Mostrando postagens com marcador HARRY MELLING. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador HARRY MELLING. Mostrar todas as postagens

quinta-feira

HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN


HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN (Harry Potter and the prisoner of Azkaban, 2004, Warner Bros, 142min) Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Steve Kloves, romance de J.K. Rowling. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Steven Weisberg. Música: John Williams. Figurino: Jany Temine. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, Callum McDougall, Tanya Seghatchian. Produção: Chris Columbus, David Heyman, Mark Radcliffe. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Michael Gambon, Maggie Smith, Gary Oldman, Emma Thompson, Julie Walters, Alan Rickman, David Thewliss, Tom Felton, Richard Griffiths, Fiona Shaw, Julie Christie, Robbie Coltrane. Estreia: 23/5/2004

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Efeitos Visuais

Quando Chris Columbus voltou atrás em sua decisão de comandar todos os filmes da série "Harry Potter" - da qual ele já havia dirigido os dois primeiros - uma nova odisseia de bastidores começou. A Warner, afinal, tinha um investimento dos mais preciosos em mãos (os direitos de todos os sete livros da saga) para entregá-lo a qualquer um. Entre os candidatos a assumir as rédeas do terceiro capítulo da milionária obra da britânica J.K. Rowling, então, surgiram nomes tão díspares quanto M. Night Shyamalan e Marc Forster. O primeiro tinha no currículo o megasucesso "O sexto sentido" (1999), que havia lhe rendido indicações ao Oscar de filme, direção e roteiro; o outro havia sido responsável por "A última ceia" (2001), que deu à Hale Berry a estatueta de melhor atriz. A responsabilidade de estar à frente de um blockbuster dos mais esperados da temporada 2004, porém, não foi tão sedutora assim, e ambos declinaram do convite: Shyamalan para realizar "A vila" (2004), e Forster para assinar "Em busca da Terra do Nunca" (2004). Foi aí que entrou em cena o mexicano Guillermo Del Toro, cujo currículo até então (com filmes como "Mutação", de 1997, "A espinha do diabo", de 2001, e "Blade II: O caçador de vampiros", de 2002) pouco recomendava para uma produção cujo público-alvo era infanto-juvenil. Para surpresa de muitos, Del Toro recusou o convite para penetrar no mundo de Hogwarts, mas não sem antes recomendar um amigo: enquanto preferiu tocar adiante um projeto de estimação - a adaptação de "Hellboy", baseado nas HQs de Mike Mignola -, ele apontou para seu conterrâneo Alfonso Cuarón. Em um primeiro olhar, Cuarón não poderia estar mais distante de Harry Potter, com filmes como o sexy "E sua mãe também" - que havia lhe rendido uma indicação ao Oscar de roteiro original - no portfolio. No entanto, Cuarón também sabia ser sensível e apropriado aos espectadores juvenis, como mostrou em 1995, ao adaptar o clássico "A princesinha", de Frances Hodgson Burnett, com a dose certa de emoção e delicadeza.

Com Cuarón no comando - aprovado por Rowling, fã de seus trabalhos anteriores - e um orçamento de estimados 130 milhões de dólares, "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" começava a dar os primeiros passos da série em direção à seriedade que os últimos capítulos apresentariam. Com um visual diferente dos dois primeiros filmes - cortesia da bela fotografia de Michael Seresin - e com sequências inteiras filmadas com câmeras em movimento, o terceiro filme da série apresenta também diferenças no figurino (especialmente os protagonistas) e um ritmo que equilibra cenas de ação, suspense e até comédia (como sempre acontece no começo do filme, Potter sofre nas mãos de seus tios e resolve a situação da melhor maneira que pode, com a ajuda de seus dons de bruxo, é claro). O roteiro, novamente adaptado por Steve Kloves, apresenta ao espectador novos elementos da saga, como o misterioso Sirius Black (interpretado com gosto por Gary Oldman), o padrinho do protagonista, que foge da prisão de Azkaban e, segundo a lenda, tem o objetivo de assassinar Harry, uma vez que é um dos mais fiéis seguidores do temido Voldemort (Ralph Fiennes). O que acontece, porém, é que Potter acaba descobrindo que o que sempre foi tido como verdade pode muito bem ser apenas parte dela. Com a ajuda de Hermione (Emma Watson) e Ron (Rupert Grint) - assim como também de alguns professores que conhecem a real história de Black -, o adolescente enfrenta o ano letivo mais perigoso de sua vida, visto até mesmo pelas previsões da professora Trelwaney (Emma Thompson, em papel pequeno que ela tira de letra).


