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segunda-feira

CORPO EM EVIDÊNCIA

 


CORPO EM EVIDÊNCIA (Body of evidence, 1992, Constantin Film/Dino De Laurentiis Company, 99min) Direção: Uli Edel. Roteiro: Brad Mirman. Fotografia: Douglas Milsome. Montagem: Thom Noble. Música: Graeme Revell. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Victoria Paul/Jerie Kelter. Produção executiva: Stephen Deutsch, Melinda Jason. Produção: Dino De Laurentiis, Martin Moscowicz. Elenco: Madonna, Willem Dafoe, Joe Mantegna, Jurgen Prochnow, Frank Langella, Anne Archer, Julianne Moore. Estreia: 15/01/93

Apenas noventa dias separam o lançamento do livro "Sex", do álbum "Erotica" e do filme "Corpo em evidência" e este fato não é mera coincidência. Além de girarem em torno de sexo (em suas mais complexas variações), os três produtos tem algo mais em comum: a cantora/atriz Madonna, então no auge de sua cruzada contra o conservadorismo e a hipocrisia vigente no mundo em geral e nos EUA em particular. Dirigido pelo alemão Uli Edel e produzido pelo veterano Dino De Laurentiis (que escolheu a estrela pop pessoalmente para o projeto), "Corpo em evidência" serviu como uma luva para os interesses messiânicos da artista, mas acabou se espatifando nas bilheterias. Com uma renda mundial de apenas 13 milhões de dólares - nem metade de seu custo - e críticas nem um pouco alvissareiras (em especial relacionadas ao fraco desempenho de sua atriz central), o filme acabou se tornando um dos maiores fiascos da década de 1990 e provou que, apesar do descomunal talento de Madonna em provocar e despertar polêmicas (além de suas óbvias qualidades musicais), sua trajetória no cinema ainda era um desafio a ser vencido. E nem mesmo a presença de atores respeitados como Willem Dafoe e Frank Langella conseguiu salvar o filme do desastre.

Assim como em "Instinto selvagem" - grande sucesso lançado meses antes e que também se utilizava do erotismo como chamariz de bilheteria -, "Corpo em evidência" lança mão de elementos policiais para contar uma história repleta de reviravoltas e com uma protagonista feminina de comportamento dúbio e sexualmente agressivo. Aqui a personagem central é Rebecca Carlson, a dona de uma galeria de arte que é acusada de provocar a morte de seu amante mais velho, Andrew Marsh (Michael Foster), vítima de um ataque cardíaco fulminante depois de uma agitada noite de sexo. O fato de cocaína ser encontrada no organismo da vítima - o que apressou a tragédia - e a notícia de que Rebecca é a maior beneficiária de seu testamento bastam para que a polícia a indicie e a leve a julgamento. Para defendê-la, Rebecca contrata os serviços do conservador Frank Dulaney (Willem Dafoe), que acaba sendo enredado em uma teia de sedução engendrada por sua cliente: os dois iniciam uma relação baseada em dominação e sexo violento, situação que o faz questionar a inocência de sua cliente. Conforme o relacionamento vai avançando, Dulaney parte em busca da verdade, que pode estar ligada à secretária de Marsh, a bela e discreta Joanne Braslow (Anne Archer).

 

Centrado em sequências que usam e abusam do corpo de Madonna e de sua falta de pudor em testar os limites da censura - o filme teve cenas cortadas em sua exibição nos EUA -, "Corpo em evidência" peca, no entanto, em desenvolver a contento os conflitos paralelos de sua trama. Não há profundidade alguma no roteiro de Brad Mirman, que perde preciosas oportunidades de explorar a tensa relação entre seus protagonistas - tanto em termos sexuais quanto éticos - e seus desdobramentos dramáticos (Julianne Moore interpreta a esposa de Dulaney, mas é subaproveitada em cenas quase constrangedoras). A trama policial tampouco é empolgante, caminhando em um ritmo que impede a conexão do espectador - e portanto seu interesse. Edel não consegue nem mesmo transformar as cenas eróticas em algo sexy, com uma fotografia escura que esconde os corpos de Madonna e Defoe mesmo em seus momentos mais quentes. Também não ajuda em nada o texto repleto de clichês e a atuação quase mecânica de seus atores - a começar por Madonna, incapaz de convencer como mulher fatal apesar de seus nítidos esforços. Nem particularmente bonita ela está, prejudicada por um figurino sóbrio em excesso, que apaga seu carisma de estrela - algo que ela recuperaria poucos anos depois, quando assumiu o papel-título do musical "Evita" (1996) e chegou a ganhar um Golden Globe de melhor atriz.

Para quem não exige muito de um filme policial com pitadas de erotismo, "Corpo em evidência" pode agradar, justamente por não tentar fugir dos elementos clássicos do gênero e tentar surpreender com um final tirado da manga. Como cinema é bastante problemático - desde o roteiro morno até a direção apática - e nem mesmo a oportunidade de discutir a polêmica prática do sadomasoquismo é aproveitada de forma inteligente. Não fosse a ousadia de apresentar cenas mais adultas do que a maioria das produções hollywoodianas, seria uma produção bastante esquecível - se não absolutamente medíocre. E não deixa de ser sintomático que um filme policial seja mais lembrado por uma sequência específica - Madonna queimando o peito de Willem Dafoe com cera quente - do que por sua trama.

quarta-feira

O CONTADOR DE CARTAS

 


O CONTADOR DE CARTAS (The card counter, 2021, Focus Features, 111min) Direção e roteiro: Paul Schrader. Fotografia: Alexander Dynan. Montagem: Benjamin Rodriguez Jr.. Música: Robert Levon Been, Giancarlo Vulcano. Figurino: Lisa Madonna. Direção de arte/cenários: Ashley Fenton/Mary Goodson. Produção executiva: Carte Blanche, Catherine Boily, Tiffany Boyle, Lee Broda, Philip H. Burgin, Anders Erdén, Santosh Govindaraju, Patrick Hibler, Ruben Islas, Nadine Luque, Martin McCabe, Joel Michaely, Kathryn Moseley, Patrick Muldoon, Mitch Oliver, William Olsson, Stanley Preschutti, Elsa Ramo, Jeff Rice, Jason Rose, Martin Scorsese, Mick Southworth, Kyle Stroud, James Swarbrick, Elton Tsang, Ken Whitney, Liz Whitney. Produção: Lauren Mann, Braxton Pope, David M. Wulf. Elenco: Oscar Isaac, Tye Sheridan, Willem Dafoe, Tiffany Haddish, Alexander Babara. Estreia: 02/9/2021 (Festival de Veneza)

Há mais em comum entre Travis Bickle - vivido por Robert DeNiro em "Taxi driver" (1976) -, o Reverendo Ernst Toller - interpretado por Ethan Hawke em "Fé corrompida (2017) - e William Tell, o protagonista de "O contador de cartas", além do fato de terem sido todos criados pelo roteirista Paul Schrader. Solitários, torturados psicologicamente e à beira de um iminente ataque de nervos - que pode explodir como um surto de violência -, eles formam, a seu modo, um grupo de protagonistas quase silenciosos que habitam um universo particular, cercado por uma constante tensão e pela expectativa de tragédias. E Tell, interpretado por Oscar Isaac, se não flerta diretamente com o perigo da noite nova-iorquina ou a pressão dos dogmas religiosos, precisa lidar com os próprios demônios, um passado traumático e uma inesperada relação que pode lhe servir como caminho para a redenção.

Tell é, como deixa bem claro o título do filme, um contador de cartas, ou seja, um jogador que vai de cassino em cassino ganhando dinheiro no blackjack graças a seu talento de calcular, na hora da partida, as possibilidades numéricas do jogo. Recém saído de uma pena de oito anos na prisão - onde desenvolveu seu talento -, ele leva uma vida discreta e quase monástica, evitando apostar alto para fugir dos radares. Sua existência praticamente invisível sofre uma transformação, porém, quando duas pessoas surgem em seu caminho com intenções bastante diversas. Primeiro, La Linda (Tiffany Hadish), que trabalha para um grupo de investidores que lhe oferece patrocínio em suas aventuras nos jogos - em troca de uma comissão. Depois, é o jovem Circk Baufort (Tye Sheridan, em papel herdado de Shia LaBeouf), que se revela filho de um antigo colega seu da época em que treinavam métodos de tortura sob as ordens de um cruel instrutor: Circk quer vingar-se de tal criminoso - agora um bem-sucedido empresário de nome John Gordo (Willem Dafoe) - por ter destruído sua família, mas Tell prefere oferecer ao rapaz uma viagem por cassinos do país como forma de lhe fazer mudar de ideia. Tal situação o aproxima não apenas de seu passado, mas também de uma chance de deixar para trás uma vida de violência e truculência.

Filmado em um período de apenas vinte dias - sem contar a pausa imposta pela contaminação por Covid-19 de um membro da equipe - e frequentemente utilizando-se apenas de um ou dois takes por cena, "O contador de cartas" é uma produção econômica por vários motivos além do financeiro. Com uma atuação minimalista, Oscar Isaac constrói seu William Tell com total parcimônia de recursos, mas nunca de excelência: quieto, discreto, misterioso, Tell só aos poucos se permite revelar seus reais sentimentos - e mesmo assim de forma a não deixar que eles ultrapassem o limite autoimposto. Suas relações - com Circk, com La Linda, com Gordo - são forjadas a sofrimento e angústias que ele só desabafa em seus diários, uma espécie de confessor que não o julga ou critica. Em um desempenho exemplar (mais um em uma carreira em franca ascensão), Isaac ousa criar um protagonista que não busca a simpatia incondicional do espectador - e para isso conta com uma edição propositalmente truncada, efeitos de fotografia bastante eficientes e um roteiro quase incômodo de Schrader, um cineasta cuja visão de mundo não pode ser considerada exatamente otimista - e cujo comportamento frequentemente agressivo chegou a preocupar a Focus Features, distribuidora do filme, que pediu a ele que se afastasse das redes sociais durante o período de lançamento para não prejudicar a repercussão da produção.

Considerado pelo ex-presidente norte-americano Barack Obama como um de seus filmes preferidos da temporada 2021, "O contador de cartas" é, também, a definição perfeita de uma produção independente. Com nada menos que 20 produtores executivos creditados (incluindo Martin Scorsese, parceiro de Schrader em quatro oportunidades), o filme ganha em qualidade justamente por essa liberdade. Sem precisar se ater às amarras de uma produção comercial de um grande estúdio, Paul Schrader pode exercitar suas idiossincrasias e seu estilo seco, em uma narrativa sofisticada e adulta que acerta em não subestimar a inteligência do espectador e evitar a violência explícita: ao contrário do clímax sangrento de "Taxi driver", o cineasta dessa vez opta por sugerir mais do que mostrar. Pode soar um tanto lento para quem busca um filme de ação, mas aqueles que comprarem seu estilo elegante e sutil podem ser positivamente surpreendidos.

