BELEZA OCULTA (Collateral beauty, 2016, New Line Cinema/Village Roadshow Pictures, 97min) Direção: David Frankel. Roteiro: Allan Loeb. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Andrew Marcus. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Leah Katznelson. Direção de arte/cenários: Beth Mickle/Kara Zeigon. Produção executiva: Michael Bederman, Bruce Berman, Richard Brener, Peter Cron, Michael Disco, Toby Emmerich, Steven Muchin, Steven Pearl, Ankur Rungta. Produção: Anthony Bregman, Bard Dorros, Kevin Scott Frakes, Allan Loeb, Michael Sugar. Elenco: Will Smith, Edward Norton, Kate Winslet, Helen Mirren, Keira Knightley, Michael Peña, Naomie Harris, Jacob Latimore. Estreia: 12/12/16
Conhecido por liderar o elenco de produções de bilheteria milionária, como "Independence Day" (96) e "Homens de preto" (97), o ator Will Smith entrou no século XXI disposto a mostrar que também sabia ser sério quando necessário - e de cara recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por "Ali" (2001). A partir daí dividiu a carreira em produções que se escoravam unicamente em seu carisma para conquistar o público - "Eu, robô" (2004), "Hitch: conselheiro amoroso" (2005), "Eu sou a lenda" (2007) e "Hancock" (2008) - e tentativas de manter sua aura de intérprete dramático e maduro - "À procura da felicidade" (2006, que lhe rendeu outra indicação à estatueta dourada), "Sete vidas" (2008) e "Um homem entre gigantes" (2015). É dessa segunda leva que surgiu "Beleza oculta", uma sensível e um tanto inverossímil fábula sobre o amor, o perdão e a esperança dirigida pelo mesmo David Frankel da comédia "O diabo veste Prada" (2006). Ficando com o papel principal que foi de Hugh Jackman até que problemas de agenda o impediram de manter-se no projeto, Smith entrega mais um desempenho memorável, ao lado de um elenco estelar que conta com Kate Winslet, Edward Norton, Keira Knightley e Helen Mirren. Sucesso apenas moderado nos EUA, o filme é uma adocicada fábula natalina que pode até emocionar aos menos exigentes mas carece de um roteiro menos óbvio - apesar de sua reviravolta final relativamente surpreendente.
Quando o filme começa, o público é apresentado ao publicitário Howard - interpretado de corpo e alma por Smith - comemorando, ao lado dos sócios, um ano extremamente produtivo e bem-sucedido profissionalmente. Três anos mais tarde, porém, a situação é bastante diferente: sua agência está em franco declínio com a perda de importantes clientes, basicamente devido à falta de interesse de Howard, que perdeu todo o entusiasmo com a vida desde a morte de sua única filha, fato que o levou ao divórcio e uma depressão profunda. Preocupados com Howard - ou mais precisamente com os problemas financeiros que sua nova rotina pode acarretar - seus três colegas resolvem tomar uma atitude tão desesperada quanto surreal: sabendo que, em seus delírios, o rapaz escreveu cartas melancólicas ao Amor, ao Tempo e à Morte, eles contratam três atores de teatro amador para confrontar o rapaz e fazê-lo voltar ao normal. A ideia, no entanto, não é assim tão altruísta, já que o objetivo também é desacreditar Howard diante de investidores e obrigá-lo a vender sua parte na empresa. É assim que entram em cena Brigitte (Helen Mirren), Amy (Keira Knightley) e Raffi (Jacob Latimore) - respectivamente, a Morte, o Amor e o Tempo - para ajudar a resolver a situação. Nesse meio-tempo, Howard tenta frequentar um grupo de apoio às pessoas de luto, liderado por Madeleine (Naomi Harris) - também uma mulher lutando contra a tristeza depois de perder uma filha.
O roteiro de "Beleza oculta" poderia centrar-se apenas na história de Howard e seus amigos imaginários, mas, para embaralhar ainda mais as coisas, seus três sócios também tem problemas com os quais lidar. Whit (Edward Norton) passa por um divórcio complicado e tem uma relação difícil com a filha adolescente; Claire (Kate Winslet), solteira, vê o tempo passar diante dos seus olhos sem que consiga realizar o sonho de tornar-se mãe; e Simon (Michael Peña), esconde de todos uma doença grave e incurável que em breve o privará da companhia da família. A seu modo, todos estão lidando com as abstrações citadas por Howard em seus momentos de tristeza, mas a trama deixa de aprofundar-se nas questões levantadas, preferindo contar uma história linear e recheada de sentimentalismo, que tenta emocionar ao apelar para o limite entre o comovente e o piegas. Apoiando-se no talento incontestável de seu elenco - que faz o possível e o impossível para dar consistência e verossimilhança a personagens nem sempre bem construídos no papel - o filme de David Frankel é visualmente atraente e cativa a plateia por apresentar com fluência emoções primárias e universais, mas falha ao subestimar a inteligência do espectador: tudo é entregue de forma maniqueísta e simplória, sem espaços para nada mais do que uma narrativa previsível e sem maiores traços de inventividade.
Will Smith está ótimo, convencendo em todas as nuances de seu personagem - assim como Helen Mirren consegue atingir as notas certas de sua Brigitte. Mas é uma pena que Frankel tenha desperdiçado atores tão talentosos quanto Edward Norton e Kate Winslet em papéis sem grandes possibilidades. "Beleza oculta" é um bom filme para quem procura se emocionar ou para os fãs do estupendo elenco reunido por David Frankel, mas deixa a sensação de promessa não totalmente cumprida, já que perde a oportunidade de ouro de ser inesquecível ou ter o impacto possível - tanto junto ao público quanto em relação à crítica, que torceu o nariz para seu roteiro raso e justificou sua falha também em conquistar os eleitores da Academia de Hollywood: mesmo com sua estreia acontecendo em dezembro (época quente para as produções que ambicionam indicações ao Oscar), foi ignorado por todas as cerimônias de premiação. Infelizmente não é o caso de ter sido injustiçado: é um filme agradável, mas jamais marcante.
