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segunda-feira

WALL STREET: PODER E COBIÇA

 


WALL STREET: PODER E COBIÇA (Wall Street, 1987, 20th Century Fox, 126min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Stanley Weiser. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Claire Simpson. Música: Stewart Copeland. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Stephen Hendrickson/Leslie Bloom, Susan Bode. Produção: Edward R. Pressman. Elenco: Michael Douglas, Charlie Sheen, Daryl Hannah, Martin Sheen, Hal Holbrook, Sean Young. Estreia: 11/12/87

Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Michael Douglas)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Michael Douglas)

Logo depois de ter feito a festa na cerimônia do Oscar 1987 com seu "Platoon", que recebeu as estatuetas de melhor filme e diretor - além de outros prêmios técnicos -, Oliver Stone resolveu voltar suas lentes para um outro tipo de batalha, menos sangrento mas igualmente nocivo. Das selvas do Vietnã ao centro nervoso do mercado financeiro dos EUA, o polêmico cineasta fez uma longa viagem, mas não abandonou seu olhar aguçado e crítico. "Wall Street: poder e cobiça" pode não ter causado o mesmo impacto popular do filme anterior de Stone, mas mostrou a seus detratores que nem só de controvérsias era feita sua carreira, deu a Michael Douglas o Oscar de melhor ator e rendeu um personagem icônico (que voltou às telas em 2010, em uma sequência inesperada), dono de uma das frases mais memoráveis do cinema (a famigerada "greed is good"). Dedicado ao pai de Stone, corretor na bolsa de valores durante a Depressão, e inspirado em escândalos com títulos de alto risco e informações privilegiadas dos anos 1980, "Wall Street" estreou no auge do conservador governo Reagan, e com sua feroz crítica ao capitalismo e à ganância desenfreada, tornou-se um dos retratos mais fiéis de um período centrado no hedonismo e nos excessos de todos os tipos. Filmado às pressas para escapar de uma então iminente greve de diretores e - segundo o cineasta - lançado com pouco caso por seu estúdio (a 20th Century Fox), que preferiu apostar suas fichas em "Nos bastidores da notícia", "Wall Street" acabou rindo por último: enquanto a comédia dramática de James L. Brooks não conseguiu converter nenhuma de suas sete indicações ao Oscar, o filme de Oliver Stone saiu da cerimônia com a única estatueta a que havia sido indicada.

"Wall Street" se passa na primeira metade da década de 1980 e acompanha o caminho do jovem Bud Fox (Charlie Sheen), que trabalha como corretor na bolsa de valores de Nova York e tem como principal objetivo na vida chegar ao topo da pirâmide financeira e social. Disposto a qualquer artimanha para alcançar suas metas pessoais, ele trabalha incansavelmente para conquistar a atenção de um dos maiores especuladores do país, o ganancioso Gordon Gekko (Michael Douglas). Conhecido no mercado por seus métodos pouco ortodoxos (quando não criminosos), Gekko acaba por colocar Fox sob suas asas e, com o tempo, a explorar suas informações privilegiadas para obter vantagens. Mergulhado em um mundo sofisticado que contrasta com sua vida até então de poucos recursos, Fox passa a conviver com gente como a decoradora Darien (Daryl Hannah) - com quem se envolve romanticamente - e uma série de outros tubarões pouco afeitos à ética. Conforme vai subindo na vida, porém, o jovem vai se distanciando do universo classe média de seu pai, Carl (Martin Sheen), funcionário de uma empresa de aviação comercial que, devido às maquinações de Gekko, entra no caminho da falência.

Apesar de hoje em dia Michael Douglas ser considerado o intérprete ideal de Gordon Gekko - com uma atuação antológico que marcou definitivamente sua carreira -, seu nome não foi o primeiro a ser pensado para o papel (inclusive havia o temor, que mostrou-se infundado, de que ele poderia, devido a sua experiência como produtor premiado, tentar interferir nos bastidores). Antes que Douglas assumisse o desafio, astros consagrados como Al Pacino, Jack Nicholson, Robert DeNiro e Warren Beatty estiveram na mira de Stone (que pensou até mesmo em Richard Gere, conhecido mais como galã do que por seus dotes de ator sério). A escolha de Douglas, no entanto, foi o tiro mais certo da produção: até então mais respeitado como produtor (vencedor do Oscar por "Um estranho no ninho", de 1975), astro de produções comerciais como "Tudo por uma esmeralda" (1984) e "A joia do Nilo" (1985) e filho de Kirk Douglas, Michael aproveita cada momento em cena para demonstrar uma persona radicalmente oposta àquela que, no mesmo ano, havia oferecido às plateias como o adúltero atormentado pela ex-amante no sucesso "Atração fatal" - filmado concomitantemente e indicado a seis Oscar: cínico, amoral e por vezes cruel, Gordon Gekko encontrou nele sua mais perfeita tradução, a ponto de eclipsar o verdadeiro protagonista do filme, o jovem Bud Fox, cujo pacto mefistofélico é a base da narrativa e a fonte da moral da história - interpretado por um jovem Charlie Sheen, que ficou com um papel ambicionado por um então ascendente Tom Cruise.

Antes de consagrar-se com o papel principal de "Nascido em 4 de julho" (1989), também dirigido por Oliver Stone, Cruise demonstrou interesse em interpretar Bud Fox, mas acabou preterido por Charlie Sheen, cuja rigidez juvenil serviu como uma luva para as intenções do roteiro em retratar o personagem como alguém preso entre a ambição de tornar-se um milionário do mundo das finanças e os valores ensinados por seu pai sindicalista e de rígida moral (vivido pelo pai de Charlie, o veterano Martin Sheen). Mas se Charlie foi capaz de utilizar-se de sua quase inexperiência para atingir o objetivo de Stone o mesmo não pode ser dito de parte do elenco escolhido pelo cineasta (e que deu origem a dores de cabeça nos bastidores): tanto Daryl Hannah quanto Sean Young foram alvos de severas (e justas) críticas por parte da imprensa, que percebeu em ambas uma sensação de insegurança e deslocamento a ponto de terem suas cenas diminuídas na montagem final. Young - conhecida por ser de difícil convivência e pouco respeitada como atriz - queria o papel de Hannah e nunca fez questão de esconder seu desejo, tornando as filmagens um campo de batalha silencioso e tenso: sua relação difícil com Charlie Sheen não deixou as coisas melhores e seu comportamento pouco profissional acabou por eliminar uma trama paralela que ampliaria a importância de sua personagem. Não é de admirar, portanto, o quão pouco desenvolvidos são os papéis femininos na trama.

Um dos filmes mais representativos da sociedade dos EUA da era Reagan, "Wall Street: poder e cobiça" não foi exatamente um sucesso popular, mas revelou em Oliver Stone um cineasta atento à sua época e inteligente na forma de explorar as ferramentas narrativas a seu dispor - é brilhante, por exemplo, o modo como utiliza a fotografia para estabelecer a diferença de ritmo e intenções quando retrata a quase violência da bolsa de valores (na pele de Fox e seus colegas) e a serenidade do caráter incorruptível de Carl. Parte de um período prolífico e elogiado na carreira do diretor, o filme rendeu a única continuação em seu currículo - e apesar do tema difícil e pouco atraente, é um ponto alto em sua filmografia.

sexta-feira

TRÊS SOLTEIRÕES E UM BEBÊ

 


TRÊS SOLTEIRÕES E UM BEBÊ (Three men and a baby, 1987, Touchstone Pictures, 102min) Direção: Leonard Nimoy. Roteiro: James Orr, Jim Cruickshank, original de Coline Serreau. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Michael A. Stevenson. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Larry Wells. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Jacques M. Bradette, Hilton Rosemarin. Produção executiva: Jean-François Lepetit. Produção: Robert W. Cort, Ted Field. Elenco: Tom Selleck, Steve Guttenberg, Ted Danson, Nancy Travis, Margaret Colin, Alexandra Amini. Estreia: 23/11/87

Em 1985, uma singela comédia francesa sobre um trio de amigos solteiros que tem sua rotina transformada com a chegada inesperada de uma menina recém-nascida pegou o mundo de surpresa e se tornou um dos maiores sucessos da temporada - não apenas em seu país de origem, mas também no mercado norte-americano, normalmente avesso a produções realizadas fora de seu domínio. Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, "Três homens e um bebê", escrito e dirigido por Coline Serreau, não demorou a chamar a atenção dos estúdios de Hollywood, que viram na trama elementos que casavam perfeitamente com a agenda conservadora do governo Reagan. Parte de um ciclo que festejava o casamento e a família e que gerou filmes como "Presente de grego" (1987), "Ela vai ter um bebê" (1989) e "Olha quem está falando" (1989) - além do polêmico "Atração fatal" (1987), um verdadeiro libelo pró-matrimônio, disfarçado sob um verniz de thriller -, o remake do filme de Serreau encontrou na Touchstone Pictures o lugar ideal para ser desenvolvido, depois de passar pela TriStar e pela Universal: nada como uma ramificação da Disney, afinal, para abrigar um projeto tão inofensivo. E, como não poderia deixar de acontecer, "Três solteirões e um bebê" repetiu, nas bilheterias americanas (e mundiais) o sucesso de seu original e foi ainda mais além, terminando a temporada com uma renda superior a 160 milhões de dólares - um êxito incontestável que permitiu, três anos depois, a realização de uma sequência desnecessária e de pouca repercussão, "Três solteirões e uma pequena dama".

O projeto do remake da comédia francesa contava, em seus primeiros momentos, com a presença da própria Coline Serreau - que chegou a participar da escolha dos atores principais (um processo longo que cogitou os nomes de praticamente todo e qualquer astro ou potencial astro da época). Sua saída de cena deu lugar a Leonard Nimoy - cuja experiência como diretor (restrita a dois longas de "Jornada nas estrelas", um telefilme e alguns episódios de telesséries) não foi suficiente para evitar desgastes com o elenco masculino, frequentemente questionando seus métodos de trabalho. E se a direção de Nimoy não chega a ser brilhante ou dotada de uma criatividade capaz de amenizar a fragilidade do roteiro, tampouco compromete o resultado final. Simpático mas superficial, "Três solteirões e um bebê" diverte (ao menos em sua primeira metade), encanta (graças à simpatia das pequenas Lisa e Michelle Blair) e pode até emocionar aos mais sensíveis, mas carece de personalidade e, afora sua premissa interessante, é pouco memorável e até mesmo decepcionante  - principalmente fora do contexto social em que foi lançado.