O PLANO PERFEITO


O PLANO PERFEITO (Inside man, 2006, Universal Pictures, 129min) Direção: Spike Lee. Roteiro: Russell Gewirtz. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Donna Berwick. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Geore DeTitta Jr.. Produção executiva: Karen Kehela Sherwood, Jon Kilik, Daniel M. Rosenberg, Kim Roth, Christian Stibbe. Produção: Brian Grazer. Elenco: Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Willem Dafoe, Christopher Plummer, Chiwetel Ejiofor. Estreia: 20/3/2006

Um dos filmes mais populares da carreira de Spike Lee, "O plano perfeito" é, também, um de seus projetos menos pessoais. Assumindo o comando da produção depois da saída do diretor original - Ron Howard abandonou o barco para realizar "A luta pela esperança", com Russell Crowe -, Lee deixou de lado a maioria de suas marcas registradas para assinar uma obra inserida em um subgênero de grande tradição cinematográfica - os filmes de roubo  - e que, com um elenco de nomes conhecidos, não teve dificuldade em encontrar seu público. Com uma renda de mais de 180 milhões de dólares e elogios da maior parte da crítica, o 17º longa-metragem de Lee abraça todas as convenções do estilo e só não se tornou uma pequena obra-prima devido ao roteiro um tanto confuso de Russell Gerwitz, que insiste em reviravoltas por vezes desnecessárias e no desenvolvimento raso de seus personagens - nenhum deles carismático o bastante para despertar a torcida do espectador.

O filme começa com um monólogo de Dalton Russell (Clive Owen), explicando como aconteceu o roubo a banco no qual ele tomou parte. Em um flashback, o público é então jogado ao momento em que Dalton e seus cúmplices entram em uma agência do Manhattan Trust Bank de Nova York. Mascarados e armados, eles dão início à ação criminosa, tomando funcionários e clientes como reféns. Quem é chamado para comandar a resposta ao assalto é o detetive Keith Frazier (Denzel Washington), que não demora a chegar ao local com o parceiro, Bill Mitchell (Chiwetel Ejiofor) e unir-se a outro líder da polícia, o Capitão John Darius (Willem Dafoe). Sem saber ao certo quantas pessoas estão mantidas dentro do banco - e nem ao menos com quantos criminosos estão lidando - Frazier e seus colegas começam a dialogar com Russell, que aparenta não ter a menor pressa em concluir seu roubo e faz exigências surpreendentes para liberar os prisioneiros. A situação fica ainda mais complexa quando entra em cena Madeline White (Jodie Foster), contratada pelo dono do banco, Arthur Case (Christopher Plummer), para impedir que um cofre secreto seja descoberto e tenha seu conteúdo exposto.


 

Dirigindo com inteligência mas sem os rasgos de ironia e fúria de seus trabalhos mais conhecidos, Spike Lee faz de "O plano perfeito" um filme correto mas nunca brilhante. Tudo está em seu devido lugar: a trilha sonora de Terence Blanchard (uma das poucas marcas registradas do cineasta), o elenco acima de qualquer crítica (mais uma colaboração entre Lee e Denzel Washington), a fotografia elegante de Matthew Libatique (que seria indicado ao Oscar alguns anos depois, por "Cisne negro"), que substitui as cores quentes por uma paleta mais sóbria e claustrofóbica. Porém, apesar de suas inúmeras qualidades - devidamente louvadas pela crítica -, o filme falha em conectar-se emocionalmente com o espectador. A opção do roteiro em não aprofundar seus personagens e, com uma pequena exceção ao Keith Frazier vivido por Denzel, não fornecer informações de seu passado ou suas motivações, pode até ser interessante - focar no momento da ação tem prós e contras em uma narrativa -, mas impede o espectador de realmente se importar com os desdobramentos além do que está no centro da trama.  O excesso de questões a serem resolvidas também atrapalha - o que Arthur Case está escondendo em seu cofre pessoal? Por que Dalton Russell escolheu justamente o Manhattan Trust Bank? Quem dentre as pessoas interrogadas por Frazier é cúmplice no assalto? O exagero de perguntas (nem todas respondidas a contento) é o calcanhar de Aquiles de "O plano perfeito".

Com um roteiro que força suas reviravoltas - ingrediente básico do gênero - e não consegue deixar de ser mais confuso do que surpreendente, "O plano perfeito" peca ao negar ao público um elemento crucial: a diversão. Ao contrário de Steven Soderbergh e sua trilogia iniciada com "Onze homens e um segredo" (2000), que aposta no humor e na leveza para seduzir a plateia, Spike Lee prefere se levar a sério demais, optando por conduzir o público em um emaranhado de pistas e personagens dúbios que jamais conquistam o espectador completamente. O clímax frio tampouco ajuda a elevá-lo acima da média e torná-lo o clássico moderno que poderia ser. Mesmo assim, com seu elenco impecável, o filme de Lee agrada ao não subestimar a inteligência de quem se dispõe a passar duas horas envolvido em uma trama que foge do derivativo e do lugar comum. Um filme de adulto, ideal para quem gosta de ter suas células cinzentas desafiadas.

terça-feira

ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (2017)


ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 2017, 20th Century Fox, 114min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Michael Green, romance de Agatha Christie. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Mick Audsley. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Rebecca Alleway, Caroline Smith. Produção executiva: Matthew Jenkins, Dillon Kilvo, James Prichard, Aditya Sood, Hilary Strong. Produção: Kenneth Branagh, Mark Gordon, Judy Hofflund, Simon Kinberg, Michael Schaefer, Ridley Scott. Elenco: Kenneth Branagh, Judi Dench, Michelle Pfeiffer, Penelope Cruz, Johnny Depp, Leslie Odom Jr., Derek Jacobi, Josh Gad, Olivia Colman, Willem Dafoe. Estreia: 03/11/2017

Publicado em 1934 e considerado por leitores e críticos como um dos maiores romances policiais de todos os tempos, "Assassinato no Expresso do Oriente" não apenas consagrou definitivamente a inglesa Agatha Christie como "a rainha do crime" como também se mantém no inconsciente coletivo há quase um século. Sua trama, repleta de pistas falsas, ritmo ágil e um desenvolvimento intrigante, mostra o detetive Hercule Poirot no auge de sua perspicácia e apresenta um desfecho antológico - dos mais surpreendentes da prolífica carreira da escritora. Clássico absoluto do gênero, o livro ganhou uma adaptação caprichada em 1974 - quarenta anos após seu lançamento -, sob a direção de Sidney Lumet e um elenco internacional recheado de astros - de Albert Finney como Poirot a uma verdadeira constelação que incluía Lauren Bacall, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, Maggie Smith e Ingrid Bergman, premiada com um Oscar de atriz coadjuvante. Em 2010, chegou à televisão em um episódio da série britânica "Poirot" - com o famoso investigador interpretado por David Suchet e nomes como Jessica Chastain, Barbara Hershey e Toby Jones emprestando credibilidade ao resultado final. E é de se perguntar por que, mesmo diante de duas versões aplaudidas e fiéis à fonte original, o irlandês Kenneth Branagh considerou necessária uma nova releitura. Pior ainda: em que momento o outrora celebrado cineasta achou cabíveis as alterações criminosas que seu filme - lançado no final de 2017 - fez na história concebida pela mente genial de Christie?

Os (inúmeros) fãs da escritora ficaram revoltados com as liberdades que o roteiro de Michael Green tomou em relação à obra original - tanto em termos da história em si (com personagens amalgamados) quanto pela descaracterização radical do protagonista Hercule Poirot. Retratado nos romances como um senhor de idade avançada, de modos finos e radicalmente contra qualquer tipo de violência - além de privilegiar o cérebro em detrimento de embates físicos -, Poirot viu sua versão cinematográfica rejuvenescer, emagrecer, ter um amor do passado (mostrado apenas em fotografia) e, pior do que tudo, se envolver em lutas, tiroteios e perseguições. É de lamentar que Kenneth Branagh - um ator de talento e sensibilidade o suficientes para que fosse uma espécie de embaixador de Shakespeare na Hollywood dos anos 1990 - tenha se deixado levar pelo ego, a ponto de fazer de seu detetive um super-herói que muito pouco lembra o ídolo dos leitores do gênero. Enquanto no livro Poirot ia aos poucos desvendando todos os meandros que levaram a um misterioso homicídio ocorrido em um dos meios de transporte mais sofisticados do mundo, no filme as conclusões são jogadas, quase como se o personagem tivesse dons paranormais. E se Poirot era, antes de qualquer coisa, um cavalheiro, no filme de Branagh ele não hesita em levantar a voz quando necessário - mesmo que isso destoe radicalmente de sua real personalidade. Não é preciso dizer que, mesmo sendo um bom ator, o ex-marido de Emma Thompson erra violentamente em sua composição.

E não é apenas isso. Como forma de agradar à patrulha do politicamente correto de Hollywood, o roteiro consegue a proeza (negativa) de transformar o coronel Arbuthnot em um médico negro (em uma fusão com outro personagem do livro, Constantine): por mais que se saiba a necessidade atual de inserir representatividade na mídia, é no mínimo equivocada a ideia de que um homem negro pudesse ser o passageiro do Expresso do Oriente em 1934. A inclusão de Leslie Odom Jr. no elenco pode ter tido boas intenções, mas o tiro acabou saindo pela culatra: a novidade soa deslocada, inverossímil e, pior ainda, constrangedora em sua tentativa de soar atual. Também não deu certo substituir as nacionalidades de outros personagens cruciais: a sueca Greta Ohlsson (vivida por Ingrid Bergman em 1974) virou Pilar Estravados na nova adaptação (e ficou com o rosto de Penélope Cruz, subaproveitada como todo o elenco), e o italiano Hardman transmutou-se no espanhol Biniamino Marquez (para ser interpretado por Manuel Garcia-Rulfo). São diferenças que em nada acrescentam ao material original e apenas enfatizam a vontade quase imatura de forçar uma identidade - um desejo que se estende também ao visual estilizado, que compreende a fotografia cinza-azulada de Haris Zambarloukos (que funciona apenas em parte) e os ângulos inusitados de câmera (que evitam o convencional a todo custo e cansam em diversos momentos). A direção de arte e o figurinos são deslumbrantes, mas é pouco diante de tantos erros - que enfraquecem as boas ideias de Branagh, como utilizar-se de espelhos para ilustrar a dubiedade dos personagens/suspeitos.