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sábado
segunda-feira
O JOGO DA IMITAÇÃO
O JOGO DA IMITAÇÃO (The imitation game, 2014, Black Bear Pictures, 114min) Direção Morten Tyldum. Roteiro: Graham Moore, livro de Andrew Hodges. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: William Goldenberg. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Sammy Sheldon Differ. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Tatiana Macdonald. Produção executiva: Graham Moore. Produção: Nora Grossman, Ido Ostrowsky, Teddy Schwarzman. Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Rory Kinnear, Charles Dance, Mark Strong, Allen Leech, Matthew Beard. Estreia: 29/8/1 (Festival de Telluride)
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Morten Tyldum), Ator (Benedict Cumberbatch), Atriz Coadjuvante (Keira Knightley), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Se o filme fosse ruim e sua história não fosse fascinante e quase inacreditável ainda assim "O jogo da imitação" deveria ser obrigatório para qualquer um devido à sua mensagem pró-tolerância - conceito abstrato desconhecido para aberrações políticas nacionais cujos nomes não serão citados para que não tenham mais mídia do que já tem sem merecê-la mas que são extremamente perigosos em seu preconceito doentio e beligerante. A história real de Alan Turing, o matemático inglês que criou uma máquina capaz de decifrar códigos secretos da Alemanha nazista e assim abreviou a II Guerra em cerca de dois anos - poupando, por consequência, milhares de vidas - não é apenas uma história de guerra. Não é apenas uma ilustração de como o ser humano pode superar as máquinas com sua inteligência. Não é apenas sobre um período negro na história da humanidade. É também uma história sobre como a discriminação e a ignorância ainda conseguem suplantar o espírito humano a ponto de compactuar com a tragédia. Sim, Alan Turing, além de gênio, era homossexual, crime passível de prisão na Inglaterra da época, e optou pela castração química a ter que abandonar sua criação - que tinha raízes profundas que remetiam à sua infância e a seu primeiro e grande amor. Sim, "O jogo da imitação" é, além de um estupendo suspense de guerra, uma bela e emocionante história de amor.
Dirigido pelo norueguês Morten Tyldum - que merecidamente ficou entre os indicados ao Oscar de sua categoria em um ano repleto de injustiças cometidas pela Academia - "O jogo da imitação" é brilhante por pelo menos duas razões. Primeiro, porque não levanta a bandeira da homossexualidade para vender ingressos, preferindo deixar a vida pessoal de seu protagonista vir à tona aos poucos, quase com uma subtrama que se desvenda magistralmente no ato final, dando sentido e um toque emocional precioso à narrativa (mérito também do roteiro de Graham Moore). E segundo porque apresenta uma das atuações mais viscerais da temporada: na pele de Turing, o ator Benedict Cumberbatch mostra porque tornou-se, a partir de 2012, um dos intérpretes mais requisitados de Hollywood. Caminhando na tênue linha que separa o grotesco do sublime, ele constroi um protagonista que, a despeito de suas características quase clichês (é antissocial, é excêntrico, é um tanto arrogante), conquista a simpatia do público sem precisar apelar para a compaixão - até as explosivas sequências finais onde revela seu lado apaixonado e desmancha o coração de qualquer ser humano dotado de alma.
Baseado em um livro de Andrew Hodges, "O jogo da imitação" é, também, um fascinante passeio pelos bastidores da II Guerra menos retratados pelo cinema, bem mais afeito à batalhas sangrentas do que a lutas intelectuais. Sem deixar que as complicadas equações e códigos decifrados por Turing sejam empecilho para a compreensão da história, o roteiro busca concentrar-se na relação do protagonista com seus colegas de missão - também importantes para o desfecho do conflito - e com seu passado, contado através de flashbacks inseridos nos momentos corretos: ao contrário do que acontece com outros filmes que abusam do recurso, atrapalhando o ritmo com desnecessárias interrupções, a edição do veterano William Goldenberg é certeira, trabalhando em conjunto para desenhar o belíssimo produto final, assim como a impecável reconstituição de época e a trilha sonora inspirada de Alexandre Desplat. A direção de Tyldum é tão firme, aliás, que até mesmo Keira Knightley está bem em cena, deixando de lado suas caras e bocas costumeiras - ser indicada ao Oscar de coadjuvante talvez tenha sido mais reflexo de um ano fraco na categoria do que da excelência de seu trabalho, mas ela está decididamente contida e convincente.
Mas, sem dúvida nenhuma, o maior valor de "O jogo da imitação" é a força que imprime em seus minutos finais, quando fica claro à plateia o quanto a humanidade ainda precisa caminhar para se tornar digna de ser assim chamada. Saber que foi um homossexual um dos maiores responsáveis pelo fim de um período de terror no mundo, e que foi ele quem salvou milhares de vidas talvez - talvez, já que não dá para pedir razão a seres desprovidos dela - pudesse mudar o modo como muita coisa é vista e percebida ainda hoje, sete décadas depois do fim do conflito. E muito disso se deve à corajosa atuação de Benedict Cumberbatch. Seu trabalho irretocável enfrentou concorrência ferrenha no Oscar deste ano, principalmente do vencedor Eddie Redmayne em "A teoria de tudo" e Michael Keaton em "Birdman", ambos excelentes em seus filmes. Mas arrepios de emoção somente a sua interpretação ele conseguiu causar.
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Morten Tyldum), Ator (Benedict Cumberbatch), Atriz Coadjuvante (Keira Knightley), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Se o filme fosse ruim e sua história não fosse fascinante e quase inacreditável ainda assim "O jogo da imitação" deveria ser obrigatório para qualquer um devido à sua mensagem pró-tolerância - conceito abstrato desconhecido para aberrações políticas nacionais cujos nomes não serão citados para que não tenham mais mídia do que já tem sem merecê-la mas que são extremamente perigosos em seu preconceito doentio e beligerante. A história real de Alan Turing, o matemático inglês que criou uma máquina capaz de decifrar códigos secretos da Alemanha nazista e assim abreviou a II Guerra em cerca de dois anos - poupando, por consequência, milhares de vidas - não é apenas uma história de guerra. Não é apenas uma ilustração de como o ser humano pode superar as máquinas com sua inteligência. Não é apenas sobre um período negro na história da humanidade. É também uma história sobre como a discriminação e a ignorância ainda conseguem suplantar o espírito humano a ponto de compactuar com a tragédia. Sim, Alan Turing, além de gênio, era homossexual, crime passível de prisão na Inglaterra da época, e optou pela castração química a ter que abandonar sua criação - que tinha raízes profundas que remetiam à sua infância e a seu primeiro e grande amor. Sim, "O jogo da imitação" é, além de um estupendo suspense de guerra, uma bela e emocionante história de amor.
