O DONO DO JOGO (Pawn sacrifice, 2014, Universal Pictures, 115min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Steven Knight, estória de Steven Knight, Stephen J. Rivele, Christopher Wilkinson. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Newton Howard. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Isabelle Guay/Fred Berthiaume. Produção executiva: Kevin Frakes, Árni Bjorn Helgason, Mike Ilitch Jr., Dale Armin Johnson, Julie B. May, Glenn P. Murray, Josette Perrotta, Stephen J. Rivele, Raj Singh, Christopher Wilkinson. Produção: Gail Katz, Tobey Maguire, Edward Zwick. Elenco: Tobey Maguire, Liev Schreiber, Michael Stuhlbarg, Peter Sarsgaard, Lily Rabe. Estreia: 11/9/14 (Festival de Toronto)
Mais conhecido por produções grandiosas que retratam períodos históricos abalados por conflitos bélicos, como "Tempo de glória" (89), "Lendas da paixão" (94) e "O último samurai" (2003), o cineasta Edward Zwick deu um tempo no sangue e mudou um pouco a imagem com o romântico "Amor e outras drogas", estrelado por Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway em 2010. Mesmo assim não deixa de ser uma surpresa que seja ele o nome por trás de "O dono do jogo", um filme que contrasta bastante com sua filmografia mais conhecida ao apostar no minimalismo como principal elemento. Ao contar a história real da maior disputa já travada no universo do xadrez, Zwick aposta em um viés político-social inusitado, que mistura drama psicológico, suspense e muitos elementos biográficos em uma trama que só não é mais interessante devido a um ritmo claudicante e sua indecisão em escolher seu principal foco narrativo. No mais, é um trabalho inteligente que demonstra a capacidade do diretor em transitar por diferentes gêneros cinematográficos.
O protagonista do filme é o mundialmente conhecido e celebrado jogador de xadrez Bobby Fischer, até hoje a maior lenda do esporte e um dos nomes mais admirados por especialistas e pelo público que, em 1972, no auge da Guerra Fria, tornou-se o maior símbolo da luta dos EUA contra o comunismo russo sem disparar um único tiro ou fazer sequer uma ameaça de ataques nucleares: como gênio enxadrista, Fischer desafiou o campeão mundial Boris Spassky e, em um campeonato repleto de lances dramáticos e torcidas fanáticas, estampou capas de revistas, frequentou noticiários virou ídolo nacional - tudo isso enquanto lidava com sérios problemas mentais que logo o fariam buscar o isolamento social e o auto-exílio. Interpretado por Tobey Maguire, que embarcou no projeto também como produtor logo que se apaixonou pela história, Fischer surge em cena como uma celebridade de personalidade instável e difícil, capaz de enervar tanto seu empresário, Paul Marshall (Michael Stuhlbargh), quanto seu mentor espiritual, o Padre Phil Lombardy (Peter Sarsgaard), que o acompanham em sua trajetória rumo à vitória. Dado a frequentes ataques de paranoia e agressividade que remetem à uma infância de convivência constante com a perseguição política aos comunistas, o rapaz que cresceu desafiando jogadores mais velhos e experientes tem a chance de sua vida ao bater de frente com o regime soviético, representado pela figura de seu maior campeão. Vivido com excelência pelo cada vez melhor Liev Schreiber, o herói russo é o contraponto total de Fischer: centrado, calmo e pouco afeito a estrelismos. Sua rivalidade não é apenas no xadrez: o que está em jogo em suas disputas é a imagem que o mundo terá de seus países a partir de um simples campeonato de xadrez.
É difícil imprimir emoção e suspense em jogos de xadrez, mas Edward Zwick consegue quase o impossível ao fazer com que o público consiga sentir, pelo menos em parte, a atmosfera de tensão e expectativa que cercava cada partida. Com o apoio da edição criativa de Steven Rosenblum (seu parceiro habitual), o diretor mergulha a plateia em um período muito especial da história norte-americana - já castigada pela Guerra do Vietnã - para fazê-la compreender toda a extensão do conflito entre Fischer e Spassky. Experiente condutor de atores - por suas mãos Denzel Washington ganhou seu primeiro Oscar, como coadjuvante por "Tempo de glória" - Zwick não hesita em arrancar o melhor de seus intérpretes, oferecendo à Toby Maguire momentos bastante intensos na pele do complicado protagonista e à Liev Schreiber mais uma oportunidade de mostrar que é um dos atores mais subestimados de Hollywood. Ainda que deixe de lado o sempre ótimo Peter Sarsgaard (com um personagem pouco explorado), o filme tem a seu favor o cuidado na reconstituição de época e a seriedade com que trata seus temas, nunca escorregando na caricatura ou no exagero (mesmo que Maguire, vez ou outra, esbarre em alguns tons excessivos). Essas qualidades, porém, não impedem que seu maior problema seja bastante perceptível até mesmo ao mais distraído espectador: afinal, qual é o principal foco de "O dono do jogo"?