A trama em si é conhecida por quase todo mundo (ao menos os fãs do gênero a conhecem de longa data): durante uma viagem no tradicional Expresso do Oriente, o misterioso e pouco simpático Edward Ratchett (Johnny Depp forçado como sempre) é violentamente assassinado a facadas. O crime é ainda mais intrigante quando se descobre que as facadas são de tamanhos e intensidades diferentes, e outras pistas incoerentes deixam o trabalho do famoso detetive particular Hercule Poirot (um passageiro de última hora) ainda mais complicado. Os suspeitos - um grupo variado de passageiros em determinado vagão - parecem não ter nada em comum e aparentemente todos tem álibis indestrutíveis. A ideia inicial - de que o homicídio foi resultado de uma vingança relacionada à máfia - é deixada de lado, no entanto, quando Poirot descobre que Ratchett é, na verdade, o responsável pelo sequestro e assassinato de um bebê, alguns anos antes: resta, então, descobrir quem, dentre os passageiros, também está mentindo quanto à sua identidade.

Desperdiçando um elenco excepcional - que inclui os veteranos Judi Dench e Derek Jacobi, os consagrados Willem Dafoe, Penélope Cruz e Michelle Pfeiffer - e apostando na modernização de uma trama que já nasceu clássica, Kenneth Branagh simplesmente destruiu a obra original, destroçando inclusive a revelação sobre o nome do assassino em uma sequência morna e com um desfecho sofrível. Em pensar que ele continuará sua missão em estragar outras obras de Christie - "Morte sobre o Nilo" é o próximo da lista e sua menção nos últimos minutos do primeiro filme já aponta para mais distorções imperdoáveis - chega a dar calafrios. Matar uma obra dessa forma deveria ser crime!

domingo

TUDO POR JUSTIÇA


TUDO PELA JUSTIÇA (Out of the furnace, 2013, Relativity Media/Scott Free Productions, 116min) Direção: Scott Cooper. Roteiro: Scott Cooper, Brad Ingelsby. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: David Rosenbloom. Música: Dickon Hinchliffe. Figurino: Kurt and Bart. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Melissa Lombardo. Produção executiva: Riza Aziz, Robbie Brenner, Ron Burkle, Jason Colbeck, Joe Gatta, Joey MacFarland, Christian Mercuri, Tucker Tooley, Jeff Waxman, Brooklyn Weaver. Produção: Michael Costigan, Jeniffer Davisson Killoran, Leonardo DiCaprio, Ryan Kavanaugh, Ridley Scott. Elenco: Christian Bale, Woody Harrelson, Casey Affleck, Willem Dafoe, Forest Whitaker, Sam Shepard, Zoe Saldana. Estreia: 09/11/13

Em 2009, Scott Cooper dirigiu "Coração louco", que finalmente deu o esperado e merecido Oscar de melhor ator a Jeff Bridges. Com o prestígio em alta, ele foi procurado por ninguém menos que Ridley Scott e Leonardo DiCaprio, que lhe ofereceram o roteiro de um filme que eles queriam produzir - depois de pensarem por um tempo em assumir como diretor e astro, respectivamente. Cooper adorou a história, escrita por Brad Ingelsby, mas achou que poderia fazer alguns ajustes para melhorá-la, incluindo nela alguns elementos de sua própria experiência de vida. Com o ator Christian Bale em mente para o papel principal, ele transformou "The Low Dweller" em "Out of the furnace" e, para sua surpresa, o Batman mais aplaudido do cinema se mostrou muito interessado no projeto. Em Hollywood, porém, agendas são um problema, e Bale, mesmo encantado com a possibilidade de protagonizar o novo filme de Cooper, tinha inúmeros compromissos profissionais a cumprir. Cooper não queria fazer o filme sem seu astro, e somente em abril de 2012 as filmagens começaram - e o que parecia o capricho de um cineasta em começo de carreira mostrou-se um tiro certeiro: na pele de Russell Baze, o trágico protagonista de "Tudo pela justiça", Bale mais uma vez demonstra um talento incomparável e justifica a espera de seu diretor. Uma pena, porém, que pouca gente testemunhou tal revelação.

Lançado sem alardes no final de 2013, em plena temporada de estreias que sonhavam com os tapetes vermelhos das cerimônias de premiação, "Tudo por justiça" passou em brancas nuvens, tantos pelas salas de exibição - que ficavam lotadas com "Frozen" e "Jogos vorazes: em chamas" - quanto pelos eleitores da Academia (que preferiram homenagear Bale por um produto mais vendável e mais festivo, o esquecível "Trapaça"). A falta do devido estardalhaço em relação à sua estreia, porém, é injustificável: não apenas o filme de Cooper é um drama familiar violento e profundamente tocante como é um dos melhores trabalhos de direção de atores do ano, com personagens construídos com extremo cuidado e interpretados por atores em grandes momentos de inspiração. Um mergulho na forma de fazer cinema à moda antiga, "Tudo por justiça" relembra os suspenses cerebrais que fizeram a fama de Robert DeNiro e Al Pacino nos anos 70 - nada de tramas rocambolescas ou efeitos visuais estonteantes, apenas pessoas reais (ainda que douradas pelo verniz da arte) tentando encontrar uma forma de respirar e sobreviver a algo tão difícil quanto a vida. Não foi à toa que Cooper desistiu de usar a trilha sonora composta por Eddie Vedder, considerada potente demais: o que interessa ao jovem diretor são seus personagens e seus dramas, com o mínimo de interferência externa.


O protagonista da história é Russell Baze (Bale, brilhante em seu minimalismo), um homem honesto e batalhador que vive sua vida em função de trabalhar na fábrica de aço de sua pequena cidade do interior, cuidar do pai inválido e doente, namorar a bela Lena (Zoe Saldana) e tentar impedir que seu irmão caçula, Rodney (Casey Affleck), se deixe levar pelo desânimo depois de uma temporada no Iraque. Um exemplo de caráter, Russell tem sua vida virada de cabeça para baixo depois de um trágico acidente de carro, que o leva para a cadeia. Anos mais tarde, voltando ao convívio de todos, ele vê que nada mais é como antes: seu pai morreu, Lena casou-se com o xerife da cidade (Forest Whitaker) e seu irmão está envolvido em um violento submundo de brigas de rua - um universo cruel que o põe em rota de colisão com o psicótico Harlan DeGroat (Woody Harrelson). Quando Rodney desaparece e a justiça parece não se importar com o caso, Russell toma conta da situação e parte para a revanche - mesmo que isso vá contra todos os seus princípios.

Scott Cooper não tem pressa em contar sua história - sua opção em acentuar o drama em detrimento da ação pode não agradar aos fãs de filmes policiais, mas é um grande acerto em termos dramáticos. Ao oferecer ao público personagens verossímeis e repleto de nuances, seu roteiro percorre caminhos menos óbvios do que se poderia esperar de uma produção hollywoodiana. Não que a trama seja ousada ou surpreendente, mas a maneira como o diretor a conduz (com ritmo próprio, sem sobressaltos e com uma violência relativamente moderada) não deixa de ser corajosa. Até mesmo seu desfecho - anticlimático de certa forma, coerente de outra - vai de encontro às regras comerciais do cinema norte-americano. Esse apreço de Cooper pelo desenvolvimento dos personagens e as consequências de seus atos é o maior mérito de seu filme, principalmente porque permite ao elenco - em especial Bale e Woody Harrelson - momentos fascinantes. Se Casey Affleck nem sempre convence no papel do irmão rebelde (Channing Tatum, Max Irons, Garret Hedlund e Taylor Kitsch foram considerados para o papel antes da decisão final, tomada em conjunto por diretor e astro), o restante dos atores dispensa comentários - a não ser que se lastime o pouco tempo em cena de Whitaker e do sempre competente Willem Dafoe. "Tudo pela justiça" pode não ter tido o sucesso que merecia, mas é um filme a ser descoberto e apreciado não pelo que se espera dele (um policial violento), mas sim pelo que ele é (um drama familiar devastador). Um belo programa!

segunda-feira

A CULPA É DAS ESTRELAS

A CULPA É DAS ESTRELAS (The fault in our stars, 2014, Fox 2000 Pictures/Temple Hill Entertainment, 126min) Direção: Josh Boone. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber, romance de John Green. Fotografia: Ben Richardson. Montagem: Robb Sullivan. Música: Mike Mogis, Nathaniel Walcott. Figurino: Mary Claire Hannan. Direção de arte/cenário: Molly Hughes/Melissa Lombardo. Produção executiva: Michele Imperato Stabile, Isaac Klausner. Produção: Marty Bowen, Wyck Godfrey. Elenco: Shailene Woodley, Ansel Elgort, Natt Wolff, Laura Dern, Willem Dafoe, Sam Trammell, Lote Verbeek. Estreia: 16/5/14 (Festival de Seattle)

Quando um livro direcionado ao público adolescente - jovens adultos, como são chamados nos EUA por motivos mercadológicos - torna-se fenômeno, é natural que surja, entre os leitores mais exigentes, uma onda de rejeição e preconceito, justificados pelo atentado à literatura que foi a saga "Crepúsculo", de Stephenie Meyer (e suas consequentes adaptações para o cinema, tão intragáveis quanto). Porém, como toda regra tem sua exceção, o autor norte-americano John Green mostrou-se uma alternativa saudável e menos ofensiva ao bom-gosto com seu delicado "A culpa é das estrelas", que virou febre no mundo todo e deflagrou uma corrida atrás das outras obras do autor. Como não poderia deixar de acontecer, o cinema não tardou a perceber o potencial da bela história de amor do romance de Green e, com um grande trunfo em mãos - a fantástica atuação de Shailene Woodley no papel central - o filme chegou às telas fazendo o previsível barulho, com uma renda superior a 120 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico e repetindo o êxito mundo afora. A boa notícia? A adaptação mantém o tom leve e romântico de sua origem e é altamente recomendável até mesmo para aqueles que torcem o nariz para o gênero.

A história de "A culpa é das estrelas" é, já em sua sinopse, de uma tristeza ímpar: a adolescente Hazel Grace Lancaster (Shaile Woodley, a filha mais velha de George Clooney em "Os descendentes") tem 17 anos de idade e sofre, desde os 13, com uma espécie rara de câncer que a obriga a carregar um tanque de oxigênio para onde quer que ela vá. Em um grupo de apoio que passa a frequentar - de má-vontade - por pressão de sua mãe (Laura Dern), ela conhece Augustus Waters (Ansel Elgort), sobrevivente de um tumor maligno que lhe amputou a parte inferior da perna direita. Mordaz e lidando com sua doença da forma mais leve possível, Hazel acaba encontrando em Augustus uma espécie de alma-gêmea - o rapaz tem senso de humor, inteligência e um otimismo aparentemente infinito - e os dois tornam-se ótimos amigos. Aos poucos, tal amizade vai se tornando um grande amor, que se torna ainda mais evidente quando eles viajam para Amsterdã, com o objetivo de conhecer Peter Van Houten (Willem Dafoe), o recluso autor do livro preferido de Hazel e que ela julga ser capaz de lhe dar respostas a questões não apenas literárias, mas a respeito da vida em si.