Dirigido pelo norueguês Morten Tyldum - que merecidamente ficou entre os indicados ao Oscar de sua categoria em um ano repleto de injustiças cometidas pela Academia - "O jogo da imitação" é brilhante por pelo menos duas razões. Primeiro, porque não levanta a bandeira da homossexualidade para vender ingressos, preferindo deixar a vida pessoal de seu protagonista vir à tona aos poucos, quase com uma subtrama que se desvenda magistralmente no ato final, dando sentido e um toque emocional precioso à narrativa (mérito também do roteiro de Graham Moore). E segundo porque apresenta uma das atuações mais viscerais da temporada: na pele de Turing, o ator Benedict Cumberbatch mostra porque tornou-se, a partir de 2012, um dos intérpretes mais requisitados de Hollywood. Caminhando na tênue linha que separa o grotesco do sublime, ele constroi um protagonista que, a despeito de suas características quase clichês (é antissocial, é excêntrico, é um tanto arrogante), conquista a simpatia do público sem precisar apelar para a compaixão - até as explosivas sequências finais onde revela seu lado apaixonado e desmancha o coração de qualquer ser humano dotado de alma.
Baseado em um livro de Andrew Hodges, "O jogo da imitação" é, também, um fascinante passeio pelos bastidores da II Guerra menos retratados pelo cinema, bem mais afeito à batalhas sangrentas do que a lutas intelectuais. Sem deixar que as complicadas equações e códigos decifrados por Turing sejam empecilho para a compreensão da história, o roteiro busca concentrar-se na relação do protagonista com seus colegas de missão - também importantes para o desfecho do conflito - e com seu passado, contado através de flashbacks inseridos nos momentos corretos: ao contrário do que acontece com outros filmes que abusam do recurso, atrapalhando o ritmo com desnecessárias interrupções, a edição do veterano William Goldenberg é certeira, trabalhando em conjunto para desenhar o belíssimo produto final, assim como a impecável reconstituição de época e a trilha sonora inspirada de Alexandre Desplat. A direção de Tyldum é tão firme, aliás, que até mesmo Keira Knightley está bem em cena, deixando de lado suas caras e bocas costumeiras - ser indicada ao Oscar de coadjuvante talvez tenha sido mais reflexo de um ano fraco na categoria do que da excelência de seu trabalho, mas ela está decididamente contida e convincente.
Mas, sem dúvida nenhuma, o maior valor de "O jogo da imitação" é a força que imprime em seus minutos finais, quando fica claro à plateia o quanto a humanidade ainda precisa caminhar para se tornar digna de ser assim chamada. Saber que foi um homossexual um dos maiores responsáveis pelo fim de um período de terror no mundo, e que foi ele quem salvou milhares de vidas talvez - talvez, já que não dá para pedir razão a seres desprovidos dela - pudesse mudar o modo como muita coisa é vista e percebida ainda hoje, sete décadas depois do fim do conflito. E muito disso se deve à corajosa atuação de Benedict Cumberbatch. Seu trabalho irretocável enfrentou concorrência ferrenha no Oscar deste ano, principalmente do vencedor Eddie Redmayne em "A teoria de tudo" e Michael Keaton em "Birdman", ambos excelentes em seus filmes. Mas arrepios de emoção somente a sua interpretação ele conseguiu causar.
quarta-feira
MESMO SE NADA DER CERTO
MESMO
SE NADA DER CERTO (Begin again, 2013, Exclusive Media Group/Sycamore
Pictures, 104min) Direção e roteiro: John Carney. Fotografia: Yaron
Orbach. Montagem: Andrew Marcus. Música: Gregg Alexander. Figurino:
Arjun Bhasin. Direção de arte/cenários: Chad Keith/Kris Moran. Produção
executiva: Guy East, Sam Hoffman, Ben Nearn, Tom Rice, Marc Schipper,
Nigel Sinclair, Molly Smith. Produção: Judd Appatow, Tobin Armsbrust,
Anthony Bregman. Elenco: Mark Ruffalo, Keira Knightley, Adam Levine,
James Corden, Hailee Steinfeld, Catherine Keener, Cee Lo Green. Estreia:
07/9/13 (Festival de Toronto)
Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Lost stars")
Em 2007, o cineasta John Carney conquistou o mundo com a história de um amor platônico regado à música folk e estrelado por ilustres desconhecidos: "Apenas uma vez" tornou-se cult, ganhou o Oscar de melhor canção e mostrou que nem só de grandes produções hollywoodianas vive o cinema romântico. Seis anos depois, com um orçamento um pouco mais generoso - e um elenco formado por indicados ao Oscar bem conhecidos do grande público - Carney mostrou que seu sucesso não foi apenas sorte de principiante. "Mesmo se nada der certo" é um delicioso drama romântico musical, recheado de belas canções, momentos encantadores, diálogos certeiros e personagens cativantes, capazes de deixar qualquer espectador com um enorme sorriso nos lábios ao final da sessão. E para isso não é preciso nem mesmo um único beijo na boca entre os protagonistas.
A primeira - e fascinante - cena do filme mostra a jovem inglesa Gretta (Keira Knightley) sendo praticamente obrigada a subir ao palco de um bar com música ao vivo de Nova York para mostrar uma canção de sua autoria. Quem se empolga com sua apresentação, apesar da tristeza inerente que vem da música, é Dan (Mark Ruffalo), sócio de uma gravadora independente que imediatamente propõe a ela um contrato de exclusividade. Acontece que as coisas não são exatamente como parecem, como logo ficará claro. Dan acaba de ser demitido da própria empresa, está separado da mulher, Miriam (Catherine Keener), e vive um relacionamento distante com a filha adolescente, Violet (Hailee Steinfeld). Gretta está em vias de embarcar de volta à Inglaterra, de onde saiu ao lado do namorado, Dave (Adam Levine, vocalista da banda pop Maroon 5) apenas para ser tratada como mera assistente durante a gravação de seu álbum - e pior ainda, ser trocada por outra mulher. Ambos se sentindo no pior momento de suas vidas, eles tem a ideia de gravar um disco ao ar livre, pelas ruas de Nova York, como forma de dar a volta por cima. Surge, então, uma amizade profunda, baseada na admiração e empatia.
