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sexta-feira

AMOR À DISTÂNCIA

 


AMOR À DISTÂNCIA (Going the distance, 2010, New Line Cinema, 103min) Direção: Nanette Bernstein. Roteiro: Geoff LaTulippe. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Peter Teschner. Música: Mychael Danna. Figurino: Catherine Marie Thomas. Direção de arte/cenários: Kevin Kavanaugh/David Schlesinger. Produção executiva: Richard Brener, Michael Disco, Dave Neustadter. Elenco: Drew Barrymore, Justin Long,Charlie Day, Jason Sudeikis, Christina Applegate, Ron Livingston. Estreia: 27/8/2010

Os fãs de comédias românticas via de regra não são muito exigentes. Uma dupla de protagonistas carismáticos e/ou bonitos, piadas engraçadinhas, uma trilha sonora agradável e de preferência um final feliz (verossímil ou não) bastam para que a experiência seja positiva por aqueles que procuram apenas uma hora e meia de diversão descompromissada. "Amor à distância", estrelado por Drew Barrymore em 2010 não é uma exceção: simples, simpático - e talvez por isso mesmo pouco memorável -, é um filme capaz de deixar qualquer um com sorriso no rosto, desde que não haja grandes expectativas. Seguindo à risca a fórmula já exaustivamente testada e aprovada, o primeiro filme de ficção da documentarista Nanette Bernstein ganha pontos, no entanto, a apostar em algumas piadas mais adultas e eleger como maior vilão não uma ex-namorada vingativa ou mal-entendidos romanescos, mas sim uma circunstância bem mais prosaica: a distância geográfica.

Erin Langford (Drew Barrymore, repetindo com graça a personagem amalucada que salvou sua carreira) é uma jornalista de 31 anos que ainda busca a realização profissional, sempre adiada por sua tendência a valorizar mais seus relacionamentos do que sua incipiente . Às vésperas de deixar um estágio em Nova York para voltar a sua São Francisco natal, ela conhece e se apaixona por Garrett Scully (Justin Long), que trabalha em uma gravadora, paparicando bandas adolescentes enquanto não dá seu pulo do gato musical. Quando ela volta para casa, depois de um rápido idílio amoroso, os dois resolvem manter o namoro à distância, mesmo plenamente conscientes das dificuldades do pacto de fidelidade a que se propõem. Aos poucos, porém, eles percebem que a coisa não será assim tão simples e cor-de-rosa como pretendiam. Saudoso, ele se apoia nos pouco confiáveis amigos, Dan (Charlie Day) e Box (Jason Sudeikis), enquanto ela não chega a ser propriamente incentivada pela irmã mais velha, Corinne (Christina Applegate) - que passa os dias cuidando do marido e dos filhos pequenos.

 

O humor de "Amor à distância" surge, como se poderia imaginar, a partir de seus coadjuvantes - ainda que os protagonistas sejam adoráveis e carismáticos. Tanto os companheiros de Garrett quanto a família de Erin são o tempero ideal de uma história de amor ligeiramente inspirada pela experiência real de um amigo do roteirista Geoff  LaTulippe (provavelmente muito disfarçada e exagerada em sua transposição para as telas). Todas as situações decorrentes do relacionamento atípico do casal central são tratadas com carinho e leveza - os longos e saudosos telefonemas, as conversas diante da tela do computador, os temores (infundados ou não) de infidelidade, as dúvidas em relação ao prosseguimento do namoro, a falta de sexo, as dificuldades logísticas de um reencontro - e, ilustrados por uma trilha sonora das melhores (The Cure, The Pretenders). Drew Barrymore e Justin Long (que já foram namorados na vida real) apresentam uma química das mais certeiras e mesmo que algumas sequências flertem com o vulgar (apesar de bastante engraçadas), jamais ultrapassam os limites esperados para o gênero - e servem para conduzir a história, sem prejuízos para seu ritmo ou foco. Tudo isso, somado a acertada opção de Bernstein em não forçar a mão no drama, fazem do filme uma sessão praticamente sem contra-indicações.

Não exatamente um sucesso estrondoso de bilheteria, "Amor à distância" é mais um exemplar na lista de produções inofensivas estreladas por Drew Barrymore - ao lado de "Afinado no amor" (1998), Para sempre Cinderela" (1998), "Nunca fui beijada" (1999) e "Como se fosse a primeira vez" (2004). Seu público-alvo sabe o que esperar de cada um de seus filmes. E não é isso que se chama de conforto?

segunda-feira

VIAGENS ALUCINANTES

 


VIAGENS ALUCINANTES (Altered states, 1980, Warner Bros, 102min) Direção: Ken Russell. Roteiro: Paddy Chayefsky (como Sidney Aaron), romance de sua autoria. Fotografia: Jordan Cronenweth. Montagem: Eric Jenkins. Música: John Corigliano. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Richard McDonald/Thomas Roysden. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Howard Gottfried. Elenco: William Hurt, Bob Balaban, Blair Brown, Charles Haid, Drew Barrymore. Estreia: 25/12/80

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Som

Só mesmo quem não conhecia a obra pregressa do cineasta britânico Ken Russell poderia esperar que seu primeiro filme em Hollywood poderia ser algo diferente de "Viagens alucinantes": baseado em romance de Paddy Chayefsky publicado em 1978, sua estreia no cinema norte-americano é um mergulho sem freios em experiências lisérgicas, obsessão e, surpreendentemente, uma história de amor - que muitos interpretaram com uma releitura do mito de Orfeu e Eurídice, uma atualização de Dr. Jekyll e Mr. Hyde ou até com intenções religiosas. O fato é que, independente de qualquer ponto de vista, o filme fracassou nas bilheterias - nenhum choque, haja visto seu tema e o nome de Russell nos créditos - e, com o tempo, tornou-se uma espécie de cult movie, valorizado pela presença de William Hurt (em seu primeiro trabalho no cinema) e pela coragem do cineasta em explorar, com um visual exuberante e incômodo, um assunto que nem as mais radicais produções de ficção científica ousaram.

O roteiro - adaptado pelo próprio Chayefsky, que renegou o resultado final apesar de sua fidelidade ao material original - não era exatamente do agrado de Ken Russell, que embarcou no projeto após a desistência de Arthur Penn. Segundo Russell, o script era pesado, pretensioso e rebuscado demais, e o trabalho entre os dois profissionais esteve longe do ideal durante as filmagens, a ponto de o roteirista ser banido do set e ter tentado a demissão do diretor. Quando Chayefsky preferiu desligar-se do projeto (e assinar o roteiro com o pseudônimo de Sidney Aaron), o filme parecia já estar condenado, e o péssimo resultado nas bilheterias ajudou a relegar Ken Russell (que, segundo dizem, passou boa parte da produção sob o efeito de álcool) a uma espécie de limbo na indústria hollywoodiana. A morte de Chayefsky - que ganhou um Oscar pelo roteiro de "Hospital" (1971) -, poucos meses da estreia (e do fracasso) de "Viagens alucinantes" também não colaborou para o histórico do filme, apesar dos elogios da revista Time, que o elegeu um dos dez melhores do ano, e das duas indicações (técnicas) ao Oscar.


 

A trama concebida por Chayefsky já é, em si, bastante ousada: seu protagonista é o cientista e professor de psicologia Edward Jessup (William Hurt), um profissional brilhante mas pouco afeito às convenções impostas pela Medicina tradicional. Ambicioso em suas pesquisas alucinógenas, ele resolve, à revelia de seus superiores, fazer de si mesmo uma cobaia no uso de drogas em uma câmara de isolamento. Logo no começo ele consegue atingir regiões profundas da mente. Anos depois, já separado da também cientista Emily (Blair Brown) - que não consegue lidar com a obsessão do marido -, Jessup tem contato com rituais sagrados no México e com a utilização de drogas xamânicas. Tal novidade faz com que suas novas experiências fiquem ainda mais intensas: a cada sessão o audacioso professor vai ainda mais longe em suas viagens, chegando a formas progressivamente mais primárias de vida. O que muitos consideravam então simples alucinações começa a assustar seus colegas e familiares.

Produzido pela Warner depois que a Columbia Pictures desistiu do projeto por seu custo acima do esperado, "Viagens alucinantes" é, provavelmente, um dos melhores trabalhos de Ken Russell, mais conhecido pelo musical "Tommy" (1975) e por suas cinebiografias dos compositores Liszt, Mahler e Tchaicovsky. Com seu visual exuberante - influenciado por Magritte e Salvador Dalí - e uma trama consistente e frequentemente aflitiva, seu filme não apenas demonstra uma maturidade temática, mas confirma seu talento na direção de atores, que seria confirmado em sua produção seguinte, "Crimes do coração" (1984), estrelado por Anthony Perkins e Kathleen Turner: com um desempenho brilhante de William Hurt, que deixa verossímeis as teorias mais intrincadas, Russell ainda encontra espaço para trabalhar com efeitos visuais impressionantes que, ao contrário de atrapalhar, servem à história com uma inteligência ímpar. Injustamente esquecido pelo grande público, "Viagens alucinantes" é uma pequena obra-prima da ficção científica - e merece ser redescoberto e alçado à sua condição de clássico do gênero.

