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quinta-feira

BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA


BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA (Boy erased, 2018, Focus Features/Anonymous Content/Perfect World Pictures, 115min) Direção: Joel Edgerton. Roteiro: Joel Edgerton, livro de Garrard Conley. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Danny Bensi, Saunder Jurriaans. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Chad Keith/Mallorie Coleman, Adam Willis. Produção executiva: Nash Edgerton, Kim Hodgert, Tony Lipp, Ann Ruark, Rebecca Yeldham. Produção: Joel Edgerton, Steve Golin, Kerry Kohansky-Roberts. Elenco: Lucas Hedges, Nicole Kidman, Russell Crowe, Joel Edgerton, Xavier Dolan, Madelyn Cline, Victor McKay, Flea, Cherry Jones. Estreia: 01/9/2018 (Festival de Telluride)

Em 2016, quando o livro "Boy erased" foi lançado, boa parte dos EUA ainda considerava legais as terapias de conversão sexual - conhecidas vulgarmente como "cura gay". Sem qualquer fundamento psicológico ou médico, setores ligados principalmente à religião praticamente torturavam jovens com pensamentos homossexuais (muitas vezes nem era necessário que tivessem passado à prática) com sessões de humilhação, rígidas regras de comportamento e tormento psicológico. Em seu livro de memórias, Garrard Conley narrava, mesmo que de forma quase poética, os tormentos pelos quais passou em seu período em um desses tratamentos. De seus escritos (pessoais e emotivos) nasceu um filme sensível e sóbrio, assinado por um ator/roteirista/diretor que promete grandes voos futuros e estrelado por um elenco nunca aquém de excepcional: apesar do fracasso comercial e de não ter chamado tanta atenção quanto se poderia esperar nas cerimônias de premiação, "Boy erased: uma verdade anulada" é uma pérola, um filme que já nasceu destinado a suscitar discussões e se tornar cult - além de ser um instrumento essencial na luta contra os abusos do conservadorismo criminoso que vem se alastrando perigosamente pelo Ocidente.

Dirigido pelo ator Joel Edgerton, que também escreveu o roteiro - depois que o próprio Conley declinou da oportunidade - e assumiu um dos papéis mais importantes da trama, "Boy erased" é um filme de emoções contidas, que raramente apela para o melodrama fácil. Graças à atuação discreta e introspectiva de Lucas Hedges (que vem se mostrando um dos melhores atores de sua geração) e ao tom suave imposto pela edição que não abusa dos flashbacks (mas os usa de forma eficiente), a produção escapa de ser apenas mais um filme-denúncia e se destaca como uma história de amor, respeito e tolerância - mesmo que, para que isso seja alcançado, tenha-se que se passar por pesadelos inimagináveis. Mesmo que não poupe o espectador de um constante desconforto (em especial quando mostra as sessões da malfadada busca pela "cura"), Edgerton evita pesar a mão em excesso: a fotografia de Eduard Grau (que cuidou do belo visual de "Direito de amar", de 2009) é luminosa em boa parte da narrativa (em contraste com o tema sombrio) e a trilha sonora (jamais invasiva) sublinha a ação de forma delicada, quase como um oásis diante da aridez do tema. E se por vezes o roteiro pode soar um tanto superficial (especialmente no desenho de alguns personagens), a falha é compensada pelo empenho de cada um dos atores selecionados pelo diretor (ele próprio incluído).

Lucas Hedges - já indicado ao Oscar de coadjuvante por "Manchester à beira-mar", de 2006 - encontra o tom ideal para seu Jared Eamons, um adolescente de 18 anos, filho de um pastor batista, aluno dedicado e responsável, que se vê obrigado pelos pais a participar do tal programa de "reabilitação", comandado pelo prepotente Victor Sykes (Joel Edgerton em pessoa, em uma caracterização precisa, que se equilibra com exatidão no limite do desprezível). Enquanto testemunha atrocidades no período em que fica isolado de qualquer contato com seu mundo anterior (como celulares, diários e afins), Jared é obrigado a revisitar seu passado e confrontar sua conflituosa sexualidade (oprimida pelos preceitos familiares, pela religião e pela culpa). A única pessoa que lhe dá apoio durante o processo - e mesmo assim sem saber exatamente como agir, dividida entre o amor pelo filho, a fé em Deus e o respeito pelas crenças do marido - é sua mãe, Nancy (Nicole Kidman, brilhante), que tenta servir como porto seguro às turbulências do rapaz. Kidman é dona de alguns dos melhores momentos do filme - como o clímax, inexistente no livro mas eficaz como cinema - e divide com Russell Crowe a difícil missão de oferecer consistência a personagens que poderiam ter sido melhor desenvolvidos pelo roteiro: Marshall e Nancy Eamons surgem apenas como os pais repressores (ainda que amorosos), sem maiores nuances dramáticas ou camadas extras. O mesmo acontece com Sykes, o teatral líder da clínica Love in Action, cujo desfecho - revelado apenas nos letreiros finais - é a irônica pá de cal nas ideias absurdas que servem de base à todo o conceito de reorientação sexual.

Prestes a ser lançado no Brasil no final de janeiro de 2019, "Boy erased" acabou tendo sua estreia cancelada - a distribuidora alegou como motivos para tal decisão o fraco desempenho do filme nas bilheterias internacionais e a falta das esperadas indicações ao Oscar, mas ficou no ar o cheiro de censura que chegava com o novo governo (para dizer o mínimo) conservador. Tal situação não deixa de ser uma demonstração clara da importância do filme, com suas discussões e seu tema se tornando cada vez mais urgentes e fundamentais. Pode não ser uma obra-prima, mas serve como base para longos e sérios debates - e, como cinema, confirma Joel Edgerton (cuja estreia como diretor, o suspense "O presente", de 2015, já tinha indiscutíveis qualidades) como um cineasta promissor e relevante, capaz de surpreender em um futuro próximo.

DOIS CARAS LEGAIS

DOIS CARAS LEGAIS (The nice guys, 2016, Warner Bros, 116min) Direção: Shane Black. Roteiro: Shane Black, Anthony Bagarozzi. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Joel Negron. Música: David Buckley, John Ottman. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Richard Bridgland/Danielle Berman, Tommy Wilson. Produção executiva: Anthony Bagarozzi, Peter Hampden, Ken Kao, Michael J. Malone, Norman Merry, Hal Sadoff, Alex Walton. Produção: Joel Silver. Elenco: Russell Crowe, Ryan Gosling, Kim Basinger, Matt Bomer, Lois Smith, Angourie Rice, Margaret Qualley, Yaya DaCosta. Estreia: 15/5/16 (Festival de Cannes)

A brincadeira já começava no trailer, com imagens que lembravam os filmes da década de 70 (período em que se passa o filme), utilizava o logo da Warner da época e mostrava Kim Basinger sob o anúncio de "apresentando". Mas era apenas uma pequena amostra do que estava por vir. "Dois caras legais" é diversão pura, uma comédia de ação que não se leva a sério, apresenta dois protagonistas completamente atípicos e subverte os clichês do gênero policial a cada cena. Coescrito e dirigido por Shane Black - o responsável por "Máquina mortífera" e o padrão de filmes policiais hollywoodianos a partir dos anos 80 - e estrelado por Russell Crowe e Ryan Gosling em dias inspirados (e com um timing cômico impecável), o filme pode não ter tido a repercussão que merecia - rendeu pouco mais de 60 milhões de dólares em todo o mundo - mas serve para confirmar a teoria de que um bom roteiro e um bom elenco são muito mais eficazes para a produção de um bom filme do que efeitos digitais e super-heróis cada vez menos surpreendentes.

