SELMA: UMA LUTA PELA IGUALDADE (Selma, 2014, Cloud Eight Films, 128min) Direção: Ava DuVernay. Roteiro: Paul Webb. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Spencer Averick. Jason Moran. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Nik Bower, Ava DuVernay, Paul Garnes, Cameron McCracken, Diarmuid McKeown, Nan Morales, Brad Pitt. Produção: Christian Colson, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Oprah Winfrey. Elenco: David Oyelowo, Tim Roth, Oprah Winfrey, Carmen Ejogo, Tom Wilkinson, Giovanni Ribisi, Common, Dylan Baker, Cuba Gooding Jr., Alessandro Nivola. Estreia: 11/11/14
2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Canção Original ("Glory")
Vencedor do Oscar de Melhor Canção ("Glory")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção Original ("Glory")
Em 2015, um ano marcado por omissões escandalosas, indicações discutíveis e
surpresas um tanto desagradáveis na lista de indicados ao Oscar -
pensando bem, em qual ano isso não acontece? - talvez a questão mais
debatida dentre os fãs de cinema e os ditos "especialistas de plantão"
disse respeito à esnobada quase geral dada ao filme "Selma: uma luta pela igualdade", que muitos
julgavam merecedor de figurar entre os destaques da cerimônia. Mesmo indicada na categoria principal, a produção dirigida por
Ava DuVernay não conseguiu conquistar os votos dos eleitores da Academia
em outros páreos importantes, como direção (Ava seria a primeira mulher
afro-americana a concorrer ao Oscar) e ator (David Oyelowo), o que
acarretou uma interminável discussão sobre a falta de miscigenação
racial na festa mais importante do cinema - uma polêmica que estendeu-se até o ano seguinte, quando a situação repetiu-se com ainda mais força. Enquanto alguns creditavam a
omissão à Paramount por não ter enviado cópias do filme aos eleitores a
tempo da votação, outros não hesitavam em dizer que tudo não passava de
racismo puro e simples por parte da Academia e de Hollywood em si. O que
ninguém cogitou pensar é na possibilidade de o filme - apesar de suas
inúmeras qualidades e importância histórica e social - não ser tão forte
quanto os acontecimentos que retrata.
É lógico que "Selma" é infinitamente superior a aberrações demagógicas
como "Sniper americano" e ao filme-fórmula "A teoria de tudo" - ambos
sintomaticamente indicados na principal categoria mas também deixados de
fora na briga por diretor - mas é muito provável que os fãs mais
radicais do filme não percebam que, por trás de todas as emocionantes e
chocantes cenas que mostram os confrontos raciais que sacudiram os EUA
nos anos 60, por trás da performance discreta e convincente de David
Oyelowo como Martin Luther King e por trás da força emocional da
história contada, não existe um roteiro consistente a ponto de esconder o
ritmo claudicante, os tempos mortos e, pior ainda, a edição pouco
criativa. A cada sequência empolgante, que leva o espectador para dentro
da história, como se fosse participante ativo do movimento social que
está transformando um país - e por consequência, o mundo todo - existem
várias outras sonolentas, que o afastam emocionalmente. Toda vez que
Martin Luther King vai ao encontro do Presidente Lyndon Johnson (Tom
Wilkinson) ou este debate a situação com o governador do Alabama, George
Wallace (Tim Roth), o filme perde o pique. São momentos importantes
para a ação, claro, mas que contrastam radicalmente com outros de grande
intensidade dramática e que comprometem o ritmo do filme como um todo.
Quando DuVernay mostra ao espectador a violência a que os negros - e até
mesmo os brancos que compravam sua briga - eram submetidos simplesmente
porque lutavam pelo direito básico ao voto, seu filme cresce, se
agiganta, emociona às lágrimas. Quando se dedica a mostrar a forma
idealista de Luther King lutar contra o preconceito, sua obra se ilumina
e inspira. Quando dá espaço a seus atores - em especial Oyelowo, Tim
Roth e sua produtora Oprah Winfrey em pequena participação - brilharem,
seu trabalho conquista. Mas ao final da sessão, quando a sensação de
injustiça e revolta passam, não sobra muito mais. Falta a "Selma" aquele
algo mais que faz de um bom filme um filme inesquecível. É forte, é
intenso e é imprescindível historicamente. Mas não faz jus a toda a
polêmica que criou em torno de suas duas únicas indicações ao Oscar - e nem o fato de Brad Pitt estar entre os produtores executivos ajudou muito na campanha a seu favor (Pitt era também produtor executivo de "12 anos de escravidão", vencedor do Oscar principal do ano anterior, o que de certa forma anula a acusação de racismo generalizado por parte da Academia).
E seria injusto falar a respeito de "Selma" - cidade americana que foi sede de uma passeata de grande importância na luta pelos direitos civis dos negros - sem citar aquela que é, sem dúvida, uma de suas maiores qualidades (além da atuação de David Oyelowo, que interpretou, também com consistência e garra, o filho de Forest Whitaker no igualmente engajado "O mordomo da Casa Branca"). Vencedora do Oscar e do Golden Globe de Melhor Canção Original, a bela "Glory" levantou a plateia na cerimônia de entrega dos prêmios da Academia com uma performance energética e poderosa de Common e John Legend - e lembrou da força da emoção que em muitos momentos falta ao filme de DuVernay. Com um roteiro um pouco mais profundo e menos ambicioso em abraçar o mundo com as pernas, seria um filme genial. Como está, é um filme inspirador, mas muito aquém de extraordinário.
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terça-feira
CAÇA AOS GÂNGSTERES
CAÇA AOS GÂNGSTERES (Gangster squad, 2013, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 113min) Direção: Ruben Fleischer. Roteiro: Will Beall, livro de Paul Lieberman. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Alan Baumgarten, James Herbert. Música: Steve Jablonsky. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Maher Ahmad/Gene Serdena. Produção executiva: Bruce Berman, Ruben Fleischer, Paul Lieberman. Produção: Dan Lin, Kevin McCormick, Michael Tadross. Elenco: Sean Penn, Josh Brolin, Ryan Gosling, Emma Stone, Nick Nolte, Mireille Enos, Anthony Mackie, Giovanni Ribisi, Robert Patrick, Troy Garity, Michael Peña. Estreia: 07/01/13
A estreia de "Caça aos gângsteres" - baseado no livro de Paul Lieberman que reunia seus artigos para o Los Angeles Times a respeito da luta dos policiais da cidade para acabar, no final da década de 40, com o império do crime comandado por Mickey Cohen - estava marcada para o início de setembro de 2012, coincidindo com o lançamento do trabalho do jornalista nas livrarias. Porém, o destino, na forma de uma inesperada chacina ocorrida em um cinema do Colorado, mudou os planos da Warner Bros, que acertadamente tirou da montagem final uma sequência semelhante ao massacre. Com o roteiro reescrito, cenas adicionais filmadas e quatro meses o separando da data original de lançamento, o filme de Ruben Fleischer finalmente ganhou as telas em janeiro de 2013. Porém, mesmo com um elenco recheada de grandes nomes - Sean Penn, Josh Brolin, Nick Nolte, Ryan Gosling e Emma Stone - a produção de 60 milhões de dólares só saiu do vermelho graças ao mercado internacional. Não pode-se dizer que tenha sido um resultado injusto.