Não é errado que um filme trate de diversos assuntos ao mesmo tempo, principalmente quando esses temas estão conectados. O problema do roteiro de "O dono do jogo", porém, é que seus temas, apesar de intimamente ligados, não conseguem dialogar um com o outro de forma satisfatória. Em vez da fusão orgânica de suas tramas - os problemas psicológicos de Fischer; sua relação com a família; a disputa do campeonato mundial - o filme as apresenta quase como independentes entre si, sem uma conexão consistente ou empolgante entre elas. A impressão que se tem é que qualquer uma das subtramas poderia ser um filme diferente, tendo apenas os personagens como ligação. Essa falta mais significativa de elos entre os focos narrativos acaba enfraquecendo o resultado final e tornando o filme um entretenimento de qualidade, sim, mas longe de ser a produção memorável que poderia ser. Além do mais, seu desfecho - a partida final do campeonato mundial - é morno e anti-climático, responsabilidade que pode ser dividida entre o roteiro que tenta abraçar mais do que consegue e a direção que não dá conta de tanta indecisão. No final das contas, "O dono do jogo" é apenas um filme ok. Bobby Fischer e suas conquistas ainda estão esperando por uma produção à altura.
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REFÉM DA PAIXÃO
REFÉM
DA PAIXÃO (Labor day, 2013, Indian Paintbrush, 111min) Direção: Jason
Reitman. Roteiro: Jason Reitman, romance de Joyce Maynard. Fotografia:
Eric Steelberg. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Rolfe Kent.
Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Steve Saklad/Tracey
A. Doyle. Produção executiva: Michael Beugg, Steven M. Rales, Mark
Roybal. Produção: Helen Estabrook, Lianne Halfon, Jason Reitman, Russell
Smith. Elenco: Kate Winslet, Josh Brolin, Gattlin Griffith, Tobey
Maguire, JK Simmons, Tom Lipinski, James Van Der Beek, Maika Monroe,
Clark Gregg, Brooke Smith. Estreia: 30/8/13 (Festival de Telluride)
Sem que seja preciso apelar para uma cena sequer de sexo, Jason Reitman inunda todas as sequências entre Winslet e Brolin com uma sensualidade à beira do inflamável. São olhares expressivos, toques delicados de mãos, sessões de cozinha e aulas de dança que orquestram a relação perigosa/apaixonada entre os personagens, e tal condição não escapa aos olhos do introvertido Henry, que justamente nesse momento está passando pela fatídica fase de despertar para o sexo oposto – que surge na figura de uma nova moradora da cidade, rebelde e ousada. O contraponto entre a mãe (redescobrindo o prazer e a paixão) e o filho (caminhando para o primeiro amor) surge como uma interessante subtrama, aprofundando os laços entre os dois e confirmando o talento do jovem Griffith em transmitir muito sem precisar falar quase nada. Intercaladas com alguns momentos de suspense bem dosados – o roteiro nunca deixa de lembrar que Frank é um criminoso – as cenas românticas de “Refém da paixão” buscam o familiar, a normalidade e a paz mesmo quando retrata uma situação muito longe da corriqueira. A família postiça de Henry – com um pai bem mais digno do título do que o verdadeiro – lhe oferece mais amor e exemplos do que a original: um contraste inteligente que eleva o filme acima da média do gênero.
De um sujeito que assinou filmes
como o cínico “Obrigado por fumar” (06), o sarcástico “Juno” (07), o cruel
“Amor sem escalas” (09) e o ácido “Jovens adultos” (11) pode-se esperar
qualquer coisa menos que escolha dirigir uma história de amor daquelas bem
recheadas de clichês românticos e personagens heroicos, certo? Errado. Jason
Reitman, talvez justamente para não ficar marcado por filmes que não retratam
os seres humanos exatamente com simpatia resolveu fazer de seu quinto
longa-metragem a adaptação do livro “Refém da paixão”, de Joyce Maynard, uma
história de amor bem recheada de clichês românticos e personagens heroicos. A
boa notícia? Ele consegue utilizar todos os lugares-comuns da trama a seu
favor, construindo um romance delicado, simples e extremamente eficiente, ainda
que nunca brilhante ou genial. Contando com atuações acima da média da sua
dupla central – o que não é surpresa quando ela é formada por Kate Winslet e
Josh Brolin – e revelando o ótimo Gattlin Griffith em um papel crucial, Reitman
acerta mais uma vez e conquista o público com sobriedade e sensibilidade.