DUPLEX


DUPLEX (Duplex, 2003, Miramax/Buena Vista Pictures, 89min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Larry Doyle. Fotografia: Anastas Michos. Montagem: Greg Hayden, Lynzee Klingman. Música: David Newman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Stephen Alesch/Robin Stafender. Produção executiva: Alan C. Blomquist, Richard N. Gladstein, Meryl Poster, Jennifer Wachtell, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Drew Barrymore, Stuart Cornfeld, Nancy Juvonen, Jeremy Kramer, Ben Stiller. Elenco: Ben Stiller, Drew Barrymore, Eileen Essell, Harvey Fierstein, Maya Rudolph, Justin Theroux, Wallace Shawn, James Remar, Robert Wisdom, Swoosie Kurtz. Estreia: 26/9/2003

O primeiro longa-metragem de Danny DeVito como diretor, "Joga a mamãe do trem" (1987), já traía sua visão bastante particular de comédia, extraída de situações corriqueiras mas com os dois pés fincados em um tom sombrio e ácido. No filme, ele mesmo interpretava um aspirante a escritor que tentava convencer seu professor de escrita criativa a matar sua mãe autoritária - em troca dele mesmo assassinar a ex-esposa traidora do autor, como em "Pacto sinistro" (1951). Em seu trabalho seguinte atrás das câmeras, "A guerra dos Roses" (1989), um casal em processo de divórcio usava dos mais sórdidos artifícios para ficar com a posse da mansão que dividiam - mesmo que isso significasse sua destruição. "Duplex", lançado em 2003, confirmava a tendência de DeVito em rir de situações sérias e criticar, sem muita sutileza, o verniz que separa a civilização da barbárie. Ao contrapor um jovem casal em busca de um lar para chamar de seu e uma idosa aparentemente dócil que os separa da realização de seu sonho, a comédia estrelada por Ben Stiller e Drew Barrymore substitui a gargalhada óbvia pelo riso nervoso - opção inteligente que talvez explique sua decepcionante recepção comercial.

 

Com uma renda mundial que não chegou a cobrir nem mesmo a metade de seu orçamento, estimado em 40 milhões de dólares, "Duplex" provavelmente esbarrou na resistência do público em abraçar comédias que ousam fugir do esperado binômio pastelão/sofisticação. Situado em um meio-termo arriscado entre irmãos Farrelly e Woody Allen, o filme de DeVito aposta em personagens de caráter dúbio (ainda que facilmente adoráveis e de fácil empatia) e sequências de humor físico que deveriam dialogar diretamente com uma plateia ávida por risadas fáceis - mas que, por algum motivo, a afugentaram. O fraco resultado financeiro do filme, no entanto, não reflete sua qualidade. Assim como várias produções acima da média que naufragaram sem maior explicação, "Duplex" é um produto destinado a tornar-se cult. Talvez uma daquelas sessões da tarde queridas, com um público cativo e fiel, sempre disposto a rir das desventuras de um dos casais mais azarados de Nova York.

Alex Rose (Ben Stiller) e Nancy Kendricks (Drew Barrymore) são jovens, apaixonados, felizes e no caminho para se tornarem bem-sucedidos profissionais. Ela trabalha em uma revista e tem ambições de ascender na carreira, e ele é um escritor em vias de entregar seu segundo livro - apesar do atraso considerável no cronograma especificado no contrato. Depois de muito procurarem um lar para chamar de seu, os dois pombinhos mal podem acreditar na sorte grande quando surge, diante de seus olhos, a oportunidade de comprar um espaçoso duplex no Brooklyn - a um preço atrativo, ainda que apertado dentro de suas condições financeiras. Apaixonados pelo apartamento, os dois resolvem investir suas economias na compra do imóvel, mesmo sabendo que o andar superior do imóvel está ocupado. A inquilina é uma senhora idosa chamada Miss Connelly (Eileen Essell), solitária, doce e de saúde frágil. Alex e Nancy tem certeza de que não irá demorar para que sua vizinha morra e eles possam finalmente tomar posse de todo o seu duplex - mas as coisas não são como parecem. A dócil velhinha logo se transforma em uma enorme pedra no sapato do casal: espaçosa, cínica e irascível, ela não hesita em utilizar-se de sua imagem meiga para esconder uma personalidade insuportável. Sem ter a quem recorrer, Alex e Nancy chegam à conclusão de que a única maneira que eles tem de se livrar de seu pesadelo é apressando sua morte.

Assim como em seus filmes anteriores, Danny DeVito leva seus personagens ao limite do eticamente aceitável, transformando cidadãos normais e pacíficos em potenciais homicidas. Ao contrário de fazer disso um discurso pessimista sobre a maldade intrínseca do ser humano, porém, ele o faz com humor e leveza. Alex e Nancy não são pessoas ruins - o que não pode ser dito a respeito da respeitável anciã que os tira do sério -, e não é difícil simpatizar com eles e (pasmem!) torcer para que seus planos mirabolantes deem certo. Completamente inaptos para o crime, Alex e Nancy são mais vítimas do que assassinos (ou pretensos assassinos) e, dona de um talento inesgotável para transformar a vida dos vizinhos em um inferno na Terra, Miss Connelly passa rapidamente da condição de velhinha indefesa a alguém capaz de tirar a paciência do mais pacífico cidadão. Criando maneiras surpreendentes de tentativas de homicídio, o roteiro de Larry Doyle brinca sem medo com uma completa inversão de expectativas, e encontra em Ben Stiller, Drew Barrymore e Eileen Essell os intérpretes ideais de sua imaginação fértil - e seu casamento com a direção debochada de DeVito resulta em um filme cujo humor inteligente infelizmente não encontrou seu público. Talvez pelo tema, talvez pelo tom sombrio, a plateia ignorou "Duplex" no cinema - e acabou privada de uma das comédias mais ousadas e divertidas da temporada.

quinta-feira

JÁ ESTOU COM SAUDADES


 JÁ ESTOU COM SAUDADES (Miss you already, 2015, 5 Films/New Sparta Films/The Salt Company International, 112min) Direção: Catherine Hardwicke. Roteiro: Morwenna Banks. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Phillip J. Bartell. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Claire Finlay. Direção de arte/cenários: Amanda McArthur/Celia de La Hey. Produção executiva: Morwenna Banks, Jerome Booth, Sheryl Crown, Catherine Hardwicke, Nicki Hattingh, Jamie Holt, Samantha Horley, Lisa Lambert, Cyril Megret, James Norne, Celina Rattray, Anne Sheehan, Barnaby Southcombe, Trudie Styler, Paul Andrew Williams. Produção: Christopher Simon. Elenco: Toni Collette, Drew Barrymore, Dominic Cooper, Paddy Considine, Jacqueline Bisset. Estreia: 12/9/15 (Festival de Toronto)
 

Filmes a respeito da amizade entre mulheres já constituem, de certa maneira, quase um novo gênero cinematográfico - principalmente quando a relação descamba para a tragédia como forma de incrementar o roteiro. É dessa safra que saíram "Amigas para sempre" (1988) - estrelado por Bette Midler e Barbara Hershey -, o sensível "Tomates verdes fritos" (1991) - que contava não apenas uma, mas duas histórias de cumplicidade entre mulheres -, o já clássico "Thelma & Louise" (1991), que rendeu indicações ao Oscar para Susan Sarandon e Geena Davis - e o moderno "Somente elas" (1995), que estendeu sua sororidade à trilha sonora composta apenas por intérpretes femininas e colocou na estrada uma cantora lésbica (Whoopi Goldberg), uma silenciosa soropositiva (Mary-Louise Parker) e uma maluquete grávida do namorado violento (Drew Barrymore). Barrymore, aliás, é uma das duas estrelas de mais uma produção semelhante: pouco visto e pouco comentado, "Já estou com saudades" pouco acrescenta à lista de filmes afins, mas é simpático o bastante para sustentar uma sessão descompromissada - e muito disso se deve às presenças de suas atrizes centrais, Toni Collette e a mesma Drew Barrymore de "Somente elas". Talentosas e carismáticas, elas carregam o filme nas costas e conseguem até mesmo deixar suportáveis toda a previsibilidade do roteiro.

