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terça-feira

NOIVA EM FUGA


NOIVA EM FUGA (Runaway bride, 1999, Paramount Pictures/Touchstone Pictures, 116min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Josann McGibbon, Sara Parriott. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Bruce Green. Música: James Newton Howard. Figurino: Edgar Pomeroy, Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Gary Lucchesi, David Madden, Ted Tannembaum. Produção: Robert W. Cort, Ted Field, Scott Kroopf, Tom Rosenberg. Elenco: Julia Roberts, Richard Gere, Joan Cusack, Hector Elizondo, Rita Wilson, Christopher Melony, Donal Logue, Laurie Metcalf. Estreia: 30/7/99

Nove anos se passaram entre "Uma linda mulher" e "Noiva em fuga". Nesse meio tempo, Julia Roberts foi do céu (Globo de Ouro, indicação ao Oscar, salários milionários) ao inferno (vida sentimental atribulada, brigas com a imprensa, fracassos de bilheteria), e Richard Gere equilibrou (poucos) êxitos comerciais com uma boa quantidade de fiascos financeiros. A reunião da dupla era algo que os fãs - e principalmente os estúdios, ávidos por dólares - esperavam ansiosamente desde que a comédia romântica, dirigida por Garry Marshall, tornou-se um fenômeno na temporada 1990, e depois de várias tentativas infrutíferas (inclusive projetos sempre abortados de uma continuação), finalmente o público pode conferir se a química milionária ainda se mantinha e se o raio poderia cair duas vezes no mesmo lugar. A resposta para ambas as perguntas foi um sonoro "sim" - mais de 300 milhões de dólares de arrecadação mundial e críticas majoritariamente favoráveis. Mas por que, então, a impressão de que, no final das contas, ficou faltando alguma coisa?

Talvez o maior problema de "Noiva em fuga" seja a falta do frescor de "Uma linda mulher" - especialmente quanto ao desempenho de Julia Roberts, então em começo de carreira e sem as marcas (boas e ruins) de uma década de caminhada. Ou talvez o roteiro pouco inspirado e sem o glamour da Los Angeles sofisticada do filme de 1990. Quem sabe até mesmo o excesso de personagens secundários, que tira o foco dos protagonistas e deixa o ritmo menos enxuto. O fato é que o reencontro de um casais mais icônicos do cinema moderno não despertou as faíscas esperadas - mesmo porque nem sempre eles foram os atores idealizados para os papéis centrais. Nos dez anos que separam o começo de sua gestação e sua estreia, nomes como Mel Gibson, Harrison Ford, Michael Douglas e Ben Affleck foram sondados para viver o jornalista Ike Graham, enquanto Geena Davis, Sandra Bullock e Demi Moore chegaram perto de assumirem a independente Maggie Carpenter. Levando-se em consideração o quanto tais intérpretes são diferentes entre si, pode-se imaginar o quanto o roteiro mudou ou se adaptou nesse período - o que não chega a ser surpresa, uma vez que o próprio "Uma linda mulher" também sofreu alterações radicais antes de seu lançamento - e o quanto as presenças de Roberts e Gere são quase acidentais em uma trama sem maiores encantos além de suas presenças carismáticas.

 

Apesar do título dar destaque a Roberts, pode-se dizer que o personagem principal de "Noiva em fuga" é Ike Graham (Richard Gere), colunista de um grande jornal de Nova York que se vê demitido depois de publicar - sem checar a veracidade dos fatos - um texto a respeito de uma jovem do interior de Maryland conhecida na cidade por ter abandonado vários noivos no altar sem explicação nenhuma. Tentando provar que estava certo em sua história, Ike vai até a pequena cidade de Hale para testemunhar, em primeira mão, mais uma fuga da bela Maggie Carpenter (Julia Roberts) - cuja carta para seus editores foi a responsável por sua dispensa. Noiva pela quarta vez - agora do professor de Educação Física Bob Kelly (Christopher Meloni) - e decidida a honrar definitivamente seu compromisso (até como forma de desmentir Ike), Maggie a princípio hostiliza o repórter, que se aproxima de seus amigos e família, mas aos poucos vai se deixando conquistar por seu charme e sua lábia. Confiando nele - apesar de sua fama de ser pouco simpático ao sexo feminino -, a jovem e bela noiva torna-se não apenas objeto de uma possível nova matéria, mas também a mulher que pode enfim fazê-lo descobrir o amor. Apaixonada, ela fica dividida entre finalmente casar-se com quem não ama, ou assumir seus sentimentos e deixar que Ike fique com a razão sobre seu passado pouco invejável.

Apesar de apresentar momentos divertidos e algumas situações no mínimo agradáveis, "Noiva em fuga"  é um filme irregular. Nem tudo funciona como deveria (os personagens secundários muitas vezes ficam sem função alguma a não ser soltar piadas avulsas) e o clímax tampouco empolga - culpa talvez da falha em envolver o espectador no romance entre seus protagonistas. A aura apaixonada que cobria Gere e Roberts em "Uma linda mulher" simplesmente inexiste aqui, apesar da química manter-se intacta, e nos embates mais dramáticos entre eles fica evidente a fragilidade do roteiro e a direção pouco inspirada de Garry Marshall, que parece confiar tanto em seus atores que esquece de dar-lhes um bom material. No final das contas, é uma comédia romântica simpática, mas muito aquém do que se poderia esperar da união de um time cujo primeiro encontro deu origem a um dos mais queridos filmes de seu tempo.

