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terça-feira

MEU PAI


MEU PAI (The father, 2020, Sony Pictures/Les Films du Cru/Film4/Orange Studio, 97min) Direção: Florian Zeller. Roteiro: Christopher Hampton, Florian Zeller, peça teatral de Florian Zeller. Fotografia: Ben Smithard. Montagem: Yorgos Lamprinos. Música: Ludovico Eunadi. Figurino: Anna Mary Scott Robins. Direção de arte/cenários: P
eeter Francis/Cathy Featherstone. Produção executiva: Daniel Battsek, Lauren Dark, Paul Grindey, Hugo Grumbar, Tim Haslam, Ollie Madden. Produção: Philippe Carcassone, Simon Friend, Jean-Louis Livi, David Parfitt, Christophe Spadone. Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Olivia Williams, Rufus Sewell, Imogene Poots, Mark Gatiss, Ayesha Dharker. Estreia: 27/01/2020 (Sundance Film Festival)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Anthony Hopkins), Atriz Coadjuvante (Olivia Colman), Roteiro Adaptado, Montagem, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 2 Oscar: Ator (Anthony Hopkins), Roteiro Adaptado

A cerimônia do Oscar 2021 - dirigida por Steven Soderbergh e realizada em plena pandemia de Covid-19 - estava programada e organizada para acabar com a vitória de Chadwick Boseman na categoria de melhor ator, por "A voz suprema do blues". Até mesmo a regra já consagrada de deixar o anúncio de melhor filme para o final do evento havia sido alterada para que Boseman - morto precocemente poucos meses antes, aos 43 anos - fosse homenageado com um prêmio póstumo. Para surpresa geral, no entanto - de Soderbergh, dos convidados e dos telespectadores ao redor do mundo -, os membros da Academia preferiram oferecer sua cobiçada estatueta a um antigo vencedor. Por seu desempenho avassalador em "Meu pai", o galês Anthony Hopkins saiu da temporada seu segundo e inesperado Oscar - que foi fazer companhia ao prêmio dos críticos de Boston e ao BAFTA. E até mesmo os fãs do protagonista de "Pantera Negra" foram obrigados a reconhecer que, apesar de seu bom trabalho, sua derrota para Hopkins foi absolutamente justa. Assim como já havia acontecido em 1992, com "O silêncio dos inocentes", basta alguns momentos para que se perceba que premiar outro intérprete seria algo inconcebível.

Um dos mais devastadores retratos do mal de Alzheimer registrados no cinema, "Meu pai" é o filme de estreia do francês Florian Zeller, também autor da peça teatral que lhe deu origem e corroteirista da adaptação - pela qual levou um Oscar, que dividiu com Christopher Hampton. Seu trabalho é minucioso e sensível: sem abandonar a origem de seu texto, Zeller se utiliza de todos os recursos cênicos do cinema como forma de potencializar a sensação de desorientação do protagonista. Não à toa seus principais destaques além do elenco - a edição e o desenho de produção - foram igualmente lembrados pela Academia, rendida à inteligência do autor em contar sua história de forma a mergulhar o espectador na mente confusa de seu personagem central: ao invés de simplesmente mostrar a fragmentação de suas memórias e pensamentos, o filme perturba a zona de conforto do público ao fazê-lo questionar, desde suas primeiras cenas, o que é realidade e o que é parte do transtorno mental de Anthony, um inglês octogenário que se vê sucumbindo rapidamente à demência que borra radicalmente as linhas divisórias entre os fatos e as armadilhas de sua mente.