A princípio, "Caça aos gângsteres" lembra bastante o sensacional "Los Angeles, cidade proibida", baseado em romance de James Ellroy e lançado em 1997. A trama central - uma equipe secreta de policiais incorruptíveis dedicada a promover a queda de um poderoso senhor do crime - lembra também o inesquecível "Os intocáveis", estrelado por Kevin Costner em 1987. O problema maior é que o cineasta Ruben Fleischer - cujo maior crédito até então era a comédia "Zumbilândia" - não tem o mesmo talento que Curtis Hanson e Brian DePalma, diretores dos filmes citados. Mesmo que apresente algumas ideias visuais interessantes, falta a ele a segurança para conduzir uma narrativa que tenha a capacidade de empolgar um público cada vez mais acostumado com cenas de ação impecáveis sem deixar de dar atenção ao desenho dos personagens. Em parte por culpa de um roteiro que não parece se preocupar em aprofundar as relações humanas - e quando faz isso escorrega aflitivamente pelos mais deslavados clichês - e em parte devido à falta de experiência de seu diretor, o filme acaba sendo apenas um pastiche do gênero. Até diverte em alguns momentos, mas no geral é quase chato.
A história começa em 1949, quando Mickey Cohen (Sean Penn prejudicado por uma maquiagem tenebrosa), um ex-boxeador judeu tornado gângster, resolve expandir seus negócios ilícitos, tomando Los Angeles e ambicionando chegar à Chicago. Violento e amoral, ele tem nas mãos policiais, juízes e quem mais aceitar seu dinheiro sujo. Decidido a dar fim a seu reinado, o Chefe de Polícia Parker (Nick Nolte) resolve montar um time de oficiais acima de qualquer suspeita para que, por baixo dos panos e sem o apoio oficial do departamento, destruam sistematicamente seus esquemas criminosos. Escolhido como líder do grupo, o Sargento John O'Mara (Josh Brolin), um veterano da II Guerra, conta com a ajuda da esposa grávida, Connie (Mireille Enos), para definir os demais integrantes do esquadrão. São chamados, então, o quase cínico Sargento Jerry Wooters (Ryan Gosling), o policial Coleman Harris (Anthony Mackie), o experiente atirador Max Kennard (Robert Patrick), seu protegido Navidad Ramirez (Michael Peña) e, como cérebro do time, o calado pai de família Conwell Keeler (Giovanni Ribisi).
O roteiro de Will Beall é tão previsível que é possível adivinhar cada cena a quilômetros de distância, o que prejudica de forma irreparável o suspense tão necessário a um filme policial. Por exemplo, a relação entre Wooters e a bela Grace Faraday (Emma Stone) - que tem um caso também com Cohen - parece existir mais para satisfazer a necessidade de acrescentar algumas cenas românticas à história do que para empurrar a narrativa pra frente. E nem é preciso ser consumidor compulsivo do gênero para adiantar o destino de cada um dos personagens, felizmente interpretados por atores tão bons que deixam a experiência menos penosa. Sean Penn e Josh Brolin - repetindo a inimizade de "Milk, a voz da igualdade" dessa vez em lados opostos do bem e do mal - estão visivelmente se esforçando em dar consistência a um texto pouco favorável. Ryan Gosling e Emma Stone - que já fizeram par romântico no delicioso "Amor à toda prova" - repetem a boa química, mesmo com pouco material em mãos. E Nick Nolte pouco tem a fazer com suas cenas, sendo subaproveitado, assim como à Mireille Enos (da série "The killing") cabe o ingrato papel de esposa do herói.
"Caça aos gângsteres" não é um filme ruim. Tem muita gente boa envolvida para ser uma perda de tempo total. Mas peca muito em não imprimir personalidade em sua narrativa, tem um roteiro preguiçoso e prefere o caminho do banal ao contar uma história que, por ser tão parecida com tantas outras, merecia uma ousadia maior. Para os fãs do gênero é imperdível. Mas está longe de ser tão bom quanto poderia.
A estreia de "Caça aos gângsteres" - baseado no livro de Paul Lieberman que reunia seus artigos para o Los Angeles Times a respeito da luta dos policiais da cidade para acabar, no final da década de 40, com o império do crime comandado por Mickey Cohen - estava marcada para o início de setembro de 2012, coincidindo com o lançamento do trabalho do jornalista nas livrarias. Porém, o destino, na forma de uma inesperada chacina ocorrida em um cinema do Colorado, mudou os planos da Warner Bros, que acertadamente tirou da montagem final uma sequência semelhante ao massacre. Com o roteiro reescrito, cenas adicionais filmadas e quatro meses o separando da data original de lançamento, o filme de Ruben Fleischer finalmente ganhou as telas em janeiro de 2013. Porém, mesmo com um elenco recheada de grandes nomes - Sean Penn, Josh Brolin, Nick Nolte, Ryan Gosling e Emma Stone - a produção de 60 milhões de dólares só saiu do vermelho graças ao mercado internacional. Não pode-se dizer que tenha sido um resultado injusto.
A princípio, "Caça aos gângsteres" lembra bastante o sensacional "Los Angeles, cidade proibida", baseado em romance de James Ellroy e lançado em 1997. A trama central - uma equipe secreta de policiais incorruptíveis dedicada a promover a queda de um poderoso senhor do crime - lembra também o inesquecível "Os intocáveis", estrelado por Kevin Costner em 1987. O problema maior é que o cineasta Ruben Fleischer - cujo maior crédito até então era a comédia "Zumbilândia" - não tem o mesmo talento que Curtis Hanson e Brian DePalma, diretores dos filmes citados. Mesmo que apresente algumas ideias visuais interessantes, falta a ele a segurança para conduzir uma narrativa que tenha a capacidade de empolgar um público cada vez mais acostumado com cenas de ação impecáveis sem deixar de dar atenção ao desenho dos personagens. Em parte por culpa de um roteiro que não parece se preocupar em aprofundar as relações humanas - e quando faz isso escorrega aflitivamente pelos mais deslavados clichês - e em parte devido à falta de experiência de seu diretor, o filme acaba sendo apenas um pastiche do gênero. Até diverte em alguns momentos, mas no geral é quase chato.
