AMOR, SUBLIME AMOR (West Side Story, 1961, United Artists, 153min) Direção: Jerome Robbins, Robert Wise. Roteiro: Ernest Lehman, peça teatral de Jerome Robbins e música de Arthur Laurents, inspirada em "Romeu e Julieta", de William Shakespeare. Fotografia: Daniel L. Fapp. Montagem: Thomas Stanford. Música: Leonard Bernstein. Figurino: Irene Sharaff. Direção de arte/cenários: Boris Leven/Victor Gangelin. Produção: Robert Wise. Elenco: Richard Beymer, Natalie Wood, Russ Tamblyn, Rita Moreno, George Shakiris, Simon Oakland, Ned Glass. Estreia: 18/10/61
11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jerome Robbins, Robert Wise), Roteiro Adaptado, Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita Moreno), Fotografia em cores, Montagem, Figurino em cores, Direção de Arte/Cenários em cores, Som, Trilha Sonora/Musical
Vencedor de 10 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jerome Robbins, Robert Wise), Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita
Moreno), Fotografia em cores, Montagem, Figurino em cores, Direção de
Arte/Cenários em cores, Som, Trilha Sonora/Musical
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Musical, Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita Moreno)
Trinta e seis anos antes que o australiano Baz Luhrmann subvertesse o tom solene da obra mais famosa do dramaturgo William Shakespeare e transferisse "Romeu e Julieta" para uma ensolarada cidade litorânea e substituísse espadas por armas automáticas e o silêncio romântico por tiroteios e música pop, uma outra versão heterodoxa da peça teatral já havia conquistado o mundo. Primeiro na Broadway e depois nas telas de cinema, "Amor, sublime amor" - ou simplesmente "West Side Story" - mostrou a força e contemporaneidade da mais icônica história de amor jamais criada. Ainda que com algumas alterações em relação ao musical original, montado na Broadway, o filme (codirigido por Jerome Robbins e Robert Wise) ganhou o público, a crítica e a Academia de Hollywood, arrebatando impressionantes dez estatueta do Oscar, incluindo melhor filme e diretor (dividido pela primeira vez na história, em um acontecimento que só seria igualado, até hoje, na cerimônia de 2008, quando os irmãos Joel e Ethan Coen foram premiados por "Onde os fracos não tem vez"). O maior sucesso de bilheteria do ano de 1961 e referência absoluta para os filmes musicais que viriam depois dele, "Amor, sublime amor" pode até chatear algumas plateias menos pacientes (são duas horas e meia de cantoria e coreografias), mas, no final das contas, para os fãs do gênero é um clássico indiscutível.
A trajetória de "Amor, sublime amor" rumo às telas de cinema começou em 1957, quando o musical escrito por Arthur Laurents, musicado por Elmer Bernstein e Stephen Sondheim e coreografado por Jerome Robbins, estreou na Broadway. Em sua concepção, a trama giraria em torno de da história de amor de dois jovens cuja relação era ameaçada por diferenças religiosas: com o título de "East Side Story", o roteiro se desenvolvia no turbilhão de um romance entre um rapaz católico e uma jovem judia. Percebendo o aumento da imigração porto-riquenha em Nova York, porém, os criadores da peça resolveram mudar o conflito e torná-lo mais próximo da realidade do momento: surgia assim o impossível romance entre uma porto-riquenha e um descendente de poloneses. Com o título modificado para o eternizado "West Side Story", o espetáculo estreou e foi um sucesso instantâneo, ficando em cartaz por quase dois anos. Como não poderia deixar de ser, seu êxito logo chamou a atenção de Hollywood - mais precisamente do produtor Walter Mirisch, que viu nele o potencial de uma bela carreira também no cinema. Logo de cara, porém, esbarrou em um problema quase intransponível: Jerome Robbins, o autor de todas as energéticas coreografias que encantaram o público no teatro, se recusou a trabalhar no filme, a menos que o dirigisse. Ciente de que Robbins nunca havia dirigido um filme, Mirisch conseguiu chegar a um meio-termo com seu novo contratado, e entregou a ele a direção das sequências de dança, enquanto Robert Wise ficava encarregado das demais cenas. O acordo não durou muito.
Antes mesmo que Robbins fosse afastado do projeto devido ao atraso das filmagens e o estouro do orçamento que seu perfeccionismo havia causado - ele insistia em filmar cada cena de inúmeros ângulos, o que, logicamente, desagradou os produtores -, outra questão tomou conta dos bastidores. Considerados velhos demais para interpretarem jovens rebeldes, praticamente todos os atores da peça original foram descartados para a transição à tela grande, pouco importando se o novo elenco sabia ou não cantar (em Hollywood, onde era quase tradição o uso de dublagem em filmes do gênero, esse era apenas um detalhe quase insignificante, por incrível que pareça). A partir daí, atores e atrizes de todos os tipos foram cogitados e/ou testados para o projeto: no lado feminino, os nomes mais famosos cotados foram os de Suzanne Pleshette e Audrey Hepburn - que pulou fora por conta de uma gravidez. Entre os homens, a lista incluía futuros astros como Anthony Perkins, Richard Chamberlain, Burt Reynolds e Warren Beatty. Beatty era, segundo boatos, o preferido da atriz Natalie Wood, escolhida para o principal papel feminino - uma teoria que não se sustenta, já que os dois jovens atores não tinham exatamente se dado muito bem nas recentes filmagens de "Clamor do sexo" (1961) e só viriam a assumir um romance depois da separação da atriz. Com Beatty e os demais candidatos fora do páreo, a protagonização masculina ficou com Richard Beymer, até então mais conhecido por séries de televisão do que por sua carreira cinematográfica. Nem mesmo Beymer, que trinta anos mais tarde passaria a ser reconhecido como Benjamin Horne, o ambicioso empresário da série cult "Twin Peaks" (em que voltou a contracenar com Russ Tamblyn), tinha certeza se era a melhor escolha da produção - talvez porque a primeira opção do diretor havia sido ninguém menos que Elvis Presley.
Presley, um dos maiores ídolos musicais de todos os tempos, brincava de ator desde "Ama-me com ternura", lançado em 1956, mas seus filmes nunca exigiam dele mais do que cantar e explorar seu carisma. Em "Amor, sublime amor", ele teria a chance de fugir da previsibilidade das produções que serviam apenas de veículo para vender discos e fazer parte de algo que prometia ser um enorme sucesso. Porém, por conta de seu então empresário, o temido "Coronel", que não gostava da ideia de ter sua galinha de ovos de ouro participando de um projeto cujo controle ele não teria, Presley abandonou o barco - e a possibilidade de ter seu nome associado a um clássico dos mais adorados pelo público. A recusa do "Coronel" não tinha nada de escolha artística: a participação de Elvis no filme não lhe daria direitos sobre as canções da trilha sonora - e além disso, das doze canções do roteiro, apenas metade seriam interpretadas por ele. Na visão mercenária de seu empresário, era um mau negócio em termos financeiros, e conforme o tempo provou, quem mais saiu perdendo foi o cantor: o disco com a trilha sonora do filme tornou-se a mais vendida da história e, com o impressionante número de 249 semanas em cartaz em Paris, "Amor, sublime amor" também mantém o recorde de tempo de um único filme nos cinemas franceses. Mas, apesar do sucesso de público e de Oscars, o filme de Robbins e Wise não conquistou completamente a crítica norte-americana.
Se Roger Ebert, um dos mais respeitados críticos de cinema dos EUA, louvou "Amor, sublime amor" e o colocou na lista de seus filmes preferidos, o mesmo não pode ser dito a respeito da temida Pauline Kael, que massacrou o filme em suas colunas: dos diálogos que considerou antiquados às sequências de dança com as quais não se empolgou - passando pelo desempenho de Natalie Wood -, Kael não se deixou seduzir pelo filme como a maioria de seus colegas. Isso não o impediu, no entanto, de tornar-se parte do inconsciente coletivo internacional. Com algumas das canções mais famosas do cancioneiro norte-americano - "Maria", "I feel pretty" e "America" são conhecidas mesmo por quem nunca assistiu ao filme -, "Amor, sublime amor" conta, através de números de dança e música, a trágica história de amor entre Maria (Natalie Wood), uma jovem porto-riquenha cujo irmão é o líder de uma gangue em Nova York, e Tony (Richard Beymer), descendente de poloneses indiretamente ligado à gangue rival. Substituindo lutas por coreografias, diálogos por canções icônicas e alterando em parte o final da peça de Shakespeare, o filme até pode soar um pouco datado - em especial quando se lembra que os musicais mais bem-sucedidos das últimas décadas -, mas é, sem dúvida, um dos mais importantes produtos cinematográficos realizados em Hollywood. Com dez Oscar e três importantes Golden Globes no currículo, também ficou na história como um dos filmes mais premiados pela Academia - e em 2020 será revisitado por Steven Spielberg, em um remake talvez desnecessário., consequência de ser um dos filmes mais adorados pelos fãs do gênero.
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ATRAVÉS DE UM ESPELHO
ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Sasom i en spegel, 1961, Svensk Filmindustri, 90min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Ulla Ryghe. Figurino: Mago. Direção de arte: P. A. Lundgren. Produção: Allan Ekelund. Elenco: Harriet Andersson, Gunnar Bjornstrand, Max Von Sydow, Lars Passgard. Estreia: 16/10/61
2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Fazia pouco tempo que a Academia de Hollywood havia criado oficialmente a categoria de Melhor Filme Estrangeiro quando o sueco Ingmar Bergman levou seu segundo Oscar consecutivo. Não que fosse um acontecimento inédito - o italiano Federico Fellini também já tinha duas estatuetas em casa, por "A estrada da vida" e "Noites de Cabíria", premiados em 1956 e 1957, respectivamente. Acontece que, ao contrário de "A fonte e a donzela" (vencedor do Oscar em 1960), o segundo filme oscarizado de Bergman, "Através de um espelho", não foi exatamente aplaudido pela crítica norte-americana quando foi lançado, e um dos artigos chegava a prever que o auge criativo do cineasta estava em seus últimos momentos. Nem mesmo a aprovação da Academia (e sua indicação ao Oscar de roteiro original no ano seguinte, quando foi exibido nos EUA) ajudou a mudar essa situação. Foi preciso que muitos anos se passassem até que finalmente o filme fosse reconhecido como um clássico - e levando-se em conta que até o próprio diretor, pouco afeito a autoelogios, o considerava um de seus melhores trabalhos, demorou bastante para que assumisse, junto aos críticos, um lugar de destaque em sua elogiada filmografia. Vencedor de um prêmio no Festival de Berlim em 1962, "Através de um espelho" é um dos primeiros passos de Bergman em direção à estrutura consagrada cinco anos mais tarde com uma de suas obras-primas, "Persona" (1966).
