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segunda-feira

JADE

 


JADE (Jade, 1995, Paramount Pictures, 95min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Augie Hess. Música: James Horner. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: Alex Tavoularis/Gary Fettis. Produção executiva: William J. MacDonald. Produção: Gary Adelson, Craig Baumgarten, Robert Evans, Christine Peters. Elenco: David Caruso, Linda Fiorentino, Chazz Palminteri, Richard Crenna, Michael Biehn, Donna Murphy, Angie Everhart. Estreia: 13/10/95

Vencedor do Oscar de melhor diretor por "Operação França" (1971) - que também levou a estatueta de melhor filme - e o nome por trás do estrondoso sucesso de "O exorcista" (1973), William Friedkin declarou, em uma entrevista, que dentre todos os seus trabalhos, o seu favorito era "Jade", lançado em 1995. Das duas uma: ou o veterano cineasta buscava reacender as polêmicas em torno do filme ou estava seriamente fora de seu juízo perfeito. Medíocre, quase amador e constrangedor em suas tentativas de soar sexy ou transgressor, a produção estrelada por David Caruso e Linda Fiorentino naufragou fragorosamente nas bilheterias - custou cerca de 50 milhões de dólares e rendeu menos de 10 - e praticamente enterrou a carreira de seu astro, vindo da bem-sucedida série de televisão "Nova York contra o crime" e que, com dois fracassos consecutivos (o outro foi "O beijo da morte", que estreou poucos meses antes), chegou a pensar em abandonar Hollywood. Parte de uma série de produções da primeira metade da década de 1990 que apostavam no erotismo para chamar a atenção das plateias, "Jade" demonstrou, sem espaço para dúvidas, o desgaste da fórmula - e o fato de ter um elenco sem carisma e uma história fraca ajudou (e muito) em sua pouca repercussão.

Apesar de o roteirista de "Jade" ser o mesmo Joe Eszterhas de "Instinto selvagem" (1992) - o enorme sucesso popular que deu início ao boom do gênero - e de sua estrutura ter similaridades bastante óbvias, o filme de Friedkin sofre com a apatia de seu protagonista masculino (tanto o personagem quanto o ator, David Caruso), a sensualidade pouco atraente de sua estrela feminina (Linda Fiorentino sem repetir o êxito de sua performance avassaladora em "O poder da sedução") e a direção quase preguiçosa de William Friedkin - também responsável pelas constantes alterações no roteiro, provável motivo da fragilidade do produto final. Mesmo nas sequências de ação, o cineasta fica longe de demonstrar a segurança vista, por exemplo, em "Operação França" - as perseguições automobilísticas soam repetitivas e são incapazes de empolgar o público, além de parecerem completamente deslocadas da trama (confusa, desinteressante e, pior de tudo, totalmente artificial em suas tentativas de parecer sensual).

 

Assim como em "Instinto selvagem" e "Corpo em evidência" (1992) - estrelado por Madonna e igualmente amparado em sexo e violência -, "Jade" começa com um violento assassinato relacionado a aventuras eróticas. A vítima é um proeminente empresário, morto a golpes de machado. Durante a investigação, a equipe liderada pelo procurador assistente de São Francisco, David Corelli (David Caruso), encontra uma série de fotos do governador do estado, Lew Edwards (Richard Crenna), mantendo relações com uma prostituta chamada Patrice Jacinto (Angie Everhart). Interrogada pela polícia, Patrice revela que o morto mediava encontros de garotas de programa com homens ricos da região e que a mais desejada dentre todas era uma mulher com o nome de guerra de Jade - uma profissional conhecida por realizar todos os desejos de seus clientes, por mais bizarros que possam ser. Novas pistas, porém, levam a Katrina Gavin (Linda Fiorentino), respeitada psicóloga clínica casada com o advogado Matt Gavin (Chazz Palmiteri em papel oferecido a Kenneth Branagh) - Katrina é Jade, uma personalidade que lhe permite atingir o prazer sexual, e tal revelação leva o próprio Corelli a suspeitar de sua inocência, por mais que isso lhe incomode pessoalmente: ele não apenas é amigo íntimo de Gavin como também é completamente apaixonado pela principal suspeita do caso.