Situando sua trama no feriado do Dia
do Trabalho de 1987 – um dos mais quentes da história – e em um cenário pouco
explorado pelo cinemão americano – New Hampshire – Reitman, também autor da
adaptação do romance de Maynard, apresenta um conto que apresenta, sem
tentativas de soar original ou surpreendente, temas como solidão, depressão,
perda da inocência e o despertar do sexo. São elementos já utilizados à
exaustão por Hollywood e filmes de todas as nacionalidades, mas com um certo
frescor e uma seriedade que torna impossível ao espectador resistir a eles. Justamente
por adotar uma narrativa clássica apropriada à história que quer contar, o
filho do também diretor Ivan Reitman conduz com simplicidade e sem sobressaltos
um filme que em outras mãos menos talentosas certamente esbarraria na monotonia
ou na previsibilidade. “Refém da paixão” é escorado em um ritmo que reflete com
precisão a temperatura extrema que circunda os personagens – indolente, sexy e
por vezes claustrofóbico.
Vivida por uma bela e intensa Kate
Winslet, a protagonista do filme é Adele, uma dona-de-casa oprimida por uma
depressão crônica tornada ainda pior com o abandono do marido, que a trocou
pela secretária. Vivendo em companhia do filho único, o pré-adolescente Henry
(Gattlin Griffith) e quase sem sair de casa, Adele resolve romper sua inércia
justamente no dia em que Frank Chambers (Josh Brolin), um homem condenado a 18
anos de prisão por assassinato, foge do Hospital onde foi internado para tratar
de uma apendicite. Na loja de departamentos onde vai comprar roupas novas para
o início das aulas do filho, Adele é obrigada por Frank – sangrando mas
nitidamente ameaçador – a levá-lo para sua casa e escondê-lo até a noite,
quando então poderá continuar sua fuga. A princípio temerosa – por motivos mais
do que óbvios – Adele aos poucos percebe, assim como Henry, que Frank não tem
intenções criminosas em relação a eles e surge, então, uma relação amistosa.
Assumindo o papel de homem da casa – consertando o carro, a calha, os degraus –
e até enfrentando a cozinha – com uma já antológica cena em que os três, como
uma família, assam uma torta de pêssegos – Frank acaba por encantar Adele, uma
mulher solitária que vê nele uma figura masculina diferente do marido pouco
confiável. Henry não demora a notar o interesse da mãe em Frank – e vice-versa
– e luta internamente com a felicidade de ver a mãe reagindo ao mundo depois de
muito tempo e o medo em relação ao destino de Frank, afinal de contas um
foragido da Justiça.
Logicamente, como se trata de uma
história de amor, o passado de Frank também é revolvido pelo roteiro, e conta
com uma saudável cota de decepções e injustiças. Com flashbacks rápidos
entremeados à trama central – e que apresenta Tom Lipinski, um ator idêntico a
Josh Brolin fazendo seu papel na juventude – Reitman mostra à plateia que não
há motivo para medo: Frank é um homem bom, e é permitido torcer para um final
feliz entre ele e Adele. Esse tom de melodrama do filme, ao contrário do que se
poderia esperar, funciona à perfeição. Como um bom contador de histórias, o cineasta
quer que o público se afeiçoe a seus personagens e o faz com maestria. Fica
difícil à plateia não se deixar envolver pelo romance entre Frank e Adele,
especialmente porque a química entre Josh Brolin e Kate Winslet transborda pela
tela.
