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quinta-feira

ENTRE FACAS E SEGREDOS

 


ENTRE FACAS E SEGREDOS (Knives out, 2019, Lionsgate, 130min) Direção e roteiro: Rian Johnson. Fotografia: Steve Yedlin. Montagem: Bob Ducsay. Música: Nathan Johnson. Figurino: Jenny Eagan. Direção de arte/cenários: David Crank/David Schlesinger. Produção executiva: Tom Karnowski. Produção: Ram Bergman, Rian Johnson. Elenco: Daniel Craig, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis, Christopher Plummer, Toni Collette, Chris Evans, Don Johnson, LaKeith Stanfield, Katherine Langford, Riki Lindhome, Jaden Martell, Eddi Patterson, K Callan, Frank Oz, Noah Segan. Estreia: 07/9/2019 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

É impossível ser apresentando a Benoit Blanc sem que o personagem mais famoso de Agatha Christie venha à mente. Claramente calcado no belga Hercule Poirot - presença em 33 romances e 54 contos da escritora inglesa -, o detetive criado pelo diretor e roteirista Rian Johnson para seu "Entre facas e segredos" não envergonha sua maior fonte de inspiração: excêntrico, inteligente e sofisticado, Blanc também encontrou em Daniel Craig seu intérprete ideal e teve a suprema sorte de fazer sua primeira aparição nas telas em uma produção que consegue ser uma empolgante história de detetive, uma deliciosa comédia e um belo (ainda que descompromissado) estudo de personagens. Indicado a um merecido Oscar de roteiro original (que perdeu para o impecável "Parasita") e o pontapé inicial do que promete ser uma bem-sucedida série de filmes, "Entre facas e segredos" se beneficia ainda de um elenco impecável, que reúne nomes consagrados (Christopher Plummer, Jamie Lee Curtis), novatos promissores (Ana de Armas, Katherine Langford) e astros populares (Chris Evans, Toni Collette). Lançado no Festival de Toronto, em setembro de 2019, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria do ano - com mais de 300 milhões de dólares arrecadados internacionalmente - e confirmou Johnson (de "Star Wars: os últimos Jedi") como um dos novos (e originais) talentos de Hollywood.

A trama criada por Johnson começa quando Harlan Thrombey (Christopher Plummer), famoso escritor de romances policiais, é encontrado morto no dia seguinte à festa em comemoração a seus 85 anos de idade. Apesar de todas as evidências levarem a crer que o escritor cometeu suicídio, o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) é misteriosamente contratado para fazer uma investigação mais aprofundada, para surpresa da disfuncional família da vítima - todos com sólidos motivos para ficarem satisfeitos com o desaparecimento do patriarca. Richard (Don Johnson), seu genro, acabara de ter um romance extraconjugal descoberto pelo sogro, que o obrigava a contar a verdade à esposa, Linda (Jamie Lee Curtis); Walt (Michael Shannon), seu filho caçula, fora demitido do cargo de responsável pela editora da família, que ocupava mesmo com conflitos de interesse com o pai; sua nora, Joni (Toni Collette), tivera desmascarado seu esquema de embolsar duas vezes o pagamento da universidade da filha adolescente; e seu neto, Ramson (Chris Evans) fora deserdado depois de um sério desentendimento. Enquanto conversa com os suspeitos e se aproxima da família, Blanc conta com a ajuda da amiga e cuidadora de Harlan, a brasileira Marta Cabrera (Ana de Armas) - que parece saber muito mais do que aparenta, mas teme por sua família de imigrantes.

 


Ao utilizar-se de vários elementos que fizeram a glória das histórias policiais clássicas - uma mansão que é parte integrante da narrativa, uma vítima de índole duvidosa, uma série de suspeitos pouco afeitos à verdade, pistas falsas, reviravoltas constantes e um detetive fascinante - "Entre facas e segredos" conquista a plateia sem muito esforço. Basta poucos minutos para que o público já esteja envolvido na trama e com sua própria versão da verdade definida - o que, logicamente, muda conforme a ação vai se desenvolvendo. A edição inteligente, que usa e abusa de flashbacks intrigantes e reveladores, é um destaque extra, ao enfatizar as várias camadas do belo roteiro. E se Daniel Craig tem a chance de um novo personagem a ser explorado em uma série de filmes - "Glass Onion" estreou em 2022 e outros capítulos devem vir com o tempo -, o elenco de coadjuvantes de peso não fica atrás. Antes de sua indicação ao Oscar pelo polêmico "Blonde" (2022), a cubana Ana de Armas apresenta um misto de carisma e inocência que justifica a atenção de Hollywood a seu nome; Jamie Lee Curtis mostra que a maturidade lhe fez muito bem; Toni Collette mais uma vez rouba a cena sempre que aparece; e Chris Evans surpreende ao explorar com sagacidade sua imagem de galã irônico e mordaz. Mérito da direção firme de Rian Johnson - com um belo timing cômico a serviço de uma boa história -, a química impecável do elenco mostra-se providencial para prender a atenção do espectador, e a direção de arte reflete visualmente as características exuberantes da trama e dos personagens, repletos de idiossincrasias e segredos.