Barrymore, aliás, só acabou no elenco do filme depois de duas desistências. Primeiro foi Jennifer Aniston quem pulou fora, devido ao adiamento das filmagens; depois, foi a vez de Rachel Weisz abandonar o projeto e abrir vaga para a ex-atriz mirim. Talvez tenha sido para o bem: com sua personalidade vibrante, Barrymore é o contraponto perfeito para o talento à flor da pele de Collette, e o encontro de duas energias tão díspares é que faz com que a trama funcione, deixando pouco espaço para os coadjuvantes - um time que inclui até mesmo a veterana (e ainda belíssima) Jacqueline Bisset. Com ares de adaptação de romances água-com-açúcar, "Já estou com saudades" é, surpreendentemente, um roteiro original (ou quase isso: é a adaptação de uma peça radiofônica escrita pela mesma Morwenna Banks, autora de roteiros para séries de televisão britânicas), e acompanha a trajetória de duas amigas de infância que tem suas vidas transformadas por situações que fogem de seu controle - e põe a relação em xeque. Como era de se esperar, o roteiro não se aprofunda em questões psicológicas e tampouco vai além do já visto em outras produções afins. Mas há como resistir a suas protagonistas e a uma trilha sonora que dá destaque à atemporal "Losing my religion", do R.E.M.? 

Milly (Toni Collette) tem uma vida de sonhos, com um emprego que a satisfaz e uma rotina doméstica das mais felizes, que inclui o marido, Kit (Dominic Cooper), e dois filhos adoráveis. Jess (Drew Barrymore) já é menos completa - apesar do carinho do namorado, Jago (Paddy Considine), seu trabalho não é dos melhores, vive em um trailer desconfortável e sofre com as tentativas sem sucesso de engravidar. As duas são amigas íntimas desde que eram crianças, e apesar de suas diferenças (ou talvez por causa delas) se completam e não conseguem ficar separadas por muito tempo. A relativa paz da relação é abalada quando ambas se descobrem diante de situações catalisadoras: Jess finalmente fica grávida, e Milly é diagnosticada com câncer - o que altera substancialmente sua personalidade e a põe em rota de colisão com a amiga e o próprio marido. Para ajudar Milly em sua recuperação, Jess deixa sua vida de lado - mas será que a ligação entre as duas sobreviverá a uma prova tão dura?

A diretora Catherine Hardwick tem em seu currículo o excelente "Aos treze" (2003), que marcou a estreia de Evan Rachel Wood no cinema, mas é mais lembrada pelo tenebroso "Crepúsculo" (2008), o primeiro capítulo de uma das sagas mais constrangedoras do cinema americano das últimas décadas. Para sorte dos espectadores, "Já estou com saudades", apesar de não ser exatamente criativo e seguir à risca uma série de clichês, está menos para o romance vampiresco adolescente e mais para o drama familiar que deu à Holly Hunter uma indicação ao Oscar de coadjuvante. A cineasta acerta em deixar que suas atrizes comandem o show, mas peca ao não evitar o melodrama sentimental que domina a segunda metade do filme. Ainda bem que, apesar de suas personagens não sejam complexas como deveriam, Toni Collette e Drew Barrymore sustentam a produção sem muito esforço - e podem levar o público mais sensível às lágrimas. Não é um filme inesquecível, nem um ponto alto da carreira de ninguém envolvido, mas consegue cativar pelas quase duas horas de sessão. Tem tudo para virar um frequentador habitual das sessões da tarde na televisão aberta - e isso é bem mais do que muitos congêneres conseguem.

GREY GARDENS

GREY GARDENS (Grey Gardens, 2009, HBO Films, 104min) Direção: Michael Sucsy. Roteiro: Michael Sucsky, Patricia Rozema, estória de Michael Sucsy. Fotografia: Mike Eley. Montagem: Alan Heim, Lee Percy. Música: Rachel Portman. Figurino: Catherine Marie Thomas. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Norma Jean Sanders. Produção executiva: Lucy Barzun Donnelly, Rachel Horovitz, Michael Sucsy. Produção: David Coatsworth. Elenco: Jessica Lange, Drew Barrymore, Daniel Baldwin, Jeanne Tripplehorne, Ken Howard, Kenneth Welsh, Arye Gross, Justin Louis. Estreia: 18/4/09

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Minissérie ou Filme para Televisão, Atriz em Minissérie ou Filme para Televisão (Drew Barrymore)

Milionárias falidas, parentes próximas de Jacqueline Kennedy Onassis, beldades decadentes, mulheres presas a um passado glamoroso e personagens de nada menos que duas produções retratando sua vida, as protagonistas de "Grey Gardens", realizado pela HBO em 2009, parecem obra da mais tresloucada ficção. Mas não são. Objetos de um documentário lançado em 1979 e posteriormente personagens de um telefilme dirigido por Michael Sucsy que retratava sua produção, Edith Bouvier Beale e sua filha, Edie, são figuras únicas, que encontraram nas telas a forma indelével de passar à história após sua derrocada financeira e sua decadência psicológica. Interpretadas com genialidade por Jessica Lange e Drew Barrymore - de longe no melhor desempenho de sua carreira, premiado merecidamente com o Golden Globe e o Emmy - as duas fascinantes personagens encontram respaldo na direção sensível de Michael Sucsy (que mais tarde faria o romântico "Para sempre", com Channing Tatum e Rachel McAdams) e emocionam o público com uma história de cortar o coração que jamais apela para o sentimentalismo.

O roteiro, coescrito pelo diretor e Patricia Rozema, aproveita-se do documentário por David e Albert Maysles como ponto de partida para contar sua história. Primeiramente pensando em focar seu filme na trajetória de Jackie, os dois irmãos acabam fascinados por um outro lado da família da ex-primeira dama quando conhecem sua tia, Edith (Jessica Lange), e sua prima, Edie (Drew Barrymore), que vivem isoladas em uma mansão caindo aos pedaços e dominada pela sujeira feita pelos gatos e por sua absoluta falta de capacidade de manter a salubridade do local. Excêntrica e extrovertida, Edie é quem se torna a estrela do documentário, enquanto à sua mãe resta apenas pontuar a narrativa com suas lembranças de tempos mais fartos. O filme de Sucsy conta a trajetória de mãe e filha através de flashbacks, que começam em 1936 e se estendem até os anos 70, mostrando como a promissora Edie, que sonhava com uma carreira de atriz, e sua mãe - que levava uma vida de luxo e conforto, cercada por gente da alta sociedade e demonstrava talento como cantora - acabaram por tornar-se duas mulheres praticamente enterradas vivas em sua propriedade, outrora motivo de orgulho da família.


Apesar da excentricidade das protagonistas parecer quase exagerada, "Grey Gardens" jamais cai na armadilha de fazer delas motivos de caricatura ou humor proposital. Tratando com respeito e quase carinho de suas personagens, Michael Sucsy apresenta ao público uma história a respeito de sonhos despedaçados, ambições destruídas e uma relação no limite da codependência. Sufocada pela super-proteção familiar - disfarçada de amor e carinho - a jovem Edie se vê impedida de realizar todo o potencial que acredita ter e acaba se deixando envolver pela solidão da mãe, que, infeliz, consegue até mesmo interferir em seu romance (malfadado, é verdade, mas ainda assim um romance) com um homem casado por quem ela se apaixona e que acredita poder lhe fazer feliz. Drew Barrymore brilha tanto na pele da jovem e esperançosa Edie quanto em sua versão mais velha, a um passo do colapso mental e tão crente em seus talentos artísticos que vê no documentário a chance de ser descoberta pelo mundo. Seus embates com Jessica Lange - fantástica em um papel de mãe dominadora que aos poucos vai murchando, conforme percebe os rumos que sua vida vai tomando - são excepcionais, sofrendo alterações com o passar do tempo até chegar a um misto de ressentimento velado e afeto genuíno (ou dependência psicológica). Com a preciosa ajuda da maquiagem - que as envelhece com perfeição - as duas atrizes estão em um momento especial de suas trajetórias, com uma invejável química e trejeitos que lembram em detalhes as verdadeiras protagonistas (quem duvida pode procurar o documentário e conferir: a semelhança é impressionante!).

Comprovando a excelência da HBO na produção de telefilmes que fogem das limitações do gênero, "Grey Gardens" funciona em todos os níveis imagináveis: é dirigido com sutileza, escrito com respeito às personagens e interpretado com extrema inspiração. É impossível não se deixar conquistar pelas duas protagonistas e seus dramas pessoais e familiares - com direito até a uma intervenção de Jackie Kennedy em pessoa, na pele da atriz Jeanne Tripplehorne. Imprimindo um tom leve a uma história que poderia facilmente descambar para o soturno ou o trágico, Michael Sucsy acerta em cheio, evitando tanto o dramalhão rasgado quanto a comédia de humor negro que poderiam diluir a força do roteiro e das personagens, tão incríveis que chega a ser difícil de acreditar que não saíram da mente de um escritor mais criativo. No fim das contas, "Grey Gardens" é um belo filme, com grandes atuações e uma história fabulosa. Imperdível!

segunda-feira

AFINADO NO AMOR

AFINADO NO AMOR (The wedding singer, 1998, New Line Cinema, 95min) Direção: Frank Coraci. Roteiro: Tim Herlihy. Fotografia: Tim Suhrstedt. Montagem: Tom Lewis. Música: Teddy Castelucci. Figurino: Mona May. Direção de arte/cenários: Perry Andelin Blake/Lisa Deutsch. Produção executiva: Brad Grey, Sandy Wernick. Produção: Jack Giarraputo, Robert Simonds. Elenco: Adam Sandler, Drew Barrymore, Christine Taylor, Allen Covert, Alexis Arquette, Matthew Glave, Christina Pickles, Billy Idol. Estreia: 13/02/98

Comediante dos mais populares nos EUA, Adam Sandler nunca teve o mesmo apelo de bilheteria no Brasil, onde frequentemente via seus filmes ignorados ou lançados diretamente em VHS, como foi o caso de "Um maluco no golfe" e "O rei da água", que renderam horrores no mercado americano e não interessaram em nada ao público brasileiro. Por essa razão, só mesmo a presença sempre carismática e luminosa de Drew Barrymore como sua parceira de cena explica a boa aceitação de "Afinado no amor", uma divertida e nostálgica comédia romântica que tem como principal trunfo situar sua trama em 1985 - com toda a sua cafonália visual e deliciosa trilha sonora como elementos narrativos. Sem buscar nada mais do que entreter e encantar a plateia, o diretor Frank Coraci - que trabalhou com Sandler em "O rei da água" e o posterior "Click" - fez uma deliciosa homenagem a um dos períodos mais ricos em cultura pop da história ao mesmo tempo em que conta uma história de amor simpática e simples, carregada de bom humor e referências culturais capazes de fazer sorrir o mais empedernido espectador.