Sem que seja preciso apelar para uma cena sequer de sexo, Jason Reitman inunda todas as sequências entre Winslet e Brolin com uma sensualidade à beira do inflamável. São olhares expressivos, toques delicados de mãos, sessões de cozinha e aulas de dança que orquestram a relação perigosa/apaixonada entre os personagens, e tal condição não escapa aos olhos do introvertido Henry, que justamente nesse momento está passando pela fatídica fase de despertar para o sexo oposto – que surge na figura de uma nova moradora da cidade, rebelde e ousada. O contraponto entre a mãe (redescobrindo o prazer e a paixão) e o filho (caminhando para o primeiro amor) surge como uma interessante subtrama, aprofundando os laços entre os dois e confirmando o talento do jovem Griffith em transmitir muito sem precisar falar quase nada. Intercaladas com alguns momentos de suspense bem dosados – o roteiro nunca deixa de lembrar que Frank é um criminoso – as cenas românticas de “Refém da paixão” buscam o familiar, a normalidade e a paz mesmo quando retrata uma situação muito longe da corriqueira. A família postiça de Henry – com um pai bem mais digno do título do que o verdadeiro – lhe oferece mais amor e exemplos do que a original: um contraste inteligente que eleva o filme acima da média do gênero.
Depois de sua metade, quando Adele e
Frank resolvem fugir juntos, “Refém da paixão” perde um pouco o ritmo – que
recupera no terço final, onde o suspense assume a protagonização em detrimento
do romance. Mesmo assim fica difícil não perceber o cuidado da direção em
manter uma coerência narrativa e no desenho dos personagens, construídos de
forma a jamais trair suas concepções originais. Por mais que possa parecer a
princípio, o amor entre a dupla central convence – como o encontro de duas almas
torturadas finalmente vendo diante de si a possibilidade de carinho e
compreensão. Essa verdade que transparece graças às atuações calorosas de Kate
Winslet e Josh Brolin consegue até mesmo deixar perdoável o final um tanto
abrupto em que Tobey Maguire assume o papel de Henry na fase adulta e serve
como ponte para o desfecho que todos esperavam. É bonito, é coerente e é
romântico até a medula. Mas funciona que é uma beleza.
sexta-feira
O GRANDE GATSBY
O GRANDE GATSBY (The Great Gatsby, 2013, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 143min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, romance de F. Scott Fitzgerald. Fotografia: Simon Duggan. Montagem: Jason Ballantine, Jonathan Redmond, Matt Villa. Música: Craig Armstrong. Figurino: Catherine Martin. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Beverley Dunn, Eva Starlite. Produção executiva: Bruce Berman, Shawn "Jay Z" Carter, Barrie M. Osborne. Produção: Lucy Fisher, Catherine Knapman, Baz Luhrmann, Catherine Martin, Douglas Wick. Elenco: Leonardo DiCaprio, Carey Mulligan, Tobey Maguire, Joel Edgerton, Isla Fischer, Jason Clarke. Estreia: 01/5/13
Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
Quem conhece o cinema do australiano Baz Luhrmann sabe exatamente o que esperar de sua adaptação do clássico americano "O grande Gatsby", de F. Scott Fitzgerald. Deixando de lado a suntuosidade discreta e fleumática da versão de Jack Clayton, lançada em 1974 e estrelada por Robert Redford e Mia Farrow - e vencedora do Oscar de figurino - o homem que deu ao mundo obras que são um louvor incontestável ao kitsch, como "Vem dançar comigo" e "Moulin Rouge, o amor em vermelho", reitera suas convicções estéticas ao compor uma sinfonia de cores e opulência que, ao contrário do que se poderia esperar, casa perfeitamente com a história do romance de Fitzgerald. Se o filme de Clayton é considerado quase unanimemente chato pela crítica e pelo público por seguir fielmente o livro, a obra de Luhrmann irradia luz, calor e paixão na medida certa - ainda que, como sempre acontece com seus trabalhos, carregue nas tintas em seu começo, para somente depois envolver a plateia na história.
Tendo em vista seu currículo - onde o luxo e a efervescência cultural são ingredientes indispensáveis - é quase impossível pensar em outro diretor mais capaz do que Luhrmann de traduzir em imagens as palavras clássicas do homem que é também o criador do inesquecível Benjamin Button. Fotografada com precisão pelo neozelandês Simon Duggan, a recriação da Long Island dos anos 20 é perfeita em sua concepção: a ideia do diretor e de seus fieis colaboradores (entre eles a sua mulher, Catherine Martin, responsável pelo desenho de produção e pelos figurinos, ambos premiados com o Oscar) não é ser fiel à realidade, e sim, às memórias de quem narra a estória, no caso, o escritor Nick Carraway (vivido com a habitual falta de entusiasmo por Tobey Maguire). Com sua visão de literato, Carraway não deixa de misturar ao real uma pitada bastante grande de poesia e ludicidade. Os olhos da audiência são os olhos de Carraway, e essa liberdade de ponto de vista é que transforma "O grande Gatbsy" via Luhrmann em, mais do que uma história de amor, um espetáculo de forma, cor e o sempre bem-vindo anacronismo musical que faz a delícia de seus fãs.