Divertido e sagaz como os melhores livros de Agatha Christie, "Entre facas e segredos" é um presente aos fãs do gênero. Anos-luz à frente das modernas adaptações da obra da escritora dirigidos por Kenneth Branagh - que matam suas maiores qualidades em busca de um público mais afeito a redes sociais do que a telas de cinema -, o filme de Rian Johnson é a prova de que enredos espertos, diretores competentes e atores talentosos são muito mais importantes do que pretensas rupturas narrativas e visuais. Tradicional e clássico na estrutura e no desenvolvimento - mas com a agilidade do bom cinema  norte-americano comercial -, é capaz de conquistar, sem contraindicações, qualquer tipo de público que goste de ser seduzido por uma boa trama de mistério e bom-humor.

quarta-feira

LOBO

 


LOBO (Wolf, 1994, Columbia Pictures, 125min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Jim Harrison, Wesley Strick. Fotografia: Giuseppe Rotunno. Montagem: Sam O'Steen. Música: Ennio Morricone. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Jim Dultz, Juliet Taylor/Linda DeScenna. Produção executiva: Robert Greenhut, Neil Machlis. Produção: Douglas Wick. Elenco: Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer, James Spader, Christopher Plummer, Kate Nelligan, Richard Jenkins, David Hyde Pierce, Eileen Atkins, Ron Rifkin. Estreia: 17/6/94

Quando o ator Jack Nicholson e seu amigo e parceiro profissional, o roteirista Jim Harrison, tiveram a ideia de fazer um filme sobre lobisomens, jamais imaginaram que, apesar do prestígio do astro, ainda demorariam mais de uma década para vê-lo nas telas. Com algumas pequenas alterações na trama originalmente imaginada - o protagonista deixou de ser um advogado para virar um editor literário, por exemplo - e mudanças no elenco durante a fase de pré-produção - até mesmo Marlon Brando esteve envolvido com o projeto em determinado momento -, "Lobo" estreou no verão norte-americano de 1994 com grandes expectativas por parte do público e da Columbia Pictures, ávida por um sucesso de bilheteria mas temerosa devido a fracas exibições-teste, que adiaram seu lançamento por quase um ano. Dirigido pelo experiente Mike Nichols e com o objetivo de conquistar um público adulto e mais exigente - em tese o oposto das plateias que lotavam as salas para testemunharem banhos de sangue adolescente -, o filme acabou por decepcionar a todos: não apenas teve uma bilheteria doméstica morna (que nem chegou a cobrir seu orçamento de aproximadamente 70 milhões de dólares) como ficou aquém, em termos artísticos, ao que se poderia esperar da reunião de Jack e Mike - que, juntos, já haviam realizado "Ânsia de amar" (1971), O golpe do baú" (1976) e "A difícil arte de amar" (1986).

Sugerido para a direção por Jack Nicholson - que tinha direito à palavra final na escolha do nome para a condução do projeto -, Mike Nichols oferece a "Lobo" uma visão elegante e madura, realçada por um elenco de primeira linha e uma equipe técnica brilhante. Da fotografia impressionante do italiano Giuseppe Rotunno (colaborador frequente de Fellini e Visconti) à trilha sonora quase minimalista de Ennio Morricone (que substituiu John Williams devido ao atraso do cronograma de produção), tudo no filme respira classe. Sem apelar para a violência extrema (o que de certa forma decepcionou parte do público), Nichols conduz seu filme com um tom de seriedade muito bem-vindo - não à toa alguns temas citados por ele a respeito da obra (a morte de Deus, o declínio da civilização ocidental e até a epidemia da AIDS) são bastante densos e contrastam radicalmente da falta de conteúdo da maioria das produções do gênero. Tanta preocupação com subtextos, no entanto, não conseguem esconder o fato de que, a despeito de suas qualidades de produção, o filme de Nichols falha em sua principal missão: contar sua história de forma marcante - ou a menos com a força que se espera de uma produção de seu nível. O público fã do gênero tem muito a gostar, mas o resultado final não deixa de ser um tanto frustrante.

 

A trama criada por Jim Harrison - e reescrita por Wesley Strick, para desgosto do autor original - já começa em plena ação: o editor literário Will Randall (Jack Nicholson), em uma viagem de volta ao lar, atropela e é mordido por um lobo em plena noite de lua cheia. Ao mesmo tempo em que começa a perceber estranhas mudanças em seu organismo - a audição fica apurada, sua força física aumenta e o faro torna-se mais potente -, Randall vê sua vida entrar em franca decadência. Demitido por seu chefe, Raymond Alden (Christopher Plummer), abandonado pela esposa, Charlotte (Kate Nelligan), e traído por seu homem de confiança, Stewart Swinton (James Spader), Randall encontra apenas um consolo: a atração recíproca que sente pela bela filha de Alden, a voluntariosa Lauren (Michelle Pfeiffer). Conforme vai percebendo que o ataque do lobo pode tê-lo transformado em um lobisomem, o executivo aproveita as vantagens da situação ao mesmo tempo em que se preocupa com a possibilidade de ver sua nova natureza assumir um tom violento e irracional.

Dotado de uma narrativa convencional - mas com uma edição ágil o bastante para não aborrecer às plateias mais jovens -, "Lobo" apresenta qualidades quase redentoras, como a atuação habitualmente caprichada de Jack Nicholson, a beleza estonteante de Michelle Pfeiffer (em papel recusado por Sharon Stone e Annette Bening e que quase ficou com Mia Farrow, em meio à sua polêmica confusão com Woody Allen) e o roteiro que enfatiza o tom de suspense que acompanha o folclore em torno dos lobisomens. Não deixa de ser atípico ver um cineasta como Mike Nichols (mais acostumado com relações pessoais e crises sentimentais do que com efeitos visuais) no comando de uma obra tão comercial, mas seria ainda mais surpreendente se a primeira escolha do estúdio tivesse se mantido: ninguém menos que Stanley Kubrick foi sondado para a tarefa - e recusou, para surpresa de ninguém. É de se imaginar o que o britânico poderia ter feito com o material (não se pode esquecer que já havia dirigido Jack Nicholson em outro filme de terror, o infame "O iluminado", de 1980), mas certamente teria sido menos esquecível - para o bem ou para o mal.