Os acertos são muitos em "Mesmo se nada der certo": mesmo com o mísero orçamento de cerca de oito milhões de dólares - o que não paga nem a divulgação de certos blockbusters - John Carney conseguiu fazer um filme que em momento algum parece barato ou feito às pressas. A química entre Mark Ruffalo (sempre ótimo em papéis de perdedor) e Keira Knightley (em papel que quase foi parar nas mãos da cantora Adele) é excelente, e a atriz consegue até mesmo disfarçar sua tendência em fazer caras e bocas. Adam Levine sai-se muito bem no papel de Dave, ainda que não pareça que lhe tenha sido um grande desafio viver nas telas um personagem que pode muito bem ter semelhanças com sua rotina real (e a ele cabe a interpretação da bela "Lost stars", indicada ao Oscar de melhor canção). E os coadjuvantes de luxo - Catherine Keener, Hailee Steinfeld e até o colega de Levine na bancada do "The Voice" americano, Cee Lo Green - oferecem um ingrediente a mais em uma receita deliciosa.
É brilhante, por exemplo, a sequência em que Dan e Gretta caminham pelas ruas de Nova York ouvindo música pelo fone de ouvido e compartilhando seu gosto um com o outro - é uma das cenas mais românticas dos últimos anos mesmo que eles mal se toquem durante todo o tempo. E todas as cenas que mostram a gravação do álbum de Gretta pela cidade é de uma delicadeza ímpar, que mostra o extremo bom-gosto do cineasta e sua capacidade de transformar o mais simples metal em ouro puro. Essa alquimia rara é sua maior qualidade como diretor e roteirista - e a paixão que demonstra por seus personagens e pela música transcende a tela até chegar ao público, que, sem escolha, se deixa seduzir alegremente por suas histórias de recomeços e novas chances. Um filme encantador!
Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Lost stars")
Em 2007, o cineasta John Carney conquistou o mundo com a história de um amor platônico regado à música folk e estrelado por ilustres desconhecidos: "Apenas uma vez" tornou-se cult, ganhou o Oscar de melhor canção e mostrou que nem só de grandes produções hollywoodianas vive o cinema romântico. Seis anos depois, com um orçamento um pouco mais generoso - e um elenco formado por indicados ao Oscar bem conhecidos do grande público - Carney mostrou que seu sucesso não foi apenas sorte de principiante. "Mesmo se nada der certo" é um delicioso drama romântico musical, recheado de belas canções, momentos encantadores, diálogos certeiros e personagens cativantes, capazes de deixar qualquer espectador com um enorme sorriso nos lábios ao final da sessão. E para isso não é preciso nem mesmo um único beijo na boca entre os protagonistas.
A primeira - e fascinante - cena do filme mostra a jovem inglesa Gretta (Keira Knightley) sendo praticamente obrigada a subir ao palco de um bar com música ao vivo de Nova York para mostrar uma canção de sua autoria. Quem se empolga com sua apresentação, apesar da tristeza inerente que vem da música, é Dan (Mark Ruffalo), sócio de uma gravadora independente que imediatamente propõe a ela um contrato de exclusividade. Acontece que as coisas não são exatamente como parecem, como logo ficará claro. Dan acaba de ser demitido da própria empresa, está separado da mulher, Miriam (Catherine Keener), e vive um relacionamento distante com a filha adolescente, Violet (Hailee Steinfeld). Gretta está em vias de embarcar de volta à Inglaterra, de onde saiu ao lado do namorado, Dave (Adam Levine, vocalista da banda pop Maroon 5) apenas para ser tratada como mera assistente durante a gravação de seu álbum - e pior ainda, ser trocada por outra mulher. Ambos se sentindo no pior momento de suas vidas, eles tem a ideia de gravar um disco ao ar livre, pelas ruas de Nova York, como forma de dar a volta por cima. Surge, então, uma amizade profunda, baseada na admiração e empatia.
Os acertos são muitos em "Mesmo se nada der certo": mesmo com o mísero orçamento de cerca de oito milhões de dólares - o que não paga nem a divulgação de certos blockbusters - John Carney conseguiu fazer um filme que em momento algum parece barato ou feito às pressas. A química entre Mark Ruffalo (sempre ótimo em papéis de perdedor) e Keira Knightley (em papel que quase foi parar nas mãos da cantora Adele) é excelente, e a atriz consegue até mesmo disfarçar sua tendência em fazer caras e bocas. Adam Levine sai-se muito bem no papel de Dave, ainda que não pareça que lhe tenha sido um grande desafio viver nas telas um personagem que pode muito bem ter semelhanças com sua rotina real (e a ele cabe a interpretação da bela "Lost stars", indicada ao Oscar de melhor canção). E os coadjuvantes de luxo - Catherine Keener, Hailee Steinfeld e até o colega de Levine na bancada do "The Voice" americano, Cee Lo Green - oferecem um ingrediente a mais em uma receita deliciosa.
É brilhante, por exemplo, a sequência em que Dan e Gretta caminham pelas ruas de Nova York ouvindo música pelo fone de ouvido e compartilhando seu gosto um com o outro - é uma das cenas mais românticas dos últimos anos mesmo que eles mal se toquem durante todo o tempo. E todas as cenas que mostram a gravação do álbum de Gretta pela cidade é de uma delicadeza ímpar, que mostra o extremo bom-gosto do cineasta e sua capacidade de transformar o mais simples metal em ouro puro. Essa alquimia rara é sua maior qualidade como diretor e roteirista - e a paixão que demonstra por seus personagens e pela música transcende a tela até chegar ao público, que, sem escolha, se deixa seduzir alegremente por suas histórias de recomeços e novas chances. Um filme encantador!
sexta-feira
ANNA KARENINA
ANNA KARENINA (Anna Karenina, 2012, Universal Pictures/Focus Features, 129min) Direção: Joe Wright. Roteiro: Tom Stoppard, romance de Leon Tolstoi. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Melanie Ann Oliver. Música: Dario Marianelli. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Liza Chasin. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Paul Webster. Elenco: Keira Knightley, Jude Law, Aaron Taylor-Johnson, Matthew Macfadyen, Domnhall Gleeson, Kelly McDonald, Olivia Williams, Alicia Vikander, Susanne Lothar, Emily Watson. Estreia: 07/9/12 (Festival de Toronto)
4 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Figurino
Primeiro porque Wright não apenas transportou a história de uma mídia para outra, como aconteceu anteriormente. Ousadamente, ele levou o livro de Tolstoi para as telas com uma escala no teatro, através de um cenário estilizado – brilhantemente executado por Sarah Greenwood e Katie Spencer – onde paredes se movem e salões de baile se transformam em estações ferroviárias, restaurantes, escritórios burocratas e aposentos domésticos, de acordo com a necessidade de cada cena. Como em um espetáculo teatral, Wright brinca com a ludicidade, editando de forma magistral suas sequências como forma de mergulhar sem reservas o espectador em sua trama. Dessa maneira, Karenin (um Jude Law maduro e roubando a cena) rasga uma carta da ex-esposa, a pica em minúsculos pedaços e a joga para cima apenas para imediatamente, tais pedaços transformarem-se em flocos de neve. E Anna (Keira Knightley, a atriz preferida do diretor, aqui em seu terceiro filme juntos) pode sair desesperadamente de sua casa e estar prontamente dentro de um trem, a caminho dos braços de seu amante. A princípio, tal artifício soa estranho ao espectador acostumado com o trivial, mas não demora muito para que ele se deixe seduzir pela beleza estonteante promovida pelo conjunto – coeso e elegante – da obra.
