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quarta-feira

O PLANO PERFEITO


O PLANO PERFEITO (Inside man, 2006, Universal Pictures, 129min) Direção: Spike Lee. Roteiro: Russell Gewirtz. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Donna Berwick. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Geore DeTitta Jr.. Produção executiva: Karen Kehela Sherwood, Jon Kilik, Daniel M. Rosenberg, Kim Roth, Christian Stibbe. Produção: Brian Grazer. Elenco: Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Willem Dafoe, Christopher Plummer, Chiwetel Ejiofor. Estreia: 20/3/2006

Um dos filmes mais populares da carreira de Spike Lee, "O plano perfeito" é, também, um de seus projetos menos pessoais. Assumindo o comando da produção depois da saída do diretor original - Ron Howard abandonou o barco para realizar "A luta pela esperança", com Russell Crowe -, Lee deixou de lado a maioria de suas marcas registradas para assinar uma obra inserida em um subgênero de grande tradição cinematográfica - os filmes de roubo  - e que, com um elenco de nomes conhecidos, não teve dificuldade em encontrar seu público. Com uma renda de mais de 180 milhões de dólares e elogios da maior parte da crítica, o 17º longa-metragem de Lee abraça todas as convenções do estilo e só não se tornou uma pequena obra-prima devido ao roteiro um tanto confuso de Russell Gerwitz, que insiste em reviravoltas por vezes desnecessárias e no desenvolvimento raso de seus personagens - nenhum deles carismático o bastante para despertar a torcida do espectador.

O filme começa com um monólogo de Dalton Russell (Clive Owen), explicando como aconteceu o roubo a banco no qual ele tomou parte. Em um flashback, o público é então jogado ao momento em que Dalton e seus cúmplices entram em uma agência do Manhattan Trust Bank de Nova York. Mascarados e armados, eles dão início à ação criminosa, tomando funcionários e clientes como reféns. Quem é chamado para comandar a resposta ao assalto é o detetive Keith Frazier (Denzel Washington), que não demora a chegar ao local com o parceiro, Bill Mitchell (Chiwetel Ejiofor) e unir-se a outro líder da polícia, o Capitão John Darius (Willem Dafoe). Sem saber ao certo quantas pessoas estão mantidas dentro do banco - e nem ao menos com quantos criminosos estão lidando - Frazier e seus colegas começam a dialogar com Russell, que aparenta não ter a menor pressa em concluir seu roubo e faz exigências surpreendentes para liberar os prisioneiros. A situação fica ainda mais complexa quando entra em cena Madeline White (Jodie Foster), contratada pelo dono do banco, Arthur Case (Christopher Plummer), para impedir que um cofre secreto seja descoberto e tenha seu conteúdo exposto.


 

Dirigindo com inteligência mas sem os rasgos de ironia e fúria de seus trabalhos mais conhecidos, Spike Lee faz de "O plano perfeito" um filme correto mas nunca brilhante. Tudo está em seu devido lugar: a trilha sonora de Terence Blanchard (uma das poucas marcas registradas do cineasta), o elenco acima de qualquer crítica (mais uma colaboração entre Lee e Denzel Washington), a fotografia elegante de Matthew Libatique (que seria indicado ao Oscar alguns anos depois, por "Cisne negro"), que substitui as cores quentes por uma paleta mais sóbria e claustrofóbica. Porém, apesar de suas inúmeras qualidades - devidamente louvadas pela crítica -, o filme falha em conectar-se emocionalmente com o espectador. A opção do roteiro em não aprofundar seus personagens e, com uma pequena exceção ao Keith Frazier vivido por Denzel, não fornecer informações de seu passado ou suas motivações, pode até ser interessante - focar no momento da ação tem prós e contras em uma narrativa -, mas impede o espectador de realmente se importar com os desdobramentos além do que está no centro da trama.  O excesso de questões a serem resolvidas também atrapalha - o que Arthur Case está escondendo em seu cofre pessoal? Por que Dalton Russell escolheu justamente o Manhattan Trust Bank? Quem dentre as pessoas interrogadas por Frazier é cúmplice no assalto? O exagero de perguntas (nem todas respondidas a contento) é o calcanhar de Aquiles de "O plano perfeito".

Com um roteiro que força suas reviravoltas - ingrediente básico do gênero - e não consegue deixar de ser mais confuso do que surpreendente, "O plano perfeito" peca ao negar ao público um elemento crucial: a diversão. Ao contrário de Steven Soderbergh e sua trilogia iniciada com "Onze homens e um segredo" (2000), que aposta no humor e na leveza para seduzir a plateia, Spike Lee prefere se levar a sério demais, optando por conduzir o público em um emaranhado de pistas e personagens dúbios que jamais conquistam o espectador completamente. O clímax frio tampouco ajuda a elevá-lo acima da média e torná-lo o clássico moderno que poderia ser. Mesmo assim, com seu elenco impecável, o filme de Lee agrada ao não subestimar a inteligência de quem se dispõe a passar duas horas envolvido em uma trama que foge do derivativo e do lugar comum. Um filme de adulto, ideal para quem gosta de ter suas células cinzentas desafiadas.

segunda-feira

O MAURITANO

 


