EM RITMO DE FUGA (Baby driver, 2017, TriStar Pictures, 113min) Direção e roteiro: EdgarWright. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Jonathan Amos, Paul Machliss. Música: Steven Price. Figurino: Courtney Hoffman. Direção de arte/cenários: Marcus Rowland/Lance Totten. Produção executiva: James Biddle, Liza Chasin, Adam Merims, Rachel Prior, Edgar Wright, Michelle Wright. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Nira Park. Elenco: Ansel Elgort, Kevin Spacey, Jamie Foxx, Jon Hamm, Eiza González, John Bernthal, Lily James. Estreia: 11/3/2017 (South by Southwest Festival)
3 indicações ao Oscar: Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Em Hollywood nem tudo caminha com velocidade. Que o diga o cineasta/roteirista britânico Edgar Wright: foi em 1995 que ele começou a trabalhar no roteiro de um filme que misturava policial, romance e uma trilha sonora que, combinada com as sequências mais alucinantes, praticamente transformava o produto final em uma espécie de policial musical. De lá até o começo das filmagens, em 2016, Wright firmou seu nome em comédias como "Todo mundo quase morto" (2004), "Chumbo grosso"(2007) e "Scott Pilgrim contra o mundo" (2010), que brincavam com gêneros consagrados do cinema comercial - a saber, filmes de zumbis, tramas policiais e adaptações de HQ, respectivamente. Nesse meio tempo, sua ideia inicial foi transformada (ao menos sua primeira sequência) em um videoclipe de "Blue sky", da banda inglesa Mint Royale, em 2003, e somente em 2017 finalmente saiu do papel - quase uma década depois de ter recebido o sinal verde para tocar o projeto adiante - e chegou às telas como "Em ritmo de fuga", um dos melhores filmes da temporada, reconhecido com uma bilheteria inesperada de mais de 100 milhões de dólares no mercado doméstico (contra um custo baixo de pouco menos de 35 milhões) e três merecidíssimas indicações ao Oscar, que reconheceram algumas das maiores qualidades do filme - edição de som, mixagem de som e montagem.
A dupla de editores (Jonathan Amos e Paul Machliss) podem ter perdido o Oscar para "Dunkirk" (2017) - também um filme cuja edição é fator preponderante -, mas tiveram melhor sorte em outras disputas, como o BAFTA (o Oscar britânico) e as associações de críticos de Las Vegas, Los Angeles, São Francisco e Chicago. Não foram prêmios de consolação. A montagem de "Em ritmo de fuga" é das mais empolgantes realizadas em Hollywood em muito tempo - e não apenas porque é ágil e de tirar o fôlego do espectador, mas também (e principalmente) porque se utiliza de todos os elementos à sua disposição sem que se deixe deslumbrar pela forma em detrimento do conteúdo. A trama pode até parecer banal, mas Wright consegue a façanha de fazer com que soe extremamente original ao inserir um elemento crucial em seus momentos de mais adrenalina: ponto essencial para a narrativa de "Em ritmo de aventura", a música assume papel crucial na trajetória dos personagens (e, como forma de respeitá-la em absoluto, a própria edição se utiliza dela como base e ritmo). Por quase duas horas, o público é brindado com uma mistura exata entre músicas de primeira, perseguições milimetricamente calculadas pelo cineasta, personagens carismáticos e um tom que, mesmo diante da violência, nunca se torna sombrio em demasia. Ou seja, "Em ritmo de fuga" é o que se convenciona chamar de "filme de verão" do mercado norte-americano, mas está muitos degraus acima da média graças ao casamento perfeito entre suas partes.
Baby, o protagonista do filme, é um exímio motorista que, para pagar uma dívida contraída com um chefão do crime (interpretado por Kevin Spacey pouco antes de sua queda em desgraça na comunidade cinematográfica por acusações de assédio sexual), trabalha em assaltos planejados por ele: dotado de um talento preciso para fugas em alta velocidade, ele é o homem de confiança para tais eventos criminosos, mesmo que não seja um entusiasta a respeito. Enquanto se prepara para uma última missão antes de finalmente quitar seu débito, Baby se apaixona pela garçonete Debora (Lily James em papel que só não ficou com Emma Stone porque ela foi fazer "La La Land: cantando estações", que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz). Debora acaba se tornando o principal motivo pelo qual Baby deseja abandonar de vez seu "emprego", mas, como normalmente acontece, o jovem se vê arrastado para um assalto que dá muito errado - em parte graças ao pouco confiável Bats (Jamie Foxx) - e precisa salvar a própria pele, assim como livrar sua namorada e seu pai adotivo da rota de vingança do violento Buddy (Jon Hamm, da série "Mad Men"). Se a trama parece derivativa, basta conferir como o roteiro de Wright consegue jogar com todos os clichês e torná-los parte de uma produção caprichadíssima e emocionante.
