O INÍCIO DO FIM (Fat Man and Little Boy/Shadow makers, 1989, Paramount Pictures, 108min) Direção: Roland Joffé. Roteiro: Bruce Robinson, Roland Joffé, estória de Bruce Robinson. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Françoise Bonnott. Música: Ennio Morricone. Figurino: Nick Ede. Direção de arte/cenários: Gregg Fonseca/Dorree Cooper. Produção executiva: John Calley. Produção: Tony Garnett. Elenco: Paul Newman, Dwight Schultz, John Cusack, Laura Dern, Bonnie Bedelia, John G. McGinley, Natasha Richardson, James Eckhouse. Estreia: 20/10/89
Cineasta sempre preocupado com tramas de cunho político e/ou social, Roland Joffé ficou conhecido pelos fãs de cinema graças a produções premiadas e elogiadas pela crítica, como "Gritos do silêncio" (84) e "A missão" (86), pelos quais foi indicado ao Oscar de melhor diretor. Não foi surpresa, portanto, quando ele assumiu o comando de "O início do fim", o filme da Paramount que trataria sobre o Projeto Manhattan, que criou e construiu, em 1945, as bombas atômicas que atingiram Hiroshima e Nagasaki e deram fim à II Guerra Mundial. Catastrófico fracasso de bilheteria nos EUA (custou cerca de 30 milhões de dólares e rendeu cerca de dez menos menos em sua carreira nos cinemas), acabou lançado no resto do mundo com um título diferente e tentou conquistar - em vão - estatuetas na temporada de premiações de Hollywood. Não é difícil compreender os motivos que o levaram a tal fiasco comercial: mesmo com a direção cuidadosa de Joffé e o nome do veterano Paul Newman liderando o elenco, o filme não consegue escapar da sina comum às produções do gênero e, ao tentar equilibrar o didático/histórico ao dramático, não atinge plenamente seus objetivos em nenhum quesito. Essa indecisão custa caro ao resultado final, que mesmo perceptivelmente caprichado tecnicamente, não empolga nem emociona tanto quanto deveria.
Inicialmente chamado "Fat Man and Little Boy" (os apelidos dados às bombas), "O início do fim" teve seu nome modificado para "Shadow makers" logo depois que seu desempenho nas bilheterias domésticas assustou aos executivos do estúdio - que, logicamente, não esperavam uma renda tão pífia (pouco mais de um milhão de dólares arrecadados no fim de semana de estreia). Rebatizar o filme para lançamento em outros países, no entanto, não deu resultado nenhum: talvez por sua temática particularmente restrita, a obra de Joffé não despertou interesse nas massas que haviam lotado os cinemas para assistir ao "Batman" de Tim Burton, e saiu melancolicamente de cena, ocupando um lugar bastante coadjuvante nas carreiras de todos os envolvidos - seja do veterano Paul Newman ou dos novatos John Cusack e Laura Dern.
Apesar de ser o rosto de Newman que estampa o cartaz e ser seu nome que abre os créditos, o verdadeiro protagonista de "O início do fim" não é o seu General Leslie Groves - líder militar do projeto que concebeu a bomba atômica. O roteiro, escrito pelo cineasta e seu parceiro de longa data, Bruce Robinson, centra seu foco principalmente em Robert Oppenheimer (Dwight Schultz), o cientista chamado por Groves para comandar a experiência. A princípio entusiasmado com a possibilidade de mostrar sua competência e seu talento, ao poucos ele vai tomando consciência dos reais objetivos de Groves - e passa a questionar profundamente sua posição na estratégia. É somente quando sua vida pessoal - representada pela figura de sua amante, Jean Tatlock (Natasha Richardson), comunista vista com maus olhos pelo governo americano - é atingida que Oppenheimer percebe a dimensão do que está fazendo. Cercado de paranoia e segredos, ele testemunha o nascimento de um projeto científico gigantesco, que não poupa nem mesmo outros cientistas, como o jovem Michael Merriman (John Cusack).
Quando Bruce Robinson assumiu o roteiro de "O início do fim" seu maior interesse na trama era a história de amor e morte por trás do romance entre Oppenheimer e Jean Tatlock - um mistério ainda hoje envolto em teorias de conspiração. As alterações feitas no roteiro final, para dar mais ênfase ao relacionamento entre o cientista e o General Groves não apenas mudaram o tom da narrativa, mas também empurraram o filme para um nicho muito mais restrito de interesse - o que talvez tenha contribuído para seu fracasso. Soma-se a isso a inexperiência de Dwight Schultz, sem a força cênica necessária para imprimir consistência e nuances a um personagem tão repleto de possibilidades quanto o seu. O resultado é que o romance entre Merriman e a enfermeira Kathleen Robinson (Laura Dern) acaba por ser mais atraente ao espectador do que as crises de consciência de Oppenheimer - mesmo que tal subtrama seja inventada, como forma de iluminar o público das consequências da experiência realizada no Novo México. No fim das contas, "O ínicio do fim" é um filme com grandes atrações em seu cartaz (a música é de Ennio Morricone, a fotografia é do premiado Vilmos Zsigmond), mas que é frustrante na maior parte do tempo graças a problemas de foco e ritmo. Uma bela ideia que não atingiu todo o seu potencial.
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AUSÊNCIA DE MALÍCIA
AUSÊNCIA DE MALÍCIA (Absence of malice, 1981, Columbia Pictures, 116min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Kurt Luedtke. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Sheldon Kahn. Música: Dave Grusin. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/John Franco Jr.. Produção executiva: Ronald L. Schwary. Produção: Sydney Pollack. Elenco: Paul Newman, Sally Field, Bob Balaban, Melinda Dillon, Luther Adler. Estreia: 15/11/81
3 indicações ao Oscar: Ator (Paul Newman), Atriz Coadjuvante (Melinda Dillon), Roteiro Original
Um belo dia, o repórter Kurt Luedtke, editor-executivo do The Detroit Free Press, percebeu que já tinha experiência o suficiente dentro do universo do jornalismo para escrever um roteiro sobre o assunto. Pediu demissão, mudou-se para Los Angeles e, inspirado pela história real de um colega do Washington Post que havia sido obrigado a devolver um Pulitzer quando foi descoberto que sua história era inventada, criou a trama de "Ausência de malícia" - que discutia os problemas inerentes à liberdade de expressão. Apresentando um tema contundente na democracia dos EUA - que poucos anos antes havia testemunhado a queda de um presidente graças à denúncias de uma dupla de jornalistas -, o roteiro de Luedtke logo interessou ao cineasta George Roy Hill - vencedor do Oscar por "Golpe de mestre" (73). Apesar do interesse, no entanto, Hill não se manteve à frente do projeto por muito tempo, mas teve um substituto à altura. Já no comando da produção, o consagrado Sydney Pollack mostrou que não tinha medo da potencial controvérsia a respeito do tema central do filme e escalou para os papéis centrais uma dupla de grandes astros, Al Pacino e Diane Keaton (ambos do elenco de "O poderoso chefão"). A saída de Pacino - e posteriormente de Keaton - não abalou o cineasta, que ofereceu então os papéis ao prestigiado Paul Newman e a recém oscarizada Sally Field. Surgia então um filme que encantaria boa parte da crítica, renderia mais de 40 milhões de dólares nas bilheterias e chegaria à lista de indicados ao Oscar em três importantes categorias.
Corajosamente indo em direção contrária ao bem sucedido "Todos os homens do presidente" (76), que narrava a investigação do Washington Post que revelou o escândalo de Watergate e levou à renúncia de Richard Nixon, Sydney Pollack mostra, em "Ausência de malícia", um outro lado do jornalismo investigativo, questionando os limites da liberdade de expressão. Se no premiado filme de Alan J. Pakula os repórteres vividos por Dustin Hoffman e Robert Redford eram o protótipo do heroísmo e da coragem, na obra de Pakula o outro lado do universo jornalístico é mostrado através de Megan Carter (Sally Field), uma repórter ambiciosa mas um tanto ingênua que é pega em uma armadilha criada pelas raposas do FBI: por sua causa, o nome de Mike Gallagher (Paul Newman) é ligado à investigação de um homicídio, apesar de seu álibi e de suas contundentes negativas. Filho de um conhecido mafioso recentemente morto, Gallagher passa a ter sua vida devassada pelos jornais e seu negócio como comerciante de bebidas em Miami prejudicado. Em busca da verdade - e para consertar seu possível erro de julgamento -, Megan começa a investigar os detalhes de sua própria notícia e esbarra em Teresa (Melinda Dillon), uma velha amiga de Mike, que pode ser a chave de todo o interesse do empresário em proteger sua privacidade.