A história, como se sabe, pode ser resumida em poucas linhas: na Rússia imperial do século XVIII, Anna (Keira Knightley), a jovem esposa de um influente político moscovita, Karenin (Jude Law), vai a São Petersburgo com a missão de tentar salvar o casamento do irmão, Stiva (Matthew McFadyen, par romântico de Knightley em “Orgulho e preconceito”), que acaba de ter seu romance com uma babá descoberto pela esposa, Dolly (Kelly McDonald). Frequentando a sociedade local, ela acaba por apaixonar-se perdidamente pelo jovem cavaleiro Vronski (Aaron Taylor-Johnson) – pretendente da irmã de sua cunhada, Kit (Alicia Vikander) – e inicia com ele um escandaloso romance extra-conjugal que a torna uma pária social e a joga contra o marido, que a ameaça tirar-lhe a guarda do único filho. Enquanto isso, Kit, sem mais esperanças de casar-se com Vronski, se deixa conquistar por Liév (Domnhall Gleeson), um jovem fazendeiro que não se deixa cativar pelo jogo de aparências das altas rodas russas.
4 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Figurino
Poucos filmes levaram tão a sério a
afirmação de William Shakespeare de que o mundo é um palco quanto a versão do
cineasta Joe Wright do clássico russo “Anna Karenina”, publicado por Leon
Tolstoi em 1878. Investindo em uma adaptação visualmente estilizada de um dos
maiores romances da história da literatura, o diretor que já visitou Jane
Austen em “Orgulho e preconceito” e Ian McEwan em “Desejo e reparação”
distanciou-se das versões anteriores do livro para criar um espetáculo
exuberante e opulento que trata a história de um amor adúltero na Rússia do
século XIX como uma peça teatral, onde os personagens tratam de viver papéis
pré-estabelecidos de acordo com as regras sociais, reprimindo seus desejos e
instintos mais primitivos. Sob a visão de Wright e do roteirista Tom Stoppard –
dramaturgo vencedor do Oscar por “Shakespeare apaixonado” – Anna Karenina e
seus coadjuvantes são peças de um cruel jogo de aparências emoldurado por uma
sociedade mais afeita às convenções do que aos reais sentimentos. Tal visão,
sob a fotografia inspirada de Seamus McGarvey e embalada pela trilha sonora de
Dario Marianelli, encontra eco na mais deslumbrante transposição da obra de
Tolstoi para as telas. Vencedor do Oscar de melhor figurino – merecia também os
prêmios de direção de arte, trilha sonora e fotografia – o “Anna Karenina” de
2012 é digno de figurar entre as melhores adaptações cinematográficas já
realizadas pelo cinema por várias razões.
Primeiro porque Wright não apenas transportou a história de uma mídia para outra, como aconteceu anteriormente. Ousadamente, ele levou o livro de Tolstoi para as telas com uma escala no teatro, através de um cenário estilizado – brilhantemente executado por Sarah Greenwood e Katie Spencer – onde paredes se movem e salões de baile se transformam em estações ferroviárias, restaurantes, escritórios burocratas e aposentos domésticos, de acordo com a necessidade de cada cena. Como em um espetáculo teatral, Wright brinca com a ludicidade, editando de forma magistral suas sequências como forma de mergulhar sem reservas o espectador em sua trama. Dessa maneira, Karenin (um Jude Law maduro e roubando a cena) rasga uma carta da ex-esposa, a pica em minúsculos pedaços e a joga para cima apenas para imediatamente, tais pedaços transformarem-se em flocos de neve. E Anna (Keira Knightley, a atriz preferida do diretor, aqui em seu terceiro filme juntos) pode sair desesperadamente de sua casa e estar prontamente dentro de um trem, a caminho dos braços de seu amante. A princípio, tal artifício soa estranho ao espectador acostumado com o trivial, mas não demora muito para que ele se deixe seduzir pela beleza estonteante promovida pelo conjunto – coeso e elegante – da obra.
Outro ponto que sublinha as
qualidades da adaptação de Stoppard diz respeito à opção em não tentar abraçar
a obra inteira de Tolstoi – mais de 600 páginas, afinal de contas – em um único
filme. Centrando sua narrativa basicamente no romance adúltero entre Anna e Vronski (Aaron Taylor-Johnson), o dramaturgo corria o risco de ser violentamente rechaçado pelos puristas,
que poderiam ver na falta de interesse do roteiro nas elocubrações socialistas
do escritor uma maneira de diluir a importância do livro e transformá-lo em um
melodrama puro e simples. Stoppard não chega a tanto, mas diminui radicalmente
os questionamentos de Liévin (Dohmnall Gleeson) a respeito da desigualdade social que
grassava na Rússia imperial, utilizando o personagem quase que apenas como um
observador atuante da tragédia que se desenrola à sua frente – enquanto tenta
conquistar o amor da bela e ingênua Kit (Alicia Vikander bem antes de sonhar
com o Oscar de coadjuvante por “A garota dinamarquesa”). Quem leu o romance
sabe bem que as longas páginas gastas pelo escritor para divagar a respeito do
dia-a-dia dos camponeses não caberiam em um filme romântico – se é que caberiam
em algum outro gênero. Assim, Stoppard acerta em dedicar seu foco ao fatal
triângulo amoroso que abalou a sociedade de São Petersburgo no final do século
XVIII – ainda que por vezes algumas atitudes dos personagens soem meio abruptas
e que Jude Law tenha conseguido fazer de seu Karenin alguém bem mais simpático
do que no romance.