O MAURITANO (The Mauritanian, 2021, Wonder Street/BBC Films, 129min) Direção: Kevin Macdonald. Roteiro: Michael Bronner (M. B. Traven), Rory Haines, Sohrab Noshirvani, livro "Guantánamo Diary", de Mohamedou Ould Slahi, Larry Siems. Fotografia: Alwin H. Kuchler. Montagem: Justine Wright. Música: Tom Hodge. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: James Collett/Michele Barfoot. Produção executiva: Michael Bloom, Adam Fogelson, John Friedberg, Dan Friedkin, Rose Garnett, Micah Green, Robert Halmi, Ryan Heller, Zak Kilberg, Jim Reeve, Rober Simonds, Russell Smith, Daniel Steinman, Maria Zuckerman. Produção: Adam Ackland, Michael Bronner, Leah Clarke, Benedict Cumberbatch, Christine Holder, Mark Holder, Beatriz Levin, Lloyd Levin, Branwen Prestwood Smith. Elenco: Tahar Rahim, Jodie Foster, Benedict Cumberbatch, Shailene Woodley, Denis Ménochet. Estreia: 12/02/2021 

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Jodie Foster)

Nos meses imediatamente posteriores aos atentados de 11/9, o governo norte-americano tornou-se obcecado na caça aos responsáveis pela tragédia – conforme Kathryn Bigelow mostrou quase didaticamente em seu “A hora mais escura” (2012). No rastro desse apetite por vingança, nem sempre cumpriu à risca tudo aquilo que prega sob sua máscara de defensor ferrenho da democracia, e muitas vezes escorregou feio ao impor a força bruta em detrimento da inteligência – algo que o cineasta sul-africano Gavin Hood denunciou em “O suspeito”, seu subestimado thriller lançado em 2007. Os abusos cometidos pelos EUA em nome de justiça – e sua absoluta falta de escrúpulos em encontrar bodes expiatórios – volta às telas em “O mauritano”, contundente drama político dirigido pelo escocês Kevin Macdonald que deu à Jodie Foster o Golden Globe de melhor atriz coadjuvante deste ano e nem tão surpreendentemente assim, levando-se em consideração seu tema, foi solenemente ignorado pela Academia.

Temas politicamente controversos não assustam Macdonald, um cineasta que tem em seu currículo o oscarizado documentário “Munique, 1972: um dia em setembro” (1999) – sobre o atentado terrorista que matou atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique – e o elogiado “O último rei da Escócia” (2006) – que retratava sem pudor as atrocidades cometidas na Uganda sob o comando de Idi Amin. Tal característica faz dele o diretor ideal para um roteiro que, se não é exatamente inovador em suas revelações sobre o tratamento dado pelos EU a seus pretensos inimigos, ao menos não subestima a inteligência do público - nem tampouco evita ilustrar seus pontos de vista com sequências bastante incômodas. Assim como no filme que deu o Oscar de melhor ator a Forest Whitaker, em “O mauritano” não faltam cenas de violência explícita, ainda que coerentes com a trama e o clima denso da narrativa. Macdonald intercala momentos quase pacíficos – longos diálogos e manobras jurídicas – com explosões de uma crueldade física e psicológica capazes de revoltar ao mais zen dos espectadores. Para isso, conta com um time de colaboradores brilhantes: da trilha sonora angustiante de Tom Hodge à fotografia caprichada do alemão Alwin H. Kuchler (de “Steve Jobs”), tudo funciona para sublinhar a tensão constante do roteiro – que surpreende ao fugir dos clichês dos filmes de julgamento ao focar sua atenção não no tribunal, e sim em seus preâmbulos.


 Enquanto na maioria dos filmes hollywoodianos o clímax sempre acontece no embate entre defesa e promotoria – com revelações de última hora e reviravoltas inesperadas -, em “O mauritano” o jogo acontece muito antes que qualquer personagem surja diante de um juiz. Tudo começa quando, poucos meses depois do atentado ao World Trade Center, o mauritano Mohamedou Ould Slahi (Tahar Rahim) é preso e levado à prisão militar de Guantánamo, onde passa anos sofrendo de frequentes sessões de tortura e interrogatórios violentos. Largado na prisão por mais de uma década – sem ao menos uma acusação formal -, Mohamedou só vê uma luz no fim do túnel quando seu caso cai nas mãos de Nancy Hollander (Jodie Foster, competente como sempre), uma advogada especializada em causas humanitárias que usa de todas as suas armas e experiência para 1) ganhar a confiança do novo cliente, e 2) ter acesso aos documentos que podem lhe esclarecer (e aos tribunais) os motivos que levaram à sua prisão. O acusado, depois de anos de maus-tratos, não confia facilmente em sua nova defensora e até parece esconder alguns segredos cruciais – mas a justiça precisa ser feita e a lei, cumprida. E mesmo sem confiar plenamente na inocência de Mohamedou, Hollander entra em rota de colisão com o promotor Stuart Couch (Benedict Cumberbatch) – também pouco confortável com as meias-verdades da investigação.