 

sexta-feira

FRANKIE & JOHNNY

FRANKIE & JOHNNY (Frankie & Johnny, 1991, Paramount Pictures, 118min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Terrence McNally, baseado em sua peça teatral "Frankie and Johnny in the Clair de Lune". Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Jacqueline Cambas, Battle Davis. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Kathe Klopp. Produção executiva: Michael Lloyd, Charles Mulvehill, Alexandra Rose. Produção: Garry Marshall. Elenco: Michelle Pfeiffer, Al Pacino, Kate Nelligan, Hector Elizondo, Glenn Plummer. Estreia: 11/10/91

Quase uma década separa o primeiro encontro nas telas entre Al Pacino e Michelle Pfeiffer. Em 1983, quando fizeram "Scarface", de Brian De Palma, Pacino já era um grande nome em Hollywood, com várias indicações ao Oscar e alguns clássicos no currículo, enquanto a bela Pfeiffer tentava emplacar no cinema e provar-se mais capaz do que simplesmente arrancar suspiros do público masculino. Oito anos mais tarde, muita coisa havia mudado: o veterano ator, depois de um exílio voluntário no teatro, retornava às telas com garra total (e elogios rasgados por filmes como "O poderoso chefão - parte 3" e "Dick Tracy", ambos de 1990), e a deslumbrante ex-modelo finalmente estava estabelecida como atriz de primeira grandeza, com duas indicações à estatueta e o respeito da indústria. Não é de admirar, portanto, que em "Frankie & Johnny", o filme responsável por seu reencontro, o que se veja é um amigável duelo de interpretações, entre dois astros consagrados e sem mais nada a provar a ninguém. O que surpreende, na verdade, é o quanto Michelle consegue se destacar mesmo diante de um monstro como Pacino!

Dirigidos por Garry Marshall - recém saído do estrondoso sucesso de "Uma linda mulher" (90) - e com base em uma peça teatral que contou com F. Murray Abraham e Kathy Bates em uma de suas montagens, "Frankie & Johnny" é um drama romântico que abre mão de vários dos clichês do gênero em busca de um tom mais realista e menos fantasioso. Os protagonistas, por exemplo, estão longe de serem jovens atléticos e milionários em busca de um romance de cinema: Johnny é um ex-presidiário solitário, que não tem coragem de reaproximar-se da ex-mulher e dos filhos mas deseja uma vida menos à margem da sociedade; e Frankie, depois de um relacionamento abusivo e violento, só quer ter paz para poder assistir a filmes no sossego de seu pequeno apartamento - e ocasionalmente divertir-se com o vizinho e melhor amigo, Tim (Nathan Lane). O encontro entre eles não se dá em um cenário paradisíaco e fotogênico de Nova York, mas sim no pequeno restaurante onde ela é garçonete e ele começa a trabalhar como cozinheiro. E não, não há intrigas e mal-entendidos durante o percurso entre seu primeiro contato e o amor que enfim surge: o autor da peça (e do roteiro), Terrence McNally, faz questão de manter tudo o mais perto possível do dia-a-dia, do mundano, do crível. Talvez por isso as plateias não tenham correspondido tão bem: com uma bilheteria de pouco mais de 20 milhões de dólares nos EUA, o filme de Marshall acabou conquistando apenas a crítica - e mesmo assim, com reservas. Pfeiffer foi indicada ao Golden Globe de melhor atriz dramática, mas Pacino foi simplesmente ignorado por todas as cerimônias de premiação do ano.


É fácil compreender o motivo pelo qual Pfeiffer chamou mais a atenção do que seu experiente colega de cena: enquanto ela opta por um caminho mais sutil e delicado de atuação, de acordo com o passado e o presente de sua personagem, Pacino encara seu Johnny como um homem que, apesar dos pesares, ainda mantém o bom humor e a esperança, frequentemente exagerando em suas tentativas de conquistar Frankie através de sua personalidade despachada. Nem sempre Pacino acerta o tom, e essa irregularidade acaba por jogar luz no trabalho minimalista de Michelle, cujo sorriso reflete com segurança a complexidade interna de uma mulher que não acredita no amor, mas que de certa forma precisa dele para sentir-se completa. Os diálogos de McNally são inteligentes e certeiros - respeitam seus protagonistas e a plateia com sensibilidade e humor - e a direção de Marshall, apesar de quadradinha em excesso, não atrapalha a dinâmica de seu elenco ou a fluidez da trama: como sempre em sua filmografia, ele sabe como transformar cenas simples em momentos no mínimo agradáveis. E se, em determinadas passagens parece tudo verborrágico demais, é bom lembrar das origens teatrais do texto e embarcar em uma história que (felizmente) dispensa artifícios narrativos e lances folhetinescos.