A trama pouco verossímil de "Jade" - assim como seu ritmo pouco convidativo e o desenvolvimento precário de seus personagens - colabora com a sensação de filme feito às pressas, sem cuidado com questões cruciais de roteiro e pós-produção. Além de esteticamente decepcionante - nem mesmo as cenas de sexo são minimamente excitantes - e transmitir uma aura de filme B, o trabalho de Friedkin sofre com um elenco fraquíssimo, incapaz das menores nuances de realismo. Caruso - inexpressivo como poucos -, ficou com o papel recusado por Warren Beatty (!!!) e Fiorentino, vinda dos elogios unânimes por "O poder da sedução" - onde pintava e bordava com sua sexualidade franca e amoral -, é subaproveitada, sem ter seu carisma explorado a contento. Escalada para um papel em que praticamente toda Hollywood foi considerada - das óbvias Sharon Stone, Madonna e Demi Moore às mais ousadas possibilidades Nicole Kidman, Jodie Foster e Julia Roberts -, ela acabou por sofrer as consequências do fracasso da produção: de estrela promissora, passou a figurar em uma lista de coadjuvantes pouco lembrados (apesar de ainda obter sucesso como o principal nome feminino de "Homens de preto", de 1997). Já o caso de David Caruso foi quase pior: depois de dois grandes fiascos seguidos, tomou parte de algumas produções obscuras e só retornou ao relativo prestígio em 2002, quando assumiu o papel principal de "CSI: Miami".

Esquecível e quase constrangedor, "Jade" é uma mancha na carreira de William Friedkin, apesar de sua opinião contrária. Talvez sirva para madrugadas insones - mas mesmo assim só se não houver mais nenhuma opção.

quarta-feira

DESAFIO NO BRONX

DESAFIO NO BRONX (A Bronx tale, 1993, Price Entertainment, 121min) Direção: Robert DeNiro. Roteiro: Chazz Palminteri, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Reynaldo Villalobos. Montagem: R.Q. Lovett, David Ray. Música: Butch Barbella. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Debra Schutt. Produção executiva: Peter Gatien. Produção: Robert DeNiro, Jon Kilik, Jane Rosenthal. Elenco: Robert DeNiro, Chazz Palminteri, Francis Capra, Lillo Brancatto, Taral Hicks, Kathrine Narducci, Joe Pesci. Estreia: 09/9/93 (Festival de Veneza)

Talvez fosse algo no ar, ou aquilo que costuma se chamar de inconsciente coletivo, mas não deixa de ser coincidência que três filmes que marcaram a estreia de atores na direção tenham falado sobre relações familiares e a perda da inocência com uma generosa dose de nostalgia. Foi assim com Jodie Foster e seu delicado "Mentes que brilham", de 1991, com Mel Gibson e seu surpreendentemente sensível "O homem sem face" (93) e com Robert DeNiro em seu quase autobiográfico "Desafio no Bronx". Todos eles tem como protagonista um menino enfrentando a difícil transição entre a infância e a maturidade, encontrando em seu caminho a solidão, a insegurança e as dúvidas em relação ao que é certo ou errado. Foster e Gibson podem ter assinados excelentes filmes, mas é impossível negar que foi DeNiro, com seu perfeito equilíbrio entre drama familiar, crítica social e a recriação de um clima muito específico de sua época e geografia, quem acabou se saindo melhor. Como um dedicado e atento aluno de seu amigo e parceiro Martin Scorsese, o veterano ator - vencedor de 2 Oscar - transmite, em seu filme, uma segurança e uma personalidade invejáveis.

A princípio pode até parecer um filme de Scorsese, com sua narrativa em off, seus personagens típicos, sua preferência por uma história pessoal e próxima de sua realidade. Porém, com o texto mais suave de Chazz Palminteri - autor também da peça de teatro que deu origem ao roteiro e um dos atores centrais do filme - e com a opção de sublinhar mais a dinâmica entre pai honesto/filho em vias de seguir o caminho do crime do que a violência decorrente de tal embate, "Desafio no Bronx" foge do estigma um tanto assustador de "filme de máfia" e se protege de comparações com a obra do cineasta que criou "Taxi driver" e "Os bons companheiros" - ambos sintomaticamente estrelados por DeNiro.  Quando a violência surge - explosiva, brutal, inesperada - ela tem causa e consequência, tem a face de uma escolha perigosa e de um futuro sangrento para o jovem protagonista. E essa escolha em retratá-la como um câncer social e não algo glamouroso é uma das maiores qualidades de um filme repleto delas.