O roteiro de Will Beall é tão previsível que é possível adivinhar cada cena a quilômetros de distância, o que prejudica de forma irreparável o suspense tão necessário a um filme policial. Por exemplo, a relação entre Wooters e a bela Grace Faraday (Emma Stone) - que tem um caso também com Cohen - parece existir mais para satisfazer a necessidade de acrescentar algumas cenas românticas à história do que para empurrar a narrativa pra frente. E nem é preciso ser consumidor compulsivo do gênero para adiantar o destino de cada um dos personagens, felizmente interpretados por atores tão bons que deixam a experiência menos penosa. Sean Penn e Josh Brolin - repetindo a inimizade de "Milk, a voz da igualdade" dessa vez em lados opostos do bem e do mal - estão visivelmente se esforçando em dar consistência a um texto pouco favorável. Ryan Gosling e Emma Stone - que já fizeram par romântico no delicioso "Amor à toda prova" - repetem a boa química, mesmo com pouco material em mãos. E Nick Nolte pouco tem a fazer com suas cenas, sendo subaproveitado, assim como à Mireille Enos (da série "The killing") cabe o ingrato papel de esposa do herói.
"Caça aos gângsteres" não é um filme ruim. Tem muita gente boa envolvida para ser uma perda de tempo total. Mas peca muito em não imprimir personalidade em sua narrativa, tem um roteiro preguiçoso e prefere o caminho do banal ao contar uma história que, por ser tão parecida com tantas outras, merecia uma ousadia maior. Para os fãs do gênero é imperdível. Mas está longe de ser tão bom quanto poderia.
COLD MOUNTAIN
COLD MOUNTAIN (Cold Mountain, 2003, Miramax Pictures, 154min) Direção: Anthony Minghella. Roteiro: Anthony Minghella, romance de Charles Frazier. Fotografia: John Seale. Montagem: Walter Murch. Música: Gabriel Yared. Figurino: Ann Roth, Carlo Poggioli. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Bob Osher, Iain Smith, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Albert Berger, Wiiliam Horberg, Sydney Pollack, Ron Yerxa. Elenco: Jude Law, Nicole Kidman, Renee Zelwegger, Donald Sutherland, Ray Winstone, Philip Seymour Hoffman, Natalie Portman, Giovanni Ribisi, Kathy Baker, Jack White, Melora Walters, Jena Malone. Estreia: 25/12/03
7 indicações ao Oscar: Ator (Jude Law), Atriz Coadjuvante (Renee Zelwegger), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Scarlet tide", "You will be my ain true love")
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Renee Zelwegger)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Renee Zelwegger)
Quando “O talentoso Ripley” estreou, em 1999, uma das maiores reclamações da crítica em relação ao filme do ultra-oscarizado Anthony Minghella era o fato dele ter escalado Matt Damon no papel central e o ótimo Jude Law como coadjuvante. O griteiro foi tanto que Law, que concorreu ao Oscar daquele ano acabou sendo a escolha mais coerente de Minghella para protagonizar seu projeto seguinte, este “Cold Mountain”, baseado em um romance relativamente pouco conhecido de Charles Frazier, ele próprio um ilustre desconhecido no Brasil. Considerado como uma versão moderna do clássico “E o vento levou”, “Cold Mountain” decepcionou em termos de bilheteria e não chegou a entusiasmar muito a crítica. No entanto, é um espetáculo que mostra como Hollywood ainda domina a arte de se contar uma história de forma majestosa e glamourosa. Não deixa de ser sintomática a escalação da bela Nicole Kidman como atriz principal, uma vez que a ex-mulher de Tom Cruise, além de linda era, à época das filmagens, o mais perto de diva que o cinema tinha em mãos. Cruise, que havia se interessado pelo papel central, ficou de fora. Nicole se manteve.
Kidman interpreta a mimada e sensível Ada Monroe, que, às vésperas do início da Guerra de Secessão vai morar com o pai, o Pastor Monroe (Donald Sutherland, em atuação simpática) em Cold Mountain, um lugarejo afastado e pacífico. Lá, conquista o amor do tímido e igualmente sensível Inman (Jude Law, que recebeu nova indicação ao Oscar por seu papel), que em seguida parte para o front. Sozinha e sem condições de cuidar da fazenda, Monroe escreve uma carta sofrida para seu amor, implorando que ele volte. Tendo visto os horrores da guerra, o rapaz resolve desertar e parte em busca da mulher amada, que tenta levantar suas economias ao lado da valente Ruby (Renée Zelwegger, que levou o Oscar de coadjuvante, apesar de certos exageros em sua caracterização).

A odisséia de Inman para alcançar sua felicidade e sua paz, levemente inspirada na travessia escrita por Homero, dá ao filme muito mais substância do que os sofrimentos de Ada Monroe, ainda que Kidman e Zelwegger tenham uma química invejável. A aventura do jovem vivido por Law faz com que ele cruze com personagens extremamente interessantes e vividos por atores sensacionais. Phillip Seymour-Hoffman oferece seu imenso talento no papel de um pastor bastante mulherengo. Natalie Portman é dona da cena mais forte, como uma jovem viúva e mãe de um bebê que enfrenta soldados bastante violentos. E até Jack White, da banda White Stripes dá sua colaboração como um jovem músico que se apaixona por Ruby - e conquistou o coração de Zelwegger nos bastidores.
“Cold Mountain” é sem dúvida um belo espetáculo. A fotografia de John Seale e a trilha sonora de Gabriel Yared são impecáveis. A reconstituição de época e as cenas de guerra nunca estão aquém de fantásticas. Nicole Kidman está no auge da beleza e do carisma de estrela. Mas é injusto negar que é o trabalho de Jude Law que torna o filme de Anthony Minghella uma experiência inesquecível. O jovem inglês foi merecidamente indicado ao Oscar, uma vez que brilha intensamente em qualquer cena em que esteja presente. E dessa vez Minghella acertou colocando-o no papel central, felizmente deixando de lado escolhas bizarras como Tom Hanks, Daniel Day-Lewis, Matt Damon, Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e Eric Bana. Prova de que um elenco bem escalado faz metade do serviço.
