DESAPARECIDO: UM GRANDE MISTÉRIO (Missing, 1982, Universal Pictures, 122min) Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Costa-Gavras, Donald Stewart, livro de Thomas Hauser. Fotografia: Ricardo Aronovich. Montagem: Françoise Bonnott. Música: Vangelis. Figurino: Joe I. Tompkins. Direção de arte/cenários: Peter Jamison/Linda Spheeris. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Edward Lewis, Mildred Lewis. Elenco: Jack Lemmon, Sissy Spacek, Melanie Mayron, John Shea, Jerry Hardin. Estreia: 12/02/82
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Jack Lemmon), Atriz (Sissy Spacek), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Filme, Melhor Ator (Jack Lemmon)
Se há uma qualidade que jamais poderá ser negada ao cineasta grego Costa-Gavras é coragem! Em 1969, ele sacudiu o mundo com seu polêmico "Z" - e ganhou um Oscar de melhor filme estrangeiro por isso; em 1972, voltou a mexer no vespeiro político com "Estado de sítio". E em 1982, com o apoio de um grande estúdio de Hollywood (a Paramount) e com dois grandes atores americanos à frente de seu elenco (Jack Lemmon e Sissy Spacek), teve a suprema ousadia de apontar o dedo para a colaboração da CIA no golpe de estado ocorrido no Chile em 1973. Mesmo não citando nominalmente o país governado por Salvador Allende até sua deposição - para proteger inocentes e o filme em si, conforme os créditos de abertura -, o filme "Desaparecido: um grande mistério", baseado no livro de Thomas Hauser tampouco esconde sua origem (a ponto de mostrar um caixão com o nome da capital do país, Santiago, em uma de suas cenas mais cruciais) e toca sem medo em um assunto que tanto o governo norte-americano quanto os espectadores certamente prefeririam esquecer (ou sequer conhecer). Premiado com a Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes (que também deu a Jack Lemmon sua láurea de melhor ator) e indicado a quatro Oscar (incluindo melhor filme mas não de melhor diretor), o longa de Costa-Gavras é a confirmação de seu talento em buscar temas controversos - e transformá-los em grandes e relevantes produções cinematográficas.
O golpe de mestre de "Desaparecidos" talvez seja aproximar o público médio de um tema difícil através de personagens menos distantes de sua realidade. O casal norte-americano que vive no Chile e é pego de surpresa com um golpe militar que transforma radicalmente sua rotina está muito longe de ser uma dupla de heróis - ele, Charles Horman (John Shea) é um jornalista e tradutor, e ela, Beth (Sissy Spacek, indicada ao Oscar de melhor atriz), dona de casa. Sua escolha em viver no país tem a ver apenas com seus pontos de vista menos conservadores, que batem de frente, por exemplo, com aqueles do pai de Charles, Ed (Jack Lemmon), um homem religioso que vê a aventura do filho e da nora com olhos pouco simpáticos. Quando Charles desaparece e Beth ouve dos vizinhos que ele foi levado por soldados, começa uma busca desesperada por seu paradeiro - um caminho repleto de meias-verdades, opressão e ameaças veladas, que a faz aceitar sem reservas a ajuda do sogro, que chega de Nova York com o objetivo claro de localizar o filho. A princípio contando com o apoio da embaixada norte-americana, aos poucos a dupla começa a compreender o horror da ditadura - e descobrem que o sumiço de Charles pode ter a ver com o fato de ele saber mais do que deveria a respeito da participação dos EUA no golpe.
Narrado em ritmo de thriller - um gênero no qual o cineasta exercita todo o seu poder de persuasão - e explorando com perfeição a trilha sonora de Vangelis e a edição caprichada de Françoise Bonnot, "Desaparecido" envolve o público gradualmente, construindo seu suspense com maestria e sensibilidade. A partir do desaparecimento de Charles e do começo da procura incansável de Beth e Ed, o filme mergulha o espectador em um labirinto de mentiras e decepções, enquanto aproxima lentamente sogro e nora antes incompatíveis. Essa artimanha, ao contrário de enfraquecer a denúncia política, a torna universal, e se torna ainda mais potente graças às atuações na medida certa de Jack Lemmon e Sissy Spacek: conforme a barra vai ficando mais e mais pesada, seus desempenhos exemplares vão demonstrando uma série de nuances até então reprimidas. O roteiro vencedor do Oscar de Costa-Gavras e Donald Stewart também acerta ao ir revelando paulatinamente as pistas sobre o paradeiro de Charles - até chegar a um clímax incômodo e doloroso que abalou tanto o governo do Chile (que o proibiu durante a ditadura de Pinochet) quanto o norte-americano (que lançou uma declaração poucos dias antes da estreia do filme negando terminantemente as acusações feitas pela trama).
