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terça-feira

IMPRÓPRIO PARA MENORES


IMPRÓPRIO PARA MENORES (Noises off, 1992, Touchstone Pictures, 101min) Direção: Peter Bogdanovich. Roteiro: Marty Kaplan, peça teatral de Michael Frayn. Fotografia: Tim Suhrstetd. Montagem: Lisa Day. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Norman Newberry/Jim Duffy. Produção executiva: Peter Bogdanovich, Kathleen Kennedy. Produção: Frank Marshall. Elenco: Michael Caine, Christopher Reeve, Denholm Elliot, Carol Burnett, John Ritter, Julie Hagerty, Marilu Henner, Nicolette Sheridan, Mark Linn-Baker. Estreia: 20/3/92

Crítico, historiador de cinema e diretor de alguns filmes indispensáveis do começo dos anos 1970, como "A última sessão de cinema" (1971) - que lhe rendeu duas indicações ao Oscar -, "Essa pequena é uma parada" (1972) e "Lua de papel" (1973), Peter Bogdanovich nunca recuperou, nas décadas seguintes, o mesmo prestígio e o mesmo sucesso de bilheteria. Com exceção de "Marcas do destino" (1985) - que deu a Cher o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes -, seus trabalhos pareciam ter perdido a conexão com as plateias, e nem mesmo "Texasville" (1990), que revisitava os aclamados personagens de "A última sessão", conseguiu reverter esse quadro. Foi nesse período de declínio profissional que ele tentou voltar às comédias, com a adaptação da peça teatral "Noises off", indicada ao Tony de melhor espetáculo de 1984. Não reencontrou seu público, mas demonstrou que sua segurança em lidar com os mecanismos do humor anárquico/caótico ainda se mantinha intocável. Contado com um elenco heterogêneo e um texto preciso e inteligente que homenageia o teatro (e por consequência tudo que o cerca), "Impróprio para menores" é um filme que lembra o melhor de Woody Allen - que evocaria o mesmo universo em seu "Tiros na Broadway" dois anos depois.

"Impróprio para menores" é contado, como uma peça de teatro, em três atos bem definidos, unidos por uma narração em off do diretor Lloyd Fellowes (Michael Caine), que sofre com a possibilidade de sua montagem da comédia "Nothing on" ser um fracasso monumental. A trama da peça - um vaudeville ligeiro e popular - gira em torno de um chalé no campo visitado por dois casais que não deveriam estar lá, uma empregada pouco confiável, um ladrão de residências e um sheik árabe interessado na compra do imóvel. Mas se no palco a confusão é generalizada, nos bastidores as coisas são ainda mais complicadas: o ator Gary Lejeune (John Ritter) tem um caso com a colega Dotty Ottley (Carol Burnett), significantemente mais velha; o galã Frederick Dallas (Christopher Reeve) é abandonado pela esposa poucas horas antes da estreia; o veterano Selsdon Mowbray (Denholm Elliott) está entregue ao vício da bebida e está a cada dia mais surdo; e o próprio diretor está envolvido em um triângulo amoroso com a bela Brooke Ashton (Nicolette Sheridan) e a assistente de palco Poppy Taylor (Julie Hagerty). No período que antecede a estreia do espetáculo na Broadway - quando o grupo viaja por várias cidades do interior como forma de fortalecer sua união e a qualidade das apresentações -, as situações vão ficando mais e mais absurdas, o que ameaça a continuidade da temporada.

 

Contado como uma peça de teatro em três atos - o primeiro antes da estreia em um teatro de Iowa, o segundo em uma caótica apresentação em Miami, e o terceiro na Broadway em si -, "Impróprio para menores" explora os mais variados tipos de humor. Da comédia de erros de seu primeiro capítulo ele se transforma em um espetáculo de quase cinema mudo (com uma precisão de movimentos que ecoa a própria peça que se desenrola como pano de fundo), e Bogdanovich mostra que ainda domina o tempo cômico que apresentou em "Essa pequena é uma parada". Para isso, ele tem a sorte de contar com atores que entendem totalmente o espírito do projeto e alguns (como Christopher Reeve) surpreendem com um inesperado talento para a comédia. Carol Burnett - especialista no gênero - nem precisa se esforçar muito para imprimir sua marca, e Michael Caine de certa forma surge como o mais equilibrado da trupe, oferecendo a seu Lloyd Fellowes um misto de tranquilidade externa e turbilhão interior a que apenas a plateia tem acesso. E Caine, com sua generosidade, foi o responsável por um dos grandes acertos do filme: a escalação do ator Denholm Elliott.

Amigo de Michael Caine desde que contracenaram em "Como conquistar as mulheres" (1966), o britânico Elliott havia descoberto pouco tempo antes que era portador do vírus da AIDS - uma doença ainda cercada de extremo preconceito no começo dos anos 1990. Sabendo da situação do amigo, e de sua potencial dificuldade em encontrar trabalho a partir dali, Caine - que já o havia derrotado na disputa pelo Oscar de coadjuvante de 1986 - condicionou sua participação em "Impróprio para menores" à contratação do colega para o papel que John Gielgud havia recusado. Condição aceita, Elliott entregou uma performance inspirada que seria a sua última: ele morreu meses depois da estreia do filme e Caine, por sua vez, entraria em um período prolífico da carreira a partir de seu segundo prêmio da Academia, por "Regras da vida" (1999). Peter Bogdanovich, por sua vez, jamais recuperaria seu status de grande diretor, acumulando uma sucessão de fracassos até sua morte, em janeiro de 2022.

quarta-feira

JUVENTUDE


JUVENTUDE (Youth, 2015, Indigo Film/Barbary Film/Pathé, 124min) Direção e roteiro: Paolo Sorrentino. Fotografia: Luca Bigazzi. Montagem: Cristiano Travagiogli. Música: David Lang. Figurino: Carlo Poggioli. Direção de arte/cenários: Ludovica Ferrario/Noel Godfrey. Produção executiva: Viola Prestieri. Produção: Carlotta Calori, Francesca Cima, Nicola Giuliano. Elenco: Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, Paul Dano, Jane Fonda. Estreia: 20/5/2015 (Festival de Cannes)
 

Indicado ao Oscar de Melhor Canção Original ("Simple Song #3)

 O músico Fred Ballinger (Michael Caine), um veterano maestro consagrado por uma série de composições chamada "Simple songs", está passando uma temporada em um sofisticado spa localizado nos alpes suíços, acompanhado da filha e empresária, Lena (Rachel Weisz) - que está passando por uma séria crise em seu casamento. Aposentado, Ballinger é procurado por um emissário da realeza britânica para que faça uma apresentação no aniversário do Príncipe Philip - uma missão que não o interessa nem um pouco. A seu lado, dividindo lembranças de seus dias de mocidade, está o cineasta Mick Boyle (Harvey Keitel), que aproveita o descanso para, junto com uma equipe de roteiristas, criar seu novo projeto, que ele julga ser seu último grande filme. Amigos há décadas, os dois guardam na lembrança não apenas de dias livres das doenças da velhice, mas também da mulher que enfeitiçou a ambos - e tem, em comum, laços de parentesco: o filho de Mick é genro de Ballinger, o responsável pelo sofrimento de Lena, uma mulher torturada pela memória do casamento turbulento dos pais. Cercados pela beleza estonteante do lugar onde descansam, Ballinger e Boyle ainda convivem com excêntricos hóspedes do spa, como o jovem ator Jimmy Tree (Paul Dano), que está pesquisando para um novo papel, e um jogador de futebol aposentado lutando contra o declínio de sua forma física.

A trama de "Juventude" - primeiro trabalho do cineasta italiano Paolo Sorrentino depois do Oscar de melhor filme estrangeiro por "A grande beleza", de 2013 - é aparentemente superficial, mas que o espectador não se iluda: por trás da simplicidade do roteiro, escrito pelo próprio diretor, há uma poesia e uma melancolia que impõem ao filme um ritmo próprio, contemplativo mas nunca pedante ou aborrecido. Pelo contrário, "Juventude" tem, ao lado de momentos dramáticos de cortar o coração, um insuspeito senso de humor que quebra a seriedade de seu desenvolvimento. Um diretor acostumado à estranheza - afinal foi ele quem vestiu Sean Penn de roqueiro oitentista decadente em "Aqui é o meu lugar" (2013), e o colocou atrás do nazista responsável pelas humilhações sofridas por seu pai em um campo de concentração -, Sorrentino não faz a menor questão de fazer de seu filme um produto de fácil assimilação, mas engana-se quem pensa que isso faz dele algo inatingível. Da forma como é apresentado, "Juventude" é um filme que demora a fazer sentido, tarda a ressoar no coração da plateia: não à toa, o próprio Michael Caine não resistiu às lágrimas ao assisti-lo pela primeira vez. Sua mensagem - uma lição sobre aproveitar as coisas boas da vida enquanto há tempo para isso - é apresentada de maneira tão delicada que passa quase despercebida. Coisa de mestre!

Plasticamente deslumbrante - cortesia das belas paisagens dos alpes suíços e da fotografia caprichada de Luca Bigazzi - e dirigido com precisão, "Juventude" é, também, um desfile de boas atuações, com um elenco de sonhos, que mistura veteranos consagrados com jovens talentos. Enquanto Michael Caine e Harvey Keitel deitam e rolam com personagens que lhes caem como uma luva (Fred Ballinger foi escrito especialmente para Caine), novas gerações de atores são representadas por Paul Dano - quase silencioso, mas eficaz como sempre - e Rachel Weisz - dona de ao menos uma cena emocionalmente brilhante, quando declara ao pai suas lembranças de infância. Não bastasse esse quarteto brilhante, Sorrentino ainda reserva ao espectador outro presente: uma pequena participação especial de Jane Fonda como uma atriz veterana que enterra de vez os planos de sucesso de Mick Boyle. Fonda chegou a ser indicada ao Golden Globe de atriz coadjuvante, sendo uma espécie de representante de seus colegas, todos eles absolutamente merecedores de indicações e prêmios. Atores capazes de transmitir muito sem que precisem de longos diálogos, Caine, Keitel, Dano e Weisz encontraram na direção minimalista de Sorrentino um caminho rico e eficiente para trabalhos de destaque em suas carreiras já vitoriosas.

