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sexta-feira

OS VINGADORES


OS VINGADORES (The Avengers, 2012, Marvel Studios/Paramount Pictures, 143min) Direção: Joss Whedon. Roteiro: Joss Whedon, estória de Joss Whedon, Zak Penn. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Jeffrey Ford, Lisa Lassek. Música: Alan Silvestri. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Victor J. Zolfo. Produção executiva: Victoria Alonso, Louis D'Esposito, Jon Favreau, Alan Fine, Jeremy Latcham, Stan Lee, Patricia Whichter. Produção: Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Clark Gregg, Cobie Smulders, Stellan Skarsgaard, Samuel L. Jackson, Gwyneth Paltrow. Estreia: 04/5/2012

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais 

Primeiro filme da Marvel a ultrapassar a inacreditável marca de 1 bilhão de dólares nas bilheterias, "Os Vingadores" foi a coroação, sem espaço para dúvidas, de um projeto iniciado em 2008 com "Homem de ferro" - e que, por quatro anos, dominou o mercado do cinema comercial hollywoodiano. Com um orçamento estratosférico de estimados 220 milhões de dólares e um elenco repleto de indicados e vencedores do Oscar, o filme de Joss Whedon - diretor de episódios de séries de TV alçado à tela grande em uma prova de fogo - levou multidões às salas de exibição ao elevar à máxima potência uma receita com poucas chances de erro. Com um marketing agressivo que tornava impossível ignorar sua presença maciça e uma contagem regressiva que contava com outros cinco longas-metragens muito bem sucedidos financeiramente, a produção entregou a seu público-alvo exatamente o que ele esperava. Mas, para além disso, é um filme satisfatório ou apenas mais uma peça mercadológica esquecível e fugaz?

Logicamente quem vai ao cinema assistir a "Os Vingadores" não tem a menor intenção de testemunhar uma revolução narrativa ou estética, e vendo por esse prisma o filme de Joss Whedon é um sucesso: tudo que surge na tela é milimetricamente planejado para seguir a cartilha dos filmes de ação, estabelecendo com extrema clareza os dois opostos - bem e mal - e honrando seu orçamento em sequências espetaculares que renderam uma indicação ao Oscar de efeitos visuais. Sem precisar apresentar seus protagonistas - coisa que os cinco filmes anteriores já fizeram com êxito -, o roteiro, escrito pelo próprio diretor, utiliza boa parte de suas quase duas horas e meia para contar uma história (exagerada e inverossímil como se poderia esperar) através de explosões (pouco excitantes), lutas (bem coreografadas) e piadas (algumas inteligentes, outras apenas razoáveis). Com um elenco à vontade e entrosado, Whedon conduz uma sinfonia de destruição, onde a trama importa menos que o barulho, mas o faz com uma convicção tão plena que é difícil não se deixar envolver. Pode soar cansativo para aqueles menos entusiastas, porém alcança um patamar dos maiores dentro do gênero - principalmente em termos comerciais.

 


A trama de "Os Vingadores" tem ligação direta com as histórias dos primeiros filmes do universo criado pela Marvel, especialmente "Thor" (2011): o irmão do herdeiro do trono de Asgard, o invejoso Loki (Tom Hiddleston) chega à Terra e, com o objetivo de dominar o planeta, rouba o Tesseract - artefato alienígena de poder ilimitado - de dentro das instalações da S.H.I.E.L.D.. Com a ajuda do exército de uma raça conhecida como Chitauri, seu plano começa a incomodar Nick Fury (Samuel L. Jackson), o diretor da agência, que parte então para o ataque e reúne o maior grupo de super-heróis do mundo para evitar o pior. O encontro entre o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), o Capitão América (Chris Evans), o cientista Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo), Thor (Chris Hemsworth), a Viúva Negra (Scarlett Johansson) - e depois o Arqueiro Verde (Jeremy Renner) - precisa de ajustes, mas, ao deixar de lado suas diferenças, formam um time que irá salvar a humanidade de uma ameaça devastadora.