Boa parte da simpatia conquistada
por Karienin vem do fato de que Law é um ator extremamente superior a Aaron
Taylor-Johnson, que vive nas telas o seu rival. Mesmo com seus olhos azuis
faiscando ainda mais brilhantes graças à fotografia de McGarvey e o uniforme
branco com que seu Vronski desfila pelas telas, Johnson não tem a profundidade e a
experiência necessárias para fazer de seu personagem alguém marcante ou forte o
suficiente para justificar o amor desesperado de Anna. Bonito ele é, mas lhe
falta carisma e sutileza: em muitos momentos o público fica perdido, sem saber
de seus reais sentimentos em relação à amante. Enquanto isso, Law deita e rola,
puxando para si a protagonização da história, transmitindo uma vasta nuance de
sentimentos que acaba fazendo com que o público torça mais por ele do que pelo amante de sua mulher. Já Keira Knightley faz o que pode com uma personagem que tem em sua lista
de intérpretes nomes como Greta Garbo e, mais recentemente, Sophie Marceau:
limitada, ela até consegue controlar o excesso de caras e bocas que vem
marcando sua carreira, mas lhe falta substância dramática para encarar uma das
mais complexas e fascinantes personagens femininas da literatura mundial. É de
se imaginar o que gente como Natalie Portman e Michelle Williams faria em seu
lugar. Mas, dos males o menor, Knightley ao menos consegue ser suportável –
coisa de que não foi capaz em “Um método perigoso”, em que quase jogou por
terra o belo trabalho de Michael Fassbender como Jung.
A história, como se sabe, pode ser resumida em poucas linhas: na Rússia imperial do século XVIII, Anna (Keira Knightley), a jovem esposa de um influente político moscovita, Karenin (Jude Law), vai a São Petersburgo com a missão de tentar salvar o casamento do irmão, Stiva (Matthew McFadyen, par romântico de Knightley em “Orgulho e preconceito”), que acaba de ter seu romance com uma babá descoberto pela esposa, Dolly (Kelly McDonald). Frequentando a sociedade local, ela acaba por apaixonar-se perdidamente pelo jovem cavaleiro Vronski (Aaron Taylor-Johnson) – pretendente da irmã de sua cunhada, Kit (Alicia Vikander) – e inicia com ele um escandaloso romance extra-conjugal que a torna uma pária social e a joga contra o marido, que a ameaça tirar-lhe a guarda do único filho. Enquanto isso, Kit, sem mais esperanças de casar-se com Vronski, se deixa conquistar por Liév (Domnhall Gleeson), um jovem fazendeiro que não se deixa cativar pelo jogo de aparências das altas rodas russas.
Elegante, charmoso, visualmente
deslumbrante e narrado como uma sóbria sinfonia que aos poucos vai se deixando
envolver pela tragédia, “Anna Karenina” é um trabalho raro. De extremo cuidado
plástico e emocional, é um dos mais fascinantes filmes de 2012 apesar de alguns
pequenos pecados. Altamente recomendável para quem gosta de cinema com
conteúdo.
quinta-feira
UM MÉTODO PERIGOSO
UM MÉTODO PERIGOSO (A dangerous method, 2011, RPC/Lago Film, 99min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Christopher Hampton, peça teatral "A most dangerous method", de John Kerr. Fotografia: Peter Suchitzky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: James McAteer/Gernot Thondel. Produção executiva: Stephan Mallman, Karl Spoerri, Thomas Sterchi, Peter Watson, Mathias Zimmermann. Produção: Jeremy Thomas. Elenco: Michael Fassbender, Keira Knightley, Viggo Mortensen, Vincent Cassel, Sarah Gadon. Estreia: 02/9/11 (Festival de Veneza)
Levando-se em consideração a obsessão do cineasta David Cronenberg pelo
lado mais sombrio da mente humana - haja visto filmes como "Gêmeos,
mórbida semelhança" e "Crash, estranhos prazeres" - não era de se
duvidar que, mais cedo ou mais tarde ele iria esbarrar com o pai da
psicanálise em algum projeto. Esse dia chegou, e, por incrível que
pareça, "Um método perigoso" - o resultado desse encontro - é um filme
que, apesar do tema, é bastante diferente da filmografia pregressa de
Cronenberg, onde a transgressão de qualquer formalidade estética e comercial era mandatória. Quase burocrático e por vezes comportado até demais (principalmente se for levado em conta seu tema), ainda assim seu filme é muito mais interessante do que a média.
Baseado na peça teatral de "A most dangerous method", escrita pelo roteirista Christopher Hampton - por sua vez inspirado no livro de John Kerr já publicado no Brasil - "Um método perigoso" não mostra todas as aberrações visuais dos filmes mais conhecidos do diretor, preferindo centrar-se nos diálogos inteligentes e nas neuroses dos protagonistas, todos eles de grande importância para a psicanálise como a conhecemos hoje em dia. Ao abdicar também da violência com que vinha trabalhando em seus últimos projetos - "Marcas da violência" e "Senhores do crime", ambos estrelados por Viggo Mortensen - Cronenberg demonstra uma maturidade muito bem-vinda e uma segurança na direção de atores que justifica os elogios rasgados que o filme recebeu desde sua estreia no Festival de Veneza de 2011, apesar de ter falhado em conquistar a atenção da Academia, que ignorou o completamente o filme.
"Um método perigoso" conta o nascimento da psicanálise, através da relação entre Carl Jung (Michael Fassbender em outra atuação notável) e sua jovem paciente Sabina Spielrein (Keira Knigthley usando e abusando das caras e bocas), com a qual ele se permite utilizar um novo estilo de tratamento, ainda inédito então, no qual o médico busca a cura das psicoses (esquizofrenias e todas as variantes possíveis) através de longas e constantes conversas. O tratamento com Sabrina - jovem, bela, inteligente e que encontra prazer na violência física por razões que acabam sendo descobertas no decorrer do tratamento - acaba confundido Jung, que acaba se envolvendo sexualmente com ela, para desgosto de seu mentor, Sigmund Freud (Viggo Mortensen, indicado ao Golde Globe de ator coadjuvante apesar de apresentar um trabalho apenas mediano). Os relacionamentos de Jung - com Sabrina e com Freud - são o cerne do roteiro de Hampton, e é sorte de Cronenberg contar com um inspiradíssimo Michael Fassbender para dar credibilidade e complexidade a todas as nuances de um personagem que poderia facilmente cair na caricatura ou no egocentrismo. Diferente da atuação de Keira Knigthley, que torna risível os potentes dramas de sua personagem.