E se não bastasse um elenco impecável, um visual arrebatador e um roteiro com diálogos inspirados, "Juventude" ainda oferece ao público pequenos prazeres escondidos aqui e ali, em graus distintos de dificuldade para serem decodificados. Se o jogador de futebol aposentado, com sobrepeso e problemas de vício pode ser facilmente reconhecido como uma representação do ídolo argentino Diogo Maradona, o cineasta interpretado por Harvey Keitel é, segundo o diretor, um mistura entre Roger Corman, Sidney Lumet e William Friedkin. Até mesmo o fio condutor da trama - a recusa de Ballinger em tocar em um evento para o Príncipe Philp - tem ligações com a realidade: o músico Riccardo Muti também não se acertou com a realeza britânica quando convidado para um espetáculo privado e o fato inspirou Sorrentino a ponto de o diretor escrever sobre ele em um diário e, posteriormente, transformar tal incidente em um dos pontos altos de sua (ainda) curta filmografia. Com tantos pontos positivos, "Juventude" é uma pequena obra-prima, mas que fique bem claro: não é um filme para públicos menos pacientes, que vibram com blockbusters de orçamentos inchados. É, isso sim, um biscoito fino, a ser degustado com o coração e a alma.

sexta-feira

KINGSMAN: SERVIÇO SECRETO

KINGSMAN: SERVIÇO SECRETO (Kingsman: The Secret Service, 2014, 20th Century Fox, 129min) Direção: Matthew Vaughn. Roteiro: Jane Goldman, Matthw Vaughn, comic book de Mark Millar, Dave Gibbons. Fotografia: George Richmond. Montagem: Eddie Hamilton, Jon Harris. Música: Henry Jackman, Matthew Margeson. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Paul Kirby/David Morison, Jennifer Williams. Produção executiva: Dave Gibbons, Pierre Lagrange, Stephen Marks, Mark Millar, Claudia Vaughn. Produção: Adam Bohling, David Reid, Matthew Vaughn. Elenco: Colin Firth, Taron Egerton, Samuel L. Jackson, Mark Strong, Michael Caine, Mark Hamill, Jack Davenport. Estreia: 13/12/14 

Em uma determinada cena de "Kingsman: Serviço Secreto", o agente Harry Hart (Colin Firth), em um diálogo com o vilão, Valentine (Samuel L. Jackson), lhe responde à pergunta sobre gostar de filmes de espionagem: "Hoje em dia eles estão um pouco sérios demais para o meu gosto. Mas os antigos... eram maravilhosos!" E completa: "Eu sempre senti que os filmes antigos de James Bond eram tão bons quanto seus vilões. Enquanto criança eu sempre preferi me ver, no futuro, como um grande megalomaníaco!". Esse tom de homenagem/reverência/ironia do filme, mais do que simplesmente parte do estilo do diretor (inglês, é claro) Matthew Vaughn, é fator fundamental para que o filme, baseado em um comic book lançado em 2012 (dois anos antes da estreia do filme, o que não deixa de ser um feito e tanto em uma indústria que às vezes leva décadas desenvolvendo seus projetos) tenha sido tão bem-sucedido, tanto em termos de crítica quanto de bilheteria. Com uma renda de mais de 400 milhões de dólares arrecadados pelo mundo, a comédia de ação de Vaughn - produtor dos primeiros filmes de Guy Ritchie e diretor do igualmente divertido "Kick-ass: quebrando tudo" (2010) - é tudo que um filme do gênero precisa ser: engraçado, movimentado, absurdo e muito, muito bem dirigido.

Indo ainda mais longe em sua criatividade em criar sequências de ação alucinantes que jamais perdem o bom-humor, Vaughn não decepciona em "Kingsman": da primeira cena (com a participação especial de Mark Hamill, o Luke Skywalker em pessoa) até o final explosivo - passando por no mínimo duas cenas geniais, em um pub e em uma igreja lotada - o cineasta parece não ter medo de coisas mundanas, como classificação etária ou a gravidade. Em uma época em que poucas coisas realmente chamam a atenção pela novidade, ele alcança um nível de frescor admirável, principalmente por inserir em suas lutas um ator respeitado por seus dotes dramáticos e vencedor de um Oscar, o britânico Colin Firth. Perceptivelmente se divertindo como nunca na carreira, Firth protagoniza momentos de puro nonsense sem nunca perder a classe, se reinventando e mostrando ser capaz de pular de papéis sérios para deliciosas bobagens sem deixar de lado sua tradicional fleuma. Com uma química impecável com o jovem Taron Egerton, ele surge como o mais improvável herói de filmes de ação - e tira de letra o desafio.


Criado como forma de homenagear as histórias de espionagem que encantavam Vaughn e Mark Millar - um dos autores do comic book que deu origem ao filme - e surgido durante as filmagens de "Kick-ass", o enredo de "Kingsman" explora todos os clichês do gênero, sempre lhe oferecendo altas doses extras de sarcasmo e modernidade. É assim que, sem desrespeitar os cânones já consagrados, conquista também uma audiência mais acostumada a efeitos visuais do que sutilezas - e, ignorando as diferenças de faixa etária, agrada tanto ao público mais adulto quanto àqueles que buscam apenas um entretenimento descompromissado para passar o tempo. Boa parte desse sucesso vem da escalação mais do que certeira do jovem Taron Egerton, que ganhou o papel depois da recusa de Aaron Taylor-Johnson e de ter concorrido com cerca de sessenta atores - incluindo o promissor Jack O'Connell. Carismático, talentoso e dotado de um senso de humor que é imprescindível ao projeto como um todo, Egerton - que depois voltaria a roubar a cena em "Voando alto", ao lado de Hugh Jackman - tem uma química impecável com Colin Firth e não parece incomodado de atuar com gente como Michael Caine e Samuel L. Jackson. Jackson, por sua vez, igualmente parece extremamente à vontade como o grande vilão do filme, Richmond Valentine - que foi oferecido a Tom Cruise, Leonardo DiCaprio e Idris Elba antes de cair em seu colo.

Seguindo a coerência de sua ideia em criar um vilão tão megalomaníaco que beira a caricatura, o roteiro de "Kingsman" apresenta Valentine como um gênio da tecnologia, cujos planos de salvar a Terra do aquecimento global envolve sacrificar parte da população e contar com líderes de todo o mundo. É ele a quem uma organização secreta inglesa chamada Kingsman precisa deter antes que seja tarde demais - e quem lidera a missão é Harry Hart, mais conhecido como Galahad (Colin Firth), que recruta para fazer do grupo o jovem delinquente Gary Enwim, ou simplesmente "Egsy" (Taron Egerton). Filho de um agente morto em ação há alguns anos, Egsy aceita concorrer a uma vaga no disputado time - e o treinamento árduo o revela como um talentoso e audacioso cavalheiro, que irá lutar em pé de igualdade contra o mal representado por Valentine. O treinamento de Egsy, sua transformação gradual de adolescente problemático em um homem de honra, sua relação filial com Harry... tudo está presente no roteiro, de forma orgânica e surpreendentemente moderna e agradável. Mas nada se compara à maneira com que Matthew Vaughn comanda as cenas de luta em seu filme: é impossível ficar impassível diante da adrenalina impressa em cada ângulo, em cada movimento de câmera, que simplesmente joga o espectador no meio de coreografias elaboradas para criar a sensação do mais absoluto (porém organizado) caos. São cenas brilhantes, editadas com maestria e corajosamente violentas, ainda que sua violência seja embalada por um visual colorido e quase irreal - uma prova da excelência do conjunto de fotografia, edição e trilha sonora. Uma conquista em todos os aspectos, "Kingsman: Serviço Secreto" é uma pequena obra-prima do gênero, um filme que, assim como "Kick-ass" subverte as regras para reapresentá-las de forma atraente e irresistível. Vaugh, que desistiu de assinar "X-Men: dias de um futuro esquecido" para comandar essa releitura dos filmes de espionagem, mais uma vez acertou em cheio. Imperdível!

domingo

INTERESTELAR

INTERESTELAR (Interstellar, 2014, Paramount Pictures/Warner Bros/Legendary Entertainment, 169min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jontahan Nolan. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Gary Fettis, Helen Kozora-Tell. Produção executiva: Jordan Goldberg, Jake Myers, Kip Thorne, Thomas Tull. Produção: Christopher Nolan, Lynda Obst, Emma Thomas. Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Matt Damon, Michael Caine, Ellen Burstyn, David Oyelowo, Wes Bentley, William Devane, Casey Affleck, Topher Grace. Estreia: 26/10/14

5 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais 

Em 2006, quando ainda era um projeto da Paramount Pictures, "Interestelar" seria dirigido por um tal de Steven Spielberg, que contratou Jonathan Nolan para escrever o roteiro, inspirado em teorias científicas do físico Kip Thorne. A história original, que envolvia um conceito chamado de "caminho de minhoca" e várias outras situações que também inspiraram Carl Sagan a escrever seu clássico "Contato", acabou sendo deixada de lado pelo oscarizado cineasta em 2012, quando foi parar, então, nas mãos do irmão do roteirista, um homem que, em poucos anos de carreira, já havia redefinido os filmes de super-heróis com uma sombria trilogia protagonizada por Batman e criado um dos mais fascinantes e inteligentes filmes de ação da história ("A origem"): assumindo um projeto arriscado, caro (165 milhões de dólares) e sujeito à boa vontade de uma plateia mal-acostumada com blockbusters que não exigem muito do cérebro, Christopher Nolan transferiu a produção para sua casa (Warner Bros) e, com uma equipe de confiança a seu lado, realizou mais uma obra-prima que conquistou o público. Com mais de 600 milhões de dólares arrecadados ao redor do mundo, "Interestelar" - uma ficção científica empolgante, inteligente e emocionante - também colocou seu diretor em uma posição bastante privilegiada na indústria, ao ser o quarto filme seguido do diretor eleito como um dos dez melhores do ano pelo American Film Institute.

Como é comum na filmografia de Nolan, "Interestelar" se utiliza de uma técnica impecável para contar uma história que, no fundo, tem ressonâncias emocionais da mais alta profundidade. Sua receita de sucesso - contar com personagens fortes e ligações interpessoais que conectem a plateia com a trama, por mais complexa que ela possa parecer a princípio - mostrou-se vitoriosa principalmente em "A origem" (2010), e volta a funcionar à perfeição neste que talvez seja seu filme mais difícil até o momento. Longo (quase três horas de duração), dotado de um ritmo próprio que evita os clichês de filmes de ação e repleto de explicações científicas que poderiam assustar qualquer espectador acostumado às explosões sem sentido de Michael Bay, "Interestelar" é a prova cabal de que inteligência e diversão podem tranquilamente caminhar lado a lado - e que o público não é tão avesso quanto se pensa ao ato de por o cérebro para funcionar de vez em quando. Vencedor do Oscar de efeitos visuais - concorreu também às estatuetas de edição de som, mixagem de som, trilha sonora e direção de arte - o filme seduz pelo visual estonteante, mas se torna uma experiência única quando deixa a sensibilidade falar mais alto que a tecnologia.