O principal mérito de "Em ritmo de fuga" - cujo título original, "Baby driver", soa muito melhor - é, além do roteiro esperto e de sua união perfeita de elementos simples, a escolha de seu ator principal. Revelado no romântico "A culpa é das estrelas" (2014), o jovem Ansel Elgort está absolutamente perfeito no papel do complexo Baby. Dono de características próprias - sofre de um problema de audição causado por um acidente que vitimou seus pais, mora com um pai adotivo surdo-mudo, é monossilábico quando em ação e costuma gravar as reuniões de "trabalho" para remixar com suas músicas preferidas -, Baby é o herói que todo espectador pediu a Deus. Carismático, competente e cheio de boas intenções (ainda que soterradas por um currículo pouco recomendável), é ele quem conduz a plateia por vibrantes fugas - todas filmadas em Atlanta e quase sem auxílio de CGI - e rege uma sinfonia de velocidade capazes de deixar qualquer um de queixo caído. Envolto em uma embalagem atraente até mesmo para o público mais jovem - e mais atraído por continuações e adaptações de quadrinhos -, "Em ritmo de fuga" é o entretenimento mais que perfeito, e que será, sem dúvida, reconhecido no futuro como uma das pequenas obras-primas de sua geração.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
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DJANGO LIVRE
DJANGO LIVRE (Django unchained, 2012, The Weinstein Company/Columbia Pictures, 165min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Leslie Pope. Produção executiva: Shannon McIntosh, Michael Shamberg, James W. Skotchdopole, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Reginald Hudlin, Pilar Savone, Stacey Sher. Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson, Don Johnson, James Remar, James Russo, Bruce Dern, Franco Nero, Robert Carradine, Quentin Tarantino. Estreia: 25/12/12
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Roteiro Original, Fotografia, Edição de Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Roteiro Original
Quentin Tarantino é um cineasta que não nega suas influências. Elas estão sempre espalhadas por sua obra, seja explicitamente (como em "Jackie Brown" ou nos dois volumes de "Kill Bill") ou discretamente (pero no mucho) como em "Pulp Fiction, tempo de violência". Por isso não é de estranhar que "Django livre", seu mais uma vez incensado trabalho seja coalhado de homenagens e piadas internas. Sorte do grande público é que, além de todas essas reverências o homem é também um roteirista de mão cheia (como comprova sua vitória nos Golden Globes e no Oscar) e um diretor que consegue SEMPRE arrancar atuações antológicas de seus atores. Se alguém ainda tinha dúvidas a esse respeito (e alguém tinha?) é altamente recomendável que esse alguém assista, sem desculpa de nenhuma espécie, a esse misto de faroeste/filme sobre escravidão: nele não apenas o cineasta mais cultuado de sua geração lega ao cinema mais um grande filme como mostra que mesmo em filmes de gêneros diversos ao que se acostumou a assinar ele consegue manter-se fiel a seu estilo bastante peculiar e imediatamente reconhecível.
Provocando o desprezo do cineasta Spike Lee - que vê no filme um "desrespeito a seus ancestrais" - Quentin Tarantino fez de "Django livre" uma enciclopédia de todas as suas marcas registradas, somada à sua homenagem rasgada aos westerns-spaghetti menos conhecidos do grande público (ao invés de Sergio Leone e afins, suas influências atendem pelos nomes de Sergio Corbucci e Tonino Valeri, entre outros). Nas duas horas e quarenta cinco minutos de projeção estão espalhados diálogos ácidos, humor negro, personagens deliciosamente complexos e uma carnificina exagerada que não deixa nada a dever ao hiperviolento "Cães de aluguel", o filme de estreia que imediatamente o fez cair nas graças da crítica. Mesmo que demore a engrenar - a impressão que se tem é que a história só começa mesmo depois da primeira hora, quando os protagonistas chegam à fazenda de Calvin Candie (um Leonardo DiCaprio exercitando seu overacting em busca de Oscar) - a história do escravo Django (Jamie Foxx, espetacular) que se torna caçador de recompensas e parte ao lado do alemão King Schultz (Christoph Waltz, premiado pela segunda vez com um Oscar de coadjuvante por um filme de Tarantino, e também vencedor do Golden Globe) em busca de sua esposa Broomhilda (Kerry Washington) utiliza elementos tão díspares quanto a luta "mandingo" (chupada de um filme de 1975) quanto referências à ópera "O anel dos Nibelungos", de Richard Wagner. Mas é tudo misturado de maneira tão orgânica que é difícil imaginar que o diretor/roteirista (e ator em uma sequência perto do final) vá criando sua trama durante a escrita do roteiro. E é difícil acreditar também que outro elenco pudesse ser melhor do que o escolhido para o projeto.
Ainda que Will Smith tenha sido o primeiro nome a passar pela cabeça de Tarantino para protagonizar seu filme, o trabalho impecável de Jamie Foxx no papel central é digno de figurar entre os melhores de sua carreira já premiada com o Oscar por seu desempenho na cinebiografia "Ray" (2004). Christoph Waltz novamente dá um banho de interpretação com seu complexo Schultz - que é dono de algumas das melhores falas. Até mesmo Franco Nero - o Django do filme de 1966 - encontra espaço para uma participação afetiva, assim como Don Johnson faz com que se mantenha a tradição do diretor de recuperar a carreira de nomes deixados de lado pelo cinema comercial. E se Leonardo DiCaprio repete os maneirismos de sempre em sua atuação como o vilão Calvin Candie, seu escravo fiel - e surpreendentemente racista ao extremo - vivido por Samuel L. Jackson rouba a cena descaradamente, em uma interpretação que merecia ter sido lembrada pelo Oscar.