Contando com uma atuação exemplar de Paul Newman, que injeta um misto de elegância e mistério a um personagem cujas reais intenções e motivações só vão sendo relevadas aos poucos, "Ausência de malícia" apresenta um ritmo que o aproxima mais das cerebrais produções policiais dos anos 70 do que dos filmes mais ágeis da década seguinte. Dirigido com segurança e sem espaço para piadas fora de hora, o filme de Pollack só força um pouco a barra quando o roteiro insiste em um romance pouco convincente entre sua dupla de protagonistas: por mais que seja irresistível acrescentar uma dose de
leveza à trama, a história de amor entre Megan e Mike soa deslocada e desnecessária - principalmente porque interrompe o fluxo da narrativa mais importante e atraente. Isso não impediu, porém, que o roteiro de Luedtke fosse candidato ao Oscar da categoria - que perdeu para "Carruagens de fogo", o papa-Oscar surpresa da temporada. Newman também concorreu à estatueta, assim como a coadjuvante Melinda Dillon, mas ambos também foram derrotados - ele pelo veterano Henry Fonda ("Num lago dourado") e ela por Maureen Stapleton ("Reds"). Apenas Sally Field ficou de fora das indicações - e por ironia, a primeira escolha para seu papel, Diane Keaton, chegou às cinco finalistas da categoria de melhor atriz, por "Reds".
Longe de ser um clássico da estatura de "Todos os homens do presidente" ou outros filmes que se utilizam dos bastidores do jornalismo para fazer uma crônica d sua época, "Ausência de malícia" é um filme apenas correto, valorizado por seus atores e pela direção contida de Sydney Pollack. Discute um tema relevante, mas lhe falta paixão e até mesmo uma química mais potente entre Newman e Sally Field, dois atores excelentes mas que nem sempre conseguem o essencial: despertar a simpatia da plateia. Essa falha acaba por atrapalhar o resultado final, apesar do capricho das atuações e da discussão que levanta. Um bom filme, mas muito aquém de outras obras bem melhores de Pollack.
3 indicações ao Oscar: Ator (Paul Newman), Atriz Coadjuvante (Melinda Dillon), Roteiro Original
Um belo dia, o repórter Kurt Luedtke, editor-executivo do The Detroit Free Press, percebeu que já tinha experiência o suficiente dentro do universo do jornalismo para escrever um roteiro sobre o assunto. Pediu demissão, mudou-se para Los Angeles e, inspirado pela história real de um colega do Washington Post que havia sido obrigado a devolver um Pulitzer quando foi descoberto que sua história era inventada, criou a trama de "Ausência de malícia" - que discutia os problemas inerentes à liberdade de expressão. Apresentando um tema contundente na democracia dos EUA - que poucos anos antes havia testemunhado a queda de um presidente graças à denúncias de uma dupla de jornalistas -, o roteiro de Luedtke logo interessou ao cineasta George Roy Hill - vencedor do Oscar por "Golpe de mestre" (73). Apesar do interesse, no entanto, Hill não se manteve à frente do projeto por muito tempo, mas teve um substituto à altura. Já no comando da produção, o consagrado Sydney Pollack mostrou que não tinha medo da potencial controvérsia a respeito do tema central do filme e escalou para os papéis centrais uma dupla de grandes astros, Al Pacino e Diane Keaton (ambos do elenco de "O poderoso chefão"). A saída de Pacino - e posteriormente de Keaton - não abalou o cineasta, que ofereceu então os papéis ao prestigiado Paul Newman e a recém oscarizada Sally Field. Surgia então um filme que encantaria boa parte da crítica, renderia mais de 40 milhões de dólares nas bilheterias e chegaria à lista de indicados ao Oscar em três importantes categorias.
Corajosamente indo em direção contrária ao bem sucedido "Todos os homens do presidente" (76), que narrava a investigação do Washington Post que revelou o escândalo de Watergate e levou à renúncia de Richard Nixon, Sydney Pollack mostra, em "Ausência de malícia", um outro lado do jornalismo investigativo, questionando os limites da liberdade de expressão. Se no premiado filme de Alan J. Pakula os repórteres vividos por Dustin Hoffman e Robert Redford eram o protótipo do heroísmo e da coragem, na obra de Pakula o outro lado do universo jornalístico é mostrado através de Megan Carter (Sally Field), uma repórter ambiciosa mas um tanto ingênua que é pega em uma armadilha criada pelas raposas do FBI: por sua causa, o nome de Mike Gallagher (Paul Newman) é ligado à investigação de um homicídio, apesar de seu álibi e de suas contundentes negativas. Filho de um conhecido mafioso recentemente morto, Gallagher passa a ter sua vida devassada pelos jornais e seu negócio como comerciante de bebidas em Miami prejudicado. Em busca da verdade - e para consertar seu possível erro de julgamento -, Megan começa a investigar os detalhes de sua própria notícia e esbarra em Teresa (Melinda Dillon), uma velha amiga de Mike, que pode ser a chave de todo o interesse do empresário em proteger sua privacidade.
Contando com uma atuação exemplar de Paul Newman, que injeta um misto de elegância e mistério a um personagem cujas reais intenções e motivações só vão sendo relevadas aos poucos, "Ausência de malícia" apresenta um ritmo que o aproxima mais das cerebrais produções policiais dos anos 70 do que dos filmes mais ágeis da década seguinte. Dirigido com segurança e sem espaço para piadas fora de hora, o filme de Pollack só força um pouco a barra quando o roteiro insiste em um romance pouco convincente entre sua dupla de protagonistas: por mais que seja irresistível acrescentar uma dose de
leveza à trama, a história de amor entre Megan e Mike soa deslocada e desnecessária - principalmente porque interrompe o fluxo da narrativa mais importante e atraente. Isso não impediu, porém, que o roteiro de Luedtke fosse candidato ao Oscar da categoria - que perdeu para "Carruagens de fogo", o papa-Oscar surpresa da temporada. Newman também concorreu à estatueta, assim como a coadjuvante Melinda Dillon, mas ambos também foram derrotados - ele pelo veterano Henry Fonda ("Num lago dourado") e ela por Maureen Stapleton ("Reds"). Apenas Sally Field ficou de fora das indicações - e por ironia, a primeira escolha para seu papel, Diane Keaton, chegou às cinco finalistas da categoria de melhor atriz, por "Reds".
Longe de ser um clássico da estatura de "Todos os homens do presidente" ou outros filmes que se utilizam dos bastidores do jornalismo para fazer uma crônica d sua época, "Ausência de malícia" é um filme apenas correto, valorizado por seus atores e pela direção contida de Sydney Pollack. Discute um tema relevante, mas lhe falta paixão e até mesmo uma química mais potente entre Newman e Sally Field, dois atores excelentes mas que nem sempre conseguem o essencial: despertar a simpatia da plateia. Essa falha acaba por atrapalhar o resultado final, apesar do capricho das atuações e da discussão que levanta. Um bom filme, mas muito aquém de outras obras bem melhores de Pollack.
quinta-feira
UMA CARTA DE AMOR
UMA CARTA DE AMOR (Message in a bottle, 1999, Warner Bros, 131min) Direção: Luis Mandoki. Roteiro:
Gerald DiPego, romance de Nicholas Sparks. Fotografia: Caleb Deschanel.