O protagonista vivido por Sandler - e que dá o título original do filme - é Robbie Hart, um cantor de casamentos alegre, otimista e simpático que contagia a todos com sua energia positiva que extrapola suas performances profissionais. Sua alegria aparentemente inesgotável, porém, leva um duro golpe quando, justamente no dia de seu casamento com Linda (Angela Featherstone), ele é abandonado no altar, acusado de ser um homem sem ambições outras senão viver tocando nas festas de outras pessoas. Arrasado e devastado emocionalmente, ele torna-se um homem triste, mas recupera a vontade de viver com a ajuda de Julia Sullivan (Drew Barrymore, encantadora), uma garçonete que também está de casamento marcado - com o pouco confiável Glenn (Matthew Glave) - e faz questão que ele seja seu cantor oficial. A relação de amizade entre os dois, logicamente, esconde o que só eles mesmos não conseguem perceber: uma nascente paixão.


E é só isso. A história simples é apenas desculpa para um desfile de citações oitentistas, piadas ingênuas, figurinos excêntricos e uma trilha sonora pra lá de inspirada, que ressuscita clássicos pop de nomes como Culture Club - homenageado também na figura de um dos cantores de apoio de Robbie, o andrógino George (Alexis Arquette, irmão de Patricia e Rosanna) - The Cure, David Bowie, Madonna - cuja "Holiday" serve de piada em uma sequência hilariante - e Billy Idol, que incrementa sua participação com uma aparição surpresa no desfecho da trama. Sem preocupar-se em aprofundar o desenho de seus personagens - que no fundo são apenas arquétipos do gênero - o roteiro conquista o espectador convidando-o a uma saudável viagem nostálgica que ousa no fato de, ao contrário de suas comédias românticas contemporâneas, apostar na ingenuidade e na delicadeza, abdicando de cenas picantes e fazendo de sua Julia uma mocinha à moda antiga, independente e forte, mas doce e encantadora - um tipo de personagem do qual Barrymore especializou-se no final dos anos 90, depois de tentar uma fase vamp em sua volta ao cinema.

E, mesmo que não seja uma unanimidade entre o público brasileiro, Adam Sandler também acaba sendo um destaque de "Afinado no amor". Com seu jeitão apatetado e inofensivo, ele se encaixa perfeitamente em Robbie Hart, fazendo do cantor de casamentos uma espécie de alter-ego que desarma até o mais feroz de seus detratores. É difícil não simpatizar com seu drama romântico nem ficar sem torcer para que ele e Julia finalmente se acertem - boa parte também devido à ótima química entre ele e Drew Barrymore. Conduzida com mão leve e ilustrada com o melhor da música dos anos 80, a história de amor entre o cantor desiludido e a garçonete ingênua é uma das melhores opções do gênero da década seguinte. Uma pequena pérola cult para ver e rever sempre.

quarta-feira

PÂNICO

PÂNICO (Scream, 1996, New Dimension Films, 111min) Direção: Wes Craven. Roteiro: Kevin Williamson. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Patrick Lussier. Música: Marco Beltrami. Figurino: Cynthia Bergstrom. Direção de arte/cenários: Bruce Alan Miller/Michele Poulik. Produção executiva: Marianne Maddalena, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad, Cary Woods. Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Skeet Ulrich, Jamie Kennedy, Drew Barrymore, Rose McGowan, Matthew Lillard, Liev Schreiber. Estreia: 18/12/96

O pai de uma das mais cultuadas espécies do cinema de terror estava em baixa na década de 90. Depois de ver sua mais famosa criatura - Freddy Krueger - exposto ao ridículo nas inúmeras continuações de seu "A hora do pesadelo" - incluindo até uma comandada por ele mesmo dez anos mais tarde - Wes Craven estava disposto a dar um novo rumo à carreira e abandonar o gênero que havia lhe dado fama e dinheiro. Foi então que caiu em suas mãos o roteiro de um novato chamado Kevin Williamson que dava sangue novo (literalmente) aos slasher movies - filmes ao estilo "Halloween" e "Sexta-feira 13" - acrescentando à receita doses cavalares de humor e autocrítica. Craven topou dirigir o roteiro como homenagem aos fãs que o cobravam constantemente e a Miramax resolveu lançar seu novo produto dias antes do Natal de 1996, acreditando que a plateia precisava de uma opção  aos dramas lacrimosos que ambicionavam o Oscar e os filmes familiares que dominavam as salas de cinema no mesmo período. A estreia foi pouco alvissareira, mas não demorou muito para que a propaganda boca-a-boca mostrasse seu poder: ao final de sua estadia nas telas, "Pânico" não só estava com uma renda superior a 100 milhões de dólares, como havia se transformado em uma inesperada e bem-vinda franquia de terror adolescente - e adiado mais um pouco os planos de Craven em ser um cineasta sério.

O roteiro de Williamson - que se tornaria o escritor-selo da série e de outros filmes do gênero pelos anos seguintes, além de criar a série adolescente televisiva "Dawson's Creek" - não demora a apresentar seu vilão, um cruel assassino mascarado chamado Ghostface que, em uma sequência de 12 longos minutos, tortura psicologicamente e por fim mata a facadas a jovem Casey (Drew Barrymore) em uma noite na qual a garota está sozinha em casa. O crime assusta os moradores da pequena cidade de Woodsboro, que um ano antes havia tido repercussão nos noticiários nacionais graças ao estupro e à morte de uma moradora, Maureen Prescott. Não demora para que a filha única de Maureen - que testemunhou no julgamento do homem condenado por seu assassinato - perceba que ela é o alvo principal do assassino misterioso, que passa a matar pessoas próximas a ela. Tímida e reservada, Sidney (Neve Campbell) conta com a ajuda da polícia local para fugir e desmascarar o criminoso, especialmente do atrapalhado Dewey (David Arquette) - irmão de sua melhor amiga, Tatum (Rose MacGowan) - e de seu ambíguo namorado, Billy Loomis (Skeet Ulrich), de quem começa a desconfiar quando a paranoia se transforma em companheira constante. Além de tudo, Sidney ainda precisa lidar com a empáfia de Gale Weathers (Courteney Cox), repórter de TV que está em vias de publicar um livro narrando o homicídio de Maureen.


Visto como um simples filme de terror adolescente, "Pânico" talvez não ofereça mais do que seus similares, uma vez que segue à risca todos os mandamentos do gênero - e brinca com todos eles através de diálogos inteligentes e sarcásticos. O que fez dele um exemplar refrescante - e que o fez virar febre e gerar duas continuações imediatas e uma temporã, mais de uma década depois de sua estreia - é justamente a combinação na medida certa entre o clássico e o novo, oferecendo a seu público-alvo um cinema fast-food divertido, rápido e que foi ao encontro de suas necessidades. Violento sem exageros - pelo menos dentro da concepção de violência de um filme do gênero as mortes são ao mesmo tempo tensas e dotadas de um macabro senso de humor que deu margem inclusive às sátiras de "Todo mundo em pânico" - e recheado de citações visuais e verbais ao cinema de horror moderno (com direito a uma "participação especial" do próprio Freddy Krueger e inúmeras referências a clássicos do suspense), "`Pânico" conquistou também por não levar-se demasiadamente a sério, acrescentando um tom de deboche a uma receita já devidamente testada e aprovada: esse molho especial consegue inclusive disfarçar a apatia de sua mocinha, a insípida Neve Campbell, que tornou-se um ícone da nova geração dos filmes de terror - que ganhou uma sobrevida interessante graças ao sucesso do filme.