Inicialmente pensado como piloto de uma série de televisão, "Dois caras legais" transformou-se em roteiro para o cinema quando Black percebeu que as possibilidades de ganhar uma temporada seriam quase nulas. Foi um mal que aconteceu para o bem: no conciso tempo de pouco menos de duas horas, a história (repleta de reviravoltas e personagens dúbios) ganha corpo, interesse e serve como uma luva para divertir a plateia sem recorrer a piadas forçadas ou cenas de ação hipertrofiadas. Dosando em igual quantidade humor e ação, o diretor consegue um equilíbrio admirável e de certa forma volta às origens, depois de ter comandado uma superprodução ("Homem de ferro 3", de 2013) controlada com rédeas curtas pela Marvel. Em seu novo filme, ele parece respirar aliviado sem tanta pressão, e tal leveza se reflete no tom debochado (ainda que carinhoso) do resultado final. Com diálogos brilhantes, uma reconstituição de época caprichada e um elenco afiadíssimo, "Dois caras legais" é um dos filmes mais subestimados de sua temporada - e um programão para quem procura entretenimento puro e simples.


Os dois caras legais do título são Jackson Healy (Russell Crowe) e Holland March (Ryan Gosling), detetives particulares da Los Angeles de 1977 que tem seus caminhos cruzados quando se veem investigando o mesmo caso. March é viúvo e vive com a filha pré-adolescente, Holly (a ótima Angourie Rice), enquanto curte a depressão se afogando em álcool e aceitando trabalhos para localizar pessoas desaparecidas; Healy é solteiro e resolve a maioria de seus casos utilizando-se de métodos violentos e pouco ortodoxos. Um dia, March é contratado por uma senhora idosa, Mrs. Glenn (Lois Smith), para encontrar sua sobrinha, uma atriz pornô que todos acreditam ter morrido em um acidente de carro - mas que ela insiste ter visto, bem viva, alguns dias depois do desastre. Em sua busca, o rapaz esbarra com o nome de Amelia Kuttner (Margaret Qualley), uma jovem que parece estar muito mais envolvida no caso do que parece - e que também está sendo procurada por Healy. É nesse ponto que a mãe da garota, Judith (Kim Basinger), chefe do Departamento de Estado, entra em cena, contratando os dois para impedir que sua filha seja prejudicada por um filme "alternativo" que fez com alguns amigos.

A mistura de comédia e filme policial engendrada por Shane Black ainda recebe a ajuda de ingredientes inusitados, como os bastidores da indústria de filmes pornográficos, criminosos excêntricos, tiroteios em locais públicos e muito, muito bom humor. Mesmo que a história por vezes soe confusa, o roteiro é tão recheado de boas piadas e bons personagens que fica difícil reclamar. Russell Crowe e Ryan Gosling estão absolutamente à vontade em cena, em uma parceria que implora por um segundo capítulo - e a jovem Angourie Rice quase rouba o filme na pele da precoce filha de Gosling, que assume papel fundamental no desfecho da trama. Engraçado, leve e despretensioso, "Dois caras legais" é uma das mais gratas surpresas da temporada 2016 - e uma lembrança do quanto Russell Crowe faz falta no cinemão americano.

segunda-feira

INTRIGAS DE ESTADO

INTRIGAS DE ESTADO (State of play, 2009, Universal Pictures/Working Title Films, 127min) Direção: Kevin MacDonald. Roteiro: Matthew Michael Carnahan, Tony Gilroy, Billy Ray, série de televisão de Paul Abbott. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Justine Wright. Música: Alex Heffes. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Cheryl Carasik. Produção executiva: Paul Abbott, Liza Chasin, Debra Hayward, E. Benneth Walsh. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Andrew Hauptman. Elenco: Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Robin Wright, Jason Bateman, Jeff Daniels, Viola Davis, David Harbour. Estreia: 17/4/09

Na falta de bons roteiros originais, ou ao menos na falta de coragem de investir em ideias novas, Hollywood constantemente volta sua atenção para materiais já previamente testados, seja em livros, histórias em quadrinhos ou até mesmo em clássicos queridos pelo público. Nessa ânsia por encontrar boas histórias, nem ao menos programas de televisão são poupados. Um exemplo dessa afirmação é "Intrigas de estado", uma produção de primeira linha, com atores famosos e consagrados, um estúdio tradicional (Universal Pictures) e um diretor promissor que tem origem em uma série da BBC inglesa, levada ao ar em 2003. Com uma sutil mudança em um crucial detalhe da trama - substituiu-se uma companhia de petróleo por uma agência militar - e a tentativa de condensar seis episódios em palatáveis duas horas de duração, o filme de Kevin MacDonald (de "O último rei da Escócia", que deu o Oscar de melhor ator a Forest Whitaker em 2007), o filme acabou por passar quase em branco nos EUA e não conquistar nem mesmo a boa vontade da crítica, apesar de contar com um elenco de primeira e com um tema bastante inflamável em um país ainda em estado de nervos com os constantes conflitos no Oriente Médio.

Aliás, o escocês Kevin MacDonald nem foi a primeira escolha do estúdio para comandar "Intrigas de estado", cuja pré-produção foi uma verdadeira dança das cadeiras. O primeiro nome cotado para a direção foi o de Edward Zwick, que nem chegou a manter-se por muito tempo no cargo. Antes de MacDonald finalmente assinar com o estúdio, nomes tão díspares quanto Ang Lee, Richard Linklater, Jim Jarmusch e Brian DePalma foram sondados - e, obviamente, cada um deles certamente daria um enfoque e um estilo diferentes ao roteiro. Com um cineasta como MacDonald (competente mas sem a força suficiente para chamar público por si só) à frente do projeto, apenas um elenco de peso poderia equilibrar as coisas - e nesse ponto nenhum produtor estava disposto a brincadeiras. A princípio o filme reuniria Brad Pitt e Edward Norton quase dez anos depois de seu cultuado "Clube da luta" (1999), o que imediatamente acendeu o interesse de todo mundo. Porém, uma greve de roteiristas tirou Pitt do filme (o ator queria que partes do roteiro fossem reescritas) e o atraso acabou por também afastar Norton. Ben Affleck imediatamente embarcou em seu lugar, mas antes que Russell Crowe assumisse o lugar de Brad, outros astros foram cogitados para o papel - mais precisamente Nicolas Cage, Johnny Depp e Tom Hanks. Com Robin Wright (ainda Penn) e Rachel McAdams nos principais papéis femininos e Helen Mirren substituindo o conterrâneo Bill Nighy na pele da editora-chefe do Washigton Globe, tudo parecia garantir uma vitória certa. Porém, a bilheteria tímida de pouco mais de 37 milhões de dólares no mercado doméstico mostrou que nem sempre uma receita de sucesso funciona como o esperado. E nesse caso específico, somente a aversão das plateias a qualquer trama remotamente ligada às guerras do governo Bush pode explicar.