Montagem: Steven Weisberg. Música: Gabriel Yared. Figurino: Bernie
Pollack. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Dorree Cooper,
Elaine O'Donnell, CC Perkinson. Produção: Kevin Costner, Denise DiNovi,
Jim Wilson. Elenco: Kevin Costner, Robin Wright-Penn, Paul Newman, John
Savage, Ileana Douglas, Robbie Coltrane. Estreia: 12/02/99
Primeiro romance de Nicholas Sparks a ser adaptado para o cinema - antes, portanto, que a fórmula de seus livros se tornasse facilmente reconhecível a qualquer espectador, por mais distraído que seja - "Uma carta de amor" é, também, um dos melhores filmes baseados em sua obra, normalmente exagerada no dramalhão a ponto da superficialidade. Marcando também o retorno de Kevin Costner às boas graças do público depois de um período negro em que estrelou fracassos retumbantes como "Waterworld, o segredo das águas" e "O mensageiro", o filme de Luis Mandoki é um drama romântico à moda antiga, feito sob medida para quem gosta de se emocionar ao assistir a uma bela e devastadora história de amor.
Mesmo que não tenha sido um sucesso extraordinário de bilheteria, "Uma carta de amor" devolveu a Costner - um dos astros mais quentes do final dos anos 80 e do começo da década de 90 - um pouco do respeito e do prestígio acumulado com êxitos acachapantes com "Os intocáveis", "JFK", "O guarda-costas" e principalmente "Dança com lobos", sua estreia como diretor e que lhe rendeu o Oscar da categoria (além de outras seis estatuetas, incluindo melhor filme). Deixando de lado sua tendência à megalomania e seu ego exarcebado (apesar de ainda assinar como um dos produtores), Costner entrega à plateia uma das melhores e mais naturais atuações de sua carreira, mostrando que, apesar dos erros monumentais de sua trajetória, ele é um astro de grande carisma, especialmente quando tem a seu lado atores do porte de Paul Newman e Robin Wright Penn, capazes de iluminar qualquer cena com seu imenso talento. São eles que dão à trama - nada especial e até um tanto previsível - o charme e a credibilidade necessários para que ela se torne uma experiência interessante e comovente.
Apesar do nome de Costner ser o primeiro dos créditos, a verdadeira protagonista é Theresa Osborne, a personagem vivida pela bela Robin Wright (então Penn): pesquisadora do jornal Chicago Tribune, ela encontra, durante um período de descanso à beira do mar, uma garrafa contendo uma bela e triste carta romântica, endereçada a uma mulher chamada Catherine. Comovida com o texto e intrigada com uma possível história a ser publicada - principalmente quando descobre outras cartas escritas pelo mesmo autor, ela investiga o caso com a ajuda de uma colega de trabalho e chega até uma pequena cidade costeira, onde conhece Garrett Blake (Costner), um viúvo charmoso e introvertido que vive às turras com a família de sua falecida mulher e se recusa a esquecer o passado. Encantada com Garrett, Theresa esconde dele o real motivo de sua visita e os dois acabam se envolvendo. Ela, desiludida com um divórcio recente e ele ainda enfrentando um luto de dois anos, se apaixonam perdidamente, redescobrindo sentimentos que consideravam enterrados dentro de si. Mas será que Garrett saberá compreender as razões que levaram Theresa a ocultar a verdade sobre seu encontro?
Mesmo que esteja longe de ser uma obra-prima - em parte porque o roteiro não dá espaço a um aprofundamento maior aos personagens e à trama e em parte porque a intenção do filme é apenas emocionar seu público - "Uma carta de amor" cumpre o que promete. É um romance adulto, estrelado por atores competentes (Paul Newman dá show em cada cena em que aparece como o ranzinza pai de Costner) e com uma história que não tenta inventar a roda, mas prende a atenção do início até o final trágico como é comum na obra de Sparks. Com uma química potente entre Kevin Costner e Robin Wright Penn, é também um dos romances mais consistentes de sua época. Os fãs não tem do que reclamar.
Primeiro romance de Nicholas Sparks a ser adaptado para o cinema - antes, portanto, que a fórmula de seus livros se tornasse facilmente reconhecível a qualquer espectador, por mais distraído que seja - "Uma carta de amor" é, também, um dos melhores filmes baseados em sua obra, normalmente exagerada no dramalhão a ponto da superficialidade. Marcando também o retorno de Kevin Costner às boas graças do público depois de um período negro em que estrelou fracassos retumbantes como "Waterworld, o segredo das águas" e "O mensageiro", o filme de Luis Mandoki é um drama romântico à moda antiga, feito sob medida para quem gosta de se emocionar ao assistir a uma bela e devastadora história de amor.
Mesmo que não tenha sido um sucesso extraordinário de bilheteria, "Uma carta de amor" devolveu a Costner - um dos astros mais quentes do final dos anos 80 e do começo da década de 90 - um pouco do respeito e do prestígio acumulado com êxitos acachapantes com "Os intocáveis", "JFK", "O guarda-costas" e principalmente "Dança com lobos", sua estreia como diretor e que lhe rendeu o Oscar da categoria (além de outras seis estatuetas, incluindo melhor filme). Deixando de lado sua tendência à megalomania e seu ego exarcebado (apesar de ainda assinar como um dos produtores), Costner entrega à plateia uma das melhores e mais naturais atuações de sua carreira, mostrando que, apesar dos erros monumentais de sua trajetória, ele é um astro de grande carisma, especialmente quando tem a seu lado atores do porte de Paul Newman e Robin Wright Penn, capazes de iluminar qualquer cena com seu imenso talento. São eles que dão à trama - nada especial e até um tanto previsível - o charme e a credibilidade necessários para que ela se torne uma experiência interessante e comovente.
Apesar do nome de Costner ser o primeiro dos créditos, a verdadeira protagonista é Theresa Osborne, a personagem vivida pela bela Robin Wright (então Penn): pesquisadora do jornal Chicago Tribune, ela encontra, durante um período de descanso à beira do mar, uma garrafa contendo uma bela e triste carta romântica, endereçada a uma mulher chamada Catherine. Comovida com o texto e intrigada com uma possível história a ser publicada - principalmente quando descobre outras cartas escritas pelo mesmo autor, ela investiga o caso com a ajuda de uma colega de trabalho e chega até uma pequena cidade costeira, onde conhece Garrett Blake (Costner), um viúvo charmoso e introvertido que vive às turras com a família de sua falecida mulher e se recusa a esquecer o passado. Encantada com Garrett, Theresa esconde dele o real motivo de sua visita e os dois acabam se envolvendo. Ela, desiludida com um divórcio recente e ele ainda enfrentando um luto de dois anos, se apaixonam perdidamente, redescobrindo sentimentos que consideravam enterrados dentro de si. Mas será que Garrett saberá compreender as razões que levaram Theresa a ocultar a verdade sobre seu encontro?
Mesmo que esteja longe de ser uma obra-prima - em parte porque o roteiro não dá espaço a um aprofundamento maior aos personagens e à trama e em parte porque a intenção do filme é apenas emocionar seu público - "Uma carta de amor" cumpre o que promete. É um romance adulto, estrelado por atores competentes (Paul Newman dá show em cada cena em que aparece como o ranzinza pai de Costner) e com uma história que não tenta inventar a roda, mas prende a atenção do início até o final trágico como é comum na obra de Sparks. Com uma química potente entre Kevin Costner e Robin Wright Penn, é também um dos romances mais consistentes de sua época. Os fãs não tem do que reclamar.
NA RODA DA FORTUNA
NA
RODA DA FORTUNA (The Hudsucker Proxy, 1994, Warner Bros, 111min)
Direção: Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, Sam Raimi.
Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Thom Noble. Música: Carter Burwell.
Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Dennis
Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner.
Produção: Ethan Coen. Elenco: Tim Robbins, Jennifer Jason Leigh, Paul
Newman, Bruce Campbell, John Mahoney, Charles Durning, Peter Gallagher.
Estreia: 11/3/94
No cinema abertamente corporativo de Hollywood nos gananciosos anos 90, não deixa de ser surpreendente que os irmãos Coen conseguissem realizar filmes tão fora do comum quanto "Na roda da fortuna" - que se seguia aos igualmente estranhos no ninho "Um gosto de sangue" (84), "Arizona nunca mais" (87), "Ajuste final" (90) e "Barton Fink, delírios de Hollywood" (91), todos dotados de uma personalidade própria rara no cinemão mainstream. Uma espécie de sátira aos ingênuos filmes de Frank Capra com altas doses de cinismo na receita, o filme logicamente não encontrou seu público nas bilheterias - talvez porque a audiência não tenha compreendido a brincadeira, talvez porque os próprios irmãos cineastas não tivessem a intenção de agradar ninguém a não ser eles mesmos, com seu humor iconoclasta e repleto de ironia ao american way of life. O fato é que, apesar do fracasso comercial, "Na roda da fortuna" também é um dos menos lembrados filmes dos Coen, sempre relegado a uma prateleira virtual de obras menores. Injustiça pura, já que é uma comédia deliciosa, visualmente deslumbrante e protagonizada por um Tim Robbins no auge da carreira.