Corajoso em enfrentar a imagem de defensor da democracia que os EUA tentam vender incansavelmente, “O mauritano” sofre com um ritmo irregular – apesar dos esforços da edição em criar vários tempos como forma de agilizar a narrativa. Jodie Foster, Benedict Cumberbatch e Shailene Woodley (como a advogada assistente de Hollander) são atores excepcionais, mas nem mesmo eles conseguem evitar uma certa queda de interesse em alguns momentos – especialmente quando comparados com todas as cenas em que Tahar Rahim está presente. Revelado no premiado “O profeta” (2009), Rahim apresenta um desempenho arrebatador, oferecendo consistência a um personagem cuja dubiedade é um de seus maiores trunfos. Às vezes simpático e ocasionalmente suspeito, Mohamedou é a prova viva de que, culpados ou inocentes, todos merecem o melhor e mais isento julgamento possível – algo que, conforme aponta o filme de Kevin Macdonald, nem sempre acontece nos domínios da terra do Tio Sam. Forte e contundente, “O mauritano” é um filme importante e relevante, uma história real que, mais do que apenas indignar e chocar, reafirma os reais bastidores da guerra ao terror imposta pelos EUA ao redor do mundo. Não é uma obra-prima, mas é suficientemente bem orquestrada para ressoar por um bom tempo na mente do público.

sábado

ELYSIUM

ELYSIUM (Elysium, 2013, TriStar Pictures, 109min) Direção e roteiro: Neill Blomkamp. Fotografia: Trent Opaloch. Montagem: Julian Clarke, Lee Smith. Música: Ryan Amon. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Philip Ivey/Peter Lando. Produção executiva: Sue Baden-Powell. Produção: Bill Block, Neill Blomkamp, Simon Kinberg. Elenco: Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley, Alice Braga, William Fitchner, Diego Luna, Wagner Moura. Estreia: 07/8/13

Depois do inesperado - ainda que justo - sucesso de "Distrito 9", que chegou a concorrer aos Oscar de melhor filme e roteiro adaptado em 2010, todo mundo em Hollywood estava curioso em saber qual seria o projeto seguinte de seu diretor, Neill Blomkamp. Inteligente e sabendo que em time que está ganhando não se mexe, o cineasta sul-africano resolveu então que o melhor a fazer seria manter o que havia dado certo em sua obra-prima (a crítica social através da ficção científica, seu amigo de infância Sharlto Copley e o equilíbrio entre drama e ação), injetar um orçamento mais generoso (que ultrapassou a barreira dos 100 milhões de dólares) e contar com a presença de astros populares (Matt Damon e Jodie Foster). Nem tudo deu exatamente certo: apesar do relativo sucesso nos EUA, "Elysium" não repetiu a mesma performance de "Distrito 9", dividiu a crítica e só conseguiu se pagar com a bilheteria mundial. Não deixa de ser injusto. Apesar de não ter o mesmo brilhantismo do filme mais conhecido de Blomkamp, "Elysium" é uma produção muito mais interessante do que a grande maioria dos lançamentos do gênero: diverte, faz pensar, é tecnicamente impecável e conta com um elenco internacional de fazer inveja a qualquer diretor muito mais experiente.

Com um filme tão impressionante como "Distrito 9" como cartão de visitas, não foi difícil a Neill Blomkamp escalar um time de sonhos para o elenco de "Elysium". além dos prestigiados Matt Damon e Jodie Foster (dois dos mais inteligentes e confiáveis astros de Hollywood), o cineasta contou com o mexicano Diego Luna e os brasileiros Alice Braga e Wagner Moura para dar vida a uma história fascinante sobre um mundo pós-apocalíptico onde a diferença de classes não é apenas endêmica: ela faz também a diferença entre a vida e a morte. Com uma impressionante direção de arte e uma fotografia assombrosa, "Elysium" é um filme de extrema urgência e relevância social, uma metáfora pouco sutil sobre a política de imigração e, melhor ainda, um entretenimento que jamais esquece sua principal função: divertir a plateia com cenas de ação empolgantes e personagens cativantes. Pode-se até dizer que em sua segunda metade as situações se atropelam um pouco, mas mesmo assim é difícil não concordar que sua mistura entre cinema e crítica social é construída com precisão cirúrgica - e que é virtualmente impossível desviar os olhos da tela do primeiro ao último minuto da sessão.


A trama se passa em 2154, e a Terra está completamente arruinada, sofrendo com escassez de recursos e uma superpopulação escravizada em subempregos e miséria. Sua condição miserável contrasta radicalmente com aquela que levam os felizardos que, com dinheiro o suficiente para isso, moram em uma estação espacial chamada Elysium, praticamente um clube de luxo, sofisticado e habitado por aqueles considerados a nata da sociedade. O único problema do local - mantido com mão de ferro pela secretária de defesa, Delacourt (Jodie Foster) - são as constantes tentativas de invasão por moradores da Terra, que procuram desesperadamente chegar até as milagrosas camas existentes por lá (e que curam qualquer doença). Uma dessas desesperadas é Frey (Alice Braga), cuja filha pequena sofre de leucemia: amiga de infância do operário Max (Matt Damon) - que abandonou a vida de pequenos crimes para viver em paz -, Frey acaba pedindo ajuda ao melhor amigo, que aceita o desafio quando ele mesmo é exposto à radiação em seu trabalho e se vê condenado a poucos dias de vida. Contando com o apoio logístico do rebelde Spider (Wagner Moura), Max vai fazer o possível para salvar-se e à filha de Frey - e para isso terá de bater de frente com o violento Kruger (Sharlto Copley), capaz de qualquer coisa para defender os privilégios da alta sociedade de Elysium.