Assim como em "Persona" e em boa parte de sua obra, Bergman usa e abusa de longas pausas, diálogos profundos e personagens de uma complexidade ímpar. Através de um roteiro que lembra o teatro de Strindberg - e cuja estrutura mais tarde seria emulada pelos filmes mais sérios de Woody Allen -, "Através de um espelho" se mostra sucinto e com intenções filosóficas. A busca por Deus, crises de fé e a procura incessante por uma paz de espírito que se revela muito mais difícil do que se poderia supor, o filme de Bergman é aparentemente econômico em termos dramáticos, mas emocionalmente devastador. Lógico que, sob a visão quase gélida do cineasta, a emoção parece mais cerebral, e é justamente esse aparente paradoxo (razão vs sentimento) que se revela a base do filme: os personagens são inteligentes e cultos, mas sua tentativa de racionalizar o que os devora por dentro acaba se revelando inútil quando a angústia e o desespero assumem a protagonização.
A trama, desenvolvida no roteiro do próprio Bergman, tem início com o retorno de Karin (Harriet Andersson) ao convívio familiar, depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico. Seu relacionamento com o marido, Martin (Max von Sydow), há muito deixou de ser um casamento tradicional, transformando-se, aos poucos, em uma amizade profunda. Martin se dedica a cuidar da esposa, e resolve levá-la à propriedade de verão da família, em uma ilha distante. A eles, juntam-se o pai de Karin, David (Gunnar Bjornstrand) - um célebre escritor que praticamente abandonou os filhos após a morte da esposa - e seu irmão, Minus (Lars Passggard), batalhando a seu próprio modo com os hormônios da adolescência. O que deveria ser uma reunião familiar pacífica aos poucos vai se tornando uma grande sessão de terapia: Karin descobre que sua doença mental, herdada da mãe, é incurável, e David tenta reaproximar-se dos filhos - enquanto cabe a Martin tentar equilibrar as relações e apoiar sua mulher em sua descida rumo à insanidade e a busca por uma resposta de Deus a suas questões mais profundas.
Longe de ser um filme fácil, "Através de um espelho" não deixa de ser, também, uma das obras mais acessíveis de Bergman. Apesar de sua utilização de símbolos e metáforas, seu roteiro é linear e fluido, como uma boa peça de teatro. Para isso, ele conta, logicamente, com um quarteto de atores completamente entregues. Harriet Andersson brilha na pele de Karin, a mais complexa dos personagens, uma mulher constantemente no fio da navalha. Max von Sydow, um dos colaboradores habituais do diretor, mostra, mais uma vez, como a economia de gestos e palavras pode engrandecer um filme. O estreante Lars Passgard também dá conta do recado, com um personagem cujos sentimentos somente aos poucos vão sendo revelados (ao espectador e a ele mesmo), e o veterano Gunnar Bjornstrand transmite, através de uma interpretação discreta, todo o turbilhão de culpa e melancolia de seu David. Um filme para adultos, "Através de um espelho" é quase a antítese do cinema comercial americano - para uns, um bálsamo. Para outros, uma tortura. Ainda assim, é impossível negar seu brilhantismo dramático e sua direção exemplar.
2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Fazia pouco tempo que a Academia de Hollywood havia criado oficialmente a categoria de Melhor Filme Estrangeiro quando o sueco Ingmar Bergman levou seu segundo Oscar consecutivo. Não que fosse um acontecimento inédito - o italiano Federico Fellini também já tinha duas estatuetas em casa, por "A estrada da vida" e "Noites de Cabíria", premiados em 1956 e 1957, respectivamente. Acontece que, ao contrário de "A fonte e a donzela" (vencedor do Oscar em 1960), o segundo filme oscarizado de Bergman, "Através de um espelho", não foi exatamente aplaudido pela crítica norte-americana quando foi lançado, e um dos artigos chegava a prever que o auge criativo do cineasta estava em seus últimos momentos. Nem mesmo a aprovação da Academia (e sua indicação ao Oscar de roteiro original no ano seguinte, quando foi exibido nos EUA) ajudou a mudar essa situação. Foi preciso que muitos anos se passassem até que finalmente o filme fosse reconhecido como um clássico - e levando-se em conta que até o próprio diretor, pouco afeito a autoelogios, o considerava um de seus melhores trabalhos, demorou bastante para que assumisse, junto aos críticos, um lugar de destaque em sua elogiada filmografia. Vencedor de um prêmio no Festival de Berlim em 1962, "Através de um espelho" é um dos primeiros passos de Bergman em direção à estrutura consagrada cinco anos mais tarde com uma de suas obras-primas, "Persona" (1966).
Assim como em "Persona" e em boa parte de sua obra, Bergman usa e abusa de longas pausas, diálogos profundos e personagens de uma complexidade ímpar. Através de um roteiro que lembra o teatro de Strindberg - e cuja estrutura mais tarde seria emulada pelos filmes mais sérios de Woody Allen -, "Através de um espelho" se mostra sucinto e com intenções filosóficas. A busca por Deus, crises de fé e a procura incessante por uma paz de espírito que se revela muito mais difícil do que se poderia supor, o filme de Bergman é aparentemente econômico em termos dramáticos, mas emocionalmente devastador. Lógico que, sob a visão quase gélida do cineasta, a emoção parece mais cerebral, e é justamente esse aparente paradoxo (razão vs sentimento) que se revela a base do filme: os personagens são inteligentes e cultos, mas sua tentativa de racionalizar o que os devora por dentro acaba se revelando inútil quando a angústia e o desespero assumem a protagonização.
A trama, desenvolvida no roteiro do próprio Bergman, tem início com o retorno de Karin (Harriet Andersson) ao convívio familiar, depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico. Seu relacionamento com o marido, Martin (Max von Sydow), há muito deixou de ser um casamento tradicional, transformando-se, aos poucos, em uma amizade profunda. Martin se dedica a cuidar da esposa, e resolve levá-la à propriedade de verão da família, em uma ilha distante. A eles, juntam-se o pai de Karin, David (Gunnar Bjornstrand) - um célebre escritor que praticamente abandonou os filhos após a morte da esposa - e seu irmão, Minus (Lars Passggard), batalhando a seu próprio modo com os hormônios da adolescência. O que deveria ser uma reunião familiar pacífica aos poucos vai se tornando uma grande sessão de terapia: Karin descobre que sua doença mental, herdada da mãe, é incurável, e David tenta reaproximar-se dos filhos - enquanto cabe a Martin tentar equilibrar as relações e apoiar sua mulher em sua descida rumo à insanidade e a busca por uma resposta de Deus a suas questões mais profundas.
Longe de ser um filme fácil, "Através de um espelho" não deixa de ser, também, uma das obras mais acessíveis de Bergman. Apesar de sua utilização de símbolos e metáforas, seu roteiro é linear e fluido, como uma boa peça de teatro. Para isso, ele conta, logicamente, com um quarteto de atores completamente entregues. Harriet Andersson brilha na pele de Karin, a mais complexa dos personagens, uma mulher constantemente no fio da navalha. Max von Sydow, um dos colaboradores habituais do diretor, mostra, mais uma vez, como a economia de gestos e palavras pode engrandecer um filme. O estreante Lars Passgard também dá conta do recado, com um personagem cujos sentimentos somente aos poucos vão sendo revelados (ao espectador e a ele mesmo), e o veterano Gunnar Bjornstrand transmite, através de uma interpretação discreta, todo o turbilhão de culpa e melancolia de seu David. Um filme para adultos, "Através de um espelho" é quase a antítese do cinema comercial americano - para uns, um bálsamo. Para outros, uma tortura. Ainda assim, é impossível negar seu brilhantismo dramático e sua direção exemplar.
sábado
UM GOSTO DE MEL
UM GOSTO DE MEL (A taste of honey, 1961, Woodfall Film Productions, 101min) Direção: Tony Richardson. Roteiro: Shelagh Delaney, Tony Richardson, peça teatral de Shelagh Delaney. Fotografia: Walter Lassally. Montagem: Antony Gibbs. Música: John Addison. Direção de arte: Ralph Brinton. Produção: Tony Richardson. Elenco: Rita Tushingham, Dora Bryan, Murray Melvin, Robert Stephens, Paul Danquah. Estreia: 14/9/61
Vencedor do Golden Globe de Revelação Feminina (Rita Tushingham)
Vencedor de 2 Palmas de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Ator (Murray Melvin), Melhor Atriz (Rita Tushingham)
A crítica especializada aprovou com louvor. Cerimônias de premiação tradicionais, como o Golden Globe, o BAFTA e o National Board of Review o endossaram sem pestanejar, lhe concedendo estatuetas importantes. E até mesmo o júri do prestigiado Festival de Cannes se deixou seduzir, lhe concedendo os prêmios de melhor ator e melhor atriz. Baseado em uma peça de teatro escrita por uma adolescente de 18 anos de idade, o filme britânico "Um gosto de mel" só foi ignorado mesmo pela Academia de Hollywood, que simplesmente fez vista grossa diante de seu enorme sucesso e polêmica. Ao retratar sem pudores relações que poderiam ser vistas como chocantes pelo público mais conservador, o filme de Tony Richardson marcou época, conquistou fãs através do tempo e inspirou no mínimo duas canções de Morrissey, líder da banda The Smiths, e o título de uma das músicas dos Beatles. Como se vê, nem sempre um Oscar faz falta no currículo de uma produção.