 

Entre as dez maiores bilheterias de 1987, ano em que "Três solteirões e um bebê" foi lançado, havia espaço para comédias românticas ("Feitiço da lua" e "Dirty dancing: ritmo quente"), filmes de ação ("Predador" e "Máquina mortífera) e sequências de sucessos já previamente testados ("Um tira da pesada 2" e "007: marcado para a morte"). Buscando uma parcela do público que preferia frequentar as salas de exibição para relaxar e se divertir sem maiores exigências, filmes como o remake comandado por Nimoy tentavam driblar a violência que enchia o cofre dos estúdios ao oferecer produções que pudessem agradar à família inteira - ou seja, sem sexo, sem sangue, sem mortes a rodo ou palavrões ofensivos. "Três solteirões" caiu como uma luva em tais intenções, ao explorar uma situação capaz de arrancar sorrisos até do mais cínico espectador. O problema nem era o fato de exagerar na construção quase infantil de seus protagonistas - um trio de heterossexuais metidos a conquistadores e incapazes da tarefa mais simples do dia-a-dia -, mas sim seu fracasso em expandir a piada única no qual todo o roteiro era baseado. Acrescentar à história uma desnecessária subtrama envolvendo tráfico de drogas não apenas truncava o ritmo a partir da metade - também, de certa forma, tornava quase incoerente seu discurso de "filme família (além de não convencer e ser chata). Retomar o rumo em seus minutos finais - um tanto inverossímeis - até conserta um pouco as coisas, mas qualquer um com um mínimo de exigência percebe que, apesar da premissa adorável, o filme é simplesmente bobo.

A trama segue as aventuras de três amigos que dividem um belo e amplo apartamento em Manhattan: o arquiteto Peter Mitchell (Tom Selleck em papel que chegou a ser considerado para Chevy Chase, Steve Martin, Bill Murray, Jack Nicholson, Paul Hogan e, pasmem, Arnold Schwarzenegger), o cartunista Michael Kellan (Steve Guttenberg, que ganhou o papel de nomes como Tom Hanks, Michael Keaton, John Travolta e Bruce Willis) e o ator Jack Holden (Ted Danson no lugar de Michael J. Fox, Tony Danza, Jeff Daniels, Danny Glover, Kevin Kline, Gary Oldman, Bill Pullman e Dennis Quaid) moram juntos e convivem pacificamente com suas rotinas que envolvem muitas mulheres, festas e absolutamente nenhum compromisso amoroso mais sério. As coisas mudam de figura quando, durante uma viagem de Jack a trabalho, seus amigos descobrem, à porta de sua casa, um bebê de poucos meses, deixado no local por uma antiga namorada. Enquanto lidam com as novas responsabilidades, os colegas acabam se apaixonando pela menina - mesmo que isso atrapalhe suas carreiras, seus fugazes relacionamentos e até seus valores. Quando a mãe do bebê ameaça retomar a filha, porém, eles se sentem incapazes de abrir mão de quem já consideram parte da família.

Sim, é agradável. Sim, o bebê é adorável e algumas situações são realmente engraçadas - especialmente no primeiro ato. E sim, a química entre os três atores centrais (no auge de sua popularidade) funciona como um relógio. Mas no final das contas, é pouco. O roteiro é quase preguiçoso, o desenvolvimento dos personagens é raso (nenhum dos protagonistas soa como alguém de verdade) e, como já dito, algumas subtramas atrapalham o ritmo da história. Porém, quem não se importa com tais "detalhes" terá, certamente, quase duas horas de um entretenimento inofensivo e esquecível.

BESAME MUCHO


BESAME MUCHO (Besame mucho, 1987, Francisco Ramalho Júnior Filmes/HB Filmes, 108min) Direção: Francisco Ramalho Jr.. Roteiro: Francisco Ramalho Jr.,Mário Prata, peça teatral de Mário Prata. Fotografia: José Tadeu Ribeiro. Montagem: Mauro Alice. Música: Wagner Tiso. Figurino: Domingos Fuschini. Direção de arte/cenários: Marcos Weinstock. Produção: Hector Babenco, Francisco Ramalho Jr.. Elenco: Antônio Fagundes, José Wilker, Christiane Torloni, Glória Pires, Giulia Gam, Paulo Betti, Isabel Ribeiro. Estreia: 13/8/87

Montada pela primeira vez em 1982 nos palcos de São Paulo - e no ano seguinte no Rio de Janeiro -, a peça teatral "Besame mucho", de Mário Prata, não demorou a chegar às telas de cinema. Adaptada pelo cineasta Francisco Ramalho Jr e pelo próprio Prata, a história com traços autobiográficos estreou em agosto de 1987, embalada pelos prêmios (roteiro e figurino) do Festival de Gramado e pela popularidade de seu elenco principal, formado por astros globais. Com um texto nostálgico e uma produção caprichada, acabou por se tornar um dos filmes nacionais mais queridos de sua temporada - apesar de raramente ser lembrado pela crítica ou até mesmo pelo público em listas de principais produções do cinema brasileiro, deixa a sensação, após os créditos finais, de um passatempo inofensivo dos mais agradáveis.

A trama criada por Prata não é das mais originais: ao acompanhar a trajetória de dois casais de amigos durante vinte anos, o dramaturgo não chega a aprofundar psicologicamente seus personagens nem tampouco apelar para reviravoltas dramáticas que possam provocar grandes catarses. Porém, é na sua estrutura que a peça (e o filme, acertadamente fiel) surpreende: ao começar a ação no final dos anos 1980 e regredindo até o fatídico 1964, o roteiro substitui a pergunta clássica "o que vai acontecer?" pela menos óbvia "como eles chegaram até esse ponto?". Dessa forma, Prata desnuda idiossincrasias, hipocrisias e inseguranças de seus protagonistas com um acento cômico que permite ao público envolver-se com o enredo sem questionar suas possíveis falhas. Além disso, aproveita para apontar, com inteligência, a mudança dos comportamentos sociais e políticos do país durante um de seus períodos mais críticos através de personagens que, de uma maneira ou outra, são afetados por tais transformações. 

 

Quando o filme começa, Xico (José Wilker) e Olga (Glória Pires) estão se divorciando, depois de uma crise longa e desgastante. Ele é um premiado autor de teatro, mas sem que ninguém saiba, sua principal peça, "Besame mucho", foi escrita, na verdade, por sua mulher - que, na juventude, passou da alienação política a um auto-exílio durante a ditadura militar. Em sentido oposto, o quase idealista Tuca (Antônio Fagundes) tornou-se um empresário de sucesso, crescendo financeiramente em sua cidadezinha natal ao lado da mulher, Dina (Christiane Torloni), que abandonou a rigidez moral da adolescência para embarcar em uma série de fantasias eróticas com o marido, como forma de enterrar um passado de frustrações sexuais. A partir desse primeiro momento, o filme começa a regredir cronologicamente e apresentar os dois casais na construção de seus relacionamentos, suas carreiras e vidas sentimentais - até chegar ao tenebroso 31 de março de 1964, data em que suas próprias relações interpessoais também chegam a um impasse - o primeiro de muitos que ainda lhes atormentariam a existência.

Se o texto de Mário Prata parece mais apropriado ao palco do que às telas de cinema - uma linguagem mais direta e simples que nem sempre se conecta perfeitamente à sua adaptação -, a direção de Francisco Ramalho Jr. explora com precisão seu maior trunfo: o elenco. Aproveitando-se do tom mais leve de seus personagens, Antônio Fagundes e Christiane Torloni brilham com uma química previamente testada na televisão (e que voltariam a repetir em trabalhos futuros). José Wilker e Glória Pires, vivendo um casal com mais nuances dramáticas, brincam sem medo com todas as incoerências de Xico e Olga, provavelmente os mais alterados pela dinâmica da sociedade e da vida de uma cidade grande. Entre os coadjuvantes, Paulo Betti e Giulia Gam quase roubam a cena com momentos de humor equilibrado entre o ingênuo e o picante. Soma-se a isso a percepção triste de que o Brasil de 1964 não está tão distante assim do Brasil de 2022 - com a sombra folclórica de uma ameaça comunista que só existia (e existe) na paranoia da direita. É essa pitada de ironia (involuntária, uma vez que a peça estreou quando havia a ilusão de que o passado já estava enterrado de vez) que faz com que "Besame mucho" deixe de ser apenas uma comédia dramática sobre a imaturidade masculina e a evolução (ou não) da sociedade e se torne quase um lembrete de quão cíclicas são as mudanças no mundo.

BAGDAD CAFÉ


BAGDAD CAFÉ (Bagdad Cafe, 1987, Palemele Film/Pro-jetc Filmproduktion, 95min) Direção: Percy Adlon. Roteiro: Percy Adlon, Eleonore Adlon. Fotografia: Bernd Heinl. Montagem: Norbert Herzner. Música: Bob Telson. Figurino: Regine Batz, Elizabeth Warner. Direção de arte/cenários: Bernt Amadeus Capra/Byrnadette DiSanto. Produção: Percy Adlon, Eleonore Adlon. Elenco: Marianne Sagebrecht, CCH Pounder, Jack Palance, Christine Kaufmann, Monica Calhoun. Estreia: 12/11/87

Indicado ao Oscar de Canção Original ("Calling you")

Premiada no Festival Internacional de Cinema do Rio em 1988, a comédia dramática "Bagdad Café" tornou-se, com o passar do tempo, um cult movie por excelência e o mais duradouro e aplaudido cartão de visitas de seu diretor, Percy Adlon. Terceiro filme do cineasta alemão que ficou conhecido no Brasil por seu "Estação Doçura" (1984), a história da inusitada amizade entre duas mulheres com muito mais em comum do que as aparências mostram em um primeiro olhar conquistou as plateias internacionais e chegou a concorrer a um Oscar - o de melhor canção, quando a bela "Calling you" perdeu para a popular e deliciosa "Let the river run", de Carly Simon, tema do filme "Uma secretária de futuro". De narrativa simples, ainda que permeado de alguns lances visuais criativos e que apontam para um estilo próprio, o filme de Adlon pode soar estranho a uma plateia acostumada com as produções hollywoodianas, mas bastam poucos minutos para que seu universo atípico envolva o espectador de forma calorosa e inevitável.