Violento como poucos filmes da atualidade - com sangue jorrando aos borbotões, escravos sendo devorados por cães e tiroteios ensandecidos - "Django livre" comprova novamente o talento e a criatividade de seu diretor. Porém, faz pensar o quanto ele ainda tem a oferecer dentro do universo um tanto restrito - ainda que passível de grandes expansões narrativas - em que gravita. Em 2015 ele vem com um novo e aguardado filme - "The hateful eight" - e será a hora de o público mais uma vez se render a sua maestria ou demonstrar sinais de cansaço. O tempo dirá, mas "Django livre" sempre se manterá como um excelente exemplo de seu estilo de fazer grande cinema.
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Roteiro Original, Fotografia, Edição de Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Roteiro Original
Quentin Tarantino é um cineasta que não nega suas influências. Elas estão sempre espalhadas por sua obra, seja explicitamente (como em "Jackie Brown" ou nos dois volumes de "Kill Bill") ou discretamente (pero no mucho) como em "Pulp Fiction, tempo de violência". Por isso não é de estranhar que "Django livre", seu mais uma vez incensado trabalho seja coalhado de homenagens e piadas internas. Sorte do grande público é que, além de todas essas reverências o homem é também um roteirista de mão cheia (como comprova sua vitória nos Golden Globes e no Oscar) e um diretor que consegue SEMPRE arrancar atuações antológicas de seus atores. Se alguém ainda tinha dúvidas a esse respeito (e alguém tinha?) é altamente recomendável que esse alguém assista, sem desculpa de nenhuma espécie, a esse misto de faroeste/filme sobre escravidão: nele não apenas o cineasta mais cultuado de sua geração lega ao cinema mais um grande filme como mostra que mesmo em filmes de gêneros diversos ao que se acostumou a assinar ele consegue manter-se fiel a seu estilo bastante peculiar e imediatamente reconhecível.
Provocando o desprezo do cineasta Spike Lee - que vê no filme um "desrespeito a seus ancestrais" - Quentin Tarantino fez de "Django livre" uma enciclopédia de todas as suas marcas registradas, somada à sua homenagem rasgada aos westerns-spaghetti menos conhecidos do grande público (ao invés de Sergio Leone e afins, suas influências atendem pelos nomes de Sergio Corbucci e Tonino Valeri, entre outros). Nas duas horas e quarenta cinco minutos de projeção estão espalhados diálogos ácidos, humor negro, personagens deliciosamente complexos e uma carnificina exagerada que não deixa nada a dever ao hiperviolento "Cães de aluguel", o filme de estreia que imediatamente o fez cair nas graças da crítica. Mesmo que demore a engrenar - a impressão que se tem é que a história só começa mesmo depois da primeira hora, quando os protagonistas chegam à fazenda de Calvin Candie (um Leonardo DiCaprio exercitando seu overacting em busca de Oscar) - a história do escravo Django (Jamie Foxx, espetacular) que se torna caçador de recompensas e parte ao lado do alemão King Schultz (Christoph Waltz, premiado pela segunda vez com um Oscar de coadjuvante por um filme de Tarantino, e também vencedor do Golden Globe) em busca de sua esposa Broomhilda (Kerry Washington) utiliza elementos tão díspares quanto a luta "mandingo" (chupada de um filme de 1975) quanto referências à ópera "O anel dos Nibelungos", de Richard Wagner. Mas é tudo misturado de maneira tão orgânica que é difícil imaginar que o diretor/roteirista (e ator em uma sequência perto do final) vá criando sua trama durante a escrita do roteiro. E é difícil acreditar também que outro elenco pudesse ser melhor do que o escolhido para o projeto.
Ainda que Will Smith tenha sido o primeiro nome a passar pela cabeça de Tarantino para protagonizar seu filme, o trabalho impecável de Jamie Foxx no papel central é digno de figurar entre os melhores de sua carreira já premiada com o Oscar por seu desempenho na cinebiografia "Ray" (2004). Christoph Waltz novamente dá um banho de interpretação com seu complexo Schultz - que é dono de algumas das melhores falas. Até mesmo Franco Nero - o Django do filme de 1966 - encontra espaço para uma participação afetiva, assim como Don Johnson faz com que se mantenha a tradição do diretor de recuperar a carreira de nomes deixados de lado pelo cinema comercial. E se Leonardo DiCaprio repete os maneirismos de sempre em sua atuação como o vilão Calvin Candie, seu escravo fiel - e surpreendentemente racista ao extremo - vivido por Samuel L. Jackson rouba a cena descaradamente, em uma interpretação que merecia ter sido lembrada pelo Oscar.
