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quinta-feira

ARTHUR: O MILIONÁRIO SEDUTOR


ARTHUR: O MILIONÁRIO SEDUTOR (Arthur, 1981, Orion Pictures, 97min) Direção e roteiro: Steve Gordon. Fotografia: Fred Schuler. Montagem: Susan E. Morse. Música: Burt Bacharach. Figurino: Jane Greenwood. Direção de Arte/Cenários: Stephen Hendrickson/Carol Joffe, Steven J. Jordan. Produção executiva: Charles H. Joffe. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Dudley Moore, Liza Minelli, John Gielgud, Geraldine Fitzgerald, Jill Eikenberry. Estreia: 17/7/81

4 indicações ao Oscar: Ator (Dudley Moore), Ator Coadjuvante (John Gielgud), Roteiro Original, Canção Original ("Arthur's Theme (Best you can do")

Vencedor do Oscar de Canção Original: "Arthur's Theme (Best you can do)"

Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Dudley Moore), Ator Coadjuvante (John Gielgud), Canção Original ("Arthur's Theme (Best you can do)")

Nem só de dramas lacrimosos e épicos históricos vive a cerimônia do Oscar. Em 1981, mesmo ano em que "Carruagens de fogo" surgiu como o grande vencedor da festa da Academia, contra pesos-pesados como "Num lago dourado", "Reds" e "Caçadores da arca perdida", uma comédia romântica de grande sucesso popular demonstrou um poder de fogo inesperado, arrebatando duas das quatro estatuetas douradas a que estava indicada. "Arthur, o milionário sedutor", único filme escrito e dirigido por Steve Gordon (que morreu precocemente, aos 44 anos, em novembro de 1982) não apenas acabou a temporada como a quarta maior bilheteria do ano (com quase 100 milhões de dólares arrecadados pelo mundo) como conquistou a crítica a ponto de ganhar quatro Golden Globes (incluindo melhor filme e ator em comédia/musical) e chegar ao Oscar com moral suficiente para colocar Dudley Moore na disputa com nomes fortes como Paul Newman, Burt Lancaster e Henry Fonda - que acabou prevalecendo depois de uma carreira longa e vitoriosa. Estrelado ainda por uma Liza Minelli no auge da graça e da popularidade e por um John Gielgud brilhante em sua elegância britânica, "Arthur" se tornou, com o tempo, um incontestável clássico contemporâneo que nem mesmo a refilmagem desnecessária e sofrível estrelada por Russell Brand e Helen Mirren em 2011 conseguiu estragar.

Excêntrico, alcóolatra contumaz, mulherengo e de língua ferina, Arthur Bach não é apenas o personagem-título do longa de Gordon, mas seu centro absoluto - assim como suas relações com o fiel mordomo Hobson (John Gielgud) e a espevitada Linda Marolla (Liza Minnelli). Mas se é impensável imaginar ator mais apropriado do que o impagável Dudley Moore para vivê-lo, é preciso saber que o britânico estava bem longe de ser a primeira escolha do diretor. E nem apenas George Segal foi substituído por ele, como já havia acontecido em "Mulher nota dez" (1979): na lista de possíveis intérpretes para Arthur figuraram Al Pacino, James Caan, John Travolta, John Belushi, Robert Redford, Jeff Bridges, Chevy Chase, Steve Martin, Bill Murray, Jack Nicholson, Sylvester Stallone, Robin Williams, Burt Reynolds e Tom Selleck - um verdadeiro quem é quem na indústria no começo dos anos 1980. O êxito absoluto de Moore no papel não deixa de ser mérito do cineasta, que admitiu depois do lançamento, que suas dúvidas a respeito do ator central não eram as únicas a lhe atormentar: nada menos que quatro finais diferentes foram filmados e somente no processo de edição as coisas finalmente entraram nos eixos - detalhe que não impediu que o roteiro original fosse indicado ao Oscar e de certa forma servisse de influência a todas as comédias românticas que viriam a seguir.