A estranheza já começa nos primeiros momentos, quando a protagonista, Jasmin (Marianne Sagebrecht, parceira do diretor em três produções) é abandonada pelo marido no meio do deserto do Arizona, de mala, cuia e completa desorientação geográfica e física. O público não entende os motivos da briga e nem como o casal de alemães foi parar no caminho para Las Vegas - com o tempo, isso nem irá ter muita importância - e logo se vê também diante de outra personagem feminina forte mas aparentemente oposta - Brenda (CCH Pounder) é forte, determinada e irascível, e aprendeu na marra a sobreviver a um mundo pouco hospitaleiro a mulheres, especialmente negras pouco dispostas a seguir mansamente as regras impostas pelo patriarcado. Brenda acaba de expulsar o marido do posto-motel que administra na beira da estrada, o Bagdad Cafe, e passa os dias lidando com os hóspedes desajustados - em especial o pintor e hippie Rudi Cox (Jack Palance) e a tatuadora Debby (Christine Kaufman) - e os três filhos, que lhe dão problemas o bastante. A mais velha, Phyllis (Monica Calhoun), é uma adolescente que se envolve com os caminhoneiros que passam pelo local; o do meio, Sal (Darron Flagg), passa os dias praticando música no piano (e irritando aos menos pacientes); e o bebê de colo, a quem precisa dar atenção constante. Logo de cara Brenda não simpatiza com Jasmine, uma hóspede de modos estranhos e pouco comuns, mas conforme o tempo vai passando surge uma relação inesperada entre elas: com seu jeito de ser afável, Jasmine rompe a bolha raivosa de Brenda e conquista todos a seu redor.

 

A forma com que Adlon narra a transformação do tedioso e melancólico hotel de Brenda em um local festivo e repleto de calor humano é um dos maiores destaques de "Bagdad Café". O roteiro não se satisfaz em apenas mostrar o gradativo descobrimento das semelhanças entre suas duas protagonistas através de suas vidas sofridas e/ou difíceis - cada uma dentro de seu espectro social, racial e cultural. De maneira inteligente, a trama vai se desdobrando diante do espectador com seu ritmo quase contemplativo, mergulhando-o em um cotidiano modorrento e sem grandes lances dramáticos, até que seja quase impossível abandoná-lo. Ao lançar um olhar poético e carinhoso até mesmo a situações problemáticas (como os romances fugazes de Phyllis com homens mais velhos), o filme permite ao público que goste inclusive de personagens pouco simpáticos, oferecendo a eles a oportunidade de mostrar suas qualidades mais recônditas. É assim com a agressiva Brenda - que, conforme a história avança, revela um lado menos bruto de sua personalidade - e até com a dócil Jasmine - cuja inteligência em lidar com as adversidades irá salvá-la da solidão e empurrá-la em direção a relacionamentos mais saudáveis e completos. É através de um show de mágicas (uma solução lúdica e emocionante) que a forasteira misteriosa - ao menos para aqueles que se conhecem há muito tempo e convivem sem maiores sobressaltos - irá unir os hóspedes e clientes do posto/café, e transformá-los em uma uma grande família (a ponto de uma hóspede preferir ir embora a ter de viver "com tanta harmonia").

"Bagdá café" não chega a aprofundar-se em questões que futuramente seriam cruciais em histórias essencialmente femininas - violência doméstica, machismo, abandono parental, prostituição - ou universais - racismo, xenofobia -, mas acerta em cheio ao apostar na sororidade e identificação entre duas protagonistas ao mesmo tempo distantes e tão próximas. Para isso, conta com as atuações iluminadas de Marianne Sagebrecht (de "Estação Doçura" e "Rosalie vai às compras", ambos de Percy Adlon, e que fez pouca coisa em Hollywood, sendo relegada a segundíssimo plano em "A guerra dos Roses", de 1989) e CCH Pounder (cujo currículo inclui sucessos de bilheteria, como "Avatar" e "A órfã"): juntas, elas transformam a experiência de se assistir ao filme de Adlon um passatempo ao mesmo tempo agradável e de uma profundidade emocional que justifica seu êxito internacional. Além disso, a produção ainda conta com a luxuosa participação especial do veterano Jack Palance antes de seu Oscar de coadjuvante e em um papel completamente destoante da persona violenta que criou em sua longa carreira. Um triunfo delicado e sutil

ENCONTRO ÀS ESCURAS


ENCONTRO ÀS ESCURAS (Blind date, 1987, TriStar Pictures, 95min) Direção: Blake Edwards. Roteiro: Dale Launer. Fotografia: Harry Stradling. Montagem: Robert Pergament. Música: Henry Mancini. Figurino: Tracy Tynan. Direção de arte/cenários: Rodger Maus/Carl Biddiscombe. Produção executiva: Gary Hendler, Jonathan D. Krane. Produção: Tony Adams. Elenco: Bruce Willis, Kim Basinger, John Larroquette, William Daniels. Estreia: 24/3/87

Em maio de 1986, quando começaram as filmagens de "Encontro às escuras", Bruce Willis ainda não era o astro de Hollywood que se tornou após a estreia e o estrondo de "Duro de matar" (1988), mas já tinha a seu favor a popularidade adquirida com o êxito de audiência da telessérie "A gata e o rato", que coestrelava com Cybil Sheppard e que lhe deu visibilidade o bastante para que arriscasse uma carreira no cinema. No entanto, mesmo que seu futuro na tela grande ainda fosse uma incógnita, sua escolha para o papel principal em um filme do festejado Blake Edwards foi uma aposta certeira do estúdio (TriStar Pictures): por mais que a sensualidade de Kim Basinger fosse um atrativo dos maiores (leia-se "9 1/2 semanas de amor"), é certo que o carisma de Willis foi um dos fatores preponderantes para o razoável sucesso da produção, uma comédia romântica despretensiosa que arrecadou perto de 40 milhões de dólares - apesar do pouco caso com que foi recebida pela crítica. Mesmo sendo dirigido por um veterano tão celebrado quanto Edwards (ou talvez justamente por isso), "Encontro às escuras" acabou decepcionando e hoje é mais lembrado por ter sido a estreia de Willis no cinema do que por suas qualidades cômicas - mas, visto sem grandes expectativas, é um filme leve, divertido e simpático, com um sabor delicioso de nostalgia.

A trama até lembra um pouco o sensacional "Depois de horas" (1984), de Martin Scorsese, ao colocar seu protagonista no centro de um furacão provocado pelo desejo por uma mulher - um inferno de tempo limitado (boa parte do filme se passa em uma única noite) e consequências imprevisíveis, com a violência sempre à espreita, ainda que retratada de forma cínica e irônica. No caso do filme de Edwards a vítima é Walter David, um típico yuppie dos anos 1980, um ambicioso executivo perto de ver seu sonho de promoção chegar a suas mãos. Justamente para agradar ao patrão conservador, Walter resolve não aparecer sozinho em um jantar de negócios - e aceita encontrar uma amiga da cunhada mesmo sem saber absolutamente nada a seu respeito (exceto o fato de que a beldade não pode beber "para não sair de si.") Assim como seu irmão, Walter entende equivocadamente a dica e só vai descobrir isso tarde demais. Encantado pela beleza e pelo charme de Nadia Gates (Kim Basinger, morena e com surpreendente timing cômico), Walter insiste em que ela beba alguns goles de champagne antes do compromisso formal com seu chefe. Para seu desespero, porém, o aviso da cunhada se revela um eufemismo, e a tímida Nadia, sob o efeito do álcool, libera uma personalidade tão festiva quanto irresponsável, capaz de destruir a imagem cuidadosamente construída por Walter diante de seus colegas de trabalho. Não bastasse isso, seu ex-noivo, David (John Larroquette), não parece disposto a aceitar tranquilamente o rompimento - e surge como uma sombra no caminho do novo casal.


 

Apostando tanto no humor visual (que tanto deu certo em seus filmes com Peter Sellers) quanto na tentativa de evocar uma atmosfera de pesadelo (mas sem o tom sinistro de uma produção de suspense), Blake Edwards demonstra uma irregularidade incômoda: não apenas a história demora a começar como sofre de uma queda brusca de ritmo no terço final. O roteiro de Dale Launer sofreu diversas alterações até chegar às telas, e o próprio roteirista rejeitou o produto final, que se mostra um cruzamento nem sempre bem-sucedido entre o já citado "Depois de horas", o nonsense "Totalmente selvagem", de Jonathan Demme (lançado em 1986) e as comédias românticas estreladas por Katharine Hepburn e Spencer Tracy. A química entre Bruce Willis e Kim Basinger é precisa, mas nem sempre é aproveitada a contento - a ponto de o casal ser separado por quase todo o último ato. Quando funciona, "Encontro às escuras" faz lembrar os melhores momentos de Blake Edwards. Quando não acontece, deixa um sentimento de frustração que explica a má recepção do filme junto à crítica. Não se pode deixar de perceber a falha do cineasta em manter um ritmo consistente ou construir um mínimo de profundidade em seus personagens, que agem sempre de forma imatura e inconsequente - ok, é uma comédia, mas até mesmo dentro das regras de um gênero específico é possível criar coerência e complexidade.

No início de sua produção, "Encontro às escuras" teria Madonna como atriz principal - na época em que a cantora estava flertando fortemente com o cinema, estrelando filmes divertidos como "Procura-se Susan desesperadamente" (1985) e "Quem é esta garota?" (1987). A substituição por Kim Basinger se deu quando a polêmica estrela pop descobriu que Bruce Willis já havia sido contratado como o astro do filme, o que a impediria de impor seu então marido Sean Penn no papel central. Não que Penn precisasse - hoje é um dos melhores atores em atividade em Hollywood -, mas o projeto em conjunto do casal talvez apagasse o fiasco de "Surpresa de Shangai", que fizeram em 1986 e pelo qual haviam sido apedrejados pela crítica e ignorados pelo público. É difícil dizer se o resultado seria melhor ou pior do que a versão estrelada por Bruce Willis e Kim Basinger - mas, a julgar por boa parte das produções lideradas por Madonna em suas incursões na tela grande, não teria sido um ponto alto de sua carreira. Para Willis, no entanto, foi um belo pontapé inicial de uma trajetória admirável que inclui sucessos acachapantes de bilheteria ("O sexto sentido", de 1999) e produções de extremo prestígio ("Pulp fiction: tempo de violência", de 1994).