Imaginar como ficaria o filme com Tom Cruise no papel central - ideia sem o menor cabimento do produtor não-creditado Joel Silver - chega a soar como um pesadelo, mas felizmente Joel, o diretor, e Ethan, o produtor (ambos também são roteiristas) tem, entre várias outras qualidades artísticas, firmeza nas suas escolhas, e não abriram mão de escalar Robbins como o caipira Norville Barnes, protagonista de sua saga sobre a ambição e a força da inocência. Vindo de uma bem-sucedida estreia como diretor em "Bob Roberts" e um Golden Globe de melhor ator cômico por "O jogador", ambos lançados em 1992, o então marido de Susan Sarandon entrega mais uma performance consagradora na pele de um homem comum e sonhador que, aportando na Nova York do final de 1958, dá de cara com um mundo hostil à sua simplicidade com uma poderosa engrenagem que esmaga toda e qualquer generosidade. É claro que, em se tratando de um filme dos Coen, não existe espaço para sentimentalismo barato nessa descoberta - há até mesmo um Charles Durning de anjo da guarda, com auréola e tudo, aconselhando Barnes no final - mas sua mensagem otimista é transmitida da mesma forma, graças à formidável quantidade de acertos do produto final.
A maior de todas as qualidades é uma que acompanha os diretores desde sua estreia, com o noir "Gosto de sangue": a escalação certeira do elenco. Se Tim Robbins dá um show particular desfilando todas as nuances de seu personagem com extrema competência e naturalidade, o mesmo pode ser dito de Paul Newman, poucas vezes visto na tela se divertindo tanto: como o maquiavélico Sidney J. Mussburger, o veterano demonstra um invejável senso de humor, sempre de posse de um gigantesco e fálico charuto e disparando barbaridades a quem quiser ouvir. Quem não acerta muito o tom de sua personagem, no entanto, é Jennifer Jason Leigh - apesar de ótima atriz, ela parece exagerar na composição de sua repórter disfarçada de secretária que acaba se tornando o interesse amoroso do protagonista, emulando Carole Lombard e Claudette Colbert com uma dose a mais de histrionismo. Além disso, há os deslumbrantes cenários de Dennis Gassner, a fotografia impecável de Roger Deakins e a música imponente e debochada de Carter Burwell, que compõem um extraordinário quadro para os diálogos espertos e a trama imprevisível.
A trama, aliás, é um achado do humor sofisiticado: justamente quando suas empresas estão no auge do sucesso, o diretor das indústrias Hudsucker (vivido por um igualmente divertido Charles Durning) se joga da janela do 44º andar de seu prédio, para susto de sua diretoria. Com o objetivo de comprar suas ações a um preço acessível e tornar-se acionista majoritário da empresa, o vice-presidente Sidney J. Mussburger (Newman) tem a ideia de nomear para a presidência alguém capaz de fazer com que o preço de tais ações caiam assustadoramente e escolhe para isso o recém-contratado Norville Barnes (Robbins) - formado em Administração em sua cidade do interior, totalmente perdido na imensa Nova York e funcionário do setor de correspondência da empresa. O que Mussburger jamais poderia imaginar é que, por trás da aparente ingenuidade de Barnes existe um homem inteligente e que tem uma ideia inovadora para alavancar os lucros: o ainda inédito bambolê.
Vasto de piadas visuais, diálogos inteligentes e dotado de uma direção criativa e nada vulgar, "Na roda da fortuna" é um triunfo. Merece ser descoberto, redescoberto ou finalmente reconhecido como mais um grande trabalho dos irmãos Coen.
No cinema abertamente corporativo de Hollywood nos gananciosos anos 90, não deixa de ser surpreendente que os irmãos Coen conseguissem realizar filmes tão fora do comum quanto "Na roda da fortuna" - que se seguia aos igualmente estranhos no ninho "Um gosto de sangue" (84), "Arizona nunca mais" (87), "Ajuste final" (90) e "Barton Fink, delírios de Hollywood" (91), todos dotados de uma personalidade própria rara no cinemão mainstream. Uma espécie de sátira aos ingênuos filmes de Frank Capra com altas doses de cinismo na receita, o filme logicamente não encontrou seu público nas bilheterias - talvez porque a audiência não tenha compreendido a brincadeira, talvez porque os próprios irmãos cineastas não tivessem a intenção de agradar ninguém a não ser eles mesmos, com seu humor iconoclasta e repleto de ironia ao american way of life. O fato é que, apesar do fracasso comercial, "Na roda da fortuna" também é um dos menos lembrados filmes dos Coen, sempre relegado a uma prateleira virtual de obras menores. Injustiça pura, já que é uma comédia deliciosa, visualmente deslumbrante e protagonizada por um Tim Robbins no auge da carreira.
Imaginar como ficaria o filme com Tom Cruise no papel central - ideia sem o menor cabimento do produtor não-creditado Joel Silver - chega a soar como um pesadelo, mas felizmente Joel, o diretor, e Ethan, o produtor (ambos também são roteiristas) tem, entre várias outras qualidades artísticas, firmeza nas suas escolhas, e não abriram mão de escalar Robbins como o caipira Norville Barnes, protagonista de sua saga sobre a ambição e a força da inocência. Vindo de uma bem-sucedida estreia como diretor em "Bob Roberts" e um Golden Globe de melhor ator cômico por "O jogador", ambos lançados em 1992, o então marido de Susan Sarandon entrega mais uma performance consagradora na pele de um homem comum e sonhador que, aportando na Nova York do final de 1958, dá de cara com um mundo hostil à sua simplicidade com uma poderosa engrenagem que esmaga toda e qualquer generosidade. É claro que, em se tratando de um filme dos Coen, não existe espaço para sentimentalismo barato nessa descoberta - há até mesmo um Charles Durning de anjo da guarda, com auréola e tudo, aconselhando Barnes no final - mas sua mensagem otimista é transmitida da mesma forma, graças à formidável quantidade de acertos do produto final.
A maior de todas as qualidades é uma que acompanha os diretores desde sua estreia, com o noir "Gosto de sangue": a escalação certeira do elenco. Se Tim Robbins dá um show particular desfilando todas as nuances de seu personagem com extrema competência e naturalidade, o mesmo pode ser dito de Paul Newman, poucas vezes visto na tela se divertindo tanto: como o maquiavélico Sidney J. Mussburger, o veterano demonstra um invejável senso de humor, sempre de posse de um gigantesco e fálico charuto e disparando barbaridades a quem quiser ouvir. Quem não acerta muito o tom de sua personagem, no entanto, é Jennifer Jason Leigh - apesar de ótima atriz, ela parece exagerar na composição de sua repórter disfarçada de secretária que acaba se tornando o interesse amoroso do protagonista, emulando Carole Lombard e Claudette Colbert com uma dose a mais de histrionismo. Além disso, há os deslumbrantes cenários de Dennis Gassner, a fotografia impecável de Roger Deakins e a música imponente e debochada de Carter Burwell, que compõem um extraordinário quadro para os diálogos espertos e a trama imprevisível.
A trama, aliás, é um achado do humor sofisiticado: justamente quando suas empresas estão no auge do sucesso, o diretor das indústrias Hudsucker (vivido por um igualmente divertido Charles Durning) se joga da janela do 44º andar de seu prédio, para susto de sua diretoria. Com o objetivo de comprar suas ações a um preço acessível e tornar-se acionista majoritário da empresa, o vice-presidente Sidney J. Mussburger (Newman) tem a ideia de nomear para a presidência alguém capaz de fazer com que o preço de tais ações caiam assustadoramente e escolhe para isso o recém-contratado Norville Barnes (Robbins) - formado em Administração em sua cidade do interior, totalmente perdido na imensa Nova York e funcionário do setor de correspondência da empresa. O que Mussburger jamais poderia imaginar é que, por trás da aparente ingenuidade de Barnes existe um homem inteligente e que tem uma ideia inovadora para alavancar os lucros: o ainda inédito bambolê.