"Frankie & Johnny" é, em suma, um drama romântico para adultos. Sensível, delicado e inteligente, peca apenas por ser simples demais em sua essência - o que muitas vezes afugenta um público acostumado com excessos de todo tipo. Ao contrário da maioria de seus congêneres, não é o final feliz a todo custo que almeja, mas sim a empatia com seus protagonistas, a compreensão de suas idiossincrasias e a torcida para que, no desfecho, tudo saia como eles procuram - independentemente se isso virá com eles juntos ou não. É louvável que seu diretor tenha conseguido realizá-lo logo em seguida a seu êxito maior - justamente uma comédia romântica típica - sem deixar-se contaminar por maneirismos: são dois filmes opostos, apesar de seu tema comum (o amor), e Marshall comprovou que talento em perceber o humano em cada personagem era algo que realmente não lhe faltava. Vale experimentar, mas sem esperar os lugares-comuns do gênero.

domingo

O MAIOR AMOR DO MUNDO

O MAIOR AMOR DO MUNDO (Mother's Day, 2016, Open Road Films, 118min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Anya Kochoff Romano, Matt Walker, Tom Hines, estória de Lily Hollander, Matt Walker, Tom Hines, Garry Marshall. Fotografia: Charles Minsky. Montagem: Bruce Green, Robert Malina. Música: John Debney. Figurino: Marilyn Vance, Beverly Woods. Direção de arte/cenários: Missy Stewart/Bob Kensinger. Produção executiva: William Bindley, Deborah E. Chausse, Leon Corcos, Mark Fasano, Kevin Frakes, Howard Gilden, Fred Grimm, Bill Heavener, Matthew Hooper, Tedd Johnson, Scott Lipsky, Danny Mandel, Rodger May, Ankur Rugta, Jared D. Underwood. Produção: Brandt Andersen, Howard Burd, Daniel Diamond, Mark DiSalle, Mike Karz, Wayne Rice. Elenco: Jennifer Aniston, Kate Hudson, Julia Roberts, Timothy Olyphant, Jason Sudeikis, Margo Martindale, Shay Mitchell, Hector Elizondo, Aasiv Mandvi. Estreia: 13/4/16

Parecia uma fórmula imbatível de sucesso: escolher uma data comemorativa como tema, escalar um elenco de astros conhecidos do grande público, lançar no feriadoc correspondente e correr pro abraço. Foi assim com "Idas e vindas do amor" (sobre o Dia dos Namorados) e com "Noite de ano-novo" (autoexplicativo). Porém, mesmo as fórmulas aparentemente infalíveis podem desgastar-se: se os dois primeiros filmes fizeram sucesso nas bilheterias mundiais (216 milhões e 142 milhões respectivamente), o terceiro capítulo da série do diretor Garry Marshall decepcionou em todos os quesitos, tanto em termos de crítica (o que já havia acontecido com os anteriores, aliás) quanto financeiros, rendendo menos de 50 milhões de dólares no total. Último filme de Marshall - que de certa forma revelou Julia Roberts ao mundo, em "Uma linda mulher" (90) e morreu poucos meses depois da estreia, "O maior amor do mundo" padece de um roteiro simplista e personagens sem muito carisma ou profundidade, que serve unicamente como passatempo rápido e facilmente esquecível.

Menos ambicioso do que os filmes anteriores do estilo, e com um elenco de estrelas mais enxuto, "O maior amor do mundo" se fixa em apenas cinco núcleos, que se cruzam ocasionalmente e tem, como pano de fundo, o amor materno. Julia Roberts, amiga do diretor, está pouco confortável como Miranda Collins, uma escritora famosa que é conhecida por apresentar um programa de televisão onde vende joias ao telespectador. Quem deseja ser contratada por ela como designer é Sandy (Jennifer Aniston), que está passando pela complicada situação de lidar com o novo casamento do ex-marido, Henry (Timothy Olyphant), e ver seus filhos conquistados pela madrasta. Nesse meio-tempo, ela conhece o viúvo Bradley (Jason Sudeikis), que perdeu a esposa há pouco tempo e tenta compreender o universo de suas duas filhas, uma delas em plena adolescência. Já as duas irmãs Jesse (Kate Hudson) e Gabi (Sarah Chalke) tentam esconder de seus pais (preconceituosos) seus relacionamentos amorosos: a primeira com um médico indiano e a segunda com uma mulher, com quem tem um filho. E finalizando a ciranda de relações está o casal formado pelo comediante inglês Zack (Jack Whitehall) e sua amada Kristin (Britt Robertson), que tem um bebê juntos mas não conseguem se casar por causa de uma situação mal resolvida no passado da jovem.


Mesmo com um número relativamente baixo de tramas paralelas, o roteiro de "O maior amor do mundo" consegue ser superficial em todas. Julia Roberts talvez seja o maior talento desperdiçado dentre todo o elenco, com uma personagem tão rasa e inverossímil que chega a parecer proposital - além de não oferecer à atriz a chance de mostrar sua beleza. Jennifer Aniston ainda consegue extrair um pouco mais de sua Sandy, que se envolve em duas das histórias contadas, mas mesmo assim pouco faz para deixar de lado os trejeitos de sua personagem mais famosa, a Rachel Green da série "Friends" - sorte que seu carisma é inabalável. Margo Martindale quase rouba a cena como a mãe preconceituosa de Kate Hudson, mas lhe é dado tão pouco tempo em cena que seu enredo - talvez o mais interessante de todos - acaba perdido em meio a algumas piadas sem graça e tentativas nem sempre felizes de emocionar o público. A sorte é que Marshall - um veterano com larga experiência - sabe como transformar seus filmes em produtos agradáveis mesmo quando pouco profundos e não deixa que a sessão se torne um pesadelo.