Baseado em uma peça teatral escrita por Chazz Palminteri - que conta sua própria história e só vendeu os direitos para o cinema com a condição de participar do filme - "Desafio no Bronx" se passa em dois momentos diferentes. Começa em 1960, quando o pequeno Calogero (Francis Capra) passa a perceber a diferença social entre seu pai, o honesto motorista de ônibus Lorenzo (o próprio DeNiro em caracterização simpática e discreta) e Sonny (Palminteri, que em seguida concorreria ao Oscar de coadjuvante por "Tiros na Broadway", de Woody Allen), um gângster poderoso e temido no bairro onde vive. Fascinado pelo poder exercido por Sonny, o menino passa a ser seu protegido depois de testemunhar um assassino cometido por ele e manter-se em silêncio diante da polícia. Fazendo pequenos trabalhos para a máfia, Calogero entra em rota de colisão com seu pai, absolutamente contrário a qualquer tipo de contravenção. A segunda fase da história se passa em 1968, em meio aos graves conflitos sociais que os EUA enfrentavam em relação à luta pelos direitos civis. Já vivido por Lillo Brancato, Calogero é um adolescente - ainda sob a proteção de Sonny - que se vê no centro do furacão racial quando se encanta por Jane (Taral Hicks), uma jovem negra que mora em um bairro vizinho e que é vítima constante dos ataques de seus melhores amigos.

Sem ambicionar mais do que contar uma boa história com uma narrativa clássica, Robert DeNiro surpreende também pela forma econômica com que dirige seus atores, tirando deles uma atuação naturalista que casa perfeitamente com seu estilo direto, quase seco - mas disposto a concessões poéticas como a cena da violência contra os jovens negros sob o som de Moody Blues. Especialmente os dois jovens atores escolhidos para dividir o papel de Calogero - Francis Capra na infância e Lillo Brancato na adolescência - traduzem com perfeição o misto de inocência e veracidade do filme, que não deixa que o tema um tanto pesado descambe nem para o sentimentalismo nem para o grotesco. E tem ressonância especial saber que o filme é dedicado ao pai do diretor/ator. Uma bela homenagem, um belíssimo filme e uma estreia alvissareira.

segunda-feira

TIROS NA BROADWAY

TIROS NA BROADWAY (Bullets over Broadway, 1994, Miramax Films/Sweetland Films, 98min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Douglas McGrath. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode, Amy Marshall. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: John Cusack, Dianne Wiest, Chazz Palminteri, Rob Reiner, Jennifer Tilly, Mary-Louise Parker, Jim Broadbent, Tracey Ulman, Joe Viterelli, Jack Warden, Harvey Fierstein. Estreia: 01/10/94

7 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Roteiro Original, Ator Coadjuvante (Chazz Palminteri), Atriz Coadjuvante (Jennifer Tilly/Dianne Wiest), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest)

Poucas vezes um filme de Woody Allen teve uma acolhida tão generosa por parte da Academia quanto "Tiros na Broadway". Indicada a sete Oscar, a divertida comédia passada nos bastidores do teatro dos anos 20 conquista pelo humor inteligente e sarcástico, pela reconstituição de época caprichada e, como é de costume na obra do cineasta nova-iorquino, pelo elenco impecável. Não foi à toa que três de seus atores foram indicados a um estatueta e Dianne Wiest tenha arrebatado a sua segunda - a primeira, por outro filme de Allen, "Hannah e suas irmãs", ela recebeu em 1986. Na pele de Helen Sinclair, uma diva dos palcos com tendências alcóolicas e egocêntricas, Wiest só não rouba a cena porque, a seu lado, estão os surpreendentes Chazz Palminteri (dramaturgo até então desconhecido pelos fãs de cinema) e Jennifer Tilly (que deixou pra trás trabalhos esquecíveis como "A fuga", com Alec Baldwin e Kim Basinger graças a seu desempenho hilariante).