Não há nada de flagrantemente errado em "Intrigas de estado": o roteiro é inteligente e com um bom número de reviravoltas; a direção de MacDonald é sóbria e competente (ainda que sem brilho); o elenco é homogêneo (apesar das caras e bocas de Ben Affleck) e o ritmo é eficiente, mérito da edição ágil de Justine Wright, da fotografia precisa de Rodrigo Prieto e da trilha sonora de Alex Heffes. Então por que a receptividade tão morna (ou até mesmo fria)? Talvez seja mesmo o fato de que produções que tem as guerras no Oriente Médio nunca conquistarem boas bilheterias - nem mesmo quando juntam um time como Matt Damon e o diretor Paul Greengrass, que apesar do sucesso de seus filmes sobre Jason Bourne amargaram o naufrágio de "Zona verde" em 2010. Mas é também preciso reconhecer que, apesar da reunião de talentos e da história instigante, "Intrigas de estado" é um filme apenas correto, sem aquele tempero que transforma um mero entretenimento em um filme inesquecível. Talvez seja a falta de química entre Russell Crowe (ótimo ator mas em modo piloto automático) e Ben Affleck (péssimo ator que mata a dubiedade de seu personagem graças às suas limitações dramáticas). Talvez seja o foco confuso - afinal, qual das tramas é realmente a mais importante? Ou talvez seja mesmo porque a história simplesmente falha em cativar o interesse da plateia e seus personagens sejam desprovidos de qualquer carisma.

O filme até que começa bem: pelas ruas de Washington, um homem é perseguido por outro e, quando finalmente se vê encurralado, morre a tiros. Um ciclista que passava no local também é atingido pelo criminoso e, no dia seguinte, a jovem Sonia Baker (Maria Thayer) morre em um misterioso acidente no metrô da cidade. Sua morte é manchete, uma vez que ela fazia parte de uma comissão que investigava a fundo uma empresa privada em vias de tornar-se a responsável pela segurança militar dos EUA. Seu trágico e inesperado fim também revela um romance secreto com Stephen Collins (Ben Affleck), um senador casado que é um dos principais integrantes da comissão. O "acidente" chama a atenção da jovem e ambiciosa repórter Della Frye (Rachel McAdams), que vê no caso a oportunidade de mudar de status dentro do Washington Globe. Para isso, ela conta com a ajuda do veterano Cal McAffrey (Russell Crowe), que, não apenas tem interesse jornalístico no caso: ele é amigo pessoal de Collins - e viveu um apaixonado romance com a esposa dele, Ann (Robin Wright Penn). Conforme as investigações avançam, McAffrey chega à conclusão de que terá de decidir entre acreditar ou não no velho amigo, que pode ter muito mais responsabilidade nas mortes do que aparenta.

A questão é: vale a pena gastar duas horas assistindo a "Intrigas de estado"? Sim e não. O produto final é um filme obviamente bem produzido, com uma equipe acima de qualquer suspeita e uma história com desdobramentos certamente surpreendente - em especial ao espectador menos escolado. Porém, o filme soa frio, quase distante da audiência, sem um personagem no qual o público pode se espelhar. Mesmo o heroico jornalista vivido por Russell Crowe não consegue conectar-se com a plateia, em parte pela quase antipatia que o ator neozelandês transmite no papel. Rachel McAdams faz o que pode com uma personagem bem chatinha, e Ben Affleck é o Ben Affleck de sempre, com uma gama de nuances rasa e apática. Só mesmo as presenças de Helen Mirren e Robin Wright conseguem sobressair-se - mesmo em papéis pequenos as duas atrizes são uma delícia de ver.

quinta-feira

NA TRILHA DO ASSASSINO

NA TRILHA DO ASSASSINO (Tenderness, 2009, Lionsgate, 101min) Direção: John Polson. Roteiro: Emil Stern, romance de Robert Cormier. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Lisa Zeno Churgin, Andrew Marcus. Música: Jonathan Goldsmith. Figurino: Eric Daman. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Carol Silverman. Produção executiva: John Allen, Jane Edelbaum, Scott Hanson, Fisher Stevens, Tim Williams. Produção: Howard Meltzer, John Penotti, Charles Randolph. Elenco: Russell Crowe, Jon Foster, Sophie Traub, Laura Dern, Alexis Dziena. Estreia: 15/01/09 (Israel)

Um filme de suspense que privilegia os dramas de consciência de seu vilão ao invés de concentrar-se em sua sede de sangue é um elemento estranho no cinema comercial. Mas é exatamente isso que é "Na trilha dos assassinos", um discreto filme policial dirigido pelo australiano John Polson que passou praticamente despercebido pelas telas de cinema, apesar de contar com o astro Russell Crowe no elenco - em um papel pequeno, é certo, mas mesmo assim explorando os dotes dramáticos do ator como poucos filmes fizeram desde que ele abocanhou a estatueta do Oscar por "Gladiador". Na pele de um policial obcecado em perseguir um jovem psicopata que ele acredita que irá matar novamente, Crowe mostra com sutileza os motivos que levaram Hollywood a importá-lo no final dos anos 90 e rouba a cena em um filme discreto e de pegada europeia - leia-se de ritmo mais lento do que seus congêneres - mas que pode ser uma opção interessante para quem deseja fugir do lugar-comum.

Estranhamente, antes de comandar "Na trilha do assassino", John Polson assinou dois filmes que deitavam e rolavam nos clichês do suspense, o juvenil "Fixação" e o exagerado "O amigo oculto". Sendo assim, não deixa de ser estranho vê-lo em registro tão suave, explorando mais os detalhes e os silêncios significativos do que a violência e o sangue. Graças ao roteiro - que vai largando lentamente as pistas sobre as reais intenções do protagonista - Polson constrói uma narrativa que, mesmo não abdicando totalmente da tensão, a utiliza apenas pontualmente, como forma de lembrar ao espectador que a história é sobre um assassino cruel, apesar de seu ar de bom rapaz. Ele é Eric Komenko (interpretado pelo bom Jon Foster), que sai de uma instituição psiquiátrica ao completar 18 anos e vai morar com sua tia, Teresa (Laura Dern): no passado, o rapaz foi acusado de matar os próprios pais, mas o Tenente Cristofuoro (Russell Crowe) acredita que ele é também o responsável pelo assassinato de ao menos uma adolescente - se não de mais de uma. Casado com uma mulher presa a uma cama, vítima de uma grave doença, ele se auto-impõe a missão de provar a culpa do rapaz no crime não solucionado e impedir que ele volte a matar - o que fica mais complicado quando a desajustada Lori Cranston (Sophie Traub) se envolve com o misterioso e evasivo criminoso.


Baseado em um romance de Robert Cormier, o roteiro de Emil Stern lança mão de inteligentes flashbacks para esclarecer a plateia sobre o que realmente aconteceu no passado de Eric, mas felizmente evita entregar de bandeja todas as respostas, permitindo uma constante sensação de perigo e dúvida sobre as reais intenções do rapaz em relação à Lori - por sua vez uma personagem carregada de problemas e traumas que vê no psicopata o homem de sua vida mesmo ciente de sua real personalidade. A relação entre os dois é um dos maiores méritos do filme, justamente por caminhar na tênue linha entre amizade/amor/interesse e por não dar ao público pistas sobre seu desfecho. Até mesmo quando o ciúme entra na equação, graças à figura de outra jovem interessada no rapaz, a trama entra em um impasse que é resolvido de forma surpreendente, o que comprova as tentativas do diretor em fugir do previsível - nem sempre consegue, mas só a tentativa já é louvável. Além do mais, contar com a sempre fantástica Laura Dern nunca é ruim, mesmo quando em um papel pequeno.