Violento como poucos filmes da atualidade - com sangue jorrando aos borbotões, escravos sendo devorados por cães e tiroteios ensandecidos - "Django livre" comprova novamente o talento e a criatividade de seu diretor. Porém, faz pensar o quanto ele ainda tem a oferecer dentro do universo um tanto restrito - ainda que passível de grandes expansões narrativas - em que gravita. Em 2015 ele vem com um novo e aguardado filme - "The hateful eight" - e será a hora de o público mais uma vez se render a sua maestria ou demonstrar sinais de cansaço. O tempo dirá, mas "Django livre" sempre se manterá como um excelente exemplo de seu estilo de fazer grande cinema.
sexta-feira
QUERO MATAR MEU CHEFE
QUERO MATAR MEU CHEFE (Horrible bosses, 2011, New Line Cinema, 98min) Direção: Seth Gordon. Roteiro: Michael Markowitz, John Francis Daley, Jonathan Goldstein, estória de Michael Markowitz. Fotografia: David Hennings. Montagem: Peter Teschner. Música: Christopher Lennertz. Figurino: Carol Ramsey. Direção de arte/cenários: Sheperd Frankel/Jan Pascale. Produção executiva: Richard Brener, Samuel J. Brown, Michael Disco, Toby Emmerich, Diana Pokorny. Produção: Brett Ratner, Jay Stern. Elenco: Jason Bateman, Jason Sudeikis, Charlie Day, Kevin Spacey, Jennifer Aniston, Colin Farrell, Jamie Foxx, Donald Sutherland, Julie Bowen. Estreia: 08/7/11
A primeira lembrança que vem à mente é a comédia
semi-clássica “Como eliminar seu chefe”, a pérola kitsch estrelada por Jane
Fonda, Lily Tomlin e Dolly Parton na já longínqua década de 80. Porém, apesar
do título nacional e da temática semelhante, não há como comparar a quase
inocência do filme de Fonda com a coragem desbragada de “Quero matar meu
chefe”, lançado pelo cineasta Seth Gordon no rastro do imenso sucesso das
chamadas “comédias adultas” que encheram os cofres dos estúdios a partir de “Se
beber, não case” e “Missão madrinha de casamento”. Grandes êxitos comerciais e
até, condescendentemente, de crítica – o primeiro levou um Golden Globe e o
segundo chegou a concorrer a dois Oscar – os filmes que deram suporte a atores
como Bradley Cooper e Melissa McCarthy foram os sinalizadores de um tipo de
humor que parecia ter ficado no passado, em detrimento de filmes menos
agressivos à suscetibilidade de um público cada vez mais conservador –
paradoxalmente, enquanto as comédias encaretavam cada vez mais, as produções
com doses cavalares de violência extrema tornavam-se progressivamente mais
virulentas. Aproveitando o que parecia ser uma certa permissividade em relação
ao que poderia ou não soar engraçado aos olhos e ouvidos de uma plateia média,
“Quero matar meu chefe” acertou em cheio, misturando em doses exatas piadas no
limiar do mau-gosto, humor físico e uma ironia fina – cortesias de um roteiro
equilibrado, um ritmo admirável e, a cereja do bolo, um elenco coadjuvante de primeira
linha. Não é de surpreender que tenha deixado os executivos da Warner com um
sorriso de orelha a orelha – a ponto de uma continuação muito inferior ter
surgido dois anos depois.
Enquanto no filme de 1981, as
moçoilas vividas por Fonda, Tomlin e Parton eram secretárias que, cansadas das
humilhações diárias impostas por seu patrão imaginavam maneiras de eliminá-lo
dentro de um humor ingênuo e apropriado à fama de suas atrizes centrais, em
“Quero matar meu chefe” a sutileza dá lugar ao escracho puro e simples, em uma
sucessão de tiradas hilariantes que não poupam nada nem ninguém – e dá-lhe
citações a filmes famosos (“Pacto sinistro”, de Hitchcock, à frente),
personagens de quadrinhos (“Demita o Professor Xavier!”, dispara o cruel Colin
Farrell, referindo-se a um funcionário cadeirante) e diálogos sem
meias-palavras travadas entre a até então pudica Jennifer Aniston e seu
assistente tímido e apavorado com o assédio. Tendo como um dos produtores o
também cineasta Brett Ratner – de “X-Men: o confronto final”, entre outros – o
filme de Gordon faz rir tanto aqueles que preferem um humor verbal menos óbvio
quanto aqueles que buscam na comédia uma forma de desligar o cérebro para rir
das próprias desgraças. Em outras palavras, é um filme sem contra-indicações.
Nick (Jason Bateman, com ótimo
timing cômico) vive para o trabalho, tendo abdicado de toda e qualquer outra
atividade há oito anos, com o claro objetivo de ser promovido e melhorar a
qualidade de vida. Seus planos vão por água abaixo, porém, quando seu chefe,
Harken (Kevin Spacey), resolve dar o cargo de vice-presidente de vendas a ele
mesmo – acumulando assim duas funções e dois salários, não sem antes humilhar o
funcionário e chantageá-lo com a ameaça de destruir seus futuros planos profissionais.