Substituindo o falecido Richard Harris no crucial papel do professor Dumbledore, que foi oferecido também a Ian McKellen, Peter O'Toole e Christopher Lee, mantém em alto nível o elenco coadjuvante da série. Nomes como Maggie Smith, Alan Rickman, Fiona Shaw e Julie Walters continuam servindo de apoio a seus jovens colegas de cena, com generosidade ímpar. Conforme a trajetória de Harry Potter vai ficando cada vez menos infantil e se aproxima de momentos bastante tensos e violentos, a importância do corpo docente de Hogwarts se torna ainda mais importante e presente - e é admirável que a direção de Cuarón seja sensível ao ritmo da trama: o cineasta acelera quando precisa e mantém-se delicada ao examinar a relação de Potter com os personagens a seu lado. Daniel Radcliffe - assim como seus colegas mais próximos - mostra um amadurecimento tanto físico quanto artístico: não é um grande ator, mas é difícil imaginar outro intérprete para o jovem bruxo, um dos personagens mais populares da literatura e do cinema, um perfeito exemplo de entretenimento divertido e realizado com extremo cuidado e talento.

E "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" é justamente isso: entretenimento de primeira, capaz de agradar aos fãs dos livros e até mesmo àqueles que nunca abriram uma página sequer da saga de Rowling. Apesar de tratar - metaforicamente - com temas como depressão (representada pelos aterrorizantes dementadores), o filme de Cuarón se mantém no limite entre a fantasia e o terror, que ficaria a cada filme mais próximo dos protagonistas. Único filme da saga a não alcançar (por pouco) a marca de 800 milhões de dólares de bilheteria mundial, "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" concorreu a dois Oscar (trilha sonora original e efeitos visuais) e provou que, a despeito das mudanças na cadeira de diretor, mantém uma coerência interna e uma qualidade à prova das grandes expectativas de seu público. Cuarón, que assumiu não ter lido nenhum dos livros quando convidado para comandar esse terceiro filme - e que levaria o Oscar de direção por "Gravidade" (2013) - mostrou-se uma escolha certeira, que manteve o alto nível da série e emprestou-lhe um prestígio que apenas colaborou para seu sucesso de crítica e público.

domingo

HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA

HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA (Harry Potter and the chamber of secrets, 2002, Warner Bros, 161min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Steve Kloves, romance de J. K. Rowling. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Peter Honess. Música: John Williams. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, David Barron, Chris Columbus, Mark Radcliffe. Produção: David Heyman. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Richard Harris, Maggie Smith, Kenneth Branagh, Julie Walters, Alan Rickman, Robbie Coltrane, Jason Isaacs, Tom Felton. Estreia: 03/11/02

Quando "Harry Potter e a câmara secreta" estreou, no final de 2002, até mesmo o público que não acompanhava a saga do jovem bruxo em sua encarnação literária já conhecia seu universo mágico: graças à "Harry Potter e a pedra filosofal", o primeiro capítulo de uma coleção que prometia estender-se até um sétimo volume, o mundo inteiro estava tomado por uma febre que não atingia apenas seu público-alvo (o infantojuvenil), mas que havia se espalhado também entre aqueles adultos sem medo de entregar-se à fantasia. Com uma renda mundial de quase 980 milhões de dólares e elogiado pela maioria dos críticos, o filme de Chris Columbus - diretor também de "Esqueceram de mim" (1990) e "Uma babá quase perfeita" (1993) - estabeleceu as regras do jogo, apresentou seus personagens e confirmou o apelo comercial que há muito tempo as editoras já conheciam (e festejavam). Sem mexer em um time já ganhando, a Warner manteve a mesma equipe do primeiro filme para a realização do segundo e, para a surpresa de ninguém, voltou a cativar plateias ao redor do mundo - e mais uma vez chegou perto de um sucesso quase bilionário, com uma bilheteria de 88 milhões de dólares em seu fim-de-semana de estreia. 