A receita de "O maior amor do mundo" é fácil: um visual bonito, com atores atraentes, uma trilha sonora pop com alguns sucessos do momento, personagens com problemas facilmente identificáveis (mas não pesados a ponto de afastar o público) e alguns momentos de humor e drama, dosados para conquistar tanto os fãs de comédia quanto aqueles que gostam de chorar diante da tela. Todos os ingredientes estão presentes no filme, mas o resultado é apenas razoável, sem nada que o diferencie de dezenas de outros produtos lançados semanalmente nos cinemas. Talvez agrade mais a quem for mãe - ou a quem se conecte especificamente com alguma das tramas - mas no final é simplesmente uma sessão da tarde pouco memorável. Uma pena que Marshall tenha se despedido do cinema com um filme tão banal e vazio!

sexta-feira

AMIGAS PARA SEMPRE

AMIGAS PARA SEMPRE (Beaches, 1988, Touchstone Pictures, 123min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Mary Agnes Donoghue, romance de Iris Rainer Dart. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Richard Halsey. Música: Georges Delerue. Figurino: Robert De Mora. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Michael Bird, Garrett Lewis. Produção executiva: Teri Schwartz. Produção: Bonnie Bruckheimer-Martell, Bette Midler, Margaret Jennings South. Elenco: Bette Midler, Barbara Hershey, John Heard, Spalding Gray, Lainie Kazan, James Read. Estreia: 21/12/88

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Indicada ao Oscar de melhor atriz logo em sua estreia nas telas, com o musical "A rosa" (79), biografia disfarçada de Janis Joplin dirigida por Mark Rydell, Bette Midler tornou-se, na segunda metade da década de 80, sinônimo de sucesso dentro da Touchstone Pictures. Protagonista de três êxitos incontestáveis na sequência - "Um vagabundo na alta roda" (86), "Por favor, matem minha mulher" (86) e "Cuidado com as gêmeas" (88) - ela conquistou as plateias com seu humor histriônico e frequentemente excessivo que deixava de lado seu talento dramático e seus dons musicais. Disposta a mudar esse cenário, ela encontrou no romance "Beaches", de Iris Rainer Dart, o material ideal para voltar a ser lembrada por seus dotes como intérprete séria. Assinando também como produtora, Midler escolheu uma companheira de cena acima de qualquer suspeita - Barbara Hershey, que acabara de ser vista nos cinemas como a Maria Madalena de Scorsese, em "A última tentação de Cristo" (88) - e um cineasta, Garry Marshall, que, apesar de não ter uma personalidade artística das mais marcantes, emplacaria um megasucesso dois anos depois, o romântico "Uma linda mulher" (90). De olho principalmente no público feminino, "Amigas para sempre" não repetiu o mesmo sucesso do filmes anteriores da estrela, mas para os menos exigentes funciona como um bom drama lacrimoso - e que sim, explora todos os seus talentos.

A história, como não poderia deixar de ser, é puro clichê: ainda crianças, em Atlantic City, a mimada e sofisticada Hillary Whitney e a rebelde com vocação artística CC Bloom se conhecem e se tornam amigas, apesar de suas diferenças sociais e de criação. Apesar de distantes fisicamente uma da outra, elas continuam mantendo uma assídua correspondência, até que finalmente, anos mais tarde, se reencontram quando CC (já vivida por Bette Midler) está iniciando uma bem-sucedida carreira nos palcos e Hillary (Barbara Hershey com excesso de botox) dedicando-se a trabalhar como advogada para causas sociais. Elas passam a morar juntas no apartamento decrépito de CC e é justamente seu empresário, John Pierce (John Heard), que irá detonar a primeira crise entre as amigas - que passarão as décadas seguintes em constante instabilidade emocional e profissional, brigando e fazendo as pazes enquanto passam por momentos cruciais de suas vidas. É somente depois que Hillary tem uma filha pequena, no entanto, que o maior problema surge em seu caminho: uma doença rara e incurável que irá por em xeque seu relacionamento.

Com um roteiro bastante superficial, que não explora a contento a profundidade dos sentimentos entre as protagonistas, que passam o filme basicamente brigando e se reconciliando, "Amigas para sempre" é nitidamente um veículo para o brilho de Bette Midler. É ela quem tem as melhores e mais importantes cenas, é ela quem tem a chance de equilibrar momentos dramáticos com sequências cômicas, e, para confirmar seu status de estrela maior, canta em diversos números musicais - alguns interessantes, outros bastante enfadonhos e que atrapalham o ritmo do filme, tornando-o desnecessariamente longo. Hershey, uma atriz de grande capacidade, fica relegada quase sempre a um segundo plano melancólico, sendo desperdiçada com uma personagem mal desenvolvida que serve, aparentemente, como escada para o espetáculo de Midler - que deita e rola mesmo quando sua personagem ultrapassa o limite do suportável, com um egocentrismo que só não a transforma em alguém totalmente desprezível graças ao carisma da atriz, que mesmo assim não agrada a todos. É preciso um mínimo de simpatia por ela para se gostar do filme.