Kurt (Jason Sudeikis) é um mulherengo contumaz que adora o trabalho em uma
indústria química e o patrão (Donald Sutherland), mas quando este morre e deixa
como herdeiro seu único filho, o agressivo, viciado em cocaína e egoísta Pellit
(Colin Farrell), sua rotina vira de cabeça pra baixo – o novo diretor da
empresa não hesita em contratar serviços mais baratos nem que tenha que
sacrificar trabalhadores escravos, e deseja cortar as gorduras nos gastos da
companhia (“Demita os gordos!”, declara sem pena). E Dale (Charlie Day,
irresistível) é um rapaz romântico que acaba de ficar noivo e que sofre com o
violento assédio sexual que sofre da patroa, a ninfomaníaca (Jennifer Aniston),
que não hesita em deixar bem claro que, caso eles não transem antes do
casamento, a cerimônia pode nem mesmo acontecer. Dale, coitado, nem mudar de
emprego consegue: fichado na polícia como criminoso sexual por ter urinado em
um parque infantil à noite (com o local deserto!!), ele é incapaz de arrumar
uma posição melhor do que assistente de dentista.
Sofrendo com suas vidas
profissionais, os três amigos resolvem, então – depois de chegarem à conclusão
de que buscar um novo posicionamento no mercado é algo pouco encorajador em sua
idade – tomar uma atitude drástica: assassinar seus patrões. A idéia, surgida
no meio de uma bebedeira, toma ares de um plano real quando eles procuram um
“assessor para assassinatos”, o misterioso Motherfucker Jones (Jamie Foxx), que
lhes dá as diretrizes básicas do projeto: cada um irá matar o chefe do outro,
para afastar suspeitas. E é aí que começa a bagunça: as particularidades de
cada uma das possíveis vítimas vão sendo arquivadas mentalmente pelo trio de
homicidas novatos e, como se poderia esperar de uma comédia, nada sai conforme o
planejado e sequências divertidíssimas acompanham a aventura dos pobres
assalariados: desde a invasão da casa de Pellit – quando eles encontram uma
decoração absurdamente cafona e uma quantidade bizarra de cocaína – até o
encontro acidental entre Dale e Harken na frente de sua mansão, que culmina com
um bizarro caso de ressuscitação médica, Seth Gordon entrega ao público uma
sucessão de situações bem amarradas e sinceramente engraçadas, capaz de fazer
rir até o mais cínico espectador – e nem mesmo o final pouco criativo consegue
diminuir a qualidade do filme.
Mas, como não poderia deixar de ser,
um roteiro inspirado não seria o bastante se o elenco não correspondesse a ele.
Se o trio de protagonistas demonstra uma química admirável – Charlie Day, da
série “It’s Always sunny in Philadelphia” rouba todas as cenas em que aparece –
o mesmo pode ser dito dos coadjuvantes, um grupo de atores consagrados que
demonstra uma bem-vinda e corajosa dose de autogozação. Jennifer Aniston deixa
de lado as mocinhas sofridas de suas comédias românticas e constrói uma Diana
quase cruel em sua obsessão de traçar o empregado quase pueril – Aniston não
tem medo de recitar diálogos cabeludos ou de fazer cenas francamente a um passo
do vulgar (como aquela em que tenta seduzir Kurt apenas comendo alimentos de
formato fálico). Colin Farrell abandona o porte de galã e ator sério ao encarar
com deboche consumado o egocêntrico Pellit, construído visualmente de forma a
deixar o ator irlandês a milímetros do grotesco – uma careca disfarçada por
fios penteados para o lado, olhos arregalados de paranoia, um barrigão
proeminente. E Kevin Spacey faz de seu Harken um canalha impenitente que
somente ele é capaz de fazer sem o menor esforço: Spacey, um dos melhores
atores americanos de sua geração, faz do personagem uma espécie de primo do
executivo de cinema que ele interpretou em “O preço da ambição” (1994) e um
ensaio para o venal protagonista de série “House of cards”. Não bastasse esse
trio de ouro, Donald Sutherland, Jamie Foxx e Ioan Gruffud – da primeira versão
de “Quarteto fantástico”, em participação especial como o primeiro profissional
contratado pelos protagonistas e que se revela outro tipo de trabalhador –
completam o elenco de uma comédia que tem a mais importante característica de
um exemplar do gênero: não tem medo de ser engraçada.
Em uma época em que as comédias se
dividem entre a fina ironia dos filmes de Woody Allen e a franca grosseria de
coisas como “As bem-armadas”, “Quero matar meu chefe” se situa em um
inteligente meio-termo: não ofende a inteligência do espectador nem tampouco
exige dele uma série de elocubrações e referências intelectuais. É diversão
pura e simples, valorizada por um elenco acima de qualquer crítica e uma
direção com senso de ritmo. Uma das melhores comédias de sua temporada.