A história imaginada por Nolan começa como mais uma produção sobre futuros distópicos, onde a humanidade está ameaçada de desaparecer diante de uma série de catástrofes que foram minando, pouco a pouco, todos os recursos naturais da Terra. É nesse ambiente desolador que o público é apresentado ao protagonista, Cooper (Matthew McConaughey), um engenheiro e piloto de testes da NASA tornado fazendeiro no Texas após a morte da esposa, e que tenta, a muito custo, manter a propriedade da família e cuidar dos dois filhos e do sogro. Seu destino, porém, logo lhe será revelado: após investigar o aparecimento de misteriosos sinais em sua fazenda, Cooper resolve seguir suas coordenadas e acaba parando em um bunker secreto, comandado pelo veterano John Brand (Michael Caine), um cientista com quem já havia trabalhado no passado. É Brand quem convence Cooper a entrar na mais perigosa aventura de sua vida: juntar-se a um pequeno grupo de exploradores - que inclui a filha de seu ex-chefe, Amelia (Anne Hathaway) - e viajar no espaço à procura de planetas que possam servir de salvação para o aparentemente inevitável extermínio da Terra e seus habitantes. Pensando nos filhos e na possibilidade de salvar a humanidade - um plano B seria o de colonização de outro ambiente propício à sobrevivência humana - Cooper aceita a missão, para desespero de sua filha, Murphy (Mackenzie Foy), uma menina de inteligência acima da média que se recusa a aceitar a partida do pai. A viagem exploratória começa, e é a partir daí que "Interestelar" pega todo mundo de surpresa.

Durante mais de duas horas, o roteiro dos irmãos Nolan segue o padrão dos filmes de ficção científica a que o público está habituado: efeitos visuais de primeira, alguns diálogos recheados de termos complexos, sequências de ação deslumbrantes e com altas doses de suspense, personagens que não são exatamente o que parecem. São seus trinta minutos finais, porém, que o tornam especial. Com uma reviravolta que põe em perspectiva tudo que foi mostrado até então e torna essenciais cada linha de diálogo e cada detalhe mostrados anteriores, a trama fecha um ciclo que, mais do que científico e metafísico, é essencialmente familiar e emotivo, oferecendo à uma Murphy adulta (e vivida com a competência de sempre por Jessica Chastain) uma importância crucial para um desfecho de arrepiar até ao mais cínico dos espectadores. Não importa se a plateia entende os conceitos de "buraco de minhoca" ou tem domínio da maior parte das explanações científicas da trama: é a humanidade que vem dos personagens que faz do filme universal e atemporal. Mais uma obra-prima de Christopher Nolan.

terça-feira

CALIFORNIA SUITE



CALIFORNIA SUITE (California Suite, 1978, Columbia Pictures, 103min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Neil Simon. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: Michael A. Stevenson. Música: Claude Bolling. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. P: Produção: Ray Stark. Elenco: Jane Fonda, Alan Alda, Maggie Smith, Michael Caine, Walter Matthau, Elaine May, Richard Pryor, Bill Cosby. Estreia: 18/12/78


3 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Maggie Smith), Roteiro Adaptado, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Maggie Smith)
Vencedor do Golden Globe de Atriz/Comédia ou Musical (Maggie Smith) 

Em abril de 1976, a peça teatral "California Suite", escrita pelo dramaturgo Neil Simon, estreou em Los Angeles: no espetáculo em quatro atos, quatro atores interpretavam diversos personagens que viviam situações dramáticas e cômicas em um hotel da cidade. Um dos autores mais requisitados por Hollywood na década de 70, não demorou para que Simon transferisse seu texto ácido dos palcos para as telas. Com a direção de Herbert Ross - cineasta em alta na época graças às indicações ao Oscar por dois filmes no mesmo ano, "Momento de decisão" e "A garota do adeus", escrito pelo mesmo Neil Simon - e um elenco com nomes populares e de prestígio, a adaptação foi recebida com entusiasmo pela crítica, mas é bastante óbvio que seu resultado final carece da espontaneidade do palco e da criatividade de sua montagem teatral. Com os personagens interpretados por atores variados, o filme não passa de uma agradável sessão da tarde que sofre do mal da maioria dos filmes episódicos: a irregularidade.

A estrutura da peça - quatro histórias separadas tendo em comum apenas o cenário do hotel de luxo - se mantém na adaptação, mas dessa vez as tramas são claramente distintas em tom e elenco. Quem surge primeiro - em um dos melhores episódios - é a atriz britânica Diana Barrie (Maggie Smith, sensacional), que está em Los Angeles para comparecer à entrega do Oscar, para o qual foi indicada por uma comédia que ela mesma despreza. Como intérprete dramática de clássicos do teatro, ela desdenha do cinema comercial e, em sua presença na cidade, é acompanhada do marido, Sidney Cochran (Michael Caine), que abandonou a carreira de ator e guarda um segredo a sete chaves do grande público. No mesmo hotel em que Diana se prepara para a grande noite, está a jornalista Hannah Warren (Jane Fonda), que deixou Nova York para trás com o objetivo de encontrar o ex-marido, Bill (Alan Alda), e resolver problemas pendentes em relação à filha adolescente e rebelde. O relacionamento falido dos dois ainda tem arestas a aparar - e elas vêm à tona na tarde em que eles passam juntos, relembrando o passado. É o segmento menos interessante do filme, apesar dos intérpretes afiados e do talento superlativo de Fonda.


A terceira história - apesar do fato de todas acontecerem concomitantemente - traz à cidade dois casais de Chicago dispostos a um fim-de-semana de diversão, mas que acaba se tornando um pequeno pesadelo. Os médicos Willi Panama (Bill Cosby) e Chauncey Gump (Richard Pryor) chegam à Los Angeles com suas respectivas esposas, mas o fato de apenas um deles conseguir um quarto decente (por um erro do sistema) é suficiente para que tenha início uma série de pequenas competições internas que culminará em uma confusão sem precedentes dentro do lastimável quarto onde o menos afortunado é obrigado a dormir. É a trama com humor mais físico das quatro, valorizada pela ótima química entre Cosby e Pryor, dois dos maiores nomes do cinema negro norte-americano dos anos 70. A última história é também cômica, e só a presença de Walter Matthau já é mais do que suficiente para arrancar gargalhadas. Ele vive Marvin Michaels, que, enquanto aguarda a chegada da mulher, Millie (a também escritora Elaine May), para o bar mitzvah de um sobrinho, acaba cedendo à tentação de dormir com uma garota de programa - que, para seu desespero, acaba desabando em sua cama no hotel momentos antes do reencontro com a esposa. O timing cômico perfeito de Matthau, aliado ao eterno ar de desligada de May dão o tom exato da farsa criada por Simon - que nem mesmo a direção um tanto engessada de Ross consegue atrapalhar.

No final das contas, "California Suite" é apenas isso: um entretenimento simples, realizado por gente competente e sem ambições maiores do que divertir enquanto dura. Maggie Smith se deu bem por seu desempenho, ganhando o Oscar de atriz coadjuvante (sorte que sua personagem acaba por não ter) e o Golden Globe em um ano em que as cerimônias de premiação estavam com os olhos voltados para dramas mais sérios e relevantes politicamente (foi o ano de "O franco-atirador" e "Amargo regresso", que tratavam do retorno dos americanos da Guerra do Vietnã). Despretensioso e simples, é um filme que comprova o prestígio de Neil Simon na Hollywood da época, mas que resiste ao tempo única e exclusivamente graças a seu elenco impecável. Sem maiores expectativas pode render um bom passatempo.

quinta-feira

COMO CONQUISTAR AS MULHERES

COMO CONQUISTAR AS MULHERES (Alfie, 1966, Sheldrake Films, 114min) Direção: Lewis Gilbert. Roteiro: Bill Naughton, peça teatral "Alfie", de sua autoria. Fotografia: Otto Heller. Montagem: Thelma Connell. Música: Sonny Rollins. Direção de arte: Peter Mullins. Produção: Lewis Gilbert. Elenco: Michael Caine, Shelley Winters, Millicent Martin, Julia Foster, Jane Asher, Shirley Anne Field, Vivien Merchant. Estreia: 29/3/66

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Vivien Merchant), Roteiro Adaptado, Canção Original ("Alfie")

Em 1966, alguns assuntos ainda eram tabu no cinema, apesar dos ares mais progressistas que a década do amor livre havia apresentado ao mundo. Hollywood, por exemplo, ainda engatinhava em questões mais relevantes socialmente e o público ainda se chocava com os agressivos diálogos de Edward Albee que transformaram "Quem tem medo de Virginia Woolf?" em um dos mais surpreendentes sucessos de público e crítica do ano. Assim como a adaptação do então estreante Mike Nichols não tinha papas na língua para tocar em temas controversos, outro filme com origem nos palcos chegava à festa do Oscar amparado em um roteiro ousado e que não deixava pedra sobre pedra ao levar para as telas um protagonista tão francamente cafajeste que não deixava outra opção à plateia senão compreendê-lo e, em última instância, simpatizar com ele. Era Alfie Elkins, o mecânico sedutor que, na pele de Michael Caine, transformou "Como conquistar as mulheres" em um dos maiores êxitos do cinema inglês da década. Indicado a cinco Oscar - incluindo melhor filme e ator - a comédia dramática dirigida por Lewis Gilbert marcou época por sua mistura de coragem, cinismo e uma certa melancolia, equilibrados em um roteiro que também quebrava paradigmas narrativos, como a quebra da quarta parede, que fazia com que o protagonista falasse diretamente com o espectador - um artifício que ajudava a aproximar público e personagem.

Interpretado por um Michael Caine que herdou o papel de seu amigo pessoal Terence Stamp - que recusou-se a retornar ao personagem que havia defendido nos palcos - Alfie Elkins é, indubitavelmente, um canalha irrecuperável. A forma com que Caine o representa, no entanto, ameniza a antipatia que a plateia poderia sentir por ele: exalando um charme abjeto, o ator inglês, em seu primeiro grande papel, desfila pela tela fazendo comentários sexistas e pouco elogiosos às mulheres - o que, no mínimo, enfatiza a ironia do título em português. Com um texto ácido e contundente, cortesia do dramaturgo Bill Naughton adaptando sua própria peça de teatro, "Como conquistar as mulheres" oferece à Caine um personagem repleto de nuances que vão se revelando aos poucos, chegando até o melancólico discurso final que justifica sua indicação ao Oscar de melhor ator. Já nessa época apostando na sutileza e na elegância como pilares de interpretações vitoriosas, Michael Caine acerta o tom em todas as cenas, indo da ironia à tristeza, da arrogância à sedução e agressividade ao carinho em questão de segundos. É um trabalho de mestre que valoriza cada momento - mérito também do diretor Lewis Gilbert, que, à época, ainda não havia comandado as três aventuras de James Bond que lhe dariam fama em seguida - "Com 007 só se vive duas vezes" (67), "O espião que me amava" (77) e "007 contra o foguete da morte" (79) - e que voltaria a adaptar um texto teatral para o cinema em 1988, com "Shirley Valentine", que deu à Pauline Collins uma indicação ao Oscar de melhor atriz.