 

Assistir a "Meu pai" é adentrar em um universo que impede qualquer tipo de certezas factuais. Logo na primeira cena, Anthony (em uma atuação nunca aquém de magistral de Hopkins) se vê encostado na parede por sua filha, Anne (Olivia Colman, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), que tenta convencê-lo a aceitar os cuidados de uma enfermeira: ciente de que o pai está a cada dia mais confuso e perdendo a noção do que é real, ela também lhe informa que está em vias de sair de Londres e se mudar para Paris com o novo namorado. A partir daí, no entanto, o estado mental do octogenário entra em colapso absoluto, confundido nomes, datas, cenários, conversas e cronologias. O filme de Zeller, então, trabalha com a inconstância psicológica de seu protagonista através de uma edição primorosa, que embaralha as cenas e as situações decorrentes da premissa inicial. Em seus delírios (devidamente testemunhados por um atarantado espectador), Anthony confunde rostos e nomes, datas e situações, aposentos domésticos e até mesmo mantém como viva a memória de uma filha morta precocemente. Sua angústia atinge principalmente Anne, cuja vida não consegue progredir enquanto não resolver o problema de conviver com o mal de seu pai - uma questão que prejudica seu relacionamento com Paul (Rufus Sewell), pouco paciente com a falta de perspectivas em relação ao futuro.

"Meu pai" é uma obra-prima em todos os aspectos. Anthony Hopkins oferece ao público o maior desempenho de sua carreira - o que, se tratando do homem que legou ao cinema o apavorante Hannibal Lecter de "O silêncio dos inocentes" (1991) - e a direção segura de Florian Zeller nem de longe dá pistas de que este é seu trabalho de estreia. Sofisticado e inteligente ao mesmo tempo em que não foge da emoção mais primordial - uma das cenas finais arrancou lágrimas até mesmo da equipe, no momento da filmagem -, fica na memória do público graças à feliz confluência de elementos essenciais para um resultado dos mais sólidos do cinema recente. Uma pena que o filme seguinte do diretor, "Um filho" (2022) - que acompanha a relação entre um pai e seu filho com problemas com drogas - ficou muito abaixo das expectativas apesar da presença do esforçado Hugh Jackman.

 

ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (2017)


ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 2017, 20th Century Fox, 114min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Michael Green, romance de Agatha Christie. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Mick Audsley. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Rebecca Alleway, Caroline Smith. Produção executiva: Matthew Jenkins, Dillon Kilvo, James Prichard, Aditya Sood, Hilary Strong. Produção: Kenneth Branagh, Mark Gordon, Judy Hofflund, Simon Kinberg, Michael Schaefer, Ridley Scott. Elenco: Kenneth Branagh, Judi Dench, Michelle Pfeiffer, Penelope Cruz, Johnny Depp, Leslie Odom Jr., Derek Jacobi, Josh Gad, Olivia Colman, Willem Dafoe. Estreia: 03/11/2017

Publicado em 1934 e considerado por leitores e críticos como um dos maiores romances policiais de todos os tempos, "Assassinato no Expresso do Oriente" não apenas consagrou definitivamente a inglesa Agatha Christie como "a rainha do crime" como também se mantém no inconsciente coletivo há quase um século. Sua trama, repleta de pistas falsas, ritmo ágil e um desenvolvimento intrigante, mostra o detetive Hercule Poirot no auge de sua perspicácia e apresenta um desfecho antológico - dos mais surpreendentes da prolífica carreira da escritora. Clássico absoluto do gênero, o livro ganhou uma adaptação caprichada em 1974 - quarenta anos após seu lançamento -, sob a direção de Sidney Lumet e um elenco internacional recheado de astros - de Albert Finney como Poirot a uma verdadeira constelação que incluía Lauren Bacall, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, Maggie Smith e Ingrid Bergman, premiada com um Oscar de atriz coadjuvante. Em 2010, chegou à televisão em um episódio da série britânica "Poirot" - com o famoso investigador interpretado por David Suchet e nomes como Jessica Chastain, Barbara Hershey e Toby Jones emprestando credibilidade ao resultado final. E é de se perguntar por que, mesmo diante de duas versões aplaudidas e fiéis à fonte original, o irlandês Kenneth Branagh considerou necessária uma nova releitura. Pior ainda: em que momento o outrora celebrado cineasta achou cabíveis as alterações criminosas que seu filme - lançado no final de 2017 - fez na história concebida pela mente genial de Christie?