IDAS E VINDAS DO AMOR
IDAS E VINDAS DO AMOR (Valentine's Day, 2010, New Line Cinema,
125min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Katherine Fugate, estória de
Katherine Fugate, Abby Cohn, Marc Silverstein. Fotografia: Charles
Minsky. Montagem: Bruce Green. Música: John Debney. Figurino: Gary
Jones. Direção de arte/cenários: Albert Brenner, K.C. Fox. Produção
executiva: Samuel J. Brown, Michael Disco, Toby Emmerich, Diana Pokorny,
Josie Rosen. Produção: Mike Karz, Wayne Rice. Elenco: Julia Roberts,
Ashton Kutscher, Jessica Alba, Jessica Biel, Jamie Foxx, Patrick
Dempsey, Shirley MacLaine, Hector Elizondo, Kathy Bates, Emma Roberts,
Anne Hathaway, Topher Grace, Bradley Cooper, Queen Latifah, Eric Dane,
Taylor Lautner, Taylor Swift, Jennifer Garner. Estreia: 08/02/10
Em 1990, o cineasta Garry Marshall transformou uma prostituta em Cinderela e alçou Julia Roberts ao status de mega-estrela com o filme "Uma linda mulher". E Roberts, hoje a atriz mais bem paga do planeta Hollywood, devolve o favor a Marshall, aparecendo em poucos minutos em sua comédia romântica "Idas e vindas do amor" ("Valentine's day" no original, em mais uma prova da criatividade das distribuidoras brasileiras em estragar títulos alheios). Seguindo a linha de filmes como "Nova York, te amo" e "Ele não está tão a fim de você", o filme acompanha cerca de meia dúzia de histórias de amor (nenhuma delas muito profunda, como convém ao gênero) que acontecem no Dia dos Namorados americano (14 de fevereiro). Analisando como diversão, o filme é uma delícia: um elenco de astros fotogênicos, cenários ensolarados, alguns diálogos bastante engraçados e um romantismo desbragado apropriado à data de seu lançamento nos EUA. Friamente, no entanto, "Idas e vindas do amor" é tão, mas tão doce e bonitinho que chega a incomodar àqueles que não são tão crentes no amor e afins.
Senão, vejamos: Anne Hathaway é uma jovem que faz bicos como atendente de tele-sexo e esconde esse pequeno segredo do namorado recente, vivido por Topher Grace, que vai receber conselhos de um desconhecido sábio (vivido pelo habitué dos filmes de Marshall, Hector Elizondo), que acaba de descobrir um caso antigo da esposa (Shirley MacLaine). Jennifer Garner é uma professora do primário que nem desconfia que o namorado médico (Patrick Dempsey) é casado e não acredita no fato nem quando seu melhor amigo (Ashton Kutscher) o revela depois de ter sido rejeitado pela namorada e quase noiva (Jessica Alba). Jamie Foxx é um repórter esportivo que tem a missão de realizar uma matéria sobre o Dia dos Namorados e cai de amores pela agente solteirona (Jessica Biel, se dá pra acreditar) de um jogador em vias de se aposentar. Enquanto isso, um casal de adolescentes prepara sua primeira noite de amor, um menino de oito anos tenta se declarar à sua amada (ecos de "Simplesmente amor"?) e uma capitã militar (Julia Roberts em pessoa) conhece um simpático solteiro (Bradley Cooper) durante uma viagem de avião.
Sendo honesto, o roteiro de "Idas e vindas" é divertido, passa rápido (ainda que pudesse ser um pouco mais curto) e cumpre sua função de arrecadar muito dinheiro (já rendeu mais de 60 milhões de dólares em pouco mais de uma semana em exibição) e divertir sua audiência. Mas sua visão de mundo é tão colorida e leve que sua credibilidade fica seriamente abalada. Tudo bem que ninguém entra em um filme chamado "Idas e vindas do amor" - cujo cartaz tem um coração enorme e tem Julia Roberts e Ashton Kutscher no elenco - esperando sérias elocubrações sobre sentimentos de perda, dor, solidão e carência. Mas para aqueles que estão em uma fase de descrença absoluta em finais felizes, chega a ser chocante assistir cenas que elevam o amor romântico à esfera que o filme eleva. Não desperta nem lágrimas, porque falar de amor eterno a quem não acredita nem mesmo em paixões de fim-de-semana equivale a narrar histórias de saci-pererê a um islandês que morou a vida toda em um iglu. Aqueles que estão em paz com o coração, porém, só podem gostar das tramas dirigidas por Marshall.
Se você está apaixonado e/ou acredita no amor acima de tudo, corra para assistir. Caso contrário, passe longe. Mas se puder não perca os créditos finais, que apresentam a melhor piada de todo o filme, estrelada por Julia e seu belo sorriso.