7 indicações ao Oscar: Ator (Jude Law), Atriz Coadjuvante (Renee Zelwegger), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Scarlet tide", "You will be my ain true love")
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Renee Zelwegger)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Renee Zelwegger)
Quando “O talentoso Ripley” estreou, em 1999, uma das maiores reclamações da crítica em relação ao filme do ultra-oscarizado Anthony Minghella era o fato dele ter escalado Matt Damon no papel central e o ótimo Jude Law como coadjuvante. O griteiro foi tanto que Law, que concorreu ao Oscar daquele ano acabou sendo a escolha mais coerente de Minghella para protagonizar seu projeto seguinte, este “Cold Mountain”, baseado em um romance relativamente pouco conhecido de Charles Frazier, ele próprio um ilustre desconhecido no Brasil. Considerado como uma versão moderna do clássico “E o vento levou”, “Cold Mountain” decepcionou em termos de bilheteria e não chegou a entusiasmar muito a crítica. No entanto, é um espetáculo que mostra como Hollywood ainda domina a arte de se contar uma história de forma majestosa e glamourosa. Não deixa de ser sintomática a escalação da bela Nicole Kidman como atriz principal, uma vez que a ex-mulher de Tom Cruise, além de linda era, à época das filmagens, o mais perto de diva que o cinema tinha em mãos. Cruise, que havia se interessado pelo papel central, ficou de fora. Nicole se manteve.
Kidman interpreta a mimada e sensível Ada Monroe, que, às vésperas do início da Guerra de Secessão vai morar com o pai, o Pastor Monroe (Donald Sutherland, em atuação simpática) em Cold Mountain, um lugarejo afastado e pacífico. Lá, conquista o amor do tímido e igualmente sensível Inman (Jude Law, que recebeu nova indicação ao Oscar por seu papel), que em seguida parte para o front. Sozinha e sem condições de cuidar da fazenda, Monroe escreve uma carta sofrida para seu amor, implorando que ele volte. Tendo visto os horrores da guerra, o rapaz resolve desertar e parte em busca da mulher amada, que tenta levantar suas economias ao lado da valente Ruby (Renée Zelwegger, que levou o Oscar de coadjuvante, apesar de certos exageros em sua caracterização).
A odisséia de Inman para alcançar sua felicidade e sua paz, levemente inspirada na travessia escrita por Homero, dá ao filme muito mais substância do que os sofrimentos de Ada Monroe, ainda que Kidman e Zelwegger tenham uma química invejável. A aventura do jovem vivido por Law faz com que ele cruze com personagens extremamente interessantes e vividos por atores sensacionais. Phillip Seymour-Hoffman oferece seu imenso talento no papel de um pastor bastante mulherengo. Natalie Portman é dona da cena mais forte, como uma jovem viúva e mãe de um bebê que enfrenta soldados bastante violentos. E até Jack White, da banda White Stripes dá sua colaboração como um jovem músico que se apaixona por Ruby - e conquistou o coração de Zelwegger nos bastidores.
“Cold Mountain” é sem dúvida um belo espetáculo. A fotografia de John Seale e a trilha sonora de Gabriel Yared são impecáveis. A reconstituição de época e as cenas de guerra nunca estão aquém de fantásticas. Nicole Kidman está no auge da beleza e do carisma de estrela. Mas é injusto negar que é o trabalho de Jude Law que torna o filme de Anthony Minghella uma experiência inesquecível. O jovem inglês foi merecidamente indicado ao Oscar, uma vez que brilha intensamente em qualquer cena em que esteja presente. E dessa vez Minghella acertou colocando-o no papel central, felizmente deixando de lado escolhas bizarras como Tom Hanks, Daniel Day-Lewis, Matt Damon, Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e Eric Bana. Prova de que um elenco bem escalado faz metade do serviço.
domingo
ENCONTROS E DESENCONTROS
ENCONTROS E DESENCONTROS (Lost in translation, 2003, Focus Features, 104min) Direção e roteiro: Sofia Coppola. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Sarah Flack. Música: Kevin Shields. Figurino: Nancy Steiner. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett, Anne Ross/Mayumi Tomita. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Fred Roos. Produção: Sofia Coppola, Ross Katz. Elenco: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Anna Faris. Estreia: 29/8/03 (Festival de Telluride)
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sofia Coppola), Ator (Bill Murray), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Bill Murray), Roteiro

Dificilmente “Encontros e desencontros” pode ser considerado um drama romântico, uma vez que o relacionamento entre Bob e Charlotte passa longe do romantismo barato e recheado de lugares-comuns dos filmes do gênero. O amor que surge entre eles não é um amor que necessite de consumação física – mesmo quando passam a noite juntos, eles apenas dormem, comprovando a intimidade entre eles acima de qualquer noite tórrida de sexo. O amor que sentem um pelo outro é um amor entre duas pessoas conectadas por algo mais do que simplesmente carne. Talvez por isso, por essa delicadeza de sentimentos, o filme de Sofia tenha incomodado tanta gente e encantado outro tanto. Não há diálogos forçados no roteiro premiado com o Oscar, ainda que muitos deles sejam engraçados. E é aí que entra em cena outra qualidade do filme.
Uma pérola delicada e sutil, “Encontros e desencontros” ainda tem a coragem de encerrar sua história com um misterioso adeus entre seus protagonistas ao som da bela “Just like honey”, da banda Jesus & Mary Chain. A frase que Bob Harris sussurra ao ouvido de sua querida Charlotte pode não ser ouvida pelo público, mas fica ressoando por um bom tempo depois do final da obra-prima de Sofia Coppola.
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sofia Coppola), Ator (Bill Murray), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Bill Murray), Roteiro
Filmes sobre pessoas solitárias que se encontram em determinado momento de suas vidas e passam por transformações são moeda corrente dentro dos clichês dramáticos hollywoodianos. Por que então um filme pequeno, discreto e tão sutil quanto “Encontros e desencontros” causou tanto auê entre a crítica e o público de bom gosto? A resposta mais óbvia poderia acusar a nobreza do sangue de sua diretora – Sofia Coppola é filha do veterano Francis Ford, aqui atuando como produtor executivo. Mas o fato é que nem mesmo o prestígio do velho e bom Coppola seria capaz de sobrepujar-se à delicadeza, inteligência e humor melancólico do segundo filme de sua filha. Ao falar da natureza inerentemente solitária dos seres humanos e de que como pessoas tão diferentes podem cruzar nossas vidas e fazê-las menos comuns, a pequena obra-prima de Sofia comove, faz rir e de quebra apresenta um trabalho de atuação irrepreensível de Bill Murray, merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator.