Os (inúmeros) fãs da escritora ficaram revoltados com as liberdades que o roteiro de Michael Green tomou em relação à obra original - tanto em termos da história em si (com personagens amalgamados) quanto pela descaracterização radical do protagonista Hercule Poirot. Retratado nos romances como um senhor de idade avançada, de modos finos e radicalmente contra qualquer tipo de violência - além de privilegiar o cérebro em detrimento de embates físicos -, Poirot viu sua versão cinematográfica rejuvenescer, emagrecer, ter um amor do passado (mostrado apenas em fotografia) e, pior do que tudo, se envolver em lutas, tiroteios e perseguições. É de lamentar que Kenneth Branagh - um ator de talento e sensibilidade o suficientes para que fosse uma espécie de embaixador de Shakespeare na Hollywood dos anos 1990 - tenha se deixado levar pelo ego, a ponto de fazer de seu detetive um super-herói que muito pouco lembra o ídolo dos leitores do gênero. Enquanto no livro Poirot ia aos poucos desvendando todos os meandros que levaram a um misterioso homicídio ocorrido em um dos meios de transporte mais sofisticados do mundo, no filme as conclusões são jogadas, quase como se o personagem tivesse dons paranormais. E se Poirot era, antes de qualquer coisa, um cavalheiro, no filme de Branagh ele não hesita em levantar a voz quando necessário - mesmo que isso destoe radicalmente de sua real personalidade. Não é preciso dizer que, mesmo sendo um bom ator, o ex-marido de Emma Thompson erra violentamente em sua composição.

E não é apenas isso. Como forma de agradar à patrulha do politicamente correto de Hollywood, o roteiro consegue a proeza (negativa) de transformar o coronel Arbuthnot em um médico negro (em uma fusão com outro personagem do livro, Constantine): por mais que se saiba a necessidade atual de inserir representatividade na mídia, é no mínimo equivocada a ideia de que um homem negro pudesse ser o passageiro do Expresso do Oriente em 1934. A inclusão de Leslie Odom Jr. no elenco pode ter tido boas intenções, mas o tiro acabou saindo pela culatra: a novidade soa deslocada, inverossímil e, pior ainda, constrangedora em sua tentativa de soar atual. Também não deu certo substituir as nacionalidades de outros personagens cruciais: a sueca Greta Ohlsson (vivida por Ingrid Bergman em 1974) virou Pilar Estravados na nova adaptação (e ficou com o rosto de Penélope Cruz, subaproveitada como todo o elenco), e o italiano Hardman transmutou-se no espanhol Biniamino Marquez (para ser interpretado por Manuel Garcia-Rulfo). São diferenças que em nada acrescentam ao material original e apenas enfatizam a vontade quase imatura de forçar uma identidade - um desejo que se estende também ao visual estilizado, que compreende a fotografia cinza-azulada de Haris Zambarloukos (que funciona apenas em parte) e os ângulos inusitados de câmera (que evitam o convencional a todo custo e cansam em diversos momentos). A direção de arte e o figurinos são deslumbrantes, mas é pouco diante de tantos erros - que enfraquecem as boas ideias de Branagh, como utilizar-se de espelhos para ilustrar a dubiedade dos personagens/suspeitos.

A trama em si é conhecida por quase todo mundo (ao menos os fãs do gênero a conhecem de longa data): durante uma viagem no tradicional Expresso do Oriente, o misterioso e pouco simpático Edward Ratchett (Johnny Depp forçado como sempre) é violentamente assassinado a facadas. O crime é ainda mais intrigante quando se descobre que as facadas são de tamanhos e intensidades diferentes, e outras pistas incoerentes deixam o trabalho do famoso detetive particular Hercule Poirot (um passageiro de última hora) ainda mais complicado. Os suspeitos - um grupo variado de passageiros em determinado vagão - parecem não ter nada em comum e aparentemente todos tem álibis indestrutíveis. A ideia inicial - de que o homicídio foi resultado de uma vingança relacionada à máfia - é deixada de lado, no entanto, quando Poirot descobre que Ratchett é, na verdade, o responsável pelo sequestro e assassinato de um bebê, alguns anos antes: resta, então, descobrir quem, dentre os passageiros, também está mentindo quanto à sua identidade.