A trama de "Arthur" não é exatamente inovadora - e nem o era à época de seu lançamento: o protagonista é um milionário irresponsável mas de bom coração que passa seus dias (ou melhor, noites) bebendo e dando em cima de toda bela mulher que passa em seu caminho. Seu fiel escudeiro, o mordomo Hobson, está sempre à espreita, consertando seus erros e tentando amenizar as consequências de seus atos tresloucados causados pelo excesso de bebida. Por trás da existência errática de Arthur, no entanto, existe um grande problema: a pressão para que se case com outra milionária, a deslumbrada Susan Johnson (Jill Eikenberry), única condição para que não tenha todo o seu dinheiro bloqueado por seu pai e sua avó. Pouco tempo antes de tomar a decisão mais importante de sua vida, porém, Arthur esbarra em Linda Marolla (Liza Minnelli), uma garçonete espevitada e de bem com a vida, que mora com o pai, Ralph (Barney Martin), e lhe mostra uma existência mais leve e distante do luxo a que está acostumado. Apaixonado por ela, o milionário precisa decidir entre o dinheiro e o amor - e descobrirá que a decisão não é tão fácil quanto poderia parecer.

"Arthur" é uma comédia deliciosa, que faz rir de forma orgânica e conquista pela simpatia dos atores principais - uma química preciosa que por pouco não aconteceu. Além da dificuldade de escalar um ator apropriado para viver o protagonista masculino, a produção também sofreu para encontrar uma atriz capaz de dividir a cena com Dudley Moore de forma a não ser eclipsada. Antes que Liza Minnelli entrasse no jogo, Carrie Fisher e Debra Winger já haviam recusado o papel, e na lista de possíveis intérpretes para a carismática Linda Marolla constavam Mia Farrow, Goldie Hawn, Farrah Fawcett, Barbara Hershey, Diane Keaton, Jessica Lange, Bette Midler, Susan Sarandon, Cybill Sheperd e Meryl Streep. A entrada de Minnelli no projeto se aproveitava do sucesso pós-Oscar por "Cabaret" (1977), mas é impossível não perceber que, apesar de seu talento incontestável, sua personagem é pouco desenvolvida, praticamente vivendo em função de seu relacionamento com Arthur. Quando juntos, ela e Dudley Moore brilham cintilantes - mas é uma pena a trama muitas vezes se desloque para as desventuras familiares do ricaço, em detrimento de seu nascente e divertido romance. Isso não impede, no entanto, que o filme de Steve Gordon seja um passatempo dos mais agradáveis e felizes de sua época

segunda-feira

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 1974, Paramount Pictures, 128min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Paul Dehn, romance de Agatha Christie. Fotografia: Geoffrey Unsworth. Montagem: Anne V. Coates. Música: Richard Rodney Bennett. Figurino: Tony Walton. Direção de arte/cenários: Tony Walton/Jack Stephens. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Albert Finney, Lauren Bacall, Martin Balsam, Ingrid Bergman, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Jean-Pierre Cassel, John Gielgud, Wendy Hiller, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Rachel Roberts, Richard Widmark, Michael York. Estreia: 21/11/74

 6 indicações ao Oscar: Ator (Albert Finney), Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Trilha Sonora Original (Drama)
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman)

Não é sem motivos que a inglesa Agatha Christie é considerada a "rainha do crime": a autora policial mais lida e vendida de todos os tempos tem em seu currículo no mínimo uma meia-dúzia de obras-primas, que sobrevivem ao tempo como perfeitos exemplos de tramas bem construídas, personagens psicologicamente críveis e resoluções intrincadas e criativas. De todas as suas histórias, é bastante provável que a melhor e mais genial seja a criada para "Assassinato no Expresso Oriente", lançado em 1934 e ainda hoje capaz de surpreender até mesmo ao mais atento e experiente leitor. Quarenta anos depois de chegar às prateleiras das livrarias, sob a direção do elogiado Sidney Lumet - já então com uma indicação ao Oscar, por "12 homens e uma sentença" (57) - e com um elenco internacional  liderado por Albert Finney na pele do indefectível detetive belga Hercule Poirot, a história de um brutal assassinato cometido em um dos meios de transporte mais famosos do mundo alcançou também as telas de cinema... e agradou não apenas a crítica e a Academia de Hollywood (que lhe deu seis indicações ao Oscar e uma estatueta), mas também à mais impiedosa espectadora: a própria autora do romance.