Murray abandona – pero no mucho – a persona de palhaço que forjou em quase toda a sua carreira no papel de Bob Harris, um ator decadente e em crise de meia-idade que vai ao Japão para gravar um comercial de whisky. Sozinho e incapaz de lidar com as diferenças culturais do país do sol nascente, ele entra em uma fase de isolamento total até que conhece, no hotel onde está hospedado, a jovem Charlotte (Scarlett Johansson), mulher de John (Giovanni Ribisi), um fotógrafo profissional que dedica-se mais ao trabalho que ao casamento. Recém-formada em Filosofia, Charlotte sente-se abandonada em Tóquio e logo ela e Bob iniciam uma amizade baseada unicamente no fato de serem dois seres humanos totalmente fora de seus universos particulares. Conhecendo a noite da cidade eles passam também a conhecer um ao outro e surge um relacionamento forte e honesto entre eles.
Dificilmente “Encontros e desencontros” pode ser considerado um drama romântico, uma vez que o relacionamento entre Bob e Charlotte passa longe do romantismo barato e recheado de lugares-comuns dos filmes do gênero. O amor que surge entre eles não é um amor que necessite de consumação física – mesmo quando passam a noite juntos, eles apenas dormem, comprovando a intimidade entre eles acima de qualquer noite tórrida de sexo. O amor que sentem um pelo outro é um amor entre duas pessoas conectadas por algo mais do que simplesmente carne. Talvez por isso, por essa delicadeza de sentimentos, o filme de Sofia tenha incomodado tanta gente e encantado outro tanto. Não há diálogos forçados no roteiro premiado com o Oscar, ainda que muitos deles sejam engraçados. E é aí que entra em cena outra qualidade do filme.
Os diálogos repletos de frescor e simplicidade escritos por Sofia Coppola soam verdadeiros e não como frases de efeito. Recitados por Johansson e um Bill Murray inspiradíssimo, eles são como música para ouvidos tão mal acostumados a cenas escritas com petulância e má-vontade. E nem mesmo as sequências cômicas parecem exageradas ou descartáveis, permitindo a Murray que ria de si mesmo com a melancolia que seu personagem exige. Uma melancolia, aliás, que perpassa todo o filme, que ainda permite ao espectador uma visão ampla de um país que mistura com precisão a tecnologia e a modernidade com o orgulho às tradições mais ancestrais.
Uma pérola delicada e sutil, “Encontros e desencontros” ainda tem a coragem de encerrar sua história com um misterioso adeus entre seus protagonistas ao som da bela “Just like honey”, da banda Jesus & Mary Chain. A frase que Bob Harris sussurra ao ouvido de sua querida Charlotte pode não ser ouvida pelo público, mas fica ressoando por um bom tempo depois do final da obra-prima de Sofia Coppola.
quarta-feira
O DOM DA PREMONIÇÃO
O DOM DA PREMONIÇÃO (The gift, 2000, Paramount Classics, 112min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Billy Bob Thornton, Tom Epperson. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Arthur Coburn, Bob Murawski. Música: Christopher Young. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Marthe Pineau. Produção executiva: Sean Daniel, Gregory Goodman, Ted Tannebaum, Rob Talpert. Produção: James Jacks, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg. Elenco: Cate Blanchett, Greg Kinnear, Katie Holmes, Giovanni Ribisi, Keanu Reeves, Hilary Swank, J. K. Simmons, Rosemary Harris, Michael Jeter, Kim Dickens. Estreia: 22/12/00
Certas atrizes têm o dom de transformar o que poderia ser apenas um produto rotineiro de entretenimento em algo acima da média. Uma dessas atrizes é Cate Blanchett. Mesmo em papéis ingratos em filmes menores, a australiana consegue sobressair-se incólume e em alguns casos até mesmo salva produções que sem ela mal seriam lembradas pela maioria dos espectadores. É o caso de “O dom da premonição”, um suspense interessante e bem realizado, mas que, sem sua presença luminosa, seria apenas mais um exemplar de um gênero pouco dado a apresentar obras-primas
À frente de um elenco de astros de grandezas variadas – a oscarizada Hilary Swank em um papel inadequado, o péssimo Keanu Reeves surpreendendo positivamente, o desajeitado Giovanni Ribisi com um personagem carismático, a jovem Katie Holmes em papel ousado e diferente do que fez até então e o simpático canastrão Greg Kinnear tentando dar veracidade a um personagem ingrato – Blanchett sobressai-se sem precisar de muito esforço. No filme de Sam Raimi – às vésperas de encarar sua primeira grande super produção, o blockbuster “Homem-aranha” – ela vive Annie Wilson, uma dona-de-casa, viúva e mãe de três filhos que complementa a renda familiar dando consultas como vidente em uma pequena cidade pantanosa do interior dos EUA. Ajudando seus vizinhos e amigos, principalmente o traumatizado mecânico Buddy (Giovanni Ribisi), ela ainda sofre ameaças de Donnie Barksdeale, um violento marido de uma cliente, Valerie (vividos por Keanu Reeves e Hilary Swank). Sua vida sofre uma reviravolta quando uma jovem da alta classe da cidade, Jessica King (a sempre insossa Katie Holmes) desaparece misteriosamente. Procurada por Wayne Collins, o noivo da moça (papel de Greg Kinnear), que é o diretor da escola onde estudam seus filhos, Annie não consegue negar ajuda, mas acaba colocando sua própria vida em risco.

Co-escrito pelo ator Billy Bob Thornton, o roteiro do filme de Raimi não apresenta grandes novidades, principalmente aos aficcionados do gênero. Nem mesmo a surpresa final chega a ser impactante, apesar do final reservado à personagem de Giovanni Ribisi chegar a ser interessante e emocionante. No entanto, graças à direção criativa de Raimi, que tenta fugir sempre que possível do previsível – apesar de nem sempre conseguir -, ao trabalho superlativo de Blanchett e à trilha sonora de Christopher Young, mantém a atenção até o minuto final, o que não pode ser dito de todos seus congêneres.