E, além de suas qualidades como entretenimento, "Pânico" também tem histórias saborosas em seus bastidores. Drew Barrymore, por exemplo, foi escalada para viver Sidney, mas conversando com Wes Craven, ambos chegaram à conclusão de que matar uma atriz conhecida do público logo na primeira cena seria um golpe de mestre, preparando a audiência para um vale-tudo, onde tudo poderia acontecer. Molly Ringwald, ídolo da adolescência dos anos 80, também chegou a ser convidada para o papel, mas recusou por achar-se velha demais (27 anos à época) para convencer como estudante secundarista - e entre outras possibilidades levantadas por Craven estavam Reese Witherspoon e Brittany Murphy. Brooke Shields quase ficou com o papel da repórter Gale Weathers quando Janeane Garofalo pulou fora, mas na última hora o diretor optou por Courteney Cox - famosa pela série "Friends" - que, durante as filmagens, conheceu e se apaixonou por seu futuro marido David Arquette (o casamento durou até 2013). E o próprio Arquette viu seu personagem ganhar importância devido à reação positiva do público nas sessões-teste, a ponto de garantir uma sobrevida para as continuações. Linda Blair, a Reagan McNeil de "O exorcista", faz uma ponta como repórter. E até Joaquin Phoenix, hoje respeitado como um dos melhores atores de sua geração, fez um teste para viver Billy Loomis.

Item essencial da filmografia juvenil dos anos 90 e divertido ao extremo - dentro da concepção de diversão que um filme que mostra adolescentes sendo assassinados a facadas - "Pânico" é também o pai de filmes menores, como "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado" e "Prova final", que beberam na sua fonte até o esgotamento do filão. Imperdível.

quinta-feira

ELE NÃO ESTÁ TÃO A FIM DE VOCÊ

ELE NÃO ESTÁ TÃO A FIM DE VOCÊ (He's just not that into you, 2009, New Line Cinema, 129min) Direção: Ken Kwapis. Roteiro: Abby Kohn, Marc Silverstein, livro de Greg Behrendt, Liz Tuccillo. Fotografia: John Bailey. Montagem: Cara Silverman. Música: Cliff Eidelman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Fae S. Buckley/K.C. Fox. Produção executiva: Drew Barrymore, Michael Beugg, Toby Emmerich, Michelle Weiss. Produção: Nancy Juvonen. Elenco: Jennifer Aniston, Drew Barrymore, Jennifer Connelly, Ben Affleck, Bradley Cooper, Scarlet Johansson, Ginifer Goodwin, Justin Long, Kevin Connolly. Estreia: 06/02/09

Sofrendo eternamente de um deserto de ideias originais, Hollywood sempre buscou na literatura a forma de sustentar sua produção. Até aí, nada de mais, uma vez que muitos clássicos do cinema saíram direto das mentes de gente como John Steinbeck ("As vinhas da ira", "Vidas amargas"), Truman Capote ("À sangue frio", Bonequinha de luxo") e Tolstói (as várias versões de "Anna Karenina"). O problema é que, não felizes em transportar para as telas romances de vários níveis de qualidade, os executivos começaram a apelar para o mais imprevisível segmento literário: a autoajuda. Um exemplo inconteste dessa afirmação é "Ele não está tão a fim de você", escrito pela dupla Greg Behrendt e Liz Tuccillo. Uma espécie de manual para que as mulheres identifiquem as razões pelas quais os homens não as procuram mais depois de um primeiro encontro, o livro virou uma comédia romântica que em nada difere das outras do gênero, exceto pelo elenco estelar.

Inspirado em uma frase clássica de um episódio da telessérie "Sex and the city", o filme dirigido por Ken Kwapis mostra diferentes tipos de relação amorosa através de oito amigos/conhecidos/colegas de trabalho na casa dos trinta e poucos anos que se debatem em problemas explorados pelo livro. De uma certa forma, quem conduz a trama é Gigi (Ginifer Goodwin, justamente a menos conhecida do elenco): confusa por nunca conseguir dar seguimento a seus primeiros encontros, ela encontra em Alex (Justin Long), o dono de um bar, uma espécie de guru masculino, que passa a ajudar-lhe a entender o lado oposto das relações. Alex é o melhor amigo de um desses homens que ignoraram Gigi, o corretor imobiliário Conor (Kevin Connolly), que tem suas razões para não querer mais nenhuma relação, uma vez que ainda é apaixonado pela ex-namorada, Anna (Scarlett Johnasson, abusando de suas caras e bocas de "I'm sexy and I know it"), que sonha começar uma carreira como cantora. Nessa busca, ela encontra com Ben (Bradley Cooper), que promete ajudar-lhe, mas sentindo-se atraído por ela, balança em seu casamento com a controladora Janine (Jennifer Connelly), colega de trabalho de Gigi e de Beth (Jennifer Aniston), que depois de sete anos de relacionamento resolve por o namorado Neil (Ben Affleck) contra a parede e exigir uma decisão relacionada a um casamento ou não. Enquanto isso, outra amiga delas, Mary (Drew Barrymore, uma das produtoras executivas através de sua produtora Flower Films), sente dificuldades em lidar com todas as formas de tecnologia envolvidas no início de uma relação.


A opção dos roteiristas de "Ele não está tão a fim de você" em contar várias histórias paralelas sem aprofundar-se muito em nenhuma delas é o trunfo e o ponto fraco do filme. Sem apostar exageradamente em nenhum núcleo, a obra dá ao espectador a chance de ignorar as histórias menos interessantes e prestar mais atenção naquelas que mais lhe são simpáticas, mas ao mesmo tempo, cria personagens superficiais o bastante para que nenhum deles consiga destacar-se em meio ao emaranhado de situações apresentadas - que, justiça seja feita, fazem sentido para qualquer pessoa que já passou ou está passando por uma relação amorosa. Nesse ponto, talvez a personagem de Jennifer Connelly - mesmo sendo a mais chata em uma primeira visão - seja a mais real da trama, por jamais cair na armadilha fácil das piadinhas previsíveis (ou talvez seja a bela Connelly que é melhor atriz do que todo mundo do elenco que passe essa impressão).

Bonitinho, simpático, agradável, ligeiro. Todos esses adjetivos podem ser utilizados quando se fala de "Ele não está tão a fim de você" e todos eles estão corretos. O problema é que eles também definem a grande maioria das comédias românticas americanas, o que imediatamente o relega a ser apenas mais uma produção rotineira, ainda que não ofenda ninguém. Vale pelo elenco e por uma ou outra cena mais engraçada.

quarta-feira

LETRA E MÚSICA

LETRA E MÚSICA (Music and lyrics, 2007, Warner Bros, 106min) Direção e roteiro: Marc Lawrence. Fotografia: Xavier Perez Grobet. Montagem: Susan E. Morse. Música: Adam Schlesinger. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Ellen Christiansen. Produção executiva: Bruce Berman, Hal Gaba, Nancy Juvonen. Produção: Liz Glotzer, Martin Shafer. Elenco: Hugh Grant, Drew Barrymore, Campbell Scott, Brad Garrett, Kristen Johnson, Haley Bennett, Matthew Morrison. Estreia: 14/02/07

Em 1998, Drew Barrymore estrelou, ao lado de Adam Sandler, a comédia romântica "Afinado no amor", que contava a história do romance entre um cantor de casamentos e uma garçonete nos cafoníssimos anos 80. Essa mesma década - que tornou-se novamente popular na entrada do século XXI - é o espírito de "Letra e música", mais um exemplar do gênero cinematográfico que fez a glória da ex-menininha de "ET". Apresentando uma química perfeita com Hugh Grant - divertidíssimo brincando com sua imagem de galã - ela acerta em cheio mais uma vez.

Dirigido por Marc Lawrence - que já havia dirigido Grant em "Amor à segunda vista" e ainda faria o tenebroso "Cadê os Morgan?" com o ator - "Letra e música" conquista simplesmente porque não oferece ao espectador mais do que pode. Lawrence escreveu uma história simples, romântica e engraçada, capaz de deixar o público com um sorriso doce no rosto. E o que os anos 80 tem a ver com isso? Basta dizer que logo de cara todo mundo já percebe: na pele de Alex Fletcher, o ator britânico surge dançando e cantando como um dos integrantes da previamente famosa banda de rock chamada Pop! - em um videoclipe sensacional que lembra nitidamente os trabalhos de grupos como Duran Duran. Quando o filme começa, Fletcher já não é mais tão popular e vive de shows em feiras e eventos, já que seu álbum solo foi um fiasco. Sua chance de escapar da decadência absoluta - na figura de um programa de auditório onde ele teria que lutar contra outras ex-celebridades - surge quando a jovem estrela da música adolescente Cora Corman (Haley Bennett incorporando Britney Spears em sua atuação) lhe pede uma canção que tenha como título "Way back into home". Paralisado pelo medo de não conseguir cumprir o contrato - quem fazia as letras de suas músicas era seu ex-parceiro e atual desafeto - ele acaba encontrando parceria em um lugar inesperado. A jovem Sophie Fisher (Drew Barrymore), hipocondríaca que cuida de suas plantas, se revela uma ótima letrista e os dois começam a trabalhar juntos. Não é preciso ser gênio para adivinhar o final da história.