Feliz com a interpretação de Albert Finney (então com apenas 37 anos de idade e se utilizando de uma pesada maquiagem para personificar um dos detetives mais famosos da literatura policial), Agatha Christie não poupou elogios ao filme, que estreou pouco mais de um ano antes de sua morte, em janeiro de 1976. Mesmo que tenha ficado bastante satisfeita com a adaptação de Billy Wilder para sua peça teatral "Testemunha de acusação", em 1957, a escritora não escondia de ninguém que considerava o filme de Lumet o mais fiel à sua obra até então - um elogio e tanto que reflete o cuidado da produção em recriar não apenas a ambientação charmosa e realista do cenário principal mas também o clima de suspense que perpassa todas as páginas do livro. Ainda que o roteiro indicado ao Oscar não consiga evitar a armadilha comum de atropelar os acontecimentos e apressar o desfecho - tudo soa muito rápido, ao contrário do livro, que dá tempo ao leitor de administrar cada pista e evidência que vai sendo oferecida - é inegável que a elegância que Lumet imprime à narrativa torna o espetáculo um entretenimento de primeira, avalizado por um elenco estelar que se dá ao luxo de ter como coadjuvantes nomes como Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, John Gielgud e Ingrid Bergman (que acabou faturando um inesperado Oscar da categoria, batendo a então favorita Valentina Cortese, do aclamado "A noite americana", de François Truffaut).


Enquanto o romance de Agatha Christie já começa em plena ação, com a chegada dos passageiros ao trem que dá nome à história - partindo de Istambul, na Turquia - o filme de Lumet já ilumina, sutilmente, através de uma introdução silenciosa nos créditos de abertura, os atos que levarão, alguns anos mais tarde, ao crime que impulsiona a narrativa. Se de certa forma tal opção tira parte do suspense (por que mataram esse desconhecido dentro do trem?), ela ajuda de forma inteligente a expor, sem longos e didáticos discursos, o motivo do homicídio. A partir daí, resta apresentar a fauna de personagens exóticos criados por Christie e interpretados por atores de primeira linha - em uma constelação tão fascinante que disfarça até mesmo o pouco espaço dado a cada um deles em cena. Finney é quem tem mais sorte, com um Hercule Poirot um tanto caricato mas perfeitamente adequado às caracterizações comandadas por Lumet. Indicado ao Oscar de melhor ator, ele perdeu a estatueta para Art Carney ("Harry, o amigo de Tonto"), mas é o maestro de uma orquestra impecável, conduzida sem sobressaltos e/ou maiores destaques justamente por sua natureza coletiva.

A trama se passa em dezembro de 1935, durante uma viagem estranhamente lotada no Expresso Oriente: em uma parada devido a uma nevasca, um dos passageiros é assassinado com uma série de punhaladas, enquanto dormia. Assumindo a investigação antes que o trem prossiga seu curso, o famoso e excêntrico Hercule Poirot logo descobre que a vítima, de nome Ratchett (Richard Widmark), na verdade se escondia sob falsa identidade, por ser o responsável pelo sequestro e assassinato de uma criança alguns anos antes - fato que acarretou uma série de outras tragédias na família e tornou-se manchete internacional. Certo de que sua morte é resultado do crime cometido no passado, Poirot tenta encontrar, dentre seus companheiros de viagem, quem poderia ter ligações com o caso - e se depara com inúmeras surpresas, que o levam a questionar sua própria noção de justiça. Por mais inocentes que pareçam, todos os passageiros são suspeitos, desde a idosa Princesa Dragomiroff (Wendy Hiller) até a religiosa Greta (Ingrid Bergman) - passando pela bela Condessa Andrenyi (Jacqueline Bissett) e seu marido (Michael York) e o respeitável Coronel Arbuthnot (Sean Connery), que esconde uma ligação com a jovem Mary Debenham (Vanessa Redgrave).