O filme acompanha de perto as aventuras amorosas de Alfie, um mecânico metido à Don Juan que não hesita em seduzir qualquer espécime feminino que cruze seu caminho. Logo de cara, o público conhece Siddie (Millicent Martin), uma mulher casada com quem ele acaba de terminar seu caso. Deixando claro sua ojeriza a compromissos, ele vive um relacionamento aberto com Gilda (Julia Foster), que aceita os termos da relação até engravidar, ter um filho dele e perceber que deseja formar uma família nos moldes tradicionais - o que inclui um casamento que ele não quer lhe oferecer. Um problema de saúde o leva a uma clínica de repouso, onde ele simultaneamente seduz uma enfermeira e a honrada Lily (Vivian Merchant, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), esposa de um de seus colegas de enfermaria. É Lily e uma gravidez inesperada que serão os catalisadores de uma mudança de perspectiva em Alfie - o aborto da amante o leva a repensar seu modo de vida e ele se aproxima, então, da ricaça americana Ruby (Shelley Winters), que lhe dará mais uma grande lição de vida.

Nitidamente sessentista, o visual de "Como conquistar as mulheres" dialoga com perfeição com o tom naturalista/moderno proposto por Gilbert, que explora sempre que possível os espaços abertos de uma Londres em plena revolução sexual e de costumes. Quando o clima fica mais pesado, no terço final do filme, a fotografia de Otto Heller acompanha a descida da alma de Alfie à tristeza e ao desespero - em especial na dolorosa cena em que ele finalmente toma consciência dos seus atos. A trilha sonora vibrante - que inclui a famosa versão da canção-título na voz de Cher - também tem sua importância no panorama geral criado pelo diretor, um quadro vívido e pulsante de um estilo de vida que, com o passar dos anos, tornou-se tão ou ainda mais cruel - basta lembrar que, quase quarenta anos depois de seu lançamento, em 2004, o texto voltou quase literal às telas de cinema em uma versão dirigida por Charles Shyer e estrelada por Jude Law - que criou um Alfie mais charmoso e menos cruel, mas igualmente de conduta questionável. Um sinal da coragem do original é que quase nada precisou ser mudado na transposição para o século XXI. Pode ser chocante ou desagradável para uma comédia, mas "Como conquistar as mulheres" é, sem dúvida, ousado e muito atual, especialmente em um mundo tão antenado às conquistas femininas.

BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE

BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE (The Dark Knight rises, 2012, Warner Bros/Legendary Pictures, 165min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, estória de Christopher Nolan, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming, Craciunica Roberto. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Kevin Kavanaugh. Produção executiva: Kevin De La Noy, Benjamin Melniker, Thomas Tull, Michael E. Uslan. Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Anne Hathaway, Michael Caine, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy, Marion Cottilard, Gary Oldman, Morgan Freeman, Matthew Modine, Cillian Murphy, Ben Mendelsohn, Juno Temple, Thomas Lennon, Liam Neeson. Estreia: 16/7/12

O que falta dizer sobre "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" que ainda não foi dito, analisado, dissecado e elogiado desde sua estreia, a maior de 2012, com uma bilheteria arrasadora que confirmou de uma vez por todas a força do personagem e do talento de todos os envolvidos? O encerramento da trilogia dirigida por Christopher Nolan - que provou que entretenimento e inteligência podem conviver pacificamente em um blockbuster, haja visto também o sucesso merecido de "A origem", que chegou a concorrer ao Oscar de melhor filme - pode não ser tão impactante quanto o segundo capítulo da série (que, afinal de contas, contava com a atuação assombrosa de Heath Ledger) mas consegue ser empolgante, comovente e surpreendente, apesar de alguns pequenos defeitos. De quantos "filmes de verão", pouco afeitos a "detalhes" como roteiro e direção de atores se pode pode afirmar a mesma coisa?

A essa altura todo mundo sabe que a trama mantida em segredo por Nolan antes da estreia começa sete anos depois dos acontecimentos do segundo filme, mostrando Bruce Wayne (Christian Bale) isolado em sua mansão e a imagem de Batman manchada pela acusação da morte de Harvey Dent (Aaron Eckhart) - na verdade obra das armações do Coringa (Heath Ledger).  Batman e Wayne são obrigados a voltar à ação, no entanto, quando um mercenário chamado Bane (o impressionante Tom Hardy) passa a ameaçar Gotham City com a destruição em massa proposta por Ra's Al Ghul (Liam Neeson), mentor de ambos na Liga das Sombras. Junta-se à receita a charmosa ladra Selina Kyle (Anne Hathway na ingrata tarefa de ofuscar a Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer no filme comandado por Tim Burton em 1992), o jovem policial idealista Blake (Joseph Gordon-Levitt) e a milionária Miranda Tate (Marion Cotillard) - que ambiciona tornar-se sócia de Wayne em seus experimentos - e pronto: Nolan oferece à audiência cenas de ação de extrema competência, dramas humanos críveis e reviravoltas em número suficiente para que as quase três horas de projeção passem voando diante dos olhos do público.


Fugindo do limitativo nicho de "filmes de super-herói", a trilogia do Homem-morcego criada por Nolan tem uma consistência rara, mantendo um nível de qualidade que encanta tanto aos fãs de histórias em quadrinhos quanto àqueles interessados apenas em um bom filme de ação. Tudo tem espaço no roteiro do cineasta, que tem óbvio carinho pelas personagens e pelos atores que as interpretam (não é à toa que o "time Nolan" está todo aqui, de Bale, Michael Caine e Cillian Murphy aos novos integrantes da troupe, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt e Tom Hardy, saídos direto de "A origem"). A história que conta é mais importante para o homem que despontou para o grande público com o fantástico "Amnésia" do que efeitos desconcertantes de câmera e efeitos especiais de ponta (e mesmo assim ele proporciona à plateia bons momentos assim). E é um desafio a qualquer um não sair do cinema bastante satisfeito com as ideias do excelente roteiro e com o final emocionante, com direito até mesmo a uma pequena e feliz surpresa. Seguindo o caminho de costurar várias linhas narrativas simultâneas e com inúmeros personagens, que pode ser bastante perigoso - caso do terceiro "Homem-aranha", de Sam Raimi - quanto bem-sucedido - como aconteceu com a trilogia "O Senhor dos Anéis", de Peter Jackson - Nolan conta com uma edição de extrema competência, que consegue dar conta de tudo mesmo quando a aparência é de uma bagunça descontrolada. Realmente existe um acúmulo de personagens, mas Nolan mantém o pulso firme até o final - e ainda consegue chocar a audiência com uma das cenas mais impressionantes da trilogia (retirada diretamente dos quadrinhos).

Difícil falar de "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge", em especial depois que tudo foi dito. Mas algo precisa ser afirmado apesar de tudo: é absolutamente imperdível e satisfaz até ao mais exigente fã do personagem de Bob Kane. É um encerramento absolutamente digno e se Anne Hathway não rouba a coroa de Michelle Pfeiffer ao menos faz bonito em cena, com beleza, carisma e talento. Uma pena, no entanto, que a personagem de Marion Cottilard seja tão pouco aproveitada e que agora estejamos todos reféns de novas e temíveis adaptações do herói para o cinema. Obrigado, Nolan, por esses anos de entretenimento de primeira qualidade.

terça-feira

FILHOS DA ESPERANÇA

FILHOS DA ESPERANÇA (Children of men, 2006, Universal Pictures, 109min) Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Alfonso Cuarón, Timothy J. Sexton, David Arata, Mark Fergus, Hawk Ostby, romance de P.D. James. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Alfonso Cuarón, Alex Rodríguez. Música: John Tavener. Figurino: Jany Temime. Direção de arte/cenários: Jim Clay, Geoffrey Kirkland/Jennifer Williams. Produção executiva: Armyan Bernstein, Thomas A. Bliss. Produção: Marc Abraham, Eric Newman, Hilary Shor, Iain Smith, Tony Smith. Elenco: Clive Owen, Julianne Moore, Michael Caine, Chiwetel Ejiofor, Charlie Hunnam, Danny Huston. Estreia: 03/9/06 (Festival de Veneza)

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem

Inglaterra, novembro de 2027: há dezoito anos sem presenciar o nascimento de um bebê, a humanidade está a um passo da extinção. Na Inglaterra, refugiados são presos, humilhados e mortos na rua, o medo é palavra de ordem, a anarquia encontra bolsões de resistência violenta e grupos terroristas são perseguidos por um governo fascista e impiedoso. No meio do caos, a esperança na forma de uma jovem protegida por um grupo de rebeldes. Com esse tema - triste, tenso, distópico - o mexicano Alfonso Cuarón mostrou à Hollywood que, por trás do diretor de encomenda de filmes como "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" e do personalíssimo "E sua mãe também" existia um cineasta de extrema inteligência, sensibilidade e vigor. Adaptado livremente um livro da escritora P.D. James, "Filhos da esperança" é um dos melhores filmes de 2006, embora suas inúmeras qualidades não tenham sido devidamente reconhecidas pelo público na ocasião de sua estreia: com uma bilheteria doméstica que mal chegou a cobrir metade de seu orçamento de 76 milhões de dólares, o filme de Cuarón teve que contentar-se com os elogios unânimes da crítica e três indicações ao Oscar relativamente importantes, entre as quais de roteiro adaptado - que perdeu para o grande vencedor do ano, "Os infiltrados", de Scorsese.

No mesmo ano em que outros dois conterrâneos também tiveram seus trabalhos reconhecidos pelos membros da Academia em maior ou menor grau - Alejandro Gonzalez Iñarritu concorreu ao prêmio de filme e direção por "Babel" (vencedor na categoria de trilha sonora) e Guillermo Del Toro foi lembrado como roteirista de "O labirinto do fauno" (que abocanhou as estatuetas de fotografia, direção de arte e maquiagem) - Cuarón acabou sendo o menos louvado dentre os "estrangeiros", saindo da cerimônia de mãos abanando (situação que ele reverteria sete anos depois quando fez uma limpa com o superestimado "Gravidade"). Tendo em mãos uma história forte e consistente, um elenco de atores acima de qualquer crítica e o rigor técnico que lhe permitiu ao menos três longas sequências de tirar o fôlego - que, ao contrário do que foi difundido por muitos críticos à época NÃO foram realizadas em apenas um único take - o cineasta assinou um filme que, exatamente como ele intencionava, não acaba quando rolam os créditos finais: não apenas deixa alguns de seus protagonistas em meio a uma situação inacabada como permanece na mente do espectador por muito mais tempo do que normalmente acontece com filmes do gênero.