Último capítulo da primeira fase do Universo Cinematográfico Marvel, "Os Vingadores" é um filme-pipoca assumido, sem nenhuma intenção a não ser oferecer o mais puro entretenimento a sua plateia, que o aprovou sem ressalvas. Justiça seja feita, tem qualidades notáveis, especialmente no que diz respeito a seu elenco: todos, sem exceção, parecem se divertir a valer com seus personagens, e muitos deles fogem de respeitáveis carreiras de prestígio para se entregarem à mais lúdica das brincadeiras. Plenamente satisfatório dentro de seus objetivos, é um nítido produto de marketing, mas que ao menos respeita seus fãs e tenta conquistar espectadores menos afeitos ao gênero. Lançado quando ainda não havia um certo desgaste em sua fórmula, jogou à estratosfera as expectativas para os filmes subsequentes - nem todos tão bem recebidos quanto ele.

quarta-feira

O AMOR É CEGO


O AMOR É CEGO (Shallow Hal, 2001, 20th Century Fox, 113min) Direção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly. Roteiro: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Sean Moynihan. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Billy Goodrum. Figurino:Pamela Whiters. Direção de arte/cenários: Sidney J. Bartholomew Jr./Scott Jacobson. Produção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Bradley Thomas, Charles B. Wessler. Elenco: Jack Black, Gwyneth Paltrow, Jason Alexander, Joe Vitarelli, Anthony Robbins. Estreia: 09/11/2001

Bem no fundo, os irmãos Farrelly são dois românticos. Afinal, em seus filmes, por mais escatológicos e politicamente incorretos que eles sejam, sempre há espaço para histórias de amor. Em "Quem vai ficar com Mary?" (1997), Ben Stiller comia o pão que o diabo amassou para conquistar a mulher de sua vida, vivida por Cameron Diaz. Em "Eu, eu mesmo e Irene" (2000), Jim Carrey e sua segunda personalidade disputavam a foragida Renée Zellweger, E em "O amor é cego", lançado em 2001, é Jack Black quem vê sua rotina transformada pela paixão avassaladora por uma mulher - no caso a então recente vencedora do Oscar Gwyneth Paltrow. Porém, ser romântico não significa abrir mão de seu olhar bizarro sobre o cotidiano, e nem mesmo a longilínea Gwyneth escapou de ser alvo das gozações constrangedoras da dupla de diretores. Em uma produção que mais uma vez usa e abusa do humor sobre as minorias, eles surpreendem, no entanto, ao acrescentar uma bem-vinda dose de ternura, que quase ameniza a característica falta de sutileza de suas obras. Isso mesmo: "O amor é cego" é uma comédia dos irmãos Farrelly com moral da história.

Exagerado como sempre, Jack Black dá vida ao protagonista Hal Larson, um homem incapaz de manter um relacionamento sério desde que resolveu seguir os conselhos que o pai lhe deu no leito de morte: arrependido por ter casado cedo e com uma mulher por quem não se sentia atraído fisicamente, o moribundo exige do filho de nove anos que, em sua vida adulta, se envolva somente com mulheres deslumbrantes e sensuais, que possam lhe realizar sexualmente. Relativamente bem-sucedido profissionalmente, Hal vive à procura da mulher ideal, assim como seu melhor amigo, Mauricio (Jason Alexander) - que, assim como ele, estabeleceu padrões estéticos quase inalcançáveis para uma futura namorada. O problema é que, com as diretrizes do pai sempre vivas, Hal - que não é exatamente um exemplo de beleza masculina - só se interessa por modelos de corpo escultural e postura de modelos. Magoado com a imagem de superficialidade que transmite às pessoas que o cercam, o rapaz vê sua vida mudar com o encontro inusitado com Tony Robbins (no papel dele mesmo) em um elevador defeituoso: tocado com a nítida infelicidade do aspirante a garanhão, o palestrante e mentor lhe hipnotiza para que, a partir de então, ele consiga ver somente a beleza interior das pessoas. O resultado é imediato, e Hal passa a interessar-se por mulheres fisicamente pouco atraentes mas com personalidades e inteligências encantadoras. O ápice de sua nova condição acontece quando ele se apaixona por Rosemary Shanahan (Gwyneth Paltrow): vista por ele como uma loira espetacular e sexy, ela, na verdade, é uma mulher muito acima do peso, que sofre preconceitos por onde passa e que não consegue acreditar em sua repentina história de amor.