Se em "Moulin Rouge" o cineasta contou uma história passada no final do século XIX utilizando como trilha sonora nomes tão aparentemente incongruentes como Madonna, Nirvana, Paul McCartney e David Bowie, dessa vez ele conta com Beyoncé, Lana Del Rey e Florence Welch como moldura para suas insanidades visuais. Porém, aqui a música não é o prato principal, e sim um acompanhamento de luxo a uma trama de amor desesperado, contada com a sensibilidade e o ritmo do século XXI. Para tal, Luhrmann volta a contar com Leonardo DiCaprio, a quem ajudou a transformar em ídolo adolescente em 1996, com sua versão psicodélica de "Romeu e Julieta". DiCaprio - ainda tentando livrar-se da eterna imagem juvenil - vive o personagem-título, Jay Gatsby, um milionário conhecido por oferecer festas gigantescas em sua mansão em Long Island e que desperta a curiosidade de seu jovem vizinho, um aspirante a escritor que se vê envolvido no mundo alucinante e festivo dos anos 20. Não demora muito, porém, para que as razões que levam Gatsby a ser o anfitrião mais conhecido das redondezas sejam conhecidas: apaixonado por uma antiga namorada, ele vê nessa vida de pompa e circunstância a oportunidade de reencontrá-la. O escritor não demora também a descobrir que tal namorada é sua prima, a bela Daisy Buchanam (Carey Mulligan), casada com o infiel e pouco dado a delicadezas Tom (Joel Edgerton). O triângulo amoroso, potencializado pelo caráter violento de Tom e pela impossibilidade de Daisy em abdicar de sua vida familiar, acaba banhando o belo litoral em sangue e lágrimas (sempre iluminados com um capricho arrebatador, dessa vez filmado em 3D).
Se Leonardo DiCaprio não consegue fazer de seu Jay Gatsby uma figura potente e carismática a ponto de justificar o título do filme - chegando a ser irritante em alguns importantes momentos - e Tobey Maguire nunca ultrapassa o seu nível tradicional de interpretação, é inegável que Baz Luhrmann tem em mãos dois trunfos absolutos em termos dramáticos: Carey Mulligan e Joel Edgerton. O ator - que esteve em filmes elogiados como "Reino animal" e "Guerreiro", mas ainda não teve o devido reconhecimento - encontra o tom perfeito para seu Buchanan, roubando todas as cenas em que aparece. E Mulligan - que dispensa maiores comentários - cria uma Daisy etérea, delicada e frágil na medida certa, valorizada pelo figurino impecável e por seu talento imenso. Se o visual acachapante criado por Luhrmann é o corpo de "O grande Gatsby", Carey é sua alma, mesmo tendo em suas mãos uma personagem nem sempre amável ou de atitudes compreensíveis. O olhar de Mulligan, expressivo e melancólico, é a tradução perfeita da ressaca que veio depois dos esfuziantes anos 20 retratados por Fitzgerald. Um acerto gigantesco na escolha do elenco e que faz do filme um programa obrigatório.
Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
Quem conhece o cinema do australiano Baz Luhrmann sabe exatamente o que esperar de sua adaptação do clássico americano "O grande Gatsby", de F. Scott Fitzgerald. Deixando de lado a suntuosidade discreta e fleumática da versão de Jack Clayton, lançada em 1974 e estrelada por Robert Redford e Mia Farrow - e vencedora do Oscar de figurino - o homem que deu ao mundo obras que são um louvor incontestável ao kitsch, como "Vem dançar comigo" e "Moulin Rouge, o amor em vermelho", reitera suas convicções estéticas ao compor uma sinfonia de cores e opulência que, ao contrário do que se poderia esperar, casa perfeitamente com a história do romance de Fitzgerald. Se o filme de Clayton é considerado quase unanimemente chato pela crítica e pelo público por seguir fielmente o livro, a obra de Luhrmann irradia luz, calor e paixão na medida certa - ainda que, como sempre acontece com seus trabalhos, carregue nas tintas em seu começo, para somente depois envolver a plateia na história.