Mas é definitivamente a relação entre o tenente de Russell Crowe e o jovem psicopata de Jon Foster o maior destaque de "Na trilha do assassino". Crowe brilha com um desempenho de nuances suaves, muito distante do tipo rústico que lhe deu fama - suas cenas com a esposa são delicadas e quase tristes e seus embates com Foster revelam sua face rancorosa e violenta. E Foster, um ator que ainda não aconteceu como deveria em Hollywood, expressa através de um simples olhar uma gama de sentimentos que aprofunda o roteiro e mantém a trama em um tom dúbio até as cenas finais. Se não há um grand finale ou uma revelação inesperada em seu desfecho - o que acaba sendo coerente com o espírito do filme - a obra de Polson ao menos tem a coragem de nadar contra a corrente e chegar viva até a margem seguinte. Um filme longe de ser brilhante, mas que certamente merece uma segunda chance.

quarta-feira

OS INDOMÁVEIS


OS INDOMÁVEIS (3.10 to Yuma, 2007, Lions Gate, 122min) Direção: James Mangold. Roteiro: Halsted Welles, Michael Brandt, Derek Haas, conto de Elmore Leonard. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Michael McCusker. Música: Marco Beltrami. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Andrew Menzies/Jay R. Hart. Produção executiva: Stuart Besser, Ryan Cavannaugh, Lynwood Spinks. Produção: Cathy Konrad. Elenco: Russell Crowe, Christian Bale, Ben Foster, Logan Lerman, Dallas Roberts, Peter Fonda, Vinessa Shaw, Gretchen Mol. Estreia:21/8/07

2 indicacões ao Oscar: Trilha Sonora Original, Edição de Som

"Os indomáveis" é a prova cabal - mais uma - de que o cineasta James Mangold, mesmo sem ter um estilo próprio que o diferencie de seus colegas de Hollywood, é um talento a ser admirado. Tendo passeado por praticamente todos os gêneros cinematográficos - o policial em "Copland", o drama em "Garota, interrompida", o suspense em "Identidade", o romance em "Kate & Leopold" e a biografia musical em "Johnny & June" - Mangold atingiu um nível ainda mais competente com a refilmagem do clássico "Galante e sanguinário", estrelado por Glenn Ford em 1957. Cinquenta anos depois do original de , o conto de Elmore Leonard presta-se a uma releitura moderna e empolgante que conta com um roteiro mais aberto a dubiedades e uma dupla de protagonistas acima de qualquer crítica.

Christian Bale vive Dan Evans, um fazendeiro do Arizona de 1884. Sofrendo com a cobrança de uma dívida por um conterrâneo corrupto, ele vê a chance de saldá-las quando lhe oferecem um belo pagamento por um trabalho nada simples: escoltar o famigerado criminoso Ben Wade (Russell Crowe) até a cidade vizinha de Yuma, onde ele será posto, às 15h10, em um trem em direção à prisão (daí o título original). Acompanhado do xerife Butterfield (Dallas Roberts) e de um pequeno grupo, ele não contava, porém, que seu filho mais velho, William (Logan Lerman, que depois faria o papel principal de "As vantagens de ser invisível") o seguisse, disposto a ajudá-lo na missão. Lutando contra apaches violentos e contra o próprio Wade, Evans ainda terá que encarar o bando do ladrão, que, sob a liderança do cruel Charlie Prince (Ben Foster), não está disposto a entregar o chefe aos homens da lei.


Equilibrando com segurança cenas de tiroteio que em nada devem aos veteranos do estilo com momentos que valorizam os belos diálogos do roteiro - que encontram em seus atores os intérpretes perfeitos - Mangold criou uma pequena pérola do faroeste, que não abre mão de todos os elementos que fizeram do gênero um dos mais populares do cinema americano e os utiliza com maturidade e inteligência. Se peca em não apresentar as belas paisagens que fizeram a fama de nomes como John Ford, o cineasta compensa com uma tensão palpável em vários momentos, em especial quando Ben Foster surge: mesmo ao lado de nomes consagrados como Russell Crowe e Christian Bale, o jovem Foster rouba a cena, criando um Charlie Prince assustador e violento, capaz dos atos mais vis - e não apenas em nome de sua fidelidade ao patrão.

Aliás, Crowe é outro que merece destaque: ficando com o papel que quase foi de Tom Cruise (uma escolha no mínimo inadequada), o eterno gladiador consegue fazer de seu Ben Wade uma mescla de violência e sutileza. Sua interpretação, minimalista, combina perfeitamente com o trabalho de Christian Bale (substituindo Eric Bana), proporcionando ao espectador um duelo como há muito o cinema americano não o fazia. Ainda que os tiroteios sejam extremamente bem filmados, é impossível negar que são as cenas dramáticas que fazem o diferencial de "Os indomáveis" e mostram o talento de seu diretor - que ainda dá a Peter Fonda a chance de uma participação especial carinhosa e crucial.

Indispensável para os fãs de faroeste e para quem gosta de um bom filme de ação, "Os indomáveis" oferece mais do que em um primeiro vislumbre. Um belo trabalho, que merecia maior atenção da crítica e do público - já que nem mesmo se pagou no mercado doméstico. Uma pena.

terça-feira

O GÂNGSTER


O GÂNGSTER (American gangster, 2007, Universal Pictures, 157min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Steven Zaillian, artigo "The return of Superfly", de Mark Jacobson. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Pietro Scalia. Música: Marc Streitenfield. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Leslie Rollins, Beth A. Rubino. Produção executiva: Michael Costigan, Branko Lustig, Nicholas Pileggi, Jim Whitaker, Steven Zaillian. Produção: Brian Grazer, Ridley Scott. Elenco: Denzel Washington, Russell Crowe, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Ruby Dee, Ted Levine, Carla Cugino, Cuba Gooding Jr., Armand Assante. Estreia: 19/10/07

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Ruby Dee), Direção de Arte/Cenários

Ridley Scott é um injustiçado da Academia. Nem mesmo quando um filme seu ganha o Oscar principal - caso de "Gladiador", vencedor de 2001 - ele consegue ser reconhecido como o grande cineasta que é. Autor de filmes essenciais do cinema americano dos anos 70 - "Alien, o oitavo passageiro"- dos 80 - "Blade Runner, o caçador de andróides" - e dos 90 - "Thelma & Louise", o inglês nunca conseguiu passar de indicações à estatueta e, em alguns casos, nem chegou a ela. Um ótimo exemplo disso é o sensacional "O gângster", que passou incólume nas cerimônias de premiação que incensaram o bobinho "Juno". Baseado na história real de um dos maiores traficantes de droga dos EUA na década de 70, o filme de Scott é uma prova inconteste de seu talento como contador de histórias - e que até faz com que ele seja perdoado por atentados como "Hannibal" e "Cruzada".

Terceira parceria de Scott com o ator Russell Crowe - depois do já citado "Gladiador" e do chatinho "Um bom ano" - "O gângster" é, ao contrário do que seu título e sua trama podem sugerir, um drama policial bem construído e tratado com o máximo de cuidado que uma superprodução de 100 milhões de dólares pode oferecer. Sem abusar da violência física e preferindo deter-se na trajetória de seu protagonista e nas consequências de seus atos - junto à sua família e as forças policiais que lhe caçavam - o roteiro preciso de Steven Zaillian conta sua história sem a pressa habitual dos filmes do gênero. Demora um bom tempo de projeção até que Frank Lucas (Denzel Washington) finalmente fique cara a cara com Richie Roberts (Russell Crowe), seu nêmesis, mas nem por isso o ritmo chega a incomodar, por um motivo muito simples: tanto Zaillian quanto Scott sabem o que querem dizer, e conhecem a importância da história que estão contando e o fazem com maestria.