Liderando o elenco de peso está John Cusack, que interpreta David Shayne, um jovem dramaturgo que, a despeito da qualidade de seu texto, acumula fracasso em cima de fracasso. Sua grande chance acontece quando sua última peça, "O deus dos nossos pais" encontra um patrocinador inesperado, o mafioso (Joe Viterelli), cuja única exigência é que sua amante, Olive Neal (Jennifer Tilly), tenha um papel de destaque. A princípio irredutível em vender sua arte, David acaba convencido por seu empresário Nick Valenti (Jack Warden) a aceitar a ideia, principalmente porque, com o financiamento, poderá contar com a presença de Helen Sinclair (Wiest), uma atriz de primeira grandeza. Porém, a presença histérica da péssima Olive é a apenas o primeiro problema na trajetória do espetáculo: quando os ensaios começam, os atores passam a questionar o texto e as ideias do dramaturgo, e o segurança de Olive, o agressivo Cheech (Chazz Palminteri) começa a dar suas próprias ideias para mudar o desenrolar da trama.


Afiado como nunca - e dividindo os créditos do roteiro com Douglas McGrath, em um acontecimento raríssimo em sua carreira - Allen não dá ao espectador tempo para recuperar-se de um diálogo sensacional para presenteá-lo imediatamente com outro. Enquanto Wiest desfila seu festival de ironias pela tela - e lega um clássico "Don't speak!" para a posteridade - os demais atores deitam e rolam com personagens bem delineados e de importância para o desenvolvimento da comédia proposta. Jim Broadbent, por exemplo, antes do Oscar de coadjuvante por "Iris", vive um ator que engorda a olhos vistos durante o processo de ensaios e acaba sendo responsável por uma crise nas coxias quando se envolve romanticamente com quem não devia - erro que o próprio David também comete quando se apaixona por Helen mesmo já tendo um relacionamento sério.

Divertido, inteligente e irônico na medida certa, "Tiros na Broadway" comprova as qualidades de Woody Allen como cineasta e roteirista popular - contrariando sua fama de hermético. As piadas, mesmo que sejam muito mais interessantes a um público que conheça os bastidores do teatro, são de um sarcasmo a toda prova e o desfecho - coerente e imprevisível - faz jus a todo o alvoroço que o filme provocou e suas indicações aos Oscar de direção e roteiro original. Um Allen dos melhores!

domingo

DIABOLIQUE

DIABOLIQUE (Diabolique, 1996, Morgan Creek Productions, 107min) Direção: Jeremiah Chechik. Roteiro: Don Roos, roteiro francês de Henri-Georges Clouzot, romance "Celle qui n'etait plus", de Pierre Boileau, Thomas Narcejac. Fotografia: Peter James. Montagem: Carol Littleton. Música: Randy Edelman. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Michael Seirton. Produção executiva: Gary Barber, Chuck Binder, Jerry Offsay, Bill Todman Jr. Produção: James G. Robinson. Elenco: Sharon Stone, Isabelle Adjani, Kathy Bates, Chazz Palminteri, Shirley Knight, Adam Hann-Byrd. Estreia: 22/3/96

Quer destruir um clássico do cinema? Primeiro, decida refilmá-lo, de preferência em outro idioma. Depois, escolha um diretor medíocre sem nada de marcante no currículo. Por fim, escale um elenco com o único objetivo de chamar a atenção da mídia: um símbolo sexual tentando ser levado a sério é uma boa opção. Junte a isso um visual desleixado e voilá, sua missão está cumprida. Pelo menos foi seguindo essa receita que os gananciosos executivos de Hollywood transformaram o aterrador "As diabólicas", de Henri-Georges Clozout, lançado em 1955 com Simone Signoret em um dos papéis principais, em "Diabolique", um suspense anêmico e esquecível estrelado por uma Sharon Stone em vias de receber uma indicação ao Oscar por "Cassino".

O filme original foi baseado em um romance cujos direitos foram cobiçados por ninguém menos que Alfred Hitchcock - que depois realizou "Um corpo que cai" baseado em outra história escrita pelos mesmos autores, Pierre Boileau e Thomas Narcejac. Incensado pela crítica e vencedor do prêmio de Melhor Filme Estrangeiro pela Associação de Críticos de Nova York, é um autêntico suspense psicológico, capaz de grudar o espectador na poltrona do início ao fim, graças à trama bem bolada e à direção inteligente e criativa - sem falar no trabalho da ótima Signoret. Sua versão americana, realizada quatro décadas depois, deixa de lado qualquer sutileza e elegância para atingir um público acostumado com doses excessivas de violência e efeitos especiais. Dirigido por Jeremiah Chechik (que depois assinaria o tenebroso "Os vingadores", antes de mudar-se de mala e cuia para a TV), "Diabolique" tem a seu favor a história interessante, mas deixa escapar a chance de ser uma obra de personalidade própria.