Certas atrizes têm o dom de transformar o que poderia ser apenas um produto rotineiro de entretenimento em algo acima da média. Uma dessas atrizes é Cate Blanchett. Mesmo em papéis ingratos em filmes menores, a australiana consegue sobressair-se incólume e em alguns casos até mesmo salva produções que sem ela mal seriam lembradas pela maioria dos espectadores. É o caso de “O dom da premonição”, um suspense interessante e bem realizado, mas que, sem sua presença luminosa, seria apenas mais um exemplar de um gênero pouco dado a apresentar obras-primas
À frente de um elenco de astros de grandezas variadas – a oscarizada Hilary Swank em um papel inadequado, o péssimo Keanu Reeves surpreendendo positivamente, o desajeitado Giovanni Ribisi com um personagem carismático, a jovem Katie Holmes em papel ousado e diferente do que fez até então e o simpático canastrão Greg Kinnear tentando dar veracidade a um personagem ingrato – Blanchett sobressai-se sem precisar de muito esforço. No filme de Sam Raimi – às vésperas de encarar sua primeira grande super produção, o blockbuster “Homem-aranha” – ela vive Annie Wilson, uma dona-de-casa, viúva e mãe de três filhos que complementa a renda familiar dando consultas como vidente em uma pequena cidade pantanosa do interior dos EUA. Ajudando seus vizinhos e amigos, principalmente o traumatizado mecânico Buddy (Giovanni Ribisi), ela ainda sofre ameaças de Donnie Barksdeale, um violento marido de uma cliente, Valerie (vividos por Keanu Reeves e Hilary Swank). Sua vida sofre uma reviravolta quando uma jovem da alta classe da cidade, Jessica King (a sempre insossa Katie Holmes) desaparece misteriosamente. Procurada por Wayne Collins, o noivo da moça (papel de Greg Kinnear), que é o diretor da escola onde estudam seus filhos, Annie não consegue negar ajuda, mas acaba colocando sua própria vida em risco.

Co-escrito pelo ator Billy Bob Thornton, o roteiro do filme de Raimi não apresenta grandes novidades, principalmente aos aficcionados do gênero. Nem mesmo a surpresa final chega a ser impactante, apesar do final reservado à personagem de Giovanni Ribisi chegar a ser interessante e emocionante. No entanto, graças à direção criativa de Raimi, que tenta fugir sempre que possível do previsível – apesar de nem sempre conseguir -, ao trabalho superlativo de Blanchett e à trilha sonora de Christopher Young, mantém a atenção até o minuto final, o que não pode ser dito de todos seus congêneres.
segunda-feira
O RESGATE DO SOLDADO RYAN
O RESGATE DO SOLDADO RYAN (Saving Private Ryan, 1998, Amblin Entertainment/DreamWorks Pictures, 169min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Robert Rodat. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Lisa Dean Kavanaugh. Produção: Ian Bryce, Mark Gordon, Gary Levinsohn, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Edward Burns, Tom Sizemore, Matt Damon, Jeremy Davies, Vin Diesel, Giovanni Ribisi, Dennis Farina, Paul Giamatti, Ted Danson, Adam Goldberg. Estreia: 24/7/98
11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Ator (Tom Hanks), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de arte/cenários, Som, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor de 5 Oscar: Diretor (Steven Spielberg), Fotografia, Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Steven Spielberg)
Depois de ter ganho seus esperados (e merecidíssimos!) Oscar por "A lista de Schindler", era esperado que Steven Spielberg entrasse naquele limbo que muitas vezes aprisiona os escolhidos da Academia. A desnecessária continuação de "Jurassic Park" e o sonolento "Amistad" também acenavam em direção a essa possibilidade. Mas eis que, surpreendendo a todos, o homem que foi chamado de "o Peter Pan do cinema" mostrou que sua maturidade artística ainda estava por vir. Novamente visitando a II Guerra Mundial, mas sob uma nova ótica, Spielberg lançou "O resgate do soldado Ryan", um dos mais espetaculares filmes de guerra da história. Indicado a 11 Oscar e favorito ao prêmio máximo, o assustador retrato do conflito que matou milhares de pessoas pelo mundo bateu de frente com o bonitinho "Shakespeare apaixonado" e foi relegado apenas a quatro prêmios técnicos e a estatueta de melhor diretor. Ainda que o vencedor do ano seja simpático e inteligente, são as imagens fortes e dolorosas de "Ryan" que vão ficar marcadas na história do cinema.
E essas imagens fortes e dolorosas já atingem a plateia em seus primeiros momentos, contrariando a regra de deixar-se o clímax para o final. São vinte minutos de extrema violência mostrada sem poesia e retoques: um pelotão de soldados americanos desembarca na Normandia em de junho de 1945, no famigerado Dia D, e a câmera nervosa de Spielberg e do diretor de fotografia Janusz Kaminski jogam o público em um confronto onde sangue, suor, mar e areia se confundem. E é nessa sequência impecável que é apresentando o protagonista, o Capitão John Miller, vivido por um intenso e discreto Tom Hanks, merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator. É a Miller que caberá a missão que dará origem à verdadeira trama do filme, escrita com precisão por Robert Rodat (também concorrente à estatueta): como uma espécie de jogada de relações públicas, o exército norte-americano resolve tirar do conflito o único sobrevivente de uma família cujos filhos foram todos vitimados na mesma campanha. Para isso, ordena a Miller que, juntamente com um grupo de soldados escolhidos a dedo, saia à procura do jovem James Francis Ryan (Matt Damon). Mesmo questionando a lógica da missão (arriscar a vida de oito homens para salvar apenas um), Miller tem integridade o bastante para cumprí-la. Sendo assim, une-se a o Sargento Mike Horrath (Tom Sizemore) e a outros recrutas em busca do rapaz.

Como normalmente acontece em filmes de guerra, o destino não é tão importante quanto o percurso. Buscando o paradeiro de Ryan, o Capitão Miller e seus subordinados testemunham os horrores da guerra (como se já não o tivessem sofrido na pele, anteriormente), experimentando toda a sua glória e suas mesquinharias, sua grandiosidade e sua covardia. É sintomático que os próprios soldados tenham personalidades paradoxais, o que incentiva o conflito entre eles mesmo que eles precisem desesperadamente de uma união, por mais frágil que ela possa parecer. Sendo assim estão reunidos o fervoroso católico Daniel Jackson (Barry Pepper) e o furioso judeu Stanley Mellish (Adam Goldberg), o beligerante Adrian Caparzo (Vin Diesel em seu primeiro papel de destaque) e o inexperiente Timothy Upham (Jeremy Davies), o médico Irwin Wade (Giovanni Ribisi) e o implicante nova-iorquino Richard Reiben (o diretor e roteirista Edward Burns, muito bem em cena). Unidos como pelotão e sozinhos em suas individualidades, eles apresentam à audiência um retrato fiel e assustador da guerra, deixando pouco espaço para o sentimentalismo típico do cineasta.