Tendo em vista seu currículo - onde o luxo e a efervescência cultural são ingredientes indispensáveis - é quase impossível pensar em outro diretor mais capaz do que Luhrmann de traduzir em imagens as palavras clássicas do homem que é também o criador do inesquecível Benjamin Button. Fotografada com precisão pelo neozelandês Simon Duggan, a recriação da Long Island dos anos 20 é perfeita em sua concepção: a ideia do diretor e de seus fieis colaboradores (entre eles a sua mulher, Catherine Martin, responsável pelo desenho de produção e pelos figurinos, ambos premiados com o Oscar) não é ser fiel à realidade, e sim, às memórias de quem narra a estória, no caso, o escritor Nick Carraway (vivido com a habitual falta de entusiasmo por Tobey Maguire). Com sua visão de literato, Carraway não deixa de misturar ao real uma pitada bastante grande de poesia e ludicidade. Os olhos da audiência são os olhos de Carraway, e essa liberdade de ponto de vista é que transforma "O grande Gatbsy" via Luhrmann em, mais do que uma história de amor, um espetáculo de forma, cor e o sempre bem-vindo anacronismo musical que faz a delícia de seus fãs.
Se em "Moulin Rouge" o cineasta contou uma história passada no final do século XIX utilizando como trilha sonora nomes tão aparentemente incongruentes como Madonna, Nirvana, Paul McCartney e David Bowie, dessa vez ele conta com Beyoncé, Lana Del Rey e Florence Welch como moldura para suas insanidades visuais. Porém, aqui a música não é o prato principal, e sim um acompanhamento de luxo a uma trama de amor desesperado, contada com a sensibilidade e o ritmo do século XXI. Para tal, Luhrmann volta a contar com Leonardo DiCaprio, a quem ajudou a transformar em ídolo adolescente em 1996, com sua versão psicodélica de "Romeu e Julieta". DiCaprio - ainda tentando livrar-se da eterna imagem juvenil - vive o personagem-título, Jay Gatsby, um milionário conhecido por oferecer festas gigantescas em sua mansão em Long Island e que desperta a curiosidade de seu jovem vizinho, um aspirante a escritor que se vê envolvido no mundo alucinante e festivo dos anos 20. Não demora muito, porém, para que as razões que levam Gatsby a ser o anfitrião mais conhecido das redondezas sejam conhecidas: apaixonado por uma antiga namorada, ele vê nessa vida de pompa e circunstância a oportunidade de reencontrá-la. O escritor não demora também a descobrir que tal namorada é sua prima, a bela Daisy Buchanam (Carey Mulligan), casada com o infiel e pouco dado a delicadezas Tom (Joel Edgerton). O triângulo amoroso, potencializado pelo caráter violento de Tom e pela impossibilidade de Daisy em abdicar de sua vida familiar, acaba banhando o belo litoral em sangue e lágrimas (sempre iluminados com um capricho arrebatador, dessa vez filmado em 3D).
Se Leonardo DiCaprio não consegue fazer de seu Jay Gatsby uma figura potente e carismática a ponto de justificar o título do filme - chegando a ser irritante em alguns importantes momentos - e Tobey Maguire nunca ultrapassa o seu nível tradicional de interpretação, é inegável que Baz Luhrmann tem em mãos dois trunfos absolutos em termos dramáticos: Carey Mulligan e Joel Edgerton. O ator - que esteve em filmes elogiados como "Reino animal" e "Guerreiro", mas ainda não teve o devido reconhecimento - encontra o tom perfeito para seu Buchanan, roubando todas as cenas em que aparece. E Mulligan - que dispensa maiores comentários - cria uma Daisy etérea, delicada e frágil na medida certa, valorizada pelo figurino impecável e por seu talento imenso. Se o visual acachapante criado por Luhrmann é o corpo de "O grande Gatsby", Carey é sua alma, mesmo tendo em suas mãos uma personagem nem sempre amável ou de atitudes compreensíveis. O olhar de Mulligan, expressivo e melancólico, é a tradução perfeita da ressaca que veio depois dos esfuziantes anos 20 retratados por Fitzgerald. Um acerto gigantesco na escolha do elenco e que faz do filme um programa obrigatório.