Mais sombrio do que o primeiro filme - em uma transformação gradual da série, que vai ficando menos ingênua conforme a trama vai caminhando e os protagonistas vão de crianças a adolescentes, "Harry Potter e a câmara secreta" é o filme mais longo da série, a despeito do fato de o livro no qual ele é baseado é o segundo mais curto da saga, e começou a ser filmado apenas três dias após a estreia de "Harry Potter e a pedra filosofal". Tal pressa tinha motivo: não apenas o elenco infantil logo começaria a passar pela puberdade (a tragédia de qualquer produtor) como o ator Richard Harris, que vivia um personagem crucial nos filmes, Alvo Dumbledore - um dos professores mais importantes de Hogwarts e peça fundamental na trajetória do protagonista - estava com a saúde debilitada a ponto de ser quase afastado das filmagens; Harris morreu poucas semanas antes do lançamento do filme, e foi substituído, nas produções seguintes, por Michael Gambon. Com o elenco reforçado pela presença de Jason Isaacs e Kenneth Branagh, "Harry Potter e a câmara secreta" consegue uma façanha e tanto: mantém o alto nível de entretenimento do primeiro filme (se é que não o eleva) e agrada em cheio aos fãs dos livros.


"Harry Potter e a câmara secreta" começa com um tom leve, mas não demora a mergulhar aos poucos em uma tensa jornada: ainda na casa de seus tios, Potter é visitado por um atrapalhado elfo doméstico, Dobby (voz de Tony Jones), que não apenas coloca o bruxinho em péssimos lençóis, graças a suas interferências em outros membros da família. Sua aparição, no entanto, tem motivos bastante sinistros: segundo ele, coisas horríveis estão para acontecer em Hogwarts, e Potter deve evitar voltar à escola. É claro que seus avisos de nada adiantam: Potter retorna para mais um ano letivo, assim como seus melhores amigos, Ron e Hermione, e logo de cara percebe que os conselhos que não seguiu estavam mais do que certos. Vozes vindas das paredes, escritos de sangue com mensagens enigmáticas e alunos sendo petrificados sem motivo aparente levam Harry a uma investigação que revela muito mais do que ele esperava e remete à uma misteriosa câmara secreta, cujo histórico é ligado à presença malévola de Voldemort, que controla (não se sabe como) o lendário quarto da escola.

Assim como em "Harry Potter e a pedra filosofal", o segundo filme dirigido por Columbus ainda mostra seus protagonistas aprendendo a lidar com seus novos dons e lutando contra o mal, seja ele na forma de um apavorante guardião da câmara secreta, na pele do maquiavélico Draco Malfoy (Tom Felton) ou na figura pouco amistosa de Voldemort - além das dúbias ações do professor Severo Snape (Alan Rickman). A primeira metade do filme é dedicada a ilustrar os acontecimentos funestos que ameaçam fechar a escola, e sua segunda parte hipnotiza o espectador com revelações surpreendentes e constrói um clímax dos mais interessantes. Kenneth Branagh - substituindo Hugh Grant, que não pode participar do filme por problemas de agenda - é a melhor e mais acertada aquisição neste segundo capítulo, interpretando um falastrão e vaidoso Gilderoy Lockhart, professor que mostra sua real personalidade quando é chamado a desafiar o mal vindo do tétrico cômodo. É ele quem equilibra o tom entre a comédia (especialidade de Ron) e a tragédia (cortesia de Voldemort em si). O elenco juvenil se mostra mais à vontade nas peles dos protagonistas, e os veteranos do grupo (Harris, Maggie Smith, Julie Walters, Alan Rickman) aproveitam cada minuto em cena para provar que, mesmo em um filme direcionado a uma plateia menos madura, são capazes de roubar a cena - coisa que os efeitos visuais, discretos mas eficientíssimos, ajuda a ressaltar. Tão bom quanto o primeiro capítulo da saga, "Harry Potter e a câmara secreta" é, também, o último da série dirigido por Chris Columbus - um cineasta acostumado com o sucesso e com o diálogo com a audiência mais jovem. Columbus deu o pontapé inicial a um universo que se tornaria, a cada filme, mais e mais escuro e surpreendente.

quarta-feira

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (Harry Potter and the sorcere's stone, 2001, Warner Bros, 152min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Steve Kloves, romance de J. K. Rowling. Fotografia: John Seale. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: John Williams. Figurino: Juddiana Makovsky. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, Chris Columbus, Duncan Henderson, Mark Radcliffe. Produção: David Heyman. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Richard Harris, Maggie Smith, Alan Rickman, Ian Hart, Julie Walters, John Hurt, Robbie Coltrane, Fiona Shaw, Richard Griffiths, Harry Melling. Estreia: 04/11/2001