Valorizado principalmente pelo elenco e pela produção caprichada, "Assassinato no Expresso Oriente" não chega aos pés do livro que o originou - uma obra-prima policial cujo desenvolvimento prende o leitor até a página final com uma sucessão de reviravoltas inteligentes e verossímeis. Porém, é, ao mesmo tempo, uma adaptação que se mantém fiel a seu espírito elegante e sutil, que ameniza a violência física necessária a uma história do gênero com toques de um fino humor e a destreza de uma especialista em surpreender e cativar seu público. Se não é mais empolgante é justamente porque o roteiro lhe tirou algumas das maiores qualidades - o desenrolar gradual da investigação é apressado até o discurso final que não chega a ser tão emocionante quanto poderia - e não explora com a devida força as incoerências e mistérios dos personagens. É uma boa adaptação, mas longe de ser a obra-prima que poderia (e deveria) ser.

sexta-feira

O HOMEM ELEFANTE

O HOMEM ELEFANTE (The elephant man, 1980, Brooksfilms, 124min) Direção: David Lynch. Roteiro: Christopher De Vore, Eric Bergren, David Lynch, livros "The elephant man and other reminiscences", de Frederick Treves e "The elephant man: a study in human dignity", de Ashley Montagu. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Anne V. Coates. Música: John Morris. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Bob Cartwright. Produção executiva: Stuart Cornfeld. Produção: Jonathan Sanger. Elenco: John Hurt, Anthony Hopkins, Anne Bancroft, John Gielgud, Wendy Hiller, Freddie Jones, Hannah Gordon. Estreia: 03/10/80

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Lynch), Ator (John Hurt), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Quem conhece os trabalhos mais célebres de Mel Brooks - como as amalucadas comédias "O jovem Frankenstein" (74) e "Banzé no Oeste" (74) - talvez fique estarrecido ao final de uma sessão de "O homem elefante". O humor característico do diretor inexiste completamente na recriação cinematográfica da história de Joseph Carey Merrick, jovem inglês que, devido a deformidades de nascença, foi tratado como aberração de circo na Londres do século XIX, até ser resgatado do sofrimento por um médico interessado em sua doença. Ao produzir o segundo filme do diretor David Lynch - depois do cultuado mas pouco visto "Eraserhead" (77) - Brooks chegou a tirar seus nomes dos créditos, temeroso de que o público julgasse que a trama seguisse seu estilo cômico. O resultado é um fenomenal e arrebatador drama de época capaz de emocionar sem, no entanto, apelar para o sentimentalismo barato.

Filmado em deslumbrante preto-e-branco pelo veterano Freddie Francis - retornando ao cinema depois de 16 anos afastado - "O homem elefante" tem seu roteiro inspirado principalmente nas memórias do Dr. Frederick Treves (um Anthony Hopkins uma década antes do triunfo de "O silêncio dos inocentes"), o responsável por tirar Merrick de um destino cruel como atração de um show de aberrações e levá-lo para um hospital público de Londres dirigido pelo rígido mas sensível  Dr. Carr Gomm (John Gielgud). Apesar disso - e de também ter contado com outros escritos a respeito do protagonista - o script não se furta a fazer alterações na história real, para fins dramáticos. Isso não diminui, no entanto, sua força excepcional como arte cinematográfica, que mostra o talento que David Lynch amadureceria posteriormente a ponto de ganhar uma Palma de Ouro em Cannes por "Coração selvagem", em 1990. Trabalhando pela primeira vez em um filme com pretensões comerciais (apesar do tema e do enfoque), Lynch viu sua obra concorrer merecidamente a oito Oscar. Infelizmente, a Academia preferiu a versão suburbana do drama familiar de "Gente como a gente", de Robert Redford - e se for levado em consideração que outro concorrente na principal categoria era "Touro indomável", de Martin Scorsese, percebe-se que erros no resultado final do Oscar não são novidade.