Logicamente é um filme para leigos, o que de certa forma deixa a desejar em termos históricos ou médicos. O roteiro de Hampton - vencedor do Oscar pelo sensacional "Ligações perigosas" - se dedica muito mais às personagens e suas relações do que com suas consequências históricas, o que não deixa, no entanto de ser um assunto tão atraente quanto. A reconstituição de época caprichada e a belíssima fotografia dão consistência à trama, e o ritmo pacífico imposto por Cronenberg serve muito bem ao espírito clássico da obra, um trabalho sensível que conta ainda com uma participação mais do que especial de Vincent Cassel, que quase rouba a cena na pele de um amigo de Jung que o incentiva a abandonar seus pudores e se entregar ao desejo por Sabrina. Suas cenas com Michael Fassbender são hipnotizantes, bem mais do que aquelas que deveriam ser as mais importantes do roteiro - e que mostram os embates intelectuais entre Jung e Freud (um papel que provavelmente teria sido melhor aproveitado pela escolha inicial do diretor, Christoph Waltz). Essa pequena falha, no entanto, não atrapalha o resultado final de um filme sério e adulto que é tratado como tal.
Baseado na peça teatral de "A most dangerous method", escrita pelo roteirista Christopher Hampton - por sua vez inspirado no livro de John Kerr já publicado no Brasil - "Um método perigoso" não mostra todas as aberrações visuais dos filmes mais conhecidos do diretor, preferindo centrar-se nos diálogos inteligentes e nas neuroses dos protagonistas, todos eles de grande importância para a psicanálise como a conhecemos hoje em dia. Ao abdicar também da violência com que vinha trabalhando em seus últimos projetos - "Marcas da violência" e "Senhores do crime", ambos estrelados por Viggo Mortensen - Cronenberg demonstra uma maturidade muito bem-vinda e uma segurança na direção de atores que justifica os elogios rasgados que o filme recebeu desde sua estreia no Festival de Veneza de 2011, apesar de ter falhado em conquistar a atenção da Academia, que ignorou o completamente o filme.
"Um método perigoso" conta o nascimento da psicanálise, através da relação entre Carl Jung (Michael Fassbender em outra atuação notável) e sua jovem paciente Sabina Spielrein (Keira Knigthley usando e abusando das caras e bocas), com a qual ele se permite utilizar um novo estilo de tratamento, ainda inédito então, no qual o médico busca a cura das psicoses (esquizofrenias e todas as variantes possíveis) através de longas e constantes conversas. O tratamento com Sabrina - jovem, bela, inteligente e que encontra prazer na violência física por razões que acabam sendo descobertas no decorrer do tratamento - acaba confundido Jung, que acaba se envolvendo sexualmente com ela, para desgosto de seu mentor, Sigmund Freud (Viggo Mortensen, indicado ao Golde Globe de ator coadjuvante apesar de apresentar um trabalho apenas mediano). Os relacionamentos de Jung - com Sabrina e com Freud - são o cerne do roteiro de Hampton, e é sorte de Cronenberg contar com um inspiradíssimo Michael Fassbender para dar credibilidade e complexidade a todas as nuances de um personagem que poderia facilmente cair na caricatura ou no egocentrismo. Diferente da atuação de Keira Knigthley, que torna risível os potentes dramas de sua personagem.
Logicamente é um filme para leigos, o que de certa forma deixa a desejar em termos históricos ou médicos. O roteiro de Hampton - vencedor do Oscar pelo sensacional "Ligações perigosas" - se dedica muito mais às personagens e suas relações do que com suas consequências históricas, o que não deixa, no entanto de ser um assunto tão atraente quanto. A reconstituição de época caprichada e a belíssima fotografia dão consistência à trama, e o ritmo pacífico imposto por Cronenberg serve muito bem ao espírito clássico da obra, um trabalho sensível que conta ainda com uma participação mais do que especial de Vincent Cassel, que quase rouba a cena na pele de um amigo de Jung que o incentiva a abandonar seus pudores e se entregar ao desejo por Sabrina. Suas cenas com Michael Fassbender são hipnotizantes, bem mais do que aquelas que deveriam ser as mais importantes do roteiro - e que mostram os embates intelectuais entre Jung e Freud (um papel que provavelmente teria sido melhor aproveitado pela escolha inicial do diretor, Christoph Waltz). Essa pequena falha, no entanto, não atrapalha o resultado final de um filme sério e adulto que é tratado como tal.
domingo
NÃO ME ABANDONE JAMAIS
NÃO ME ABANDONE JAMAIS (Never let me go, 2010, Fox Searchlight Pictures, 103min) Direção: Mark Romanek. Roteiro: Alex Garland, romance de Kazuo Ishiguro. Fotografia: Adam Kimmel. Montagem: Barney Pilling. Música: Rachel Portman. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Alex Garland, Kazuo Ishiguro, Tessa Ross. Produção: Andrew Macdonald, Allon Reich. Elenco: Carey Mulligan, Andrew Garfield, Keira Knightley, Charlotte Rampling, Sally Hawkings, Domhnall Gleeson. Elenco: 03/9/10 (Festival de Teluride)
Quando se fala em ficção científica,
imediatamente o que se imagina são naves espaciais infestadas de alienígenas
malvados, efeitos visuais de última geração, orçamentos generosos à disposição
de diretores megalomaníacos e tramas que misturam, sem muito critério,
sociedades distópicas com complexas viagens no tempo – impedindo assim, com sua
ação incessante, que o público perceba a vastidão de furos em seus roteiros.
Mas é justamente o caminho oposto o seguido por Mark Romanek em “Não me
abandone jamais”: baseado em um romance de Kazuo Ishiguro (o mesmo de
“Vestígios do dia”, adaptado por James Ivory e estrelado por Anthony Hopkins e
Emma Thompson), o filme de Romanek é uma inusitada história de amor que
utiliza, com delicadeza e criatividade, elementos básicos de dois gêneros
aparentemente antagônicos que se unem harmonicamente em um interessante e
inteligente híbrido.
O roteiro de Alex Garland – escritor
e autor de “A praia”, que também virou filme, com Leonardo DiCaprio e que em
2015 estrearia como cineasta com o elogiado “Ex-machina”, que lhe rendeu uma
indicação ao Oscar – mantém o tom melancólico e quase desconfortável do livro
(em que os detalhes da trama são revelados ao leitor com uma parcimônia que
beira o minimalismo). Oferecendo pistas sobre o destino de seus protagonistas
apenas conforme a história vai avançando, a obra de Romanek - que tem apenas um
filme anterior no currículo, o suspense “Marcas de uma obsessão” (01), com
Robin Williams – envolve a plateia com um equilíbrio sutil de amor, angústia,
conformismo e, por último, mas não menos importante, uma calada esperança que
vai se tornando, a cada cena, o único pilar no qual se pode escorar como forma
de evitar o desespero total. Amparado ainda nas atuações brilhantes de Carey
Mulligan e Andrew Garfield em sua fase pré-Homem-Aranha, “Não me abandone
jamais” é um avassalador estudo sobre a alma humana e sua constante sensação de
finitude.