Brincando sem medo com as referências culturais dos anos 80, Marc Lawrence criou uma comédia romântica que funciona às mil maravilhas. Mesmo que não tenha sido exatamente um estouro de bilheteria - rendeu pouco mais de 50 milhões de dólares - "Letra e música" consegue ser mais interessante do que seus congêneres por utilizar os clichês a seu favor. Ninguém tem dúvida de qual será o destino de seus protagonistas desde a visualização do cartaz, mas o roteiro expõe a relação entre eles de maneira tão natural e leve que fica difícil não gostar. Fazendo uma ligação orgânica entre o universo da música pop oitentista com a atual, o filme ainda tem um senso de humor impecável e inteligente, que não apela em momento algum para o escrachado ou o escatológico. Quando surge uma certa sensualidade - graças à Cora Corman - é apenas mais um meio de satirizar o estado das coisas na música americana atual.

Com uma trilha sonora deliciosa - cujas canções são realmente interpretadas por um Hugh Grant no cúmulo da canastrice proposital - e um elenco coadjuvante que apenas soma ao resultado final, "Letra e música" é uma sessão da tarde das mais inspiradas. Os anos 80 fazem bem à Drew Barrymore.

terça-feira

CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA

CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA (Confessions of a dangerous mind, 2002, Miramax, 113min) Direção: George Clooney. Roteiro: Charlie Kaufman, livro de Chuck Barris. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alex Wurman. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Louis Dandonneau, Anne Galléa, Robert Greenfield. Produção executiva: Stephen Evans, Jonathan Gordon, Rand Ravich, Steven Soderbergh, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Andrew Lazar. Elenco: Sam Rockwell, George Clooney, Julia Roberts, Drew Barrymore, Maggie Gyllenhaal, Rutger Hauer. Estreia: 31/12/02

Urso de Ouro Melhor Ator (Festival de Berlim): Sam Rockwell

Normalmente o que leva um ator a assumir a cadeira de diretor é a vaidade. Somada à megalomania, ela pode levar a obras como "Dança com lobos" - que encantou milhares de pessoas e os votantes do Oscar de 1991, que o escolheram em detrimento do extremamente superior "Os bons companheiros" - ou "Coração valente" - que supreendeu todo mundo mostrando que Mel Gibson tinha mais talento como cineasta do que como ator dramático. Em 2003 um outro ator uniu-se à galeria de novos diretores - que inclui também Robert Redford, Danny DeVito, Robert DeNiro, Sean Penn, Edward Norton, Orson Welles e inúmeros outros menos cotados - e, para alívio geral, saiu-se muito melhor do que a encomenda. Já famoso como ator e galã, George Clooney assumiu as rédeas de "Confissões de uma mente perigosa", alucinante (e alucinada) versão para o cinema das memórias de Chuck Barris, um produtor de TV americano que, nas horas vagas, trabalhava como agente secreto da CIA. Brilhantemente escrito pelo demente (no bom sentido) Charlie Kaufman e apresentando um trabalho excepcional de Sam Rockwell no papel central, o filme colecionou elogios e prêmios - melhor ator no Festival de Berlim, melhor roteiro pelo National Board of Review - e confirmou Clooney como um diretor extremamente talentoso.

Dono de um apurado senso de humor, Clooney encontrou no tom sarcástico do script de Kaufman o material perfeito para sua estreia. Mesmo contando uma história séria, com toques de violência e até mesmo lances de grande dramaticidade, ele transformou seu filme em uma comédia original, criativa e imprevisível, que em nenhum momento dá pistas de tratar-se da obra de um iniciante. O ex-galã (que arrumou ainda espaço para uma participação como ator, talvez como chamariz de bilheteria) se utiliza de soluções bastante inteligentes no desenvolvimento da trama, demonstrando uma segurança ímpar. Contando ainda com a edição do experiente Stephen Mirrione (colaborador de seu amigo Steven Soderbergh), ele faz de "Confissões de uma mente perigosa" um divertido filme de espionagem onde a espionagem é quase uma coadjuvante de luxo. Nada é exatamente o que parece em seu filme, e é justamente aí que está toda a graça.



Sam Rockweel deita e rola como Chuck, um produtor de programas de televisão (criador do famoso "Namoro na TV") que é recrutado pelo misterioso Jim Byrd (Clooney) para trabalhar na CIA. A princípio pensando tratar-se de uma brincadeira, logo ele começa a perceber que está realmente envolvido em violentos trabalhos em várias partes do mundo, sempre acompanhado da bela Patricia Watson (Julia Roberts, se divertindo perceptivelmente no papel) e do sinistro Keeler (Rutger Hauer). Ao tentar equilibrar suas duas personalidades - empresário do show business e matador a serviço do governo - ele acaba entrando em um surto psicótico que o afasta da mulher que ama, Penny (Drew Barrymore).

Contando a coisa parece muito séria, mas não é. Realizado com um senso de ritmo invejável - para o que o roteiro magistral de Kaufman (que não gostou da maneira com que o cineasta tratou seu trabalho no corte final) colabora lindamente - "Confissões" não deixa a peteca cair em momento algum, surpreendendo a plateia constantemente (seja nas reviravoltas da trama ou na participação afetiva de Matt Damon e Brad Pitt em uma sequência hilariante). Fotografado com discrição por Newton Thomas Sigel (que assina a fotografia dos filmes de Bryan Singer) em tons pastéis que contrastam com o colorido exagerado dos cenários televisivos dos programas de Barris, o filme só peca em um detalhe: não é histericamente engraçado nem tampouco é um policial tradicional, e essa indecisão (ou transgressão das regras, o que soa mais apropriado) acabou lhe custando caro. Ao custo de quase 30 milhões de dólares, sua renda doméstica mal chegou aos 16. Felizmente o fracasso comercial não abalou o George Clooney diretor, que depois presentearia a plateia com filmes mais sérios e ainda mais elogiados, como "Boa noite, e boa sorte" (2005) e "Tudo pelo poder" (2011).

No final das contas, "Confissões de uma mente perigosa" é um dos mais empolgantes filmes de estreia que se tem notícia, que cresce a cada revisão. Quem não conhece não pode perder tempo! E, além do mais... quem pode resistir ao carinho do ator tornado diretor com a família, ao escolher uma canção de sua tia Rosemary Clooney para encerrar a projeção?

quinta-feira

DONNIE DARKO

DONNIE DARKO (Donnie Darko, 2001, Pandora Cinema/Flower Films, 113min) Direção e roteiro: Ricjard Kelly. Fotografia: Steven Poster. Montagem: Sam Bauer, Eric Strand. Música: Michael Andrews. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Alexander Hammond/Jennie Harris. Produção executiva: Chris J. Ball, Drew Barrymore, Casey La Scala, Hunt Lowry, Aaron Ryder, William Tyrer. Produção: Adam Fields, Nancy Juvonen, Sean McKittrick. Elenco: Jake Gyllenhaal, Jena Malone, Maggie Gyllenhaal, Drew Barrymore, Patrick Swayze, Noah Wyle, Mary McDonnell, Seth Rogen. Estreia: 19/01/01 (Sundance Festival)

"Donnie Darko" é tão desconcertante em sua mistura de gêneros que conseguiu dar um nó na cabeça dos críticos e do público em geral, que ignorou sua passagem pelos cinemas. Mas é justamente esse sincretismo que fez dele um cult movie por excelência, adorado por fãs que viram nele um suspense acima da média, com elementos fortes de ficção científica e até pitadas de romance. Co-produzido pela atriz Drew Barrymore (através de sua Flower Films), o filme escrito e dirigido por Richard Kelly (então com meros 25 anos) subverte algumas regras do cinema mainstream e consegue conquistar o espectador, mesmo que apenas em seus minutos finais ele faça algum sentido.

É preciso embarcar na viagem de Kelly para se curtir "Donnie Darko", deixando de lado qualquer preconceito. A trama começa em 02 de outubro de 1988, quando dois acontecimentos transformam a rotina do personagem-título, um adolescente vivido por Jake Gylenhaal (e que quase foi interpretado por Mark Wahlberg): a turbina de um avião cai sobre seu quarto enquanto ele está fora de casa em um ataque de aparente sonambulismo e ele conhece Frank, um coelho do tamanho de um homem, que torna-se seu "amigo imaginário". Dependente de remédios e sessões de terapia, o jovem Darko fica sabendo, através de Frank, que o mundo tem data para acabar: no Halloween, dia 31 de outubro, ou seja, dali a 29 dias. Enquanto tenta descobrir como será o final dos tempos, ele arruma tempo para se apaixonar pela problemática Gretchen (Jena Malone) e busca uma maneira de viajar no tempo. Nos momentos vagos, obedece a ordens cada vez mais agressivas de Frank, que o incitam a atos quase terroristas.