TESTEMUNHA FATAL

 


TESTEMUNHA FATAL (Eyewitness, 1981, 20th Century Fox, 103min) Direção: Peter Yates. Roteiro: Steve Tesich. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Cynthia Scheider. Música: Stanley Silverman. Figurino: Hilary Rosenfeld. Direção de arte/cenários: Phillip Rosenberg/Gary J. Brink, Edward Stewart. Produção: Peter Yates. Elenco: William Hurt, Sigourney Weaver, Christopher Plummer, James Woods, Morgan Freeman, Pamela Reed. Estreia: 13/02/81

Uma história de amor que não convence. Um filme de suspense que não empolga. E uma trama policial incapaz de despertar o menor interesse no espectador. É difícil acreditar que por trás de "Testemunha fatal" exista uma equipe que conta com um diretor de prestígio, um roteirista vencedor do Oscar e um elenco composto por atores acima de qualquer suspeita. Primeiro trabalho de Peter Yates depois do sucesso de "O vencedor" (1979) - também escrito por Steve Tesich - e estrelado pelos então promissores William Hurt e Sigourney Weaver, o filme naufragou nas bilheterias e acabou se tornando uma nota de rodapé na carreira de seus astros. Hurt, que estava em vias de derreter as telas de cinema com "Corpos ardentes" - que também não foi um êxito comercial mas virou cult com o passar do anos - e Weaver - fresquinha da aclamação popular por "Alien: o oitavo passageiro" (1979) - já eram atores de grande talento, mas nem mesmo eles foram capazes de esconder as inconsistências do roteiro e a apatia da direção - algo surpreendente quando se trata de Yates, um cineasta capaz de grandes feitos quando de posse de um bom material.

Escrito como uma fusão de duas histórias incompletas de Steve Tesich - que ganhou um Oscar por "O vencedor" -, o roteiro de "Testemunha fatal" deixa claro, desde o início, a fragilidade de sua trama central e de seus personagens. O filme começa com o assassinato de um milionário vietnamita, morto em seu escritório, localizado em um arranha-céu de Manhattan. Para cobrir o caso é escalada a jornalista Tony Sokolow (Sigourney Weaver) - a ocasião perfeita para que o zelador Daryll Deever (William Hurt) se aproxime dela, seu maior objeto de desejo. Para mantê-la sempre por perto, Deever dá a entender que sabe mais do que aparenta sobre o crime - e enquanto a bela repórter vai se deixando seduzir por sua persistência, acaba por despertar os ciúmes de seu noivo, Joseph (Christopher Plummer), um milionário frio e pouco afeito a demonstrações de carinho. O romance nascente entre duas personalidades tão díspares vai se tornando mais profundo a cada passo das investigações - que leva à possível culpa de Aldo (James Woods), colega de Deever e desafeto público da vítima.
 
 
Assumidamente pouco propenso a reviravoltas e tramas complexas, sempre preferindo dedicar-se aos personagens do que às histórias que conta, Steve Tesich erra feio em ambos os quesitos em seu trabalho em "Testemunha fatal": enquanto o enredo policial falha imensamente em envolver o espectador (o nome do culpado do crime e seus motivos para tal não são nem de longe interessantes), o romance entre Tony e Daryll tampouco empolga, principalmente devido à falta de profundidade oferecida a eles: em nenhum momento se sabe mais do que o extremamente básico a respeito deles. Daryl é apenas um zelador solitário apaixonado por uma repórter de TV famosa, a ponto de gravar seus programas para assistir repetidas vezes - e que parece mais um stalker do que um romântico. Tony é uma jornalista popular, que tenta (mas não muito) fugir de sua vida privilegiada de filha de milionários e que não demonstra nada mais do que ambição profissional em sua relação com seu admirador. A paixão que surge entre eles é repentina demais para ser crível e é desenvolvida com preguiça e falta de imaginação pelo roteiro - não há sequer uma única cena que transmita qualquer lampejo de química entre Hurt e Weaver, que voltariam a fazer parte do mesmo filme em outras duas ocasiões ("A vila", de 2004, e Ponto de vista", de 2008).

E se o roteiro de Tesich incomoda por sua superficialidade, o mesmo pode ser dito da direção de Peter Yates. Imprimindo um ritmo enfadonho a seu filme, Yates parece não fazer a menor questão de conquistar o interesse da plateia - e falha em criar qualquer atmosfera de tensão ou romantismo. Desperdiçando um elenco de ótimos atores e conduzindo a narrativa de forma apática - a ponto de conceber um final morno e anticlimático que apenas reitera sua pouca inspiração -, o cineasta, que voltaria ao Oscar com o belo "O fiel camareiro" (1983), mostra que cinema é, antes de qualquer coisa, um conjunto de fatores e talentos que, quando não devidamente azeitados, pode dar muito errado.

TODO O DINHEIRO DO MUNDO

TODO O DINHEIRO DO MUNDO (All the money in the world, 2017, TriStar Productions/Sony Pictures, 132min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: David Scarpa, livro "Painfully rich: the outrageous fortune and misfortunes of the heirs of J. Paul Getty", de John Pearson. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Claire Simpson. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Richard Roberts, Letizia Santucci, Nasser Zoubi. Produção: Chris Clark, Quentin Curtis, Dan Friedkin, Mark Huffam, Ridley Scott, Bradley Thomas, Kevin J. Walsh. Elenco: Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg, Romain Duris, Timothy Hutton, Marco Leonardi, Charlie Plummer, Andrew Buchan. Estreia: 18/12/17

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)

Nunca é uma boa notícia quando os bastidores de um filme chamam mais a atenção do que a obra em si. Por mais que o resultado final seja consistente ou até mesmo admirável, o que fica na memória do público são os escândalos que atribularam sua realização. Um exemplo claro desta afirmação é "Todo o dinheiro do mundo", um filme extremamente bem realizado, dirigido por um cineasta experiente (Ridley Scott), estrelado por nomes conhecidos (Michelle Williams e Mark Wahlberg), baseado em uma história real e planejado para encabeçar as listas de indicados aos prêmios da temporada. O que parecia correr tranquilamente para os produtores e a Sony acabou se tornando um pesadelo, no entanto, quando, no começo de novembro de 2017, uma notícia caiu como uma bomba no colo de todos: acusado de estupro de menor e assédio sexual, o ator Kevin Spacey - que tinha um papel chave na trama - transformou-se, de uma hora para outra, em um problema quase insolúvel em termos comerciais. A pouco mais de um mês da data programada para a estreia do filme, o que antes soava como uma grande promessa de sucesso se transmutava em um provável desastre. Em uma decisão surpreendente - e temerária, haja visto que acrescentaria 10 milhões de dólares ao orçamento final -, o estúdio anunciou que o lançamento ocorreria, sim, conforme o previsto, mas com uma pequena (e radical) diferença no elenco: Christopher Plummer no lugar de Spacey, cortado definitivamente do filme e seu material promocional.