A fúria com que "O resgate do soldado Ryan" atinge o espectador é comparável com o enorme sucesso de bilheteria do filme de Spielberg. Apesar de sua violência explícita, o filme arrecadou mais de 200 milhões de dólares somente no mercado americano, tendo mais do que dobrado sua renda ao redor do mundo. Dirigido com um domínio invejável da técnica cinematográfica - sem que a preocupação com as personagens fosse deixada de lado - e dotado de uma força dramática arrebatadora, é um dos filmes indispensáveis dos anos 90 e quiçá o melhor de seu gênero na história do cinema. É, também, o último grande filme de seu diretor até a data. Seu Oscar de direção foi mais do que merecido: foi obrigatório.
11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Ator (Tom Hanks), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de arte/cenários, Som, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor de 5 Oscar: Diretor (Steven Spielberg), Fotografia, Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Steven Spielberg)
Depois de ter ganho seus esperados (e merecidíssimos!) Oscar por "A lista de Schindler", era esperado que Steven Spielberg entrasse naquele limbo que muitas vezes aprisiona os escolhidos da Academia. A desnecessária continuação de "Jurassic Park" e o sonolento "Amistad" também acenavam em direção a essa possibilidade. Mas eis que, surpreendendo a todos, o homem que foi chamado de "o Peter Pan do cinema" mostrou que sua maturidade artística ainda estava por vir. Novamente visitando a II Guerra Mundial, mas sob uma nova ótica, Spielberg lançou "O resgate do soldado Ryan", um dos mais espetaculares filmes de guerra da história. Indicado a 11 Oscar e favorito ao prêmio máximo, o assustador retrato do conflito que matou milhares de pessoas pelo mundo bateu de frente com o bonitinho "Shakespeare apaixonado" e foi relegado apenas a quatro prêmios técnicos e a estatueta de melhor diretor. Ainda que o vencedor do ano seja simpático e inteligente, são as imagens fortes e dolorosas de "Ryan" que vão ficar marcadas na história do cinema.
E essas imagens fortes e dolorosas já atingem a plateia em seus primeiros momentos, contrariando a regra de deixar-se o clímax para o final. São vinte minutos de extrema violência mostrada sem poesia e retoques: um pelotão de soldados americanos desembarca na Normandia em de junho de 1945, no famigerado Dia D, e a câmera nervosa de Spielberg e do diretor de fotografia Janusz Kaminski jogam o público em um confronto onde sangue, suor, mar e areia se confundem. E é nessa sequência impecável que é apresentando o protagonista, o Capitão John Miller, vivido por um intenso e discreto Tom Hanks, merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator. É a Miller que caberá a missão que dará origem à verdadeira trama do filme, escrita com precisão por Robert Rodat (também concorrente à estatueta): como uma espécie de jogada de relações públicas, o exército norte-americano resolve tirar do conflito o único sobrevivente de uma família cujos filhos foram todos vitimados na mesma campanha. Para isso, ordena a Miller que, juntamente com um grupo de soldados escolhidos a dedo, saia à procura do jovem James Francis Ryan (Matt Damon). Mesmo questionando a lógica da missão (arriscar a vida de oito homens para salvar apenas um), Miller tem integridade o bastante para cumprí-la. Sendo assim, une-se a o Sargento Mike Horrath (Tom Sizemore) e a outros recrutas em busca do rapaz.

Como normalmente acontece em filmes de guerra, o destino não é tão importante quanto o percurso. Buscando o paradeiro de Ryan, o Capitão Miller e seus subordinados testemunham os horrores da guerra (como se já não o tivessem sofrido na pele, anteriormente), experimentando toda a sua glória e suas mesquinharias, sua grandiosidade e sua covardia. É sintomático que os próprios soldados tenham personalidades paradoxais, o que incentiva o conflito entre eles mesmo que eles precisem desesperadamente de uma união, por mais frágil que ela possa parecer. Sendo assim estão reunidos o fervoroso católico Daniel Jackson (Barry Pepper) e o furioso judeu Stanley Mellish (Adam Goldberg), o beligerante Adrian Caparzo (Vin Diesel em seu primeiro papel de destaque) e o inexperiente Timothy Upham (Jeremy Davies), o médico Irwin Wade (Giovanni Ribisi) e o implicante nova-iorquino Richard Reiben (o diretor e roteirista Edward Burns, muito bem em cena). Unidos como pelotão e sozinhos em suas individualidades, eles apresentam à audiência um retrato fiel e assustador da guerra, deixando pouco espaço para o sentimentalismo típico do cineasta.
A fúria com que "O resgate do soldado Ryan" atinge o espectador é comparável com o enorme sucesso de bilheteria do filme de Spielberg. Apesar de sua violência explícita, o filme arrecadou mais de 200 milhões de dólares somente no mercado americano, tendo mais do que dobrado sua renda ao redor do mundo. Dirigido com um domínio invejável da técnica cinematográfica - sem que a preocupação com as personagens fosse deixada de lado - e dotado de uma força dramática arrebatadora, é um dos filmes indispensáveis dos anos 90 e quiçá o melhor de seu gênero na história do cinema. É, também, o último grande filme de seu diretor até a data. Seu Oscar de direção foi mais do que merecido: foi obrigatório.
quarta-feira
THE WONDERS, O SONHO NÃO ACABOU
THE WONDERS, O SONHO NÃO ACABOU (That thing you do!, 1996, 20th Century Fox, 108min) Direção e roteiro: Tom Hanks. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Richard Chew. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção: Jonathan Demme, Gary Goetzman, Edward Saxon. Elenco: Tom Hanks, Jonathon Schaech, Tom Everett Scott, Liv Tyler, Steve Zahn, Ethan Embry, Giovanni Ribisi, Charlize Theron, Rita Wilson, Kevin Pollak, Chris Isaak. Estreia: 04/10/96
Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("That thing you do!")
Premiado com dois Oscar consecutivos de melhor ator e um dos astros mais populares de Hollywood, Tom Hanks acrescentou mais um sucesso à sua carreira, em 1996, dessa vez em uma missão tripla. Em "The Wonders, o sonho não acabou", ele não apenas faz um pequeno papel coadjuvante: ele é também o roteirista e o diretor, unindo-se ao time dos atores tornados cineastas. Porém, ao contrário de nomes que foram ambiciosos em suas incursões para trás das câmeras, como Mel Gibson e Kevin Costner - só para citar nomes mais recentes - Hanks não fez sua estreia com um projeto grandioso ou de olho em estatuetas douradas. "The Wonders" é a cara de seu criador: agradável, simples e bem-humorado.