Vasto de piadas visuais, diálogos inteligentes e dotado de uma direção criativa e nada vulgar, "Na roda da fortuna" é um triunfo. Merece ser descoberto, redescoberto ou finalmente reconhecido como mais um grande trabalho dos irmãos Coen.
quarta-feira
INFERNO NA TORRE
INFERNO NA TORRE (The towering inferno, 1974, 20th Century Fox/Warner Bros, 165min) Direção: John Guillermin, cenas de ação dirigidas por Irwin Allen . Roteiro: Stirling Siliphant, romances "The glass inferno", de Thomas N. Scortia, Frank M. Robinson e "The tower", de Richard Martin Stern. Fotografia: Fred Koenemkamp. Montagem: Carl Kress, Harold F. Kress. Música: John Williams. Figurino: Paul Zastupnevich. Direção de arte/cenários: William Creber/Raphael Bretton. Produção: Irwin Allen. Elenco: Paul Newman, Steve McQueen, William Holden, Faye Dunaway, Richard Chamberlain, Jennifer Jones, Fred Astaire, Susan Blakely, O.J. Simpson, Robert Vaughn, Robert Wagner. Estreia: 10/12/74
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Fred Astaire), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("We may never love like this again"), Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Fotografia, Montagem, Canção ("We may never love like this again")
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Fred Astaire)
Um fenômeno cinematográfico típico dos anos 70 - e que tentou uma sobrevida na década de 90 - o filme-catástrofe quase tornou-se uma espécie de gênero na indústria hollywoodiana, graças a sucessos como a série "Aeroporto" e "O destino do Poseidon". Em 1974, o filme que talvez tenha se tornado a quintessência do estilo levou multidões às salas de cinema, concorreu ao Oscar de melhor produção do ano, escalou um elenco de super-estrelas e, durante duas horas e meia, manteve o público em constante tensão - ancorado por efeitos especiais de última geração. "Inferno na torre" é o típico produto de entretenimento que o cinema americano sempre fez com maestria, ainda que peque no desenvolvimento pouco profundo de seus personagens - detalhe que fica em segundo plano, porém, uma vez que o roteiro, inspirado em dois romances de temática semelhante, consegue manter o suspense até seu final apoteótico.
Primeira vez na história que um filme foi co-produzido por dois grandes estúdios de Hollywood, "Inferno na torre" teve uma produção atípica. A Warner Bros, excitada com o sucesso de seu filme sobre o naufrágio do Poseidon, comprou os direitos do livro "The tower", escrito por Richard Martin Stern. Poucas semanas depois, a Fox, também ciente das possibilidades de lucro de um filme-catástrofe, arrebatou os direitos de "The glass inferno", de Thomas N. Scortia e Frank M. Robinson. Ao contrário do que aconteceria anos mais tarde em inúmeras circunstâncias em Hollywood - empresas diferentes competindo pela bilheteria com filmes similares - os dois estúdios resolveram então juntar forças em um único filme, já que ambos os romances tratavam de um incêndio em um arranha-céu (e coincidentemente ambos foram inspirados na construção do World Trade Center). Rachando as despesas de produção, eles também dividiriam o lucro: a Fox ficaria com a receita doméstica (EUA e Canadá) e a Warner com o lucro internacional. Tudo combinado, eles escalaram o roteirista Stirlig Siliphant para juntar as duas tramas em uma só, juntaram um elenco milionário, contrataram John Guillermin para assinar a co-direção - o produtor Irwin Allen fez questão de comandar as várias cenas de ação - e estavam preparados para correr para o abraço. Mas os problemas estavam apenas começando.
Reunir astros de primeira grandeza em um único set de filmagens não é tarefa das mais fáceis, especialmente quando tais astros são, digamos, temperamentais e egocêntricos. Os produtores de "Inferno na torre" descobriram isso da pior maneira possível. Escalado para viver o arquiteto Doug Roberts, Steve McQueen aceitou interpretar o chefe dos bombeiros desde que "alguém do mesmo calibre dele aceitasse interpretar o arquiteto". Paul Newman foi contratado, o papel do bombeiro teve que ser consideravelmente aumentado para ter exatamente o mesmo número de falas do arquiteto e uma espécie de rivalidade surgiu imediatamente entre os dois atores - que por pouco já não haviam dividido a tela em "Butch Cassidy e Sundance Kid" (69). Não bastasse isso, McQueen e a atriz Faye Dunaway proibiram quaisquer visitantes ao set de lhe dirigirem a palavra, além de McQueen também recusar-se a dar entrevistas para divulgar o filme. Além disso, Dunaway começou a incomodar a equipe com seus constantes atrasos e faltas, irritando William Holden a ponto do ator fazer-lhe sérias ameaças - o que resultou em um comportamento exemplar da atriz, que voltaria a contracenar com ele (e ganharia um Oscar por isso) em "Rede de intrigas". Tais problemas de bastidores, no entanto, não se refletiram no resultado final: "Inferno na torre" é o típico filme de ação hollywoodiano dos anos 70, com tudo que isso tem de bom e de ruim.
Os clichês dos filmes-catástrofe estão todos disponíveis para os fãs do gênero, na história do maior prédio do mundo que vê sua glória ser destruída já na festa de inauguração, quando um problema elétrico põe em chamas os andares mais altos da construção: existe o bombeiro heróico (McQueen), o arquiteto que se torna herói por acaso (Newman), os construtores vilões (Holden e Richard Chamberlain), a senhora que protege um casal de crianças (Jennifer Jones), figurantes que morrem queimados, momentos de tensão, uma trama romântica desnecessária (entre Newman e Dunaway) e até um gatinho de estimação que corre o risco de virar churrasco no meio da confusão orquestrada por Guillermin e Allen. Até mesmo o veterano Fred Astaire tem sua chance de brilhar - não dançando, é claro - mas na pele de um escroque que se apaixona por uma possível vítima de seus golpes. Astaire ganhou o Golden Globe de ator coadjuvante e chegou a ser sentimentalmente indicado ao Oscar, mas de certa forma desaparece diante do grandioso espetáculo pirotécnico que tornou-se um clássico da destruição. Para quem gosta é um prato cheio.
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Fred Astaire), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("We may never love like this again"), Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Fotografia, Montagem, Canção ("We may never love like this again")
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Fred Astaire)
Um fenômeno cinematográfico típico dos anos 70 - e que tentou uma sobrevida na década de 90 - o filme-catástrofe quase tornou-se uma espécie de gênero na indústria hollywoodiana, graças a sucessos como a série "Aeroporto" e "O destino do Poseidon". Em 1974, o filme que talvez tenha se tornado a quintessência do estilo levou multidões às salas de cinema, concorreu ao Oscar de melhor produção do ano, escalou um elenco de super-estrelas e, durante duas horas e meia, manteve o público em constante tensão - ancorado por efeitos especiais de última geração. "Inferno na torre" é o típico produto de entretenimento que o cinema americano sempre fez com maestria, ainda que peque no desenvolvimento pouco profundo de seus personagens - detalhe que fica em segundo plano, porém, uma vez que o roteiro, inspirado em dois romances de temática semelhante, consegue manter o suspense até seu final apoteótico.
Primeira vez na história que um filme foi co-produzido por dois grandes estúdios de Hollywood, "Inferno na torre" teve uma produção atípica. A Warner Bros, excitada com o sucesso de seu filme sobre o naufrágio do Poseidon, comprou os direitos do livro "The tower", escrito por Richard Martin Stern. Poucas semanas depois, a Fox, também ciente das possibilidades de lucro de um filme-catástrofe, arrebatou os direitos de "The glass inferno", de Thomas N. Scortia e Frank M. Robinson. Ao contrário do que aconteceria anos mais tarde em inúmeras circunstâncias em Hollywood - empresas diferentes competindo pela bilheteria com filmes similares - os dois estúdios resolveram então juntar forças em um único filme, já que ambos os romances tratavam de um incêndio em um arranha-céu (e coincidentemente ambos foram inspirados na construção do World Trade Center). Rachando as despesas de produção, eles também dividiriam o lucro: a Fox ficaria com a receita doméstica (EUA e Canadá) e a Warner com o lucro internacional. Tudo combinado, eles escalaram o roteirista Stirlig Siliphant para juntar as duas tramas em uma só, juntaram um elenco milionário, contrataram John Guillermin para assinar a co-direção - o produtor Irwin Allen fez questão de comandar as várias cenas de ação - e estavam preparados para correr para o abraço. Mas os problemas estavam apenas começando.