Como polêmica pouca é bobagem, os problemas da Sony continuaram mesmo depois de o filme estar pronto e começar sua carreira nos cinemas: chamados para refilmar as 22 cenas em que Plummer assumia o papel do milionário J. Paul Getty, os atores Michelle Williams e Mark Wahlberg se viram em meio a um novo tornado de controvérsias, quando a diferença entre seus salários alcançou as manchetes da imprensa especializada em entretenimento. A gritaria começou quando se soube que Williams recebeu um pagamento de apenas mil dólares por seu retorno ao trabalho, enquanto seu colega havia embolsado 1,5 milhão. A discrepância entre os números deu margem a discussões a respeito de sexismo na indústria e ultrapassou o interesse pelo filme em si. Resultado: Wahlberg doou seu salário (e mais 500 mil dólares) para uma fundação em defesa legal das mulheres - e o assunto, de certa forma, morreu (sem que se questionasse, por exemplo, que o número de cenas refilmadas pelo ator era bem maior e que a própria atriz havia se oferecido a trabalhar por uma fração menor do salário, já que não ficaria à vontade, como declarado mais tarde, em divulgar um filme estrelado por Spacey). A essa altura, porém, "Todo o dinheiro do mundo" já havia estreado, dividido a crítica e atraído pouca gente às salas de exibição. De pouco adiantaram os elogios à atuação de Michelle Williams, as três indicações ao Golden Globe (incluindo direção e atriz/drama) e o nome de Plummer entre os candidatos ao Oscar de ator coadjuvante: o filme já estava destinado a permanecer como uma produção maculada pela polêmica.


O pior de tudo é "Todo o dinheiro do mundo" é um belo filme. Não apenas conta sua história com inteligência e sensibilidade - sem deixar de lado a tensão e o aprofundamento dramático dos personagens, cortesia do roteiro de David Scarpa, baseado em livro de John Pearson - como é tecnicamente notável. Da fotografia de Dariusz Wolski à trilha sonora arrepiante de Daniel Pemberton, tudo funciona como um relógio, e mergulha o espectador em um pesadelo acinzentado, de tons trágicos e contornos sombrios, tudo orquestrado por um Ridley Scott em grande forma, abandonando a grandiosidade de seus épicos para concentrar-se em um drama familiar dos mais angustiantes e revoltantes. Para isso, conta com a sempre inspirada Michelle Williams - que ficou com o papel depois das desistências de Angelina Jolie e Natalie Portman - e um Christopher Plummer assustador em sua frieza. É ele, na pele do bilionário magnata do petróleo J. Paul Getty, quem dá as cartas em um jogo mórbido e perigoso que pode custar a vida de seu neto predileto - um jogo que lhe serve, ironicamente, como arma para dominar todos à sua volta.

O filme começa em Roma, no ano de 1973, quando o adolescente Paul (Charlie Plummer, que apesar do sobrenome não tem relação com Christopher) é sequestrado por um grupo de criminosos que exige, como resgate, a quantia de 17 milhões de dólares. Seria uma fortuna inalcançável, se o menino não fosse neto de um dos homens mais ricos do mundo, J. Paul Getty - cuja conta bancária só é comparável à sua frieza e calculismo. Desesperada com o rapto do filho, a ex-nora de Getty, Gail (Michelle Williams), se torna a ponte entre os bandidos e o sogro, que se recusa a pagar um centavo que seja pela volta do neto - por acreditar que, aberto um precedente, todos os outros membros da família serão igualmente abduzidos. Enquanto tenta convencer Getty a ceder, Gail conta com a ajuda do leal Fletcher Chace (Mark Wahlberg), homem de confiança do magnata, que o chama para resolver a situação por meios não oficiais. Nesse meio-tempo, o jovem Paul vive uma rotina de grande tensão, quebrada apenas por seu relacionamento com um dos sequestradores, o misterioso Cinquanta (Romain Duris) - uma relação que não impedirá, no entanto, que a violência o atinja sem piedade.

"Todo o dinheiro do mundo" é um filme que funciona em vários níveis. Pode ser um drama pungente, capaz de emocionar aos mais sensíveis; pode ser um filme de suspense aterrador e imprevisível (apesar de ser uma história real cujo desfecho pode ser descoberto sem mistério em qualquer acesso à Internet); pode ser um belo estudo sobre o poder do dinheiro e como ele pode levar à solidão mais devastadora; e é, ainda, um excelente espelho para o talento de seus atores principais, em especial Michelle Williams e Christopher Plummer, brilhando em um papel difícil e detestável - ao qual oferece uma série de nuances que o livra do maniqueísmo e da análise fácil. Um filme que merece ser visto como a pequena obra-prima que é - a despeito de todos os problemas em sua realização.