Desperdiçando um elenco excepcional - que inclui os veteranos Judi Dench e Derek Jacobi, os consagrados Willem Dafoe, Penélope Cruz e Michelle Pfeiffer - e apostando na modernização de uma trama que já nasceu clássica, Kenneth Branagh simplesmente destruiu a obra original, destroçando inclusive a revelação sobre o nome do assassino em uma sequência morna e com um desfecho sofrível. Em pensar que ele continuará sua missão em estragar outras obras de Christie - "Morte sobre o Nilo" é o próximo da lista e sua menção nos últimos minutos do primeiro filme já aponta para mais distorções imperdoáveis - chega a dar calafrios. Matar uma obra dessa forma deveria ser crime!

quinta-feira

LOCKE

LOCKE (Locke, 2013, IM Global/Shoebox Films, 85min) Direção e roteiro: Steven Knight. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Justine Wright. Música: Dickon Hinchliffe. Figurino: Nigel Egerton. Produção executiva: Stuart Ford, David Jourdan, Steven Squillante, Joe Wright. Produção: Guy Heeley, Paul Webster. Elenco: Tom Hardy, Olivia Colman, Ruth Wilson, Andrew Scott, Ben Daniels, Tom Holland. Estreia: 02/9/13 (Festival de Veneza)

Imagine um filme inteiramente passado dentro de um carro, com um único personagem em cena, tentando resolver todos os problemas que se acumularam em sua vida através do telefone justamente em uma noite onde todos eles resolveram exigir uma solução. Pode parecer chato, perigosamente ambicioso ou, pior ainda, uma tremenda armadilha para um ator sem maiores recursos, certo? Mas não é o que acontece com "Locke", surpreendente drama dirigido pelo inglês Steven Knight - cujo maior crédito até então era uma indicação ao Oscar de roteiro original por "Coisas belas e sujas", de 2003. Diretor também de "Redenção" - que deu a Gerard Butler um de seus papéis mais desafiadores - Knight é o comandante por trás de uma das obras mais provocativas e impressionantes de 2013, que deu a seu protagonista, Tom Hardy, o prêmio de melhor ator do ano pela Associação de Críticos de Los Angeles. É Hardy - até então mais conhecido pelos brucutus de plantão que interpretou em "Guerreiro", "A origem" e "O Cavaleiro das Trevas ressurge" - quem dá consistência e sensibilidade a um personagem dos mais complexos, capaz de pegar de surpresa o espectador que esperar dele suas tradicionais explosões de fúria. Seu registro aqui é sutil e delicado - uma prova de seu imenso talento, ainda pouco reconhecido.

Filmado no período incomum de apenas seis dias, "Locke" acompanha, em tempo real, a angústia de um homem comum, Ivan Locke, engenheiro de obras casado e pai de dois filhos, quando precisa resolver, em uma única noite, uma série de problemas que, acumulados, resolveram explodir ao mesmo tempo. Sendo assim, ele abandona sua cidade em direção à Londres, onde planeja assistir ao nascimento de um filho, fruto de uma noite ocasional com uma colega de trabalho mais velha, Bethan (Olivia Colman). No caminho para a maternidade, ele precisa contar sobre o adultério à esposa, Katrina (Ruth Wilson), que obviamente não reage nada bem à novidade - enquanto seus filhos ignoram a situação insistindo para que o pai volte logo pra casa para que possam juntos assistir a um jogo de futebol. Além disso - e das complicações que surgem no trabalho de parto de Bethan - Locke ainda lida com o fato de um de seus maiores trabalhos estar marcado para a madrugada seguinte e ele ter a certeza de que não poderá estar supervisionando pessoalmente a chegada do material e a construção do prédio - o que fatalmente o fará perder o emprego apesar da ajuda do assistente Donal (Andrew Scott), ligeiramente viciado em álcool. Não bastasse, Locke conversa imaginariamente com seu pai - com quem teve uma relação difícil e cujo modelo de conduta equivocada é o maior responsável pelas decisões tomadas pelo rapaz.