Reunir astros de primeira grandeza em um único set de filmagens não é tarefa das mais fáceis, especialmente quando tais astros são, digamos, temperamentais e egocêntricos. Os produtores de "Inferno na torre" descobriram isso da pior maneira possível. Escalado para viver o arquiteto Doug Roberts, Steve McQueen aceitou interpretar o chefe dos bombeiros desde que "alguém do mesmo calibre dele aceitasse interpretar o arquiteto". Paul Newman foi contratado, o papel do bombeiro teve que ser consideravelmente aumentado para ter exatamente o mesmo número de falas do arquiteto e uma espécie de rivalidade surgiu imediatamente entre os dois atores - que por pouco já não haviam dividido a tela em "Butch Cassidy e Sundance Kid" (69). Não bastasse isso, McQueen e a atriz Faye Dunaway proibiram quaisquer visitantes ao set de lhe dirigirem a palavra, além de McQueen também recusar-se a dar entrevistas para divulgar o filme. Além disso, Dunaway começou a incomodar a equipe com seus constantes atrasos e faltas, irritando William Holden a ponto do ator fazer-lhe sérias ameaças - o que resultou em um comportamento exemplar da atriz, que voltaria a contracenar com ele (e ganharia um Oscar por isso) em "Rede de intrigas". Tais problemas de bastidores, no entanto, não se refletiram no resultado final: "Inferno na torre" é o típico filme de ação hollywoodiano dos anos 70, com tudo que isso tem de bom e de ruim.
Os clichês dos filmes-catástrofe estão todos disponíveis para os fãs do gênero, na história do maior prédio do mundo que vê sua glória ser destruída já na festa de inauguração, quando um problema elétrico põe em chamas os andares mais altos da construção: existe o bombeiro heróico (McQueen), o arquiteto que se torna herói por acaso (Newman), os construtores vilões (Holden e Richard Chamberlain), a senhora que protege um casal de crianças (Jennifer Jones), figurantes que morrem queimados, momentos de tensão, uma trama romântica desnecessária (entre Newman e Dunaway) e até um gatinho de estimação que corre o risco de virar churrasco no meio da confusão orquestrada por Guillermin e Allen. Até mesmo o veterano Fred Astaire tem sua chance de brilhar - não dançando, é claro - mas na pele de um escroque que se apaixona por uma possível vítima de seus golpes. Astaire ganhou o Golden Globe de ator coadjuvante e chegou a ser sentimentalmente indicado ao Oscar, mas de certa forma desaparece diante do grandioso espetáculo pirotécnico que tornou-se um clássico da destruição. Para quem gosta é um prato cheio.
segunda-feira
ESTRADA PARA PERDIÇÃO
ESTRADA PARA PERDIÇÃO (Road to Perdition, 2002, Dreamworks SKG, 117min) Direção: Sam Mendes. Roteiro: David Self, HQ de Max Allan Collins, Richard Piers Rayner. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Jill Bilcock. Música: Thomas Newman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Joan Bradshaw, Walter F. Parkes. Produção: Sam Mendes, Dean Zanuck, Richard D. Zanuck. Elenco: Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law, Tyler Hoechlin, Stanley Tucci, Daniel Craig, Jennifer Jason Leigh, Ciaran Hinds, Dylan Baker, Liam Aiken. Estreia: 12/7/02
6 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Paul Newman), Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som, Edição de Som
Vencedor do Oscar de Fotografia
Quem achava que o Oscar de direção por "Beleza americana" tinha sido sorte de principiante do inglês Sam Mendes foi obrigado a segurar o queixo com o lançamento de "Estrada para Perdição", seu segundo longa. Enquanto seu filme de estreia analisava com um olhar estrangeiro as entranhas dos subúrbios ianques sua adaptação da HQ de Max Allan Collins investiga a fundo os elementos básicos de outro gênero caro à plateia norte-americana (e a todas aquelas que cultuam o cinema hollywoodiano): os filmes de gângster. Ao lançar um olhar europeu sobre essa história de traição, vingança e violência (vagamente baseada em uma história real ocorrida com o gângster irlandês John Looney nos anos 30), Mendes construiu uma peça rara de ourivesaria visual e dramática, provando que, além de sensibilidade para as mazelas humanas, tem um apuradíssimo senso estético. "Estrada para Perdição" é um dos filmes mais deslumbrantes de seu tempo, e a fotografia do veterano Conrad R. Hall (que morreu logo após as filmagens) não mereceu seu Oscar injustamente.
Não existe nenhum plano ou sequência de "Estrada para Perdição" que não seja claramente planejado para causar um efeito específico na audiência (mesmo que às vezes esse objetivo seja bastante discreto a ponto de não ser percebido em uma primeira sessão) ou reiterar a visão de Mendes do roteiro de David Self (um exemplo disso é a maneira como os closes nos protagonistas vão se tornando frequentes à medida em que a relação entre eles também começa a se estreitar). Esse cuidado extremo do cineasta em encantar pelo visual em detrimento de um ritmo mais ágil e uma violência mais gráfica é, ao mesmo tempo, a qualidade maior de seu filme e seu calcanhar de Aquiles. Aparentemente Mendes nega aos fãs do gênero os tiroteios sangrentos que fizeram a glória de nomes como James Cagney e Paul Muni nos primórdios do cinema (e de banhos de sangue como o hiperbólico "Scarface" de Brian de Palma), porém o que ele faz (com invejável competência) é revestir-lhes com um uma poesia em forma de imagens. E, ao contar mais do que uma simples história de revanche - preferindo focalizar seus trunfos na relação conflitante entre um pai distante e silencioso e um filho pré-adolescente que anseia por uma figura paterna mais acessível e próxima.

A trama de "Estrada para Perdição" se passa em 1931, quando os EUA estão passando pela Grande Depressão causada pela queda da bolsa de valores de 1929. É a época da Lei Seca, onde gente como Al Capone faz fortuna em negócios escusos. Em Illinois, quem manda neste setor é o irlandês John Rooney (Paul Newman em sua última e esplêndida atuação, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante), um homem que não se conforma com a falta de talento e personalidade do único filho, Connor (Daniel Craig) e vê em seu protegido Michael Sullivan (Tom Hanks) a esperança de um substituto à sua altura. Sua atitude em relação a ele irá se transformar radicalmente quando Connor mata um empregado suspeito de roubo e o filho mais velho de Sullivan, Mike (Tyler Hoechlin) testemunha o crime às escondidas. Temendo as consequências que a situação pode trazer, o veterano gângster manda exterminar o menino, mas quem acaba morto por engano é seu irmão caçula, em companhia da mãe. Desesperado pela tragédia, Sullivan une-se ao filho em uma viagem na qual pretende vingar a morte de sua família. No caminho, ele acaba se aproximando do garoto, com quem sempre teve uma relação quase fria e precisa protegê-lo de um matador contratado pelos Rooney, o apavorante fotógrafo Harlen Maguire (Jude Law, irreconhecível).
"Estrada para Perdição" funciona lindamente em todos os seus níveis dramáticos. Enquanto filme de gângster é formalmente tradicional, apesar de evitar ferozmente a violência explícita. Como conflito familiar emociona ao aproximar pai e filho de maneira delicada e melancólica (ainda que sua opção por não exagerar no dramalhão o afaste um pouco de um público desacostumado a sutilezas). Visualmente é um espetáculo (cortesia também da direção de arte e do figurino caprichados). A trilha sonora de Thomas Newman é marcante e adequada e o elenco é de aplaudir de pé: Tom Hanks escapa pela primeira vez de sua persona carismática para viver um Michael Sullivan fechado e sorumbático (mesmo que esteja longe de ser um vilão como parte da mídia pintou è época da estreia do filme) e Jude Law mostra que não precisa mostrar seu sorriso luminoso para chamar a atenção. Mas é, acima de tudo, um belíssimo filme que melhora a cada revisão e marca o adeus de um mito absoluto, o grande Paul Newman. Convenhamos, não é pouca coisa!!!