Elogiado unanimemente pela crítica - o National Board of Review o escolheu como um dos melhores filmes de 1982 - e a estreia de Costa-Gavras no cinema americano, "Desaparecido: um grande mistério" é um filme político que não exige do público um conhecimento prévio do assunto. Escrito com inteligência e dirigido com extremo senso de respeito pela história contada, é uma obra que conquista pela seriedade e pela sobriedade: mesmo diante de acontecimentos trágicos, seus personagens não apelam para o piegas, evitando ao máximo catarses emocionais exageradas: esplêndidos em seus papéis, Lemmon e Spacek comunicam ao máximo com o mínimo de recursos, sublinhando cada linha de diálogo (ou cada momento de silêncio devastador) com seu grande talento. Uma obra adulta, séria, relevante e infelizmente cada vez mais atual, "Desaparecidos" é um filme que precisa ser redescoberto e louvado como um dos mais importantes da década de 1980.
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terça-feira
domingo
AMÉM
AMÉM (Amen., 2002, Canal +/K.G. Productions, 132min) Direção:
Costa-Gavras. Roteiro: Costa-Gavras, Jean-Claude Grumberg, peça teatral
"Del stellvertrer", de Rolf Hochhuth. Fotografia: Patrick Blossier.
Montagem: Yannick Kergoat. Música: Armand Amar. Figurino: Edith
Vesperini. Direção de arte/cenários: Ari Hantke/Carmen Pasula. Produção:
Andrei Boncea, Michèle Ray-Gavras. Elenco: Ulrich Tukur, Mathieu
Kassovitz, Ulrich Muhe, Michel Duchaussoay, Ion Caramitru, Marcel Iures.
Estreia: 13/02/02 (Festival de Berlim)
Diretor de alguns dos mais contundentes exemplares do chamado "cinema político" - o que inclui o oscarizado "Z" e o aclamado "Missing, o desaparecido" - o grego Constantin Costa-Gavras foi o cineasta ideal para levar às telas a peça do dramaturgo alemão Rolf Hochhuth, lançada em 1963 já sob a aura da polêmica. Falando sobre um tema ainda fresco e desconfortável - como ainda hoje o é - "Amém" tratava da passividade da Igreja católica diante das atrocidades cometidas contra os judeus nos campos de concentração nazistas durante a II Guerra Mundial. Não foi surpresa, portanto, que o Vaticano tenha fechado suas portas para a realização do filme, que escancara sem pena nem dó os motivos egoístas e ditos diplomáticos da alta cúpula cristã no período em que Hitler esteve no comando alemão. Com uma narrativa direta e sem espaço para sentimentalismos, Costa-Gavras mergulha na consciência de um oficial da SS e no desespero de um jovem padre para contar à plateia uma história de horrores e indiferença, capaz de revoltar ao mais pacato dos espectadores.
A primeira sequência já é Costa-Gavras puro: durante um congresso da ONU em 1936, um jornalista entra sorrateiramente distribuindo panfletos e, antes de tirar a própria vida com um tiro no peito, alerta os presentes sobre os crimes cometidos contra o povo judeu pelo governo alemão. É o ponto de partida para uma trama centrada em dois personagens fortes e determinados o bastante para lutar contra o status quo, mesmo que isso faça deles dois proscritos em suas carreiras. O primeiro a ser apresentado ao público é Kurt Gerstein (Ulrich Tukur), cientista alemão recrutado pela SS como engenheiro sanitarista. À princípio pensando que seu trabalho é purificar a água consumida pelo exército alemão e depois criar um gás que permita exterminar qualquer tipo de animal pestilento dos campos de concentração, ele descobre, transtornado, que seu trabalho está sendo utilizado para matar milhares de judeus que o governo nazista insiste em afirmar que está apenas deslocando para outros países. Determinado a revelar ao mundo a criminosa farsa - por questões éticas e humanistas, já que foi criado como cristão - Gerstein tenta chamar para seu lado os intelectuais e religiosos amigos de sua família, mas percebe que está sendo tratado como traidor. Sua caminhada só encontra apoio em Riccardo Fontana (Mathieu Kassovitz, o galã de "O fabuloso destino de Amélie Poulain"), um padre com relações estreitas com o Vaticano - seu pai é amigo antigo do Papa Pio XII.