quarta-feira
ENTRE IRMÃOS
ENTRE IRMÃOS (Brothers, 2009, Lionsgate, 105min) Direção: Jim Sheridan. Roteiro: David Beniofff, roteiro original de Susanne Bier, Anders Thomas Jensen. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Jay Cassidy. Música: Thomas Newman. Figurino: Durinda Wood. Direção de arte/cenários: Tony Fanning/Wendy Barnes. Produção executiva: Jon Feltheimer, Scott Fischer, Zach Schiff-Abrams, Tucker Tooley. Produção: Michael De Luca, Ryan Kavanaugh, Sigurjon Sighvatsson. Elenco: Tobey Maguire, Jake Gyllenhaal, Natalie Portman, Sam Shepard, Mare Winningham, Bailee Madison, Carey Mulligan, Clifton Collins Jr. Estreia: 03/12/09 (Israel)
O diretor escolhido, o irlandês Jim Sheridan, já tinha no currículo duas
indicações ao Oscar – pelos filmes “Meu pé esquerdo” (89) e “Em nome do pai”
(93). Os dois protagonistas masculinos, Tobey Maguire e Jake Gyllenhaal, eram
promissores astros – o primeiro, afinal, era o mais bem-sucedido Homem-aranha
das telas, e o segundo já contava com uma lembrança da Academia de Hollywood
como coadjuvante do belo e polêmico “O segredo de Brokeback Mountain” (05). A
atriz central, Natalie Portman, havia chamado a atenção da crítica já em sua
estreia, aos 13 anos, em “O profissional” (04), e, além de elogios unânimes a
várias atuações, já tinha o amor dos cinéfilos por seu trabalho na segunda
trilogia “Star Wars”, onde viveu a princesa Amidala. Com um time assim, nem foi
tão traumático o anúncio de que o dinamarquês “Irmãos”, grande sucesso de 2004,
ganharia um remake americano. O medo de que os estúdios hollywoodianos pudesse
estragar a bela história comandada pela cineasta Susanne Bier parecia fora de
cogitação com a união de um time tão cheio de craques. Mas, se “Entre irmãos” é
bem melhor do que costumam ser as refilmagens cometidas pelo cinema comercial
ianque, tampouco chega a ser empolgante como poderia. É acima da média e realizado
com extrema competência, mas falha em não se conectar emocionalmente com seu
público da maneira como poderia.
Emoção é o que não falta na trama central, modificada apenas em detalhes ínfimos para sua transposição para os EUA. A história se concentra na família de Sam Cahill (Tobey Maguire), um jovem capitão que, apesar de ter uma bela e amorosa família, sente-se mais confortável e feliz nos campos de batalha do Afeganistão do que dentro das paredes de sua acolhedora casa. Quando o filme começa, seu irmão caçula, Tommy (Jake Gyllenhaal), está saindo da cadeia, onde ficou por um período graças à sua personalidade transgressora e rebelde – fato que o distancia do afeto de seu pai (Sam Shepard), um ex-soldado que nitidamente tem preferência por Sam. O retorno de Tommy à família acontece às vésperas da volta de Sam para o Oriente Médio, para tristeza de sua mulher, Grace (Natalie Portman), e de suas duas filhas pequenas. O drama fica ainda maior quando, algum tempo depois, Grace recebe a trágica notícia da morte do marido, assassinado por soldados afegãos. Na verdade, porém, Sam não morreu: feito refém, ele surpreende a todos quando ressurge, traumatizado e neurotizado por acontecimentos que esconde debaixo de um comportamento errático e agressivo. Seu novo modo de agir começa a afastá-lo das filhas e até da esposa, que oculta dele algo de suprema importância: durante sua ausência, ela e Tommy se apaixonaram, já que o rapaz resolveu assumir a família do irmão como se fosse sua.
Seguindo a trama em duas frentes distintas, Sheridan é feliz ao contrabalançar um potente drama de guerra – que reserva algumas cenas de grande tensão para o espectador – e uma delicada e surpreendente história de amor para que, no terço final da narrativa, elas se integrem em uma terceira e crucial vertente. Potencializado pela atuação visceral de Tobey Maguire – que ficou com o papel de Sam apesar de ter desejado primeiro interpretar Tommy – o desfecho da história pode até soar anticlimática (apesar da bela trilha sonora do veterano Thomas Newman), mas é coerente tanto com a filmografia do diretor quanto com o tom impresso por ele em todo o desenvolvimento dos personagens. Maguire constrói um personagem silencioso e reprimido que esconde, por trás de uma pretensa civilidade, as lembranças dolorosas do trauma que passou na guerra, e explode na melhor sequência do filme, em uma festa de aniversário que revela muitos dos segredos da família – e também é elogiável, então, a atuação impressionante da pequena Bailee Madison, que vive a filha mais velha do protagonista e quase rouba a cena do elenco de veteranos.
