmoso vizinho Raul Bova investigando o passado de um desmemoriado senhor de idade encontrado vagando pelas ruas de Roma - sabem que o cineasta Ferzan Ozpetek sempre encontra um jeito de retratar de forma poética e respeitosa a homossexualidade, além de colocá-la frequentemente como ponto de suma importância em seus roteiros. Às vezes mais discretamente e em outras explicitamente, o assunto é peça fundamental de suas narrativas, e em "O primeiro que disse" é o ponto de partida para uma história que fala de hipocrisia, preconceito e da necessidade de se lutar pelos próprios sonhos. Um tanto melancólico mas com pitadas saudáveis de humor, seu filme é um libelo a favor da liberdade individual - ainda que para conquistá-la seja obrigatório romper padrões e expectativas alheias.
Tommaso Cantone (Riccardo Scamarcio) é o filho caçula de uma tradicional família proprietária de uma bem-sucedida fábrica de massas no interior da Itália. Vivendo há anos em Roma, ele sente-se livre para ir contra todos os planos dos pais, fazendo o curso de Letras, tentando a carreira de escritor e vivendo um romance com Marco (Carmine Recano). Em uma visita à casa paterna, ele decide contar a verdade sobre sua vida na capital e, assim, fugir da responsabilidade de comandar uma empresa com a qual não tem a menor afinidade. Para sua surpresa, porém, seu irmão mais velho, Antonio (Alessandro Preziosi) sai do armário antes dele, confessando seu amor por um antigo empregado da fábrica. Com o irmão expulso de casa pelo pai - que tem um enfarte logo em seguida - Tommaso se vê impedido de dar seguimento a seus planos e é obrigado a continuar morando na cidade e sendo a ligação entre a família e a empresa. Suas tentativas de esconder sua vida alternativa sofrem um duro golpe, no entanto, quando Marco resolve visitá-lo em busca de notícias - e chega acompanhado de um grupo de amigos nada discretos.
Assim como em "Um amor quase perfeito", Ozepetek cria, em seu filme, uma galeria de personagens coadjuvantes que emolduram a trama principal com graça e inteligência. Enquanto no primeiro filme eram os amigos de Michele (Stefano Accorsi) - um grupo de homossexuais que se tratavam como uma família alternativa - que roubavam a cena, em "O primeiro que disse" essa missão cabe aos familiares de Tommaso, um conjunto de personalidades que varia do patético (como a tia solteirona que alega ter ladrões invadindo constantemente seu quarto) ao hipócrita (o pai preconceituoso e cioso dos valores familiares mas que tem uma amante à vista de todos). Sob o olhar prescrutador da matriarca da família (Ilaria Occhini) - cujo passado tem um drama que a faz perceber o mundo com um ponto de vista mais benevolente e carinhoso - todo o clã vive sua rotina tentando encontrar maneiras de lidar com seus próprios problemas, retratados com sensibilidade e humor. Evitando a todo custo pesar a mão seja na questão da sexualidade ou na dos preconceitos arraigados do interior da Itália - onde meninas são obrigadas desde crianças a se comportarem como pequenas damas e a fofoca é quase um esporte nacional - o cineasta (um turco que vive na Itália desde os anos 70) trata seus personagens como um pai compreensivo, nem sempre concordando com eles, mas respeitando seus pontos de vista por piores que possam ser. Essa generosidade é uma das maiores qualidades de seu texto, que, além disso, injeta um bem-vindo senso de humor na hora mais do que apropriada.