Trabalhando debaixo de uma maquiagem pesadíssima que demandava de sete a horas para aplicar - e que causou polêmica por não ter sido indicada ao Oscar, que ainda não tinha uma categoria fixa para a categoria - o ator John Hurt fez de seu desafio uma grande chance para brilhar. Como uma espécie de monstro de Frankenstein - um ser que esconde um enorme coração sob um visual aterrorizante - seu John Merrick (o nome real já estava modificado nos escritos do dr. Trevers) conquista o espectador sem fazer esforços, vítima que é de constantes crueldades, seja de seu "dono" Bytes (Freddie Jones), do público que paga para testemunhar suas deformidades ou do funcionário canalha do hospital (Michael Elphick) que faz excursões da boemia londrina a seu quarto com o objetivo de ganhar trocados (e de quebra humilhá-lo). O que mais emociona o público, porém, não é tanto seu sofrimento, mas sim seus momentos de felicidade. É difícil conter as lágrimas, por exemplo, na cena em que Merrick acompanha a atriz (Anne Bancroft) em um trecho de "Romeu e Julieta" ou quando ele encontra a esposa de Trevers pela primeira vez - "Desculpe, mas eu não estou acostumado com tanta gentileza vinda de mulheres tão bonitas." Também é arrepiante a sequência que mostra o primeiro encontro entre Merrick e seu futuro médico (e amigo): a lágrima solitária de Anthony Hopkins ao encarar algo jamais visto em sua profissão diz mais do que páginas e páginas de diálogos.

"O homem elefante" é uma pequena obra-prima. Visualmente deslumbrante, interpretada com sentimento e dirigida com inteligência, a história de John Merrick (ou Joseph, se for considerado seu real nome) é daquelas de apertar o coração e ficar na memória por um bom tempo. Mais do que isso, Lynch apresenta em seu trabalho um otimismo inesperado, mostrando como a bondade de poucas pessoas pode representar muito mais na vida de alguém do que a maldade de várias. A delicadeza ímpar de suas sequências finais comprova a afirmação, transformando o que poderia ser um desfecho catártico em uma poesia visual e delicada. Para quem duvida que Lynch é mais do que um cineasta esquisito, nada melhor do que "O homem elefante" para comprovar o contrário.

segunda-feira

RETRATO DE UMA MULHER

RETRATO DE UMA MULHER (The portrait of a lady, 1996, PolyGram Filmed Entertainment, 144min) Direção: Jane Campion. Roteiro: Laura Jones, romance de Henry James. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Veronika Jenet. Música: Wojcieh Kilar. Figurino: Janet Patterson. Direção de arte/cenários: Janet Patterson. Produção: Steve Golin, Monty Montgomery. Elenco: Nicole Kidman, John Malkovich, Barbara Hershey, Martin Donovan, Christian Bale, Viggo Mortensen, John Gielgud, Shelley Winters, Shelley Duvall. Estreia: 28/8/96

Duas indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Barbara Hershey), Figurino

Por mais fãs que tenha, entre o público e a crítica, é impossível negar que a filmografia de Jane Campion tem uma séria tendência à chatice. Até mesmo "O piano", seu filme mais famoso - e tido como sua obra-prima - não consegue escapar de um ritmo claudicante que convencionou-se chamar de sensibilidade feminina. Sua obra seguinte à louvada história da pianista muda interpretada brilhantemente por Holly Hunter sofre do mesmo problema. Adaptado do clássico romance de Henry James, "Retrato de uma mulher" é um filme sofisticado, delicado e denso, mas, apesar de melhorar consideravelmente em seu terço final, castiga o espectador com uma história excessivamente lenta, que demora a engrenar - e é plenamente compreensível que esse mesmo espectador desista da trama depois de não ver nada de excitante acontecendo em mais de uma hora de projeção.