A trama, imaginada pela muito jovem Shelagh Delaney em sua vitoriosa peça de teatro, tem como protagonista a jovem Jo (Rita Tushingham), um adolescente de 17 anos que vive com sua heterodoxa mãe, Helen (Dora Bryan, vencedora do BAFTA de melhor atriz). Quando Helen - pouco afeita à solidão e bastante fã de bebidas alcóolicas - se casa novamente, com um quase desconhecido, Jo se vê sem lugar para morar. Em suas tentativas de encontrar um lugar ao sol, ela se envolve romanticamente com Jimmy (Paul Danquah), um marinheiro negro que logo vai embora da cidade e a deixa (sem que nenhum deles saiba) grávida. Novamente sem companhia, ela conhece o tímido Geoffrey (Murray Melvin), de quem se torna grande amiga e colega de apartamento. Quando a gravidez vem à tona, os dois resolvem criar a criança como se fosse deles - apesar de Geoffrey ser homossexual. A nova família, recém formada, sofre um golpe, porém, quando Helen reaparece e exige seu lugar como avó da criança prestes a nascer.
Ao tratar com naturalidade tanto a relação de Jo (uma adolescente branca, de classe operária, e portanto, respeitável) com Jimmy (um rapaz negro) quanto com Geoffrey (um gay assumido), o enredo de "Um gosto de mel" já mexia em vespeiros que poucos gostariam de ver tocados em uma década de 1960 que apenas começava a nascer - e que daria origem, pouco depois, ao movimento hippie, ao feminismo, à luta pelos direitos civis e, nos EUA, a luta contra a Guerra do Vietnã. Como se isso não fosse o bastante, no entanto, o roteiro da jovem dramaturga e do experiente cineasta ainda toca em questões mais complexas ainda. Se ser mãe solteira não era um status dos mais invejados da época, será que seria menos pior do que fazer parte de um novo tipo de núcleo familiar - que envolvia um homem gay e uma avó pouco convencional? E, mais complicado ainda, com uma criança fruto de um romance interracial? Ainda que não responda tais questões, preferindo contar a história sem buscar soluções, o filme já merece aplausos por tocar sem medo em tais controvérsias. Para isso, conta com a atuação refrescante de Rita Tushingham, estreante que ganhou o papel central em uma disputa com cerca de 2000 candidatas e provou-se uma aposta certeira e levou pra casa a Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes 1961: longe de ser uma beldade com agressivo sex appeal, a jovem Tushingham continuou no cinema, mas nunca mais atingiu o mesmo patamar de sucesso de sua estreia - que lhe rendeu, também, um Golden Globe de revelação feminina.
Com diálogos inteligentes e personagens verossímeis, "Um gosto de mel" conquistou não apenas a crítica e o público mais aberto a novos ares. O cantor Morrissey citou o filme em duas das músicas de sua banda, The Smiths: "This night has opened my eyes" e "Reel around the fountain" contém frases do roteiro - o cantor, nascido na cidade de Manchester, onde o filme foi rodado, tornou-se fã incondicional da produção. Outra celebridade musical que também inspirou-se no filme de Richardson foi Paul McCartney: segundo o livro "Revolution in the head", de Ian MacDonald, o beatle nomeou "Your mother should know" a partir de um dos diálogos do roteiro. Mas, apesar de tantos elogios, prêmios e homenagens, "Um gosto de mel" é um bom filme ou apenas corajoso e à frente de seu tempo? É inegável que a qualidade dos diálogos e sua franqueza são admiráveis, e que a direção de Tony Richardson extrai de seus atores interpretações naturais, mas também não se pode deixar de perceber um certo tom mais adequado à sua época do que à atualidade. Se os temas discutidos ainda encontram eco no preconceituoso mundo do século XXI, algumas cenas podem parecer até ingênuas. É um charme, obviamente, e funcionou muito bem no começo dos anos 1960. Hoje vale mais como documento histórico - ainda que ainda possa conquistar jovens idealistas e apaixonados.
Vencedor do Golden Globe de Revelação Feminina (Rita Tushingham)
Vencedor de 2 Palmas de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Ator (Murray Melvin), Melhor Atriz (Rita Tushingham)
A crítica especializada aprovou com louvor. Cerimônias de premiação tradicionais, como o Golden Globe, o BAFTA e o National Board of Review o endossaram sem pestanejar, lhe concedendo estatuetas importantes. E até mesmo o júri do prestigiado Festival de Cannes se deixou seduzir, lhe concedendo os prêmios de melhor ator e melhor atriz. Baseado em uma peça de teatro escrita por uma adolescente de 18 anos de idade, o filme britânico "Um gosto de mel" só foi ignorado mesmo pela Academia de Hollywood, que simplesmente fez vista grossa diante de seu enorme sucesso e polêmica. Ao retratar sem pudores relações que poderiam ser vistas como chocantes pelo público mais conservador, o filme de Tony Richardson marcou época, conquistou fãs através do tempo e inspirou no mínimo duas canções de Morrissey, líder da banda The Smiths, e o título de uma das músicas dos Beatles. Como se vê, nem sempre um Oscar faz falta no currículo de uma produção.
A trama, imaginada pela muito jovem Shelagh Delaney em sua vitoriosa peça de teatro, tem como protagonista a jovem Jo (Rita Tushingham), um adolescente de 17 anos que vive com sua heterodoxa mãe, Helen (Dora Bryan, vencedora do BAFTA de melhor atriz). Quando Helen - pouco afeita à solidão e bastante fã de bebidas alcóolicas - se casa novamente, com um quase desconhecido, Jo se vê sem lugar para morar. Em suas tentativas de encontrar um lugar ao sol, ela se envolve romanticamente com Jimmy (Paul Danquah), um marinheiro negro que logo vai embora da cidade e a deixa (sem que nenhum deles saiba) grávida. Novamente sem companhia, ela conhece o tímido Geoffrey (Murray Melvin), de quem se torna grande amiga e colega de apartamento. Quando a gravidez vem à tona, os dois resolvem criar a criança como se fosse deles - apesar de Geoffrey ser homossexual. A nova família, recém formada, sofre um golpe, porém, quando Helen reaparece e exige seu lugar como avó da criança prestes a nascer.
Ao tratar com naturalidade tanto a relação de Jo (uma adolescente branca, de classe operária, e portanto, respeitável) com Jimmy (um rapaz negro) quanto com Geoffrey (um gay assumido), o enredo de "Um gosto de mel" já mexia em vespeiros que poucos gostariam de ver tocados em uma década de 1960 que apenas começava a nascer - e que daria origem, pouco depois, ao movimento hippie, ao feminismo, à luta pelos direitos civis e, nos EUA, a luta contra a Guerra do Vietnã. Como se isso não fosse o bastante, no entanto, o roteiro da jovem dramaturga e do experiente cineasta ainda toca em questões mais complexas ainda. Se ser mãe solteira não era um status dos mais invejados da época, será que seria menos pior do que fazer parte de um novo tipo de núcleo familiar - que envolvia um homem gay e uma avó pouco convencional? E, mais complicado ainda, com uma criança fruto de um romance interracial? Ainda que não responda tais questões, preferindo contar a história sem buscar soluções, o filme já merece aplausos por tocar sem medo em tais controvérsias. Para isso, conta com a atuação refrescante de Rita Tushingham, estreante que ganhou o papel central em uma disputa com cerca de 2000 candidatas e provou-se uma aposta certeira e levou pra casa a Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes 1961: longe de ser uma beldade com agressivo sex appeal, a jovem Tushingham continuou no cinema, mas nunca mais atingiu o mesmo patamar de sucesso de sua estreia - que lhe rendeu, também, um Golden Globe de revelação feminina.
Com diálogos inteligentes e personagens verossímeis, "Um gosto de mel" conquistou não apenas a crítica e o público mais aberto a novos ares. O cantor Morrissey citou o filme em duas das músicas de sua banda, The Smiths: "This night has opened my eyes" e "Reel around the fountain" contém frases do roteiro - o cantor, nascido na cidade de Manchester, onde o filme foi rodado, tornou-se fã incondicional da produção. Outra celebridade musical que também inspirou-se no filme de Richardson foi Paul McCartney: segundo o livro "Revolution in the head", de Ian MacDonald, o beatle nomeou "Your mother should know" a partir de um dos diálogos do roteiro. Mas, apesar de tantos elogios, prêmios e homenagens, "Um gosto de mel" é um bom filme ou apenas corajoso e à frente de seu tempo? É inegável que a qualidade dos diálogos e sua franqueza são admiráveis, e que a direção de Tony Richardson extrai de seus atores interpretações naturais, mas também não se pode deixar de perceber um certo tom mais adequado à sua época do que à atualidade. Se os temas discutidos ainda encontram eco no preconceituoso mundo do século XXI, algumas cenas podem parecer até ingênuas. É um charme, obviamente, e funcionou muito bem no começo dos anos 1960. Hoje vale mais como documento histórico - ainda que ainda possa conquistar jovens idealistas e apaixonados.
quarta-feira
OS INOCENTES
OS INOCENTES (The innocents, 1961, 20th Century Fox, 100min) Direção: Jack Clayton. Roteiro: William Archibald, Truman Capote, John Mortimer, romance "A volta do parafuso", de Henry James. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: James Clark. Música: Georges Auric. Figurino: Motley. Direção de arte: Wilfrid Shingleton. Produção executiva: Albert Fennell. Produção: Jack Clayton. Elenco: Deborah Kerr, Peter Wyngarde, Megs Jenkins, Michael Redgrave, Pamela Franklin, Martin Stephens. Estreia: 24/11/61
Quarenta anos antes do chileno Alejandro Amenabar conquistar crítica e público com seu assustador "Os outros" - um dos mais fascinantes e inteligentes representantes do gênero terror no século XXI - um outro filme que divide com ele a atmosfera lúgubre e a sugestão em detrimento do explícito, estreava na Inglaterra. Baseado no livro "A volta do parafuso", de Henry James (ou mais precisamente na peça de teatro de 1950, adaptada por William Archibald da obra de James), "Os inocentes" diferia radicalmente dos filmes de terror do estúdio Hammer (também inglês), que na mesma época fazia sucesso usando e abusando de monstros clássicos da literatura e do cinema. Elegante, sutil e muito mais tétrico do que qualquer Frankenstein ou lobisomem, o filme de Jack Clayton ficou marcado da memória de muita gente: Deborah Kerr o considera seu melhor trabalho, a cantora Kate Bush compôs uma música inspirada no filme, o exigente François Truffaut declarou-o o melhor filme feito na Inglaterra pós-Hitchcock e Guillermo Del Toro (diretor dos ótimos "A espinha do diabo" e "O labirinto do fauno") o tem na lista de seus seis filmes de terror prediletos. A questão é: por que tanto auê?