terça-feira

ELSA & FRED

ELSA & FRED (Elsa & Fred, 2014, Cuatro Plus Films/Defiant Pictures, 97min) Direção: Michael Radford. Roteiro: Michael Radford, Anna Pavignano. Fotografia: Michael McDonough. Montagem: Peter Boyle. Música: Luis Bacalov. Figurino: Gary Jones. Direção de arte/cenários: Stephanie Carroll/Alice Baker. Produção executiva: Aaron L. Gilbert, Jason Hewitt, Carsten H.W. Lorenz, Angel Losada Moreno, Gary Preisler, Osvaldo Ríos, Lane Sisung, Rob Weston. Produção: Matthias Ehrenberg, Ricardo Kleinbaum, José Levy, Edward Saxon, Nicolas Veinberg. Elenco: Shirley MacLaine, Christopher Plummer, Marcia Gay Harden, Scott Bakula, Chris Noth, George Segal, James Brolin. Estreia: 07/3/14 (Festival de Miami)

Que o público norte-americano tem ojeriza a filmes legendados não é novidade para ninguém. Portanto, nada mais natural e previsível que uma versão hollywoodiana de "Elsa & Fred", sucesso argentino dirigido por Marcos Carnevale. A única surpresa nesse caso foi a longa distância entre a estreia do filme original (2005) e o lançamento do remake, comandado por Michael Radford, conhecido do grande público pela direção do belo "O carteiro e o poeta", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 1996. Nessa quase década que separa as duas versões, Radford não emplacou nenhum grande filme e nem mesmo seu prestígio unido aos nomes premiados e conhecidos de Shirley MacLaine e Christopher Plummer ajudou sua comédia romântica para a terceira idade a decolar nas bilheterias. Praticamente ignorada pelo público, a história de amor entre dois septuagenários com visões opostas da vida estreou nos EUA no Festival de Miami, passou por diversas outras mostras internacionais (inclusive no Rio de Janeiro) e acabou melancolicamente estreando comercialmente quase no final do ano - nos cinemas e no serviço de streaming. Mesmo não sendo exatamente uma obra-prima merecia melhor sorte.

A trama, para quem não viu o filme original, é simples e direta: depois de ficar viúvo de uma mulher com quem não tinha mais nenhum tipo de vínculo afetivo, o veterano Fred Barcroft (Christopher Plummer, recém-oscarizado por "Toda forma de amor") é transferido por sua filha, Lydia (Marcia Gay Harden), para um novo e mais confortável prédio, onde se vê obrigado a contar com a ajuda de uma cuidadora, Laverne (Erika Alexander). Desanimado com a vida e passando os dias deitado na cama assistindo à televisão, Fred tenta ignorar a alegria de sua vizinha, Elsa Hayes (Shirley MacLaine, luminosa como sempre), uma mulher de eterno alto-astral, fã incondicional de "A doce vida", de Fellini e mentirosa quase compulsiva. Aos poucos, porém, a energia positiva de Elsa vai transformando a personalidade de Fred e os dois se descobrem apaixonados, para surpresa de ambas as famílias - inclusive o ex-marido de Elsa, Max (James Brolin).


Usando e abusando do carisma de seu par central de atores, Michael Radford nem precisa se esforçar muito para fazer de "Elsa & Fred" um programa agradável e divertido. Mesmo que a trama não fuja dos clichês - com direito a reviravoltas dramáticas e tudo - a forma com que o cineasta conduz a narrativa torna tudo muito simpático e envolvente. As tramas paralelas, que retratam os problemas dos filhos do casal - ela tem dois filhos, um dos quais é um artista plástico constantemente atolado de dívidas e ele tem um genro que o pressiona a ajudá-lo em um novo negócio - são pouco interessantes, mas a homenagem ao clássico de Fellini (com MacLaine vestida de Anita Ekberg em plena Fontana de Trevi) dá um gostinho a mais ao cinéfilo mais apaixonado. Além disso, é impossível não se deixar conquistar pela esfuziante Elsa de Shirley MacLaine, uma das atrizes mais completas de Hollywood, infelizmente pouco explorada nos últimos anos. Sempre que está em cena, MacLaine ilumina tudo a seu redor, e não é difícil entender porque até mesmo o sisudo Fred de Christopher Plummer se deixa seduzir por tanta energia.

Leve, divertido, emocionante e extremamente simpático, "Elsa & Fred" é uma sessão da tarde descompromissada, mas valorizada (muito) por seu casal central e pela sutileza da direção de Michael Radford, que desvia do dramalhão com muita propriedade e evita descaracterizar a obra original, tão elogiada e querida pelo público que, ao contrário dos americanos, não tem resistência a filmes estrangeiros.

sexta-feira

TODA FORMA DE AMOR

TODA FORMA DE AMOR (Begginers, 2010, Olympus Pictures/Northwood Productions, 105min) Direção e roteiro: Mike Mills. Fotografia: Kasper Tuxen. Montagem: Olivier Bugge Coutte. Música: Roger Neill, David Palmer, Brian Reitzell. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Shane Valentino/Coryander Friend. Produção executiva: Joan Scheckel. Produção: Miranda de Pencier, Lars Knudsen, Leslie Urdang, Jay Van Hoy, Dean Vanech. Estreia: Ewan McGregor, Mélanie Laurent, Christopher Plummer, Goran Visnjic. Estreia: 11/9/10 (Festival de Toronto)

Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Christopher Plummer) 

A estreia do cineasta Mike Mills não ultrapassou os limites dos festivais de cinema. O longa "Impulsividade" angariou elogios da crítica, mas não pode ser considerado um êxito de público. Seu segundo trabalho atrás das câmeras, porém, teve - e mereceu - uma sorte bem melhor. Premiado como melhor filme de 2011 pelo Gotham Awards - empatado com o controverso "Árvore da vida", do cultuado Terrence Malick - e vencedor do Golden Globe e Oscar de melhor ator coadjuvante para o veterano Christopher Plummer, "Toda forma de amor" é um belíssimo drama romântico, que extrapola os limites do gênero ao contar não apenas uma tradicional história de amor entre homem e mulher, mas também entre pai e filho e entre um homem e sua verdadeira personalidade.