Contrariando as regras da ficção
científica de situar a trama em um futuro qualquer, a história de “Não me
abandone jamais” tem lugar no passado. Mais precisamente começa em 1978, quando
o público conhece seu trio de protagonistas, crianças que moram em uma escola
especial do interior da Inglaterra. A introvertida Kathy (Isobel Meikle-Small,
excelente), a esperta Ruth (Ella Purnell) e o inconstante Tommy (Charlie Rowe)
são apenas três alunos comuns do lugar, cujo conjunto de regras inclui um
cuidado excessivo com a saúde, criação de obras de arte que podem ou não serem
exibidas em uma nunca vista Galeria, brechós onde se compram objetos usados (e
muitas vezes deteriorados) e muitos segredos, mantidos sob o olhar rígido da
diretora, Sra. Emily (Charlotte Rampling). O que os estudantes não sabem – e
nem o público, até que isso seja revelado pela nova e sensível tutora da quinta
série, Sra. Lucy (Sally Hawkings) – é que eles na verdade são clones, criados
unica e exclusivamente para, quando chegar a hora certa, servirem de doadores
de órgãos a pessoas com condições financeiras de pagar por eles. Para a
romântica Kathy, o choque de tal revelação só não é maior do que o início de um
inesperado romance juvenil entre Ruth e Tommy – por quem ela é apaixonada
secretamente.
O segundo ato do filme começa
quando, já aos 18 anos, o trio de protagonistas abandona Hilsham e vai morar em
um lugar conhecido como Os Chalés. Pela primeira vez na vida eles tem contato
com pessoas de fora de sua escola – e portanto, conhecedoras de fatos da vida
que eles ignoram completamente. É com um misto de fascinação e inferioridade
que Kathy (já interpretada por Carey Mulligan), Tommy (Andrew Garfield) e Ruth
(Keira Knightley) tentam acomodar-se em um novo estilo de vida, que inclui
programas de televisão, lanchonetes e revistas eróticas. Com a sexualidade
despertada, Tommy e Ruth mantém o romance iniciado ainda na infância, para
angústia da centrada Kathy. É nesse período também que eles iniciam – de uma
forma tímida - a busca pelas pessoas que lhes deram suas características (as
chamadas originais) e ficam sabendo de um boato que pode lhes adiar o início
das doações de órgãos – ou, em outras palavras, o início de sua morte. Dois
amigos, esperançosos, lhes informam que, segundo histórias ouvidas, quando um
casal se prova apaixonado, lhes é dado um prazo maior para viverem seu amor sem
a interferência nefasta de um iminente fim. Tal possibilidade não altera a rotina
de Kathy, que, sofrendo de amor, decide afastar-se dos amigos tornando-se
“cuidadora” – ou seja, acompanhante dos pacientes em vias de doar seus órgãos.
Quase dez anos depois, já
estabelecida como uma competente cuidadora, Kathy irá reencontrar seus dois
amigos de infância – não mais juntos, Tommy e Ruth já passaram por várias
cirurgias e finalmente Kathy tem a chance de declarar seu amor ao rapaz e
tentar, desesperadamente, que eles possam ter a grande chance de ter as últimas
doações adiadas para que finalmente possam viver seu amor. E é nesse ato final
que “Não me abandone jamais” consegue, de forma sutil e delicada, unir um
romance de extrema melancolia a um drama avassalador, passando pelos domínios
da ficção científica sem prender-se a eles em excesso. A bela trilha sonora de
Rachel Portman pontua com sensibilidade a trajetória dos personagens rumo a seu
destino inevitável e a fotografia acinzentada de Adam Kimmel transmite com
precisão o clima de desesperança que perpassa toda a trama criada por Ishiguro.
Quando o quadro inteiro está diante do espectador – montado com todas as peças
que foram entregues durante a narrativa – é difícil resistir à tristeza de uma
história que discute, sem parecer pedante ou filosófica, temas pungentes como
os efeitos da clonagem humana e suas questões éticas e humanistas. Ajuda essa
discussão o fato de Romanek ser um diretor sem vícios estilísticos ou
pretensões artísticas que poderiam deformar a simplicidade da trama e roubar
dela sua essência nitidamente romântica.
E romantismo é o que não falta a
“Não me abandone jamais”, especialmente quando o roteiro sai de suas polêmicas
científicas para concentrar-se na sensibilidade de seus protagonistas,
especialmente Kathy e Tommy – Ruth acaba se tornando uma coadjuvante no
decorrer da trama, parte porque sua personagem serve como uma espécie de
obstáculo ao amor puro entre os outros dois jovens, parte porque sua
intérprete, Keira Knightley, mais uma vez demonstra uma intensa fragilidade
dramática, usando e abusando de caras e bocas que contrastam violentamente com
a economia dramática de seus colegas de cena. Carey Mulligan, uma das grandes
atrizes surgidas a partir de 2009 – quando foi indicada ao Oscar por “Educação”
– conquista a simpatia e a solidariedade da plateia sem precisar apelar para
muito mais do que seu carisma delicado e suave e Andrew Garfield surpreende ao
criar um Tommy quase passivo em sua tranquilidade conformada que extravasa em
crises de gritos e agressão toda a impotência de uma vida implacavelmente
criada com o objetivo de ser-lhe tirada no auge da saúde. O que pode parecer
estranho ao espectador – a forma acomodada com que os personagens assumem seu
destino – é explicada através de Mulligan e Garfield, dois jovens atores que
filtram, em seus olhares e expressões delicadas, os tormentos de almas que
sabem de sua missão na Terra e preferem cumprir seu destino a lutar contra ele.
É triste, é melancólico e é quase depressivo. Mas, sob o comando de Mark
Romanek e das palavras de Kasuo Ishiguro e traduzidas por uma bela fotografia e
uma sublime trilha sonora, é também um dos melhores filmes de 2010,
injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação que encheram de homenagens
o insosso e clichê “O discurso do rei”.
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