É simples responder: partindo de uma premissa simples e aparentemente banal e lugar-comum, "Os inocentes" acaba se desviando, em seu percurso, para um apavorante e perturbador conto gótico que ousa em utilizar as crianças do enredo não apenas como escada para os sustos, mas sim como componentes essenciais de uma tragédia romântica. Tudo aquilo que hoje é considerado clichê nos filmes do gênero funciona à perfeição aqui, conduzindo o espectador a um torvelinho de chocantes conclusões, que fogem radicalmente do que poderia ser considerado previsível. A trama é tão radical que o próprio diretor não permitiu que as crianças do elenco lessem o roteiro inteiro - por motivos que, quando se assiste ao resultado final, ficam bastante claros. Jack Clayton - cuja direção levou Simone Signoret ao Oscar por "Almas em leilão" e ainda dirigiria outro filme de terror elogiado, "Todas as noites às nove", e a adaptação de "O grande Gatbsy" estrelada por Robert Redford e Mia Farrow - faz de sua obra um sóbrio estudo sobre amor e obsessão. Se o medo surge no caminho é porque ele sabe exatamente que notas tocar para que isso aconteça.
E as notas começam a ser tocadas logo no começo, quando a Srta. Giddens (Deborah Kerr, ótima) chega à mansão do interior da Inglaterra vitoriana, onde passará a trabalhar como governanta: em seus primeiros passos na imensa propriedade, ela já ouve vozes femininas chamando a pequena Flora (Pamela Franklin), uma das sobrinhas de seu empregador - e uma das duas crianças de quem ela deve cuidar. Não demora muito para que Giddens conquiste a simpatia da menina e da outra empregada da casa, que, mesmo não querendo, acaba contando a ela a trágica história de amor que matou dois funcionários da mansão, um ano antes. A volta para casa de Miles (Martin Stephens), irmão de Flora que foi expulso por motivos obscuros da escola a que frequentava deflagra de vez acontecimentos até então tidos pela governanta como pura imaginação: ela passa a ver fantasmas, ouvir vozes e perceber mudanças repentinas no comportamento dos meninos. Depois de decidir chamar um padre, porém, ela decide resolver pessoalmente a situação.
A resolução da trama pouco tem de convencional, surpreendendo justamente por desviar dos atalhos do clichê. A forma como os fantasmas se manifestam, seus motivos e a maneira como Clayton ilustra seu conto assombroso são uma festa para os olhos e ouvidos. A fotografia de Freddie Francis - que mescla dias luminosos com penumbras arrepiantes - e a trilha sonora de Georges Auric, que inclui uma tétrica canção antes mesmo do logo da Fox (produtora do filme) são pontos altos da produção, que também conta com uma dupla exemplar de atores mirins e um clima sufocante de tensão e medo. Sem mostrar mais do que ligeiras aparições fantasmagóricas nas horas certas e um final que vai contra toda e qualquer regra atual, "Os inocentes" é terror de primeira, daqueles de tirar o sono.
Quarenta anos antes do chileno Alejandro Amenabar conquistar crítica e público com seu assustador "Os outros" - um dos mais fascinantes e inteligentes representantes do gênero terror no século XXI - um outro filme que divide com ele a atmosfera lúgubre e a sugestão em detrimento do explícito, estreava na Inglaterra. Baseado no livro "A volta do parafuso", de Henry James (ou mais precisamente na peça de teatro de 1950, adaptada por William Archibald da obra de James), "Os inocentes" diferia radicalmente dos filmes de terror do estúdio Hammer (também inglês), que na mesma época fazia sucesso usando e abusando de monstros clássicos da literatura e do cinema. Elegante, sutil e muito mais tétrico do que qualquer Frankenstein ou lobisomem, o filme de Jack Clayton ficou marcado da memória de muita gente: Deborah Kerr o considera seu melhor trabalho, a cantora Kate Bush compôs uma música inspirada no filme, o exigente François Truffaut declarou-o o melhor filme feito na Inglaterra pós-Hitchcock e Guillermo Del Toro (diretor dos ótimos "A espinha do diabo" e "O labirinto do fauno") o tem na lista de seus seis filmes de terror prediletos. A questão é: por que tanto auê?
É simples responder: partindo de uma premissa simples e aparentemente banal e lugar-comum, "Os inocentes" acaba se desviando, em seu percurso, para um apavorante e perturbador conto gótico que ousa em utilizar as crianças do enredo não apenas como escada para os sustos, mas sim como componentes essenciais de uma tragédia romântica. Tudo aquilo que hoje é considerado clichê nos filmes do gênero funciona à perfeição aqui, conduzindo o espectador a um torvelinho de chocantes conclusões, que fogem radicalmente do que poderia ser considerado previsível. A trama é tão radical que o próprio diretor não permitiu que as crianças do elenco lessem o roteiro inteiro - por motivos que, quando se assiste ao resultado final, ficam bastante claros. Jack Clayton - cuja direção levou Simone Signoret ao Oscar por "Almas em leilão" e ainda dirigiria outro filme de terror elogiado, "Todas as noites às nove", e a adaptação de "O grande Gatbsy" estrelada por Robert Redford e Mia Farrow - faz de sua obra um sóbrio estudo sobre amor e obsessão. Se o medo surge no caminho é porque ele sabe exatamente que notas tocar para que isso aconteça.
E as notas começam a ser tocadas logo no começo, quando a Srta. Giddens (Deborah Kerr, ótima) chega à mansão do interior da Inglaterra vitoriana, onde passará a trabalhar como governanta: em seus primeiros passos na imensa propriedade, ela já ouve vozes femininas chamando a pequena Flora (Pamela Franklin), uma das sobrinhas de seu empregador - e uma das duas crianças de quem ela deve cuidar. Não demora muito para que Giddens conquiste a simpatia da menina e da outra empregada da casa, que, mesmo não querendo, acaba contando a ela a trágica história de amor que matou dois funcionários da mansão, um ano antes. A volta para casa de Miles (Martin Stephens), irmão de Flora que foi expulso por motivos obscuros da escola a que frequentava deflagra de vez acontecimentos até então tidos pela governanta como pura imaginação: ela passa a ver fantasmas, ouvir vozes e perceber mudanças repentinas no comportamento dos meninos. Depois de decidir chamar um padre, porém, ela decide resolver pessoalmente a situação.
A resolução da trama pouco tem de convencional, surpreendendo justamente por desviar dos atalhos do clichê. A forma como os fantasmas se manifestam, seus motivos e a maneira como Clayton ilustra seu conto assombroso são uma festa para os olhos e ouvidos. A fotografia de Freddie Francis - que mescla dias luminosos com penumbras arrepiantes - e a trilha sonora de Georges Auric, que inclui uma tétrica canção antes mesmo do logo da Fox (produtora do filme) são pontos altos da produção, que também conta com uma dupla exemplar de atores mirins e um clima sufocante de tensão e medo. Sem mostrar mais do que ligeiras aparições fantasmagóricas nas horas certas e um final que vai contra toda e qualquer regra atual, "Os inocentes" é terror de primeira, daqueles de tirar o sono.
terça-feira
MEU PASSADO ME CONDENA
MEU PASSADO ME CONDENA (Victim, 1961, Allied Film Makers, 100min) Direção: Basil Dearden. Roteiro: Janet Green, John McCormick. Fotografia: Otto Heller. Montagem: John D. Guthridge. Música: Philip Green. Direção de arte: Alex Vetchinsky. Produção: Michael Relph. Elenco: Dick Bogarde, Sylvia Sims, Dennis Price, Anthony Nicholls, Peter Copley, Peter McEnery, John Barrie, John Cairney. Estreia: 08/61
O início é aflitivo. Um jovem rapaz inglês escapa desesperadamente da polícia e procura vários amigos na busca de ajuda para uma fuga iminente, sem, no entanto, conseguir com nenhum deles o necessário para uma viagem que lhe parece imprescindível. Demora um pouco até que o público finalmente consiga entender o que está se passando diante de seus olhos: Jack Barrett (Peter McEnery) é um homossexual que roubou uma considerável quantia da empresa onde trabalha para pagar uma chantagem. Explica-se: no início da década de 60, homossexualidade ainda era um crime passível de prisão, na Inglaterra - com o mesmo peso criminal de assalto à mão armada, por exemplo. Quando Barrett se suicida na cadeia, os policias descobrem sua ligação com Melvin Farr (Dick Bogarde), um exemplar advogado de 40 anos, casado e em ascensão na carreira, almejando inclusive uma vaga na Câmara dos Lordes. Torturado pela culpa de não ter atendido as ligações de Barrett antes de sua trágica morte, Farr - que teve um envolvimento emocional com o rapaz e cuja foto era o material da chantagem - resolve descobrir, por conta própria e com a ajuda de um dos amigos do rapaz morto, a identidade do chantagista.