Como dito anteriormente, "Filhos da esperança" começa em 2027, no dia em que a última criança nascida no mundo em 18 anos, o internacionalmente famoso "baby Diego" morre assassinado depois de uma briga em um bar. Sua morte comove o planeta inteiro, já sufocado por décadas de opressão e desespero. É nessa situação que o ex-revolucionário Theo (Clive Owen, brilhante) é procurado por um grupo de rebeldes liderado por sua ex-mulher, Julian (Julianne Moore em participação mais do que especial), que lhe pede ajuda para transportar uma jovem negra, a assustada Kee (Clare-Hope Ashitey), para fora do alcance do governo. Antes que possa explicar toda a situação de Kee ao ex-marido - de quem separou-se após a precoce morte do filho pequeno - Julian sai de cena, deixando nas mãos do cínico e individualista Theo não apenas a segurança da misteriosa garota (que esconde um segredo capaz de alterar o destino do mundo) mas também a chance de salvar o futuro da humanidade. Para isso, ele conta com a ajuda de um antigo amigo, o ex-cartunista político Jasper (Michael Caine, fenomenal), que vive isolado com a esposa catatônica em uma casa escondida nas florestas.

Fotografado com genialidade por Emmanuel Lubezki - que sublinha o clima de pesadelo com uma iluminação cinzenta e claustrofóbica - "Filhos da esperança" não dá tréguas ao espectador, bombardeando-o com um ritmo impecável, que equilibra as tais longas e empolgantes sequências - a saber: o ataque ao carro de Julian e Theo em uma estrada, um ataque terrorista em plena cidade e um (surpresa!) parto - com momentos reflexivos que jamais atrapalham o andamento da história. Clive Owen - que ajudou na confecção do roteiro durante as filmagens mas não foi creditado por suas ideias - segura com desenvoltura um papel que poderia facilmente descambar para o heroísmo vazio do cinema comercial emprestando a ele um viés de melancolia perceptível em seu olhar mesmo quando o foco da cena é a ação ou a violência. Escolha mais do que acertada de Cuarón, ele injustamente ficou de fora da lista dos indicados ao Oscar (poderia facilmente ter substituído Will Smith, que estava apenas correto no frágil "À procura da felicidade"), assim como Caine e Moore, perfeitos em cada entonação e a própria direção, muito mais intensa e criativa do que se poderia desejar em um filme de ação - gênero ao qual, aliás, o filme pertence por mero tecnicismo. No fundo, "Filhos da esperança" é um sensacional drama distópico com elementos de ação e ficção científica dos melhores. Imperdível!

MISS SIMPATIA

MISS SIMPATIA (Miss Congeniality, 2000, Castle Rock Entertainment/Village Roadshow Pictures, 109min) Direção: Donald Petrie. Roteiro: Marc Lawrence, Katie Ford, Caryn Lucas. Fotografia: László Kovács. Montagem: Billy Weber. Música: Edward Shearmur. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Barbara Haberecht, Randy Smith Huke. Produção executiva: Bruce Berman, Marc Lawrence, Ginger Sledge. Produção: Sandra Bullock. Elenco: Sandra Bullock, Michael Caine, Benjamin Bratt, Candice Bergen, William Shatner, Ernie Hudson. Estreia: 14/12/00

Depois de ter dirigido o ônibus ameaçado de explosão em "Velocidade máxima" (94) - um sucesso tão justo quanto inesperado - Sandra Bullock tornou-se, de imediato, em uma das maiores estrelas em ascensão do cinema americano. Filmes como "A rede" e "Enquanto você dormia" lotavam as salas de cinema simplesmente por tê-la em seus elencos, e o público parecia encantado com sua imagem de garota normal, tangível e esperta. Então, de uma hora pra outra, parecia que tal mágica havia acabado: com uma sucessão de más escolhas (incluindo um segundo capítulo de "Velocidade máxima", dessa vez a bordo de um navio), Bullock estava em vias de repetir o caminho de várias outras atrizes de sucesso efêmero, que sumiram diante da chegada de novos rostos e corpos. Foi então que uma comédia simples, direta e sem medo de ser popular lembrou o público que ela podia ser encantadora e carismática quando explorada devidamente. Com uma renda de mais de 100 milhões de dólares arrecadados nas salas americanas, "Miss Simpatia" devolveu à Sandra o título de grande estrela (ainda que por pouco tempo) e comprovou o poder da despretensão.

Sem ambições outras que não fazer rir e divertir o público por pouco menos de duas horas, "Miss Simpatia" é entretenimento garantido para quem gosta de Sandra Bullock e até para quem não nutre por ela a maior das simpatias. Graças a um roteiro com piadas ligeiras (apesar de previsíveis em alguns casos) e à participação de veteranos como Candice Bergen, William Shatner e Michael Caine - roubando a cena como um especialista em criar misses - o filme de Donald Petrie parte de uma piada única para conquistar a plateia com uma sucessão de gags visuais e verbais que o dotam de um ritmo agradável e ágil, capaz de agradar até ao mais exigente dos espectadores (exceto, é claro, aqueles que não se sentem atraídos pelo gênero em si). É difícil não se deixar conquistar pelo humor desprovido de intelectualidades e soltar uma ou outra gargalhada - se não por Bullock, ao menos pela crítica sem disfarces ao culto obsessivo pela superficialidade que domina os concursos de beleza (ainda que, no fundo, até mesmo consiga lhe ser simpática no cômputo final).


A trama é puro nonsense: um terrorista que anda desafiando a polícia e tem a alcunha de "Cidadão"  ameaça, através de uma carta anônima, o concurso de Miss Estados Unidos, a ser realizado no Texas. A forma encontrada para evitar que o criminoso faça novas vítimas é infiltrar uma agente dentre as candidatas ao título. A missão acaba sobrando para Gracie Hart (Sandra Bullock), única mulher na corporação com as características necessárias para não despertar suspeitas... pelo menos a princípio, já que a jovem não é exatamente um modelo de feminilidade: desleixada, grosseira e sem o menor vestígio de vaidade, ela só aceita fazer parte da força-tarefa para limpar sua barra junto aos colegas, depois de ter sido quase responsável pela morte de um deles. Corajosa e inteligente, Gracie precisa apenas transformar-se completamente em uma cinderela, da noite para o dia, e para isso conta com a ajuda de Victor Melling (Michael Caine), outrora famoso e atualmente decadente coordenador dos mais importantes desfiles do país. Aos poucos, Gracie - uma feroz crítica do sistema machista dos concursos - vai se tornando uma mulher atraente, despertando a inesperada atração do colega Eric Matthews (Benjamin Bratt) e fazendo amizade com as demais candidatas. Suas confusões para chegar ao criminoso, porém, levam ao desespero a organizadora do show, Kathy Morningside (Candice Bergen), que vê na policial tudo que há de mais errado na nova geração de mulheres americanas.

Que não se espere de "Miss Simpatia" mais do que uma simpática, leve e realmente engraçada comédia de situações. Utilizando-se de uma premissa extremamente clichê (o mito de Pigmalião), o roteiro debocha dos concursos de beleza, brinca com as expectativas relativas a gêneros e, apesar das caras e bocas de Sandra Bullock - que frequentemente exagera na composição da personagem central - tem um elenco coadjuvante que vale a sessão: Michael Caine, Candice Bergen e William Shatner (como o veterano apresentador do concurso) estão sensacionais, roubando cada cena em que aparecem. Uma bola dentro na carreira de Sandra - que infelizmente não aprendeu a lição de "Velocidade máxima" e pouco tempo depois entraria em uma continuação das aventuras de Gracie Hart, mas dessa vez sem graça e sem sucesso.

domingo

LAURA, A VOZ DE UMA ESTRELA

LAURA, A VOZ DE UMA ESTRELA (Little voice, 1998, Miramax, 97min) Direção: Mark Herman. Roteiro: Mark Herman, peça teatral "The rise and fall of Little Voice", de Jim Cartwright. Fotografia: Andy Collins. Montagem: Michael Ellis. Música: John Altman. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Don Taylor/John Bush. Produção executiva: Nik Powell, Stephen Wooley. Produção: Elizabeth Karlsen. Elenco: Jane Horrocks, Michael Caine, Brenda Blethyn, Ewan McGregor, Jim Broadbent. Estreia: 18/9/98 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Brenda Blethyn)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator (Comédia/Musical): Michael Caine

Uma das maiores funções do Golden Globe - prêmio concedido pela Associação de Correspondentes Estrangeiros em Hollywood - é revelar ao público e à Academia que concede os Oscar (normalmente fechada em seus próprios interesses comerciais) alguns filmes que, por má distribuição, orçamentos pequenos ou inúmeros outros motivos, talvez tenham passado em branco pelas salas de exibição. Em 1999 isso aconteceu com "Laura, a voz de uma estrela", adaptação de uma peça teatral inglesa que chamou a atenção para a brilhante atuação de Michael Caine - apesar da vitória no Globe, porém, ele foi ignorado pela Academia, que lembrou-se apenas de indicar sua colega de elenco Brenda Blethyn à estatueta de atriz coadjuvante. Tal fracasso em destacar o filme dentre tantas outras produções, no entanto, não ofusca suas maiores qualidades, que residem justamente no elenco coeso e na atuação hipnótica de Jane Horrocks - para quem a peça original foi escrita - no papel principal.

Laura, a protagonista, é uma jovem inglesa reclusa e tímida que vive trancada em seu quarto, ouvindo os discos das divas que eram os ídolos de seu pai, de quem sente uma saudade devastadora. Sua rotina simples de escutar ad infinitum os álbuns de Judy Garland, Shirley Bassey e Marilyn Monroe só é quebrada pela personalidade exagerada de sua mãe, Mari Hoff (Brenda Blethyn, perfeita na caracterização), uma mulher pouco afeita a sutilezas e generosidades que vê na filha um fracasso completo. Suas vidas sofrem uma profunda transformação, porém, quando uma das conquistas de Mari, o empresário artístico Ray Say (Michael Caine), descobre que, por trás da timidez quase patológica de Laura existe um genuíno talento musical: ao ouví-la, sem querer, imitando as grandes cantoras a que admira, ele vê nela um futuro extraordinário no showbusiness.Com o apoio da ambiciosa Mari, ele tenta convencer a jovem - a quem chamam de LV (Little Voice) - a apresentar-se no clube do semi-fracassado Mr. Boo (Jim Broadbent). Sentindo-se pressionada, a antissocial Laura tem a compreensão apenas do delicado Billy (Ewan McGregor), funcionário da companhia telefônica que se dá melhor com seus pombos-correio do que com as pessoas a seu redor.