As protagonistas do filme são Nicole Horner (Sharon Stone) e Mia Baran (Isabelle Adjani), duas professoras de uma escola para meninos no interior dos EUA. Baran, que é uma das donas da instituição, é casada com seu sócio, o mesquinho e sórdido Guy (Chazz Palminteri), que a humilha e destrata diante de qualquer pessoa e que tem um caso tórrido com Nicole, que também sente-se menosprezada por ele. Cansadas de tanto sofrimento, as duas planejam sua morte, mas, depois de concretizá-la, passam a sofrer o assédio da detetive Shirley Vogel (Kathy Bates), uma mulher determinada a encontrar o desaparecido diretor da escola. Enquanto tentam lidar com a pressão, Nicole e Mia começam também a desconfiar que alguém sabe do que elas fizeram: o cadáver desaparece de onde deveria estar e suas roupas e objetos pessoais passam a surgir nos momentos mais imprevisíveis.

É impossível deixar de pensar em como a trama criada por Boileau e Narcejac poderia se prestar a um filme interessante mesmo sendo uma refilmagem. O desenvolvimento da história e seu final inesperado são realmente empolgantes, mas Chechik não parece desfrutar do mesmo entusiasmo: seus enquadramentos são burocráticos, suas tentativas de criar suspense são pífias e sua direção de atores é no mínimo sofrível. Apesar de ser uma boa atriz - e Scorsese provou isso pouco antes - Sharon Stone faz caras e bocas o tempo todo, num esforço desnecessário para parecer sexy e forte (verdade seja dita, nem mesmo com o figurino vulgar de sua personagem ela deixa de estar deslumbrante). Isabelle Adjani, por sua vez, está no pior momento de sua carreira, mantendo a mesma expressão assustada durante todo o filme - culpa da direção ou da falta de empenho da atriz? E se até mesmo o futuro criador da série "Lost", J.J. Abrahms faz uma pequena participação - como um documentarista - é de se estranhar apenas a presença de Kathy Bates em um elenco tão desigual: na pele da detetive que toma para si o encargo de resolver todo o caso do desaparecimento de Baran, a oscarizada atriz de "Louca obsessão" faz o possível para dar veracidade e dignidade ao filme.

"Diabolique" até serve como sessão noturna de um dia cansativo. Mas é uma vergonha quando comparado ao original, infelizmente indisponível para o grande público. Quem tiver a oportunidade, veja o primeiro. Quem não tiver e desejar apenas acompanhar uma história surpreendente pode até gostar.

quarta-feira

OS SUSPEITOS

OS SUSPEITOS (The usual suspects, 1995, Polygram Filmed Entertainment, 106min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Christopher McQuarrie. Fotografia: Thomas Newton Sigel. Montagem e música: John Ottman. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Sara Andrews. Produção executiva: Hans Brockmann, François Duplat, Art Horan, Robert Jones. Produção: Michael McDonnell, Bryan Singer. Elenco: Gabriel Byrne, Kevin Spacey, Stephen Baldwin, Kevin Pollack, Chazz Palminteri, Benicio Del Toro, Pete Postletwhaite, Suzy Amis, Dan Hedaya, Giancarlo Esposito. Estreia: 16/8/95

Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Kevin Spacey), Roteiro Original

"O maior truque do diabo foi convencer o mundo de que ele não existe". A máxima do poeta francês Charles Baudelaire nunca foi usada com tanta propriedade e conveniência quanto em "Os suspeitos", filmaço de 1995 que levou os merecidos Oscar de roteiro original e ator coadjuvante (um Kevin Spacey absolutamente impecável) e colocou seu jovem diretor Bryan Singer na lista dos cineastas mais promissores da década - ele ainda faria o sufocante "O aprendiz" antes de aderir de vez ao mainstream com os dois primeiros capítulos da série "X-Men". Inteligente, dono de um clima de suspense irresistível e interpretado por um elenco nunca aquém de fascinante, "Os suspeitos" foi um cartão de visitas e tanto para um diretor que assinava recém seu segundo trabalho.