Em ritmo de suspense hitchcockiano - o que inclui até mesmo o cuidado com detalhes irônicos, como uma reprodução do Davi de Michelângelo na parede de um dos chantagistas - o cineasta Basil Dearden causou polêmica com seu "Meu passado me condena", lançado em uma época em que o tema ainda era considerado um grande tabu, especialmente na Inglaterra, onde se passa a história. O roteiro inteligente mescla a trama policial da busca pelo chantagista - um criminoso que se aproveitava do fato de homossexualidade ser igualmente um crime, ironicamente menos aceito pelo status quo - com insights brilhantes sobre a sociedade de então (e assustadoramente distante apenas 50 anos de hoje). Desfilam pela tela um festival de preconceitos - velados ou não - que desenha de forma indelével uma parcela da sociedade muito mais doente do que os considerados assim. Surge o barman que trata os gays de forma amigável apenas por motivos comerciais mas que não hesita em fazer piadas pelas costas. Aparece o investigador de polícia que não vê mal nenhum em "ser puritano" - até ouvir de seu superior que houve um tempo em que isso também era contra a lei. E há o cunhado amigável que vira as costas assim que descobre a verdade sobre o marido da irmã - além da esposa de um dos amigos de Barrett, que o manda "ficar junto com os seus".
O desfile de preconceitos de "Meu passado me condena" - felizmente expostos sob uma lupa com objetivos claros de mostrá-los como a verdadeira anomalia de uma sociedade - apenas sublinha uma trama forte e contundente o bastante para que pudesse tranquilamente manter-se de pé sem eles. Dearden usa as convenções do thriller para contar uma história sobre discriminação, mas nunca deixa que lhe falte ingredientes para manter a audiência interessada em seu desfecho. O roteiro espalha pistas pelo caminho, apresenta suspeitos, surpreende o espectador constantemente com novas revelações - aquele homem aparentemente tão certinho no final de contas também é um alvo das chantagens - e, mais interessante de tudo, não tem vergonha de apostar na força do amor verdadeiro através da esposa de Farr, Laura, interpretada com convição e emoção por Sylvia Syms nas cenas mais comoventes do filme.
Se tem o mérito de ser o primeiro filme inglês a falar abertamente sobre homossexualidade e a chaga do preconceito, "Meu passado me condena" tem também a seu favor o carinho com que trata seus personagens. Todas as vítimas do chantagista, por exemplo, são vistos com ternura, com verdadeira compaixão e não como aleijões dignos de pena (o que poderia acontecer em mãos menos seguras). É particularmente emocionante ver como homens dignos, trabalhadores e honestos - alguns até mesmo de idade avançada - podiam ter suas vidas destruídas simplesmente por "amar errado". E a dignidade transmitida pelo filme deve muito à presença de Dick Bogarde, que ficou com um papel que foi cogitado até para James Mason, e entrega uma atuação visceral em sua discrição: são os olhos que falam por Melvin Farr, e neles se percebe claramente um turbilhão de dor, dúvidas e medo.
Em um período negro repleto de fundamentalistas cristãos que pregam o ódio, o preconceito, a discriminação e a violência contra os homossexuais, "Meu passado me condena" é obrigatório. Nunca um filme da década de 60 pareceu tão atual.
O início é aflitivo. Um jovem rapaz inglês escapa desesperadamente da polícia e procura vários amigos na busca de ajuda para uma fuga iminente, sem, no entanto, conseguir com nenhum deles o necessário para uma viagem que lhe parece imprescindível. Demora um pouco até que o público finalmente consiga entender o que está se passando diante de seus olhos: Jack Barrett (Peter McEnery) é um homossexual que roubou uma considerável quantia da empresa onde trabalha para pagar uma chantagem. Explica-se: no início da década de 60, homossexualidade ainda era um crime passível de prisão, na Inglaterra - com o mesmo peso criminal de assalto à mão armada, por exemplo. Quando Barrett se suicida na cadeia, os policias descobrem sua ligação com Melvin Farr (Dick Bogarde), um exemplar advogado de 40 anos, casado e em ascensão na carreira, almejando inclusive uma vaga na Câmara dos Lordes. Torturado pela culpa de não ter atendido as ligações de Barrett antes de sua trágica morte, Farr - que teve um envolvimento emocional com o rapaz e cuja foto era o material da chantagem - resolve descobrir, por conta própria e com a ajuda de um dos amigos do rapaz morto, a identidade do chantagista.
Em ritmo de suspense hitchcockiano - o que inclui até mesmo o cuidado com detalhes irônicos, como uma reprodução do Davi de Michelângelo na parede de um dos chantagistas - o cineasta Basil Dearden causou polêmica com seu "Meu passado me condena", lançado em uma época em que o tema ainda era considerado um grande tabu, especialmente na Inglaterra, onde se passa a história. O roteiro inteligente mescla a trama policial da busca pelo chantagista - um criminoso que se aproveitava do fato de homossexualidade ser igualmente um crime, ironicamente menos aceito pelo status quo - com insights brilhantes sobre a sociedade de então (e assustadoramente distante apenas 50 anos de hoje). Desfilam pela tela um festival de preconceitos - velados ou não - que desenha de forma indelével uma parcela da sociedade muito mais doente do que os considerados assim. Surge o barman que trata os gays de forma amigável apenas por motivos comerciais mas que não hesita em fazer piadas pelas costas. Aparece o investigador de polícia que não vê mal nenhum em "ser puritano" - até ouvir de seu superior que houve um tempo em que isso também era contra a lei. E há o cunhado amigável que vira as costas assim que descobre a verdade sobre o marido da irmã - além da esposa de um dos amigos de Barrett, que o manda "ficar junto com os seus".
O desfile de preconceitos de "Meu passado me condena" - felizmente expostos sob uma lupa com objetivos claros de mostrá-los como a verdadeira anomalia de uma sociedade - apenas sublinha uma trama forte e contundente o bastante para que pudesse tranquilamente manter-se de pé sem eles. Dearden usa as convenções do thriller para contar uma história sobre discriminação, mas nunca deixa que lhe falte ingredientes para manter a audiência interessada em seu desfecho. O roteiro espalha pistas pelo caminho, apresenta suspeitos, surpreende o espectador constantemente com novas revelações - aquele homem aparentemente tão certinho no final de contas também é um alvo das chantagens - e, mais interessante de tudo, não tem vergonha de apostar na força do amor verdadeiro através da esposa de Farr, Laura, interpretada com convição e emoção por Sylvia Syms nas cenas mais comoventes do filme.
Se tem o mérito de ser o primeiro filme inglês a falar abertamente sobre homossexualidade e a chaga do preconceito, "Meu passado me condena" tem também a seu favor o carinho com que trata seus personagens. Todas as vítimas do chantagista, por exemplo, são vistos com ternura, com verdadeira compaixão e não como aleijões dignos de pena (o que poderia acontecer em mãos menos seguras). É particularmente emocionante ver como homens dignos, trabalhadores e honestos - alguns até mesmo de idade avançada - podiam ter suas vidas destruídas simplesmente por "amar errado". E a dignidade transmitida pelo filme deve muito à presença de Dick Bogarde, que ficou com um papel que foi cogitado até para James Mason, e entrega uma atuação visceral em sua discrição: são os olhos que falam por Melvin Farr, e neles se percebe claramente um turbilhão de dor, dúvidas e medo.
Em um período negro repleto de fundamentalistas cristãos que pregam o ódio, o preconceito, a discriminação e a violência contra os homossexuais, "Meu passado me condena" é obrigatório. Nunca um filme da década de 60 pareceu tão atual.
segunda-feira
INFÂMIA
INFÂMIA (The children's hour, 1961, United Artists, 107min) Direção: William Wyler. Roteiro: John Michael Hayes, baseado na peça teatral de Lillian Hellman. Fotografia: Franz F. Planer. Montagem: Robert Swink. Música: Alex North. Produção: William Wyler. Elenco: Audrey Hepburn, Shirley MacLaine, James Garner, Fay Bainter, Miriam Hopkins, Karen Balkin, Veronica Cartwright. Estreia: 19/12/61
5 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Fay Bainter), Fotografia P&B, Figurino, Direção de Arte, Som
Aqueles que acham que o mal escondido na infância tem em Macaulay Culkin em "O anjo malvado" seu maior representante - sem mencionar Demian e afins por razões óbvias - merece conhecer Mary Tilford, interpretada pela jovem Karen Balkin em "Infâmia". Tudo bem que a personagem de Culkin chega ao extremo do homicídio, mas o filme de Joseph Reuben é tão perto da realidade quanto os brasileiros representados em filmes de Hollywood. Em "Infâmia", pelo contrário, a maldade da personagem infantil é mais sutil, mas nem por isso menos perniciosa e destruidora. Um filme sobre os efeitos da mentira, "Infâmia" é uma obra-prima do drama psicológico, dirigida com maestria por William Wyler e estrelado pelas excepcionais Audrey Hepburn e Shirley MacLaine.
Depois de ganhar o Oscar de diretor por "Ben-hur" (assim como outras 10 estatuetas), Wyler estava em alta em Hollywood e não deixa de ser uma prova de sua coragem a opção por refilmar "Infâmia", que ele mesmo havia dirigido em 1936, com Merle Oberon e Miriam Hopkins nos papéis principais. Coragem porque, mesmo no início dos anos 60, um dos assuntos discutidos no roteiro não era exatamente palatável ao público médio nem tampouco agradava o Código de Censura que regia a produção cinematográfica: lesbianismo.
A peça "Infâmia" (cujo título original, bem menos sensacionalista, "The children's hour" saiu de uma poesia de Henry Wadsworth Longfellow) foi escrita por Lillian Hellman em 1934. Hellman (aquela mesma escritora e dramaturga que foi casada com Dashiel Hammett e interpretada por Jane Fonda no filme "Julia", de 1977) também roteirizou a primeira versão do filme, excluindo as menções à sexualidade das personagens, mas não ficou particularmente chateada por entender que o cerne da peça mantinha-se intacto. Não estava de toda errada, uma vez que são as consequências de uma falsa acusação que são o ponto principal do enredo, mas é pouco provável que a versão original seja tão forte e contundente quanto sua refilmagem.