Visualmente impressionante, "Elysium" é um filme de grande impacto, especialmente quando mostra os contrastes entre os moradores de uma Los Angeles completamente destruída e o luxo que envolve a estação espacial da classe privilegiada. Mesmo que o tema implore por um discurso mais incisivo em termos de crítica, porém, o roteiro prefere ater-se às regras da ficção científica, desenvolvendo mais uma história (fascinante e bem resolvida) do que uma tese de mestrado. Acerta em cheio nessa opção: sem jamais deixar de ilustrar sua simpatia pelos habitantes da Terra (sofridos, doentes, explorados, expostos a uma dura realidade de vida), Blomkamp conta sua história focando-se basicamente na trajetória de seu herói (vivido com garra por Matt Damon) e deixando a luta de classes como um tema incidental (potente, doloroso, relevante, mas incidental). Dessa forma, ele realiza um filme que é, ao mesmo tempo, um entretenimento dos mais empolgantes (em termos técnicos e emocionais) e um comentário socialmente importantíssimo - em especial em vista do que viria pela frente na política de imigração dos EUA da era Trump. Indispensável tanto pelo discurso quanto por suas qualidades artísticas, "Elysium" é um filme subestimado - mas que deve, com o passar do tempo, ter reconhecido seu devido valor.

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI (Alice doesn't live here anymore, 1974, Warner Bros, 112min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Robert Getchell. Fotografia: Kent L. Wakeford. Montagem: Marcia Lucas. Direção de arte: Toby Carr Rafelson. Produção: Audrey Maas, David Susskind. Elenco: Ellen Burstyn, Kris Kristofferson, Harvey Keitel, Diane Ladd, Jodie Foster. Estreia: 09/12/74

3 indicações ao Oscar: Atriz (Ellen Burstyn), Atriz Coadjuvante (Diane Ladd), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Ellen Burstyn) 

Nem a vítima, nem a compreensiva esposa do herói e muito menos um objeto sexual. Depois do sucesso estrondoso de "O exorcista" (73) - pelo qual foi indicada ao Oscar -, a atriz Ellen Burstyn queria voltar às telas em um papel que fosse o oposto de todos aqueles a que se sujeitava boa parte das intérpretes de sua geração. Foi assim que encontrou, dentre vários roteiros oferecidos pela Warner, uma estória escrita por Robert Getchell que oferecia tudo que ela buscava: uma personagem forte, uma história calcada na realidade e a possibilidade de demonstrar uma outra faceta de seu talento. Recusada por Shirley MacLaine, Barbra Streisand e até Diana Ross, a protagonista de "Alice não mora mais aqui" serviu de passaporte para que Burstyn finalmente levasse a estatueta da Academia - mas, mais importante ainda, foi a responsável por revelar à crítica e ao público que nem apenas de homens à margem da sociedade era feito o cinema do cineasta Martin Scorsese. Recém descoberto por seu elogiado "Caminhos perigosos" (73), o  então jovem realizador mostrou-se à altura do compromisso e preparou terreno para aquele que seria a primeira de suas várias obras-primas: "Taxi driver", lançado em 1976.

Na verdade o diretor nova-iorquino só chegou até Ellen Burstyn por recomendação de outro cineasta então começando sua escalada rumo ao prestígio, Francis Ford Coppola. Procurado pela atriz para que desse sugestões de nomes capazes de dirigir o projeto que estava em suas mãos, o homem que acabava de conhecer aplausos unânimes por "O poderoso chefão" (72) - e que viria a fazer história com duas produções indicadas ao Oscar de melhor filme no mesmo ano de 1974 - indicou o nome de Scorsese. Não muito certa em contratar alguém cujo cartão de visitas era um filme violento e extremamente masculino, Burstyn não demorou a ser convencida do entusiasmo que Scorsese demonstrava pelo roteiro - e foi premiada com uma equipe feminina da qual faziam parte a esposa de George Lucas (Marcia, responsável pela edição) e Bob Rafelson (Toby Carr, a desenhista de produção). Surgia, então, uma parceria que faria acontecer, diante das câmeras, momentos de um naturalismo raros, alcançados depois de exaustivos ensaios e inspiradas improvisações.


Também indicado ao Oscar (que perdeu para o incensado "Chinatown"), o roteiro de Robert Getchell usa e abusa de um tipo de cinema bastante influenciado por John Cassavetes - e serviu, como afirmado pelo próprio Scorsese, como uma tentativa sua de emular o espírito dos filmes estrelados por Bette Davis e Joan Crawford na era de ouro de Hollywood. Sem artifícios de estilo e centrado basicamente em seus personagens, "Alice não mora mais aqui" é um exercício minimalista do diretor, uma história simples e direta, que abdica de grandes reviravoltas e pode ser considerado, sem demérito algum, como seu filme de narrativa mais convencional. Pode-se dizer que é a vida como ela é sob o olhar de um Martin Scorsese menos agressivo e pessimista em relação ao mundo - e uma crônica social e familiar agradável e de fácil comunicação com a plateia, seja ela de onde for. Ao eleger como protagonista uma mulher comum, com problemas ordinários e relações tão falíveis quanto as de qualquer espectador, o filme acerta em cheio - ainda que sua falta de ousadia talvez deixe uma incômoda sensação de simplicidade excessiva.