Com a entrada de Riccardo em cena, a ação se transfere dos escritórios da SS para os corredores luxuosos do Vaticano e afins. Ciente do genocídio cometido pela Alemanha, ele usa de seu poder em transitar pelos meandros do poder religioso para convencer a todos ao seu redor do tamanho do estrago, sendo sempre repelido, ignorado ou simplesmente ridicularizado. Percebendo chocado que a indiferença da Igreja tem a ver com seus próprios interesses econômicos e políticos, o jovem acaba virando as costas para os dogmas católicos e, munido apenas de sua crença na justiça e nas informações divulgadas a ele por Gerstein - que não hesita em oferecer-se como testemunha ocular caso seja necessário - deixa de lado a teoria e parte para a ação, arriscando a vida para impedir uma desgraça ainda maior junto ao povo judeu. É desnecessário dizer que embarca sozinho nessa perigosa missão.
Tratando o tema com sobriedade e firmeza, Costa-Gavras foge do didatismo e da mesmice dos filmes do gênero ao concentrar seu foco nos dois protagonistas, apenas ocasionalmente virando sua câmera para retratar os horrores dos campos de concentração, tantas vezes já vistos no cinema - é o caso da sufocante sequência em que Gerstein toma conhecimento do mal que sua ciência vem fazendo aos prisioneiros de guerra. Seu filme é feito de diálogos, palavras, sentimentos e frustração, em contraponto a obras que se dedicam a explorar o assunto com imagens brutais ou líricas. Tal opção o afasta dos filmes de guerra convencionais - a guerra é travada dentro da mente dos personagens e em cenários menos amplos do que campos de batalha ou de concentração - e o aproxima do espectador comum, que sente-se uma testemunha privilegiada de um combate histórico e poucas vezes discutido com tanta clareza e coragem. Sem medo de despertar discussões, "Amém" é importante e imprescindível, mesmo que não tenha o mesmo brilhantismo das melhores obras do diretor.
Diretor de alguns dos mais contundentes exemplares do chamado "cinema político" - o que inclui o oscarizado "Z" e o aclamado "Missing, o desaparecido" - o grego Constantin Costa-Gavras foi o cineasta ideal para levar às telas a peça do dramaturgo alemão Rolf Hochhuth, lançada em 1963 já sob a aura da polêmica. Falando sobre um tema ainda fresco e desconfortável - como ainda hoje o é - "Amém" tratava da passividade da Igreja católica diante das atrocidades cometidas contra os judeus nos campos de concentração nazistas durante a II Guerra Mundial. Não foi surpresa, portanto, que o Vaticano tenha fechado suas portas para a realização do filme, que escancara sem pena nem dó os motivos egoístas e ditos diplomáticos da alta cúpula cristã no período em que Hitler esteve no comando alemão. Com uma narrativa direta e sem espaço para sentimentalismos, Costa-Gavras mergulha na consciência de um oficial da SS e no desespero de um jovem padre para contar à plateia uma história de horrores e indiferença, capaz de revoltar ao mais pacato dos espectadores.