3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Não tinha como dar errado: o primeiro volume de um fenômeno editorial que só crescia a cada livro lançado, um cineasta acostumado a lidar com potenciais blockbusters e todo o capricho que um generoso orçamento de cerca de 125 milhões de dólares pode comprar. Além disso, um marketing poderoso, uma pré-produção que enchia de expectativas os fãs mais ardorosos, e um elenco que reunia jovens iniciantes com veteranos acima de qualquer suspeita. "Harry Potter e a pedra filosofal" não era apenas mais um filme, era um evento de enormes proporções e uma aposta certeira da Warner para bater de frente com outro fenômeno literário que também chegava às telas de cinema: o ambicioso "O Senhor dos Anéis". Mesmo com um público-alvo mais jovem do que aquele dos filmes de Peter Jackson que começavam sua trajetória nas salas de exibição, a comparação entre as duas produções não era completamente equivocada: ambos os filmes davam o pontapé inicial em séries que tanto poderiam passar à história como imensos sucessos ou avassaladores fracassos. Para o bem de todos e felicidade geral dos estúdios, porém, os leitores fiéis - e os neófitos curiosos - correram para os cinemas, e os críticos, normalmente bem avessos à superproduções, aplaudiram de pé e ficaram ansiosos pelo próximo capítulo.

A trajetória de "Harry Potter e a pedra filosofal" para passar das páginas escritas pela britânica J. K. Rowling para os cinemas do mundo inteiro já começou com uma batalha campal para que o estúdio chegasse ao nome mais apropriado para sentar na cadeira de diretor. Rowling sugeriu o nome do excêntrico Terry Gilliam - e provavelmente por seu histórico irregular o cineasta foi dispensado pela Warner. A princípio, o estúdio pensava em transformar os livros em um filme de animação - uma providência que evitaria os problemas que poderiam ter com o elenco infantil, que fatalmente cresceriam durante a produção dos (então) sete livros. Steven Spielberg até demonstrou interesse na primeira fase de negociações, mas acabou recusando o trabalho por, segundo boatos de bastidores, considerá-lo "fácil demais" - o que não deixa de ser verdade, haja visto seu vasto currículo de filmes-evento. A saída de Spielberg do projeto o levou novamente à estaca zero, e sua sugestão para a empreitada, M. Night Shyamalan, tampouco teve sucesso nas negociações. Nomes de vários estilos começaram a pipocar na imprensa especializada como sendo de prováveis diretores do primeiro filme - dos mais sérios (Jonathan Demme, Alan Parker, Peter Weir) aos mais apropriados para desenvolver um universo mais divertido e mais próximo à obra literária (Ivan Reitman, Rob Reiner, Brad Silberling). Quem acabou levando a melhor, no entanto, foi um diretor já acostumado com sucessos de bilheteria infantojuvenis: Chris Columbus, o homem por trás de "Esqueceram de mim" (90) e "Uma babá quase perfeita" (92) se apaixonou pelos livros de Rowling através de sua filha, e insistiu tanto com os executivos da Warner que acabou ganhando o trabalho - não apenas para o primeiro filme, mas também para o segundo.


Mas se encontrar um diretor que agradasse à escritora e respeitasse o desejo do estúdio de uma produção comercialmente viável foi difícil, o pior ainda estava por vir: o elenco. Rowling exigia que os atores escolhidos para o filme fossem britânicos, o que logo de cara excluía alguns fãs do livro que sonhavam em fazer parte do espetáculo, como Robin Williams, Rosie O'Donnell. Rowling em pessoa escolheu Alan Rickman (Severo Snape), Maggie Smith (McGonnagal) e Robbie Coltrane (Hagrid) para papéis fundamentais na trama, e o irlandês Richard Harris (única exceção permitida pela escritora) para viver o sábio Albus Dombledore, mas a grande questão no momento era uma só: quem irá interpretar os fiéis amigos do protagonista e, principalmente, quem emprestaria seu rosto a Harry Potter pela próxima década? Chris Columbus tinha uma ideia bastante clara a esse respeito, e sempre que perguntado sobre o assunto pelos executivos da Warner, mostrava cenas de uma adaptação televisiva de Charles Dickens, "David Copperfield" (1999) e apontava para o jovem Daniel Radcliffe como o intérprete ideal. Foram mais de 5000 testes até que finalmente a diretora de elenco do filme conseguiu o que o diretor mais desejava: convencer os pais do rapaz para que aprovassem sua participação no projeto. Para interpretar seus dois leais companheiros foram escolhidos Rupert Grint (Ronnie Weasley) e Emma Watson (Hermione Granger). No papel do rival de Potter na escola Howgrats de bruxaria, o escolhido foi Tom Felton, que havia feito o teste para viver Harry. E o resto é de conhecimento internacional.