Simplicidade é o que move o roteiro de Getchell e a direção de Scorsese - assim como é simplicidade também a maior característica da vida de Alice Hyatt (Ellen Burstyn), que vive em Socorro, Novo México, na companhia do marido e do único filho, o precoce Tommy (Alfred Lutter). Sua repentina viuvez acaba por lhe servir como empurrão para finalmente tomar as rédeas de sua vida, e, decidida, ela viaja com o menino de volta para sua cidade natal, Monterey, na California, onde planeja retomar uma carreira de cantora noturna. No meio do caminho, no Arizona, ela arruma emprego como garçonete e se envolve com um homem mais jovem, Ben (Harvey Keitel) - com quem encontra uma série de problemas inesperados - e com o fazendeiro David (Kris Kristofferson), que aparenta ser o homem que irá fazer dela uma mulher mais feliz e completa. Porém, aos poucos, Alice começa a perceber que é provável que sua liberdade e seu filho importem mais do que uma companhia masculina - e passa a questionar seu estilo de vida sentimental.

Narrado de forma fluida e natural, "Alice não mora mais aqui" é um filme atípico na carreira de Martin Scorsese, mais afeito a neuroses e obsessões urbanas do que a personagens mais banais. Porém, na interpretação potente de Ellen Burstyn, a vida de Alice Hyatt torna-se, por si mesma, o retrato do sonho simples de felicidade e paz de espírito. Não é uma obra-prima, mas é um filme importante dentro de seu contexto social e principalmente é uma aula de minimalismo e delicadeza. É a prova de que o cineasta Scorsese já nasceu praticamente pronto!

domingo

UM DIA MUITO LOUCO

UM DIA MUITO LOUCO (Freaky friday, 1976, Walt Disney Productions, 95min) Direção: Gary Nelson. Roteiro: Mary Rodgers, romance de sua autoria. Fotografia: Charles F. Wheeler. Montagem: Cotton Warburton. Música: Johnny Mandel. Direção de arte/cenários: John B. Mansbridge, Jack Senter/Robert Benton. Produção: Ron Miller. Elenco: Barbara Harris, Jodie Foster, John Astin, Patsy Kelly, Dick Van Patten, Marc McClure. Estreia: 17/12/76

O ano de 1976 foi, no mínimo, bastante estranho para Jodie Foster, então uma atriz-mirim se encaminhando para tornar-se uma intérprete adulta: não apenas perdeu a chance de estrelar o que seria uma das maiores bilheterias da história ("Star Wars", onde faria o papel da Princesa Leia) por problemas de contrato com a Disney, como confirmou-se uma das mais talentosas promessas de sua geração ao mostrar duas facetas completamente opostas de seu trabalho. No início do ano viveu a jovem prostituta Iris no cultuado "Taxi driver", de Martin Scorsese - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante - e no final do ano estava nas telas do cinema em mais uma comédia inconsequente do estúdio do Mickey: em "Um dia muito louco", ela provou que também sabia fazer rir, tirando de letra o desafio de viver não apenas uma pré-adolescente rebelde mas também sua mãe certinha, que toma seu corpo devido a uma troca inexplicável e que torna seu dia um pandemônio de que somente o cinema comercial americano é capaz de imaginar. Na verdade, nem ele: o roteiro de Nancy Rodgers é baseado em seu romance, publicado em 1972 e que rendeu, posteriormente, duas refilmagens: uma em 1995 (com Shelley Long e Gaby Hoffman) e outra, bem-sucedida, estrelada por Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan. Leve, despretensiosa e um clássico absoluto da Sessão da Tarde, "Um dia muito louco" é um filme de sabor nostálgico, em que até seus "defeitos" especiais contribuem para a sensação de voltar à infância.

Do visual cafona à configuração social que contrasta com as conquistas femininas das últimas décadas, tudo em "Um dia muito louco" remete imediatamente aos anos 70, um período de ouro para as produções familiares da Disney - estúdio pelo qual Jodie Foster fez vários filmes em sua infância e pré-adolescência. Uma produção nitidamente com ambições de conquistar as plateias infanto-juvenis, a comédia dirigida por Gary Nelson - veterano de telefilmes e episódios de séries de TV - é um primor de entretenimento descompromissado e bem-humorado. Contando com atuações inspiradas de Foster e Barbara Harris, ambas indicadas ao Golden Globe de melhor atriz em comédia ou musical (perderam a estatueta para Barbra Streisand, por "Nasce uma estrela"), o filme conquista pelo ritmo ágil, pela simpatia do elenco e pelas situações criadas pelo roteiro, que brincam não apenas com as percepções equivocadas de mãe e filha sobre suas rotinas mas também sobre como o mundo feminino (ou ao menos aquele dos EUA do final da década) se comportava diante de situações domésticas e profissionais. Mesmo que pareça estender-se demais em seu ato final - um clímax repleto de ação e cenas do mais puro pastelão (um deleite para as crianças) - e sofra com um tanto de superficialidade no desenvolvimento de suas personagens, o filme de Nelson entrega exatamente o que promete: diversão.