 

terça-feira

ARIZONA NUNCA MAIS


ARIZONA NUNCA MAIS (Raising Arizona, 1987, 20th Century Fox/Circle Films, 94min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Michael R. Miller. Música: Carter Burwell. Figurino: Richard Hornug. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Robert Kracik. Produção executiva: James Jacks. Produção: Ethan Coen. Elenco: Nicolas Cage, Holly Hunter, John Goodman, William Forsythe, Frances McDormand, Trey Wilson, Randall "Tex" Cobb. Estreia: 06/3/87

O que fazer depois que seu filme de estreia - uma produção independente barata e sem astros hollywoodianos - se torna queridinho da crítica e coloca seu nome dentre as maiores promessas do novo cinema norte-americano? Se a pergunta fosse feita a Joel e Ethan Coen, os irmãos responsáveis pela direção, roteiro e produção do desconcertante "Gosto de sangue" (1984), a resposta certamente revelaria seu desejo de realizar o oposto de seu primeiro filme. Muito mais leve, solar e otimista do que seu antecessor - mas ainda com generosas doses de um humor todo particular -, "Arizona nunca mais" pegou crítica e público de surpresa quando estreou e apresentou, sem nenhum traço de pudor, uma história de amor doce, engraçada e familiar - e que, para deixar tudo ainda mais alto-astral, com um risonho e louro bebê fazendo as vezes de catalisador da ação. Diferindo radicalmente do suspense pesado e violento que marcou sua impactante chegada ao mundo do cinema, "Arizona nunca mais" demonstrou, para quem estivesse disposto a ver e ouvir, que os irmãos Coen não tinham se beneficiado da famigerada sorte de principiante - e que tinham muito, mas muito talento e criatividade a oferecer.

Escrito em três meses e meio (depois que o projeto de "Na roda da fortuna" foi adiado indefinidamente devido a seu orçamento milionário), o roteiro de "Arizona nunca mais" surgiu, segundo os próprios diretores, da vontade de ambos em escrever um bom papel para Holly Hunter, então começando o que viria a ser uma carreira vitoriosa. Desse desejo nasceu Edwina (ou Ed), uma policial dedicada e sensível que sonha em casar e ter uma família - mesmo que seja com alguém tão disfuncional quanto Herbert McDunnough (ou H.I.), um bandido pé-de-chinelo que se apaixona por ela quando é preso pelo assalto a uma loja de conveniências. Seduzida pela atenção que lhe é dispensada por H.I. - que lhe enche de gentilezas a cada vez que é capturado pela polícia -, Ed aceita seu pedido de casamento. Sua nova vida, em um trailer no deserto do Arizona, só não é completa pela falta de um filho - um problema aparentemente insolúvel depois que Ed se descobre estéril e o casal percebe que, graças à extensa ficha criminal de H.I., adoção tampouco é uma opção. A luz no fim do túnel que reacende a esperança de felicidade dos ansiosos pais de família surge em uma notícia de jornal: e se o casal roubasse um dos recém-nascidos quintulos do milionário Nathan Arizona (Trey Wilson)? Afinal de contas, segundo o raciocínio de H.I. e Ed, o magnata e sua esposa "tem mais do que podem cuidar".


O sequestro do pequeno Nathan Jr., logicamente, não é visto com tranquilidade por Arizona, que divulga uma recompensa de 10 mil dólares a quem lhe ajudar a recuperar o filho - um desdobramento que, no entanto, não afeta a consciência do novo núcleo familiar. Encantados com a nova rotina, Ed e H.I. tentam levar uma vida normal, socializando com outros casais (Sam MacMurray e uma impagável Frances McDormand) e fugindo de seu passado - algo complicado, especialmente quando recebem a visita de dois ex-colegas de crime de H.I, os pouco sutis Gale (John Goodman) e Evelle (William Forsythe), que não demoram a descobrir a identidade do bebê e se sentem bastante tentados pela recompensa oferecida. Não bastasse tantas ameaças à felicidade familiar, o apavorante Leonard Smalls (Randal "Tex" Cobb) surge como uma bomba no caminho dos protagonistas: a bordo de sua potente moto e com uma aparência assustadora, o imenso mercenário decide que, se não conseguir convencer Arizona a lhe pagar cinco vezes mais do que a recompensa oferecida, irá recuperar o sorridente e simpático bebê e vender no mercado negro. Como se não bastasse tantos problemas, H.I. é demitido - depois de recusar uma troca de casais com o patrão - e recomeça a flertar com o crime.

Em um papel feito sob medida para seu histrionismo por vezes exagerado - e para o qual Kevin Costner foi testado três vezes -, Nicolas Cage está na medida certa. Com seu cabelo rebelde - que fica mais e mais arrepiado conforme o nível de estresse de seu personagem vai aumentando - e o eterno olhar descrente diante de tanta confusão em uma vida que sonhava fácil, o ator (que mais tarde seria conhecido tanto por seu Oscar por "Despedida em Las Vegas", de 1995, quanto por suas incursões no cinema de ação) faz o contraponto perfeito à atuação quase meiga de Holly Hunter - que, no entanto, apresenta um timing cômico impecável. Com movimentos de câmera criativos (herança dos tempos em que Joel Coen foi assistente de direção de Sam Raimi em seu clássico trash "Uma noite alucinante: a morte do demônio", de 1981) e personagens no limite do surreal, "Arizona nunca mais" parece um desenho animado em live action: suas sequências de ação brincam com o público de forma a enfatizar a falta de compromisso com a realidade. Exatamente como desejavam - fugir de qualquer comparação com "Gosto de sangue" -, os irmãos Coen fizeram de sua primeira comédia um marco e uma influência no cinema independente norte-americano. Um feito e tanto para quem ainda precisava chegar aos sets com storyboards completos como forma de economizar o orçamento tímido de apenas cinco milhões de dólares. Definitivamente talento não tem preço!

sexta-feira

O AMOR NÃO TEM SEXO

O AMOR NÃO TEM SEXO (Prick up your ears, 1987, Zenith Entertainment, 105min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Alan Bennett, biografia por John Lahr. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: Stanley Myers. Figurino: Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Hugo Luczyk Wyhowski/Philip Elton. Produção: Andrew Born. Elenco: Gary Oldman, Alfred Molina, Vanessa Redgrave, Wallace Shawn, Lindsay Duncan, Julie Walters, Frances Barber. Estreia: 17/4/87

Vencedor no Festival de Cannes: Melhor Trilha Sonora

Quem começar a assistir à "O amor não tem sexo" pensando tratar-se de mais um filme de temática gay com uma mensagem edificante certamente vai levar um choque ao final da sessão: o título em português de "Prick up your ears" (algo intraduzível mas pouco romântico ou formal) esconde a verdadeira e chocante história de amor, sexo, ciúme, violência e literatura do dramaturgo britânico Joe Orton e seu amante, Kenneth Halliwell, também escritor, mas sem o mesmo prestígio. Baseado em uma biografia de Orton escrita por John Larh, o filme de Stephen Frears (pouco antes de conquistar Hollywood com seu excepcional "Ligações perigosas", lançado em 1988) é seco, frio e um tanto irônico em sua tentativa de retratar não apenas um casal vivendo quase à margem da sociedade, mas também a própria sociedade hipócrita e falsamente liberal dos anos 1960.

Conhecido na Inglaterra como o autor de peças teatrais repletas de humor negro e críticas à sociedade, como "Entertaining Mr. Sloane" e "Loot", Orton chegou a ser chamado para escrever o roteiro de um filme dos Beatles e conhecer pessoalmente Paul McCartney. Enquanto ascendia profissionalmente, porém, sua relação com Halliwell entrava cada vez mais em uma crise sem fim: sete anos mais velho que Orton e sem seu charme, Halliwell sofria com as traições do parceiro - ainda que por vezes fosse chamado por ele para participar - e via sua carreira ser eclipsada pelo sucesso de Orton. A relação, desequilibrada sob todos os aspectos, parece atrair uma atmosfera de urgência e melancolia. Sob a visão de Frears, quase documental, os protagonistas parecem vislumbrar a tragédia, mas, ao mesmo tempo, sabem que não há como evitá-la. O tom de decadência impresso pelo cineasta nas aventuras sexuais de Orton transmitem uma sensação de incômodo e angústia - ainda que justamente essas jornadas pelo lado sombrio do sexo tenham feito dele o dramaturgo visceral que foi.


Um dos grandes trunfos de "O amor não tem sexo" é o elenco escolhido por Stephen Frears - notoriamente conhecido como um excelente diretor de atores. Antes de começar sua bem-sucedida carreira em Hollywood, Gary Oldman assume com perfeição o sotaque e os trejeitos de Joe Orton - um ano antes ele havia encarnado o roqueiro Sid Vicious e cinco anos mais tarde ele faria um Lee Harvey Oswald brilhante em "JFK: a pergunta que não quer calar", de Oliver Stone. Oldman, um ator dedicado e capaz de transformar-se fisicamente de um filme para outro encontra o par ideal em Alfred Molina. No papel, recusado por Ian McKellen (que anos mais tarde assumiu o arrependimento por isso), Molina brilha como o introvertido e apaixonado Halliwell, com um trabalho impressionante que vai se avolumando até o desfecho trágico. Não bastasse o par central, a excelente Vanessa Redgrave faz uma participação especial como a editora de Orton, Peggy Ramsay, em uma interpretação que lhe rendeu um prêmio de coadjuvante pela associação de críticos de Nova York e indicações ao Golden Globe e ao Bafta. É Redgrave quem surge como a voz da razão em um filme que mergulha sem medo no retrato de uma história de amor, sexo, inveja e literatura.