Nicole Kidman, já em seu caminho para tornar-se uma das atrizes mais respeitadas de Hollywood - com um Golden Globe de atriz por "Um sonho sem limites" debaixo do braço - empresta sua beleza frágil e etérea para viver Isabel Archer, uma americana de 23 anos de idade que, no final do século XIX, empreende uma viagem à Europa com a intenção de se autodescobrir. Moderna diante das rígidas normas que regiam a sociedade da época - não vê no casamento, por exemplo, um objetivo de vida - ela não percebe o amor que desperta em seu primo, Ralph Touchett (Martin Donovan, queridinho do diretor independente Hal Hartley) e refusa veementemente as investidas de uma antiga paixão, o também americano Caspar Goodwood (Viggo Mortensen). Depois de herdar uma fortuna de um tio, ela acaba tornando-se alvo do interesse do misterioso Gilbert Osmond (John Malkovich), um colecionador de arte que ela conhece através da aparentemente amável Madame Merle (Barbara Hershey, que ficou com o papel que seria de Susan Sarandon e foi indicada ao Oscar por seu desempenho). Sua relação com ele acaba forçando-a a entrar em um jogo de interesses com o qual ela não está preparada para lidar.


A delicadeza de Kidman como Archer é, paradoxalmente, uma das forças-motrizes do filme de Campion. Especialmente na reta final, quando a protagonista começa a perceber as entranhas maldosas da armação de Merle e Osmond, a então esposa de Tom Cruise está sensacional, contrastando com a quase frieza com que lida com a primeira metade do filme, quando sua personagem se divide entre as normas sociais de seu período e o desejo sexual que a impele a sonhar acordada com seus pretendentes - em sequências não particularmente interessantes, mas dirigidas com criatividade, assim como a bela cena em que Osmond se declara apaixonado por Isabel. Aliás, pode-se reclamar da falta de agilidade de Campion como diretora, mas jamais de sua capacidade em criar cenas esteticamente impactantes, para o que colabora a impecável e detalhista reconstituição de época e a fotografia bem cuidada de Stuart Dryburgh.

E o elenco coadjuvante de "Retrato de uma mulher" também merece elogios rasgados. Se Kidman e Hershey chamam a atenção sempre que estão em cena, com interpretações distintas mas igualmente impressionantes, o equilíbrio entre veteranos e jovens talentos atingido por Campion é notável. John Gielgud e Shelley Winters representam o primeiro grupo - como os tios de Isabel Archer - o segundo time conta com Martin Donovan em uma atuação sensível e arrebatadora e o ótimo Christian Bale como o pretendente da filha de Osmond, outra vítima inocente da ambição de Madame Merle. Cada um à sua maneira, os atores são a principal razão para se assistir ao filme, uma adaptação fiel e sofisticada de uma obra das mais importantes da literatura inglesa.

domingo

GANDHI


GANDHI (Gandhi, 1982, Columbia Pictures, 191min) Direção: Richard Attenborough. Roteiro: John Briley. Fotografia: Ronnie Taylor, Billy Williams. Montagem: John Bloom; Música: Ravi Shankar. Figurino: Bhanu Athaiya, John Mollo. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Michael Seirton. Casting: Susie Figgis. Produção executiva: Michael Stanley-Evans. Produção: Richard Attenborough. Elenco: Ben Kingsley, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen, Nigel Hawthorne. Estreia: 08/12/82