A primeira sequência já é Costa-Gavras puro: durante um congresso da ONU em 1936, um jornalista entra sorrateiramente distribuindo panfletos e, antes de tirar a própria vida com um tiro no peito, alerta os presentes sobre os crimes cometidos contra o povo judeu pelo governo alemão. É o ponto de partida para uma trama centrada em dois personagens fortes e determinados o bastante para lutar contra o status quo, mesmo que isso faça deles dois proscritos em suas carreiras. O primeiro a ser apresentado ao público é Kurt Gerstein (Ulrich Tukur), cientista alemão recrutado pela SS como engenheiro sanitarista. À princípio pensando que seu trabalho é purificar a água consumida pelo exército alemão e depois criar um gás que permita exterminar qualquer tipo de animal pestilento dos campos de concentração, ele descobre, transtornado, que seu trabalho está sendo utilizado para matar milhares de judeus que o governo nazista insiste em afirmar que está apenas deslocando para outros países. Determinado a revelar ao mundo a criminosa farsa - por questões éticas e humanistas, já que foi criado como cristão - Gerstein tenta chamar para seu lado os intelectuais e religiosos amigos de sua família, mas percebe que está sendo tratado como traidor. Sua caminhada só encontra apoio em Riccardo Fontana (Mathieu Kassovitz, o galã de "O fabuloso destino de Amélie Poulain"), um padre com relações estreitas com o Vaticano - seu pai é amigo antigo do Papa Pio XII.
Com a entrada de Riccardo em cena, a ação se transfere dos escritórios da SS para os corredores luxuosos do Vaticano e afins. Ciente do genocídio cometido pela Alemanha, ele usa de seu poder em transitar pelos meandros do poder religioso para convencer a todos ao seu redor do tamanho do estrago, sendo sempre repelido, ignorado ou simplesmente ridicularizado. Percebendo chocado que a indiferença da Igreja tem a ver com seus próprios interesses econômicos e políticos, o jovem acaba virando as costas para os dogmas católicos e, munido apenas de sua crença na justiça e nas informações divulgadas a ele por Gerstein - que não hesita em oferecer-se como testemunha ocular caso seja necessário - deixa de lado a teoria e parte para a ação, arriscando a vida para impedir uma desgraça ainda maior junto ao povo judeu. É desnecessário dizer que embarca sozinho nessa perigosa missão.
Tratando o tema com sobriedade e firmeza, Costa-Gavras foge do didatismo e da mesmice dos filmes do gênero ao concentrar seu foco nos dois protagonistas, apenas ocasionalmente virando sua câmera para retratar os horrores dos campos de concentração, tantas vezes já vistos no cinema - é o caso da sufocante sequência em que Gerstein toma conhecimento do mal que sua ciência vem fazendo aos prisioneiros de guerra. Seu filme é feito de diálogos, palavras, sentimentos e frustração, em contraponto a obras que se dedicam a explorar o assunto com imagens brutais ou líricas. Tal opção o afasta dos filmes de guerra convencionais - a guerra é travada dentro da mente dos personagens e em cenários menos amplos do que campos de batalha ou de concentração - e o aproxima do espectador comum, que sente-se uma testemunha privilegiada de um combate histórico e poucas vezes discutido com tanta clareza e coragem. Sem medo de despertar discussões, "Amém" é importante e imprescindível, mesmo que não tenha o mesmo brilhantismo das melhores obras do diretor.
terça-feira
O QUARTO PODER
O
QUARTO PODER (Mad city, 1997, Warner Bros, 115min) Direção:
Costa-Gavras. Roteiro: Tom Matthews, história de Tom Matthews, Eric
Williams. Fotografia: Patrick Blossier. Montagem: Françoise Bonnot.
Música: Thomas Newman. Figurino: Deborah Nadoolman. Direção de
arte/cenários: Catherine Hardwicke/Jan Pascale. Produção executiva:
Stephen Brown, Wolfgang Glattes, Jonathan D. Krane. Produção: Anne
Kopelson, Arnold Kopelson. Elenco: Dustin Hoffman, John Travolta, Alan
Alda, Mia Kirschner, Blythe Danner, Robert Prosky. Estreia: 10/10/97
A nociva combinação entre a mídia e a ambição humana sempre encontrou nas telas de cinema vários exemplos e no mínimo um clássico indiscutível, o genial "A montanha dos sete abutres", de Billy Wilder. Essa receita explosiva pareceu irresistível para o cineasta grego Constatin Costa-Gavras, autor de filmes seminais do cinema político, como o oscarizado "Z" (69) e "Missing, o desaparecido" - estrelado por Jack Lemmon em 1982 - que viu na história de um homem comum sendo manipulado por um repórter sensacionalista em sua gana por audiência mais um potencial sucesso para sua bem-sucedida e provocativa carreira. Porém, ao contrário do que se poderia esperar, "O quarto poder" - a união da instigante trama com o talento para a polêmica do diretor - caiu no vazio das boas intenções. Fracasso de bilheteria e ignorado pela crítica, o filme estrelado por Dustin Hoffman e John Travolta peca pela superficialidade, pelo ritmo irregular e pasmem, pela direção apática de Costa-Gavras, que em nenhum momento consegue atingir a plateia com a contundência de suas obras anteriores.