"O amor não tem sexo" não é, definitivamente, um filme que glamoriza a homossexualidade, mas tampouco a condena: é um desenho o mais fiel possível de uma tragédia, contado com imparcialidade e sem artifícios visuais ou melodramáticos. A fotografia crua de Oliver Stapleton e a edição ágil (mas nunca apressada) de Mick Ausdley são fatores cruciais para o sucesso do filme, mas é a direção incisiva de Stephen Frears quem reúne todos os elementos para formarem um único e chocante painel sobre um dos relacionamentos mais doídos da arte britânica dos anos 1960. É um filme desconfortável, mas, ao mesmo tempo, imprescindível!

quinta-feira

QUEREM ME ENLOUQUECER

QUEREM ME ENLOUQUECER (Nuts, 1987, Warner Bros, 116min) Direção: Martin Ritt. Roteiro: Tom Topor, Darryl Ponicsan, Alvin Sargent, peça teatral de Tom Topor. Fotografia: Andrzej Barkowiak. Montagem: Sidney Levin. Música: Barbra Streisand. Figurino: Joe Tompkins. Direção de arte/cenários: Joel Schiller/Anne McCulley. Produção executiva: Cis Corman, Teri Schwartz. Produção: Barbra Streisand. Elenco: Barbra Streisand, Richard Dreyfuss, Maureen Stapleton, Karl Malden, Eli Wallach, Leslie Nielsen, James Whitmore, Robert Webber. Estreia: 11/12/87

Quando "Querem me enlouquecer" estreou nos EUA, no final de 1987, já fazia quatro anos que o público não via Barbra Streisand nos cinemas. Em seu último filme, "Yentl" (83), ela havia assumido as múltiplas funções de diretora, roteirista, produtora, atriz e compositora das canções da trilha sonora, e sua ausência das telas era sentida pelos fãs e pela crítica, à espera de seu novo trabalho. Para surpresa de muitos, no entanto, a estrela multimídia retornou com menos ambição e em registro completamente diferente. Adaptado de uma peça de teatro de Tom Topor lançada em 1980 em Nova York, "Querem me enlouquecer" é um drama de tribunal que ofereceu à atriz uma chance de mostrar que nem só de comédias e musicais era feita sua carreira: com um pagamento recorde (à época) de cinco milhões de dólares, Streisand novamente acumulou cargos (atuou, produziu, compõs a trilha sonora e, dizem, colaborou no roteiro), mas deixou a direção a cargo de Martin Ritt e entregou-se de corpo e alma à sua personagem, dividindo a cena com um elenco de vencedores do Oscar que valorizam cada cena da produção.

O primeiro é Richard Dreyfuss - vencedor da estatueta por "A garota do adeus" (77). Primeira escolha para o papel do advogado Aaron Levinsky, Dreyfuss recusou o papel, cobiçado por nomes como Alan Arkin, John Malkovich e Sean Penn (!!) e obrigou a Warner a uma busca árdua para substituí-lo. Depois que Dustin Hoffman saiu definitivamente do projeto (devido a questões salariais e as famosas "diferenças criativas", nomes fortes foram cotados para fazer frente a Streisand. De Marlon Brando a Richard Gere - passando por Paul Newman, Al Pacino, Kevin Kline, Robert De Niro, Robert Duvall e Jeff Bridges -, parecia que qualquer ator com o mínimo de visibilidade estava na lista dos produtores. Quando finalmente Dreyfuss capitulou e assinou contrato, o filme não apenas teve um problema sério resolvido (a escalação de seu protagonista masculino), mas também ganhou em prestígio e popularidade - no mesmo ano, o ator era o principal nome da comédia policial "Tocaia", grande sucesso de bilheteria nos EUA. Dando continuidade a seu cuidado na escalação do elenco, os produtores ainda contaram com a presença de Maureen Stapleton (Oscar de atriz coadjuvante por "Reds", de 1981) e Karl Malden (vencedor por "Sindicato de ladrões", de 1954, também na categoria de coadjuvante). Malden, na pele do padrasto da personagem principal, ficou com um papel oferecido a veteranos como Kirk Douglas, Gregory Peck, Burt Lancaster e Robert Mitchum - e saiu-se muito bem em seu delicado papel, responsável pela desistência da Universal Pictures em produzir o filme.


Diante de alguns elementos polêmicos da trama de "Querem me enlouquecer", os executivos da Universal abandonaram o projeto, que seria dirigido por Mark Rydell e estrelado por Debra Winger, escolhida pelo diretor em detrimento de Streisand - já interessada em protagonizar o filme. Com a saída de Winger, não demorou para que o próprio Rydell também demonstrasse desinteresse pela produção. Era o que a atriz/cantora/produtora precisava para tomar as rédeas da situação: contratou Martin Ritt para a direção, ficou com o papel principal e encarou a controvérsia que fatalmente iria ser suscitada pelo filme. O resultado, se não foi um sucesso estrondoso de bilheteria, ao menos conquistou parte da crítica e chegou a ser indicado a três Golden Globes: melhor filme, ator e atriz. Dessa vez a Academia não se deixou encantar pelos dotes artísticos de Barbra, mas o espectador que passar por cima desse pequeno detalhe tem tudo para se deixar envolver com um drama de tribunal da melhor qualidade, com um texto inteligente, direção segura e interpretações inspiradíssimas - e que apresenta Leslie Nielsen em seu último papel dramático no cinema, antes de encarar de vez a persona mais popular de sua carreira, na série de filmes "Corra que a polícia vem aí".

A protagonista do filme é Claudia Draper, uma garota de programa de luxo que é presa logo depois de matar um cliente. Ela alega legítima defesa, mas sua família, para evitar um escândalo maior, decidem que declará-la mentalmente incapaz será mais eficaz. Revoltada com a decisão tomada sem seu consentimento, Claudia conta com a ajuda do defensor público Aron Levinsky (Richard Dreyfuss) garantir seu direito a um julgamento justo e imparcial - o que pode trazer à tona um passado repleto de traumas e segredos inconvenientes. Em sua luta, Levinsky bate de frente com médicos e promotores, além de brigar também (e principalmente) com a mãe e o padrasto de sua cliente, preocupados em ver seus nomes nas páginas policiais. O roteiro conduz com relativo equilíbrio a denúncia social e o suspense, oferecendo momentos de brilho para todos os seus ótimos atores, mas Martin Ritt peca em ser excessivamente convencional em sua narrativa e não dar a seu poderoso clímax a força que poderia dar. Apesar disso, "Querem me enlouquecer" é um drama de tribunal realizado com a seriedade e o talento apreciados pelos fãs do gênero, que não terão do que reclamar quando acabar a sessão - que mais uma vez prova a extensão do talento de sua atriz central.

segunda-feira

JOGA A MAMÃE DO TREM

JOGA A MAMÃE DO TREM (Throw momma from the train, 1987, Orion Pictures, 88min) Direção: Danny De Vito. Roteiro: Stu Silver. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Michael Jablow. Música: David Newman. Figurino: Marilyn Vance-Straker. Direção de arte/cenários: Ida Random/Anne D. McCulley. Produção executiva: Arne L. Schmidt. Produção: Larry Brezner. Elenco: Billy Cristal, Danny De Vito, Anne Ramsey, Rob Reiner, Kim Greist, Kate Mulgrew. Estreia: 11/12/87

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Anne Ramsey)

Em 1951, Alfred Hitchcock lançou um de seus mais emblemáticos filmes, "Pacto sinistro", baseado em um romance de Patricia Highsmith - e cujo tema central, a transferência de culpa, era um de seus preferidos. Quase quarenta anos mais tarde, comprovando a perenidade e importância de sua obra como referência cultural, uma comédia de humor negro chegava às telas inspirada em sua premissa e, apesar da inteligência acima da média do roteiro - e da falta de efeitos visuais de última geração e de grandes astros em seu elenco -, faturou alto nos EUA, com uma bilheteria de quase 60 milhões de dólares. Estreia do ator Danny De Vito como diretor, "Joga a mamãe do trem" também conseguiu um fato raro: driblou a resistência da Academia de Hollywood em levar comédias ao Oscar e deu à veterana Anne Ramsey uma indicação à estatueta de atriz coadjuvante.


Conhecida do grande público por seu trabalho como Mamma Fratelli, a matriarca do crime na comédia juvenil "Os goonies" (87), Ramsey foi a escolha mais do que perfeita de De Vito para encarnar a irascível e cruel mãe do aspirante a escritor Owen (o próprio diretor em momento inspirado) - e fonte de todos os seus males e inseguranças. Mesmo sofrendo de constantes dores durante as filmagens, devido a uma cirurgia feita para tratar um câncer na garganta, a atriz simplesmente rouba todas as cenas em que aparece, oferecendo ao filme um tom de história em quadrinhos que equilibra com precisão os momentos menos histriônicos do roteiro de Stu Silver. Sempre que Owen e sua mamãezinha querida estão em cena, o filme abandona a narrativa mais convencional - repleta de diálogos espertos e citações culturais - para mergulhar no absurdo: é a chance que o diretor tem em mostrar criatividade e versatilidade, ensaiando um humor negro que chegaria ainda mais longe em seu trabalho seguinte, "A guerra dos Roses" (89), estrelado por Michael Douglas e Kathleen Turner. Chegando quase ao pastelão, De Vito diverte a plateia, mas é quando ele flerta com o suspense e com a comédia de situações é que demonstra o quão acertada foi sua primeira experiência na cadeira de diretor.



Na verdade, a realização de "Joga a mamãe do trem" começou com um pequeno impasse, relativo a um detalhe imprescindível para a trama: os direitos de imagem de "Pacto sinistro", de posse da Warner Bros, que não parecia inclinada a cedê-los para uma produção de outro estúdio (no caso, a Orion Pictures). A solução apareceu na forma de uma troca comercial aparentemente vantajosa para ambos os lados: para poder utilizar trechos da obra de Hitchcock, a Orion cedia à Warner os direitos de sua bem-sucedida comédia "Arthur, o milionário sedutor" (81), para que o estúdio fizesse a continuação que estava em seus planos. A vantagem dupla foi apenas aparente, no entanto, já que, enquanto "Joga a mamãe do trem" se tornava um dos quinze filmes mais vistos de 1987, "Arthur 2" naufragava violentamente nas bilheterias. O sucesso do filme de De Vito, mais do que afirmar que nem sempre o público é previsível, mostrava também que, por trás de sua diminuta figura, havia um talento inversamente proporcional também como cineasta.