Justamente quando "O primeiro que disse" está se levando a sério demais e as dúvidas de Tommaso a respeito de suas decisões estão a ponto de tornar o filme um dramalhão, Ozpetek surge com a brilhante ideia de jogar um bocado de sol na trama. A chegada de Marco e seus amigos - três gays espalhafatosos tentando disfarçar sua sexualidade para não chocar a conservadora família Cantone - dá um choque de humor na trama e a direciona para sua reta final, quando decisões terão de ser tomadas e/ou repensadas. Sem deixar seu roteiro cair na mesmice ou no didatismo, o cineasta encerra sua trama com uma bela e onírica sequência que mais faz pensar do que determina desfechos. Pode não ser uma opção que agrade a todos, mas ao menos é corajosa e coerente com a proposta de sacudir o status quo. "O primeiro que disse" é um filme que não apenas entretém: como toda a filmografia de Ferzan Ozpetek, é uma obra aberta a discussões que em momento algum perde sua qualidade de entretenimento. Louvável!
sábado
A JANELA DA FRENTE
A JANELA DA FRENTE (La finestra di fronte, 2003, R&C
Produzioni, 106min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek,
Gianni Romoli. Fotografia: Gianfilippo Corticelli. Montagem: Patrizio
Marone. Música: Andrea Guerra. Figurino: Catia Dottori. Direção de
arte/cenários: Andrea Crisanti/Massimiliano Nocente. Produção: Tilde
Corsi, Gianni Romoli. Elenco: Giovanna Mezzogiorno, Raoul Bova, Massimo
Girotti, Filippo Nigro, Serra Yilmaz. Estreia: 28/02/03
Na Roma de 1943, em plena II Guerra Mundial, um jovem auxiliar de padeiro se engalfinha violentamente com seu patrão, aparentemente sem nenhum motivo. Seis décadas depois, um senhor de idade e sem memória vaga pelas ruas da cidade e é auxiliado por um casal em crise, que tentará ajudá-lo a recuperar os dados que podem lhe devolver à sua casa. Esses dois acontecimentos, a princípio aleatórios mas aos poucos interligados, são a base de "A janela da frente", belo drama romântico do cineasta turco Ferzan Ozpetek, que consegue, em menos de duas horas, equilibrar um par de histórias de amor separadas por sessenta anos sem aborrecer nem confundir a plateia, entregando-lhe, ao final da projeção, um espetáculo sensível e honesto sobre relações humanas e sonhos perdidos. Também diretor do elogiado "Um amor quase perfeito" - que retratava a relação de uma mulher com o amante gay de seu falecido marido - Ozpetek é um realizador mais preocupado com as nuances da alma humana do que com estripulias visuais, o que faz de seus filmes experiências bastante ricas emocionalmente. Não é diferente dessa vez: mesmo que utilize com inteligência artifícios visuais pouco frequentes em sua carreira, é a alma de cada um de seus protagonistas que tem importância vital à narrativa.
Em seu último filme, Massimo Girotti - ator de clássicos italianos de Luchino Visconti, Vittorio De Sica e Pier Paolo Pasolini, entre outros, e a quem o filme é dedicado - interpreta o misterioso Simone, o homem desmemoriado que o destino põe no caminho de Giovanna (Giovanna Mezzogiorno, de "O último beijo") e Filippo (Filippo Nigro), um belo casal que enfrenta graves problemas financeiros e de relacionamento: ela abandonou o sonho de construir uma carreira de confeiteira para trabalhar como fiscal em uma empresa que vende frangos congelados e ele não consegue manter-se em nenhum emprego, por mais esforço que faça. Pais de dois filhos pequenos, eles tem ideias conflitantes também em relação ao próprio Simone, que Filippo insiste em levar para sua casa depois de uma frustrada tentativa de identificação na delegacia. As brigas constantes entre eles acaba aproximando Giovanna de Lorenzo (Raoul Bova), gerente de banco que mora no prédio em frente ao seu e não esconde a atração que sente por ela. Juntos, eles acabam por começar a desvendar a verdade sobre o enigmático veterano quando descobrem que ele é um sobrevivente do Holocausto.