Indicado ao Oscar de direção de arte, "Amigas para sempre" é uma sessão da tarde lacrimosa, mas agradável o suficiente para manter o interesse do público até seus minutos finais, embalados pela bela "Wind beneath my wings", cantada (obviamente) por Bette Midler. Com interessantes referências aos bastidores do mundo do teatro, do cinema e da música, é um filme capaz de emocionar aos mais sensíveis, mesmo que force a barra no terceiro ato, quando substitui a leveza de uma história sobre amizade pelo drama fácil de uma doença terminal. Pode levar às lágrimas, mas é longe de ser inesquecível - e pelo menos deu à Bette Midler a chance de sair um pouco das comédias escrachadas e provar a extensão de seu talento.

terça-feira

NOITE DE ANO-NOVO

NOITE DE ANO-NOVO (New Year's Eve, 2011, New Line Cinema, 113min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Katherine Fugate. Fotografia: Charles Minsky. Montagem: Michael Tronick. Música: John Debney. Figurino: Gary Jones. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Samuel J. Brown, Michael Disco, Toby Emmerich, Diana Pokorny, Josie Rosen. Produção: Mike Karz, Garry Marshall, Wayne Rice. Elenco: Michelle Pfeiffer, Robert DeNiro, Hilary Swank, Hale Berry, Katherine Heigl, Sarah Jessica Parker, Josh Duhamel, Abigail Breslin, Ashton Kutcher, Lea Michele, Zac Efron, Jon Bon Jovi, Jessica Biel, Sarah Paulson, Hector Elizondo, John Lithgow, Cary Elwes, Allysa Milano, Common, Seth Meyers, Til Schweiger, Carla Gugino, Sofia Vergara, James Belushi, Cherry Jones, Ludacris, Ryan Seacrest. Estreia: 05/12/11

 Aproveitar datas comemorativas como pretexto para realizar filmes - e consequentemente ganhar dinheiro aproveitando o marketing gratuito que isso gera - é uma espécie de tradição em Hollywood. Mas se até recentemente apenas filmes de terror apelavam para o calendário em busca de ideias - vide as séries "Sexta-feira 13" e "Halloween" e o tenebroso "11/11/11", que se valia de uma data rara para contar uma história sem pé nem cabeça - ultimamente um outro gênero vem se apropriando do conceito. Aliás, mais precisamente um cineasta: Garry Marshall, que em 1990 deu a Julia Roberts sua grande chance para o estrelato em "Uma linda mulher". Em 2010 ele lançou "Idas e vindas do amor", uma comédia romântica que foi execrada quase unanimemente a despeito de seu elenco milionário - que incluía a própria Roberts, assim como Bradley Cooper, Ashton Kutscher, Kathy Bates, Anne Hathaway e Jamie Foxx. No entanto, apesar das críticas negativas, o filme rendeu mais de 200 milhões de dólares mundo afora, o que encorajou o cineasta a partir para uma espécie de segundo capítulo de sua saga "romântico/comemorativa". "Noite de ano-novo" chegou aos cinemas americanos em dezembro de 2011 e, como era de se esperar, foi novamente massacrado pela crítica.

Utilizando-se do artifício que fez a glória de Robert Altman - contar várias histórias paralelas de personagens aparentemente sem conexão alguma - "Noite de ano-novo" segue rigidamente a fórmula do filme anterior de Marshall, mesclando tramas engraçadinhas, dramáticas e românticas sem dar atenção especial a nenhuma delas (e consequentemente superficializando todas as relações mostradas, inclusive aquelas que poderiam render muito mais). Além disso, o cineasta insiste em tentar atingir públicos de todas as idades, pondo lado a lado atores respeitados e/ou oscarizados (Robert DeNiro, Michelle Pfeiffer, Hale Berry e Hilary Swank) e jovens promessas/ídolos adolescentes (Abrigail Breslin, Zac Efron, Lea Michelle). Para completar o elenco, figurinhas fáceis do gênero, como Katherine Heigl, Sarah Jessica Parker e Josh Duhamel e seu ator-fetiche, Hector Elizondo. Soma-se à receita uma trilha sonora moderna, histórias que não machucam ninguém e uma espécie de lição de moral a respeito de amor e perdão e o bolo está pronto. A questão é: esse bolo tão repleto de ingredientes deu liga?


Tudo depende do estado de espírito do espectador e de suas expectativas. Como toda produção hollywoodiana, "Noite de ano-novo" é bem fotografada, bem editada e, no mínimo, agradável. Mas nem todas as suas histórias cativam tanto quanto poderiam. Se não vejamos. Ingrid (Michelle Pfeiffer de cabelos castanhos) acaba de pedir demissão de um emprego que não mais lhe satisfazia e propõe ao jovem mensageiro Paul (Zac Efron) que a ajuda a cumprir uma lista de resoluções até a meia-noite - o pagamento será convites para uma cobiçada festa de revéillon. Stan Harris (Robert DeNiro) é o desenganado paciente cujo último desejo é assistir a chegada no novo ano em Times Square do terraço do hospital e que passa a noite acompanhado da dedicada enfermeira Aimée (Hale Berry), cujos planos para a virada ela não conta a ninguém. Tess e Griffin Byrne (Jessica Biel e Seth Meyers) estão em vias de ter o primeiro filho quando descobrem que a maternidade dá um prêmio de 25 mil dólares ao bebê que vier ao mundo nos primeiros minutos do novo ano e entram em competição com outro casal na mesma situação, Grace e James Schwab (Sarah Paulson e Seth Meyers).