Em seu primeiro filme, De Vito interpreta Owen Lift, um solteirão tímido e inseguro que sonha em tornar-se escritor - a despeito de não demonstrar muito talento na função e viver humilhado por sua quase sádica mãe (Anne Ramsey). Ele frequenta as aulas de redação ministradas por Larry Donner (Billy Cristal), um autor frustrado e amargurado pelo fato de ter seu livro roubado pela ex-mulher - agora famosa e milionária. Preso em um bloqueio criativo devido ao trauma, Donner é procurado pelo insistente Owen em busca de conselhos, mas interpreta mal uma dica do escritor e, depois de assistir ao filme de Hitchcock, acredita que a solução para os problemas de ambos é um assassinato cruzado: ele viaja, então, para matar a ex-mulher de Donner, e o persegue para fazê-lo cumprir sua parte no trato e dar fim à sua beligerante genitora. Obviamente, as coisas não saem como previstas, e é aí que o roteiro e a direção, somados ao elenco impagável, transformam "Joga a mamãe do trem" em um passatempo divertido e inteligente e em uma das comédias mais relevantes dos anos 80.

quarta-feira

PRESENTE DE GREGO

PRESENTE DE GREGO (Baby boom, 1987, United Artists, 110min) Direção: Charles Shyer. Roteiro: Nancy Meyers, Charles Shyer. Fotografia: William A. Fraker. Montagem: Lynzee Klingman. Música: Bill Conti. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Jeffrey Howard/Lisa Fischer. Produção: Nancy Meyers. Elenco: Diane Keaton, Sam Shepard, Harold Ramis, James Spader, Pat Hingle, Sam Wanamaker. Estreia: 17/9/87 (Festival de Toronto)

A década de 80 viu surgir, no cinemão hollywoodiano, um período que, refletindo o austero governo Reagan, virava suas câmeras para a celebração dos "tradicionais valores americanos" - e que, com o recrudescimento da AIDS, tentava reafirmar os benefícios do núcleo familiar. Foi nesse nicho que até filmes de suspense como "Atração fatal" (87) encontravam um jeito de salientar o conservadorismo do público, identificado com o pensamento puritano da indústria e lotando as salas de cinema. Nada mais normal, portanto, considerando-se essa peculiaridade do mercado, que comédias censura livre para consumo geral se tornassem sucesso de bilheteria - especialmente se estreladas por crianças (de preferência de colo). Foi assim que "Três homens e um bebê" - estrelado por Tom Selleck, Ted Danson e Steve Guttenberg e refilmagem de um êxito francês - e este "Presente de grego" caíram como uma luva no gosto popular. Com uma trama simples (quase simplória), uma atriz de carisma no papel principal e um adorável bebê como atrativo extra, o filme do diretor Charles Shyer - na época casado com a roteirista/produtora Nancy Meyers, com quem assinaria ainda a refilmagem de "Operação Cupido" (98) - chegou a concorrer a dois Golden Globes (melhor filme e melhor atriz, ambas na subcategoria comédia/musical) e esteve perto de dar à Diane Keaton o prêmio de melhor atriz do ano pela National Society of Film Critics. Um exagero, diga-se de passagem, mas que comprova seu prestígio junto à crítica.

Sem precisar de muito esforço para convencer a plateia - e mantendo seu estilo ímpar e naturalista de interpretação -, Keaton dá vida à J.C. Wyatt, uma executiva de Nova York, obcecada por trabalho e que mal arruma tempo para transar com o namorado/marido, Steven Buchner (Harold Ramis), também pouco afeito a romance e sentimentos mundanos, como paternidade e responsabilidade familiar. Às vésperas de uma sonhada e muito batalhada promoção, porém, Wyatt se vê diante de uma inesperada herança de parentes distantes: a pequena Elizabeth, um bebê lindo, adorável, saudável e que não dá a mínima para as pretensões de sua nova mãe em focar-se unicamente na carreira profissional. Depois de tentar entregar a menina para adoção e perder o namorado, Wyatt acaba por perceber que a maternidade não combina com seus planos - demitida, ela se muda para um chalé em Vermont e resolve levar uma vida completamente oposta à que tinha em mente. Depois de reformar sua casa, vira mãe em tempo integral, inicia um flerte com o veterinário Jeff Cooper (Sam Shepard) e entra, quase sem querer, na indústria de alimentos caseiros para bebês - o que a levará de volta a suas velhas questões no mercado de trabalho.


Nitidamente dividido em duas partes desiguais e irregulares, "Presente de grego" parece, a princípio, um filme que aplaude o talento feminino em desdobrar-se em inúmeros papéis - e um retrato do novo perfil da mulher no final do século XX. A primeira metade - em que a protagonista corta um dobrado para compreender as necessidades de sua nova filha - é divertida, agradável e simpática ao extremo, principalmente devido ao carisma de Diane Keaton e à fotogenia das pequenas Kristina e Michelle Kennedy (que se dividiam no papel da pequena Elizabeth). Mesmo que o humor não seja exatamente criativo ou inovador, é delicioso, simples e encantador. Basta que a trama mude de rumo, no entanto, para que tudo se transforme, tanto em ritmo quanto em intenções. Se até então o roteiro focava sua atenção na desastrosa tentativa de Wyatt em descobrir seu até então desconhecido instinto materno - com cenas engraçadas e leves na medida certa -, sua mudança de endereço desvia também os caminhos de sua trajetória. Como em todo bom filme familiar que se preze, a outrora fria e mecânica executiva descobre os prazeres da vida simples, inicia um novo negócio... e, para completar o novo ciclo, encontra um homem (afinal, a família tradicional precisa imperar, certo?).

É uma pena que "Presente de grego" não mantenha o mesmo pique e a mesma despretensão de sua primeira metade. O tom leve de sessão da tarde logo dá espaço para uma trama quadrada em excesso, que parece insistir no fato de que é imprescindível a uma mulher a presença masculina - sem a qual qualquer sucesso (familiar, profissional) sempre estará incompleto. O romance entre Wyatt e o veterinário (interpretado no piloto automático por Sam Shepard) não é tão interessante quanto o relacionamento da executiva com a pequena Elizabeth (que mesmo sem ter consciência disso, causa um terremoto na vida da mãe adotiva). Quando estão juntas em cena, mãe e filha são doces e emocionantes - quando separadas pelo roteiro fazem o filme se parecer com dezenas de outros similares. É um entretenimento competente, atraente e leve, mas com sérios problemas de ritmo - e, apesar da novidade (uma mulher confrontada com uma maternidade inesperada, ao invés de homens desavisados), perde a oportunidade de ser feminista como poderia - e deveria - ser.

sexta-feira

ADEUS, MENINOS

ADEUS, MENINOS (Au revoir les enfants, 1987, Nouvelles Éditions de Films (NEF)/MK2 Productions, 104min) Direção e roteiro: Louis Malle. Fotografia: Renato Berta. Montagem: Emanuelle Castro. Figurino: Corrine Jorry. Direção de arte: Willy Holt. Produção: Louis Malle. Elenco: Gaspard Manesse, Raphael Fejto, Francine Racette, Stanislas Carré de Malberg. Estreia: 31/8/87 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original

Quando tinha 11 anos de idade, o futuro cineasta Louis Malle frequentou uma escola católica para rapazes no interior da França. Era o auge da II Guerra Mundial, e o nazismo se espalhava com assustadora velocidade quando o garoto foi testemunha de um acontecimento que nunca mais lhe saiu da memória: tal acontecimento, sob a visão poética e romântica do adulto que Malle se tornou, resultou em uma de suas maiores obras-primas. Indicado aos Oscar de filme estrangeiro e roteiro original e vencedor de 7 César (o Oscar francês), "Adeus, meninos" é, ao mesmo tempo, um delicado retrato do amadurecimento de um menino e uma emocionante ode à amizade incondicional e à solidariedade humana. Triste mas jamais sentimentaloide, forte sem nunca apelar para a violência explícita, o filme de Malle esteve, por coincidência, em uma corrida pelo Oscar marcada por outros três filmes que viam a guerra sob a ótica infanto-juvenil: o britânico "Esperança e glória", de John Boorman, o épico "Império do Sol", dirigido por Steven Spielberg e o caloroso "A era do rádio", de Woody Allen.

Enquanto o filme de Boorman encontrava espaço até mesmo para uma leveza inesperada, a obra de Spielberg apostava nas lágrimas, e a comédia de Allen flertava abertamente com uma nostalgia bem-humorada, a história contada por Malle encontra um equilíbrio perfeito entre a crônica de uma rotina recheada de orações, aulas enfadonhas, rusgas juvenis e o despertar da sexualidade e o drama denso de um filme de guerra visto de fora do conflito, por personagens que só tinham contato com ela através de notícias de rádio, racionamento de alimentos e a constante tensão à espera de bombardeios. Internos por suas famílias até como um meio de distanciar-se ao máximo do conflito, os alunos da escola St. Jean de la Croix sentem-se, de forma um tanto torta, seguros em relação ao mundo exterior, dedicados que estão a manter-se ocupados com suas tarefas diárias. Sentindo-se abandonado pela família - apesar do irmão mais velho também estar matriculado na mesma escola - o introvertido Julien Quentin (Gaspard Manesse, o alter ego do cineasta) volta ao convívio dos colegas e professores em janeiro de 1944 e, apesar de tudo parecer exatamente como nos anos anteriores, ele sente uma aura cada vez mais densa a respeito do colaboracionismo francês em relação ao nazismo. Relativamente popular em sua classe, ele vê sua atenção atraída por um novo aluno, o calado Jean Bonnett (Raphael Fetjo). Percebendo o isolamento a que o garoto é submetido por ser protestante, Julien se aproxima dele e entre os dois nasce uma bela amizade - que fica ainda mais forte quando a verdade sobre Jean surge e, ao invés de separá-los, os une de vez.


Construindo sua narrativa através de pequenas anedotas cotidianas que vão se conectando para formar um mosaico que retrata com precisão e nostalgia um período poucas vezes tratado com carinho pelas memórias afetivas, Louis Malle convida a plateia a penetrar em um universo onde conceitos como amizade, lealdade, honra e ética estão apenas sendo descobertos e postos à prova. Sem preocupar-se em enfeitar seu filme com uma estética rebuscada, o cineasta francês prefere centralizar seus esforços em fortalecer seus personagens e o ambiente de paranoia em que eles se encontram. Apesar de deixar claro em vários momentos que a escola serve como um escudo contra o mundo exterior - e onde a maior preocupação é trocar alimentos por cigarros ou dedicar-se a leituras de teor erótico, proibidas pelos padres -, o roteiro tampouco se furta a expor, de maneira explícita, as relações humanas do lado de fora de suas paredes: a bela cena em que a mãe de Julien, ao lado dos filhos e de Jean, testemunha um ato de violento preconceito contra um senhor judeu em um restaurante, é exemplar nesse sentido, oferecendo aos rapazes uma aula prática de intolerância em tempos de guerra que nenhuma escola lhes seria capaz.