Sem mostrar o rosto de nenhum outro personagem além do protagonista, "Locke" ousa em construí-los apenas através dos diálogos travados pelo telefone. Tudo que aconteceu antes ou irá acontecer depois da noite mostrada no filme de Knight só poderá ser imaginado pelo espectador, já que (apesar de algumas decisões serem tomadas durante o trajeto) o recorte proposto pelo roteiro deixa claro que as duas horas mostradas em cena são apenas o trampolim para uma nova vida para seu personagem central, que conquista o público justamente por ser falível e estar disposto a corrigir seus erros. A feliz ideia de mostrar que a origem de sua decisão em desafiar a tranquilidade de sua vida doméstica e profissional e fazer o que considera certo - estar ao lado da amante de uma noite só em seu parto - mesmo que isso signifique uma ruptura em sua rotina vem da repulsa que sente pelos atos de seu pai é o centro nervoso da trama, e é resolvida com inteligência e sensibilidade. Tom Hardy desincumbe-se do desafio com maestria, contando para isso com a direção eficiente e uma edição concisa e ágil, que impede que a história perca o rumo e o interesse da plateia. Com uma fotografia elegante e quente que praticamente joga o público no banco do carona enquanto Locke vai enfrentando problema atrás de problema na sua busca por ser um homem justo e ético, o filme se desenrola como um envolvente drama familiar, valorizado pela coragem da produção em abdicar de artifícios e subterfúgios outros que não o bom roteiro e a atuação quase milagrosa de seu ator.

Consagrado em 2015 por seu trabalho em "Mad Max, Estrada da Fúria" - que rendeu milhões de dólares pelo mundo e saiu premiado inclusive por associações menos afeitas a filmes de ação, como o National Board of Review - Tom Hardy mostra, em "Locke", toda a extensão de suas possibilidades como ator, encarando um desafio do qual poucos atores conseguiriam tirar todo o proveito. Com uma atuação discreta e fascinante, ele faz do filme de Steven Knight uma pérola a ser descoberta pelos fãs de cinema - e que pode ser o começo de uma nova fase de sua promissora carreira.

terça-feira

DOU-LHES UM ANO

DOU-LHES UM ANO (I give it a year, 2013, StudioCanal/Anton Capital Entertainment, 97min) Direção e roteiro: Dan Mazer. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Tony Craunston. Música: Ilan Eshkeri. Figurino: Charlotte Walter. Direção de arte/cenários: Simon Elliott/Rebecca Alleway. Produção executiva: Liza Chasin, Olivier Courson, Ron Halpern, Debra Hayward. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Kris Thykier. Elenco: Rose Byrne, Rafe Spall, Anna Faris, Simon Baker, Minnie Driver, Jason Flemyng, Stephen Merchant, Jane Asher, Claire Higgins, Olivia Colman. Estreia: 15/01/13

Em termos de inteligência, personagens carismáticos e senso de humor, as comédias românticas inglesas dão um banho nas suas colegas hollywoodianas. Não à toa, filmes como "Quatro casamentos e um funeral", "Um lugar chamado Notting Hill", "O diário de Bridget Jones" e "Simplesmente amor" conquistaram os corações do público e as boas graças da crítica, com uma mistura sempre certeira entre o sarcasmo, o romantismo e uma escalação perfeita de elenco. Uma pena, porém, que "Dou-lhes um ano" - produzido pela mesma Working Title dos títulos citados acima - não tenha tido a mesma sorte nas bilheterias. Talvez por não ter astros de primeira grandeza enfeitando seu cartaz, o filme, escrito e dirigido por Dan Mazer - parceiro de Sacha Baron-Cohen na série de TV "Ali G" -  passou em brancas nuvens pelos cinemas, uma injustiça que felizmente pode ser corrigida pelo mercado de dvds e blu-rays pelos fãs do gênero, que irão encontrar nele tudo que sempre procuram, com o acréscimo de uma ousadia a mais: o enfoque da trama central.