Em 1990, o cineasta Garry Marshall transformou uma prostituta em Cinderela e alçou Julia Roberts ao status de mega-estrela com o filme "Uma linda mulher". E Roberts, hoje a atriz mais bem paga do planeta Hollywood, devolve o favor a Marshall, aparecendo em poucos minutos em sua comédia romântica "Idas e vindas do amor" ("Valentine's day" no original, em mais uma prova da criatividade das distribuidoras brasileiras em estragar títulos alheios). Seguindo a linha de filmes como "Nova York, te amo" e "Ele não está tão a fim de você", o filme acompanha cerca de meia dúzia de histórias de amor (nenhuma delas muito profunda, como convém ao gênero) que acontecem no Dia dos Namorados americano (14 de fevereiro). Analisando como diversão, o filme é uma delícia: um elenco de astros fotogênicos, cenários ensolarados, alguns diálogos bastante engraçados e um romantismo desbragado apropriado à data de seu lançamento nos EUA. Friamente, no entanto, "Idas e vindas do amor" é tão, mas tão doce e bonitinho que chega a incomodar àqueles que não são tão crentes no amor e afins.
Senão, vejamos: Anne Hathaway é uma jovem que faz bicos como atendente de tele-sexo e esconde esse pequeno segredo do namorado recente, vivido por Topher Grace, que vai receber conselhos de um desconhecido sábio (vivido pelo habitué dos filmes de Marshall, Hector Elizondo), que acaba de descobrir um caso antigo da esposa (Shirley MacLaine). Jennifer Garner é uma professora do primário que nem desconfia que o namorado médico (Patrick Dempsey) é casado e não acredita no fato nem quando seu melhor amigo (Ashton Kutscher) o revela depois de ter sido rejeitado pela namorada e quase noiva (Jessica Alba). Jamie Foxx é um repórter esportivo que tem a missão de realizar uma matéria sobre o Dia dos Namorados e cai de amores pela agente solteirona (Jessica Biel, se dá pra acreditar) de um jogador em vias de se aposentar. Enquanto isso, um casal de adolescentes prepara sua primeira noite de amor, um menino de oito anos tenta se declarar à sua amada (ecos de "Simplesmente amor"?) e uma capitã militar (Julia Roberts em pessoa) conhece um simpático solteiro (Bradley Cooper) durante uma viagem de avião.
Sendo honesto, o roteiro de "Idas e vindas" é divertido, passa rápido (ainda que pudesse ser um pouco mais curto) e cumpre sua função de arrecadar muito dinheiro (já rendeu mais de 60 milhões de dólares em pouco mais de uma semana em exibição) e divertir sua audiência. Mas sua visão de mundo é tão colorida e leve que sua credibilidade fica seriamente abalada. Tudo bem que ninguém entra em um filme chamado "Idas e vindas do amor" - cujo cartaz tem um coração enorme e tem Julia Roberts e Ashton Kutscher no elenco - esperando sérias elocubrações sobre sentimentos de perda, dor, solidão e carência. Mas para aqueles que estão em uma fase de descrença absoluta em finais felizes, chega a ser chocante assistir cenas que elevam o amor romântico à esfera que o filme eleva. Não desperta nem lágrimas, porque falar de amor eterno a quem não acredita nem mesmo em paixões de fim-de-semana equivale a narrar histórias de saci-pererê a um islandês que morou a vida toda em um iglu. Aqueles que estão em paz com o coração, porém, só podem gostar das tramas dirigidas por Marshall.
Se você está apaixonado e/ou acredita no amor acima de tudo, corra para assistir. Caso contrário, passe longe. Mas se puder não perca os créditos finais, que apresentam a melhor piada de todo o filme, estrelada por Julia e seu belo sorriso.
sábado
DREAMGIRLS - EM BUSCA DE UM SONHO
DREAMGIRLS, EM BUSCA DE UM SONHO (Dreamgirls, 2006, Dreamworks SKG, 130min) Direção: Bill Condon. Roteiro: Bill Condon, livro de Tom Eyen. Fotografia: Tobias A. Schliessler. Montagem: Virginia Katz. Música: Tom Eyen, Henry Krieger. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: John Myhre/Nancy Haigh. Produção executiva: Patricia Witcher. Produção: Laurence Mark. Elenco: Jamie Foxx, Beyoncé Knowles, Eddie Murphy, Danny Glover, Jennifer Hudson, John Krasinski. Estreia: 15/12/06
8 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Eddie Murphy), Atriz Coadjuvante (Jennifer Hudson), Figurino, Direção de arte/cenários, Canção ("I love I do", "Listen", "Patience"), Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Jennifer Hudson), Mixagem de Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Coadjuvante (Eddie Murphy), Atriz Coadjuvante (Jennifer Hudson)
Desde sua estreia na Broadway, em dezembro de 1981, o musical "Dreamgirls" - inspirado perceptivelmente na trajetoria das Supremes, grupo musical liderado por Diana Ross nos anos 60 e 70 - já estava na mira dos estúdios de cinema para chegar às telas. No final da década de 80, por exemplo, Whitney Houston estava escaladíssima para o projeto - que ruiu com as exigências da estrela, que queria transferir algumas das canções de outras personagens para a sua. Nos anos 90 a possibilidade de uma versão dirigida por Joel Schumacher e estrelada por Lauryn Hill era grande depois do sucesso de "Tina" - mas o fracasso de outras produções biográficas/musicais acabou com a adaptação. Foi somente com o sucesso e os Oscar de "Chicago" - seguindo o êxito de "Moulin Rouge" - que Bill Condon (autor do roteiro do filme estrelado por Renée Zellweger) finalmente teve a chance de assumir o projeto de seus sonhos. Estrelado pela megastar Beyoncé Knowles, pelos competentes Jamie Foxx, Eddie Murphy e Danny Glover e pela espetacular revelação Jennifer Hudson, "Dreamgirls, em busca de um sonho"acabou rendendo mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias americanas e, com oito indicações ao Oscar, tornou-se também o único filme a liderar as indicações de seu ano sem concorrer à estatueta principal.