6 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Paul Newman), Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som, Edição de Som
Vencedor do Oscar de Fotografia
Quem achava que o Oscar de direção por "Beleza americana" tinha sido sorte de principiante do inglês Sam Mendes foi obrigado a segurar o queixo com o lançamento de "Estrada para Perdição", seu segundo longa. Enquanto seu filme de estreia analisava com um olhar estrangeiro as entranhas dos subúrbios ianques sua adaptação da HQ de Max Allan Collins investiga a fundo os elementos básicos de outro gênero caro à plateia norte-americana (e a todas aquelas que cultuam o cinema hollywoodiano): os filmes de gângster. Ao lançar um olhar europeu sobre essa história de traição, vingança e violência (vagamente baseada em uma história real ocorrida com o gângster irlandês John Looney nos anos 30), Mendes construiu uma peça rara de ourivesaria visual e dramática, provando que, além de sensibilidade para as mazelas humanas, tem um apuradíssimo senso estético. "Estrada para Perdição" é um dos filmes mais deslumbrantes de seu tempo, e a fotografia do veterano Conrad R. Hall (que morreu logo após as filmagens) não mereceu seu Oscar injustamente.
Não existe nenhum plano ou sequência de "Estrada para Perdição" que não seja claramente planejado para causar um efeito específico na audiência (mesmo que às vezes esse objetivo seja bastante discreto a ponto de não ser percebido em uma primeira sessão) ou reiterar a visão de Mendes do roteiro de David Self (um exemplo disso é a maneira como os closes nos protagonistas vão se tornando frequentes à medida em que a relação entre eles também começa a se estreitar). Esse cuidado extremo do cineasta em encantar pelo visual em detrimento de um ritmo mais ágil e uma violência mais gráfica é, ao mesmo tempo, a qualidade maior de seu filme e seu calcanhar de Aquiles. Aparentemente Mendes nega aos fãs do gênero os tiroteios sangrentos que fizeram a glória de nomes como James Cagney e Paul Muni nos primórdios do cinema (e de banhos de sangue como o hiperbólico "Scarface" de Brian de Palma), porém o que ele faz (com invejável competência) é revestir-lhes com um uma poesia em forma de imagens. E, ao contar mais do que uma simples história de revanche - preferindo focalizar seus trunfos na relação conflitante entre um pai distante e silencioso e um filho pré-adolescente que anseia por uma figura paterna mais acessível e próxima.
A trama de "Estrada para Perdição" se passa em 1931, quando os EUA estão passando pela Grande Depressão causada pela queda da bolsa de valores de 1929. É a época da Lei Seca, onde gente como Al Capone faz fortuna em negócios escusos. Em Illinois, quem manda neste setor é o irlandês John Rooney (Paul Newman em sua última e esplêndida atuação, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante), um homem que não se conforma com a falta de talento e personalidade do único filho, Connor (Daniel Craig) e vê em seu protegido Michael Sullivan (Tom Hanks) a esperança de um substituto à sua altura. Sua atitude em relação a ele irá se transformar radicalmente quando Connor mata um empregado suspeito de roubo e o filho mais velho de Sullivan, Mike (Tyler Hoechlin) testemunha o crime às escondidas. Temendo as consequências que a situação pode trazer, o veterano gângster manda exterminar o menino, mas quem acaba morto por engano é seu irmão caçula, em companhia da mãe. Desesperado pela tragédia, Sullivan une-se ao filho em uma viagem na qual pretende vingar a morte de sua família. No caminho, ele acaba se aproximando do garoto, com quem sempre teve uma relação quase fria e precisa protegê-lo de um matador contratado pelos Rooney, o apavorante fotógrafo Harlen Maguire (Jude Law, irreconhecível).
"Estrada para Perdição" funciona lindamente em todos os seus níveis dramáticos. Enquanto filme de gângster é formalmente tradicional, apesar de evitar ferozmente a violência explícita. Como conflito familiar emociona ao aproximar pai e filho de maneira delicada e melancólica (ainda que sua opção por não exagerar no dramalhão o afaste um pouco de um público desacostumado a sutilezas). Visualmente é um espetáculo (cortesia também da direção de arte e do figurino caprichados). A trilha sonora de Thomas Newman é marcante e adequada e o elenco é de aplaudir de pé: Tom Hanks escapa pela primeira vez de sua persona carismática para viver um Michael Sullivan fechado e sorumbático (mesmo que esteja longe de ser um vilão como parte da mídia pintou è época da estreia do filme) e Jude Law mostra que não precisa mostrar seu sorriso luminoso para chamar a atenção. Mas é, acima de tudo, um belíssimo filme que melhora a cada revisão e marca o adeus de um mito absoluto, o grande Paul Newman. Convenhamos, não é pouca coisa!!!
domingo
A COR DO DINHEIRO
A COR DO DINHEIRO (The color of the money, 1986, Buena Vista Pictures, 119min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Richard Price, romance de Walter Tevis. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Boris Leven/Karen A. O'Hara. Casting: Gretchen Rennell. Produção: Irving Axelrad, Barbara De Fina. Elenco: Paul Newman, Tom Cruise, Mary Elizabeth Mastrantonio, Helen Shaver, John Turturro, Forest Whitaker, Bill Cobbs. Estreia: 08/10/86
4 indicações ao Oscar: Ator (Paul Newman), Atriz Coadjuvante (Mary Elizabeth Mastrantonio), Roteiro Adaptado, Direção de arte
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Paul Newman)
Filmes sobre sinuca - ou bilhar ou qualquer assemelhado - normalmente não são sucessos de bilheteria nem fascinam as plateias que frequentam as salas de cinema. Por isso não é de se estranhar que "A cor do dinheiro", que deu o merecido Oscar de melhor ator a Paul Newman em 1986 não tenha tido uma brilhante carreira comercial, apesar do apelo jovem de um Tom Cruise ainda em sua fase de ídolo adolescente - status que ele começaria a mudar aqui e em "Rain Man" e confirmaria com "Nascido em 4 de julho". No entanto, rotular "A cor do dinheiro" como um filme de sinuca é o mesmo que restringir "Touro indomável" a um filme sobre boxe. Não é à toa que ambos os filmes sejam dirigidos pelo mesmo Martin Scorsese, que, com seu talento indiscutível, sempre conta histórias de homens lutando contra si mesmos.
Na verdade "A cor do dinheiro" é uma espécie de continuação de "Desafio à corrupção", lançado em 1961 e que também tinha como protagonista o mesmo Eddie Felson que Newman revive aqui. No filme de Scorsese, Felson é um jogador aposentado de uma variação de sinuca chamada "Bola 9", que vive da venda de bebidas alcóolicas. Seu passado de glória no esporte volta a lhe assombrar quando ele conhece o jovem Vincent Lauria (Tom Cruise), dono de um talento inegável, mas também de uma arrogância que apenas a inexperiência é capaz de construir. Empolgado com o rapaz, Eddie propõe a ele e sua ambiciosa namorada, Carmen (Mary Elizabeth Mastrantonio) que eles se unam para ganhar muito dinheiro em uma competição em Atlantic City. O trato - Felson entraria com seus meandros e malandragem e Vincent com o talento e a disposição - começa a dar errado quando Vincent passa a não dar ouvidos aos conselhos de seu mentor, julgando-se capaz de vencer sozinho. Logo eles acabam sendo obrigados a jogar um contra o outro.
Conforme dito antes, é característica da obra de Scorsese colocar seus protagonistas diante do pior de seus inimigos: ele mesmo. Em "A cor do dinheiro" ele faz isso duplamente. Eddie Felson precisa lutar contra seu passado, contra o tempo que já não lhe é mais complacente e contra seus próprios princípios. O jovem Vincent necessita aprender a lidar com seu exibicionismo, com a sua efusividade juvenil, com a ambição e a pressa típicas de sua idade. E ambos são forçados também a lutar um contra o outro: como dois espelhos, eles se enxergam no parceiro... e provavelmente não gostam muito do que veem.