Soltando as pistas sobre a real identidade de Simone aos poucos, enquanto explora com delicadeza e inteligência o nascente romance entre Giovanna e Lorenzo, o roteiro co-escrito pelo cineasta equilibra seus dois focos narrativos sem atropelos, dedicando atenção a cada um deles com igual carinho. Conforme a história de Simone vai se revelando ao público - com seus desdobramentos trágicos e inesperados - ela também vai afetando, com sua força, o cotidiano de Giovanna, que passa a questionar suas escolhas e seu destino. Mesmo casada com um homem bom, honesto e dedicado à família, ela não deixa de sentir que a chama da paixão e do desejo há muito vem se extinguindo, e que a presença de Lorenzo - charmoso, inteligente, carinhoso - pode ser o catalisador de importantes mudanças em sua vida. Para isso, ela conta com o apoio da vizinha Emine (Serra Yilmaz), uma imigrante ilegal que também é sua colega de trabalho e, consciente de seus problemas conjugais, a incentiva a tentar um novo e excitante romance.
Com um desfecho coerente e melancólico, que sublinha o talento de Ozpetek em contar histórias simples e emocionalmente realistas, "A janela da frente" é um filme tipicamente italiano - com um subtexto sociopolítico que comenta o desemprego, a imigração e as consequências ainda sentidas da II Guerra - sem os exageros normalmente associados à filmografia do país. Bem dirigido, escrito com sensibilidade e interpretado por atores nitidamente apaixonados pela história que estão contando, é mais um belo trabalho na carreira do diretor, que não esconde sua simpatia pelas pessoas comuns enquanto as retrata com grandiosidade e generosidade. Um filme a ser descoberto!
Na Roma de 1943, em plena II Guerra Mundial, um jovem auxiliar de padeiro se engalfinha violentamente com seu patrão, aparentemente sem nenhum motivo. Seis décadas depois, um senhor de idade e sem memória vaga pelas ruas da cidade e é auxiliado por um casal em crise, que tentará ajudá-lo a recuperar os dados que podem lhe devolver à sua casa. Esses dois acontecimentos, a princípio aleatórios mas aos poucos interligados, são a base de "A janela da frente", belo drama romântico do cineasta turco Ferzan Ozpetek, que consegue, em menos de duas horas, equilibrar um par de histórias de amor separadas por sessenta anos sem aborrecer nem confundir a plateia, entregando-lhe, ao final da projeção, um espetáculo sensível e honesto sobre relações humanas e sonhos perdidos. Também diretor do elogiado "Um amor quase perfeito" - que retratava a relação de uma mulher com o amante gay de seu falecido marido - Ozpetek é um realizador mais preocupado com as nuances da alma humana do que com estripulias visuais, o que faz de seus filmes experiências bastante ricas emocionalmente. Não é diferente dessa vez: mesmo que utilize com inteligência artifícios visuais pouco frequentes em sua carreira, é a alma de cada um de seus protagonistas que tem importância vital à narrativa.
Em seu último filme, Massimo Girotti - ator de clássicos italianos de Luchino Visconti, Vittorio De Sica e Pier Paolo Pasolini, entre outros, e a quem o filme é dedicado - interpreta o misterioso Simone, o homem desmemoriado que o destino põe no caminho de Giovanna (Giovanna Mezzogiorno, de "O último beijo") e Filippo (Filippo Nigro), um belo casal que enfrenta graves problemas financeiros e de relacionamento: ela abandonou o sonho de construir uma carreira de confeiteira para trabalhar como fiscal em uma empresa que vende frangos congelados e ele não consegue manter-se em nenhum emprego, por mais esforço que faça. Pais de dois filhos pequenos, eles tem ideias conflitantes também em relação ao próprio Simone, que Filippo insiste em levar para sua casa depois de uma frustrada tentativa de identificação na delegacia. As brigas constantes entre eles acaba aproximando Giovanna de Lorenzo (Raoul Bova), gerente de banco que mora no prédio em frente ao seu e não esconde a atração que sente por ela. Juntos, eles acabam por começar a desvendar a verdade sobre o enigmático veterano quando descobrem que ele é um sobrevivente do Holocausto.