Considerado por muitos como a ressurreição da carreira de Eddie Murphy - que concorreu ao Oscar de coadjuvante depois de sucessos fracassos comerciais e artísticos - "Dreamgirls" é uma produção suntuosa e caprichada, comandada por um cineasta de extremo talento que sabe como extrair o melhor de cada ator e de cada cena. Comandante do excelente "Kinsey" e do impressionante "Deuses e monstros" - que lheu uma estatueta de roteiro adaptado em 1999 - Bill Condon conduz seu primeiro musical como diretor de maneira inteligente e dotado de um ritmo que fez extrema falta em produções como "O fantasma da ópera". Equilibrando com maestria uma reconstituição de época primorosa, uma direção de atores nunca aquém de formidável e uma trilha sonora vibrante e potente, Condon - que assistiu à estreia do musical na Broadway - assina um filme que em nada fica a dever aos clássicos exemplares do gênero. Se em alguns momentos derrapa em sequências musicais um tanto longas tudo é perdoado quando se percebe a entrega de seu elenco a personagens fortes e bem delineados, coisa rara no estilo.
A trama de "Dreamgirls" começa em Detroit em plena década de 60, período de grande efervescência na luta pelos direitos civis, liderada por Martin Luther King. É aí que o ambicioso Curtis Taylor Jr. (Jamie Foxx) tenta fazer sucesso no meio musical, conseguindo com que suas contratadas, as Dreamettes - um trio de belas e talentosas cantoras negras - sejam aceitas como backing vocals do grande astro James Thunder Early (Eddie Murphy). Não demora muito para que, com a decadência do cantor (envolvido com drogas) suas coadjuvantes assumam o centro do palco. Por questões comerciais, no entanto, ele faz com que a esplendorosa e sexy Deena Jones (Beyoncé Knowles) seja o principal atrativo do grupo, deixando de lado a talentosa e voluntariosa Effie Jones (Jennifer Hudson). Com ciúmes do arranjo - e sabendo-se muito mais capaz do que sua colega de elenco - Effie torna-se a dor de cabeça do produtor, que acaba se casando com Deena e gerenciando sua carreira. Nesse meio tempo, Early entra de cabeça no vício e no declínio e Effie se vê rejeitada por seus ataques de estrelismo.
Além de números musicais empolgantes que apresentam ao público grandes canções de r&b defendidas por gente do mais alto calibre, "Dreamgirls" tem a seu favor também a inteligência de Bill Condon em mesclar à sua história quase clichê sequências de grande impacto social. Mesmo que não se aprofunde no tema das lutas pelos direitos dos negros ele está sempre presente, influenciando nas vidas das personagens e ditando algumas de suas decisões. Conforme a narrativa avança - e os anos 60 dão lugar aos 70 - as mudanças sociais são sutilmente percebidas, assim como a evolução nos figurinos e cenários, todos acima de qualquer crítica. Mas nada é melhor na bem-sucedida adaptação do que o elenco formado pelo diretor.
A opção de Condon pela belíssima Beyoncé Knowles é plenamente justificada quando se percebe que, além de seu alcance vocal privilegiado, a ex-integrante do Destiny's Child (que de certa forma seguiu o mesmo caminho das Dreamettes) não faz feio como atriz, mantendo com segurança uma personagem que tinha tudo para cair na vala fácil das figuras decorativas do gênero. Jamie Foxx comprova que seu Oscar por "Ray" não foi acidente, criando um Curtis Taylor quase cruel e egocêntrico. Eddie Murphy brilha como James Early, na melhor atuação de sua carreira. Mas ninguém consegue ofuscar Jennifer Hudson. Ex-concorrente do "American Idol", Hudson é um furacão em cena, mostrando que não foi à toa que bateu 782 candidatas ao papel: sua Effie engole tudo à sua volta, equilibrando um brilhante talento como cantora com uma insuspeita vocação para atriz. Todos os prêmios que ganhou na temporada - entre os quais o Golden Globe, o Screen Actors Guild e finalmente o Oscar - apenas confirmaram o que qualquer espectador percebe cada vez em que ela está em cena: nasce uma estrela.
"Dreamgirls" não vai agradar aos detratores do gênero musical. É um exemplar perfeito do estilo, com todas as suas qualidades e também seus defeitos. Mas é feito com paixão, talento e garra, o que acaba sendo um enorme diferencial em tempos onde a apatia é moeda corrente.
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