Tudo começa como manda o figurino: em poucos meses, o escritor Josh (Rafe Spall) e a publicitária Nat (Rose Byrne) se apaixonam, vivem um conto de fadas e decidem se casar mesmo sabendo que podem estar sendo bastante precipitados. Já na cerimônia de casamento, uma prima um tantinho invejosa e com o relacionamento já desgastado, Namoi (Minnie Driver, ótima), dá sua sentença: "Dou-lhe um ano!". Alguns meses mais tarde, sua profecia parece estar se concretizando, já que Josh e Nat se encontram em uma crise que os faz questionar sua pressa em oficializar a relação. Não bastasse a percepção de que são bastante diferentes entre si, ele precisa encarar a volta ao país de uma antiga namorada, Chloe (Anna Faris), e ela sente uma atração irresistível por um novo cliente, o milionário boa-pinta Guy (Simon Baker). Cabe a eles, então, administrar a crise ou admitir o erro e seguir em frente com uma nova vida.


Visto friamente, "Dou-lhes um ano" é uma receita quase pronta: tem o casal central enfrentando dificuldades, rivais interessantes que podem ou não ser o tiro de misericórdia no relacionamento, o amigo inconveniente (aqui interpretado pelo ótimo Stephen Merchant), situações constrangedoras, piadas com alto grau de ironia, coadjuvantes interessantes e uma trilha sonora agradável e adequada. Porém, é impossível não admitir que, apesar de tudo soar clichê, funciona que é uma beleza. Dotado de um senso de ritmo que faz com que sua hora e meia passe voando - em boa parte graças ao timing cômico do elenco - o filme de Mazer é uma surpresa e tanto para quem procura um passatempo descompromissado. Algumas piadas são excelentes - a forma como Nat canta errado várias canções e é corrigida por Josh, por exemplo - e a química entre os atores centrais é formidável. Ator de filmes como "Um dia" - onde vivia o humorista fracassado apaixonado por Anne Hathaway e nem de longe tinha aparência de galã de comédia romântica - e "As aventuras de Pi" - onde era o escritor a quem a história era narrada - o inglês Rafe Spall demonstra que tem todas as possibilidades de tornar-se astro em breve, e Rose Byrne, conhecida como a sofrida mãe dos filmes "Sobrenatural", revela uma face menos sombria e mais leve de seu talento - e, surpresa, é bastante simpática quando não está enfrentando espíritos do mal.

Realmente engraçado quando precisa ser, romântico quando apropriado e repleto de situações impagáveis - Josh tentando impedir os sogros de vê-lo nu nas fotos da lua-de-mel, Guy tentando seduzir Nat com pombos voando sobre eles em uma sala de hotel, uma impagável sessão de mímica com a família - "Dou-lhes um ano" é uma comédia romântica das melhores, capaz de conquistar até o mais renitente dos detratores do gênero. Pode não ter estourado nas bilheterias, mas é infinitamente superior à média, principalmente por algumas ousadias narrativas e pela excepcional escalação de elenco, que foge do convencional e acerta em cheio na verossimilhança e na naturalidade. Vale a pena experimentar.