Respeitando a principal característica do romance de John Green - que faz uma participação especial ne cena em que os protagonistas estão no aeroporto, em vias de embarcar para Amsterdã - o roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber se recusa a tratar a história de amor entre Hazel e Augustus como um conto de morte e tristeza absolutas. O segredo do livro (e por consequência de sua adaptação) é a forma bem-humorada e suave com que os personagens centrais encaram seus problemas de saúde, nunca assumindo os papéis de vítimas e tratando de aproveitar cada momento com a intensidade que lhes é permitida. Sem nunca deixar de tratá-los (e a seu público-alvo) como os adolescentes que são, o diretor Josh Boone faz uso inteligente de muitos dos diálogos de Green para atingir seu objetivo de emocionar, mas o faz sem apelar para o sentimentalismo puro e simples, deixando que a história e os personagens falem por si, conquistando aos poucos e se encaminhando para um desfecho de fazer qualquer um ruir em lágrimas - e não apenas adolescentes sensíveis, mas qualquer um que tenha sentimentos.

Fã confessa do livro, Shailene Woodley fez campanha aberta para ser escalada como Hazel Grace e, graças a seu teste - onde pôs todo mundo para chorar, inclusive o próprio John Green - conseguiu um dos papéis jovens mais cobiçados do ano. Fez por merecer. Sua interpretação é madura, intensa, delicada, irônica e destemida, tudo ao mesmo tempo e equilibrado com uma harmonia de gente muito mais experiente. Sua química com Ansel Elgort é palpável e encantadora a ponto de ser impossível não torcer pelo casal ou por um milagre que afaste de vez o câncer de seu caminho. Aliás, falar abertamente sobre um assunto tão triste sem cair no piegas é outro ponto alto da trama, que trata a doença com naturalidade e um certo conformismo sábio inesperado para uma história cujos protagonistas são adolescentes de 17 anos. Mérito do livro bem escrito, do roteiro bem adaptado, da direção sensível e do elenco escalado com maestria. Pode-se até ser considerado como o "Love story" de sua geração.

sexta-feira

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE (The Grand Budapest Hotel, 2014, Fox Searchlight Pictures/Indian Paintbrush, 99min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, estória de Wes Anderson, Hugo Guinness, inspirado em escritos de Stefan Zweig. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Barney Pilling. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Anna Pinnock. Produção executiva: Molly Cooper, Christoph Fisser, Henning Molfenter, Charlie Woebcken. Produção: Wes Anderson, Jeremy Dawson, Steven Rales, Scott Rudin. Elenco: Ralph Fiennes, F. Murray Abraham, Jude Law, Willem Dafoe, Adrien Brody, Jeff Goldblum, Saoirse Ronan, Mathieu Amalric, Harvey Keitel, Bill Murray, Edward Norton, Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Owen Wilson, Tony Revolori, Fisher Stevens, Bob Balaban. Estreia: 06/02/14 (Festival de Berlim)

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Wes Anderson), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme (Comédia/Musical) 

 Dentre os filmes pouco convencionais selecionados pela Academia de Hollywood para concorrer ao principal Oscar de 2015 - "Birdman" e "Boyhood", por exemplo - nenhum é tão radicalmente a cara de seu autor quanto "O Grande Hotel Budapeste", escrito, dirigido e produzido por Wes Anderson, um dos cineastas menos afeitos a concessões comerciais que o cinema norte-americano gerou nos últimos quinze anos, desde que lançou o elogiado - e ignorado pelo público - "Três é demais", em 1998. Dono de um estilo facilmente reconhecível que equilibra com rara inteligência personagens excêntricos, histórias inusitadas e um visual milimetricamente planejado, Anderson faz parte de um time de poucos realizadores que tem uma marca própria dentro do cinema, como Tim Burton, Woody Allen e Pedro Almodovar. No entanto, ainda faltava a ele uma espécie de reconhecimento oficial por parte da indústria, que lhe desse o passaporte definitivo para a elite dos cineastas. Com as surpreendentes nove indicações conquistadas por seu novo filme (e a vitória em quatro categorias) tal passaporte já está carimbado. Só o fato de ter lutado de igual pra igual com produções bem menos criativas (e por conseguinte mais facilmente digeríveis pelos tradicionais e vestutos eleitores da Academia), "O Grande Hotel Budapeste" já pode ser considerado um campeão.

A trama - contada através de uma história dentro de uma história, em uma opção narrativa arriscada mas extremamente bem-sucedida - é aparentemente simples, mas repleta de bifurcações inusitadas e personagens surreais: quem começa a contá-la é um escritor consagrado (vivido por Tom Wilkinson na maturidade e Jude Law na juventude), que transmite ao público a história do misterioso Mr. Moustafa (F. Murray Abraham), dono do decadente Hotel Budapeste, localizado em um país fictício da Europa que teve seu auge no período entre-guerras. Solitário e discreto, Moustafa relembra, através de flashbacks, as reviravoltas que fizeram com que a imensa propriedade fosse parar em seu nome. Tais reviravoltas tem início quando ele, ainda jovem (e interpretado por Tony Revolori) consegue emprego como empregado do hotel, sob o comando do rígido e dedicado Gustave H. (Ralph Fiennes), que, além de ser o melhor concierge da região, não hesita em agradar as hóspedes de mais idade com noites regadas a champagne e sexo. Quando uma dessas visitantes frequentes, a milionária Céline Villeneuve Desgoffe und Taxis (Tilda Swinton irreconhecível sob pesada maquiagem vencedora do Oscar), morre aos 84 anos em sua mansão, ele resolve prestar suas últimas homenagens, atendendo a seu funeral. Para sua surpresa, porém, ele fica sabendo - junto com a ambiciosa família da falecida - que herdou um quadro de valor milionário, o que acaba lhe colocando em sérios apuros com a polícia: recusando-se a aceitar que a mãe tenha deixado tão valioso bem para um mero serviçal, o psicótico Dimitri (Adrien Brody) o acusa de assassinato e parte em sua captura, ao lado de seu violento capanga Jopling (Willem Dafoe). Quando eclode a II Guerra, cabe a Gustave provar sua inocência - contando, para isso, com o apoio de um clube secreto de concierges espalhados pelo mundo.


Dotado de um humor sofisticado que provoca mais sorrisos do que gargalhadas e de uma trama tão cheia de informações visuais que uma segunda sessão é mandatória, "O Grande Hotel Budapeste" é, tranquilamente, o melhor filme de Wes Anderson, refinando as características narrativas de "Os excêntricos Tenenbauns" e estilísticas de "Moonrise kingdom" e unindo-as em um espetáculo de qualidade estética ímpar. Único dos candidatos ao Oscar de fotografia a ser filmado em película - um feito digno de nota, especialmente quando se percebe a qualidade irretocável do meticuloso trabalho de Robert Yeoman - a obra de Anderson também é um triunfo de desenho de produção (também premiada pela Academia), tão impressionante com seus cenários grandiosos quanto a segurança do cineasta em equilibrar narrativas múltiplas sem perder o fio da meada ou confundir o espectador. Contando com um elenco acima de qualquer crítica - com destaque para Ralph Fiennes em raro registro cômico e Edward Norton em sua segunda parceria com o diretor, além da revelação Tony Revolori - o filme ainda se beneficia da inspirada trilha sonora (mais uma) de Alexandre Desplat, que comenta a ação como se fosse um personagem a mais e deu a ele uma merecida estatueta dourada. Ela é mais uma peça essencial em um dos mais empolgantes produtos cinematográficos dos últimos anos, um filme capaz de encantar qualquer fã da sétima arte e a prova cabal do talento de seu criador, até então escondido em pérolas de cinemateca - vulgo filmes amados por uma parcela de espectadores que não tem medo do diferente.

Ousado, criativo, original, inteligente. Faltam adjetivos para explicar porque "O Grande Hotel Budapeste" merece ser visto, revisto, trevisto e aplaudido todas as vezes. É um dos mais excitantes e inovadores produtos a sair de um lugar cada vez menos disposto a riscos como Hollywood. E além de tudo é uma comédia muito engraçada e excêntrica, que não precisa de um humor pastelão para arrancar risos. Precisa de mais motivos para ser genial?

quinta-feira

NINFOMANÍACA, VOLUME 2

NINFOMANÍACA: VOLUME 2 (Nymphomaniac: Vol. II, 2013, Zentropa Entertainment, 123min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Manuel Alberto Claro. Montagem: Molly Marlene Stensgaard. Direção de arte: Alexander Scherer. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek Jensen. Produção: Marie Cecilie Gade, Peter Aalbaek Jensen, Louise Vesth. Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Jamie Bell, Willem Dafoe, Jean-Marc Barr, Udo Kier. Estreia: 25/12/13

Enquanto o primeiro capítulo do mais polêmico filme de Lars Von Trier tratava de apresentar Joe e sua infância e adolescência - origens de sua autodiagnosticada doença - "Ninfomaníaca, volume 2" se aprofunda ainda mais em sua busca inglória pelo Santo Graal do prazer a todo custo e nas consequências dramáticas de suas escolhas - nem sempre tomadas de forma totalmente racional. Sem mais dividir o papel de protagonista com Stacy Martin, a atriz Charlotte Gainsbourg mostra mais uma vez porque é uma das preferidas do cineasta, com uma performance intensa e corajosa. Finalizando com coerência e ainda mais controvérsia uma obra explosiva e que despertou discussões incansáveis ao redor do planeta, o segundo volume da história de Joe acrescenta ao já variado menu sexual da protagonista sadomasoquismo, lesbianismo, sexo grupal e, para seu desespero, até uma dose de anorgasmia (incapacidade de ter orgasmos). O resultado é uma narrativa que equilibra com sensibilidade uma série de sequências bastante quentes - interpretadas por dublês de corpo - e alguns momentos de partir o coração.