Despretensioso e de estrutura simples, "Laura, a voz de uma estrela" conquista basicamente pela construção de seus personagens, delineados com capricho e sutileza, ainda que a princípio pareçam mais estereótipos do que pessoas reais. Conforme a história avança é que as verdadeiras personalidades vão surgindo, mostrando as reais intenções de cada um - assim como as consequências de seus atos os aproxima de um desfecho senão previsível, ao menos coerente e delicado como a protagonista. O romance titubeante entre Laura e Billy (personagem inexistente na versão teatral e criado especificamente para ser vivido por Ewan McGregor) é apaixonante na medida certa, cativando a plateia graças às atitudes desajeitadas dos personagens, envolvidos sem querer em uma situação inesperada e para eles desconhecida. Ainda que não seja o foco central da narrativa, sua história de amor ajuda o espectador a compartilhar da solidão e dos medos dos dois jovens, em um amor puro que contrasta violentamente com o caso entre Mari e Ray, dois seres dotados de extremo egoísmo e ganância - e que os leva à ruína emocional.

Com interpretações fantásticas de Blethyn e Caine, Mari e Ray quase conseguem ser maiores do que a maior das qualidades de "Laura": o talento impressionante de Jane Horrocks em imitar algumas das mais idolatradas divas da música norte-americana. Duas sequências são especialmente brilhantes nesse ponto: primeiro, quando a jovem finalmente cede aos pedidos da mãe e dá um show no palco, sendo aplaudida fervorosamente; e depois, quando enfrenta bravamente Ray, utilizando-se de seu talento para expulsá-lo de sua casa apenas com trechos de músicas antigas. Essas duas cenas são um belo exemplo da força discreta do filme, que seduz imperceptivelmente até que os créditos finais surgem e deixam no público uma sensação de paz e bem-estar. Um belo pequeno filme.

sábado

VESTIDA PARA MATAR

VESTIDA PARA MATAR (Dressed to kill, 1980, Filmways Pictures/Cinema 77 Films, 105min) Direção e roteiro: Brian De Palma. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: Jerry Greenberg. Música: Pino Donaggio. Figurino: Gary Jones, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Gary Weist/Gary Brink. Produção: George Litto. Elenco: Michael Caine, Angie Dickinson, Nancy Allen, Keith Gordon, Dennis Franz. Estreia: 25/7/80

Se o cineasta Brian De Palma ficou conhecido por ser o mais fiel discípulo de Alfred Hitchcock, boa parcela de responsabilidade por tal afirmação se deve a "Vestida para matar", um de seus mais radicais exercícios de estilo, dono de algumas das sequências mais empolgantes do início da década de 80. Violento, tenso e tecnicamente brilhante, o filme é uma antologia de momentos de cinema em forma pura, que dispensa diálogos desnecessários para jogar o espectador em uma trama labiríntica e doentia, que bebe da fonte do mestre do suspense tanto de forma discreta (o clima, a obsessão pela sexualidade reprimida) como de maneira nítida (com citações quase óbvias de "Um corpo que cai", "Janela indiscreta" e principalmente "Psicose"). Entretanto, mesmo com todas essas homenagens, De Palma consegue o que parecia impossível, imprimindo a seu trabalho uma personalidade que o separa de meros imitadores, com ousadias quase impensáveis para um filme com pretensões comerciais.

As ousadias de De Palma já começam a dar as caras na cena inicial, que apresenta aquela que, assim como Janet Leigh em "Psicose" (60), parece ser a protagonista: Kate Miller (Angie Dickinson) aparece em nudez frontal (dublada por outra atriz), tomando banho sensualmente, até ser atacada por trás por um desconhecido, enquanto seu marido se barbeia calmamente a poucos metros. Logo o público descobre que tudo não passa de um sonho, mas em poucos minutos tudo está estabelecido, desde o tom que substitui rapidamente o sonho pelo pesadelo até a personalidade insatisfeita de Kate, cujo segundo casamento não lhe faz feliz sexualmente. Logo ela está fazendo suas queixas a seu terapeuta, o dr. Robert Elliott (Michael Caine), que lhe confessa sentir uma forte atração por ela - atração esta impedida de tornar-se realidade por sua condição de médico e homem casado. É aí que De Palma dá a primeira mostra de sua eficiência: em uma longa sequência de vinte minutos quase sem nenhum diálogo, Kate visita um museu, acompanha com o olhar outros frequentadores, flerta com um desconhecido e posteriormente parte atrás dele, em enlouquecidos travellings que conduzem o público para dentro da angústia da protagonista. Mais adiante, ainda em silêncio, eles embarcam em uma tórrida cena de sexo dentro de um táxi, que tem continuidade no ato pós-sexual, quando ela descobre um segredo atordoante sobre seu romance ocasional. Dentro do elevador, ao deixar o prédio, ela dá ao espectador o choque que Hitchcock inaugurou e que funciona mais uma vez às mil maravilhas: é violentamente assassinada por uma mulher loira que a ataca com uma navalha.


A partir desse primeiro susto, o filme segue adiante em sua narrativa, acompanhando as investigações do assassinato, testemunhado por Liz Blake (Nancy Allen, esposa do diretor à época das filmagens), uma garota de programa que se torna a suspeita preferida do detetive Marino (Dennis Franz). Contando com a ajuda do filho de Kate, o jovem nerd Peter (Keith Gordon, hoje um cineasta que dirigiu o ótimo "Amor maior que a vida" (00)), Liz tenta descobrir quem é a assassina, mas logo descobre que está correndo sério risco de ser a próxima vítima. Vem então mais uma sequência digna de aplausos: perseguida pela misteriosa criminosa (que veste uma capa preta e sinistros óculos escuros mesmo à noite), a jovem prostituta encontra refúgio no metrô, mas encontra não apenas uma nova ameaça em um grupo de homens que insinuam querer estuprá-la mas também em um policial que desconfia de sua história. Durante vários minutos a respiração do público fica em suspenso, à espera de um novo susto. Palmas para a direção, a edição e a trilha sonora quase clássica de Pino Donaggio.

"Vestida para matar" não é, no entanto, apenas uma colagem de grandes sequências de suspense. É uma história inteligente e corajosa, que dá a Michael Caine um de seus papéis mais marcantes - que ele herdou, pasmem, de Sean Connery, que só não o interpretou por estar preso a outros compromissos profissionais. O final, surpreendente e psicologicamente coerente, também é inspirado em Hitchcock, mas de uma maneira que não soa requentado ou simplesmente imitado. De Palma, também autor do roteiro, dá a seu público um espetáculo de imagens e sons sem deixar de oferecer também uma trama consistente e que em momento algum subestima sua inteligência. Um dos melhores filmes de suspense de sua época, que ainda hoje funciona extraordinariamente bem.

sexta-feira

A ORIGEM

A ORIGEM (Inception, 2010, Warner Bros, 148min) Direção e roteiro: Christopher Nolan. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Larry Dias, Doug Mowat. Produção executiva: Chris Brigham, Thomas Tull. Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas. Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cottilard, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Michael Caine, Pete Postlewhaite, Tom Berenger, Cillian Murphy. Estreia: 08/7/10

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Fotografia, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais 

Ser sequestrado por um filme e levado para um mundo à parte, como se estivesse sendo hipnotizado é uma experiência das mais raras, especialmente em um panorama comercial como o de Hollywood, que insiste em empurrar uma dieta anêmica de bobagens para consumo rápido e esquecível. Por isso - além de suas qualidades intrínsecas, logicamente - foi um susto quando "A origem" chegou aos cinemas americanos e mundiais na metade de 2010. Dirigido por Christopher Nolan - que ressuscitou a franquia "Batman" de forma assombrosa em termos de bilheteria e inteligência - o filme estrelado por Leonardo DiCaprio e um elenco de sonhos é uma das mais impressionantes manifestações cinematográficas saídas de Hollywood desde sempre, capaz de dar um nó na cabeça até mesmo do mais perspicaz dos espectadores e surpreendê-los com um final não apenas emocionante, mas também coerente e de uma inteligência rara no cinema mainstream.

O próprio Nolan é o roteirista de "A origem" - e levando-se em conta que ele também criou "Amnésia" em 2001 e "O grande truque" em 2006, dá pra perceber que o sujeito tem fetiche em confundir a mente da plateia. Nesse seu mais ambicioso e arriscado filme ele criou um universo tão, mas tão surreal que só resta ao público embarcar sem cinto de segurança em uma trama fascinante que mistura cenas de ação inacreditáveis, uma história de amor realmente comovente e um clima abstrato de dar inveja a David Lynch - porém sem as bizarrices psicológicas do pai de Laura Palmer.


A história de "A origem" é difícil de resumir. Basicamente, pode-se dizer, sem estragar as surpresas do impecável roteiro, que DiCaprio (que não ajuda nem atrapalha) interpreta um profissional que vive de invadir os sonhos das pessoas para roubar-lhes os segredos mais íntimos. Impedido de entrar nos EUA devido a trágicos acontecimentos passados que envolvem sua esposa (a sempre bela e ótima atriz Marion Cottilard), ele cede à tentação de desafiar a si mesmo e ir além do corriqueiro, plantando na mente de um empresário ideias que favorecerão seu rival profissional. Contando com a ajuda de uma equipe talentosa e bem treinada, ele entra no perigoso terreno dos sonhos dentro dos sonhos.

Mesmo com toda a complexidade do roteiro e com a sua acertada opção em não fazer concessões ao mais fácil - o que em tese poderia afastar o público médio das salas de exibição - "A origem" surpreendeu com uma bilheteria de quase 300 milhões de dólares somente no mercado doméstico, o que prova que às vezes a plateia sabe escolher seus programas. Sua excelência também refletiu-se junto à Academia, que lhe indicou a oito estatuetas do Oscar, inclusive melhor filme do ano - inexplicavelmente deixou Nolan de fora na categoria de diretor e Lee Smith  na de edição. Porém, mostrando o quão obtusos seus votantes podem ser, o prêmio ficou com o intragável "O discurso do rei" - que em poucos anos será lembrado apenas como o amontoado de clichês que tirou o Oscar de "A origem" e "A rede social".