Frank Lucas, o protagonista vivido sem maiores novidades por Denzel Washington, não é exatamente uma personagem que possa ser considerada heroica, mas isso não impede ao filme que o retrate sem julgamentos morais. Protegido do respeitado Bumpy Johnson (Clarence Williams III), gângster que reinava no Harlem, Lucas descobre, após a morte de seu mentor, uma forma de traficar heroína para dentro dos EUA, vinda do Vietnã: dentro dos caixões dos soldados mortos. Enquanto faz fortuna, desafia o corrupto detetive Trupto (um grande Josh Brolin) e desperta a atenção de Richie Roberts (em atuação contida de Crowe), um policial visto com maus olhos pelos colegas por causa de sua fama de incorruptível. Dedicado, Roberts passa a caçar Lucas, com quem mantém uma relação de respeitável admiração.

Apesar de sua longa duração (a versão do diretor chega a quase três horas), "O gângster" não tem ambições de tornar-se um épico anabolizado. Ridley Scott movimenta sua câmera sem intrometer-se na história, sendo apenas uma espetacular testemunha do duelo entre duas personagens carismáticas e extremamente interessantes - mas que nem mesmo assim deixa de lado coadjuvantes fantásticos. Josh Brolin começa aqui sua escalada rumo ao respeito profissional - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante por "Milk" no ano seguinte - e poderia tranquilamente ter sido lembrado pela Academia, que por uma razão inexplicável só lembrou-se de Ruby Dee como atriz coadjuvante por seu trabalho nada marcante como a mãe de Frank Lucas. E é imprescindível elogiar também a edição fantástica do experiente Pietro Scalia e a direção de arte impecável, que retrata com exatidão o ambiente onde se passa a história, elementos que completam mais uma obra-prima do cineasta.

"O gângster" é um filmaço de primeira que merece ser descoberto. É, sem dúvida, um dos melhores trabalhos de Ridley Scott. E vindo de um cara com o seu currículo isso não é pouca coisa.

quarta-feira

A LUTA PELA ESPERANÇA

A LUTA PELA ESPERANÇA (Cinderella man, 2005, Universal Pictures/Miramax Films, 144min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Cliff Hollingsworth, Akiva Goldsman, estória de Cliff Hollingsworth. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Thomas Newman. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Gordon Sim. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer, Ron Howard, Penny Marshall. Elenco: Russell Crowe, Renée Zellweger, Paul Giamatti, Bruce McGill, Craig Bierko, Paddy Considine. Estreia: 23/5/05

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Paul Giamatti), Montagem, Maquiagem

Depois dos merecidos Oscar por "Uma mente brilhante" o diretor Ron Howard, o ator Russell Crowe, o roteirista Akiva Goldsman e o produtor Brian Grazer tinham a mais plena certeza de que um bicampeonato estava despontando com seu filme seguinte, mais uma poderosa história de superação, repleta de lances melodramáticos e um protagonista capaz de emocionar os espectadores. Sua ambições, no entanto, começaram a parecer impossíveis quando "A luta pela esperança" - a história real de um boxeador nos difíceis anos pós-Depressão americana - naufragou solenemente nas bilheterias. Tendo custado cerca de 80 milhões de dólares, o filme estacionou em pouco mais de 60 milhões em território ianque e só conseguiu passar dos 100 milhões depois de estrear no resto do mundo - no Brasil, mesmo, só chegou às telas quatro meses depois de seu lançamento doméstico. O fracasso comercial, porém, não faz justiça a um espetáculo que, apesar de quadradinho e sem maiores arroubos de criatividade é comovente ao extremo e visualmente deslumbrante.

Fotografado com precisão por Salvatore Totino - que dá a textura de desânimo e desesperança às imagens - e editado com coesão por Dan Hanley e Mike Hill (também herança de "Uma mente brilhante"), "A luta pela esperança" talvez não tenha encontrado seu público justamente por um visual próximo demais da realidade dos anos 30, ou seja, triste e doloroso demais para uma audiência muito mais interessada em filmes de ação escapistas e efeitos visuais. Também não colaborou para sua tentativa de sucesso o fato de que seu protagonista, Jim Braddock, é um boxeador e é sabido que filmes com qualquer relação com esportes - com raras exceções - tendem a bombar nas bilheterias. Somado ao fato de ter estreado bem longe da data tida como mais favorável aos possíveis indicados ao Oscar - a saber, o final do ano - as chances da obra de Howard chegar aos finalistas da estatueta dourada foram minguando com o passar do tempo. Resultado: apenas três indicações menores, incluindo uma de ator coadjuvante para Paul Giamatti.



Giamatti - sendo lembrado pela Academia depois de ter sido ignorado por seu protagonista em "Sideways, entre umas e outras" - interpreta Joe Gould, o treinador de Braddock, um boxeador que teve seus dias de glória deixados para trás com a crise financeira causada pela quebra da bolsa em 1929 e que tenta desesperadamente arrumar trabalho nas docas de Nova York para sustentar a mulher, Mae (Renée Zellweger) e os três filhos pequenos. Sua luta pela sobrevivência - cada dia mais difícil e sofrida - recebe um alento quando seu antigo empresário lhe oferece uma série de lutas. Mesmo contra a vontade da esposa, Braddock aos poucos começa a recuperar seu status e passa a ser chamado pela imprensa de "Cinderella man". Sua grande chance, porém, ainda está por vir: ele aceita lutar contra o arrogante e talentoso Max Baer (Craig Bierko, irreconhecível), em uma luta que será seu tudo ou nada.

Quanto menos se souber a respeito da história de Jim Braddock - sim, é uma história real - melhor para o aproveitamento do drama proposto por Howard e companhia. O suspense a respeito da luta final é realmente bem desenhado pelo cineasta, que faz com que a audiência sofra cada soco em seu protagonista como se fosse em si mesmo. As cenas de luta - mesmo que passem longe da excelência de "Touro indomável" - são filmadas com realismo e extrema competência pelo cineasta. E Russell Crowe mais uma vez entrega uma performance invejável, que o levou a emagrecer e sofrer com uma prótese dentária. Seu esforço injustamente não foi recompensado com uma indicação ao Oscar, mas é digna de figurar entre os grandes momentos de sua carreira.

segunda-feira

UMA MENTE BRILHANTE

UMA MENTE BRILHANTE (A beautiful mind, 2001, Universal Pictures/Dreamworks SKG, Imagine Entertainment, 135min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Akiva Goldsman, livro de Sylvia Nasar. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurno: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Leslie Rollins. Produção executiva: Todd Hallowell, Karen Kehela. Produção: Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Ed Harris, Christopher Plummer, Paul Bettany, Josh Lucas, Adam Goldberg, Judd Hirsch. Estreia: 13/12/01

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Ator (Russell Crowe), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Russell Crowe), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro

Grande vencedor do Oscar 2001 em quatro categorias - Filme, Diretor, Roteiro Adaptado e Atriz Coadjuvante - "Uma mente brilhante" conta a história do matemático John Nash causou polêmica em seu lançamento, o que em nada atrapalhou seu sucesso também nas bilheterias, com uma arrecadação de mais de 170 milhões de dólares somente no mercado americano (o que, se for levado em conta que não é um típico produto para consumo imediato é um estrondoso sucesso). O celeuma foi causado pela revelação de que o protagonista do filme tinha ideias antissemitas, o que foi convenientemente deixado de lado pelo premiado roteiro de Akiva Goldsman, assim como suas tendências homossexuais. O que os polemistas talvez não tenham percebido é que tais características da personagem não fazem muita diferença para o centro da história contada no filme. O que importa na obra de Ron Howard - um diretor até então de filmes comerciais sem maiores ambições artísticas - é a luta de Nash contra a esquizofrenia, travada durante décadas, e sua história de amor com a esposa Alicia - história essa bastante enfeitada na transposição para celulóide da extensa biografia escrita por Sylvia Nasar.