A trama é simples e conhecida: em uma sexta-feira 13 aparentemente normal, uma dona-de-casa dedicada ao lar, ao marido e ao casal de filhos (Barbara Harris) se vê com a personalidade da filha pré-adolescente, Annabel (Jodie Foster) - uma jovem ligeiramente desleixada e rebelde que também percebe estar vivendo sob a perspectiva de sua mãe. A princípio se divertindo com a situação, aos poucos as duas notam que estão diante de um grande problema, já que justamente nesse dia o pai da família (John Astin) conta com a presença de ambas em uma recepção que pode lhe dar uma promoção no trabalho. A confusão, então, está armada: na pele de sua mãe, Annabel precisa lidar com a administração de uma casa (com eletrodomésticos que não sabe utilizar e problemas com fornecedores e uma empregada doméstica pouco afável) e sua mãe, chocada com o dia-a-dia da jovem, tenta disfarçar o caos que se instala quando ela precisa fazer parte do time da escola em uma partida importante de beisebol. Não bastasse isso, Annabel aproveita que está com o visual de sua mãe para tentar convencer o jovem vizinho, Boris (Marc McClure), de que é a namorada perfeita para ele apesar de seu jeito descuidado.

De posse de uma história surreal e que em nenhum momento tenta explicar-se além do superficial (o que, de certa forma, é melhor do que explicações rasteiras), o roteiro de "Um dia muito louco" leva o espectador a noventa minutos de um humor pueril e recheado de sequências que remetem diretamente a um cinema sem neuroses e totalmente desprovido de pretensões - um contraponto interessante ao que começava a acontecer junto a cineastas como Francis Ford Coppola, Sidney Lumet e Martin Scorsese. O fato de Jodie Foster ser a ponte entre esses dois estilos opostos de cinema não deixa de ser curioso - e uma prova do talento incrível da então jovem atriz, que se tornaria uma das mais respeitadas e inteligentes da Hollywood dos anos 90 em diante. Sua criação como a intrépida Annabel Andrews (em papel para o qual também foi testada Debra Winger) é definitivamente a prova de sua versatilidade e carisma. "Um dia muito louco" é diversão simples e descompromissada - com o selo de qualidade da Disney.

sábado

JOGO DO DINHEIRO

JOGO DO DINHEIRO (Money monster, 2016, TriStar Pictures, 98min) Direção: Jodie Foster. Roteiro: Jamie Linden, Alan DiFiore, Jim Kouf, estória de Alan DiFiore, Jim Kouf. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Matt Chesse. Música: Dominic Lewis. Figurino: Susan Lydall. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Lydia Marks. Produção executiva: Tim Crane, Kerry Orent, Regina K. Scully, Ben Waisbren. Produção: Lara Alameddine, George Clooney, Daniel Dubiecki, Grant Heslov. Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Jack O'Connell, Dominic West, Caitriona Balfe, Giancarlo Esposito, Christopher Denham. Estreia: 12/5/16

Atriz consagrada com dois Oscar e cineasta bissexta, Jodie Foster gosta de retratar, em ambas as funções, personagens em situações-limite, à beira (ou durante) um ataque de nervos. Foi assim com a mãe solteira, vivida por ela mesma, que tentava lidar com a pressão de ter um filho superdotado, em "Mentes que brilham" (1991), com a recém desempregada (Holly Hunter) que se reencontrava com todas os problemas de seu clã, em "Feriados em família" (1995), e com o pai de família (Mel Gibson) que luta contra a depressão ao iniciar uma inusitada amizade com um bicho de pelúcia, em "Um novo despertar" (2011). E é assim também com o personagem central de seu quarto longa-metragem, "Jogo do dinheiro": em estado de absoluto desespero (por razões plenamente compreensíveis), o jovem Kyle Budwell é o mais novo membro da galeria de angustiados protagonistas da filmografia de Foster. Interpretado com energia e dedicação por Jack O'Connell, ator revelado por Angelina Jolie em "Invencível" (2014), Kyle é, certamente, o mais trágico dentre todos, e também o mais crítico: com base em um roteiro sem medo de remexer em uma das maiores feridas americanas (a especulação financeira responsável pela imensa crise econômica enfrentada pelo país). Uma interessante mistura entre "Wall Street: poder e cobiça" (1987) e "Rede de intrigas" (1976), "Jogo do dinheiro" não alcançou muita repercussão nos EUA (talvez seja inteligente e adulto demais para isso), mas merece ser descoberto - se não é o melhor filme da diretora, ao menos é bastante superior à média e apresenta um elenco que dispensa comentários.

George Clooney - um dos produtores do filme, o que o confirma como um astro de cinema com uma agenda política atuante e questionadora - surge em cena como Lee Gates, o exibicionista e um tanto arrogante consultor financeiro que apresenta um programa de televisão chamado "Money Monster", no qual comenta os altos e baixos da bolsa de valores e aconselha os telespectadores a respeito de investimentos em ações. Uma de suas dicas, no entanto, acaba por surpreender até mesmo aos mais experientes analistas do mercado, e uma empresa aparentemente sólida, perde milhões e milhões de dólares de uma hora para outra. O que parecia apenas uma situação comum em um meio tão instável, porém, acaba com consequências imprevisíveis: durante a apresentação de um programa ao vivo, o cenário é invadido por Kyle Budwell (Jack O'Connell), um zelador que perdeu todo o dinheiro que tinha ao seguir a orientação de Gates e exige, em rede nacional, que sua história seja contada e que os reais motivos da queda das ações seja explicado. Enquanto o prédio é evacuado - além de uma arma de mão o rapaz também obriga Gates a vestir um colete acoplado a uma bomba - a diretora do programa, Patty Fenn (Julia Roberts), tenta ganhar tempo e encontrar uma maneira de convencer Kyle a desistir de seus planos. Com ajuda externa, ela tenta descobrir a verdade por trás da empresa de Walt Camby (Dominic West) - que parece ter muito mais a esconder do que aparentava a princípio.