 

Como não poderia deixar de ser em um filme da dupla de diretores, "O amor é cego" não dispensa as piadas grosseiras e constrangedoras (algumas legitimamente engraçadas, outras nem tanto), mas é nítido como dessa vez sua vontade de contar uma história é maior do que aquela de simplesmente ofender qualquer minoria ou condição física, mental ou social. O arco dramático de Hal é verossímil, e sua relação com Rosemary desperta a torcida que todo filme romântico busca. Mesmo que a duração seja um tanto excessiva - uns bons quinze minutos a menos faria milagres pelo ritmo - e Jack Black não consiga deixar de lado sua tendência ao overacting, a direção dos Farrelly encontra um equilíbrio nunca visto em seus trabalhos anteriores. O roteiro é suave em sua transição entre a comédia física quase cruel e o romance doce entre seus protagonistas, e é surpreendente como eles encontram espaço até mesmo para um momento de genuína emoção: em um hospital infantil, já no ato final do filme, há o vislumbre  de uma insuspeita sensibilidade de dois homens que já fizeram rir de esquizofrênicos, fluidos corporais, pessoas com deficiências físicas e outros itens menos cotados. O arrependimento de Jack Black e Gwyneth Paltrow de terem participado do filme - conforme declarado anos depois - não deixa de ser um grande exagero.

Em termos de bilheteria, "O amor é cego" não chegou a ser um fracasso, ainda que tenha ficado muito atrás do sucesso comercial de "Quem vai ficar com Mary?", que rendeu inacreditáveis 370 milhões de dólares ao redor do mundo.  Se aproveitando da popularidade de seus atores centrais - Paltrow vinha do Oscar por "Shakespeare apaixonado" (1999) e Black de seu destaque em "Alta fidelidade" (1999) - e da grife de seus diretores, a 20th Century Fox acabou por embolsar quase 150 milhões por uma comédia romântica repleta de tiradas raras no gênero e uma atípica dupla de protagonistas. Não é pouca coisa se levarmos em consideração a previsibilidade e a apatia da maioria das produções do gênero.

 

segunda-feira

O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM

 


O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM (The pallbearer, 1996, Miramax, 98min) Direção: Matt Reeves. Roteiro: Matt Reeves, Jason Katims. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Stan Salfas. Música: Stewart Copeland. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Robin Standefer/Kate Yatsko. Produção executiva: Meryl Poster, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Jeffrey Abrams, Paul Webster. Elenco: David Schwimmer, Gwyneth Paltrow, Barbara Hershey, Toni Collette, Michael Rapaport, Carol Kane, Michael Vartan. Estreia: 03/5/96

O título nacional "O primeiro amor de um homem" não força à toa uma similaridade com "A primeira noite de um homem", que deu o Oscar de melhor diretor a Mike Nichols: assim como no clássico de 1967, o protagonista é um jovem adulto perdido em suas ambições profissionais e sentimentais, e que fica dividido entre o amor de duas mulheres de gerações diferentes. Porém, apesar da semelhança temática, há uma grande desvantagem em relação ao drama romântico lançado em 1996: o cineasta Matt Reeves não é Nichols, e tampouco David Schwimmer - seu protagonista - tem o carisma de Dustin Hoffman. Dito isso, até dá para arriscar uma sessão descompromissada, já que o resultado final é bastante simpático, ainda que pouco memorável. E de quebra, pode-se ter contato com o começo das carreiras de dois atores que, logo em seguida, se tornariam internacionalmente famosos e celebrados.