Vivido com um misto de garra e delicadeza surpreendente por um Russell Crowe provando seu imenso talento, John Nash é mostrado pela primeira vez em 1947, ainda na faculdade e buscando uma maneira de destacar-se de seus colegas, todos matemáticos brilhantes e um tanto arrogantes. Já professor, Nash conhece e se apaixona por uma aluna, a bela Alicia (Jennifer Connelly, linda e excelente no papel), com quem se casa, apesar de suas dificuldadades em relacionamentos sociais. Às vésperas de seu reconhecimento profissional, no entanto, ele é diagnosticado como esquizofrênico e, com a ajuda de Alicia e do psiquiatra Dr. Rosen (Christopher Plummer), ele tenta superar a doença e voltar a ser o gênio que prometia.



Russell Crowe foi injustiçado quando perdeu o Oscar de Melhor Ator para Denzel Washington. Seu trabalho como John Nash é infinitamente superior não somente ao de Denzel mas principalmente à sua própria atuação vencedora do prêmio da Academia pelo épico "Gladiador". Repleta de nuances e sutilezas que só os grandes atores conseguem, sua atuação comove, intriga e angustia na medida certa, impedindo a compaixão fácil e fazendo com que cada cena seja especial pelo simples fato de ele estar presente nela. Sua química exemplar com Jeniffer Connelly, seja em cenas românticas (criadas para agradar às plateias mais convencionais) ou nas mais dramáticas eleva o filme a um patamar de excelência que provavelmente foi o que conquistou o público sedento por um drama adulto de qualidade. É de questionar apenas os motivos que levaram Connelly a vencer na categoria de coadjuvante, uma vez que sua personagem é quase tão protagonista quanto a de Crowe. Somado a sua trama de superação - que além de tudo é verdadeira, apesar da supressão de fatos importantes e da simplificação de outros - o romance entre Nash e Alicia também seduziou os eleitores do Oscar que lhe deram quatro importantes estatuetas (e deveriam ter dado no mínimo mais uma, a Crowe, que acabou prejudicado pela mania do Oscar de corrigir injustiças fazendo outras....).

Além dos trabalhos exemplares de Crowe e Connelly, porém, seria injusto deixar de citar a maior qualidade de "Uma mente brilhante": o roteiro irretocável de Akiva Goldsman. Apesar das licenças poéticas (que incorreram na fúria dos puristas), seu script é capaz de conquistar pela delicadeza dos diálogos e pela reviravolta espetacular que proporciona depois de sua primeira hora de projeção e além de tudo, funciona como drama médico, como romance e como thriller de espionagem, sem nunca atropelar o ritmo e as personagens, sejam elas protagonistas ou coadjuvantes - e nessa categoria encontra-se atores de primeira linha, como Christopher Plummer, Paul Bettany e um arrepiante Ed Harris, perfeito em sua tétrica caracterização como um misterioso agente da CIA.

Com todas essas qualidades, não é de estranhar que "Uma mente brilhante" tenha passado incólume pelas polêmicas a seu respeito. Afinal, verdadeiras ou não, as acusações feitas são contra a personalidade de seu protagonista e não interferem no produto cinematográfico, dirigido com precisão por Ron Howard, até então mais afeito a produções mais lineares e menos, com o perdão do trocadilho, brilhantes. É aqui, com a parceria de Russell Crowe e Akiva Goldsman que ele atinge seu ápice, em um filme forte e que, apesar de parecer esquemático, consegue surpreender e emocionar.

quinta-feira

GLADIADOR

GLADIADOR (Gladiator, 2000, Dreamworks SKG/Universal Pictures, 155min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: David Franzoni, John Logan, William Nicholson, estória de David Franzoni. Fotografia: John Mathieson. Montagem: Pietro Scalia. Música: Hans Zimmer, Lisa Gerrard. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Crispian Sallis. Produção executiva: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes. Produção: David Franzoni, Branko Lustig, Douglas Wick. Elenco: Russell Crowe, Joaquin Phoenix, Connie Nielsen, Oliver Reed, Richard Harris, Derek Jacobi, Djimon Hounson, Tomas Arana, Spencer Treat Clark. Estreia: 05/5/00

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ridley Scott), Ator (Russell Crowe), Ator Coadjuvante (Joaquin Phoenix), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Ator (Russell Crowe), Figurino, Efeitos Visuais, Som
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original

Houve uma época em que Hollywood adorava filmes de gladiadores, que constituíam uma espécie de gênero próprio dentro da indústria. Filmes como "Ben-hur", o recordista em número de Oscar por quarenta anos, lotavam salas e mais salas de cinema, criavam astros e solidificavam carreiras (ainda que Paul Newman tenha renegado eternamente sua estreia em "O manto sagrado"). Com o tempo, heróis vestindo sandálias deixaram de agradar a audiência, que ansiava por personagens mais próximos à sua realidade. Foi somente às vésperas do século XXI, com todos os recursos tecnológicos disponíveis, que um estúdio resolveu ressuscitar o gênero. Aliás, um estúdio não, e sim dois: assustados com o orçamento, que ultrapassou os 100 milhões de dólares, os executivos da DreamWorks (Steven Spielberg entre eles) resolveram unir-se à Universal Pictures para produzir o arriscado "Gladiador".

Arriscado? Sim. Décadas separavam "Gladiador" de seus antecessores bem-sucedidos e, a bem da verdade, pouca gente acreditava que o filme, dirigido por Ridley Scott e estrelado por Russell Crowe (no auge da carreira graças ao sucesso de "Los Angeles, cidade proibida" e "O informante") pudesse tornar-se um êxito. Com mais de 450 milhões de dólares arrecadados pelo mundo e cinco Oscar na prateleira, incluindo Melhor Filme e Ator (mas não de diretor, em mais uma injustiça histórica), hoje é difícil não admirar e se apaixonar pela história concebida pelo roteirista David Franzoni nos anos 70. Grandiloquente, fascinante e emocionante, "Gladiador" é uma das obras-primas com que Hollywood brindou seu público no final dos anos 90, um espetáculo para os olhos e a alma.