Para o filme de 1961, Wyler contou com um roteiro de John Michael Hayes (que escreveu alguns dos melhores Hitchcock dos anos 50, "Janela indiscreta" entre eles). Sem medo de qualquer censura, Hayes não disfarçou o tom pessimista do trabalho de Hellman nem usou de subterfúgios para contar a trágica história de duas mulheres que tem suas vidas transformadas (para pior) devido a uma mentira contada de forma inconsequente.
Karen Wright (Hepburn, em seu último filme em preto-e-branco) e Martha Dobie (MacLaine, em extraordinária atuação) são amigas íntimas desde os 17 anos, e dividem a direção de uma escola para meninas localizada na Nova Inglaterra. Tentando dar a melhor educação possível a suas alunas, elas frequentemente entram em rota de colisão com a rebelde Mary Tilford (Karen Balkin), uma garota mimada, intransigente e de caráter duvidoso. Para vingar-se das professoras, que a haviam deixado de castigo, ela conta à sua avó milionária, Amelia Tilford (Fay Bainter) que testemunhou atos estranhos entre as duas, deixando bem claro para a velha senhora que existe um relacionamento amoroso entre elas. Chocada, Amelia - cujo sobrinho, o médico Joe Cardin (James Garner) é noivo de Karen - espalha a notícia e logo a escola está às moscas. Nem mesmo um julgamento por difamação consegue salvá-las da discriminação do povo da cidade, uma vez que não há testemunhas que possam desmentir a acusação da menina.

A força de "Infâmia" está principalmente em sua espinha dorsal: uma mentira que destrói inexoravelmente vidas inocentes. A acusação de Mary não apenas acaba com o sonho da escola, mas também abala o relacionamento de Karen e Joe e, pior ainda, suscita dúvidas cruéis na própria Martha, que se vê repentinamente frente a uma situação que tentava desesperadamente esconder. Quando a verdade finalmente vem à tona, tudo parece já estar destruído, sem chance de retorno: a sombra da dúvida e do escândalo sempre estará impedindo um futuro realmente luminoso e a tragédia que se anuncia na segunda metade do filme comprova de maneira dolorosa a potência destrutiva de uma calúnia.
Mas William Wyler não teria tido o mesmo sucesso em "Infâmia" se não fosse a certeira escalação de seu elenco. Apesar dos boatos que diziam que Doris Day havia sido sondada para viver uma das protagonistas (o que tornaria a polêmica ainda mais saborosa, haja visto a fama de moça de família de Day) não é fácil imaginar outras atrizes mais perfeitas para a dupla central. Audrey Hepburn, com seu jeitinho de mulher de classe, delicada, frágil é o contraponto exato à fortaleza que é Shirley MacLaine, em uma atuação que a distancia da sensível Fran Kubelik de "Se meu apartamento falasse", lançado um ano antes por Billy Wilder. Dona dos diálogos mais intensos do filme, MacLaine emociona, indigna e conquista com uma personagem dividida entre manter em segredo seus sentimentos e uma mulher apaixonada que explode quando não encontra mais meios de esconder-se. Não é à toa que é justamente Martha Dobie quem acaba se tornando a maior vítima da situação, por encontrar-se em um caminho sem volta em direção ao preconceito (vale lembrar que a peça foi escrita em 1934, muito antes que surgissem os movimentos gays organizados).
Não há como assistir-se a "Infâmia" e ficar incólume à sua mensagem. É impressionante a modernidade de sua narrativa, a delicadeza de sua direção e a intensidade de seu elenco. Tão atual hoje quanto há 50 anos, é um filme que merecia ser obrigatório em qualquer curso de ética e cidadania.
quinta-feira
JULGAMENTO EM NUREMBERG
JULGAMENTO EM NUREMBERG (Judgment at Nuremberg, 1961, United Artists, 186min) Direção: Stanley Kramer. Roteiro: Abby Mann. Fotografia: Ernest Laszlo. Montagem: Frederic Knudtson. Música: Ernest Gold. Produção: Stanley Kramer. Elenco: Spencer Tracy, Burt Lancaster, Marlene Dietrich, Richard Widmark, Maximilian Schell, Judy Garland, Montgomery Clift, William Shatner. Estreia: 14/12/61
11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kramer), Ator (Maximilian Schell, Spencer Tracy), Ator Coadjuvante (Montgomery Clift), Atriz Coadjuvante (Judy Garland), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Maximilian Schell), Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Golden Globes: Diretor (Stanley Kramer), Ator/Drama (Maximilian Schell)
Pródiga que é em encantar a plateia com seu cinema, Hollywood também o é quando se trata de tomar partido em relação a temas polêmicos. Vez por outra, no entanto, a própria história se encarrega de prover aos estúdios e aos produtores os elementos necessários para o deleite do público. É o que acontece com "Julgamento em Nuremberg", dirigido por Stanley Kramer e lançado em 1961. Para buscar o interesse do público, o roteirista Abby Mann nem precisou buscar na sua imaginação os ingredientes do sucesso: eles realmente aconteceram, meros 13 anos antes, e foram muito mais cruéis do que a mente humana conseguiria conceber.
"Julgamento em Nuremberg" se passa em 1948, três anos depois, portanto, do final da II Guerra Mundial. O juiz de uma cidadezinha americana, Dan Heywood (Spencer Tracy) chega à Alemanha para presidir o julgamento de quatro juízes nazistas, acusados de crimes contra a humanidade. No tribunal, ele mantém a calma e a placidez necessárias enquanto assiste o embate entre o promotor Tad Lawson (Richard Widmark) e o jovem advogado de defesa, Hans Rolfe (Maximilian Schell, vencedor do Oscar de melhor ator). Mais do que simplesmente julgar os acusados, o juiz precisa também entender os pontos de vista a respeito do maior crime já cometido contra seres humanos, uma vez que, dentre os réus, existe o silencioso Ernst Janning (Burt Lancaster), que, depois de passar dias silencioso e meditativo, resolve se pronunciar, defendendo a si mesmo e seu país (em uma cena marcante e assustadoramente sincera).
"Julgamento em Nuremberg" é um filme obrigatório por inúmeras razões. Além de ser dramaticamente bem construído e contar com um elenco estelar (sendo que a maioria dos atores trabalhou com um salário menor do que o costumeiro apenas por julgar que o filme deveria ser feito por sua importância histórica), é um documento forte, pungente e realista, fugindo sempre que possível do maniqueísmo inerente ao tema. O equilíbrio do roteiro de Mann é notável, dando espaço a cenas massacrantes (o material filmado nos campos de concentração mostrado no tribunal é real) e diálogos e personagens bastante interessantes: Marlene Dietrich - inimiga pública do III Reich desde que recusou a ser a estrela de filmes de propaganda nazista e passou a fazer shows às tropas aliadas - vive, por exemplo, a viúva de um militar da SS condenado à morte, que insiste em afirmar que o povo alemão não sabia das atrocidades cometidas nos campos e, por mais que a simpatia da plateia esteja do lado do bem (a saber, os vencedores da guerra) não deixa de ser intrigante perceber como o texto forte de Mann e a atuação da bela Dietrich conseguem abalar as certezas que o público tem.
E o público, além de tudo, é brindado com o que de melhor há em termos de atuação no início dos anos 60. Maximilian Schell levou o Oscar de melhor ator disputando o prêmio com seu colega de elenco Spencer Tracy e brilha intensamente na pele do idealista advogado de defesa, que tenta desesperadamente salvar a liberdade de seus clientes mesmo sabendo que a batalha é praticamente perdida. Burt Lancaster entrega a melhor atuação de sua carreira com uma personagem indecifrável que consegue, em apenas duas cenas com diálogos substanciais (o já citado depoimento no banco das testemunhas e na sequência final com Tracy, de arrepiar qualquer fã de cinema e história). Mas são dois coadjuvantes que surpreendem ainda mais, em interpretações muito acima do chamado do dever - não à toa ambos tiveram indicações ao Oscar na categoria: Montgomery Clift e Judy Garland.
Clift, em um de seus últimos trabalhos, emociona como Rudolf Petersen, um homem vítima de esterilização por ter sido considerado mentalmente atrasado. Em apenas uma cena, Clift entrega o desempenho de sua vida, brilhantemente arrancando lágrimas com seu falar lento, sua angústia vísivel e sua indignação incurável (a defesa que ele faz da própria mãe é de fazer chorar o mais insensível dos homens). E Garland, voltando ao cinema depois de sete anos (seu último filme havia sido "Nasce uma estrela"), interpreta Irene Hoffman, que sobe ao banco das testemunhas para contar como foi obrigada a falar contra um homem mais velho, judeu, a quem tinha como pai, que foi acusado de manter relações sexuais com ela e portanto, condenado à morte. Mais velha e fisicamente descuidada, a eterna Dorothy de "O mágico de Oz" comprova seu talento único ao, corajosamente, expôr sua falta de vaidade em um papel difícil e emocionalmente complexo.