O filme começa quando o jovem Tom Thompson (David Schwimmer) recebe o telefonema de uma mulher chamada Ruth Abernathy (Barbara Hershey), que, em luto, lhe comunica a morte do filho que, segundo ela, foi seu melhor e mais querido amigo na escola. O problema é que Tom não consegue lembrar quem é o rapaz e se deixa levar pela situação, com medo de magoar uma mãe desesperada. O encontro dos dois acaba evoluindo para uma relação um tanto incômoda, mas, passivo, Tom não vê modos de encerrá-la. A situação muda de figura, no entanto, com a chegada de Julie DeMarco (Gwyneth Paltrow), que retorna à cidade depois do fim de um relacionamento conturbado. Apaixonado por Julie desde sempre, Tom se surpreende quando as coisas começam a andar entre eles - mas para ficar de vez com aquela a quem considera o amor de sua vida, precisa resolver a questão pendente com Ruth, cada vez mais carente. Nesse meio-tempo, os dois melhores amigos de Tom passam por outros momentos cruciais de suas vidas: Scott (Michael Vartan) está em crise no casamento com Cynthia (Toni Collette), e Brad (Michael Rapaport) finaliza os preparativos para a união com a dominadora Lauren (B Bitty Schram).

David Schwimmer - ainda nas primeiras temporadas do fenômeno "Friends" - já demonstra, em alguns momentos, os trejeitos que tanto funcionava em seu Ross Geller: o olhar triste e o talento para o humor físico. Por sua vez, Gwyneth Paltrow - que ganharia um dos Oscar mais discutíveis da história três anos mais tarde - pouco tem a fazer a não ser desfilar sua figura elegante pela cela e tentar transmitir os sentimentos de uma personagem insossa e inexplicavelmente alvo de uma paixão avassaladora. São os dois, bastante jovens, que sustentam uma trama que dá voltas e mais voltas até chegar a um final anticlimático, que apenas valoriza o talento da sempre ótima Barbara Hershey. O elenco coadjuvante - que conta com uma subaproveitada Toni Collette e a divertida Carol Kane - muitas vezes se sobressai diante da apatia dos dois protagonistas e da aparente falta de energia da direção de Reeves, que anos depois encontraria um caminho mais bem-sucedido ao comandar filmes de ação, como "Planeta dos Macacos: Origem" (2014) e "The Batman" (2022). O roteiro, coescrito pelo cineasta, até tenta levantar questões sobre a juventude americana do final do século XX (e sua falta de norte em relação ao futuro), mas assim como acontece com o romance central, não há liga, e tudo parece meio fora de lugar. Ao buscar o equilíbrio entre drama, humor e romance, Reeves tropeça na própria ambição e entrega menos do que suas pretensões.

Mas não se pode dizer, afinal de contas, que "O primeiro amor de um homem" é um filme ruim. É irregular, não atinge todas as notas a que se propõe e está longe de ser memorável, mas de certa forma apresenta uma honestidade e uma delicadeza ao lidar com seus personagens e seus dilemas que deixa seus pecados mais facilmente perdoáveis. David Schwimmer nitidamente tenta dar o melhor de si - e seu esforço acaba recompensado em algumas cenas bastante tocantes (em especial quando divide o momento com Hershey). Se não chega aos pés do inesquecível drama de Mike Nichols também não chega a ser vexaminoso ou dispensável. Pode-se até ser classificado como um agradável (se não profundo) estudo sobre as relações humanas da tão falada Geração X. Vale uma sessão da tarde, desde que sem maiores expectativas.

domingo

HOMEM DE FERRO 2


HOMEM DE FERRO 2 (Iron Man 2, 2010, Paramount Pictures/Marvel Studios, 124min) Direção: Jon Favreau. Roteiro: Justin Theroux, personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Dan Lebental. Música: John Debney. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Lauri Gaffin. Produção executiva: Louis D'Esposito, Susan Downey, Jon Favreau, Alan Fine, Stan Lee, David Maisel, Denis L. Stewart. Produção: Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Mickey Rourke, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson, Jon Favreau, Don Cheadle, Sam Rockwell, John Slattery, Clark Gregg, Paul Bettany, Kate Mara. Estreia: 26/4/2010