"Donnie Darko" é, definitivamente, um filme de difícil classificação - e qualquer tentativa de resumí-lo soaria superficial e inútil. Um público menos paciente, mal-acostumado com tramas mastigadinhas desde os créditos de abertura provavelmente irá abominar e passar ao largo das aventuras de Darko, aparentemente herméticas mas convincentes e plausíveis dentro de seu universo próprio. Kelly fez de seu filme de estreia um quebra-cabeças sombrio que encontra na atuação quase propositalmente apática de Jake Gylenhaal um de seus maiores trunfos. Misturando conceitos científicos com uma alta dose de suspense e dubiedade, o diretor/roteirista tornou-se uma promessa das mais consistentes do início do século XXI - ainda que depois tenha cometido coisas indescritíveis como "A caixa", estrelado por Cameron Diaz, que, em sua tentativa de mesclar gêneros acabou tranformando-se em um samba do crioulo doido.

No final das contas, "Donnie Darko" é um conto sobre segundas chances e autosacrifícios, ainda que pareça mais um pesadelo criado por David Lynch do que um sensível drama semiaçucarado imaginado por Frank Capra. Contando com um elenco de coadjuvantes de primeira linha - a própria Drew Barrymore, Patrick Swayze como um suspeito guru de autoajuda e Noah Wyle, da série "Plantão médico" como um professor - e um clima dark e opressivo, o filme ainda apresenta uma nostálgica trilha sonora composta de hits dos anos 80, cantados por gente como Eccho & The Bunnymen (cuja "The killing moon" abre o filme), Duran Duran e Joy Division - além de encerrar com uma bela versão de "Mad world" do Tears for Fears. Quem procura fugir dos padrões, gosta de obras estranhas e encarar uma história para pensar já encontrou seu filme de cabeceira.

terça-feira

NUNCA FUI BEIJADA


NUNCA FUI BEIJADA (Never been kissed, 1999, Fox 2000 Pictures, 107min) Direção: Raja Gosnell. Roteiro: Abby Kohn, Marc Silverstein. Fotografia: Alex Nepomniaschy. Montagem: Debra Chiate, Marcelo Sansevieri. Música: David Newman. Figurino: Mona May. Direção de arte/cenários: Steven J. Jordan/Suzette Sheets. Produção executiva: Drew Barrymore. Produção: Sandy Isaac, Nancy Juvonen. Elenco: Drew Barrymore, Michael Vartan, David Arquette, John C. Reilly, Molly Shanon, Garry Marshall, Leelee Sobieski, Jessica Alba, James Franco. Estreia: 09/4/99
 
Drew Barrymore, a garotinha Gertie de “ET, o extra-terrestre” cresceu e apareceu. Em “Nunca fui beijada” ela não só é a protagonista absoluta como ainda aparece como produtora executiva, através de sua produtora, a Flower Films. E dando mostras de que sabe muito bem de suas limitações como atriz, ela não quis buscar profundos dramas existenciais para voltar às telas. “Nunca fui beijada” é uma comédia romântica sem maiores novidades e talvez por isso mesmo funcione e cumpra tão bem seus objetivos de divertir sem exigir muito exercício da massa cinzenta. E é bastante engraçado, especialmente para aqueles que já conseguiram superar os traumas de uma adolescência conturbada.

No filme, dirigido por Raja Gosnell (que depois cometeria a versão live action de "Scooby Doo"), Drew – deixando pra trás um sério problema com vícios em drogas e álcool e uma tentativa de ressuscitar a carreira como símbolo sexual em filmes sofríveis – vive Josie Geller, a competente revisora de um jornal de Chicago que torce desesperadamente pela chance de virar repórter. Essa chance chega quando recebe de seu chefe (um surpreendente Garry Marshall, o diretor de “Uma linda mulher”) a incumbência de disfarçar-se de estudante secundarista para escrever uma reportagem sobre a juventude contemporânea. Mesmo desestimulada por seu amigo e editor Gus (John C. Reilly), Josie matricula-se em uma escola, e tão logo chega começa a lembrar-se de que seu período como adolescente não foi dos melhores. Renegada pelas patricinhas e ridicularizada pelos galãs de plantão, ela encontra amizade apenas com uma nerd, Aldys (Leelee Sobieski) - com quem se identifica de imediato - e com o professor de literatura Sam Coulson (Michael Vartan), por quem se apaixona perdidamente. As coisas começam a melhorar quando seu irmão Rob (David Arquette) também entra na escola e, popular como em seu tempo de estudante, a ajuda a galgar posições mais altas no status estudantil.

        

Nada em “Nunca fui beijada” é novidade. Quando Josie encontra-se pela primeira vez com seu professor, é óbvio que irá apaixonar-se por ele. Quando começam os preparativos para o Baile de Formatura, é claro que ele será o palco do clímax, quando as verdades virão à tona. E quando a jovem jornalista marca um encontro com seu amado em pleno campo de futebol todos sabem o que acontecerá. Mas a simpatia e o timing cômico de Barrymore, a trilha sonora recheada de bons nomes (John Lennon, REM, The Smiths, Cardigans), as citações pop (que vão de “Negócio arriscado”, com Tom Cruise a “Carrie, a estranha”, de Brian de Palma, passando por Shakespeare e Barbie), o elenco de apoio (que conta com a ótima Molly Shannon) e alguns bons momentos de humor compensam a falta de criatividade.

No final das contas, esse primeiro filme de Drew Barrymore como produtora executiva é uma deliciosa e bobinha sessão da tarde, que diverte sem fazer esforço e traz algumas cenas destinadas a clássicas do gênero (a protagonista em sua versão anos 80, ao som de "Like a prayer", de Madonna é hilária). Pode não ter mudado a história do cinema, mas é pop de qualidade, além de contar com as participações de Jessica Alba e James Franco em início de carreira. E é, acima de tudo, extremamente romântico para aqueles que acreditam em contos de fada!

sábado

TODOS DIZEM EU TE AMO

TODOS DIZEM EU TE AMO (Everyone says I love you, 1996, Miramax Films/Buena Vista Pictures/Magnolia Productions, 101min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo DiPalmo. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Elaine O'Donnell. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Julia Roberts, Goldie Hawn, Alan Alda, Drew Barrymore, Edward Norton, Tim Roth, Natasha Lyonne, Lukas Haas, Natalie Portman, Billy Crudup, Gabby Hoffman. Estreia: 06/12/96

Imaginar um musical dirigido por Woody Allen pode parecer tão difícil quanto visualizar um filme de terror comandado por John Ford. Mas é exatamente isso que "Todos dizem eu te amo" é. Ao homenagear suas três cidades preferidas (Nova York, Paris e Veneza), Allen construiu uma deliciosa comédia musical, onde suas personagens cantam e dançam do nada - da mesma forma que ocorria nos clássicos do gênero - enquanto vivem suas histórias de amor, narradas no mesmo tom sarcástico e sofisticado de suas obras anteriores, que o colocaram na posição privilegiada de ser um dos mais autorais cineastas norte-americanos.

A bem da verdade, o único fator que diferencia "Todos dizem eu te amo" do resto da filmografia de Allen é sua opção em utilizar algumas clássicas canções populares dos EUA em diálogos - mas por "populares" entenda-se conhecidos dentro de um restrito nicho de eruditismo que de certa forma o afasta de um sucesso mais amplo junto ao público. As músicas entoadas pelos atores escolhidos pelo diretor - que mais uma vez utiliza-se de um elenco à prova de qualquer crítica - são pérolas do cancioneiro americano, com obras de Cole Porter e Rodgers & Hart, entre outros menos famosos. E são cantadas sem preocupações em encantar os ouvidos da audiência. A proposta de Allen é justamente o oposto dos musicais tradicionais: seus atores não treinaram a voz e só souberam que estavam escalados para um musical depois de ter o contrato assinado. Dessa forma, nomes como Edward Norton, Goldie Hawn e Julia Roberts entoam desajeitadamente suas dores de amor sem maiores enfeites de pós-produção (apenas Drew Barrymore salvou-se do drama, convencendo o diretor que não tinha a menor condição de cantar...) E, por incrível que pareça, justamente essa canhestra opção é que diverte o público.


A trama do filme segue o estilo Woody Allen de sempre: Steffi (Goldie Hawn) e Bob Dandridge (Alan Alda) formam um bem-sucedido casal que vive em um amplo apartamento muitíssimo bem localizado em Nova York. Sua numerosa família passa por problemas amorosos, narrados por DJ (Natasha Lyonne), filha de Steffi com seu ex-marido Joe Berlin (Woody Allen), que mora em Paris. A filha mais velha de Bob, Skylar (Drew Barrymore), acaba de ficar noiva do mauricinho Holden Spencer (Edward Norton), mas começa a ter dúvidas a respeito do relacionamento quando conhece Charles Ferry (Tim Roth), um ex-presidiário protegido por Steffi. Enquanto isso, Joe, durante uma viagem à Veneza com DJ, se encanta por Von (Julia Roberts), uma americana de cujos desejos e aspirações ele tem conhecimento através dos atos de espionagem da filha.