Já o cantor de rock Jensen (Jon Bon Jovi) tenta reconquistar a hesitante Laura (Katherine Heigl), a chef de cozinha a quem decepcionou um ano antes e que ele espera que seja sua mulher e a jovem Elise (Lea Michele, da série "Glee") é uma de suas backing-vocals que se vê presa no elevador enquanto se prepara para um show e tem que lidar com o ranzinza Randy (Ashton Kutcher, com as mesmas caras e bocas de sempre), seu vizinho que odeia as comemorações de fim de ano. A data também se mostra estressante para a estilista Kim (Sarah Jessica Parker), que entra em conflito com a filha adolescente Hailey (Abigail Breslin, a pequena Miss Sunshine em pessoa), que quer passar a meia-noite com um grupo de amigos e dar o primeiro beijo no coleguinha por quem é apaixonada. A responsável pela festa em Times Square, Claire Morgan (Hilary Swank), também passa por maus bocados quando um dos principais atrativos do show dá errado e ela precisa apelar para um veterano ex-colega ressentido com a demissão, Kominsky (Hector Elizondo). Para finalizar, o jovem herdeiro Sam Ahern (Josh Duhamel) sai de uma festa de casamento no interior para tentar chegar a tempo ao encontro marcado um ano antes com uma mulher que conheceu por acaso e por quem se apaixonou instantaneamente. O segredo a respeito de quem é essa mulher e de como algumas das histórias irão se conectar é um charme a mais do filme, mesmo que esteja diluído em tantas tramas.

É lógico que "Noite de ano-novo" está a anos-luz de filmes do mesmo estilo como o delicioso "Simplesmente amor", mas tampouco é algo a ser desprezado totalmente. Apesar de ser dramaticamente falho, consegue ser simpático a maior parte do tempo (inclusive quando obriga a plateia a ver Jon Bon Jovi tentando atuar) e, mesmo que algumas das relações mostradas na tela não cheguem a convencer a plateia (principalmente pelo pouco tempo disponível para desenvolvê-las) não deixa de ser um alívio perceber que nem só de desenhos animados vive o cinema americano nessa época de festas. "Noite de ano-novo" cumpre o que promete (entreter sem compromisso), mas nunca vai além disso. Pode divertir aos menos exigentes. E só.

segunda-feira

UMA EQUIPE MUITO ESPECIAL

UMA EQUIPE MUITO ESPECIAL (A league of their own, 1992, Columbia Pictures, 128min) Direção: Penny Marshall. Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel, estória de Kim Wilson, Kelly Kandaele. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Adam Bernardi, George Bowers. Música: Hans Zimmer. Figurino: Cynthia Flynt. Direção de arte/cenários: Bill Groom/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Penny Marshall. Produção: Elliot Abbot, Robert Greenhut. Elenco: Tom Hanks, Geena Davis, Lori Petty, Madonna, Rosie O'Donnell, Bill Pullman, David Straithairn, Jon Lovitz, Garry Marshall. Estreia: 01/7/92

No auge da II Guerra, enquanto a maioria dos homens americanos estavam defendendo o país nas trincheiras inimigas, restava às mulheres manter os EUA, até mesmo em funções até então consideradas masculinas. E se nessa época havia fazendeiras, caminhoneiras e empresárias, por que não jogadoras de baseball? Um dos esportes mais amados pelo público ianque, ele estava em sérias dificuldades com o êxodo de seus mais populares jogadores, que estavam jogando por suas vidas nas mais distantes plagas. Com medo de perder as generosas bilheterias que o jogo lhes proporcionava, os empresários tiveram então uma ideia brilhante: criar uma liga feminina de baseball, com o objetivo de manter acesa a chama até o retorno dos (esperava-se) vencedores soldados. Assim começa "Uma equipe muito especial", a divertida comédia que Penny Marshall - diretora dos sucessos "Quero ser grande" (88) e "Tempo de despertar" (90) - fez alcançar mais de 100 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico no verão de 1992. Sucesso de público e crítica, o filme cria uma história de ficção em cima de uma situação verídica (a criação de tal liga) que até então era desconhecida da maior parte dos americanos e faz rir e emociona com um roteiro enxuto escrito pela dupla mais quente da época, Baballo Mandel e Lowell Ganz.

A trama criada pelos roteiristas começa em 1943, no Oregon, quando o descobridor de talentos Ernie Capadino (Jon Lovitz) propõe à talentosa Dotti Hinson (Geena Davis em momento especialíssimo da carreira, acumulando sucesso atrás de sucesso) que o acompanhe para um teste em Chicago: se aprovada, ela entraria em um time de baseball profissional com um salário tentador (ao menos para uma fazendeira cujos dias se resumem a ordenhar vacas, cuidar da casa, esperar que o marido retorne da guerra e ocasionalmente jogar com um grupo de amigas). Dottie a princípio recusa o convite, mas acaba aceitando a proposta, desde que possa levar junto sua irmã caçula, Kit (Lori Petty), com quem mantém uma relação carinhosa porém de certa rivalidade. Em pouco tempo, ambas estão escaladas para serem treinadas por Jimmy Dugan (Tom Hanks, divertidíssimo), que, de uma lenda do esporte acabou por tornar-se um pária por seu vício em álcool. Juntamente com outras mulheres igualmente talentosas, elas encaram o machismo do mundo esportivo - antes de jogadoras elas são tratadas como fêmeas, que precisam saber comportar-se socialmente e manter-se atraentes fisicamente - e iniciam uma bem-sucedida carreira.