Soltando as pistas sobre a real identidade de Simone aos poucos, enquanto explora com delicadeza e inteligência o nascente romance entre Giovanna e Lorenzo, o roteiro co-escrito pelo cineasta equilibra seus dois focos narrativos sem atropelos, dedicando atenção a cada um deles com igual carinho. Conforme a história de Simone vai se revelando ao público - com seus desdobramentos trágicos e inesperados - ela também vai afetando, com sua força, o cotidiano de Giovanna, que passa a questionar suas escolhas e seu destino. Mesmo casada com um homem bom, honesto e dedicado à família, ela não deixa de sentir que a chama da paixão e do desejo há muito vem se extinguindo, e que a presença de Lorenzo - charmoso, inteligente, carinhoso - pode ser o catalisador de importantes mudanças em sua vida. Para isso, ela conta com o apoio da vizinha Emine (Serra Yilmaz), uma imigrante ilegal que também é sua colega de trabalho e, consciente de seus problemas conjugais, a incentiva a tentar um novo e excitante romance.
Com um desfecho coerente e melancólico, que sublinha o talento de Ozpetek em contar histórias simples e emocionalmente realistas, "A janela da frente" é um filme tipicamente italiano - com um subtexto sociopolítico que comenta o desemprego, a imigração e as consequências ainda sentidas da II Guerra - sem os exageros normalmente associados à filmografia do país. Bem dirigido, escrito com sensibilidade e interpretado por atores nitidamente apaixonados pela história que estão contando, é mais um belo trabalho na carreira do diretor, que não esconde sua simpatia pelas pessoas comuns enquanto as retrata com grandiosidade e generosidade. Um filme a ser descoberto!
segunda-feira
UM AMOR QUASE PERFEITO
UM AMOR QUASE PERFEITO (Le fate ignoranti, 2001, Medusa Distribuzione, 106min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Gianni Romoli. Fotografia: Pasquale Mari. Montagem: Patrizio Marone. Música: Andrea Guerra. Figurino: Catia Dottori. Direção de arte/cenários: Bruno Cesari. Produção: Tilde Corsi, Gianni Romoli. Elenco: Margherita Buy, Stefano Accorsi, Serra Yilmaz, Gabriel Garko, Erika Blanc, Andrea Renzi. Estreia: 08/02/01 (Festival de Berlim)
A médica infectologista Antonia (Margherita Buy) leva um casamento de sonhos com seu marido, Mássimo, apesar de ter deixado para trás desejos como o de ter filhos e de ter se afastado dos amigos para dedicar-se à relação. Quando Mássimo morre repentinamente, vítima de um atropelamento, ela descobre abismada que ele tinha um caso extra-conjugal há sete anos. A busca por sua rival a leva até o jovem Michele (Stefano Accorsi) e, ainda mais atônita, a médica percebe que seu marido mantinha um relacionamento com o próprio rapaz. A princípio arrasada com a notívia, Antonia acaba se tornando responsável por Ernesto (Gabriel Garko), um jovem soropositivo amigo de Michele e, aos poucos, começa a notar que, ao lado dele Massimo era outra pessoa e que vivia com os amigos do amante como se fizessem todos parte de uma grande família. Ela e Michele passam, então, a conviver como amigos, vendo um no outro a lembrança do seu amor perdido.
Grande sucesso de bilheteria na Itália, seu país natal, “Um amor quase perfeito”, belo drama de Ferzan Ozpetek tem como principal qualidade a forma de apresentar e tratar de um assunto tabu: a bissexualidade. Ao introduzir a Antonia o mundo escondido de seu marido, o cineasta também mostra ao público uma nova maneira de ver um universo normalmente relegado ao estereótipo e ao humor exagerado. A família de amigos de Michele (uma uma interpretação excelente do galã Stefano Accorsi), por exemplo, é um núcleo familiar que foge ao padrão pré-estabelecido, mas é amorosa, leal e solidária. Há a mãezona (vivida pela ótima Serra Yilmaz), o casal bem-sucedido, o transexual fugido da verdadeira família, etc. Todos, no entanto, são personagens bem escritos, sem o ranço politicamente correto e preconceituoso que povoa o cinema comercial de modo geral.