Começando exatamente de onde acabou a primeira parte - quando, casada e apaixonada, Joe se descobre incapaz de ter prazer com o marido, Jerôme (Shia LaBeouf), também pai de seu filho - o filme mostra o desespero da protagonista diante de uma encruzilhada que a obriga a tomar decisões cruéis e revoltantes como forma de sustentar seu estilo particular de vida, regado a sexo compulsivo e por vezes (ao menos na visão tradicional) degradante. Se dando até mesmo ao luxo da auto-citação - com uma sequência que lembra um dos momentos mais fortes de seu "Anticristo" - Lars Von Trier conduz Joe e a plateia por um caminho sombrio e desprovido de glamour, onde o sexo surge não como uma forma de prazer absoluto, mas como uma espécie de inferno particular. Ao não conseguir fugir de sua "doença", Joe se afunda cada vez mais em situações de perigo - sexo a três com desconhecidos, encontros secretos com um jovem cujo fetiche é espancar mulheres e até mesmo um emprego como "cobradora informal" ao lado de criminosos violentos - como forma de expiar seus pecados (nem mesmo a ajuda de um grupo de apoio é capaz de livrá-la do que considera parte de seu ser). Mas, ao contrário do primeiro volume, dessa vez o cineasta deixa a trama perder o foco em algum lugar da estrada.


Mesmo sendo visualmente mais ousado do que o primeiro filme em termos de cenas de sexo e até mesmo em teorias polêmicas (em determinado ponto Joe defende os pedófilos que nunca ultrapassaram a linha do desejo e os classifica como heróis), "Ninfomaníaca, volume 2" perde parte de seu ritmo quando cria uma subtrama desnecessária e quase deslocada, que envolve Joe e um empresário (Willem Dafoe) que a contrata para cobrar dívidas de mau-pagadores. Ok, existe um motivo dramaticamente explicável para tal desvio quase surpreendente da narrativa (e que inclui mais uma história de amor frustrada da protagonista e que acaba por ser a responsável pela situação em que ela se encontra no começo do capítulo inicial), mas é inegável que, depois da avalanche de situações empolgantes/temerárias/controversas discutidas pelo filme, esse desvio de percurso compromete o ritmo do filme e quase o transforma em uma obra de narrativa convencional - impressão que seu final anti-climático (ainda que com uma certa dose de ironia) apenas ajuda a reforçar. A questão que fica, porém, é uma só: "Ninfomaníaca" (os dois volumes juntos) é, afinal um filme misógino ou feminista?

Nem uma coisa nem outra. Lars Von Trier é um cineasta conhecido por colocar suas personagens femininas em situações extremas de humilhação e sofrimento, mas daí a considerá-lo misógino por causa disso é exagero - afinal, ótimas atrizes, como Emily Watson Nicole Kidman, Kirsten Dunst e a própria Charlotte Gainsbourg não iriam sujeitar-se a um diretor com tendências exclusivamente sádicas e sem (boas) histórias para contar. Além do mais, basta examinar com mais cuidado seus filmes anteriores para perceber que, apesar das via-crucis pelas quais passam suas protagonistas, elas não deixam de ser mulheres fortes e determinadas. Joe, por exemplo, pode ser vista tanto como uma vítima das circunstâncias quanto uma senhora de seu destino, por fazer escolhas (muitas delas erradas, mas coerentes com sua personalidade) e pagar o preço por elas estoicamente. Uma mulher ser capaz de entregar-se a uma vida sexual rica e submeter-se aos caprichos masculinos por vontade própria pode soar como uma afronta às feministas, mas não deixa de ser também revolucionário e corajoso. Talvez isso tenha incomodado algumas mulheres e provocado a discussão a respeito das intenções de Von Trier, mas até mesmo essa dubiedade é fascinante e transforma o que poderia ser apenas mais um filme disposto a chamar a atenção pelo comércio do sexo puro e simples em uma obra passível de permanecer por bons anos na berlinda. Afinal de contas, não é isso que se espera de um bom cineasta?

Quanto às virtudes artísticas, é preciso mais uma vez louvar o desempenho de Charlotte Gainsbourg - não à toa integrante da Trilogia da Depressão do cineasta ("Anticristo", "Melancolia" e estes volumes de "Ninfomaníaca" - no papel central. Entregue de corpo e alma a um papel difícil e desafiador, a filha da cantora Jane Birkin e do músico Serge Gainsbourg se mostra uma das mais ousadas atrizes de sua geração e uma parceira à altura dos devaneios de Von Trier. Merecem destaque também as participações de Jamie Bell - o menino revelado em "Billy Elliot", aqui crescido e bem desenvolvido - e Stellan Skarsgard, em uma atuação contida que só vai explodir ao final, quando finalmente revela quem é seu personagem. Resumindo, "Ninfomaníaca, volume 2" é o desfecho impactante de um filme por si só capaz de despertar todos os tipos de sentimento no espectador que procura mais no cinema do que simples diversão. Altamente recomendável - nem que seja para falar mal com argumentos.

segunda-feira

ANTICRISTO

ANTICRISTO (Antichrist, 2009, Zentropa Entertainments, 108min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Anders Refn. Música: Kristian Eidnes Andersen. Figurino: Frauke Firl. Direção de arte/cenários: Karl 'Kalli' Juliusson/Tim Pannen. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek Jensen. Produção: Meta Louise Foldager. Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg. Estreia: 18/5/09

Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes: (Charlotte Gainsbourg) 

Quando começou a filmar "Anticristo" - um polêmico exercício de estilo que dividiu opiniões no Festival de Cannes 2009 e deu à Charlotte Gainsbourg a Palma de Ouro de melhor atriz - o cineasta dinamarquês Lars Von Trier estava saindo de uma severa crise de depressão que o havia deixado internado em um hospital por dois meses. Porém, mesmo sem estar completamente curado (o que o impedia de operar a câmera pessoalmente, uma das maiores características de sua controversa filmografia), o homem que esteve por trás da criação do Dogma 95 - um dos mais importantes manifestos cinematográficos dos anos 90, ainda que efêmero e nem sempre eficiente em suas ambições - não decepcionou aos fãs de seu cinema repleto de simbolismos: mesmo que não seja exatamente o filme de terror que ele ambicionava realizar - assim como "Dançando no escuro" não era propriamente um musical nos moldes hollywoodianos que estava em sua mente - "Anticristo" chocou, despertou discussões acaloradas e sacudiu a mesmice do cinema "de arte". Nada mal para uma obra quase hermética, que levanta diversas questões e não fornece nenhuma resposta a elas.

Abrindo sua narrativa com uma belíssima sequência em preto-e-branco fotografada com extremo requinte por Anthony Dod Mantle, "Anticristo" já pega de surpresa o espectador acostumado às amenidades hollywoodianas, intercalando cenas de sexo explícito no chuveiro entre o casal vivido por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg com uma irresponsável travessura de seu filho bebê, que tragicamente morre ao cair da janela de sua casa. Depois desse prólogo - que estabelece o tom mórbido e cru da história - pouco resta aos dois protagonistas senão o luto, o desespero e a dor, especialmente para a mãe da criança, que acaba indo parar no hospital, incapaz de lidar com a perda. Confiante de que pode ajudar a esposa, o pai - terapeuta - resolve começar um tratamento radical, confrontando-a com seus medos, e a leva para sua cabana na floresta, a que chamam de "Eden". É lá, em um lugar afastado de tudo e todos, cercados de uma natureza filmada em ângulos mórbidos e opressivos e de lembranças que se mesclam entre positivas e melancólicas, que eles são obrigados a exorcizar seus demônios pessoais.


Quem se aventurar a uma sessão de "Anticristo" deve estar ciente de que não está adentrando em território afável: não é a intenção de Lars Von Trier ser acessível ou simpático à raça humana. Mais uma vez em sua filmografia não há espaço para esperanças ou sentimentos nobres, e até mesmo a natureza - algo tão singelo em outras filmografias - é retratada como algo ameaçador e sufocante, como mostra a inesquecível (e impressionante) cena em que os protagonistas fazem sexo ao ar livre, diante de uma árvore retorcida que, sob a visão cruel do cineasta, mostra-se cenário bem pouco apropriado ao ato. Até mesmo animais servem como prenúncios fatídicos na narrativa de Von Trier: um inocente veado simboliza o luto, uma raposa serve de ilustração da dor e um corvo representa o desespero, conforme deixam claro os desenhos que abrem cada um dos capítulos do filme - e, a cada um, mais e mais afundados na angústia ficam os personagens. E a plateia.

Sem medo de ofender ou escandalizar o espectador, Lars Von Trier não se furta a apelar para cenas de extremo impacto físico e emocional, o que inclui até mesmo uma comentada e cruel automutilação genital que testa os limites de qualquer cinéfilo. Para isso, o cineasta contou com a corajosa Charlotte Gainsbourg, que se entrega de corpo e alma na personificação de uma mulher em mais puro desespero. Merecidamente premiada no Festival de Cannes, Gainsbourg acabou se tornando também uma queridinha do diretor, fazendo parte de todos os filmes da "Trilogia da Depressão" gerada por ele, que inclui "Melancolia" e os dois volumes de "Ninfomaníaca". Seu estilo de interpretação, visceral e de uma intensidade quase palpável, é a base na qual se ergue "Anticristo", um filme que se preocupa muito menos com sua história do que com a forma como ela será contada. Tem quem adore. Mas também tem quem odeie. Escolha seu time.

sábado

A SOMBRA DO VAMPIRO

A SOMBRA DO VAMPIRO (Shadow of the vampire, 2000, Saturn Films/BBC Films, Long Shot Films, 92min) Direção: E. Elias Merhige. Roteiro: Steven Katz. Fotografia: Lou Bogue. Montagem: Chris Wyatt. Música: Dan Jones. Figurino: Caroline De Vivaise. Direção de arte/cenários: Assheton Gordon. Produção executiva: Paul Brooks, Alan Howden. Produção: Nicolas Cage, Jeff Levine. Elenco: John Malkovich, Willem Dafoe, Catherine McCormack, Udo Kier, Cary Elwes. Estreia: 13/5/00 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Willem Dafoe), Maquiagem

A imagem aterradora do ator Max Schreck como Nosferatu no clássico expressionista de F.W. Murnau lançado em 1922 é conhecida até mesmo por aqueles que nunca tiveram a oportunidade de assistir ao filme, um marco na história do cinema mundial e referência obrigatória até os dias de hoje. O personagem, inspirado no Drácula criado por Bram Stoker - mas que teve que ter seu nome alterado devido à proibição do autor em liberar os direitos de filmagem de seu livro - acabou tornando-se marca registrada de Shreck, um veterano ator dos palcos alemães que nunca mais conseguiu livrar-se do estigma de interpretar alguém tão marcante. Uma das lendas instauradas ao redor de seu nome - a de que ele seria um vampiro de verdade contratado para dar veracidade ao papel - é a base para o roteiro de uma curiosa reimaginação do mito, visualmente atraente e que quase deu a Willem Dafoe um Oscar de coadjuvante: "A sombra do vampiro". Mescla de comédia de humor negro, suspense e drama sobre os bastidores do cinema, o filme arrancou elogios desde sua estreia no Festival de Cannes de 2000, mas sofre de uma irregularidade que compromete seu resultado final.