O protagonista do filme é Max Brackett (Dustin Hoffman aparentemente no piloto automático), um repórter televisivo que já teve seus momentos de glória, mas que caiu em desgraça depois de um desentendimento com Kevin Hollander (Alan Alda), âncora de um famoso telejornal de alcance nacional que o relegou a um noticiário pouco visto em uma cidade do interior. Em constante conflito com seu chefe por buscar notícias mais empolgantes do que meros factoides de interesse restrito, ele vê cair em suas mãos, inesperadamente, uma situação que pode lhe render a grande chance dessa fase ruim de sua carreira. Durante uma entrevista tediosa em um museu da cidade, ele testemunha um funcionário demitido, Sam Baily (John Travolta com as mesmas caras e bocas de sempre), invadir o local armado com uma espingarda e exigindo seu emprego de volta. Raposa velha do jornalismo, ele fareja um furo na história, especialmente quando, por acidente, a arma dispara atingindo um segurança do museu - negro, o que atiça ainda mais os ânimos politicamente corretos que veem nisso um crime de ódio - e o atarantado Sam resolve manter como reféns todas as crianças que estão em visita ao prédio. Conquistando aos poucos a confiança de Sam, o repórter conta com a ajuda de sua assistente, a ambiciosa Laurie (Mia Kirschner), para chamar a atenção da mídia nacional e transformar o fato em circo, retomando o destaque de seus dias mais felizes.
Como nem sempre as coisas funcionam da maneira esperada, no entanto, Max se vê diante de um dilema moral quando seu arquirrival Kevin surge em cena, querendo a protagonização da história. Com ainda menos escrúpulos, o famoso âncora passa a manipular as entrevistas feitas por Laurie, com a intenção de transformar Sam de vítima das circunstâncias em um vilão desequilibrado capaz de matar um homem negro pai de família e manter um grupo de crianças como refém. Percebendo as artimanhas de Hollander, Max passa a questionar sua própria ambição e tenta ajudar Sam a sair da armadilha que ele mesmo preparou, chegando à conclusão de que talvez as coisas tenham saído demais do seu controle. Enquanto isso, a população é manipulada facilmente pelo noticiário e cerca o museu, à espera do desfecho do sequestro.
Costurando vários focos de narrativa ao mesmo tempo - a relação entre Max e Sam, a manipulação comandada por Hollander, as entrevistas de Laurie, a manifestação da plateia ávida por sangue - o roteiro acaba por não dar conta de uní-las de maneira satisfatoria, dando a impressão de buracos pouco confortáveis entre uma e outra que nem mesmo a direção consegue disfarçar. A trama central - instigante, inteligente - se perde diante de tantos desvios, esvaziando seu tom de denúncia quando resolve dedicar boa tarde de seu terço final à crise de consciência de Max, em uma reviravolta otimista e forçada que não condiz com o cinismo ácido de seu início promissor. Nem mesmo o final - que acaba sendo previsível e anti-climático - salva o show de virar o aborrecido e banal retrato de uma sociedade doentia e manipulável pela mídia. Não é uma desgraça total - Dustin Hoffman sempre vale uma espiada, mesmo quando não está em seus melhores dias - mas vindo de um diretor do porte de Costa-Gavras é bastante decepcionante.