Dirigido com um misto de sobriedade e emoção, "Adeus, meninos" é um filme de tocar o coração. Estabelece aos poucos a rede de relacionamentos entre seus personagens e apresentando-os com fluida naturalidade - para, ao final, utilizá-los com maestria em um desfecho coerente e amargo, que empurra seus protagonistas em direção ao repentino amadurecimento. Por tratar-se de uma história real, tudo fica ainda mais comovente e arrasador, mas Malle é um cineasta elegante e discreto, que impede que sua bela obra se transforme em um clichê melodramático. É de estraçalhar os sentimentos, mas é, acima de tudo, um cinema espetacular, vivo, real e inesquecível. Um dos grandes filmes dos anos 80.

segunda-feira

IRONWEED

IRONWEED (Ironweed, 1987, TriStar Pictures, 143min) Direção: Hector Babenco. Roteiro: William Kennedy, romance de sua autoria. Fotografia: Lauro Escorel. Montagem: Anne Goursaud. Música: John Morris. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Leslie Pope. Produção executiva: Denis Blouin, Rob Cohen, Joseph H. Canter. Produção: Keith Barish, Marcia Nasatir. Elenco: Jack Nicholson, Meryl Streep, Tom Waits, Carroll Baker, Diane Venora, Frank Whaley. Estreia: 18/12/87

2 indicações ao Oscar: Ator (Jack Nicholson), Atriz (Meryl Streep)

O primeiro encontro entre Meryl Streep e Jack Nicholson nas telas foi em 1986, com "A difícil arte de amar", de Mike Nichols, que retratava o conturbado casamento entre a roteirista Nora Ephron e o jornalista Carl Bernstein (ele mesmo, um dos responsáveis pelas reportagens que derrubaram o presidente Nixon pelo escândalo Watergate). No ano seguinte, a dupla de grandes atores voltaria a se encontrar, sob as mãos do brasileiro/argentino Hector Babenco (em alta devido ao prestígio de "O beijo da mulher-aranha") em uma obra bem mais densa e complicada comercialmente. Baseado no romance de William Kennedy vencedor do Prêmio Pulitzer, "Ironweed" é, segundo seu diretor, "sobre o amor, a coragem e a beleza de pessoas de quem não costumamos pensar que podem ter emoções complexas e profundas". Tais pessoas, no caso, são aquelas cujo passado trágico/dramático/sofrido as empurraram para as ruas - sem-tetos, viciados em álcool e relembrando com melancólica nostalgia seus dias junto às famílias e a uma vida estável. Situado em plena Grande Depressão Americana (consequência da quebra da bolsa de valores de Nova York em 1929) e passando longe dos cartões postais que fazem dos EUA a terra das oportunidades, "Ironweed" é um filme pesado, mas consegue o milagre de extrair poesia e até uma pontinha de otimismo de uma trama centrada basicamente em dor, perda e culpa.

Fotografado com precisão cirúrgica por Lauro Escorel, "Ironweed" não tenta embelezar a vida de tristeza de seus personagens - muito pelo contrário, ilustra de forma visual o cinzento de seu dia-a-dia como uma testemunha silenciosa e compreensiva. O ano é 1938, e o feriado de Halloween leva os dois amantes Francis Pheelan (Jack Nicholson) e Helen Archer (Meryl Streep) à cidade natal dele, Albany, no estado de Nova York. Seu passado é repleto de traumas, sendo o maior a morte de seu filho pequeno, que ele deixou cair no chão ainda bebê - um acontecimento que o afastou da família e o jogou na rua e nos braços do álcool. Helen, por sua vez, era uma cantora talentosa que deixou seus dias de glória no passado e luta contra uma doença incurável, enquanto permanece fiel e leal a Francis e seu grupo de amigos, que inclui o também doente Rudy (Tom Waits) - "tenho câncer e é a primeira vez que eu tenho algo!". Entre abrigos, bares e sarjetas, o casal e seus ocasionais parceiros de copo e de cruz tentam encontrar luz para seus dias tristes, de vez em quando iluminados por momentos de beleza efêmera.


Fugindo bravamente do sentimentalismo barato e da tentação de banalizar ou enfeitar uma camada de seres quase invisíveis da sociedade americana (e por que não universal?), o roteiro de William Kennedy - adaptando seu próprio romance com lances de genialidade - não facilita para o público, tornando seus protagonistas personagens adoráveis e/ou simpáticos. Se existe empatia é graças aos desempenhos extraordinários de seus intérpretes, como sempre impecáveis. Jack Nicholson empresta a seu Francis Pheelan um toque de humanidade e fragilidade poucas vezes visto em sua carreira recheada de tipos excêntricos e arrogantes - seu monólogo frente ao túmulo do filho, logo no início do filme, é uma pérola das mais valiosas (não por acaso, ele foi eleito o melhor ator do ano pelos críticos de Nova York e Los Angeles). Já Meryl Streep brilha sem fazer muito esforço, construindo uma Helen Archer cuja dor de viver está estampada em cada close, em cada sorriso forjado - e principalmente em seu momento-solo, quando sobe ao palco de uma espelunca qualquer para relembrar seus dias de estrela. Ambos foram indicados ao Oscar - e provavelmente perderam as estatuetas devido ao status de "difícil" do filme e seu fraco desempenho na bilheteria: mesmo tendo relativamente poucas cenas juntos, eles elevam o patamar do filme a um nível muito acima da média - e o estabelece como um dos melhores trabalhos de Babenco, um cineasta cuja carreira é marcada por uma série de altos e baixos.

Lançado quatro anos depois da publicação do livro que lhe deu origem - e que está na lista dos 100 melhores romances em língua inglesa do século XX segundo a "The Modern's Library" -, "Ironweed" é um filme único, que trata de pessoas reais e críveis, dotadas de alma e sensibilidade. Jack Nicholson - o ator que William Kennedy tinha em mente desde o começo, apesar de nomes fortes como Gene Hackman, Jason Robards, Paul Newman, Robert Duvall e Sam Shepard terem flertado com o projeto - nunca esteve tão vulnerável em cena, oferecendo ao papel uma delicadeza ímpar, que contrasta com a aridez do cenário, a dureza do tema e a melancolia que perpassa cada minuto. "Ironweed" é uma bela canção sobre dor, luto, perda, desespero. Mas é, também, um filme excepcional, que abraça calorosamente o espectador enquanto lhe mostra um lado feio, sujo e malvado da vida. Um trabalho irretocável de roteiro, direção e elenco, que fica na mente e no coração em iguais medidas. É a obra-prima de Hector Babenco.

quinta-feira

UM GRITO DE LIBERDADE

UM GRITO DE LIBERDADE (Cry freedom, 1987, Universal Pictures, 157min) Direção: Richard Attenborough. Roteiro: John Briley, livros "Biko" e "Asking for trouble", de Donald Woods. Fotografia: Ronnie Taylor. Montagem: Lesley Walker. Música: George Fenton, Jonas Gwangwa. Figurino: John Mollo. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Michael Seirton. Produção: Richard Attenborough. Elenco: Kevin Kline, Denzel Washington, Kevin McNally, Penelope Wilton, Kate Hardie. Estreia: 05/11/87

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Trilha Sonora Original, Canção Original ("Cry freedom")

Uma das figuras mais importantes na luta anti-Apartheid na África do Sul nos anos 70, Steve Biko pode não ser tão reconhecido internacionalmente como Nelson Mandela, mas seu legado, centrado principalmente na fundação do Movimento da Consciência Negra é incontestável, o que fez com que o cineasta Richard Attenborough o escolhesse como tema de um de seus filmes mais extraordinários, "Um grito de liberdade". Baseado em dois livros escritos pelo jornalista sul-africano Donald Woods sobre o assunto, o roteiro de John Briley escolhe como foco de sua narrativa não a vida do militante - interpretado com a garra de sempre por um Denzel Washington indicado ao Oscar de coadjuvante - mas sim a sua relação com Woods, editor do Daily Dispatch, importante jornal do país, que tem sua visão imparcial sobre a situação política transformada a partir de seu contato com a realidade da população negra. Politicamente impactante e bem interpretado, o filme de Attenborough só peca em estender demais sua história - ainda que nunca chegue a perder o ritmo de urgência que imprime desde seus primeiros minutos.

Ao optar por dar a protagonização de sua história a Donald Woods - branco, bem-sucedido, protegido pelas leis criadas por pessoas como ele - e não a Steve Biko (em tese a gênese da produção), o roteiro de Briley acerta duplamente. Primeiro, por fazer com que o público vá descobrindo, junto com o jornalista (interpretado com maestria por Kevin Kline), toda a extensão do problema do racismo endêmico da África do Sul pelos olhos de quem o sofre: antes de seu contato com Biko, Woods apenas o considerava um racista ao contrário, que defendia a violência com as mesmas armas de seus antagonistas. Quando finalmente as coisas ficam claras para ele - e consequentemente para a plateia - vem o primeiro choque, que não convém revelar, mas que dará o empurrão para a segunda parte do filme. Revoltado e agora consciente das barbaridades do regime, caberá ao jornalista bradar a verdade ao mundo, mesmo que isso signifique o fim de sua pacífica vida familiar e profissional.


Não é à toa que o cineasta grego Costa-Gavras - sempre inclinado a assinar produções de forte cunho político - tinha intenção de filmar a história de Steve Biko: a segunda metade do filme de Attenborough se mostra um thriller político de primeira linha, com direito a sequências de suspense, planos mirabolantes e um final arrepiante, que encena um dos mais inexplicáveis (se é que algum é) massacres ocorridos no país durante o período retratado na trama. Nessa segunda parte da narrativa, Woods - banido pelo governo e impedido de sair de casa ou comunicar-se com quem quer que seja exceto membros de sua família - resolve atravessar um manuscrito onde descreve todos os absurdos que testemunhou (assim como as ostensivas mentiras contadas pelo governo a respeito da morte de dezenas de ativistas negros) e lançá-lo em forma de livro. Attenborough comanda esses momentos com segurança, deixando o público aflito, torcendo por um final que, apesar de já ser conhecido, parece nunca chegar. É aí que entra também a importância da trilha sonora - indicada ao Oscar - e do trabalho de Kevin Kline, que conquista a simpatia da audiência como uma espécie de super-herói, disposto a melhorar um mundo apesar de suas consequências.