Filmado na Inglaterra e na Escócia entre setembro de 2000 e março de 2001, "Harry Potter e a pedra filosofal" acabou se tornando um capítulo de estreia dos mais empolgantes. Somado ao senso de ritmo e humor de Columbus, o roteiro de Steve Kloves acertou em cheio ao introduzir sua trama e seus personagens de maneira fluida e sem pressa: com 152 minutos de duração, o filme mantém o espectador atento dos primeiros (e cômicos) momentos até seu clímax - um jogo de xadrez sinistro onde o mal começa a mostrar a que veio, fato que irá se aprofundar nos demais filmes (e livros), que vão se tornando gradualmente sombrios. A química entre o elenco de novatos e veteranos é impecável e o visual foi lembrado pela Academia com uma indicação aos Oscar de direção de arte e figurino - a trilha sonora, do onipresente John Williams também foi indicada. Aplaudido pela crítica e pelos fãs mais exigentes, "Harry Potter e a pedra filosofal" arrecadou quase 1 bilhão de dólares pelo mundo - foi a maior bilheteria do ano - e abriu as portas para os demais filmes da série, cada vez menos infantil e mais empolgante. Uma produção infanto-juvenil que ultrapassa sua definição mais óbvia e conquista também a plateia mais velha, o filme de  Chris Columbus é um entretenimento dos mais bem-sucedidos, e se não foi levado tão a sério quanto seu rival direto - "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" - ao menos se mantém fresco e agradável mesmo depois de quase vinte anos. Um clássico instantâneo!

quinta-feira

A BALADA DE BUSTER SCRUGGS

A BALADA DE BUSTER SCRUGGS (The ballad of Buster Scruggs, 2018, Netflix, 133min) Direção: Ethan Coen, Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, contos "All gold canyon", de Jack London, e "The gall who got rattled", de Stewart Edward White. Fotografia: Bruno Delbonnell. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Jillian Longnecker. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Megan Ellison, Robert Graf, Sue Naegle. Elenco: Tim Blake Nelson, James Franco, Liam Neeson, Zoe Kazan, Brendan Gleeson, Harry Melling, Clancy Brown, David Krumholtz, Stephen Root, Tom Waits, Sam Dillon, Grainger Hines, Saul Rubinek. Estreia: 31/8/2018 (Festival de Veneza)

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Figurino, Canção Original ("When the cowboy trades his spurs for wings"

Quando foi anunciado que os irmãos Coen estavam desenvolvendo um trabalho para a Netflix, de imediato todos imaginaram uma série - especialmente quando ficou revelado que seu projeto consistia de seis pequenas histórias que tinham em comum a ambientação no Velho Oeste. A ansiedade em relação ao que dois dos cineastas mais festejados de Hollywood apresentariam teve fim no Festival de Veneza de 2018: "A balada de Buster Scruggs" é um filme digno de figurar entre os destaques da carreira da dupla e em nenhum momento parece amarrado a qualquer tipo de limitação que porventura poderia cercear sua criatividade. Mesclando histórias próprias e duas adaptações literárias, os vencedores do Oscar (roteiro por "Fargo", de 1996, e filme, direção e roteiro em 2007, por "Onde os fracos não tem vez") apresentaram a seu fiel público - e a uma extasiada crítica - uma produção caprichadíssima, que consegue equilibrar belas situações dramáticas com seu particular senso de humor. Em "A balada de Buster Scruggs", ironia e delicadeza caminham lado a lado, para deleite do espectador mais exigente.