A nociva combinação entre a mídia e a ambição humana sempre encontrou nas telas de cinema vários exemplos e no mínimo um clássico indiscutível, o genial "A montanha dos sete abutres", de Billy Wilder. Essa receita explosiva pareceu irresistível para o cineasta grego Constatin Costa-Gavras, autor de filmes seminais do cinema político, como o oscarizado "Z" (69) e "Missing, o desaparecido" - estrelado por Jack Lemmon em 1982 - que viu na história de um homem comum sendo manipulado por um repórter sensacionalista em sua gana por audiência mais um potencial sucesso para sua bem-sucedida e provocativa carreira. Porém, ao contrário do que se poderia esperar, "O quarto poder" - a união da instigante trama com o talento para a polêmica do diretor - caiu no vazio das boas intenções. Fracasso de bilheteria e ignorado pela crítica, o filme estrelado por Dustin Hoffman e John Travolta peca pela superficialidade, pelo ritmo irregular e pasmem, pela direção apática de Costa-Gavras, que em nenhum momento consegue atingir a plateia com a contundência de suas obras anteriores.
O protagonista do filme é Max Brackett (Dustin Hoffman aparentemente no piloto automático), um repórter televisivo que já teve seus momentos de glória, mas que caiu em desgraça depois de um desentendimento com Kevin Hollander (Alan Alda), âncora de um famoso telejornal de alcance nacional que o relegou a um noticiário pouco visto em uma cidade do interior. Em constante conflito com seu chefe por buscar notícias mais empolgantes do que meros factoides de interesse restrito, ele vê cair em suas mãos, inesperadamente, uma situação que pode lhe render a grande chance dessa fase ruim de sua carreira. Durante uma entrevista tediosa em um museu da cidade, ele testemunha um funcionário demitido, Sam Baily (John Travolta com as mesmas caras e bocas de sempre), invadir o local armado com uma espingarda e exigindo seu emprego de volta. Raposa velha do jornalismo, ele fareja um furo na história, especialmente quando, por acidente, a arma dispara atingindo um segurança do museu - negro, o que atiça ainda mais os ânimos politicamente corretos que veem nisso um crime de ódio - e o atarantado Sam resolve manter como reféns todas as crianças que estão em visita ao prédio. Conquistando aos poucos a confiança de Sam, o repórter conta com a ajuda de sua assistente, a ambiciosa Laurie (Mia Kirschner), para chamar a atenção da mídia nacional e transformar o fato em circo, retomando o destaque de seus dias mais felizes.
Como nem sempre as coisas funcionam da maneira esperada, no entanto, Max se vê diante de um dilema moral quando seu arquirrival Kevin surge em cena, querendo a protagonização da história. Com ainda menos escrúpulos, o famoso âncora passa a manipular as entrevistas feitas por Laurie, com a intenção de transformar Sam de vítima das circunstâncias em um vilão desequilibrado capaz de matar um homem negro pai de família e manter um grupo de crianças como refém. Percebendo as artimanhas de Hollander, Max passa a questionar sua própria ambição e tenta ajudar Sam a sair da armadilha que ele mesmo preparou, chegando à conclusão de que talvez as coisas tenham saído demais do seu controle. Enquanto isso, a população é manipulada facilmente pelo noticiário e cerca o museu, à espera do desfecho do sequestro.
Costurando vários focos de narrativa ao mesmo tempo - a relação entre Max e Sam, a manipulação comandada por Hollander, as entrevistas de Laurie, a manifestação da plateia ávida por sangue - o roteiro acaba por não dar conta de uní-las de maneira satisfatoria, dando a impressão de buracos pouco confortáveis entre uma e outra que nem mesmo a direção consegue disfarçar. A trama central - instigante, inteligente - se perde diante de tantos desvios, esvaziando seu tom de denúncia quando resolve dedicar boa tarde de seu terço final à crise de consciência de Max, em uma reviravolta otimista e forçada que não condiz com o cinismo ácido de seu início promissor. Nem mesmo o final - que acaba sendo previsível e anti-climático - salva o show de virar o aborrecido e banal retrato de uma sociedade doentia e manipulável pela mídia. Não é uma desgraça total - Dustin Hoffman sempre vale uma espiada, mesmo quando não está em seus melhores dias - mas vindo de um diretor do porte de Costa-Gavras é bastante decepcionante.
sexta-feira
MUITO MAIS QUE UM CRIME
MUITO
MAIS QUE UM CRIME (Music box, 1989, Carolco Pictures, 124min) Direção:
Costa-Gavras. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Patrick Blosssier.
Montagem: Joelle Van Effenterre. Música: Philippe Sarde. Figurino: Rita
Salazar. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Erica Rogala.