"Julgamento em Nuremberg" é um documento histórico de valor inestimável. Agrada aos fãs do gênero, conquista os interessados em história e impressiona os aficcionados por cinema clássico. Mais uma injustiça da Academia, que preferiu dar o Oscar principal ao pouco engajado "Amor, sublime amor".
quarta-feira
REI DOS REIS
REI DOS REIS (King of kings, 1961, MGM Pictures, 159min) Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Philip Yordan. Fotografia: Manuel Berenguer, Milton Krasner, Franz F. Planer. Montagem: Harold F. Kress. Música: Miklos Rozsa. Produção: Samuel Bronston. Elenco: Jeffrey Hunter, Ron Randell, Hurd Hatfield, Frank Thring, Rip Torn, Viveca Lindfords, Siobhan McKenna, Brigid Bazlen, Robert Ryan, Royal Dano. Estreia: 11/10/61
Com a gloriosa exceção do ultra-violento "A paixão de Cristo", lançado por Mel Gibson em 2004, filmes que retratam a passagem de Jesus pela Terra tendem a ser tão sonolentos quanto uma aula mal dada de Religião. Sem muita criatividade, os cineastas que se aventuraram a discorrer sobre o assunto sempre acabaram apelando para roteiros repletos de clichês e que, no fundo, nunca acrescentavam nada à história mais conhecida do mundo. Por essa razão, não deixa de ser louvável a coragem do cineasta Nicholas Ray em realizar, em 1961, o que talvez seja o menos previsível dos filmes sobre o assunto à chegar às telas até que Martin Scorsese abalasse o altar com "A última tentação de Cristo", 27 anos depois. Ao optar por um viés mais político e social do que religioso, o diretor de "Juventude transviada" reiterou sua fama de outsider, mas em compensação, viu seu filme ser praticamente ignorado em todas as cerimônias de premiação da temporada. Somente a sua hoje clássica trilha sonora (composta pelo prestigiado Miklos Rozsa) foi lembrada com uma indicação ao Golden Globe, o que, em comparação com a enxurrada de Oscar do religiosamente correto "Ben-hur" dois anos antes, apenas demonstra o quanto a visão um tanto quanto rebelde do cineasta incomodou a tradicional crítica da época.
A ousadia de Ray começa pelo fato de seu protagonista ser praticamente ignorado durante um bom tempo da primeira parte de projeção. Somente depois de 30 minutos de filme é que Jesus Cristo finalmente aparece de verdade, sendo batizado por João Batista (Robert Ryan) e na figura atraente de Jeffrey Hunter (o nativo que acompanhava John Wayne pelo deserto, em "Rastros de ódio"). Até então, o roteiro de Philip Yordan se concentrava em manobras políticas e em estabelecer - de forma um pouco maçante, diga-se de passagem - o panorama social de seu cenário (Jerusalém, Belém, Nazaré, etc). O surgimento de Jesus em cena é o clímax do que os governantes supunham ser uma rebelião iniciada por João Batista e que tinha em Barrabás (Harry Guardino) outro importante líder. Vincular Barrabás e seus seguidores a Jesus e seus apóstolos é outro golpe de mestre de Ray, que, ao invés de focar-se apenas nos ensinamentos de Cristo (coisa que inúmeros outros filmes fizeram), o coloca no meio do fogo cerrado entre os desmandos de Herodes Antipas e a insatisfação de seu povo. Nem mesmo a traição de Judas Iscariotes (Rip Torn) é vista de maneira convencional através dos olhos do cineasta, o que faz de REI DOS REIS o mais transgressor dos filmes religiosos realizados pela MGM.
Logicamente, a opção de Nicholas Ray pelo ângulo político-social da história de Jesus acarreta problemas outros além do repúdio do público mais conservador. Ao concentrar-se muitas vezes nas manobras estratégicas de Barrabás e seu grupo, o roteiro estende-se desnecessariamente, apresentando longas e um tanto cansativas sequências que de certa forma, desviam a atenção do que realmente importa, ou seja, a história em si, não tanto de Jesus Cristo, mas também das engrenagens que o levaram à crucificação e morte. Aliás, Ray parece tão pouco preocupado com o desfecho de sua história que os momentos que normalmente ocupam a maior parte dos filmes do gênero - a paixão em si, a morte e a ressurreição - são mostrados rapidamente, sem maiores detalhes (ao contrário da obra-prima de Gibson) e de maneira sintomaticamente despida de qualquer violência exagerada, quase asséptica. É tudo tão limpo na versão de Ray que Hunter chegou mesmo a ser depilado para as cenas de crucificação (tudo porque em exibições-teste o público não gostou de ver Jesus Cristo com pelos no peito). A impressão que fica é a de que o cineasta parecia gritar a seu público que não lhe interessava sangue, suor e lágrimas e sim o tortuoso caminho que levou a tudo isso.
Reprisado constantemente em feriados religiosos - em especial a Páscoa - "Rei dos reis" não é exatamente um filme religioso na acepção mais aceita do termo, assim como tampouco é um épico grandioso e inesquecível. É, isso sim, mais um documento da fé que Nicholas Ray tinha em realizar os filmes que queria e do jeito que queria. Pode não ser uma obra-prima, mas tem personalidade.
terça-feira
CLAMOR DO SEXO
CLAMOR DO SEXO (Splendor in the grass, 1961, Warner Bros, 124min) Direção: Elia Kazan. Roteiro: William Inge. Fotografia: Boris Kaufman. Montagem: Gene Milford. Música: David Amram. Produção: Elia Kazan. Elenco: Natalie Wood, Warren Beatty, Pat Hingle, Audrey Christie, Barbara Loden, Zohra Lampert, Sandy Dennis. Estreia: 10/10/61
2 indicações ao Oscar: Atriz (Natalie Wood) e Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Em uma cena da minissérie global "Anos dourados", apresentada em 1986, a jovem normalista Lurdinha (Malu Mader)sofria de um ataque histérico quando confrontada por sua mãe (a saudosa Yara Amaral) a respeito do grau de intimidade que ela desfrutava com o namorado, estudante do Colégio Militar. Em seguida, mãe e filha conversavam (ou pelo menos a garota tentava conversar) sobre a diferença dos desejos sexuais entre homens e mulheres, recebendo em troca apenas respostas evasivas. A cena é uma das mais marcantes da minissérie, mas não é exatamente original: é uma adaptação quase literal de uma cena de "Clamor do sexo", filme de Elia Kazan que levou o Oscar de roteiro original em 1961, uma homenagem sincera e merecida a um dos mais belos filmes americanos da época a retratar as tristes consequências da repressão sexual.
"Clamor do sexo" começa em 1928 e se passa em uma pequena cidade agrícola do Kansas. Lá, o casal de adolescentes Deanie (Natalie Wood) e Bud (Warren Beatty, em sua estreia no cinema) vivem um relacionamento apaixonado. Ele é pressionado pelo pai, um bem-sucedido empresário do ramo do petróleo, a fazer faculdade em Yale, o que o afastaria pelo período mínimo de 4 anos da namorada, uma jovem sensível que obedece cegamente aos rígidos princípios morais e religiosos de sua família e da sociedade. O exemplo que ela tem de uma mulher que não segue os padrões impostos é a irmã de Bud, a liberada Ginny (Barbara Loden), abertamente discriminada pela sociedade. Quando o desejo sexual do casal começa a tornar-se impossível de reprimir, eles acabam de afastando. Bud aceita os conselhos paternos e sai da cidade, enquanto Deanie sofre um colapso psicológico. A queda da Bolsa de Valores de NY, em 1929, no entanto, volta a mudar a vida dos dois.
"Clamor do sexo" marcou a estreia de Warren Beatty nas telas - e o começo de sua fama de conquistador. Graças a ele, o primeiro casamento de Natalie Wood com o ator Robert Wagner acabou, mas quem há de julgar Natalie? Jovem, bonito e demonstrando um talento que ainda lhe iria render um Oscar de diretor - por "Reds" (1981) - Beatty apresenta uma química perfeita com Wood, que, apesar de seus 23 anos, convencia plenamente como adolescente (bem mais aqui do que em "Juventude transviada", que ela fez com 17 anos). O amor entre Deanie e Bud parece crível, verdadeiro e honesto, impressão que se mantém principalmente na melancólica cena final, quando eles se reencontram depois de um afastamento de dois anos. É uma cena bem dirigida, delicada e extremamente realista, onde os dois jovens atores comprovam que pouca idade não necessariamente significa pouco talento.
Mas "Clamor do sexo", apesar do título em português, não trata única e exclusivamente de sexo. Sim, o desejo sexual reprimido entre Bud e Deanie é o que move o roteiro de William Inge, mas o filme de Elia Kazan vai muito mais além do que simplesmente contar a história de um amor assombrado pelo puritanismo. Ele investiga, com igual competência, como se comportava a sociedade americana do interior do país antes do crash de 1929, economicamente, politicamente e nas relações interpessoais. Sem deixar que o filme se tornasse um chatíssimo documentário sobre uma época, Kazan mostrou à sua audiência um retrato não exatamente simpático de um país que escondia seu desejo dentro das mais íntimas cavernas emocionais e deixava vislumbrar apenas a imagem que melhor lhe convinha. A excepcional cena da passagem de ano de 1928 para 1929, quando Ginny, bêbada, desmascara quase todos os homens casados da cidade com quem havia dormido, é um claro exemplo do que Inge e Kazan pretendiam mostrar.
Hoje em dia "Clamor do sexo" pode soar ingênuo, e talvez realmente o seja. Mas é um comovente drama romântico que emociona e envolve o espectador sem forçar nenhum tipo de empatia. Simplesmente é difícil não se apaixonar por Deanie e Bud e não sofrer junto com eles.
domingo
BONEQUINHA DE LUXO
BONEQUINHA DE LUXO (Breakfast at Tiffany's, 1961, Paramount Pictures, 115min). Direção: Blake Edwards. Roteiro: George Axelrod, baseado no romance de Truman Capote. Fotografia: Franz F. Planer. Montagem: Howard Smith. Música: Henry Mancini. Produção: Martin Jurow, Richard Sheperd. Elenco: Audrey Hepburn, George Peppard, Patricia Neal, Buddy Ebsen, Martin Balsam, Mickey Rooney. Estreia: 05/10/61
5 indicações ao Oscar: Atriz (Audrey Hepburn), Roteiro Adaptado, Direção de Arte em Cores, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Moon river")
Vencedor de 2 Oscar: Trilha Sonora Original, Canção Original ("Moon river")
O filme que definiu para toda a eternidade o mito Audrey Hepburn é hoje uma comédia romântica simpática, charmosa e pasmem, ingênua. Muitos anos antes da prostituta sonhadora vivida por Julia Roberts em “Uma linda mulher”, a doce e melancólica party girl Holy Golightly interpretada por Hepburn e criada pelo escritor Truman Capote já havia conquistado o público apesar, ou talvez por isso mesmo, de sua profissão, a mais antiga do mundo (ainda que, para melhor combinar com a imagem pública de Hepburn, o flerte da personagem com a bissexualidade tenha sido completamente limada do roteiro final).