A DAMA DE FERRO

A DAMA DE FERRO (The Iron Lady, 2011, Pathé/Film4/UK Film Council, 100min) Direção: Phillyda Lloyd. Roteiro: Abi Morgan. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Justine Wright. Música: Thomas Newman. Figurino: Consolata Boyle. Direção de arte/cenários: Simon Elliott/Annie Gilhooly. Produção executiva: Françoise Ivernel, Adam Kulick, Cameron McCracken, Tessa Ross. Produção: Damian Jones. Elenco: Meryl Streep, Jim Brodabent, Olivia Collman, Richard E. Grant. Estreia: 30/12/11

Vencedor de 2 Oscar: Melhor Atriz (Meryl Streep), Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Meryl Streep)

Uma das principais características de um grande ator é a sua possibilidade de transformar qualquer filme, por pior que ele seja, em uma experiência menos dolorosa. Jack Nicholson faz isso como ninguém. Kevin Spacey idem. E é exatamente isso que Meryl Streep faz com "A dama de ferro". A cinebiografia de Margareth Thatcher, primeira-ministra britânica que esteve no poder entre 1979 e 1990 é de uma mediocridade tão grande que chega a fazer com que o trabalho anterior de sua diretora, o musical "Mamma Mia" - que era divertido e solar mas só isso! - soe como um "Cantando na chuva". No entanto, Streep é tão, tão soberana em seu ofício que é a única coisa que impede o filme de naufragar solenemente sem deixar sobreviventes.

Quando o filme começa Thatcher já está aposentada e apresentando alguns sinais de demência, chegando a conversar com Denis (Jim Broadbent, subaproveitado), o marido que já morreu. Enquanto se prepara para doar suas roupas, ela relembra sua trajetória política, desde a juventude - quando, filha do humilde dono de uma mercearia era humilhada pelas colegas - até a maturidade, passando por sua eleição para o Parlamento inglês e por todos os momentos mais importantes de seu mandato. O problema maior do roteiro (que utiliza de forma preguiçosa o batido recurso do flashback) é que tudo é muito confuso e superficial, não se detendo satisfatoriamente a nenhum aspecto da vida de sua protagonista. Pontos importantes da carreira de Thatcher (como sua firmeza durante a Guerra das Malvinas e seu confronto com os atentados do IRA, que tiraram a vida de seu porta-voz) passam pela tela de forma desordenada, sem dar ao público nem a oportunidade de conhecer um pouco melhor a história política do país durante essa fase tão importante nem de travar conhecimento com o ser humano por trás da persona política engendrada pela primeira-ministra. Ao tentar equilibrar esses dois pontos, Phillyda Lloyd tropeça em sua falta de experiência.


Enquanto "Mamma Mia" não precisava mais do que o carisma de seu elenco e das canções conhecidas desde sempre do grupo ABBA, "A dama de ferro" necessitava de uma mão mais firme em seu comando. Ao contrário do que Stephen Frears fez em "A rainha" - dar à sua protagonista um senso de humanidade quase desconhecido do grande público ao narrar um período específico de seu reinado - Lloyd tenta abraçar uma trajetória de vida inteira em um filme de menos de duas horas e se perde em suas pretensões. Sua Margaret Thatcher não é nem a bruxa que muitos pintam nem a idealista que seus correligionários sempre tentaram vender, mas não é questão de equilíbrio e sim de um roteiro esquizofrênico e sem foco que dá pouco espaço até mesmo para o brilho de sua atriz central. Mas mesmo assim, com todos os problemas, Streep brilha avassaladora no papel que lhe deu o esperado terceiro Oscar (felizmente o politicamente correto não foi mais forte e Viola Davis, apesar de ótima em "Histórias cruzadas", não tirou o prêmio da veterana atriz).

Ajudada por uma maquiagem competente (que deveria servir de exemplo aos profissionais de "J. Edgar"), a mais respeitada atriz americana em atividade faz o possível e o impossível para dar credibilidade ao filme, convencendo em todas as fases da personagem, com um sotaque perfeito e todas as qualidades que fazem dela o mito vivo que é. Mesmo trabalhando em cima de um material quase oco - e o artifício dramático de contar a história através de suas conversas com o fantasma do marido morto não ajuda em nada - Streep dá vida e consistência à sua personagem e salva o filme de ser absoluta e irremediavelmente esquecível. Salve Meryl!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...