Produção executiva: Joe Eszterhas, Hal W. Polaire. Produção: Irwin
Winkler. Elenco: Jessica Lange, Armin Mueller-Stahl, Frederic Forrest,
Michael Hooker, Donald Moffat, Lukas Haas. Estreia: 22/12/89 (Festival
de Toronto)
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Jessica Lange)
Quando o nome do cineasta grego Costa-Gravas aparece nos créditos de um filme, o espectador já sabe o que esperar: autor de obras provocadoras e corajosas com "Z" (69) e "Desaparecido, um grande mistério" (82), o diretor apostava sempre em temas politicamente ousados, que desafiassem as ideologias tanto do espectador quanto da crítica. Depois do relativo fracasso de seu "Atraiçoados" (88) - em que colocava uma agente infiltrada do FBI vivida por Debra Winger se apaixonando pelo possível líder dum grupo racista do sul americano, interpretado por Tom Berenger - ele surgiu com "Muito mais que um crime", que tocava fundo em uma ferida ainda muito viva (especialmente na Europa ocidental): o colaboracionismo nazista. Para deixar a mistura ainda mais picante, ele tirou o tema das discussões teóricas e plantou a semente da dúvida no seio de uma aparentemente pacata família que, em tese, ajudou a construir as bases da América do pós-II Guerra Mundial. O resultado? Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim - sempre atento a produções com temáticas socialmente relevantes - e uma justíssima indicação ao Oscar de melhor atriz para sua protagonista Jessica Lange.
Lange - que entrou no film depois que Jane Fonda foi considerada com a idade inapropriada pelo próprio cineasta - interpreta com um impressionante equilíbrio entre delicadeza e força o papel de Ann Talbot, uma bem-sucedida advogada de Chicago que tem sua vida abalada quando seu pai, o imigrante húngaro Mike Laszlo (Armin Mueller-Stahl) é acusado formalmente de crimes de guerra cometidos durante o nazismo. Documentos até então perdidos o apontam como um dos responsáveis por cruéis assassinatos cometidos quarenta anos antes, apesar de suas negativas veementes: como americano naturalizado, pai, avô e funcionário exemplar de uma fábrica por décadas, ele insiste em sua inocência, alegando que tudo não passa de um complô comunista contra ele, radicalmente contrário ao regime. Tocada pelo desespero do pai e influenciada pelo irmão, Karchy (Michael Rooker) e pelo filho, Mikey (Lukas Haas), ela finalmente resolve defendê-lo no tribunal, mesmo não sendo especializada no assunto. Durante o julgamento, desfilam testemunhas que confirmam as acusações contra Laszlo, mas Anne se mantém confiante na inocência do pai, a quem vê como incapaz de tamanhas atrocidades.
Costa-Gavras conta sua história repleta de barbáries de forma elegante, discreta, sóbria. Resiste à tentação de emocionar pelo viés mais fácil, evitando o batido recurso de flashbacks durante os depoimentos dos sobreviventes da tragédia e tratando a relação entre pai e filha com seriedade mas nunca com exageros sentimentais - o que de certa forma até atrapalha um pouco em seu climax. Jessica Lange, sempre fantástica, entrega uma performance carregada de emoção, construindo uma Ann equilibrada mas a um passo de desmoronar diante das atrocidades que aparecem em sua frente e que podem estar muito mais ligadas a seu pai do que ela gostaria. Diante dela, o ator Armin Mueller-Stahl tem então a maior chance de sua carreira - que engrenaria com filmes posteriores, como o belo "Avalon" (90), de Barry Levinson - com um personagem cuja ambiguidade vai se avolumando até o final bolado pelo roteirista Joe Esztershas ("Instinto selvagem" (92)), que põe em xeque muitas das certezas (do público e dos próprios personagens). Graças à união entre roteiro, direção e elenco, fica impossível abandonar a trama, construída como um drama familiar de tribunal mas que prende a atenção como o melhor dos thrillers políticos dos anos 70.
"Muito mais que um crime" é um Costa-Gavras da melhor safra. Inteligente, bem orquestrado, relevante socialmente e, melhor ainda, sem perder em momento algum o essencial a um bom filme: o ritmo de entretenimento. É uma obra capaz de agradar a qualquer cinéfilo disposto a assistir a uma boa história, independente de suas opiniões políticas. Um belíssimo programa!