A trama se passa na Berlim de 1921, quando o cineasta F.W. Murnau (John Malkovich, exagerando na composição mais uma vez) dá início às filmagens de seu "Nosferatu", adaptação não-oficial do romance escrito por Bram Stoker. Excêntrico por natureza, o cineasta surpreende ainda mais sua equipe quando diz a eles que o ator escolhido para o papel principal, Max Schreck (Willem Dafoe) - desconhecido de todos - tem um método muito especial para desenvolver o personagem, mantendo-se à distância do restante do elenco e dos demais funcionários (além de ficar permanentemente na pele do temível monstro). Não demora muito para que as atitudes de Shreck passem a incomodar, especialmente quando fatos estranhos começam a acontecer à sua volta, como a súbita doença do diretor de fotografia Wolfgang Muller (Ronan Vibert). O que ninguém sabe - com exceção de Murnau - é que o misterioso e calado ator é, na verdade, um vampiro verdadeiro, que aceitou o trabalho tendo como recompensa o sangue da atriz principal, Greta Schroder (Catherine McCormack). Resta ao diretor, então, manter em segredo sua negociação com o astro do filme e finalizar as filmagens.


O visual de "A sombra do vampiro" é interessantíssimo: a fotografia recria com perfeição o clima claustrofóbico do filme original de Murnau, enquanto elabora um atmosfera nova para retratar seus bastidores, oferecendo à plateia uma visão única do processo de criação de um dos maiores clássicos da sétima arte. A direção de arte caprichada mergulha o espectador na história, conduzindo-o por um labirinto feérico que remete aos belos enquadramentos do cineasta alemão e a maquiagem que transforma Willem Dafoe em Max Schreck beira a perfeição: não à toa, tanto ela quanto Dafoe foram indicados ao Oscar. Em uma caracterização inesquecível que caminha no fio da navalha do excesso, o ator - que foi escolhido para viver o Duende Verde no "Homem-aranha", de Sam Raimi graças à excelência de sua atuação - não hesita em abusar de todas as possibilidades que o papel oferece, esbarrando apenas na superficialidade do roteiro, que jamais tenta ultrapassar os limites da brincadeira e se satisfaz em apenas criar uma situação fascinante, sem explorá-la dramaticamente.

Essa falha de "A sombra do vampiro" em desenvolver a contento seus personagens acaba sendo seu calcanhar de Aquiles. Fosse um curta-metragem ou um videoclipe, o resultado seria uma pequena obra-prima, já que todos os elementos estão nos seus devidos lugares. Como filme, é difícil relevar o desinteresse que demonstra, por exemplo, pelo diretor vivido por John Malkovich, tornado um coadjuvante quase sem função na segunda metade da trama, quando as atividades de Shreck se tornam um problema tão grande que passam a ameaçar o término das filmagens - e acabam por encontrar um heroi na figura do fotógrafo substituto (vivido por Cary Elwes, que, coincidentemente ou não, também caçou um vampiro na versão de Francis Ford Coppola, "Drácula de Bram Stoker", de 1992). Interessante mas menos brilhante do que poderia ser, "A sombra do vampiro" é apenas um filme curioso, que ilustra uma das lendas mais fascinantes da história do cinema.

quarta-feira

PSICOPATA AMERICANO

PSICOPATA AMERICANO (American psycho, 2000, Lions Gate Films, 102min ) Direção: Mary Harron. Roteiro: Mary Harron, Guinevere Turner, romance de Brett Easton Ellis. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Andrew Marcus. Música: John Cale. Figurino: Isis Mussenden. Direção de arte/cenários: Gideon Ponte/Jeanne Develle. Produção executiva: Josehph Drake, Michael Paseornek, Jeff Sackmn. Produção: Christian Halsey Solomon, Chris Hanley, Edward R. Pressman. Elenco: Christian Bale, Willem Dafoe, Chloe Sevigny, Reese Witherspoon, Jared Leto, Josh Lucas, Justin Theroux, Cara Seymour, Bill Sage, Samantha Mathis. Estreia: 21/01/00 (Festival de Sundance)

A publicação do romance "Psicopata americano", no início da década de 90, foi cercado de polêmicas, principalmente graças ao que foi tido por seus detratores como "barbárie misógina". Violentamente atacada pelas feministas e discutida amplamente nos meios de comunicação sem ao menos ter chegado às livrarias, a obra de Brett Easton Ellis - também autor de "Abaixo de zero" e "Regras da atração", ambos adaptados para o cinema - parecia fadada à controvérsia, o que ficou provado quase dez anos mais tarde quando Leonardo DiCaprio, fresquinho do sucesso de "Romeu + Julieta", anunciou que estrelaria sua versão para as telas. A gritaria em torno da possibilidade de um ator idolatrado pelas adolescentes protagonizar um filme tão "nefasto" acabou por mais uma vez jogar os holofotes sobre a história de Patrick Bateman, um dos anti-herois mais improváveis do final do século XX. Resultado? O que poderia ter sido apenas mais uma produção independente louvada em festivais e em seguida esquecida pelo grande público transformou-se em um inesperado cult movie - um dos maiores de sua época.

A polêmica que começou antes mesmo que o livro fosse publicado - e que continuou quando ele chegou às livrarias, resultando até mesmo em cadeia para uma de suas mais ferozes críticas, a ativista feminista Tara Baxter, denunciada por subversão da ordem em uma loja no interior dos EUA - começou a atingir níveis internacionais e que ultrapassavam os limites literários quando sua adaptação para as telas foi anunciada, sob a direção de Mary Harron, conhecida no mundo do cinema independente graças ao filme "Um tiro para Andy Wharol", de 1996. Preferindo um ator ao invés de um astro internacional, Harron considerou vários nomes para o papel principal - Billy Crudup, Jared Leto, Ben Chaplin, Robert Sean Leonard entre eles - até chegar a Christian Bale, ainda não consagrado como astro da série "Batman", de Christopher Nolan e mais conhecido como o garotinho inglês de "Império do sol", de Steven Spielberg. Os produtores ainda tentaram empurrar Edward Norton, mas a cineasta bateu pé em sua escolha, aceitando até mesmo a imposição de escalar nomes conhecidos para o elenco coadjuvante - Willem Dafoe e Reese Witherspoon foram os escolhidos para tal. Foi então que tudo mudou de rumo: Leonardo DiCaprio tornou-se um ator "quente" e foi convidado (contra a vontade de Harron) para protagonizar o filme. Indignada, a diretora pulou fora do projeto, deixando-o nas mãos de Oliver Stone, que mudou tudo, do roteiro ao elenco já escalado.


Como se poderia esperar, os problemas começaram: o orçamento inchou, a gritaria contra o conteúdo da obra aumentou, DiCaprio abandonou o projeto para fazer "A praia" - se a pressão popular foi uma das causas de sua deserção ainda não se sabe - e o próprio Oliver Stone desistiu de ficar na cadeira de direção. Sem outra opção disponível, a Lions Gate (o estúdio por trás do filme) voltou atrás e chamou Harron novamente, dessa vez dando-lhe total liberdade artística. Bale retornou ao papel de Patrick Bateman - mesmo contra a vontade de uma das maiores críticas do livro, a feminista Gloria Steinem, que posteriormente se tornaria sua madrasta - e finalmente, depois de muitas idas e vindas, a trama de Ellis estreou no Festival de Cannes de 2000, provocando a dose de controvérsia esperada: a história de um jovem executivo de Wall Street que esconde sua personalidade violenta e homicida por trás de uma aparência saudável e sofisticada dividiu a crítica e confundiu o público, mas transformou-se, imediatamente, em um retrato sério e assustador da superficialidade da América do final do século XX.

Em um tom propositalmente hiperbólico, tanto o romance de Ellis quanto o filme de Harron debatem o extremo niilismo da geração yuppie, retratada com precisão pela trilha sonora recheada de hits dos anos 80 - Bateman mata enquanto discute Phil Collins e Huey Lewis - e pelos diálogos aparentemente ilógicos e surreais disparados por ele e seus colegas, todos vazios e munidos de um egoísmo atroz. Enquanto é investigado pela morte de um executivo tão fútil quanto ele (vivido por Jared Leto), Patrick Bateman preocupa-se apenas em frequentar restaurantes da moda, em vestir-se com os melhores estilistas, em cuidar obsessivamente do corpo e invejar os cartões de visita daqueles a quem julga inferiores. Sua decadência mental rumo ao inferno, portanto, acaba sendo o menor dos seus problemas, principalmente quando o desfecho (ambíguo e desconfortável) lhe mostra que o mundo que o cerca pode ser tão doente quanto ele.

Perturbador e corajoso, "Psicopata americano" tem a seu favor, também, o trabalho insano de Christian Bale, a caminho de se transformar em um dos atores mais competentes de sua geração. Construindo um protagonista desprovido de qualquer traço digo de simpatia ou compaixão, ele acerta em escolher o caminho mais árduo, evitando psicologismos simplistas ou um humor (negro) fácil. Seu desempenho - que conduz todos os outros ao mesmo nível de excelência - é o maior destaque do filme, que com seu tom sombrio e frio não agrada a todos os tipos de público, em especial àquele acostumado com produções mais convencionais. Mesmo assim, é um programa obrigatório para quem quiser compreender o espírito das últimas décadas do século.