Ligeiramente inspirado na trajetória dos Beatles, Hanks inventou a história dos Wonders, um grupo de rock que, no início dos anos 60, conhece o gostinho do sucesso mas vê toda a sua possibilidade de reconhecimento internacional ruir devido aos problemas entre seus integrantes. Apesar de parecer mais um dramalhão que analisa egos inflados e retrata violentas auto-destruições, o filme do eterno Forrest Gump opta pelo viés cômico e leve, com um revestimento romântico e delicado que a trilha sonora vibrante e dançante reitera lindamente. Sob os olhos otimistas e generosos de Hanks, a história dos Wonders não é nada mais do que uma deliciosa viagem musical para o início do rock'n'roll.
É 1964, e a pequena cidade de Erie, na Pensilvânia é o lar de um grupo de amigos que aproveitam seus tempos livres para brincar de músicos. Depois que seu baterista sofre um acidente e quebra o braço, o jovem Guy Patterson (Tom Everett Scott) é convidado por Jimmy Mattingly (Jonathon Schaech) a assumir seu lugar. Dando uma batida mais rápida à balada "That thing you do!", composta por Jimmy - e tocada à exaustão no decorrer do filme - Guy acaba empurrando o grupo às paradas de sucesso. Empresariados pelo competente White (Tom Hanks), do selo Play-Tone, eles logo começam a galgar posições nas paradas de sucesso. Seu êxito logo torna-se uma ameaça ao relacionamento entre Guy e sua bela namorada, a doce Faye (Liv Tyler).

Deixando de lado toda e qualquer preocupação melodramática ou existencialista, o roteiro de Hanks é um primor de leveza e simpatia. Não há nenhum drama insuperável nem intrigas de bastidores como normalmente ocorre em produções do tipo. O baixista acidentado (vivido por Giovanni Ribisi) não tenta sabotar seu substituto nem existe uso de drogas ou bebidas. O universo rock'n'roll criado por Hanks é um universo totalmente desprovido das mazelas do mundo da música e isso talvez seja a razão porque o filme seja tão irresistível, mesmo que não tenha feito o barulho esperado em termos de bilheteria. Para um público acostumado aos excessos de Jim Morrison, Sid Vicious e Janis Joplin, encarar um grupo tão certinho como os Wonders talvez soe como um retrocesso inadmissível. O que esse público não desconfia é que nem só de overdoses e orgias sexuais vive o mundo da música (ao menos dentro da mente Polyanna de Tom Hanks)
No fim das contas, "The Wonders" é um delicioso entretenimento, capaz de divertir por duas horas em exigir nada mais do que a vontade de se deixar acompanhar por personagens simpáticos, uma trilha sonora dançante e a reconstituição de uma época dourada (mesmo que já manchada pela morte de Kennedy e pela guerra do Vietnã). E além de tudo, o filme tem Liv Tyler, deslumbrante e meiga, no auge de sua beleza etérea. Quem precisa mais do que isso para se divertir?
Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("That thing you do!")
Premiado com dois Oscar consecutivos de melhor ator e um dos astros mais populares de Hollywood, Tom Hanks acrescentou mais um sucesso à sua carreira, em 1996, dessa vez em uma missão tripla. Em "The Wonders, o sonho não acabou", ele não apenas faz um pequeno papel coadjuvante: ele é também o roteirista e o diretor, unindo-se ao time dos atores tornados cineastas. Porém, ao contrário de nomes que foram ambiciosos em suas incursões para trás das câmeras, como Mel Gibson e Kevin Costner - só para citar nomes mais recentes - Hanks não fez sua estreia com um projeto grandioso ou de olho em estatuetas douradas. "The Wonders" é a cara de seu criador: agradável, simples e bem-humorado.
Ligeiramente inspirado na trajetória dos Beatles, Hanks inventou a história dos Wonders, um grupo de rock que, no início dos anos 60, conhece o gostinho do sucesso mas vê toda a sua possibilidade de reconhecimento internacional ruir devido aos problemas entre seus integrantes. Apesar de parecer mais um dramalhão que analisa egos inflados e retrata violentas auto-destruições, o filme do eterno Forrest Gump opta pelo viés cômico e leve, com um revestimento romântico e delicado que a trilha sonora vibrante e dançante reitera lindamente. Sob os olhos otimistas e generosos de Hanks, a história dos Wonders não é nada mais do que uma deliciosa viagem musical para o início do rock'n'roll.
É 1964, e a pequena cidade de Erie, na Pensilvânia é o lar de um grupo de amigos que aproveitam seus tempos livres para brincar de músicos. Depois que seu baterista sofre um acidente e quebra o braço, o jovem Guy Patterson (Tom Everett Scott) é convidado por Jimmy Mattingly (Jonathon Schaech) a assumir seu lugar. Dando uma batida mais rápida à balada "That thing you do!", composta por Jimmy - e tocada à exaustão no decorrer do filme - Guy acaba empurrando o grupo às paradas de sucesso. Empresariados pelo competente White (Tom Hanks), do selo Play-Tone, eles logo começam a galgar posições nas paradas de sucesso. Seu êxito logo torna-se uma ameaça ao relacionamento entre Guy e sua bela namorada, a doce Faye (Liv Tyler).
Deixando de lado toda e qualquer preocupação melodramática ou existencialista, o roteiro de Hanks é um primor de leveza e simpatia. Não há nenhum drama insuperável nem intrigas de bastidores como normalmente ocorre em produções do tipo. O baixista acidentado (vivido por Giovanni Ribisi) não tenta sabotar seu substituto nem existe uso de drogas ou bebidas. O universo rock'n'roll criado por Hanks é um universo totalmente desprovido das mazelas do mundo da música e isso talvez seja a razão porque o filme seja tão irresistível, mesmo que não tenha feito o barulho esperado em termos de bilheteria. Para um público acostumado aos excessos de Jim Morrison, Sid Vicious e Janis Joplin, encarar um grupo tão certinho como os Wonders talvez soe como um retrocesso inadmissível. O que esse público não desconfia é que nem só de overdoses e orgias sexuais vive o mundo da música (ao menos dentro da mente Polyanna de Tom Hanks)
No fim das contas, "The Wonders" é um delicioso entretenimento, capaz de divertir por duas horas em exigir nada mais do que a vontade de se deixar acompanhar por personagens simpáticos, uma trilha sonora dançante e a reconstituição de uma época dourada (mesmo que já manchada pela morte de Kennedy e pela guerra do Vietnã). E além de tudo, o filme tem Liv Tyler, deslumbrante e meiga, no auge de sua beleza etérea. Quem precisa mais do que isso para se divertir?
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