O livro de Capote, de tintas bem menos leves que as pintadas pelo roteirista George Axelrod, conta a história de uma garota de programa que conquista o amor do novo vizinho, um escritor sustentado pela amante casada. O filme, dirigido pelo mesmo Blake Edwards da série “A pantera cor-de-rosa”, deixa de lado os sentimentos pesados e trágicos da trama e se concentra no que ela tem de mais arejada, ou seja, nada de dramas de consciência: a palavra de ordem aqui é romantismo.
Logo na primeira cena somos seduzidos pela bela melodia de “Moon river”, música de Henry Mancini que ganhou o Oscar e virou marca registrada do filme: nesta cena a doce protagonista dá sentido ao título original da história, bebericando seu café da manhã em frente à vitrine da Tiffany’s, uma das mais famosas joalherias de Nova York (que permitiu filamgens em seu exterior em um domingo, dia da semana em que nunca é aberta ao público).Este glamour, perseguido pela personagem de Hepburn durante todo o filme (e fartamente ilustrado pelo figurino criado por Givenchy especialmente para a atriz) dá o tom exato da quase superficialidade que o filme pretende imprimir na memória de seus espectadores. Apesar disso, em alguns momentos, a alma dos protagonistas acaba exposta e salva a obra de Edwards da de sua aparente nulidade dramática. A protagonista, por exemplo, não é a feliz e despreocupada Holy Golightly desde que nasceu. Vinda do interior, onde se chamava Lula Mae e era casada com um homem muito mais velho, ela busca na futilidade e na falta de compromisso com o mundo ao seu redor uma forma de impermeabilizar a si mesma do sofrimento. Essa sua aparente ambição (apenas dinheiro lhe interessa), no entanto acaba começando a lhe afastar de Paul Varjak (George Peppard), seu vizinho de apartamento, que lhe lembra seu irmão querido e com quem ela consegue, por alguns momentos, dar um vislumbre de sua verdadeira alma. Os momentos em que Golightly sofre, paradoxalmente, são os momentos mais marcantes do filme e que causam a empatia do público com o romance entre os protagonistas.
Audrey Hepburn começou a filmar "Bonequinha de luxo" apenas três meses depois do nascimento de seu primeiro filho, Sean e assumiu a personagem que o próprio Truman Capote admitiu ter escrito pensando em Marilyn Monroe. Marilyn chegou a pensar em fazer o filme, mas foi desencorajada por seu mentor Lee Strasberg, que achava que o papel de uma prostituta mancharia sua imagem. Hepburn ficou com o papel, com o maior cachê pago a uma atriz na época (750 mil dólares) e de quebra levou uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Melhor é impossível!
Quanto a seu parceiro de cena, George Peppard, a coisa não foi assim tão simples. Adepto do Método do Actor's Studio, Peppard encontrou dificuldades em contracenar com Patricia Neal, que vivia sua amante e que chegou a declarar que trabalhar com ele era insuportável. Com Audrey, Peppard (que assumiu o papel depois que Steve McQueen declinou do projeto devido a outros compromissos) manteve uma amizade até o final da vida e, na tela, a química entre os dois é doce e verossímil.
Como comédia, “Bonequinha de luxo” consegue arrancar algumas risadas. Como drama, falta densidade e um pouco de complexidade. Mas é como romance que consegue ser inesquecível. Afinal, é impossível resistir a Audrey Hepburn e sua inacreditável Holy
Golightly.
OS DESAJUSTADOS
OS DESAJUSTADOS (The misfits, 1961, United Artists, 124min). Direção: John Huston. Roteiro: Arthur Miller. Fotografia: Russell Metty. Montagem: George Tomasini. Música: Alex North. Produção: Frank E. Taylor. Elenco: Clark Gable, Marilyn Monroe, Montgomery Clift, Eli Wallach, Thelma Ritter. Estreia: 01/02/61
"Para que algumas coisas vivam, outras precisam morrer." Essa fala um tanto fatalista da personagem de Clark Gable em "Os desajustados", não deixa de parecer um triste presságio a respeito dos atores principais do filme de John Huston. Lançado no início de 1961, o filme, baseado em um conto que Arthur Miller escreveu em Reno enquanto aguardava seu divórcio ser finalizado para que se casasse com Marilyn Monroe, foi o último trabalho não só da atriz e de Gable, mas também uma das derradeiras atuações do seu terceiro astro, Montgomery Clift, que finalizou apenas mais dois filmes nos cinco anos seguintes, que antecederam sua morte. De certa forma a frase escrita por Miller se aplica perfeitamente ao que aconteceu com todos eles: ao morrerem como pessoas de carne e osso se transformaram em mitos.
Primeiro foi Clark Gable, que teve um ataque cardíaco no dia seguinte ao término das filmagens e morreu dez dias depois. Dizem que os constantes atrasos de Marilyn ajudaram a comprometer a saúde do ator, que declarou no final do trabalho que estava feliz pela conclusão do filme, uma vez que ela (Monroe) esteve perto de lhe causar um enfarte. Mas o fato de Gable, aos 59 anos de idade, ter dispensado os dublês em algumas das cenas que exigiam maior esforço físico certamente teve sua parcela de culpa. Gable, que ficou com o papel inicialmente oferecido a Robert Mitchum, também teve problemas em seguir o estilo de interpretação de seus colegas de elenco. Tanto Marilyn quanto Montgomery Clift e Eli Wallach, que atuava como o piloto de aviação Guido, eram adeptos do famoso Método do Actor's Studio, o que pra ele, de uma geração anterior, soava como uma música que ele não compreendia. De uma certa tortuosa forma, Gable se sentia tão deslocado no set de filmagem quanto Gay Langland, sua personagem no filme, um cowboy fora de época.
Depois foi a vez de Marilyn Monroe. Demitida da Fox por constantes atrasos e dependência química em junho de 1962, ela não terminou aquele que seria seu último filme, "Something's got to give". Sem trabalho e rejeitada por todos os estúdios devido a seu problemático currículo, o símbolo sexual mais famoso da história foi encontrada morta em seu apartamento no dia 05 de agosto, vítima de uma overdose que até hoje suscita polêmica. Como sua personagem em "Os desajustados", a recém-divorciada Roslyn Taber, Monroe também conseguia transmitir, através de seus olhos luminosos, um amor pela vida que, a julgar pelo que acontecia por trás das câmeras, era apenas uma fachada para esconder uma personalidade triste e infeliz.
E em 1966 chegou a hora de Montgomery Clift. Um dos maiores galãs dos anos 50, admirado tanto por público quanto pela crítica, Clift passou toda a carreira (e a vida) em constante angústia em relação a sua sexualidade, o que não o impediu de entregar trabalhos fascinantes, como "Um lugar ao sol" (onde aproveitou sua personalidade torturada para construir uma belíssima atuação). Dono de um dos rostos mais bonitos de Hollywood, ele teve sua beleza física seriamente avariada depois de um acidente de carro em 1956 que quase o matou. A tragédia não o impediu de seguir oferecendo ao público trabalhos brilhantes, mas o afastou do estrelato. Em 23 de julho de 1966, foi encontrado morto em sua cama. Em "Os desajustados", sua personagem, Perce Howland, é provavelmente o mais sensível dos homens que se envolvem na vida da bela Roslyn, um aspecto emocional plenamente visível na biografia do ator.
"Os desajustados" é um belíssimo western crepuscular. O clima melancólico que perpassa cada sequência é de uma pungência que se torna ainda mais palpável tendo em vista o destino dos atores que estão em cena. Tudo começa quando a bela e delicada Roslyn Taber (Marilyn Monroe no momento mais sensual e belo de sua carreira) se divorcia e, no caminho para o tribunal, conhece o simpático Guido (Eli Wallach), um piloto de aviação que ganha a vida como mecânico. Viúvo, Guido oferece a casa onde morava com a esposa para que Roslyn passe um tempo em Nevada, ao lado de Gay Langland (Clark Gable, envelhecido mas melhor ator do que nunca), um velho amigo seu, que não tem uma residência fixa, vive como cowboy e tem problemas de relacionamento com os filhos. Quando Guido percebe que entre Roslyn e Gay começa a existir um sentimento maior do que simples amizade, passa a tentar conquistá-la, o que acaba acarretando sérios conflitos entre os três. As coisas ficam ainda mais feias depois que junta-se ao grupo o cowboy de rodeios Perce Howland (Montgomery Clift) e ela descobre que eles estão indo caçar cavalos selvagens para vender a quem os transforma em ração de animais.
Tudo em "Os desajustados" pode (e merece) ser visto de forma metafórica. Os desajustados do título tanto podem ser os cavalos selvagens caçados em cenas de extrema competência técnica quanto os protagonistas do filme, tão perdidos quanto os animais. Gay leva uma vida nômade, sem ãncoras, buscando a liberdade a todo custo. Perce ganha dinheiro em rodeios mas também sonha em nunca viver de um salário fixo, assim como não consegue se envolver de verdade em nenhum relacionamento. Guido é incapaz de deixar no passado o amor que sente pela falecida mulher, o que atrapalha sua vida sentimental. E Roslyn, no meio de três homens calejados, machucados pela vida, tenta dar a eles um rumo, um porto seguro, uma chance de recomeçar a viver, mesmo que perceba que talvez a pessoa errada seja ela.
"Os desajustados" é, no fundo, uma obra sobre a solidão e o desespero que une as pessoas. Mas é também, e principalmente, um belíssimo testamento de alguns dos maiores astros produzidos pelo cinema hollywoodiano.
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