Como filme, "A cor do dinheiro" não está no mesmo patamar das obras-primas de Scorsese: tem alguns problemas de ritmo e, deixando de lado a atuação excepcional de Newman, não tem um protagonista carismático e/ou repulsivo como seus melhores trabalhos. No entanto, seduz o espectador com uma imprevisibilidade rara - o roteiro do escritor Richard Price foge dos clichês admiravelmente e ainda tem a ousadia de terminar em aberto - o que, para um filme sem pretensões de tornar-se o primeiro capítulo de uma série é uma temeridade comercial sem tamanho. E é inegável perceber o cuidado do cineasta em filmar cada sequência do esporte da maneira mais empolgante possível - e nessas cenas a edição de sua colaboradora habitual Thelma Schoonmaker é, como sempre, destaque absoluto.
Mas é Paul Newman o dono do filme. Sua interpretação delicada, discreta mas extremamente forte domina cada cena em que ele aparece, dando aulas prestimosas a Cruise, que em seguida tentaria direcionar sua carreira para escolhas de maior prestígio do que "Negócio arriscado" e "A lenda". Mais do que levar um Oscar por respeito a sua carreira sensacional, ele foi premiado pela qualidade altíssima de seu trabalho. Um prêmio absolutamente merecido!
quinta-feira
GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE
GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE (Cat on a hot tin roof, 1958, MGM, 108min) Direção: Richard Brooks. Roteiro: Richard Brooks, James Poe, baseado na peça teatral homônima de Tennessee Williams. Fotografia: William Daniels. Montagem: Ferris Webster. Produção: Lawrence Weingarten. Elenco: Elizabeth Taylor, Paul Newman, Burl Ives, Jack Carson, Judith Anderson, Madeleine Sherwood. Estreia: 18/9/58
6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Brooks), Ator (Paul Newman), Atriz (Elizabeth Taylor), Roteiro Adaptado, Fotografia em cores
Se existe uma característica marcante nos filmes adaptados das peças teatrais de Tenessee Williams ela talvez nem seja inteligência e densidade de seus diálogos, ainda que eles realmente sejam muito especiais. A julgar por "Uma rua chamada pecado", dirigido por Elia Kazan e por este "Gata em teto de zinco quente", comandado por Richard Brooks, o que se sobressai inequivocadamente em seus textos é o alto grau de um elemento que, em sua época - os rígidos anos 50 - era o pesadelo dos censores e do malfadado Código Hayes de Produção: uma sexualidade forte, impactante e que, mesmo reprimida com muito esforço, escapava corajosamente por entre os olhares dos grandes atores que interpretavam suas personagens.
Em "Gata em teto de zinco quente", o sexo é um elemento onipresente, ainda que jamais mostrado de outra forma que não através dos olhares lascivos de Maggie (Elizabeth Taylor), desesperada para retomar a vida sexual ao lado do marido, Brick (Paul Newman), o filho caçula - e preferido - do próspero fazendeiro Big Daddy (Burl Ives), cujo aniversário de 65 anos está sendo comemorado em grande estilo ao lado de toda a família. Maggie tem a seu lado o apoio do sogro, que a tem como filha - ainda que confesse ao filho vê-la também como uma mulher desejável - e espera um neto do casal. Acontece que um bebê é uma impossibilidade, já que, desde a trágica noite do suicídio do melhor amigo de Brick - uma morte intimamente relacionada a suas relações sexualmente próximas - as relações carnais entre o casal foram extintas radicalmente. Entregue à bebida e à auto-comiseração, Brick, que sonhava tornar-se um jogador de futebol, foge do contato físico com a mulher e passa incólume às maquinações de seu irmão mais velho Gooper (Jack Carson), que, contando com a ajuda da esposa Mae (Madeleine Sherwood), sonha ter o controle da herança do pai, que, mesmo sem saber, está com câncer terminal.
Montada na Broadway em 1955 com a direção de Elia Kazan e com Ben Gazarra e Barbara Bel Geddes nos papéis principais, "Gata em teto de zinco quente" transformou-se bastante em sua transição para as telas de cinema, a ponto de seu próprio autor renegar sua adaptação. A mudança radical certamente é a suavização do relacionamento entre Brick e seu melhor amigo: no texto teatral era quase explícito que eles eram, mais do que simples amigos, um casal de amantes que sofria com a aproximação de Maggie. A alteração feita no roteiro do filme enfraquece o conflito, certamente, o que levou até mesmo Paul Newman a ficar aborrecido (ele havia aceito o papel confiando na fidelidade que julgava que a adaptação teria em relação a seu texto original). No entanto, mesmo que o principal drama tenha empalidecido devido a pressões do estúdio e dos moralistas de plantão, não há como negar que o filme de Richard Brooks se sustenta muitíssimo bem com os elementos que apresenta.
Apesar de ser lembrado principalmente pela química impecável entre Paul Newman e Elizabeth Taylor como seu casal central, "Gata em teto..." conta com um elenco coadjuvante notável. Burl Ives (apenas 16 anos mais velho que Newman e um mero ano que Jack Carson, que vive seu filho mais velho) dá um show como o seco mas sentimental Big Daddy, um homem aparentemente centrado em seus negócios mas que, ao sentir a proximidade da morte passa a dar valor ao que realmente conta em sua vida (Ives levaria o Oscar de coadjuvante no mesmo ano deste filme, mas por outro trabalho, em "Da terra nascem os homens"). Judith Anderson (a eterna governanta sisuda de "Rebecca, a mulher inesquecível") brilha sempre que lhe é possível na pele da matriarca da família, uma mulher dedicada à família e leal a seu marido até mesmo nos momentos mais difíceis. E Jack Carson e Madeleine Sherwood roubam as cenas em que aparecem como o ambicioso casal Gooper e Mae, com um excelente timing de comédia.
Aliás, é admirável a forma como o roteiro, escrito pelo diretor e por James Poe, consegue equilibrar suas tramas. A briga pela herança de Big Daddy e o relacionamento em crise de Brick e Maggie se revezam de forma harmoniosa durante os 108 minutos de duração do filme, sem que uma história prejudique a outra ou tire seu brilho. O senso de humor de algumas cenas - em especial graças ao trabalho de Sherwood e Ives, ambos egressos da montagem teatral do texto - conquista pela sutileza e pelo absurdo, fazendo um engraçado contraste com o clima pesado que permeia a maior parte do filme. Brooks e Poe são, inclusive, responsáveis por alguns momentos cruciais da versão cinematográfica: a cena inicial, que mostra o acidente que faz com que Brick quebre o tornozelo e o longo diálogo entre o rapaz e seu pai no porão da velha fazenda - onde eles falam sobre amor, dinheiro e felicidade - são momentos de mais puro cinema de qualidade, onde sentimentos afloram sem censura e sem maniqueísmos.
E qualidade é o que não falta, nem aos diálogos nem aos atores de "Gata em teto de zinco quente". Como Maggie, Elizabeth Taylor está nos seus momentos de maior intensidade sexual - e pensar que ela começou a filmar no dia em que seu marido Michael Todd morreu em um acidente aéreo apenas valoriza seu trabalho. Como Brick, Paul Newman mostra porque sempre foi extremamente respeitado como ator mesmo sento tão bonito - seus olhos azuis fazem um par deslumbrante com os olhos violetas de Taylor e justificam a opção dos produtores em realizar o filme a cores e não no preto-e-branco a que estava destinado. Juntos, Newman e Taylor transmitem uma tensão erótica quase palpável, que transcende o texto: em cena eles são definitivamente um casal em crise e não apenas dois excelentes atores em franca ascensão. Não à toa, ambos foram indicados ao Oscar, e é impossível imaginar uma Maggie tão frágil, intensa e sensual quanto a criada por Liz Taylor, mesmo sabendo que Lana Turner e Grace Kelly foram pensadas para o papel.
"Gata em teto de zinco quente" não tem a força dramática trágica de "Uma rua chamada pecado" e tampouco Richard Brooks é tão talentoso quanto Elia Kazan. Mas é um entretenimento adulto como poucas vezes se vê nas telas. Imaginem se tivesse seguido à risca o forte texto de Tenessee Williams...
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