segunda-feira

PARIS, TE AMO

PARIS, TE AMO (Paris, je t'aime, 2006, Victoires International, 120min) Direção: Olivier Assayas, Frédéric Auburtin, Emmanuel Benbihy, Gurinder Chadha, Sylvain Chomet, Ethan Coen, Joel Coen, Isabel Coixet, Wes Craven, Alfonso Cuaron, Gerard Depardieu, Christopher Doyle, Richard LaGravenese, Vincenzo Natali, Alexander Payne, Bruno Podalydès, Walter Salles, Oliver Schmitz, Nobuhiro Suwa, Daniela Thomas, Tom Tykwer, Gus Van Sant. Roteiro: Emmanuel Benbihy, Bruno Polalydès, Paul Mayeda Berges, Gurinder Chada, Gus Van Sant, Joel & Ethan Coen, Walter Salles & Daniella Thomas, Christopher Doyle & Rain Li & Gabrielle Keng, Isabel Coixet, Nobuhiro Suwa, Sylvain Chomet, Alfonso Cuarón, Olivier Assayas, Oliver Schmitz, Richard LaGravenese, Vincenzo Natali, Wes Craven, Tom Tykwer, Gena Rowlands, Alexander Payne & Nadine Eid. Fotografia: Maxime Alexandre, Michel Amathieu, Pierre Aim, Bruno Delbonnel, Eric Gautier, Frank Griebe, Eric Guichard, Jean-Claude Larrieu, Denis Lenoir, Rain Li, Pascal Marti, Tetsuo Nagata, Matthieu-Poirot Delpech, David Quesemand, Pascal Rabaud, Michael Seresin, Gérard Sterin. Montagem: Luc Barnier, Mathilde Bonnefoy, Stan Collet, Simon Jacquet, Anne Klotz, Isabel Meier, Alex Rodriguez, Hisako Suwa. Música: Pierre Adenot, Michael Andrews, Reinhold Heil, Johnny Klimek, Tom Tykwer. Figurino: Olivier Bériot. Direção de arte/cenários: Bettina von den Steinen/Hélène Dubreuil, Sébastien Monteux-Halleur. Produção executiva: Chris Bolzli, Gilles Caussade, Rafi Chaudry, Sam Englebardt, Ara Katz, Maria Kopf, Frank Moss, Chad Troutwine. Produção: Emmanuel Benbihy, Claudie Ossard. Elenco: Gaspard Ulliel, Steve Buscemi, Catalina Sandino Moreno, Miranda Richardson, Sergio Castelitto, Leonor Watling, Javier Camara, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Nick Nolte, Maggie Gyllenhaal, Fanny Ardant, Bob Hoskins, Elijah Wood, Emily Mortimer, Olga Kurylenko, Rufus Sewell, Natalie Portman, Gena Rowlands, Ben Gazzarra, Gerard Depardieu, Margo Martindale. Estreia: 18/5/06 (Festival de Cannes)

Que Paris é uma das cidades mais românticas e belas do mundo não há dúvida. Cenário natural de dezenas de filmes - sejam eles franceses, hollywoodianos ou de outros países com menor tradição na indústria do cinema - a cidade-luz teve a sua grande chance de transformar-se de pano de fundo em protagonista em "Paris, te amo", primeiro de uma série que continuou com Nova York e tem no Rio de Janeiro seu terceiro capítulo. Produção coletiva que apresenta uma equipe invejável de cineastas e atores das mais diversas nacionalidades, o filme, como sempre acontece com obras do tipo, é irregular, mas ainda assim tem a seu favor a inventividade, a imprevisibilidade e a delicadeza de todos os segmentos. É impossível não se apaixonar por ele.

Logicamente nem todas as histórias são marcantes, e algumas até mesmo soam bobas, mas é inegável que a maioria esmagadora dos diretores estava em dias inspirados. Diante do espectador desfilam tramas sobre amores perdidos, amores encontrados, vampiros, mímicos, solitários, escritores mortos e todo tipo de gente em busca da felicidade. Fotografado com carinho e um bom-gosto que deixa no espectador uma impressão onírica das mais fascinantes, "Paris, te amo" é, além de tudo, um conjunto de bons roteiros, bons diretores e bons atores, em um conjunto que deixa tudo ainda mais irresistível - em especial em alguns segmentos, que são tão inteligentes e interessantes que poderiam tranquilamente ultrapassar as limitações de um curta.


O primeiro segmento digno de destaque é "Quais de sene", dirigido por Gurinder Chadha, que acompanha o início da relação entre o estudante François (Cyril Descours) e a muçulmana Zarka (Leila Bekhti), em uma história que surpreende por não se deixar cair na armadilha fácil do conflito religioso. "Les Marais", de Gus Van Sant, mostra a tentativa de um jovem (Gaspard Ulliel, de "Eterno amor") em convencer um outro rapaz (Elias McConnell) a lhe telefonar para marcar um encontro. "Tuileuries", dos irmãos Coen - um dos episódios mais visuais e criativos - mostra as desventuras de um turista americano (o ótimo Steve Buscemi) quando encontra, à espera do metrô, um casal francês disfuncional. Os brasileiros Walter Salles e Daniella Thomas acompanham a jovem Ana (Catalina Sandino Moreno) em sua árdua rotina de trabalho como babá no singelo "Loin du 16e". Isabel Coixet se destaca magistralmente com a belíssima história de um homem (Sergio Castelitto) que se apaixona novamente pela esposa (Miranda Richardson) quando descobre que ela está morrendo de câncer. O extraordinário "Place des Victoires", de Nobuhiro Suwa, mostra o desespero de uma mãe (Juliette Binoche) que acaba de perder o filho.

Ainda chamam a atenção os segmento "Tour Eiffel", de Sylvain Chomet, que segue um mímico em seu dia-a-dia com extrema criatividade, "Quartier de La Madeleine", de Vincenzo Natali, que mostra um jovem, vivido por Elijah Wood, se apaixonando pela vampira Olga Kurylenko sob um visual deslumbrante e a história de amor entre um rapaz cego (Melchior Beslon) e uma atriz de cinema (Natalie Portman) contada pelo alemão Tom Tykwer em "Faubourg Saint-Denis" com uma edição ágil e empolgante - sua marca registrada desde o sucesso de "Corra Lola, corra". O episódio final, "14e arrondissement", de Alexander Payne, também merece destaque por, no mínimo, permitir que a sensacional atriz Margo Martindale, sempre coadjuvante, assuma um papel de protagonista e comprove seu enorme talento - mesmo quando está em silêncio.

Mesmo que algumas histórias não sejam tão fascinantes quanto as outras - situação corriqueira em filmes episódicos - "Paris, te amo" tem uma regularidade impressionante, mantendo a plateia deslumbrada desde seus primeiros minutos até seu final quase apoteótico, quando todas as tramas voltam à tela para uma despedida emocionante. É, sem dúvida, uma bela homenagem à grande cidade dos amantes.

terça-feira

HOMEM-ARANHA

HOMEM-ARANHA (Spiderman, 2002, Columbia Pictures/Marvel Enterprises, 121min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: David Koepp, HQ de Stan Lee, Steve Ditko. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Coburn, Bob Murawski. Música: Danny Elfman. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Karen O'Hara. Produção executiva: Avi Arad, Stan Lee. Produção: Ian Bryce, Laura Ziskin. Elenco: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, Willem Dafoe, James Franco, Rosemary Harris, Dylan Baker, J.K. Simmons, Cliff Robertson. Estreia: 03/5/02

2 indicações ao Oscar: Efeitos Visuais, Som

Tudo começou com "X-Men". O enorme sucesso de bilheteria do filme que contava as aventuras dos mutantes criados por Stan Lee deu coragem à Columbia Pictures para tocar adiante um projeto ainda mais ambicioso: levar às telas uma adaptação de uma das mais queridas e famosas personagens do universo Marvel, o Homem-aranha. Depois de anos no limbo - durante o qual foram considerados para a direção nomes díspares como James Cameron, Ang Lee, David Fincher e Tony Scott - a história do adolescente nerd que se torna super-herói chegou aos cinemas americanos cercada de grandes expectativas e não decepcionou nem ao mais ambicioso produtor: ao redor do mundo, mais de 800 milhões de dólares foram arrecadados, dando início a uma espécie de fenômeno pop. A partir daí, histórias em quadrinhos e cinema se tornaram definitivamente parceiros muito rentáveis.

O maior sucesso de bilheteria de 2002 mereceu o barulho que fez. Deliciosamente pop, agradável, engraçado e leve, é um filme que consegue agradar espectadores de todas as idades, em especial àqueles que se permitem embarcar sem medo no mais puro entretenimento hollywoodiano. Ao assumir as rédeas do filme, o diretor Sam Raimi (responsável pela bizarra e popular série "Evil Dead", que mudou a forma de fazer cinema de terror) imprimiu à história de Peter Parker um senso de diversão descompromissada e quase auto-paródica que faz dele um programa imperdível (e que ficaria ainda melhor no segundo episódio, mais caro e que fez ainda mais sucesso). E é necessário que se elogie a escalação certeira de Tobey Maguire para o papel central.

Mais conhecido por seus trabalhos sérios em filmes oscarizados como "Regras da vida" e "Garotos incríveis", Maguire ficou com um dos papéis jovens mais cobiçados da época (que quase ficou nas mãos de Leonardo DiCaprio) e não fez feio. Com seu jeito aparvalhado, ele criou um Peter Parker bastante próximo do público adolescente que lotou as salas de exibição (apesar de já estar com 25 anos durante a produção). Seu Peter Parker frágil, tímido e apaixonado caiu como uma luva em seu tipo físico franzino e seu alter-ego heroico é convincente a ponto de a audiência comprar o conceito do filme sem pestanejar. Com um roteiro dinâmico e esperto, "Homem-Aranha" é uma aventura perfeita.


Pra quem não sabe - se é que existe alguém que não saiba - o protagonista é Peter Parker, um estudante órfão que mora com os tios idosos (Cliff Robertson e Rosemary Harris) e é apaixonado pela vizinha, a bela Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), cujo histórico de problemas domésticos não a impede de sonhar em tornar-se atriz. Durante uma excursão da escola, Parker - que é hostilizado pelos colegas e tem apenas um grande amigo Harry Osborn (James Franco) - é mordido por uma aranha geneticamente modificada e, a partir daí, passa a desenvolver poderes tais como escalar paredes e soltar teias de aranha, além de aumentar sua velocidade e força. Após praticamente testemunhar o assassinato do tio, ele decide dedicar-se à luta contra a violência, tornando-se herói da noite para o dia. Enquanto tenta esconder sua dupla personalidade da garota que ama - que começa a namorar Harry - Parker também precisa combater o cruel Duende Verde, a personalidade psicótica adquirida pelo milionário Norman Osborn (Willem Dafoe) após um acidente com suas experiências científicas.

A trama de "Homem-Aranha" é a desculpa ideal para Sam Raimi exercitar sua veia de fã de quadrinhos. Sua direção é respeitosa mas nunca quadrada, dando espaço para improvisos e mudanças que não ofendem os mais xiitas leitores do gênero (ainda que sempre haja algum espírito de porco disposto a discordar de algum detalhe). As cenas de ação, mesmo que não sejam impactantes ou inovadoras, são adequadas ao ritmo da trama e não chamam mais a atenção do que a trama que fala de responsabilidades e de renúncia. Esse subtexto - que também era o melhor que havia em "X-Men" - é o que faz com que "Homem-Aranha" escape lindamente da vala onde se encontram produções ambiciosas e sem fundamentos.