Russell Crowe - substituindo Mel Gibson e Antonio Banderas, que foram sondados para o papel - vive Maximus Decimus Meridius, um poderoso e bem-quisto general que é escolhido pelo Imperador Marcus Aurelius (Richard Harris) como seu substituto para governar Roma. Sentindo-se traído, o filho do imperador, Commodus (Joaquin Phoenix) toma atitudes radicais: asfixia o próprio pai e manda executar Maximus e sua família. Sobrevivendo ao plano do ambicioso novo governante, o ex-general caído em desgraça é capturado e transformado em um escravo utilizado para lutar em arenas espanholas. Com o codinome de "Espanhol", ele torna-se um dos mais populares astros do entretenimento mais adorado pelo povo, enquanto planeja vingar-se do homem que destruiu sua vida. A chance acontece quando seu treinador, Proximus (Oliver Reed, que morreu antes do término das filmagens) recebe o convite para participar de um torneio na Itália. Maximus tem, então, a possibilidade de encarar seu maior inimigo frente a uma plateia de centenas de pessoas.

O roteiro de Franzoni (co-escrito por John Logan e William Nicholson) é um achado de simplicidade e fluência. Direto e sem firulas, ele consegue ser ágil sem parecer apressado, ser contemplativo sem parecer monótono e empolgante sem deixar de lado cenas mais emotivas, em especial quando o foco da narrativa passa a ser a relação entre Maximus e Lucilla (Connie Nielsen), irmã de Commodus que teve uma história de amor com o gladiador (e que tem um filho pequeno cuja paternidade nem chega a ser exatamente dúbia). Crowe e Nielsen transmitem uma paixão reprimida que impulsiona o lado mais romântico e sexy da trama, sem que isso prejudique o desenvolvimento daquilo que mais impressionou as multidões: as espetaculares cenas de ação, desde a batalha que dá início ao filme até as sangrentas lutas nas arenas, filmadas com competência absurda por um Ridley Scott no auge de seu vigor criativo. Scott comanda com firmeza milhares de figurantes, efeitos visuais premiados com o Oscar e um elenco de atores em dias inspirados. Se apenas Crowe ganhou sua estatueta - como prêmio de consolação por ter perdido no ano anterior por "O informante" e que lhe impediu de vencer no ano seguinte por "Uma mente brilhante" - tudo não passa de injustiça. Joaquin Phoenix está perfeito como o venal e covarde Commodus, Richard Harris brilha nas poucas cenas em que aparece como Marcus Aurelius e Oliver Reed comove com seu último trabalho na pele do amigo e protetor Proximus. Atuando em um cenário nunca aquém de deslumbrante e sob a trilha sonora inesquecível e arrepiante de Hans Zimmer e Lisa Gerrard - cuja canção final é de uma beleza tocante - o elenco escolhido por Ridley Scott não tem sequer uma falha, um exemplo que deveria ter sido seguido por todos os subprodutos que vieram no rastro do sucesso do filme.

"Gladiador" é um exemplo perfeito de tudo que Hollywood tem de bom a oferecer em termos de entretenimento. Funciona como aventura, como drama, como romance e como uma aula de narrativa clássica. Seu protagonista é carismático e convence como herói, dono de uma verdade que a estampa viril de Russell Crowe apenas confirma - que atire a primeira pedra quem não se arrepia com seu reencontro com Commodus. Seu vilão é cruel, cínico e vil como todos os bons antagonistas. E seu visual acachapante (e seu desenho de som sensacional) são uma festa para os sentidos. Uma obra-prima que dá muito orgulho a seus (bons) antecessores.

sexta-feira

O INFORMANTE

O INFORMANTE (The insider, 1999, Spyglass Entertainment/Touchstone Pictures, 157min) Direção: Michael Mann. Roteiro: Michael Mann, Eric Roth, artigo "The man who knew too much", de Marie Brenner. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: William Goldenberg, David Rosenbloom, Paul Rubell. Música: Pieter Bourke, Lisa Gerrard. Figurino: Anna Sheppard. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Marjorie McShirley. Produção: Pieter Jan Brugge, Michael Mann. Elenco: Al Pacino, Russell Crowe, Christopher Plummer, Diane Venora, Philip Baker Hall, Lindsay Crouse, Debi Mazar, Stephen Tobolowsky, Colm Feore, Bruce McGill, Gina Gershon, Rip Torn. Estreia: 28/10/99

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Mann), Ator (Russell Crowe), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Som

Sem medo de soar machista, pode-se dizer tranqüilamente que Michael Mann é um diretor de filmes de homem. Obras como “O último dos moicanos” (a versão anabolizada com Daniel Day-Lewis) e “Fogo contra fogo” (o primeiro encontro em cena dos monstros Al Pacino e Robert DeNiro) são pistas que levam sem medo à esta afirmação. “O informante” confirma a teoria. Baseado em um fato real, contado em um artigo da revista Vanity Fair, o filme tem uma força masculina que independe de músculos. Estrelado por Al Pacino e Russell Crowe - ambos em um grande momento - o filme de Mann é uma crítica feroz à mídia e a indústria tabagista e sua contundência arrancou elogios unânimes, a ponto de chegar à corrida do Oscar em sete categorias - incluindo as importantíssimas Melhor Filme, Diretor, Ator e Roteiro Adaptado.

"O informante" começa quando Jeffrey Wingand (Crowe, em uma atuação nervosa que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar), executivo de primeiro escalão de uma indústria de cigarros é demitido e obrigado a assinar um contrato que o proíbe de revelar segredos da empresa. Por mero acaso ele é procurado por Lowell (Pacino, brilhando em cada cena em uma interpretação menos exagerada do que de costume), o produtor do popular programa de TV 60 Minutes, para ser o consultor de um outro programa. Com o seu faro de repórter, Lowell logo descobre que Wingand tem muito a falar e o convence a dar um entrevista exclusiva. A entrevista, que faz sérias revelações sobre mentiras contadas pela indústria do tabaco, acaba sendo gravada, mas impedida de ir ao ar pela alta cúpula da emissora do programa. Enquanto isso, a vida de Wingand se deteriora progressivamente: seu casamento entra em crise e ele passa a ser ameaçado de morte.



Narrando sua história em tom quase documental, para o qual colaboram a sóbria fotografia do veterano Dante Spinotti e a ágil edição de William Goldenberg e Paul Rubell, Mann utiliza sua experiência de forma a nunca julgar os atos nem as personalidades de suas personagens, ambas em seus limites, sejam eles pessoais ou profissionais. Sem a pressa que poderia atabalhoar o desenvolvimento a contento da trama, seu roteiro (escrito a quatro mãos com o oscarizado Eric Roth) é forte e contundente, sem nunca escorregar na denúncia vazia ou no sentimentalismo barato, ainda que essa opção em diminuir o ritmo deixe o filme um tanto quanto arrastado em alguns momentos. Pode-se até dizer que "O informante" é um filme dois em um primeiro conta a história de Lowell em busca de um furo e depois mostra os dramas na vida de Wingand. Felizmente ambos são da mais alta qualidade.