Ao tentar equilibrar a tensão da relação entre Kyle e Gates - claustrofóbica, opressiva e muitas vezes perigosa - com a investigação comandada por Patty através da cabine de onde mantém o programa no ar, o roteiro não chega a encontrar um meio-termo ideal, mantendo um ritmo irregular que nem mesmo o carisma de seus atores é capaz de esconder. Competente em arrancar atuações memoráveis de seus atores e experiente em lidar com intrigas de bastidores - um dos episódios da segunda temporada de "House of Cards" tem a sua assinatura -, Jodie Foster imprime um tom de urgência e relevância à trama, mas nem sempre consegue conexão com o espectador. Talvez o tema e os personagens pouco simpáticos sejam os maiores responsáveis, mas é somente no terço final do filme, quando finalmente os três protagonistas parecem estar no mesmo time - e lutando contra as injustiças e a corrupção do sistema financeiro - é que "Jogo do dinheiro" deslancha. Gradualmente aumentando a pressão sobre Kyle e revelando ao público que por trás de sua ingenuidade há também um esquema de interesses escusos e putrefatos, Foster vai aos poucos ganhando terreno para um final explosivo - alterado a seu próprio pedido e talvez menos climático do que o desfecho original, mais cínico e irônico.

Mesmo sem traduzir o roteiro, considerado como um dos melhores inéditos de 2014, em um filme capaz de mudar a percepção da audiência sobre o assunto tratado - e nem mesmo transformá-lo em uma produção de grande impacto, Jodie Foster consegue sair de sua zona de conforto como diretora, deixando de lado os dramas familiares para explorar um terreno mais pantanoso. Demonstra segurança - em especial na direção de atores, provavelmente herança de seus trabalhos com gente do naipe de Scorsese, Jonathan Demme e Robert Zemeckis - e evita, felizmente, estragar a tensão crescente com piadinhas infundadas ou inapropriadas. "Jogo do dinheiro" é um filme sério - o que não significa chato ou pedante - e adulto, realizado para aquele tipo de audiência que procura outras opções além de super-heróis e efeitos especiais mirabolantes. Fala de pessoas e de como atos trazem consequências - previsíveis ou não, passíveis ou não de conserto. É um filme quase amargo, mas com um sabor de verdade, o que muito falta no cinema norte-americano atual. Pode tornar-se um clássico ou um filme injustiçado de uma diretora muito inteligente: só o tempo dirá.

domingo

DEUS DA CARNIFICINA

DEUS DA CARNIFICINA (Carnage, 2011, SBS Productions/Constantin Film Produktion, 80min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Yasmina Reza, peça teatral de Yasmina Reza. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Herve de Luze. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Frankie Diago. Produção executiva: Javier Méndez. Produção: Said Ben Said. Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly. Estreia: 01/9/11 (Festival de Veneza)