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Jessica Lange)
Quando o nome do cineasta grego Costa-Gravas aparece nos créditos de um filme, o espectador já sabe o que esperar: autor de obras provocadoras e corajosas com "Z" (69) e "Desaparecido, um grande mistério" (82), o diretor apostava sempre em temas politicamente ousados, que desafiassem as ideologias tanto do espectador quanto da crítica. Depois do relativo fracasso de seu "Atraiçoados" (88) - em que colocava uma agente infiltrada do FBI vivida por Debra Winger se apaixonando pelo possível líder dum grupo racista do sul americano, interpretado por Tom Berenger - ele surgiu com "Muito mais que um crime", que tocava fundo em uma ferida ainda muito viva (especialmente na Europa ocidental): o colaboracionismo nazista. Para deixar a mistura ainda mais picante, ele tirou o tema das discussões teóricas e plantou a semente da dúvida no seio de uma aparentemente pacata família que, em tese, ajudou a construir as bases da América do pós-II Guerra Mundial. O resultado? Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim - sempre atento a produções com temáticas socialmente relevantes - e uma justíssima indicação ao Oscar de melhor atriz para sua protagonista Jessica Lange.
Lange - que entrou no film depois que Jane Fonda foi considerada com a idade inapropriada pelo próprio cineasta - interpreta com um impressionante equilíbrio entre delicadeza e força o papel de Ann Talbot, uma bem-sucedida advogada de Chicago que tem sua vida abalada quando seu pai, o imigrante húngaro Mike Laszlo (Armin Mueller-Stahl) é acusado formalmente de crimes de guerra cometidos durante o nazismo. Documentos até então perdidos o apontam como um dos responsáveis por cruéis assassinatos cometidos quarenta anos antes, apesar de suas negativas veementes: como americano naturalizado, pai, avô e funcionário exemplar de uma fábrica por décadas, ele insiste em sua inocência, alegando que tudo não passa de um complô comunista contra ele, radicalmente contrário ao regime. Tocada pelo desespero do pai e influenciada pelo irmão, Karchy (Michael Rooker) e pelo filho, Mikey (Lukas Haas), ela finalmente resolve defendê-lo no tribunal, mesmo não sendo especializada no assunto. Durante o julgamento, desfilam testemunhas que confirmam as acusações contra Laszlo, mas Anne se mantém confiante na inocência do pai, a quem vê como incapaz de tamanhas atrocidades.
Costa-Gavras conta sua história repleta de barbáries de forma elegante, discreta, sóbria. Resiste à tentação de emocionar pelo viés mais fácil, evitando o batido recurso de flashbacks durante os depoimentos dos sobreviventes da tragédia e tratando a relação entre pai e filha com seriedade mas nunca com exageros sentimentais - o que de certa forma até atrapalha um pouco em seu climax. Jessica Lange, sempre fantástica, entrega uma performance carregada de emoção, construindo uma Ann equilibrada mas a um passo de desmoronar diante das atrocidades que aparecem em sua frente e que podem estar muito mais ligadas a seu pai do que ela gostaria. Diante dela, o ator Armin Mueller-Stahl tem então a maior chance de sua carreira - que engrenaria com filmes posteriores, como o belo "Avalon" (90), de Barry Levinson - com um personagem cuja ambiguidade vai se avolumando até o final bolado pelo roteirista Joe Esztershas ("Instinto selvagem" (92)), que põe em xeque muitas das certezas (do público e dos próprios personagens). Graças à união entre roteiro, direção e elenco, fica impossível abandonar a trama, construída como um drama familiar de tribunal mas que prende a atenção como o melhor dos thrillers políticos dos anos 70.
"Muito mais que um crime" é um Costa-Gavras da melhor safra. Inteligente, bem orquestrado, relevante socialmente e, melhor ainda, sem perder em momento algum o essencial a um bom filme: o ritmo de entretenimento. É uma obra capaz de agradar a qualquer cinéfilo disposto a assistir a uma boa história, independente de suas opiniões políticas. Um belíssimo programa!
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OS AGENTES DO DESTINO
OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...