O fio condutor da história de "Uma equipe muito especial" - a amizade e a competitividade entre Dotti e Kit - é apenas desculpa para Penny Marshall divertir o público com piadas sutis e ácidas sobre o comportamento feminino da década de 40 e o universo machista e ganancioso do baseball. Enquanto Dotti está vivenciando apenas uma fase de sua vida, que ela pretende que volte aos eixos quando seu marido (Bill Pullman) retornar do conflito, suas colegas tem no jogo e no campeonato o centro de suas existências. É somente ao lado das demais jogadoras que Doris Murphy (Rosie O'Donnell) sente-se enturmada, que a desbocada e liberal Mae Mordabito (Madonna) pode ser quem ela realmente é, que a feiosa Marla (Megan Cavanagh) sente-se valorizada (mesmo que nos documentários sobre o time ela seja sempre filmada de longe para não atrapalhar a ideia de que todas as atletas da liga são bonitas e sensuais). Essa espécie de família que é criada a partir da união entre todas elas é o que dá ao filme seu sabor especial, mesclando momentos de humor com cenas quase comoventes - em especial quando uma das jogadoras recebe a triste notícia da morte de seu marido. Buscando um humor simples e familiar, ela atinge o espectador aos poucos, até mesmo aquele que entende de baseball tanto quanto de física quântica.

"Uma equipe muito especial" talvez seja apenas mais um filme de esportes americanos feito para americanos, mas é impossível negar as qualidades que o fazem conquistar também o público internacional. O timing cômico do roteiro é invejável (todas as cenas com o filho obeso de uma das jogadoras é sensacional), a direção é convencional mas eficaz, a trilha sonora de Hans Zimmer cumpre sua função com louvor (e tem direito até a uma canção feita especialmente por Madonna, "This used to be my playground", que concorreu ao Golden Globe) e o elenco está em dias inspirados. Tom Hanks engordou para o papel e construiu um Jimmy Dugan irascível e ao mesmo encantador; Geena Davis pegou o papel de Debra Winger dias antes do início das filmagens e tornou-se exímia jogadora; e até Madonna sai-se bem como a sexy Mae Topa Tudo (o que dá origem a uma ótima piada). No final das contas, é uma comédia acima da média, capaz de arrancar sorrisos até do mais exigente espectador.

sexta-feira

IDAS E VINDAS DO AMOR

IDAS E VINDAS DO AMOR (Valentine's Day, 2010, New Line Cinema, 125min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Katherine Fugate, estória de Katherine Fugate, Abby Cohn, Marc Silverstein. Fotografia: Charles Minsky. Montagem: Bruce Green. Música: John Debney. Figurino: Gary Jones. Direção de arte/cenários: Albert Brenner, K.C. Fox. Produção executiva: Samuel J. Brown, Michael Disco, Toby Emmerich, Diana Pokorny, Josie Rosen. Produção: Mike Karz, Wayne Rice. Elenco: Julia Roberts, Ashton Kutscher, Jessica Alba, Jessica Biel, Jamie Foxx, Patrick Dempsey, Shirley MacLaine, Hector Elizondo, Kathy Bates, Emma Roberts, Anne Hathaway, Topher Grace, Bradley Cooper, Queen Latifah, Eric Dane, Taylor Lautner, Taylor Swift, Jennifer Garner. Estreia: 08/02/10

Em 1990, o cineasta Garry Marshall transformou uma prostituta em Cinderela e alçou Julia Roberts ao status de mega-estrela com o filme "Uma linda mulher". E Roberts, hoje a atriz mais bem paga do planeta Hollywood, devolve o favor a Marshall, aparecendo em poucos minutos em sua comédia romântica "Idas e vindas do amor" ("Valentine's day" no original, em mais uma prova da criatividade das distribuidoras brasileiras em estragar títulos alheios). Seguindo a linha de filmes como "Nova York, te amo" e "Ele não está tão a fim de você", o filme acompanha cerca de meia dúzia de histórias de amor (nenhuma delas muito profunda, como convém ao gênero) que acontecem no Dia dos Namorados americano (14 de fevereiro). Analisando como diversão, o filme é uma delícia: um elenco de astros fotogênicos, cenários ensolarados, alguns diálogos bastante engraçados e um romantismo desbragado apropriado à data de seu lançamento nos EUA. Friamente, no entanto, "Idas e vindas do amor" é tão, mas tão doce e bonitinho que chega a incomodar àqueles que não são tão crentes no amor e afins.

Senão, vejamos: Anne Hathaway é uma jovem que faz bicos como atendente de tele-sexo e esconde esse pequeno segredo do namorado recente, vivido por Topher Grace, que vai receber conselhos de um desconhecido sábio (vivido pelo habitué dos filmes de Marshall, Hector Elizondo), que acaba de descobrir um caso antigo da esposa (Shirley MacLaine). Jennifer Garner é uma professora do primário que nem desconfia que o namorado médico (Patrick Dempsey) é casado e não acredita no fato nem quando seu melhor amigo (Ashton Kutscher) o revela depois de ter sido rejeitado pela namorada e quase noiva (Jessica Alba). Jamie Foxx é um repórter esportivo que tem a missão de realizar uma matéria sobre o Dia dos Namorados e cai de amores pela agente solteirona (Jessica Biel, se dá pra acreditar) de um jogador em vias de se aposentar. Enquanto isso, um casal de adolescentes prepara sua primeira noite de amor, um menino de oito anos tenta se declarar à sua amada (ecos de "Simplesmente amor"?) e uma capitã militar (Julia Roberts em pessoa) conhece um simpático solteiro (Bradley Cooper) durante uma viagem de avião.