Sim, "A origem" é complexo. Sim, é uma viagem total. Sim, é necessária uma atenção total. Mas vale a pena cada minuto. É também criativo, diferente, empolgante. E é sem dúvida o melhor filme de 2010.

segunda-feira

BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS

 BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS (The dark knight, 2008, Warner Bros, 152min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, estória de Christopher Nolan, David S. Goyer, personagens de Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: James Newton Howard, Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Peter Lando. Produção executiva: Kevin de La Noy, Benjamin Melniker, Thomas Tull, Michael E. Uslan. Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Maggie Gyllenhaal, Morgan Freeman, Aaron Eckhart, Michael Caine, Cillian Murphy, Anthony Michael Hall. Estreia: 14/7/08

8 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Heath Ledger), Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Maquiagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Heath Ledger), Edição de Som
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Heath Ledger) 

Em 2005, o cineasta Christopher Nolan provou a todos que o fracasso dos filmes "Batman eternamente" e "Batman & Robin" eram unicamente culpa da concepção equivocada do diretor Joel Schumacher - que os transformou em ridículas alegorias carnavalescas e aniquilou qualquer complexidade da personagem - do que de um possível desinteresse da plateia por novas aventuras do heroi mascarado. Ao recuperar o tom sombrio da criação de Bob Kane, dando a seu "Batman begins" a seriedade apropriada, o autor de filmes criativos e inteligentes como "Amnésia" e "Insônia" não apenas imprimiu ao trabalho sua assinatura como também conquistou uma nova legião de fãs, deixando de lado a versão cartunesca de Tim Burton e cafona de Schumacher. O melhor na história toda, porém, é que esse primeiro capítulo, a despeito de suas inúmeras qualidades, foi apenas o prelúdio para aquele que Nolan transformaria na mais espetacular adaptação da personagem para as telas em seu segundo capítulo: mais longo, mais anabolizado e nem por isso menos inteligente e empolgante, "Batman: o cavaleiro das trevas" é ainda melhor do que o seu original - e, não à toa, rendeu extraordinários 533 milhões de dólares somente no mercado doméstico, tornando-se uma das maiores bilheterias da história. Nada mais justo e merecido!

Ao contrário da maioria das adaptações de quadrinhos para o cinema, que dão prioridade às cenas de ação e a piadinhas de gosto duvidoso, "Batman: o cavaleiro das trevas" - assim como seu antecessor - leva sua trama a sério, injetando complexidade narrativa e densidade psicológica a seus personagens sem sacrificar aquilo que a plateia mais anseia: sequências de pura adrenalina, filmadas com o melhor que um orçamento milionário pode oferecer (e um diretor de imenso talento como Nolan pode proporcionar). Sendo assim, nem mesmo a longa duração do filme (duas horas e meia) consegue atrapalhar a diversão - equilibrada com maestria pela direção, pelo roteiro impecável e pela escalação extraordinária do elenco (que substituiu acertadamente a chatinha Katie Holmes pela ótima Maggie Gyllenhaal no papel crucial de Rachel Dawes, a amada do heroi mascarado que é a catalisadora do clímax inesperado e sanguinolento do final, capaz de surpreender àqueles que não conhecem de cabo a rabo todas as histórias de Batman nos quadrinhos).


Um dos maiores destaques de "Batman: o cavaleiro das trevas" é, sem sombra de dúvida, a atuação nunca aquém de espetacular de Heath Ledger naquele que seria seu último filme completo - ele ainda foi visto no bizarro "O mundo imaginário do Dr. Parnassus", de Terry Gillian, mas não chegou a finalizar as filmagens, morrendo de overdose de drogas autorizadas em janeiro de 2008. Na pele do doentio Coringa, o jovem ator australiano revelado na comédia adolescente "10 coisas que eu odeio em você" deixa para trás a caracterização clássica de Jack Nicholson no filme de 1989 dirigido por Tim Burton e cria um vilão inesquecível já em sua primeira cena - um assalto a banco que termina em violência e que dá o tom exato da história a ser contada. Usando e abusando de trejeitos que dão a seu personagem uma personalidade única, Ledger tornou-se apenas o segundo ator a receber um Oscar póstumo - depois do veterano Peter Finch, de "Rede de intrigas" - em uma premiação que jamais deve ser creditada à emoção dos eleitores: seu trabalho é fascinante, escapando fácil dos clichês do gênero e atingindo um nível poucas vezes vista em filmes do gênero.

E a história, afinal, qual é? Basta dizer que Batman (mais uma vez interpretado por Christian Bale) continua aterrorizando os criminosos de Gotham City, apesar das dúvidas que circundam suas intenções. Quando um novo promotor público, Harvey Dent (Aron Eckhart) é eleito, Bruce Wayne - para quem não sabe a verdadeira identidade do heroi) - respira aliviado, acreditando que as coisas finalmente começarão a mudar em sua metrópole. Suas esperanças começam a mostrar-se infundadas, porém, quando um misterioso fora-da-lei auto-nomeado Coringa surge, disposto a disseminar o caos e a violência - e enfrentar Batman cara a cara.

Apesar da sinopse soar como mais do mesmo, "Batman: o cavaleiro das trevas" tem um roteiro inteligente, que jamais se deixa cair nas armadilhas fáceis de um blockbuster, buscando, pelo contrário, exigir do espectador mais do que o corriqueiro nos filmes do gênero. Essa sua qualidade acabou despertando polêmicas quando a Academia indicou-lhe a oito estatuetas, mas ignorou-o nas categorias mais importantes, como melhor filme e diretor. A gritaria dos fãs de certa forma incentivou o aumento do número de filmes indicados na categoria principal a partir do ano seguinte - em uma tentativa dos acadêmicos de aproximar o público mais jovem da cerimônia de entrega dos prêmios (e que ainda não se mostrou muito eficaz). O fato, porém, é que o filme de Nolan tinha qualidades suficientes para ser lembrado como um dos melhores de seu ano. Pode não ter sido um grande vencedor do Oscar, mas é, certamente, adorado pelos fãs.

quinta-feira

AUSTIN POWERS EM "O HOMEM DO MEMBRO DE OURO"

AUSTIN POWERS EM "O HOMEM DO MEMBRO DE OURO" (Austin Powers in Goldmember, 2002, New Line Cinema, 94min) Direção: Jay Roach. Roteiro: Mike Meyers, Michael McCullers. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Greg Hayden, Jon Poll. Música: George S. Clinton. Figurino: Deena Appel. Direção de arte/cenários: Rusty Smith/Sara Andrews-Ingrassia. Produção executiva: Richard Brener, Toby Emmerich. Produção: John Lyons, Eric McLeod, Demi Moore, Mike Meyers, Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Mike Meyers, Michael Caine, Beyoncé Knowles, Seth Green, Michael York, Robert Wagner, Fred Savage. Estreia: 22/7/02

Em 1997, uma despretensiosa comédia feita com meros 17 milhões de dólares de orçamento e a verve besteirol do ator Mike Meyers "Austin Powers" pegou Hollywood de surpresa e rendeu quase 60 milhões somente no mercado doméstico. Dois anos depois, entusiasmados com a receptividade do agente secreto britânico metido a conquistador que, congelado nos anos 60, chega à década de 90 e tenta adequar-se a ela enquanto luta com seu nêmesis, o temível Dr. Evil, os executivos da New Line Cinema abriram os cofres. Com um custo de 33 milhões, "Austin Powers e o espião 'bond' cama" se deu ainda melhor nas bilheterias, com uma renda interna de mais de 200 milhões. Não foi nenhuma surpresa, portanto, que um terceiro capítulo chegasse às telas. "Austin Powers em 'O Homem do Membro de Ouro'" - novamente dirigido pelo mesmo Jay Roach que comandou a trilogia inteira - foi o mais caro da série (custou mais que a renda do primeiro filme), mas novamente ultrapassou a barreira dos 200 milhões e finalizou as aventuras de Powers com chave de ouro - a ponto de até hoje o público ansiar por um novo projeto.

Voltando a debochar dos clichês que infestam os filmes de espionagem, "O homem do membro de ouro" - cujo título já é uma explícita brincadeira com os filmes de James Bond - tem uma história banal, que serve apenas para uma sucessão de piadas dos mais variados níveis e estilos. Tudo começa quando o pai de Austin, o também espião Nigel Powers (em um trabalho caprichado de ironia de Michael Caine) é sequestrado pelo maior inimigo do herói, o maquiavélico Dr. Evil (também interpretado por Meyers), que planeja mais uma vez dominar o mundo, dessa vez contando com a ajuda do misterioso Goldmember (mais uma vez Meyers). Para resgatar seu pai - com quem tem uma relação tumultuada desde a infância - Powers precisa voltar ao ano de 1975, onde reencontra sua antiga paixão Foxxy Cleopatra (a cantora Beyoncé Knowles, estreando como atriz), uma agente do FBI que trabalha disfarçada de cantora disco.


A trama é apenas uma desculpa para que Meyers dispare sua metralhadora giratória, com um humor que tanto pode agradar quanto despertar críticas. Ao mesmo tempo em que faz piadas visuais engraçadíssimas - que ecoam sequências dos outros filmes - a direção de Roach peca em algumas gags que apelam para a escatologia pura e simples. Essa tática é inteligente em sua tentativa de conquistar os variados tipos de audiência, mas acaba prejudicando o ritmo do filme com um todo. A cada momento de humor sarcástico - que tira partido das diferenças culturais entre americanos/ingleses e temporais - o filme cresce, demonstrando o talento aparentemente infinito de Meyers em fazer rir das situações mais variadas, contando com a ajuda da sensacional equipe de maquiadores, que o transformam em nada menos que quatro personagens - além dos já citados há ainda Fat Bastard, que já vem do segundo capítulo.