Inspirado em acontecimentos reais de sua vida, Mills conta a história de Oliver Fields (Ewan McGregor), um jovem designer emocionalmente mutilado que não consegue envolver-se profundamente com nenhuma mulher graças ao trauma de ter convivido com a fria relação entre seus pais. A entrada em sua vida da atriz francesa Anna (Mélanie Laurent) opera uma mudança radical em seu modo de enxergar as coisas, especialmente porque sua chegada coincide com o período de luto que o rapaz vem enfrentando depois da recente morte do pai, Hal (Christopher Plummer), um septuagenário que, após a viuvez, resolveu assumir a homossexualidade, viveu um novo amor com um homem mais jovem, Andy (Goran Visjnic), e descobriu sofrer de um câncer incurável. Sentindo-se incapaz de amar de verdade, Oliver precisa lutar contra a própria insegurança para fugir da infelicidade que sempre acompanhou a vida de seus progenitores, que sufocaram suas reais vontades em prol das aparências.


Mills não se priva de utilizar elementos criativos para contar sua história. Além de fugir de uma ordem cronológica tradicional - misturando as lembranças de Oliver com sua trajetória amorosa -, o roteirista/cineasta também brinca com a linguagem publicitária, inserindo informações a respeito das personagens e de suas vidas (e da sociedade americana de modo geral) de forma original e ágil, sem perder o foco da narração. Usando e abusando de elipses e confiando na inteligência do público, ele escapa divinamente do piegas e do lacrimoso mesmo nos mais comoventes momentos e emociona pelos diálogos bem escritos e pela direção segura. Ewan McGregor entrega uma de suas atuações mais interessantes, deixando de lado as bobagens comerciais que lhe tiraram a credibilidade ("Star Wars" foi um passo em falso em sua carreira) em uma interpretação silenciosa, melancólica e terna. Sua química, tanto com Plummer quanto com Mélanie Laurent (a Shosanna de "Bastardos inglórios") é perfeita, revelando um ator sensível que ainda não foi devidamente valorizado. Plummer, por sua vez, encontrou o papel de sua vida: seu Hal é despido de autopiedade e o veterano ator desfila todas as nuances do personagem com segurança e paixão - não foi à toa que tornou-se o ator mais idoso a levar uma estatueta do Oscar, vencendo a disputa com Max Von Sydow, concorrente por "Tão forte, tão perto" e que recusou o papel oferecido por Mills.

Dono de uma sensibilidade única, de uma estrutura estética e narrativa originais e extremamente delicado, "Toda forma de amor" é um filme que, apesar de ter sido lançado diretamente em DVD no Brasil - mais uma prova da miopia das distribuidoras - é uma pérola a ser apreciada por todos aqueles que admiram uma história bem contada e desprovida de exageros sentimentais. Com um DNA de filme europeu, é também um filme que joga luz sobre um assunto ainda pouco explorado pelo cinema em geral: a homossexualidade na terceira idade. Merece ser descoberto e aplaudido!

sábado

ECLIPSE TOTAL

ECLIPSE TOTAL (Dolores Claiborne, 1995, Warner Bros, 132min ) Direção: Taylor Hackford. Roteiro: Tony Gilroy, romance de Stephen King. Fotografia: Gabriel Beristain. Montagem: Mark Warner. Música: Danny Elfman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Steve Shewchuck. Produção: Taylor Hackford, Charles Mulvehill. Elenco: Kathy Bates, Jennifer Jason Leigh, Christopher Plummer, David Straithairn, John C. Reilly, Eric Bogosian, Ellen Muth, Bob Gunton. Estreia: 24/3/95

Em 1990, durante uma visita às filmagens de "Louca obsessão", adaptação de uma obra sua dirigida por Rob Reiner, o escritor Stephen King ficou impressionado com a atriz principal escolhida pelo cineasta, a até então desconhecida Kathy Bates - que em seguida impressionaria também o mundo inteiro e a Academia de Hollywood com seu desempenho irretocável. O tamanho da admiração de King pelo trabalho de Bates ficou claro quando o autor inspirou-se nela para escrever um novo romance, ao qual deu o nome de "Dolores Claiborne" - e cujos direitos foram imediatamente comprados pela Warner por 1,5 milhão de dólares. Com a escolha óbvia de Bates para o papel central, o filme chegou às telas no primeiro trimestre de 1995 sob a direção de Taylor Hackford e, apesar de não ter feito barulho nas bilheterias, é uma produção digna de figurar ao lado de outras grandes adaptações da obra de King que fogem de seu gênero habitual - um panteão rarefeito onde também estão "Conta comigo" (86) e "Um sonho de liberdade" (94). Com um perfeito equilíbrio entre o suspense e o drama familiar, "Eclipse total" - um título nacional surpreendentemente adequado - é uma pequena pérola muitas vezes esquecida pelo público que consome avidamente qualquer produto que leve a assinatura do escritor.

Hackford - ainda pouco conhecido, apesar de "O sol da meia-noite" e "Paixões violentas", dois relativos sucessos de bilheteria e crítica - demonstra total segurança desde a instigante abertura, que mostra a protagonista sendo flagrada em vias de assassinar a idosa milionária de quem vem cuidando há vinte anos. A pequena cidade do Maine onde se passa essa impressionante cena inicial dá lugar, então, à barulhenta e cosmopolita Nova York, onde a jovem jornalista Selena St. George (Jennifer Jason Leigh) - que está tentando convencer seu editor e ex-amante a dar-lhe a chance de cobrir uma grande reportagem - recebe um fax avisando que sua mãe está presa, acusada de assassinato. Logicamente sua mãe é a Dolores Claiborne do título original (interpretada magistralmente por Kathy Bates), e Selena, que não a visita há mais de duas décadas, parte para o interior com o objetivo de ajudá-la. Neurótica e complicada, a jovem encontra em sua mãe uma mulher amargurada e seca que nega terminantemente a culpa pela morte de sua patroa, a irascível Vera Donovan (Judy Parfitt), mesmo depois de ter sido pega em uma situação absolutamente comprometedora.