E se Maguire mostra que não é ator de um único personagem – e no caso o icônico Homem-aranha – seus colegas não ficam atrás. Jake Gyllenhaal convence tanto como um Tommy rebelde e agressivo quanto explora seu lado doce e romântico. Natalie Portman vive uma Grace torturada pela divisão entre a nova paixão, a culpa em relação ao marido (que julgava morto) e a tentativa de levar a vida adiante mesmo depois da suposta tragédia. São três jovens atores brilhantes e dotados de grande talento, que encontram em Sheridan um diretor competente e respeitado. Porém, falta ao resultado final o calor humano e a fúria que o cineasta emplacou em seus melhores filmes – e inclui-se nessa lista o poético “Terra dos sonhos”, que ele escreveu ao lado das filhas e transformou em um belo drama familiar em homenagem aos EUA. Parece que Sheridan fala melhor quando é pessoal, e em “Entre irmãos” tem-se a nítida impressão de que ele apenas assinou um trabalho de encomenda. Muito bom, mas ainda assim distante da paixão que ele marca em cada trabalho.
Emoção é o que não falta na trama central, modificada apenas em detalhes ínfimos para sua transposição para os EUA. A história se concentra na família de Sam Cahill (Tobey Maguire), um jovem capitão que, apesar de ter uma bela e amorosa família, sente-se mais confortável e feliz nos campos de batalha do Afeganistão do que dentro das paredes de sua acolhedora casa. Quando o filme começa, seu irmão caçula, Tommy (Jake Gyllenhaal), está saindo da cadeia, onde ficou por um período graças à sua personalidade transgressora e rebelde – fato que o distancia do afeto de seu pai (Sam Shepard), um ex-soldado que nitidamente tem preferência por Sam. O retorno de Tommy à família acontece às vésperas da volta de Sam para o Oriente Médio, para tristeza de sua mulher, Grace (Natalie Portman), e de suas duas filhas pequenas. O drama fica ainda maior quando, algum tempo depois, Grace recebe a trágica notícia da morte do marido, assassinado por soldados afegãos. Na verdade, porém, Sam não morreu: feito refém, ele surpreende a todos quando ressurge, traumatizado e neurotizado por acontecimentos que esconde debaixo de um comportamento errático e agressivo. Seu novo modo de agir começa a afastá-lo das filhas e até da esposa, que oculta dele algo de suprema importância: durante sua ausência, ela e Tommy se apaixonaram, já que o rapaz resolveu assumir a família do irmão como se fosse sua.
Seguindo a trama em duas frentes distintas, Sheridan é feliz ao contrabalançar um potente drama de guerra – que reserva algumas cenas de grande tensão para o espectador – e uma delicada e surpreendente história de amor para que, no terço final da narrativa, elas se integrem em uma terceira e crucial vertente. Potencializado pela atuação visceral de Tobey Maguire – que ficou com o papel de Sam apesar de ter desejado primeiro interpretar Tommy – o desfecho da história pode até soar anticlimática (apesar da bela trilha sonora do veterano Thomas Newman), mas é coerente tanto com a filmografia do diretor quanto com o tom impresso por ele em todo o desenvolvimento dos personagens. Maguire constrói um personagem silencioso e reprimido que esconde, por trás de uma pretensa civilidade, as lembranças dolorosas do trauma que passou na guerra, e explode na melhor sequência do filme, em uma festa de aniversário que revela muitos dos segredos da família – e também é elogiável, então, a atuação impressionante da pequena Bailee Madison, que vive a filha mais velha do protagonista e quase rouba a cena do elenco de veteranos.
E se Maguire mostra que não é ator de um único personagem – e no caso o icônico Homem-aranha – seus colegas não ficam atrás. Jake Gyllenhaal convence tanto como um Tommy rebelde e agressivo quanto explora seu lado doce e romântico. Natalie Portman vive uma Grace torturada pela divisão entre a nova paixão, a culpa em relação ao marido (que julgava morto) e a tentativa de levar a vida adiante mesmo depois da suposta tragédia. São três jovens atores brilhantes e dotados de grande talento, que encontram em Sheridan um diretor competente e respeitado. Porém, falta ao resultado final o calor humano e a fúria que o cineasta emplacou em seus melhores filmes – e inclui-se nessa lista o poético “Terra dos sonhos”, que ele escreveu ao lado das filhas e transformou em um belo drama familiar em homenagem aos EUA. Parece que Sheridan fala melhor quando é pessoal, e em “Entre irmãos” tem-se a nítida impressão de que ele apenas assinou um trabalho de encomenda. Muito bom, mas ainda assim distante da paixão que ele marca em cada trabalho.
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