"Um grito de liberdade" é um filme político sem o ranço de um filme político. É, mais do que isso, um filme sobre pessoas, sobre seres humanos, sobre o desejo inquebrantável de um povo por sua liberdade, por seus direitos inatos. É também uma aula de história ilustrada com momentos de tensão, emoção e esperança, além de um filme como Attenborough nunca mais conseguiu fazer - talvez nem mesmo o anterior "Gandhi" (82), apesar dos Oscar e do frisson na ocasião de sua estreia, seja tão bom do ponto de vista narrativo. E é, finalmente, um filme que precisa ser revisto sempre, como lembrança das atrocidades de que o homem é capaz de fazer a outro.

quarta-feira

SEM SAÍDA

SEM SAÍDA (No way out, 1987, Orion Pictures, 114min) Direção: Roger Donaldson. Roteiro: Robert Garland, romance "The big clock", de Kenneth Fearing. Fotografia: John Alcott. Montagem: William Hoy, Neil Travis. Música: Maurice Jarre. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Bruce Gibeson. Produção executiva: Mace Neufeld. Produção: Robert Garland, Laura Ziskin. Elenco: Kevin Costner, Gene Hackman, Sean Young, Will Patton, Howard Duff, George Dzunza, Iaman, Jason Bernard, David Paymer. Estreia: 14/8/87

Em Hollywood poucas coisas são mais valorizadas do que saber a hora certa de lançar um filme. Às vezes pequenas obras-primas são prejudicadas por estratégias equivocadas de lançamento, enquanto em outras ocasiões filmes medíocres são alçados ao posto de campeão de bilheteria simplesmente porque estrearam na hora certa. Um exemplo de como esse posicionamento comercial pode definir a sorte de um produto - um filme, um astro, uma marca - pode ser encontrado claramente em "Sem saída", eficiente thriller de espionagem dirigido por Roger Donaldson. Pronto desde 1986, ele foi segurado por seu estúdio - a Orion Pictures - até o segundo semestre de 1987. A razão? Eles queriam aproveitar o sucesso que previam para a superprodução "Os intocáveis", de Brian DePalma - que realmente foi muito bem-sucedido nas bilheterias - para capitalizar em cima do astro de ambos os filmes, o então recém-descoberto Kevin Costner. Deu certíssimo - para eles e para Costner. Não só seu filme rendeu mais que o dobro do seu custo como confirmou o status de astro ascendente do ator, que em poucos anos até diretor vencedor do Oscar se tornaria (antes de afundar-se no egocentrismo de filmes catastróficos como "Waterworld" (95) e "O mensageiro" (97)). Mas o melhor de tudo é que, sem essa visão mercadológica, era bem possível que, mesmo com a presença de Gene Hackman no elenco, "Sem saída" acabasse passando em branco, o que seria uma tremenda injustiça com um filme que merece o sucesso que fez.

Uma espécie de precursor das adaptações cinematográficas de Tom Clancy e John Grisham, "Sem saída" é envolvente e surpreendente, com reviravoltas em número o suficiente para prender a atenção até mesmo do público mais descolado do gênero - além de apresentar Costner em cenas bastante ousadas com Sean Young, antes de tornar-se o queridinho bem-comportado da América (e depois ver esse titulo escorrer pelo ralo pelos escândalos de traições conjugais). Ele vive Tom Farrell, um oficial da Marinha americana que é escalado por um antigo colega, Scott Pritchard (Will Patton) para trabalhar no Pentágono ao lado do Secretário de Defesa, David Brice (Gene Hackman) - que quer sua ajuda para obter informações a respeito da construção de um caríssimo submarino que ele acredita ter mais conotações políticas do que necessárias. Não demora muito para que Farrell descubra que a mulher por quem está apaixonado - a sexy e desinibida Susan Atwell (Sean Young) - também tem um caso antigo com Brice, o que o coloca em rota de colisão com seu chefe. A situação fica ainda mais complicada quando uma tragédia muda o curso da história e Farrell precisa utilizar-se de trapaças e mentiras para sair com vida de uma conspiração que envolve até mesmo um suposto espião russo infiltrado no Pentágono.

Narrado sem pressa por Donaldson, que conta com um roteiro de pedigree literário, já que é inspirado livremente no romance "The big clock", de Kenneth Fearing (por sua vez já havia sido adaptado com mais fidelidade em um filme de 1948 estrelado por Ray Milland e Charles Laughton, mas sem conotações políticas), "Sem saída" muda drasticamente de tom em sua segunda metade, quando o idílico e romântico começo dá espaço a uma corrida desesperada contra o relógio. Acusado de um crime que não cometeu, Farrell precisa provar sua inocência e desmascarar os reais responsáveis por sua desesperada situação, tendo sua angústia testemunhada apenas pela audiência, que o acompanha através da câmera nervosa de John Alcott pelos corredores apertados do Pentágono. A tensão crescente, sublinhada pela música do veterano Maurice Jarre e pela edição ágil que não permite o menor descanso - nem ao personagem nem à plateia - só acaba nas sequências finais, que apresentam não apenas um clímax forte o suficiente mas também uma surpresa que muda tudo que havia sido estabelecido até então.

Dirigido com firmeza e com senso de entretenimento na medida certa, "Sem saída" foi o veículo ideal para a construção do ídolo Kevin Costner, que sai-se muito bem em seu primeiro papel de protagonista, mesmo quando precisa encarar Gene Hackman como um dos vilões mais frios de sua carreira. A química entre o galã e a bela Sean Young (que já havia chamado a atenção como uma replicante em "Blade Runner, o caçador de androides" (82)) é outro ponto alto do filme, e culmina com a já famosa cena no interior de uma limousine que passeia pelos pontos turísticos de Washington enquanto os dois estão pra lá de entretidos com paisagens menos clássicas. Tal momento de descontração serve de prelúdio para o abismo que ambos irão encontrar em seguida - e no qual serão seguidos atentamente pelo público que, pelos anos seguintes, correria a qualquer sala de cinema que estivesse apresentando um filme de Costner, um ator cuja queda foi tão espetacular quanto sua ascensão dentro da indústria hollywoodiana.

terça-feira

SOB SUSPEITA

SOB SUSPEITA (Suspect, 1987, TriStar Pictures, 121min) Direção: Peter Yates. Roteiro: Eric Roth. Fotografia: Billy Williams. Montagem: Ray Lovejoy. Música: Michael Kamen. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte: Stuart Wurtzel. Produção executiva: John Veitch. Produção: Daniel A. Sherkow. Elenco: Cher, Dennis Quaid, Liam Neeson, John Mahoney, Joe Mantegna, Philip Bosco. Estreia: 23/10/87

Em seu caminho para tornar-se uma atriz séria e respeitada - e não apenas uma figura excêntrica do mundo pop, como apontava sua carreira como cantora ao lado do marido Sonny Bono nos anos 60 - Cher soube escolher como ninguém seus papéis. Foi indicada ao Oscar de coadjuvante pela lésbica que viveu em "Silkwood, o retrato de uma coragem" (83), ao lado de Meryl Streep e foi eleita a melhor atriz do Festival de Cannes 1985 como a mãe coragem de um adolescente deformado por uma doença rara em "Marcas do destino". No mesmo ano em que finalmente levou pra casa sua estatueta dourada pela comédia romântica "Feitiço da lua", ela demonstrou versatilidade em dois outros filmes radicalmente diferentes: na mescla de humor negro/horror/comédia "As bruxas de Eastwick", de George Miller (em que atuou ao lado do já consagrado Jack Nicholson e das futuras estrelas Michelle Pfeiffer e Susan Sarandon) e em "Sob suspeita", um correto mas burocrático drama de tribunal dirigido pelo veterano Peter Yates. Na pele de uma defensora pública envolvida em um crime aparentemente banal, a estrela que um dia fez pouco dos conselhos da tradicional Academia de Hollywood para vestir-se como uma atriz séria mostrou que não é o figurino que

No filme de Yates, Cher vive Kathleen Riley, uma defensora pública de Washington solitária e levemente workaholic que, às vésperas do Natal recebe a incumbência de defender um sem-teto acusado de ter assassinado a secretária de um juiz que acaba de se suicidar. O caso é, a príncipio, bastante simples. O réu, Carl Wayne Anderson (Liam Neeson) estava de posse da bolsa da vítima e foi encontrado dormindo em seu carro, o que imediatamente o coloca como culpado aos olhos de todo o tribunal. Porém, Riley não é de desistir tão facilmente, principalmente quando descobre que seu cliente é surdo-mudo, vítima da guerra do Vietnã. Enquanto tenta provar sua inocência - mesmo sendo sistematicamente boicotada pelo juiz Helms (John Mahoney) - ela conta com a inesperada ajuda do lobista Eddie Sanger (Dennis Quaid), com quem acaba se envolvendo.


Como todo bom filme de tribunal, "Sob suspeita" não prescinde das reviravoltas que levam a trama aparentemente simples a caminhos perigosos e jamais imaginados inicialmente. O roteiro de Eric Roth - que menos de uma década depois levaria um Oscar por "Forrest Gump, o contador de histórias" (94) - é feliz em desenhar sua história sem pressa, levando o espectador a descobrir junto com os protagonistas a teia de conspiração que se revela no último ato, apesar do final anti-climático. Apesar de não dividirem muitas cenas românticas, Cher e Dennis Quaid tem uma química interessante e ela demonstra uma segurança em cena que demonstra claramente que já estava mais do que preparada para o prestígio que viria a obter em seguida. Seus duelos com Liam Neeson - que fala com os olhos e com o corpo mais do que o suficiente para prender a atenção da plateia - são repletos de uma tensão que infelizmente não se mantém no restante do filme, que muitas vezes se perde em cenas pouco interessantes. Felizmente, no entanto, "Sob suspeita" tem mais qualidades do que defeitos, o que faz dele um bom programa para fãs do gênero (ou da atriz).

É dificil gostar de filmes de tribunal e não se deixar conquistar por "Sob suspeita". É bem escrito, dirigido com correção e interpretado por atores extremamente competentes, além de ter uma trama com uma boa cota de reviravoltas que não apelam para a violência gratuita ou para o sadismo puro e simples de muitos filmes que se arriscam a contar histórias policiais. No final das contas, é mais um bom trabalho de Cher como atriz, provando-a uma artista multi-facetada que infelizmente deixou o cinema de lado a partir do final da década de 90 para voltar a dedicar-se à música pop. Ganharam as pistas de dança, mas perdeu o cinema.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...