Roman Polanski dirigindo uma comédia? Baseada em texto teatral? Estrelado por Jodie Foster e Kate Winslet? Antes que o estranhamento que tais questões possam suscitar, é bom lembrar que nada disso é exatamente novo. Polanski assinou, no final dos anos 60, o escrachado “A dança dos vampiros”, um quase clássico camp que tinha no elenco, além dele mesmo, aquela que seria sua esposa e morreria assassinada a mando de Charles Manson em agosto de 1969 – e que prova sem contestação que ele sabe ser engraçado. Também assinou a direção de “A morte e a donzela”, peça escrita pelo chileno Ariel Dorfman – o que não faz dele um estreante em transpor teatro para as telas. E Jodie Foster e Kate Winslet não são novatas em fazer rir – Jodie fez um hilariante par com Mel Gibson em “Maverick” (94) e Winslet demonstrou bom timing cômico em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (04), que não era comédia mas tinha lá seus momentos de graça. Sendo assim, “O deus da carnificina”, adaptado com extrema fidelidade da peça da francesa Yasmina Reza não deve ser visto como um terreno novo a ser desbravado pelo cineasta polonês – mesmo porque a quase claustrofobia do filme remete a algumas das mais célebres obras de sua carreira, como “O inquilino”, “Repulsa ao sexo” e “O bebê de Rosemary” (68), não à toa parte da chamada “trilogia do apartamento” – na qual o texto de Reza poderia tranquilamente ser inserida, não fosse o tom bem menos sóbrio e mais leve. Uma comédia muito mais afeita a sorrisos do que gargalhadas, “O deus da carnificina” também é coerente com a forma quase pessimista de Polanski enxergar o mundo e o ser humano. Não é à toa que seus personagens vão demonstrando, com o passar das horas, lados pouco louváveis de suas personalidades anteriormente tão polidas pelo verniz da sociedade.
O estopim da trama é simples e eficiente: um menino de onze anos, depois de uma discussão, agride com violência um colega da mesma idade. Cientes de sua superioridade enquanto adultos e civilizados, os pais de ambos se reúnem em uma tarde para conversar e tomar as devidas providências. No apartamento classe média de Michael e Penelope Longstreet (John C. Reilly e Jodie Foster) – os pais da vítima – os quatro aparentemente chegam rápido à conclusão de que as crianças devem se encontrar e que o agressor deve pedir desculpas ao agredido. Tudo perfeito, simples e ágil como convém. Porém, o que parecia já resolvido começa a dar sinais de problema quando outros assuntos, aparentemente não-relacionados à principal questão, vêm à tona. A princípio com ironias e gradualmente se tornando cada vez mais beligerante e agressiva, a conversa se transforma em um ringue, onde os dois casais partem para a briga – uns contra os outros e, conforme outros questionamentos surgem, com alianças inesperadas. Nesse meio-tempo, Alan e Nancy Cowan (Christoph Waltz e Kate Winslet) descem do seu pedestal de superioridade e encaram a face mais atávica e competitiva da humanidade.
A ousadia de Polanski em restringir sua narrativa em apenas um pequeno apartamento nova-iorquino (com uma ou outra cena de transição no corredor diante de sua porta) é a maior qualidade da versão cinematográfica de “O deus da carnificina”. Enquanto outros cineastas tentariam disfarçar as origens de seu material com subterfúgios artificiais e ineficientes, ele assume sem medo o tom verborrágico da trama, mas consegue, graças a seu talento e a seus anos de estrada, transformar em trunfo o que poderia ser um problema: frequentemente usando distorções nas lentes da câmera (cortesia de seu habitual colaborador Pawel Edelman) como forma de enfatizar o quase pesadelo surreal que se torna o que deveria ser uma simples tarde entre adultos, Polanski sublinha o tema principal da história, desnudando sem dó nem piedade os reais sentimentos e pensamentos da classe média, protegida por sua capa de respeitabilidade até que as coisas fujam de seu controle. Ao escalar para seus protagonistas um time de atores com imagens absolutamente respeitáveis e sérias, o diretor também critica, através de uma brilhante metáfora interna, a grande diferença entre o “parecer” e o “ser”. Ninguém fica impune ao deus da carnificina citado por Alan em um momento do texto e que é representado pela força bruta ao invés da inteligência – nem mesmo as belas tulipas com que Penelope enfeita sua mesa de centro para receber suas visitas.


Como em qualquer bom texto teatral, os personagens de “O deus da carnificina” vão se revelando aos poucos, dando a seus intérpretes (todos atores excepcionais) a chance de mostrar diversas facetas de seus talentos. O Michael de John C. Reilly (único dentre os atores a ainda não ter ganho um Oscar) é, aparentemente, um homem de boa paz, um vendedor de utensílios domésticos que tenta resolver tudo na base da conversa e da sociabilidade extrema – mas que não hesita em abandonar o hamster da filha pequena no esgoto da cidade ou vangloriar-se de ter sido líder de uma gangue quando criança. Sua esposa, Penelope (Jodie Foster em uma atuação que vai crescendo diante do espectador até explodir na reta final) é uma escritora especializada em Arte e História da África a quem a civilidade é primordial nos relacionamentos interpessoais – ao menos até que seu modo de lidar com a família e o casamento sejam postos em xeque. Alan (Christoph Waltz finalmente deixando um pouco de lado os trejeitos que repete constantemente) é o típico homem que dedica seus dias na luta por mais e mais dinheiro – é advogado de uma empresa farmacêutica em vias de enfrentar uma ação penal – e vê o valor das pessoas baseado em suas contas bancárias e seu sucesso profissional. E Nancy (Kate Winslet, a melhor em cena) é uma corretora de investimentos chique, discreta e delicada que perde as estribeiras quando deixa que o álcool lhe tire todos os filtros de polidez e escrúpulos morais e éticos.
A dinâmica de “O deus da carnificina” é a desculpa perfeita para Roman Polanski exercitar seu cinema simples e direto. Em menos de uma hora e meia de projeção, ele destrói o muro de convenções sociais que possibilita a convivência entre os seres humanos, usando para isso não um grupo de homens pré-históricos ou soldados em plena batalha. A maior ironia (e o maior acerto) de Yasmina Reza em seu trabalho é deixar que pessoas bem-nascidas, bem-resolvidas e bem-educadas sejam o objeto de sua tese (pessimista? realista? exagerada?) de que sem o verniz de uma organização social e comunitária os homens que se gabam de utilizar-se da mais alta tecnologia, de conhecer a fundo obras de arte e de saber frequentar as mais altas rodas da sociedade não passam, no fundo, de homens das cavernas, predispostos a, em qualquer momento, apelar para a violência e a agressão como forma de fazer prevalecer seu ponto de vista. E Polanski, em um toque de gênio, acrescenta à peça de Reza um epílogo silencioso e quase imperceptível que mostra que, ao mesmo tempo em que a civilização como a conhecemos tem a fragilidade de uma flor, ainda existe esperança onde menos se espera – e da forma mais simples possível. Mais do que mostrar-se otimista, o vencedor do Oscar por “O pianista” mostra-se de uma ironia sofisticada e contundente. O inferno são os outros.

OS AGENTES DO DESTINO

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