Com uma fotografia carinhosa que abraça com paixão as cidades escolhidas pelo cineasta, "Todos dizem eu te amo" é uma declaração de amor ao ato de estar-se apaixonado. As histórias românticas contadas pelo roteiro simples de Allen tem em comum a luta das personagens por sua felicidade, mesmo que para isso tenham que quebrar a cara constantemente. Apesar de alguns diálogos bastante espertos, dessa vez Woody não capricha no enredo, preferindo dedicar sua atenção aos números musicais agradáveis e ágeis - além de divertidamente próximos da realidade. Mesmo assim, a fantasia toma conta quando o fantasma do patriarca da família Dandridge une-se a outros espectros para cantar um hino à vida e Goldie Hawn flutua no ar durante um número de dança em Paris. Para os detratores de Allen, que o consideram maçante, é um prato cheio. Para os fãs, que admiram seu bom-gosto e delicadeza, é uma festa para os olhos.

"Todos dizem eu te amo" é um típico filme de Woody Allen, ainda que, paradoxalmente, seja diferente de todos os demais. Não recomendável para iniciantes na obra do cineasta, é, no entanto, um oásis de criatividade diante da falta de originalidade do cinema americano. E não é sempre que vemos Edward Norton cantando e dançando "My baby just cares for me" em uma joalheria....

segunda-feira

SOMENTE ELAS


SOMENTE ELAS (Boys on the side, 1995, Warner Bros, 115min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Don Roos. Fotografia: Donald E. Thorin. Montagem: Michael R. Miller. Música: David Newman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ken Adam/Rick Simpson. Produção executiva: Patricia Karlan, Don Roos. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther, Herbert Ross. Elenco: Whoopi Goldberg, Mary-Louise Parker, Drew Barrymore, Matthew McConaughey, James Remar, Estelle Parsons. Estreia: 03/02/95

Não seria exagero afirmar que o cineasta Herbert Ross tinha um jeito todo especial de falar sobre mulheres em seus filmes. Duas de suas mais conhecidas obras, por exemplo, tem personagens femininas fortes e podem ser considerados "filmes de mulher": "Momento de decisão", que punha Shirley MacLaine e Anne Bancroft frente a frente para resolver diferenças do passado, e "Flores de aço", drama choroso com grande elenco de atrizes e que deu a primeira indicação ao Oscar de Julia Roberts. "Somente elas", seu último filme, também, como o título sugere, concentra toda sua atenção em representantes fortes do sexo frágil. No rastro do bem-sucedido "Thelma & Louise", que ressuscitou o interesse do público por mulheres em situações menos "domésticas", o filme escrito por Don Roos - que depois partiria para a carreira de diretor dos injustamente desconhecidos "O oposto do sexo" e "Finais felizes" - mistura elementos de humor, drama e road-movie em um resultado bastante agradável e competente, ainda que longe de ser brilhante.

Quando o filme começa, a cantora Jane de Luca (Whoopi Goldberg) acaba de abandonar o bar onde fazia suas apresentações - e era ignorada pela plateia - e, desejando mudar-se para a Califórnia, responde a um anúncio de jornal da jovem Robin (Mary-Louise Parker), que precisa de companhia na viagem. No meio do caminho, as duas encontram a amalucada Holly (Drew Barrymore), amiga de Jane que acaba de descobrir-se grávida - sem saber se o pai é ou não seu namorado drogado e violento. Quando o namorado de Holly é encontrado morto, as três apressam a jornada, mas resolvem estabelecer-se em uma cidade do Texas. A vida simples e tranquila das três amigas sofre uma reviravolta quando Holly cai de amores por Abe (Matthew McConaughey), um policial honesto e dedicado e Jane se descobre apaixonada por Robin, que é soropositiva e tenta fugir das lembranças da morte do irmão pequeno.



"Somente elas" não foge dos clichês do gênero, mas os apresenta de maneira leve e fluente, sem forçar a barra, ao menos até seu terço final, quando a doença de Robin avança e todas são obrigadas a lidar com as consequências da morte do namorado de Holly. Esse terceiro ato talvez seja o que mais se aproxima dos dramalhões que o cinema americano adora produzir, mas não convenceu muito a crítica, falhando no que talvez fosse seu maior objetivo: ganhar certas estatuetas. Mary-Louise Parker é uma boa atriz, como a série de TV "Weeds" viria a comprovar, mas soa repetitiva em muitos momentos, não conquistando a plateia com sua personagem, ao contrário do que acontece com Drew Barrymore, dona de uma simpatia e um carisma irresistíveis que disfarçam suas pequenas falhas como atriz dramática: sua Holly parece ter sido escrita para ela, tamanha a identificação com o papel. E Whoopi Goldberg dispensa comentários. Dona de um perfeito timing cômico e um grande talento dramático, é ela quem conduz com maestria o filme de Ross, fazendo com o que o público perdoe certos exageros da trama.

E o que falar da trilha sonora, então? Como o próprio título sugere, até mesmo as canções escolhidas para "Somente elas" são femininas. Desde a versão interpretada por Goldberg de "Piece of my heart" até sua devastadora interpretação de "You got it", de Roy Orbison (cuja gravação na voz de Bonnie Rait encerra o filme), o público é brindado com uma primorosa seleção de músicas cantadas por mulheres. Estão presentes Annie Lennox, Cranberries, Sheryl Crow, Pretenders e Indigo Girls, dentre outras menos conhecidas, o que faz com que "ouvir" o filme seja tão bom quanto assistí-lo.

"Somente elas" é um perfeito drama para quem gosta de encharcar lenços de papel. A amizade entre as três protagonistas parece real, ainda que aconteça de forma quase abrupta na primeira metade, e a química entre as atrizes é excelente. Alguns diálogos são bastante espertos - cortesia do humor corrosivo de Don Roos - e até mesmo o final quase depressivo (só não o é totalmente porque existe o eterno ciclo da vida se renovando com o bebê de Holly) funciona e atinge seus objetivos. Não é uma obra-prima, mas vale a pena ser visto, nem que seja para conferir o trabalho de equipe de Goldberg, Parker e Barrymore.

sexta-feira

ET, O EXTRA-TERRESTRE


ET, O EXTRATERRESTRE (ET, the extra-terrestrial, 1982, Universal Pictures, 115min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Melissa Mathison. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Carol Littleton. Música: John Williams. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Jackie Carr. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção: Kathleen Kennedy, Steven Spielberg. Elenco: Henry Thomas, Dee Wallace, Drew Barrymore, C. Thomas Howell, Peter Coyote, Robert MacNaughton. Estreia: 11/6/82

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Trilha Sonora, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora


De vez em quando, para se gostar de um filme, é necessário deixar de lado a razão e embarcar na proposta do diretor. É o que acontece com “ET, o extra-terrestre”, sucesso absoluto de Steven Spielberg. Quem começar o filme esperando ver uma ficção científica com elocubrações filosóficas sobre a origem do universo, vai perder duas horas da vida. Mas quem entrar no espírito da coisa e baixar a guarda provavelmente sairá da sessão com lágrimas nos olhos e uma sensação de paz e serenidade no coração. Exagero? Vai dizer isso pras milhões de pessoas que lotaram os cinemas mundo afora e se emocionaram a valer com a história da amizade entre o menino Elliot (Henry Thomas) e seu extra-terrestre de estimação.

Elliot, o protagonista do filme, é uma criança como outra qualquer. Ainda sofrendo com a separação dos pais, ele sente-se rejeitado pelo irmão mais velho e, sem ter amigos da sua idade para brincar, ele encontra, na garagem de sua casa, um extra-terrestre que ficou na Terra por engano. A princípio temeroso, aos poucos o menino deixa-se levar pelo carinho que sente por ET e o apresenta a sua irmãzinha Gertie (Drew Barrymore) e ao resto de sua família. A coisa começa a ficar complicada quando agentes do governo descobrem a existência do ser alienígena e resolvem caçá-lo. É a partir daí que a genialidade de Spielberg se revela.


Ao eleger a inocência infantil como a maior qualidade que um ser humano ou extra-terrestre pode ter, o diretor optou por rotular os adultos (que, com exceção da mãe de Elliot não tem seus rostos mostrados até o terço final) como vilões e, sem que se perceba de imediato, o público já voltou à infância, está torcendo por Elliot e sua turma e de jeito nenhum fica questionando se bicicletas podem voar. Por um par de horas o público, da idade que for, volta a ser criança. E a câmera, sempre do ponto de vista infantil, só ajuda no efeito, assim como a inesquecível música de John Williams.

“ET” levou quatro Oscar pra casa: efeitos visuais, trilha sonora, efeitos sonoros e som. Não ficou com a estatueta de melhor filme, que foi parar nas mãos da “adulta e séria” cinebiografia de Mahatma Gandhi. Os fãs da pequena obra-prima de Spielberg, no entanto não se importam. Crianças, de idade e de alma, não se importam com prêmios e sim com o que fica em sua memória. E não há quem assista a “ET” e esqueça de sua bela história, que, a despeito dos inspirados efeitos especiais, se mantem como seu principal ingrediente.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...