Afinal de contas, é no show de seus atores que reside a força de “O informante”, Russell Crowe à frente. É quase impossível lembrar da truculência de Crowe em “Los Angeles, cidade proibida” quando se assiste à sua espetacular atuação como Jeffrey Wingand, um homem frágil e impotente diante da ruína de tudo que construiu em vida. Seu trabalho é tão consistente que consegue ofuscar um dos melhores desempenhos de Al Pacino, absolutamente generoso em dividir o palco com o colega neo-zelandês. Um grande drama jornalístico sobre ética e verdade!

terça-feira

LOS ANGELES, CIDADE PROIBIDA



LOS ANGELES, CIDADE PROIBIDA (L.A. Confidential, 1997, Regency Enterprises/Warner Bros, 138min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Curtis Hanson, Brian Helgeland, romance de James Ellroy. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Peter Honess. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay R. Hart. Produção executiva: Dan Kolsrud, David L. Wolper. Produção: Curtis Hanson, Arnon Milchan. Elenco: Russell Crowe, Guy Pearce, Kevin Spacey, James Cromwell, Kim Basinger, Danny DeVito, David Strathairn, Ron Rifkin, Simon Baker, Matt McCoy, Paul Guilfoyle. Estreia: 19/9/97


9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Curtis Hanson), Atriz Coadjuvante (Kim Basinger), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Kim Basinger), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Kim Basinger)

Até 1997 Curtis Hanson não parecia ser mais do que um cineasta-padrão de Hollywood, entregando filmes bastante competentes mas nunca geniais, como "Uma janela suspeita", "A mão que balança o berço" e "O rio selvagem". Por isso, quando "Los Angeles, cidade proibida" foi lançado todo mundo na capital do cinema - e mais os críticos e os fãs de bom cinema - ficou de queixo caído. Emulando com propriedade o estilo noir dos filmes policiais dos anos 40, Hanson assinou um filme extraordinariamente bom, capaz de competir de igual pra igual com os maiores clássicos do gênero. Premiado como melhor filme por praticamente todas as associações de críticos americanos, "Los Angeles" só não levou o Oscar e o Golden Globe por ter esbarrado em um iceberg gigantesco chamado "Titanic". Mas até mesmo os admiradores da mega-produção de James Cameron são obrigados a concordar que, em termos de narrativa e inteligência "Los Angeles" ganha de goleada.

Baseado em um extenso romance de James Ellroy publicado em 1990, o impecável roteiro de Hanson e Brian Helgeland consegue o feito raro de melhorar a história do escritor, tornando-a mais concisa e com menos tramas paralelas que não acrescentavam muito ao enredo central. Enquanto no livro a ação acontecia dentro de um espaço de tempo bastante vasto - quase uma década - o filme concentra tudo em cerca de um ano e opera algumas mudanças cruciais em alguns protagonistas, o que de forma alguma macula a escrita de Ellroy, um escritor cujo estilo seco tem fãs ardorosos - e cujo "Dália negra" foi posteriormente adaptado por Brian DePalma sem nem um terço do charme e do sucesso de "Los Angeles". Especializado em tramas policiais passadas na terra do cinema, Ellroy usa histórias reais como material de inspiração e pano de fundo para tramas que falam sobre corrupção, assassinatos e sexo. Fez isso com maestria em "Los Angeles, cidade proibida", cuja profusão de personagens e acontecimentos é resumida brilhantemente em forma de roteiro.

Tudo começa no dezembro de 1953. Considerados como a melhor força policial do país, os homens liderados pelo Capitão Dudley Smith (James Cromwell) passam por uma paradoxal situação, uma vez que o crime organizado cujo líder Mickey Cohen (Paul Guilfoley) manda e desmanda na região. Na mesma época em que o gângster é violentamente assassinado, uma chacina movimenta a cidade e mobiliza a imprensa e os detetives. Chamado de "O massacre de Nite Owl", a chacina que vitimou os clientes de uma lanchonete - inclusive um ex-detetive dispensado pouco antes - acaba sendo o primeiro caso importante de Ed Exley (Guy Pearce), um jovem e ambicioso tenente-detetive que vive à sombra do talento do pai. Comandando a investigação do crime - mesmo sendo desprezado por todos os colegas por ter sido o delator em um incidente no Natal - ele torna-se herói ao salvar uma jovem mexicana vítima de abuso sexual. No entanto, logo ele descobre que as coisas não são exatamente como parecem e que policiais corruptos podem estar envolvidos em uma grande rede de mentiras e violência. Para isso, ele precisa unir-se a outros dois detetives bastante diferentes de si mesmo: Bud White (Russell Crowe), um brucutu agressivo que se dedica a proteger mulheres vítimas de agressão doméstica e Jack Vincennes (Kevin Spacey), um vaidoso investigador que complementa seus ganhos como consultor de um programa de TV e ajuda o repórter sensacionalista Sid Hudgens (Danny De Vito) com suas reportagens na revista "Hush Hush", especializada em escândalos dentro da comunidade hollywoodiana. Juntos, Exley, Vincennes e White vão desbaratar uma complicada teia de intrigas que inclui uma rede de prostituição comandada por Pierce Patchett (David Strathairn), da qual faz parte a bela Lynn Bracken (Kim Basinger), que se envolve romanticamente com Bud White.


É difícil resumir a complexa trama de "Los Angeles, cidade proibida", tamanha é sua profusão de detalhes, personagens e situações. Organizar tudo de forma palatável a uma plateia tão mal-acostumada a historinhas mal costuradas é um mérito inquestionável do roteiro, que não deixa nenhum furo em seu caminho. Tudo que é dito e mostrado por Hanson é de extrema importância para o desenrolar da história, mesmo que a princípio pareça apenas uma forma de apresentar as personagens, todas elas construídas exemplarmente, diga-se de passagem (ainda que tenham passado por pequenas alterações do livro para a tela). O cuidado que Hanson tem com a reconstituição de época também tem com suas personagens e isso fica claro quando, na reta final, todas as cartas são embaralhadas e o público se deixa surpreender com revelações totalmente críveis ainda que inesperadas. A complexidade de personagens como Bud White - que repudia a violência contra a mulher e acaba sendo forçado a ela - e Ed Exley - que se vê obrigado a tomar atitudes que jamais tomaria nos primeiros minutos - encontra intérpretes ideais em um elenco que não poderia ser melhor.

Se foi Kim Basinger quem levou o Oscar de coadjuvante - por uma atuação correta mas nada mais do que isso - são seus colegas de elenco quem deveriam ter sido premiados. Kevin Spacey mais uma vez mostra seu imenso talento para a sutileza construindo um Jack Vincennes que equilibra cinismo com amargura na medida certa - a cena em que ele e Exley encontram Lana Turner em um bar é hilária. James Cromwell como o Capitão Dudley Smith, figura crucial na trama, mostra-se perfeitamente à vontade com as viradas de sua personagem. Guy Pearce - que ficou com o papel mesmo contra a vontade dos produtores, que não queriam um australiano no papel do americaníssimo Ed Exley - apaga a imagem de sua drag-queen de "Priscilla, a rainha do deserto", entregando um desempenho ideal. Mas é Russell Crowe quem rouba todas as cenas das quais participa. O ator neozelandês tornou-se queridinho de Hollywood depois de seu trabalho irretocável como Bud White, um policial truculento com um lado doce raramente revelado. Os olhos cheios de fúria de Crowe e sua interpretação avassaladora são o início de uma carreira meteórica que o levaria a concorrer a 3 Oscar consecutivos - e levar um por seu trabalho menos brilhante como ator, em "Gladiador".

Quaisquer elogios que se faça a "Los Angeles, cidade proibida" são poucos, tamanha sua força e brilhantismo em todos os quesitos. Impecável em qualquer nível - e encharcado de uma violência e uma sensualidade ímpares mas nunca vulgares - a obra-prima de Curtis Hanson é um daqueles filmes que só surgem uma vez a cada década. E que, como acontece com os clássicos, melhora a cada revisão. E quem precisa de uma chuva de Oscar quando se é tão perfeito?

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...