A relação entre mãe e filha não é das melhores - e tal situação data da misteriosa morte de Joe St. George (David Straithairn), acontecida durante um eclipse do sol há muitos anos. Acusada na época - por Selena e pelo detetive de polícia local, John Mackey (Christopher Plummer) - de ter sido a responsável pela morte do marido (alcólatra, violento e abusivo), Dolores saiu incólume da investigação, mas vê-se novamente sob a lente de Mackey, que ainda não acredita na sua inocência. Enquanto esperam pela data do inquérito, Dolores e Selena são obrigadas, então, a uma convivência forçada que acaba trazendo à tona momentos dolorosos do passado, que acabam por explicar toda a névoa que cobre as duas mortes relacionadas à batalhadora empregada doméstica e os problemas psicológicos de sua jovem e perturbada filha.

Não há dúvidas de que a história de King é intrigante e prende a atenção do início ao fim - e contém personagens fascinantes e bem construídos, melhorados ainda pelo roteiro de Tony Gilroy, que depois se tornaria cineasta - é dele o premiado "Conduta de risco", de 2007. Mas é a direção certeira de Taylor Hackford que faz com que o filme atinja níveis expressivos de qualidade dramática. Elegante e sutil, ele consegue amenizar a violência da trama original sem trair suas origens literárias e, para isso, conta com uma equipe primorosa - que inclui Danny Elfman na trilha sonora - e atores espetaculares. Se Kathy Bates comanda o show com seu arsenal inesgotável de nuances (Dolores consegue ser subserviente, furiosa, triste, misteriosa e seca sempre que o roteiro precisa), seus colegas de cena não ficam a dever. Tudo bem que Jennifer Jason Leigh até escorrega no lugar-comum, com sua Selena está sempre de preto, fumando compulsivamente, mas uma história de Stephen King sem clichê ainda não existe e o restante do elenco compensa lindamente esse pecadilho: David Straithairn cria um Joe St. George asqueroso em suas falhas e crimes, Christopher Plummer explora com sabedoria o caráter obcecado de seu John Mackey e Judy Parfitt... Bem, na pele da patroa/amiga/vítima de Dolores, a atriz dá um banho de interpretação, duelando de igual para igual com Bates, em cenas inesquecíveis.

Menos conhecido do que merece, "Eclipse total" é um belíssimo filme, que comprova a sensibilidade de Stephen King em falar sobre pessoas mesmo quando elas não tem poderes paranormais ou estão acossadas por demônios e alienígenas. Merece ser descoberto por suas várias e fabulosas qualidades.

terça-feira

MILLENNIUM, OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES

MILLENNIUM - OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES (The girl with the dragon tattoo, 2011, Columbia Pictures/MGM Pictures, 158min) Direção: David Fincher. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Stieg Larsson. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Kirk Baxter, Angus Wall. Música: Atticus Ross, Trent Reznor. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/K.C. Fox, Erik Videgard. Produção executiva: Anni Faurbye Fernandez, Ryan Kavanaugh, Mikael Wallen, Steven Zaillian. Produção: Ceán Chaffin, Scott Rudin, Soren Staermose, Ole Sondberg. Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgard, Robin Wright, Joely Richardson, Goran Visjnic. Estreia: 12/12/11

5 indicações ao Oscar: Atriz (Rooney Mara), Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Montagem

“Você irá investigar o mais detestável grupo de pessoas que poderia encontrar: minha família!” É assim, com palavras tão pouco lisonjeiras, que o milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer) descreve ao jornalista Mikael Blomkvist quem são as pessoas que ele irá investigar caso aceite sua tentadora proposta de trabalho: descobrir o paradeiro (ou o trágico destino) de sua sobrinha, desaparecida há mais de quarenta anos, durante um final de semana festivo em sua imensa propriedade na Suécia. Em crise profissional devido a um processo movido contra um empresário corrupto denunciado em uma de suas reportagens, Blomkvist recebe a ideia com carinho, afinal, dinheiro, um lugar escondido dos colegas da imprensa e sossego não surgem com frequência à sua frente. Mas será que tudo será tão tranquilo como ele imagina?

Para quem não conhece – se é que alguém não conhece – Mikael Blomkvist é um dos dois protagonistas de um dos maiores fenômenos literários dos últimos anos, a trilogia “Millenium”, escrita pelo sueco Stieg Larsson. Com milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, adaptações para o cinema em seu país natal e personagens fascinantes, a série de romances policiais logo chamou a atenção dos produtores de Hollywood, mais especificamente Kathleen Kennedy. Uma das produtoras do sucesso “O curioso caso de Benjamin Button” (08) – além de vários filmes dirigidos por Steven Spielberg – Kennedy propôs a adaptação ao diretor do filme estrelado por Brad Pitt, o incensado David Fincher. Escolado por produções complicadas, Fincher sequer leu o primeiro dos três livros, mas é o nome dele que surge nos créditos da versão americana de “Os homens que não amavam as mulheres”, co-produção da Columbia Pictures e da MGM. Levando-se em consideração que em seu currículo constam filmes como “Seven, os sete crimes capitais” (95) e “Zodíaco” (07), Fincher era realmente o homem ideal para levar às telas – ao menos com sotaque ianque – a intrincada e fascinante trama criada por Larsson. Ao lado de sua equipe de confiança – o diretor de fotografia Jeff Cronenweth, os editores Kirk Baxter e Angus Wall, os músicos Trent Reznor e Atticus Ross – e de um roteiro que consegue condensar em duas horas e meia as mais de 500 páginas do romance original (cortesia do oscarizado Steven Zaillian, de “A lista de Schindler”), Fincher ofereceu ao público um filme que, contrariando as expectativas, supera a versão sueca em clima, tensão e fluência narrativa. Em suma, um filmaço de prender a atenção do primeiro ao último minuto.