O sucesso de "Homem-Aranha" foi merecido. É um entretenimento inteligente e divertido, capaz de alegrar sessões da tarde por anos a fio. É a prova inconteste de que a soma de um bom diretor, um elenco adequado e um roteiro bem escrito podem efetuar milagres até mesmo com a pressão dos grandes estúdios.

quinta-feira

O PACIENTE INGLÊS

O PACIENTE INGLÊS (The English patient, 1996, Miramax Films, 162min) Direção: Anthony Minghella. Roteiro: Anthony Minghella, romance de Michael Ondaatje. Fotografia: John Seale. Montagem: Walter Murch. Música: Gabriel Yared. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Aurelio Crugnola, Stephenie McMillan. Produção executiva: Scott Greenstein, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Ralph Fiennes, Kristin Scott-Thomas, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Colin Firth, Naveen Andrews, Jurgen Prochnow. Estreia: 06/11/96

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Anthony Minghella), Ator (Ralph Fiennes), Atriz (Kristin Scott-Thomas), Atriz Coadjuvante (Juliette Binoche), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 9 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Anthony Minghella), Atriz Coadjuvante (Juliette Binoche), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original
Festival de Berlim: Melhor Atriz (Juliette Binoche)

Em 1962, o inglês David Lean viu seu épico histórico "Lawrence da Arábia" sair da cerimônia de entrega do Oscar com sete estatuetas, incluindo as principais - Melhor Filme e Direção. Trinta e quatro anos depois, outro cineasta da terra da rainha promoveu um arrastão na festa da Academia, acumulando nove prêmios (e mais uma vez, entre eles, os de filme e direção). Ao contrário da obra-prima de Lean, no entanto, que narrava a trajetória de um dos mais controversos líderes militares britânicos, o filme de Anthony Minghella concentra-se em uma devastadora história de amor que utiliza a II Guerra Mundial como mero pano de fundo. "O paciente inglês", baseado em um livro considerado infilmável de Michael Ondaatje, é um poderoso drama romântico que não deixou chance para os demais indicados de 1996. E, apesar de muita gente torcer o nariz para suas pretensões épicas - e sua receita para ganhar Oscar - é um filme que mereceu todo o auê que causou.

De produção complicada - inicialmente financiado pelos estúdios Fox e depois encampado pela Miramax e pelo produtor Saul Zaentz - "O paciente inglês" é um filme que foge dos tradicionais romances hollywoodianos ao exigir de seu público um pouco mais de atenção e dedicação do que o normal. Não apenas é mais longo do que o corriqueiro (tem mais de duas horas e meia de duração) mas também tem um ritmo próprio e delicado, além de ser narrado de forma não-linear, o que muitas vezes afugenta à plateia cuja única intenção é ocupar-se em duas horas de entretenimento fácil. No fim das contas, porém, é um romance tipicamente hollywoodiano com um verniz europeu, o que provavelmente ajudou a encantar os eleitores da Academia - e todo o público que fez com que fechasse suas contas no mercado americano com quase 80 milhões de dólares de arrecadação, um sucesso inquestionável, principalmente se levarmos em conta que não tem, em seu elenco, nenhum grande nome da época - a Fox, por exemplo, insistia em Demi Moore no principal papel feminino, desejo esse que, para sorte de todos os envolvidos, nunca foi levado a sério por ninguém.

O filme começa em 1944, na Itália, quando a jovem enfermeira canadense Hana (Juliette Binoche), depois da morte do namorado soldado e de uma de suas colegas de profissão, resolve isolar-se em um castelo abandonado ao lado de seu paciente, um homem desfigurado por queimaduras e que não tem lembrança de seus dias passados. Tido como de nacionalidade inglesa desde que foi resgatado dos destroços de um avião, ele na verdade é um conde húingaro e se chama Almasy (Ralph Fiennes). Enquanto cuida de seu desmemoriado paciente, Hana lida com seus sentimentos em relação a Kip (Naveen Andrews, que anos depois faria sucesso com a série "Lost"), um indiano cuja função é desarmar bombas deixadas pelos inimigos. Se auto-considerando destinada a perder a todos que ama, Hana ainda aceita hospedar em sua villa o misterioso Caravaggio (Willem Dafoe), que tem as respostas sobre a vida pregressa do "paciente inglês". Almasy, na verdade, tem uma trágica história de amor no passado: apaixonado perdidamente por Katharine Clifton (Kristin-Scott Thomas), uma mulher casada, ele envolveu-se, por causa dela, em um jogo de intrigas e mal-entendidos que culminou com sua desoladora morte.

 

Contado em forma de flashbacks que em seu final, monta todo um quebra-cabeças melancólico e desesperado, "O paciente inglês" tem a seu favor o talento de seu diretor Anthony Minghella em criar sequências de invulgar beleza: em vários momentos sua câmera deixa a plateia com a respiração suspensa, tamanha sua sensibilidade. É assim com a cena em que Kip mostra os desenhos de uma igreja abandonada à Hana ou na belíssima sequência inicial em que o deserto do Saara parece ter as formas de um corpo feminino graças ao ângulo com que o diretor de fotografia John Seale posiciona a câmera. É notável o carinho com que Minghella trata seus atores, entregando a eles cenas fortes e diálogos memoráveis (não foi à toa que seus três protagonistas foram indicados ao Oscar, e Juliette Binoche, excepcional, levou a estatueta pra casa, ainda que de coadjuvante ela não tenha nada...)

O tempo fez bem a "O paciente inglês". Na época de seu lançamento, foi considerado por alguns críticos como um filme "frio" e "sem alma". Hoje, à luz do tempo, pode-se perceber melhor suas qualidades: a bela trilha sonora de Gabriel Yared, a fotografia deslumbrante de John Seale, o roteiro complexo mas repleto de sinceridade, e as atuações extremamente emocionais de seu elenco. Ralph Fiennes abandona o ar psicótico de seu nazista de "A lista de Schindler" para assumir de vez seu papel de herói romântico; Juliette Binoche rouba todas as cenas em que aparece, com uma expressividade arrasadora; e Kristin Scott-Thomas mostra que, por debaixo da frieza britânica mostrada em "Lua de fel" e "Quatro casamentos e um funeral", há um vulcão de sensualidade e passionalidade. Também não atrapalha em nada ter em seu elenco coadjuvante nomes como os de Colin Firth e Willem Dafoe, que dão o tom exato em suas interpretações.

"O paciente inglês" não tinha, em seu ano, nenhum concorrente digno de estragar seus planos de vitória: disputou o prêmio com o simpático "Jerry Maguire", o irônico "Fargo", o chatíssimo "Segredos e mentiras" e o super-apreciado "Shine". Mas o fato de não ter reais rivais em seu caminho não tira sua glória: é um filme que mereceu os prêmios que ganhou e que vai permanecer na memória do público como um dos mais belos romances da história do cinema.

quarta-feira

CORAÇÃO SELVAGEM

CORAÇÃO SELVAGEM (Wild at heart, 1990, Polygram Filmed Entertainment, 125min) Direção e roteiro: David Lynch, romance de Barry Gifford. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Duwayne Dunham. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Amy Stofsky. Direção de arte: Patricia Norris. Casting: Johanna Ray. Produção executiva: Michael Kuhn. Produção: Steve Golin, Mony Montgomery, Sigurjon Sighvatsson. Elenco: Nicolas Cage, Laura Dern, Diane Ladd, Willem Dafoe, Isabella Rossellini, J.E. Freeman, Crispin Glover, Harry Dean Stanton, Grace Zabriskie, Sheryl Lee, Sherilyn Fenn, Pruitt Taylor Vince. Estreia: 17/8/90

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Diane Ladd)
Palma de Ouro Melhor Filme Festival de Cannes

Dando seguimento à sua obsessão em devassar o espírito americano em filmes que unem o sublime e o bizarro, o corriqueiro com o exagerado, David Lynch surpreendeu o mundo em 1990, levando a Palma de Ouro do Festival de Cannes com "Coração selvagem", em que ele vai ainda mais fundo em seu objetivo, ao subverter um gênero caro ao imaginário cinematográfico: as histórias de amor.

Sim, "Coração selvagem" É uma história de amor. Mas antes que alguém acuse Lynch de ter ficado sensível e apaixonado, é preciso que se olhe com atenção seu filme: nunca um casal esteve tão longe das convenções quanto Sailor Ripley (Nicolas Cage) e Lula (Laura Dern, em seu segudo filme com o diretor). Na primeira cena do filme, Sailor arrebenta a cabeça de um desafeto, com uma violência poucas vezes vista no cinema. Preso por homicídio, ele sai da cadeia alguns anos depois e reencontra sua amada, para que enfim possam ser felizes juntos. O que o alegre casal não pode imaginar é que a mãe de Lula (uma enlouquecida Dianne Ladd, mãe de Laura Dern também na vida real), apaixonada por Sailor, não tem a menor intenção de deixar que eles sejam felizes e, para isso, contrata matadores de aluguel para acabar com seu idílio amoroso.

 


Só mesmo a mente doentia de David Lynch seria capaz de homenagear o singelo "O mágico de Oz" da maneira como o faz. Shery Lee, a Laura Palmer de sua famosa série "Twin Peaks", surge como uma fada boa, que aconselha Sailor a não abandonar a sua meta de ficar com Lula e no meio de seu caminho surgem personagens e cenas que fazem sentido apenas no universo todo particular do diretor. O público é brindado com uma Isabella Rossellini desleixada no meio do deserto, Sherylin Fenn morrendo em um acidente de carro e preocupada com o cabelo e um Willem Dafoe com a dentadura mais asquerosa da história do cinema tentando seduzir Laura Dern em um quarto de hotel cheirando a vômito. Sim, é uma estética desagradável, mas é ao mesmo tempo hipnotizante e coerente com a carreira sui-generis do cineasta.

"Coração selvagem" não é para qualquer estômago. Mas se até a normalmente sisuda Academia de Hollywood rendeu-se à excêntrica atuação de Dianne Ladd, indicando-a ao Oscar de atriz coadjuvante, é sinal de que de vez em quando seus membros conseguem surpreender. Até mesmo o extremismo do cinema de Lynch - que não poupa o espectador de personagens bizarros, violentos e idiossincráticos - é fascinante, em "Coração selvagem". Nicolas Cage, do alto de sua canastrice e Laura Dern - uma atriz bem distante dos padrões de beleza hollywoodianos - formam um dos casais mais estranhos a cruzar as telas e Ladd se entrega de forma corajosa a uma personagem difícil e ingrata. Nem mesmo a imagem de Cage cantando "Love me tender" vestindo uma jaqueta de couro de jacaré - símbolo de sua liberdade pessoal - é capaz de tirar da mente a viagem fora do comum comandada por David Lynch.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...