E como não poderia deixar de ser, "O homem do membro de ouro" conta também com personagens já comprovadamente bem-sucedidos nos filmes anteriores da série. É o caso de Scott Evil, filho do vilão, interpretado por Seth Green, e o imbatível Mini-mim, a versão em tamanho compacto de Dr. Evil, responsável por duas das mais engraçadas cenas do filme. Junto a eles, nomes consagrados como Michael Caine explorando seu timing cômico e Michael York se divertem tanto quanto o público, que já começa o entretenimento na sequência de abertura, que conta com participações muito especiais de Tom Cruise, Kevin Spacey, Gwyneth Paltrow, Steven Spielberg e Britney Spears - o que demonstra o prestígio de Meyers dentro da indústria. Pro bem ou pro mal, o filme é a sua cara. Cabe à audiência decidir se é de seu gosto ou não.

terça-feira

UM JOGO DE VIDA OU MORTE


UM JOGO DE VIDA OU MORTE (Sleuth, 2007, Sony Pictures, 89min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Harold Pinter, peça teatral de Anthony Shaffer. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Neil Farrell. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Tim Harvey/Celia Bobak. Produção: Kenneth Branagh, Simon Halfon, Jude Law, Simon Moseley, Marion Pilowsky, Tom Sternberg. Elenco: Michael Caine, Jude Law. Estreia: 30/8/07 (Festival de Veneza)

Em 1972, o filme "Jogo mortal", baseado na peça de teatro de Anthony Shaffer chegou às telas e encantou a crítica e a Academia de Hollywood, que lhe deu quatro indicações ao Oscar, inclusive de melhor diretor para o notório carrasco Joseph L. Mankiewicz e ator para seus dois protagonistas, Laurence Olivier e Michael Caine. Trinta e cinco anos depois, considerando que a história se prestava a um remake, o irlandês Kenneth Branagh assumiu suas rédeas. Contando com um roteiro escrito pelo dramaturgo Harold Pinter, ele chamou Caine de volta - dessa vez no papel que foi de Olivier - e, para duelar com ele, o sempre competente Jude Law (que pela segunda vez encarnou um papel de Caine, depois de "Alfie, o sedutor"). O resultado mostra que, apesar do talento dos envolvidos, uma mágica cinematográfica só acontece uma vez. "Um jogo de vida ou morte" - novo batismo de "Sleuth" - é apenas um filme bem chato que dilui a tensão de seu original.

Na verdade, tudo continua a mesma coisa, desde seu formato de teatro filmado até as surpresas que o roteiro prepara para seu público. Essa fidelidade quase reverencial é que acaba estragando a festa: o espectador que assistiu ao original ou sabe do desenrolar de sua trama provavelmente vai se aborrecer com as tentativas de Branagh em ser criativo para espantar o tédio. Em alguns momentos ele até consegue, com alguns ângulos interessantes de câmera e o uso exemplar da espetacular mansão de um dos protagonistas, o escritor Andrew Wyke (Caine), assim como a fotografia em tons certos de Haris Zambarloukos. O problema maior é justamente o fato de não ter conseguido fugir da sensação de que o filme é mais longo do que realmente é.


Quando o filme começa ficamos sabendo que a esposa do escritor de romances policiais Andrew Wyke o abandonou para ficar com o cabeleireiro/ator Milo Tindle (Jude Law). Chamado por Wyke para sua casa com o objetivo de resolverem a situação, Tindle acaba por surpreender-se com uma proposta bizarra de seu rival, que lhe oferece a chance de sair da situação com dinheiro e com o divórcio da mulher amada. Logicamente as coisas não são exatamente como parecem, e logo em seguida, o jovem se vê preso em uma armadilha criada pelo milionário. A partir daí, o domínio da situação vai passando de mão em mão, com os dois homens disputando não apenas sua superioridade intelectual mas também a sobrevivência.

Quanto menos se falar dos desdobramentos de "Jogo de vida ou morte" melhor para o espectador que ainda não conhece a história. Caine e Jude Law são excelentes atores e seguram lindamente o rojão de ficar em cena durante a hora e meia de projeção. Infelizmente o ritmo não é dos mais arrojados, o que dificulta bastante o interesse do público. Mesmo assim, é um espetáculo de dois astros de gerações diferentes em grande momento.

segunda-feira

O GRANDE TRUQUE

O GRANDE TRUQUE (The prestige, 2006, Warner Bros/Touchstone Pictures, 130min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, romance de Christopher Priest. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: David Julyan. Figurino: Joan Bergin. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Julie Ochipinti. Produção executiva: Chris J. Ball, Valerie Dean, Charles J.D. Schlissel, William Tyler. Produção: Christopher Nolan, Aaron Ryder, Emma Thomas. Elenco: Hugh Jackman, Christian Bale, Scarlett Johansson, Michael Caine, Piper Perabo, Rebecca Hall, David Bowie, Andy Serkis. Estreia: 17/10/06

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de Arte/Cenários

Somente um cineasta do porte e da inteligência de Christopher Nolan conseguiria fazer de seu "filme de descanso" entre dois blockbusters - e no caso a expressão blockbuster assume proporções gigantescas, por se falar dos dois primeiros capítulos de sua reivenção do Homem-morcego - um trabalho tão interessante, empolgante e caprichado como "O grande truque". Carregando para o projeto sua equipe de confiança - que incluiu o fotógrafo Wally Pfister, o editor Lee Smith e o Batman em pessoa, Christian Bale, o diretor construiu um thriller de suspense elegante que fala muito mais ao cérebro do que aos músculos, comprovando seu imenso talento em criar pequenas obras-primas.

Baseado em um romance do escritor Christopher Priest - que optou por Nolan em detrimento de Sam Mendes por ser fã de seus "Amnésia" e "Insônia" - e roteirizado pelo próprio diretor e seu irmão Jonathan, "O grande truque" é daqueles filmes que exigem do espectador atenção absoluta, uma vez que brinca de maneira sagaz com as aparências e com pistas deixadas por toda a projeção. Como bom filme sobre mágicos - e em sua temporada surgiu também o pouco visto mas também interessante "O ilusionista", com Edward Norton, que dividiu com ele uma indicação ao Oscar de fotografia - o trabalho de Nolan utiliza a complexidade de sua trama para prender o espectador na poltrona desde seu arrebatador início até seu surpreendente (e coerente) final.


"O grande truque" conta, em sua essência, a história da rivalidade entre dois mágicos na Londres do século XIX, que começa com uma tragédia: o famoso Robert Angier (Hugh Jackman) perde a esposa durante um número e culpa seu então melhor amigo e assistente Alfred Borden (Christian Bale) pelo ocorrido. Sentindo-se injustiçado e ofendido por quem tinha em alto apreço, Borden inicia uma carreira paralela, sempre desejando obter mais sucesso do que seu agora rival. A disputa entre eles passa a atingir níveis extremos de suspense, até que uma nova mulher (Scarlett Johansson) surge entre eles, tornando o jogo ainda mais perigoso.

Quanto menos se souber a respeito da trama de "O grande truque" melhor a diversão. Christopher Nolan não tem medo de lançar pistas falsas e dicas verdadeiras durante a narrativa, sempre desafiando a lógica e a perspicácia da audiência com reviravoltas em número o suficiente para conquistar a todos. Dotado de um ritmo específico, sem pressa mas nunca monótono, o filme se beneficia também da palpável atmosfera criada pela fotografia de Wally Pfister e pela impecável reconstituição de época. Hugh Jackman - entrando no seleto grupo do diretor, que ainda conta com o habitual Michael Caine e o cantor David Bowie em uma participação especial como o cientista Nikola Testa - está soberbo como o quase arrogante Robert Angier, em uma atuação que o livra do estigma de uma personagem só (e no caso o icônico Wolverine) e mostra suas capacidades dramáticas e Christian Bale prova que tem tudo para ser um dos grandes atores britânicos de sua geração.

Excitante, esperto e sóbrio, "O grande truque" é um filme que merece ser visto e revisto, para que todos os seus elementos sejam devidamente degustados e apreciados. Filmaço!

terça-feira

BATMAN BEGINS

BATMAN BEGINS (Batman begins, 2005, Warner Bros, 140min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, David S. Goyer, estória de David S. Goyer, personagens criadas por Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: James Newton Howard, Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Paki Smith, Simon Wakefield. Produção executiva: Benjamin Melniker, Michael E. Uslan. Produção: Larry Franco, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Katie Holmes, Gary Oldman, Liam Neeson, Morgan Freeman, Michael Caine, Cillian Murphy, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, Ken Watanabe, Linus Roache. Estreia: 15/6/05

Indicado ao Oscar de Fotografia

Depois do verdadeiro fiasco de "Batman & Robin", dirigido por Joel Schumacher em 1997 - e que praticamente enterrou as possibilidades do super-heroi - muita gente acreditava que a franquia do homem-morcego (tão rentável nas mãos de Tim Burton) estava acabada de vez. Foi preciso uma recauchutagem geral para que o Cavaleiro das Trevas, criado por Bob Kane nos anos 30 voltasse às boas graças do público e da crítica. Com o criativo e talentoso Christopher Nolan - recém saído do sucesso "Amnésia" e do prestigiado "Insônia" - no comando, "Batman begins" tem a inteligência de ignorar a série cinematográfica lançada em 1989 e partir do princípio da história, das origens do heroi mascarado, que viu seus pais morrerem assassinados quando ainda era uma criança.

Escalar o inglês Christian Bale (lançado por Steven Spielberg em "Império do sol", de 1987) como protagonista foi o acerto primordial de Nolan. Frio nas horas certas e com o físico adequado para o papel, Bale apaga em poucos minutoso trauma deixado por Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney (ainda que este último não tenha sido o responsável pela derrocada da série). Na pele do milionário Bruce Wayne, o jovem ator consegue ser o super-heroi que todos desejavam ver sem apelar para o escapismo tradicional mas bastante fake dos filmes anteriores. Wayne, depois da tragedia que testemunhou, foi embora da mansão de sua família, foi preso, fez um treinamento quase ninja e volta à Gotham City com a missão de salvá-la da sua destruição total pela violência. Contando com a ajuda do Comissário Gordon (um Gary Oldman envelhecido mas ainda brilhante) e da assistente de promotoria que foi sua namorada na infância (a inapropriada Katie Holmes no único erro de escalação do elenco), ele parte para o ataque contra os bandidos que querem transformar sua cidade em ruínas.



Christopher Nolan é um exímio diretor de atores, o que faz toda a diferença na transformação da sombria saga de Batman de um ralo filme de ação em um drama de personagens, mesmo que às vezes eles sejam um tanto superficiais. O romance entre Wayne e sua namorada, por exemplo, nunca empolga (culpa talvez da constante apatia de Katie Holmes). A ideia genial de Batman fazer a sua primeira (e triunfal) aparição somente depois de meia-hora de projeção, no entanto, dá vida nova e inteligente ao roteiro. Michael Caine, Morgan Freeman, Ken Watanabe, Liam Neeson e Tom Wilkinson - todos já indicados ao Oscar - são coadjuvantes de luxo em uma diversão de primeira, que prova que filmes-pipoca podem e devem ser espertos e não tratar o público como crianças. A edição, repleta de idas e voltas - que no começo até atrapalham um pouco - também ajuda o filme a fugir do óbvio, e a bela fotografia de Wally Pfister (dona de sua única indicação ao Oscar) dá o tom exato da bela obra de Nolan.

"Batman begins" pode não ter rendido tanto dinheiro quanto os primeiros filmes do heroi, mas arrebanhou prestígio suficiente para dar o pontapé inicial em uma nova e bem-sucedida série e preparar a audiência para
seu extraordinário segundo capítulo, "Batman, o cavaleiro das trevas", que deixaria o mundo de queixo caído.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...