Na pele de Blomkvist, surge em cena Daniel Craig, tornado astro desde sua escolha para viver o James Bond do filme “Casino Royale”. Deixando de lado sua faceta heroica, Craig mostra-se a opção perfeita para o papel, oferecendo um viés frágil e inseguro a um personagem que, embora inteligente e corajoso, encontra uma parceria ainda mais radical na segunda personagem fascinante criada por Larsson – que morreu aos 50 anos, antes da publicação e do sucesso de vendas de suas obras – e imortalizada nas telas de cinema: Lisbeth Salander, a hacker agressiva e brilhante que se junta a ele em sua missão de descobrir o paradeiro da jovem Vanger. Vivida originalmente por Noomi Rapace – que a partir dela encontrou espaço no cinema mainstream, em filmes como “Prometheus” (12) e “Sherlock Holmes” (10) – e disputada a tapa pelas jovens atrizes americanas, Salander é o tipo de personagem capaz de consagrar sua intérprete, com sua mistura de mistério, raiva e uma delicadeza física capaz de esconder uma grande fúria. A escolhida por Fincher – e talvez o grande achado do filme – comprovou essa teoria da melhor maneira possível: até então quase desconhecida, Rooney Mara abocanhou uma indicação ao Oscar por seu desempenho. O que era uma aposta arriscada de Fincher – que a havia dirigido em um papel pequeno em “A rede social” – tornou-se, então, uma felicíssima previsão.


Passando a perna em nomes bem mais conhecidos do público, como Scarlett Johansson (considerada sexy demais por Fincher), Carey Mulligan, Ellen Page, Kirsten Stewart, Keira Knightley, Mia Wasikowska, Anne Hathaway, Evan Rachel Wood e Eva Green – além de outras menos cotadas e uma Natalie Portman que recusou o papel alegando extremo cansaço das filmagens de “Cisne negro” – Mara calou a boca daqueles que duvidavam de sua capacidade de dar vida a uma personagem tão complexa e tão adorada pelos leitores espalhados pelo mundo. A princípio dona de uma hostilidade e uma quase antipatia que poderiam jogar contra si, aos poucos Salander vai sendo revelada ao público pelo roteiro esperto de Zaillian e pela direção atenciosa de Fincher, que não foge de apelar para cenas de uma violência surpreendente em tempos tão mornos. Antes mesmo de encontrar-se, depois de mais de uma hora de projeção, com Blomkvist – a quem investigou a pedido do próprio Vanger – Salander já não é mais uma desconhecida da audiência, que compartilha com ela a dor de uma situação extrema da qual ela se livra com uma inteligência e uma ousadia empolgantes. É uma dupla e tanto, responsável por um dos melhores filmes policiais do início do século, uma feliz conjunção de inúmeros fatores comandados por um cineasta genial, capaz de transformar uma história policial em uma produção inesquecível.


A trama de “Os homens que não amavam as mulheres”, na verdade, é dividida em várias, que se complementam com o desenrolar da narrativa. Primeiro, existe a tentativa de Blomkvist em provar sua inocência no caso de calúnia e difamação promovido contra suas reportagens para a revista Millennium, comandada por sua também amante (Robin Wright). Depois, há a sua investigação a respeito do desaparecimento (ou provável morte) da sobrinha de Henrik Vanger – cujas maiores pistas estão no testemunho de uma antiga amiga que estava presente à reunião familiar no fatídico dia de seu sumiço (interpretada por Joely Richardson) e em uma série de fotos encontradas pelo jornalista (e que servem como homenagem silenciosa ao cinema em si, graças à edição espetacular de Baxter e Wall). Por fim, existe o relacionamento entre o intrigado protagonista e a torturada e rebelde Lisbeth, que ele contrata para ajudá-lo em sua missão. O roteiro de Steven Zaillian costura todas as pontas com maestria, mergulhando a plateia em um suspense aterrador e claustrofóbico, sem pausas para piadinhas ou qualquer tipo de leveza – até mesmo o romance que se desenha entre Blomkvist e Salander é cercado de uma quase frieza que condiz com a bela paisagem da Suécia. Fincher conduz tudo como um maestro, sempre encontrando a melhor solução para cada cena, comprovando seu talento imenso em imprimir na tela uma visão realista do mundo que cerca os personagens – pode-se, inclusive, dizer que os gélidos cenários são um personagem a mais do filme, tamanha sua importância em enfatizar o clima soturno da história. Se o filme não é perfeito, a culpa é somente do clímax, que deixa de lado o tom mais cerebral imposto até então para apelar para o confronto físico entre mocinho e bandido – e mesmo assim, a direção de Fincher é tão poderosa que fica difícil se incomodar com o clichê.

Enorme sucesso de bilheteria, “Os homens que não amavam as mulheres” deveria ter sido o primeiro filme de uma trilogia, como aconteceu em forma de livro e produções suecas. Infelizmente, por inúmeras razões o projeto das continuações, que contariam com os mesmos protagonistas, acabou não saindo do papel, para tristeza dos fãs da história e de David Fincher – que seria imprescindível para a manutenção da qualidade do primeiro episódio. Mesmo assim, foi o pontapé inicial da carreira que promete ser bastante vitoriosa de Rooney Mara – que voltou a ser indicada ao Oscar, dessa vez como coadjuvante, por “Carol” (15) – e provou que Daniel Craig pode ir muito mais além de James Bond. Ficando com um papel para o qual foram considerados Johnny Depp, Viggo Mortensen, Brad Pitt e George Clooney, Craig saiu-se muito melhor que a encomenda, transformando Mikael Blomkvist em um de seus melhores e mais importantes trabalhos em Hollywood.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...