É impossível negar que o brilhante roteiro de Christopher McQuarrie seja talvez o maior responsável pelo burburinho todo em relação ao filme, que, assim como "Traídos pelo desejo" havia feito dois anos antes, exigia uma espécie de pacto de silêncio em relação a seu final inesperado. Contada de forma criativa, a busca pela identidade do famigerado criminoso húngaro Keyser Soze - o demônio em pessoa segundo uma testemunha ocular de seus feitos violentos - pega a plateia pelo cérebro e não a larga mais. No final de seus 106 minutos de projeção, fica impraticável não admirar a engenhosidade de uma trama que, mais do que surpreender, conquista pela absoluta simplicidade. Sim, todas as pistas estão aos olhos do público, que, intrigado, não resiste a uma segunda espiada. E se surpreende novamente.

Tudo começa quando uma chacina no porto de Los Angeles deixa apenas dois sobreviventes. Um deles está com a maior parte do corpo queimada e não fala inglês. O outro é Verbal Kint (Kevin Spacey), um bandido pé-de-chinelo aleijado e falante como seu apelido evidencia. Interrogado pelo detetive Dave Kujan (Chazz Palminteri), responsável pela investigação da tragédia, Kint conta como foi parar no cais, iniciando sua história seis semanas antes, quando conheceu quatro homens em uma ação policial. Dean Keaton (Gabriel Byrne), Fred Fenster (Benicio Del Toro), Todd Hockney (Kevin Pollak), Michael McManus (Stephen Baldwin) e ele foram reunidos em uma delegacia, uniram-se para dar um golpe na polícia e depois descobriram que sua união fora planejada por Keyser Soze, um mafioso húngaro a quem todos deviam alguma coisa. Chantageados a cumprirem uma missão para o misterioso chefe, eles acabam vítimas de uma emboscada e cabe a Kujan desenredar o nó da história contada em detalhes por Kint.


É preciso assistir a "Os suspeitos" com olhos muito atentos. Cada cena, cada detalhe, cada linha de diálogo ajuda a montar o quebra-cabeças montado pelo roteiro, que vai e vem cronologicamente - influência de "Pulp fiction"? - e ainda consegue manter seu clima de absoluto suspense até os minutos finais. A segunda metade do filme - quando a audiência toma contato com o passado trágico de Soze - é tão sufocante, tão empolgante e tão elétrica que é não é difícil entender porque ele está em uma invejável 25ª colocação entre os 250 melhores filmes do site IMDB. A edição de John Ottman - também autor da climática trilha sonora - é ágil, complexa e jamais se perde em seus descaminhos e, mais do que tudo, o elenco fantástico escalado por Singer dá conta do recado mais do que lindamente.

Por incrível que pareça, o elenco de "Os suspeitos" consegue ser homogeneamente brilhante. Mesmo unindo nomes que seriam posteriormente consagrados - como Benicio Del Toro - com galãs buscando o respeito artístico - Stephen Baldwin - não há desníveis no casting do filme. O veterano Gabriel Byrne assume o papel do mais perseguido dos criminosos, mas é discreto o bastante para não tentar ofuscar seus colegas de cena - e entre os coadjuvantes estão dois indicados ao Oscar por papéis outros, Pete Postletwhaite e Chazz Palminteri. E talvez justamente por esse alto nível de atuações é que fica ainda mais patente o trabalho excepcional e acima de qualquer crítica de Kevin Spacey no crucial papel de Verbal Kint.

Coroando um ano que iniciaria sua consagração como um dos melhores atores americanos de sua geração - ele ainda estaria no elenco do inesquecível "Seven" - Spacey levou o Oscar de ator coadjuvante por um trabalho irretocável. Compondo uma personagem repleta de nuances físicas e emocionais, Spacey rouba o filme todo para si, mesmo que pareça não fazer muita força para isso - e talvez o segredo esteja exatamente aí. Ele é um ator tão fabuloso que sua simples presença em cena já convence a plateia de qualquer coisa, o que é essencial para sua personagem, que revela, aos poucos, toda a teia de mentiras, pistas falsas e armações espalhadas pelo caminho. É Verbal Kint - e consequentemente Kevin Spacey - que dá sentido e unidade a "Os suspeitos".

Hoje em dia é pouco provável que ainda haja pessoas no mundo que não conheçam a identidade de Kayser Soze. Mas mesmo de posse dessa informação desde os créditos iniciais de "Os suspeitos" é impossível não se deixar enredar pela genial obra de Singer, que fica melhor a cada revisão.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...