O filme já começa de forma heterodoxa, em forma de musical: o protagonista da primeira história - e que empresta seu nome para o título da produção - chega a um vilarejo típico do velho oeste cantando e se apresentando como um dos mais procurados pela lei. Consciente de seus talentos como atirador e cantor, ele faz pouco caso do fato de estar sendo caçado e resolve descansar e beber na cantina local. Logo que chega, portanto, ele arruma confusão com um valentão do lugar, o assustador Joe (Clancy Brown) - e, em consequência, transforma o bar no palco de um quebra-quebra generalizado, até ser desafiado em duelo por outro autoconfiante atirador (Willy Watson). O segmento acaba com mais uma canção - a indicada ao Oscar "When the cowboy trades his spurs for wings" - e se destaca pelo inusitado do humor bizarro, pela agilidade e pela atuação impecável de Tim Blake Nelson, que já havia percorrido o musical e a comédia pelas mãos dos Coen no ótimo "E aí, meu irmão, cadê você?", de 2000. A segunda história tem o titulo de "Near algodones" e apresenta um jovem cowboy (James Franco) tentando assaltar a agência bancária do destemido (Stephen Root) e descobrindo, da pior forma possível, que o aparentemente frágil veterano não irá se submeter facilmente à situação. Mais uma vez é o equilibrio entre dois gêneros - faroeste e comédia - que sustenta a ágil narrativa.


O terceiro conto, "Meal ticket", conta as desventuras de um empresário irlandês (Liam Neeson) que percorre as cidades pequenas para apresentar à população o show de Horatio Edwin Harrison (Harry Melling, da série de filmes "Harry Potter", irreconhecível), que, desprovido de pernas e braços, declama uma série de textos célebres. Aos poucos, no entanto, o empresário começa a ver o público rarear - e descobre um outro (e surreal) talento para cuidar. É, sem dúvida, o conto mais tocante, sustentado pelo belo visual e pela interpretação de Melling, que consegue conquistar a plateia mesmo que não fale nenhuma palavra própria - todo o texto declamado por ele vem de outras fontes, como a Bíblia, Shakespeare e Abraham Lincoln, misturados em um monólogo memorável. O quarto segmento, "All gold canyon", é baseado em uma história de Jack London e mostra um experiente garimpeiro, interpretado por Tom Waits, buscando, incansavelmente, o ouro que o deixará rico. Seus esforços, porém, encontram um revés inesperado - e que pode destruir suas chances de entregar-se à aposentadoria. Talvez seja a mais fraca das histórias, mas ainda assim consegue surpreender.

O conto seguinte, "The gal who got rattled", é inspirado na obra de Stewart Edward White, e é a única história protagonizada por uma mulher - no caso, a inocente e tímida Alice Longabaugh (Zoe Kazan), que parte em direção ao Oregon em companhia do irmão, Gilbert (Jefferson Mays) - que lhe arrumou um casamento que também beneficia a seus negócios. O longo trajeto de sua caravana, no entanto, lhes reservas algumas surpresas - capazes de mudar completamente seu destino. Nesse episódio quem se sobressai é a atriz Zoe Kasdan: neta do lendário cineasta Elia Kazan, ela entrega uma performance acima da média, vivendo uma personagem repleta de nuances. O segmento final é o mais, digamos assim, surreal. "The mortal remains" apresenta cinco personagens em uma viagem de diligência em direção a uma cidade do Colorado. No diálogo que sustenta a trama, eles se revelam completamente diferentes um do outro - seja em vivência ou atitudes. E é preciso prestar atenção em cada palavra dita: há uma reviravolta em seus minutos finais, que o deixa ser a conclusão perfeita para o filme. Tal reviravolta é o trunfo da história, assim como seus intérpretes - que incluem os veteranos Brendan Gleeson e Saul Rubinek.

O melhor de "A balada de Buster Scruggs" é que, apesar de ser um filme construído em um formato episódico, ele jamais cai na armadilha da irregularidade. Claro que alguns segmentos chamam mais a atenção que outros - mas isso é de cada espectador. Todas as seis histórias apresentam características da filmografia de seus diretores/roteiristas/produtores e é evidente a qualidade ímpar de cada uma delas. O capricho do filme - independente se visto em uma sala de cinema ou via streaming - chamou a atenção da Academia de Hollywood, que lhe indicou em três categorias do Oscar: roteiro adaptado, figurino e canção original. O preconceito contra plataformas como a Netflix foi maior, entretanto, e essa pequena pérola da carreira de Joel e Ethan Coen acabou ficando de fora da lista de vencedores - sem falar em outras categorias em que ele poderia facilmente ter sido indicado, como direção de arte, fotografia e coadjuvantes: tudo é sensacional em "A balada de Buster Scruggs", que não fica nada a dever aos outros trabalhos da dupla. Um grande pequeno filme!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...