Sendo honesto, o roteiro de "Idas e vindas" é divertido, passa rápido (ainda que pudesse ser um pouco mais curto) e cumpre sua função de arrecadar muito dinheiro (já rendeu mais de 60 milhões de dólares em pouco mais de uma semana em exibição) e divertir sua audiência. Mas sua visão de mundo é tão colorida e leve que sua credibilidade fica seriamente abalada. Tudo bem que ninguém entra em um filme chamado "Idas e vindas do amor" - cujo cartaz tem um coração enorme e tem Julia Roberts e Ashton Kutscher no elenco - esperando sérias elocubrações sobre sentimentos de perda, dor, solidão e carência. Mas para aqueles que estão em uma fase de descrença absoluta em finais felizes, chega a ser chocante assistir cenas que elevam o amor romântico à esfera que o filme eleva. Não desperta nem lágrimas, porque falar de amor eterno a quem não acredita nem mesmo em paixões de fim-de-semana equivale a narrar histórias de saci-pererê a um islandês que morou a vida toda em um iglu. Aqueles que estão em paz com o coração, porém, só podem gostar das tramas dirigidas por Marshall.

Se você está apaixonado e/ou acredita no amor acima de tudo, corra para assistir. Caso contrário, passe longe. Mas se puder não perca os créditos finais, que apresentam a melhor piada de todo o filme, estrelada por Julia e seu belo sorriso.

quinta-feira

UMA LINDA MULHER

UMA LINDA MULHER (Pretty woman, 1990, Touchstone Pictures, 125min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: J.F. Lawton. Fotografia: Charles Minsky. Montagem: Priscilla Nedd. Música: James Newton Howard. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Garrett Lewis. Casting: Dianne Crittenden. Produção executiva: Laura Ziskin. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther. Elenco: Richard Gere, Julia Roberts, Jason Alexander, Laura San Giacomo, Hector Elizondo, Ralph Bellamy. Estreia: 23/3/90

Indicado ao Oscar de Atriz (Julia Roberts)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Julia Roberts)

Alguns filmes tem a sorte de ser feitos na hora certa, com o elenco certo e do jeito certo. "Uma linda mulher", uma das comédias românticas mais bem-sucedidas da história pode ser considerado como um deles. Escrito primeiramente como uma sombria comédia sobre o triste mundo da prostituição, o roteiro de J.F. Lawton transformou-se em uma história de amor que é, até hoje, um dos maiores sonhos de consumo do público feminino. Ao transportar a história de Cinderela para o Hollywood Boulevard, "Uma linda mulher" não apenas ganhou em bom humor, glamour e alto-astral, mas também revelou ao mundo aquela que se tornaria a atriz mais bem paga das décadas seguintes e uma das mais duradouras estrelas na voraz fogueira das vaidades que é o mundo do cinema: Julia Roberts.

Dando continuidade à mais bem-sucedida fase de sua carreira - que iniciou-se como símbolo sexual no final dos anos 70 e passou por um ostracismo duradouro que começou a ir embora com o sucesso comercial do policial "Justiça cega" - Richard Gere vive, em "Uma linda mulher", aquele que talvez seja sua personagem mais marcante, o empresário Edward Lewis, um multimilionário incapaz de demonstrar sentimentos, mas que é um expert na hora de comprar empresas em dificuldades financeiras e depois vendê-las em partes. Viajando a Los Angeles a negócios, Lewis acaba se perdendo nas ruas da cidade e, ao solicitar informações, conhece a bela prostituta Vivian Ward (Julia Roberts). Um tanto encantado com os modos vibrantes e autênticos da moçoila, ele faz a ela uma proposta irrecusável; ser sua acompanhante durante a semana em que ele será obrigado a permanecer na cidade, comparecendo com ele a eventos sociais - e o que é ainda melhor, com direito a ficar com todas as roupas compradas para isso, além de polpudos três mil dólares. Frequentando restaurantes sofisticados, indo à ópera e vivendo uma vida de princesa - em contraste com a violência e as necessidades financeiras com que estava acostumada - não demora para que Vivian se apaixone por Edward, mesmo tendo plena convicção da impossibilidade de seu romance.



Um sucesso tanto ensurdecedor quanto surpreendente à época de seu lançamento, "Uma linda mulher" acabou tornando-se cult por excelência. Adorado pela parcela de público que prefere diversão inofensiva à elocubrações filosóficas dentro de uma sala de cinema, o filme de Garry Marshall é um conjunto de qualidades certeiras para o êxito de um exemplar do gênero. A química entre o casal central é espetacular (ainda que sua reunião no apenas razoável "Noiva em fuga", dez anos depois, não tenha repetido o mesmo frisson), a trilha sonora é uma delícia - com resgate inclusive da ótima canção-título de Roy Orbison -, as piadas são engraçadas na medida certa, o romance - apesar de tudo - é verossímil e, por que negar?, até mesmo o tom um tanto fútil - precursor da série "Sex and the city" - funciona às mil maravilhas. Então por que tanta gente adora falar mal de Uma linda mulher?

Críticos pretensamente sérios não se permitem gostar de "Uma linda mulher". O acusam de ser vazio, de ser apenas mais uma comédia romântica igual a dezenas de outras e, quando não tem mais argumentos, até mesmo repudiam sua ideologia - sim, há quem acuse o final feliz de Vivian Ward de ser responsável por jogar meninas de família nas calçadas... É sério!!! Mas "Uma linda mulher" é uma divertida história de amor, capaz de alegrar qualquer tarde chuvosa, com um balde de pipocas e uma garrafa de Coca-cola em mãos - ou champagne e morangos, se você tiver sorte...

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...