Sem apelar para emoções fáceis ou sentimentos pasteurizados, Ozpetek criou um universo repleto de calor humano e personagens dicotômicos: ninguém é totalmente bom e ingênuo, todos tem seu passado e esperam seu futuro com maior ou menor esperança. Para isso é essencial o talento de seus dois protagonistas, Margherita Buy e Stefano Accorsi, que vive um gay longe das afetações comuns. Com um texto forte, uma trama atual (que encontra um espacinho para uma crítica de leve ao governo turco) e um elenco homogêneo e absolutamente à vontade em suas personagens únicas em suas personalidades e ordinárias em suas grandezas, “Um amor quase perfeito” (um título nacional mais uma vez totalmente sem sentido) é um legítimo representante do ótimo cinema italiano do começo do século.
Em tempo: as “fadas ignorantes” do título original são as pessoas que, mesmo sem o saber, transformam a vida de outras. E é o nome do quadro que Michele manda para Mássimo e que acaba sendo a pista que o revela à Antonia. Uma sutileza a mais em um filme simpático e realista.
A médica infectologista Antonia (Margherita Buy) leva um casamento de sonhos com seu marido, Mássimo, apesar de ter deixado para trás desejos como o de ter filhos e de ter se afastado dos amigos para dedicar-se à relação. Quando Mássimo morre repentinamente, vítima de um atropelamento, ela descobre abismada que ele tinha um caso extra-conjugal há sete anos. A busca por sua rival a leva até o jovem Michele (Stefano Accorsi) e, ainda mais atônita, a médica percebe que seu marido mantinha um relacionamento com o próprio rapaz. A princípio arrasada com a notívia, Antonia acaba se tornando responsável por Ernesto (Gabriel Garko), um jovem soropositivo amigo de Michele e, aos poucos, começa a notar que, ao lado dele Massimo era outra pessoa e que vivia com os amigos do amante como se fizessem todos parte de uma grande família. Ela e Michele passam, então, a conviver como amigos, vendo um no outro a lembrança do seu amor perdido.
Grande sucesso de bilheteria na Itália, seu país natal, “Um amor quase perfeito”, belo drama de Ferzan Ozpetek tem como principal qualidade a forma de apresentar e tratar de um assunto tabu: a bissexualidade. Ao introduzir a Antonia o mundo escondido de seu marido, o cineasta também mostra ao público uma nova maneira de ver um universo normalmente relegado ao estereótipo e ao humor exagerado. A família de amigos de Michele (uma uma interpretação excelente do galã Stefano Accorsi), por exemplo, é um núcleo familiar que foge ao padrão pré-estabelecido, mas é amorosa, leal e solidária. Há a mãezona (vivida pela ótima Serra Yilmaz), o casal bem-sucedido, o transexual fugido da verdadeira família, etc. Todos, no entanto, são personagens bem escritos, sem o ranço politicamente correto e preconceituoso que povoa o cinema comercial de modo geral.
Sem apelar para emoções fáceis ou sentimentos pasteurizados, Ozpetek criou um universo repleto de calor humano e personagens dicotômicos: ninguém é totalmente bom e ingênuo, todos tem seu passado e esperam seu futuro com maior ou menor esperança. Para isso é essencial o talento de seus dois protagonistas, Margherita Buy e Stefano Accorsi, que vive um gay longe das afetações comuns. Com um texto forte, uma trama atual (que encontra um espacinho para uma crítica de leve ao governo turco) e um elenco homogêneo e absolutamente à vontade em suas personagens únicas em suas personalidades e ordinárias em suas grandezas, “Um amor quase perfeito” (um título nacional mais uma vez totalmente sem sentido) é um legítimo representante do ótimo cinema italiano do começo do século.
Em tempo: as “fadas ignorantes” do título original são as pessoas que, mesmo sem o saber, transformam a vida de outras. E é o nome do quadro que Michele manda para Mássimo e que acaba sendo a pista que o revela à Antonia. Uma sutileza a mais em um filme simpático e realista.
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