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Attenborough), Ator (Ben Kingsley), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte, Maquiagem, Som
Vencedor de 8 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Attenborough), Ator (Ben Kingsley), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de arte
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme Estrangeiro, Ator/Drama (Ben Kingsley), Diretor (Richard Attenborough), Roteiro, Melhor Estreia Masculina (Ben Kingsley)


Mahatma ("Grande Espírito") Gandhi foi uma das personaliades mais fascinantes do mundo, um advogado inteligente e sensível que, baseado em sua filosofia de não-violência liderou a batalha pela independência da Índia das mãos do império britânico. Assassinado em 1948, tornou-se símbolo da luta pela paz e pela igualdade. E é a personagem principal da cinebiografia que, dirigida por Richard Attenborough, foi um dos maiores papa-Oscar da década de 80. Disputando o prêmio máximo com obras como "ET", de Steven Spielberg e "Tootsie", de Sydney Pollack (ambos grandes sucessos de bilheteria), "Gandhi" levou a a estatueta de Melhor Filme e foi premiado em outras sete categorias. Prova tanto do poder de seu gênero - cinebiografias épicas - em fascinar a Academia quanto da beleza e da importância de sua história.

Projeto de estimação do diretor inglês Attenborough (que dez anos mais tarde comandaria o menos bem-sucedido "Chaplin"), a biografia do pacifisita indiano não despertou muito interesse dos estúdios hollywoodianos, o que o obrigou a recorrer a artifícios variados, como vender sua parte dos direitos sobre a peça de teatro "A ratoeira", de Agatha Christie. Além de comprometer-se em dirigir outros dois filmes para o produtor Joseph E. Levine, ele contou com a ajuda do amigo e produtor executivo Jake Eberts e de companhias de cinema inglesas. O custo do filme, de 22 milhões de dólares foi coberto - principalmente depois dos Oscar, quando sua bilheteria chegou perto de 53 milhões. Comparando com "ET", por exemplo, que rendeu mais de 300 milhões não chega a ser uma marca impressionante, mas o é levando-se em consideração vários aspectos de sua natureza.



Primeiro, "Gandhi" não é um filme de puro entretenimento. Apesar de ser tranquilamente recomendável para qualquer idade, uma vez que não abusa de violência desnecessária nem tampouco utiliza de sexo e palavrões para conquistar uma audiência menos intelectualizada, o filme de Attenborough é bastante lento (dura mais de três horas), tem um assunto um bocado específico (e muitas vezes exige um certo conhecimento histórico do público) e foge do tradicional "final edificante e moralizador", uma vez que o filme todo passa uma mensagem de paz e tolerância. "Gandhi" é um filme adulto, feito para adultos e com intenções bem mais nobres do que simplesmente angariar fortunas. E nesse objetivo ele acerta magistralmente.

Tecnicamente "Gandhi" é uma maravilha. Belissimamente fotografado e com uma reconstituição histórica e épica impecáveis, é um trabalho cuidadoso, feito notadamente com um carinho e uma dedicação raras. Narrado de forma quase didática, a trajetória de seu protagonista em direção a uma Índia mais igualitária e menos opressiva tenta seduzir sua audiência pela beleza, pela delicadeza, pela sinceridade, e para isso conta com uma atuação irretocável de Ben Kingsley, ele próprio descendente de indianos. Ao ficar com o papel cobiçado por Alec Guinness, Anthony Hopkins, John Hurt e até mesmo Dustin Hoffman (!!) ele entregou uma interpretação quase mediúnica de Gandhi, um trabalho inesquecível e comovente.

"Gandhi" não é um filme perfeito. Muitas vezes um tanto cansativo - culpa talvez do roteiro que insiste em mostrar prisões e greves de fome de sua personagem central repetidas vezes -, é uma obra que exige de sua plateia uma dedicação e uma entrega maiores do que o que acontece normalmente. Mas é, sem sombra de dúvida, um filme que precisa ser visto e aplaudido, pelo que ele é e principalmente pela personalidade que retrata.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...