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

Não foi surpresa para ninguém quando, mesmo com o primeiro "Homem de ferro" ainda em cartaz, um segundo capítulo foi confirmado pela Marvel. Com uma renda doméstica superior a 300 milhões de dólares (e uma bilheteria mundial de quase o dobro), a adaptação das aventuras de Tony Stark, o bilionário tornado super-herói, deu o pontapé inicial para a criação de um universo cinematográfico próprio, que daria origem a uma série de filmes extremamente bem-sucedidos em termos comerciais e de crítica. Confirmando a regra de quem em time que está ganhando não se mexe, o estúdio manteve Jon Favreau na direção, Robert Downey Jr. no papel-título (dessa vez com um salário compatível com sua importância no projeto) e Gwyneth Paltrow na pele de sua secretária/interesse amoroso Pepper Potts. A única baixa foi a substituição de Terrence Howard por Don Cheadle - uma intriga de bastidores que foi assunto por um bom tempo em publicações sobre o tema. Com um orçamento um pouco mais generoso que o primeiro filme e as expectativas nas alturas, "Homem de ferro 2" chegou às telas na primavera norte-americana de 2010 e, novamente para nenhuma surpresa, transformar-se em um dos campeões de bilheteria do ano. A boa notícia é que, apesar de seguir quase à risca o manual de roteiros de Hollywood, o filme de Favreau conseguiu manter o frescor do material original e revelou-se um entretenimento à altura, graças, em boa parte, ao enxuto e bem estruturado roteiro de Justin Theroux

Indicado por Downey Jr., com quem havia trabalhado no script da comédia "Trovão tropical" (2009), Theroux teve a vantagem de não precisar voltar às origens do personagem, tão bem contadas no primeiro capítulo. Dessa vez, a história se ampara em três frentes: na primeira, Stark precisa lidar com a pressão do governo norte-americano que insiste para que ele compartilhe de sua tecnologia para colaborar na defesa do país. Na segunda, ele se vê frente a frente com o desgaste de sua saúde, prejudicada por sua exposição ao material radoiativo que o mantém vivo. E, por fim, uma parte do passado de sua família vem à tona quando o físico russo Ivan Vanko - filho de um cientista que fora sócio de seu pai nas indústrias Stark - chega ao país para unir-se a Justin Hammer, seu principal rival nos negócios, e vingar-se do fato de ter sido deportado do país, acusado de traição. As três tramas caminham paralelamente durante o filme, para se encontrarem no ato final - que consegue ser mais empolgante que o original graças aos efeitos indicados ao Oscar e por sua integração natural ao enredo.


 E se a saída de Terrence Howard por questões salariais e artísticas - o estúdio sugeriu um corte de 80% do seu cachê, em relação ao primeiro filme, quando o ator teve um pagamento maior que o de Robert Downey Jr., e diminuição de seu personagem devido à insatisfação do diretor com seu desempenho - os acréscimos a essa segunda parte da saga do Homem de Ferro fizeram a festa para os espectadores.Na pele do principal vilão, Ivan Vanko, o primeiro acerto: em alta depois de sua indicação ao Oscar de melhor ator por "O lutador" (2008), Mickey Rourke entrou no elenco como um grande atrativo - mas depois da estreia reclamou a quem quisesse ouvir que suas melhores cenas haviam sido cortadas, e que tal situação havia tornado inútil toda a sua preparação anterior às filmagens (o que incluiu uma viagem à Rússia e treinamento físico específico). Para viver o rival de Stark, o empresário Justin Hammer, a escolha inicial de escalar Al Pacino foi substituída pela presença de Sam Rockwell, mais jovem e de maior diálogo com a plateia juvenil. E por fim, o melhor da festa: a presença de Scarlett Johansson como Natasha Romanov - que, como todo fã dos quadrinhos sabe, é o nome civil da Viúva Negra, personagem cuja importância vai se tornando cada vez maior no decorrer do lançamento dos outros filmes da Marvel. Anteriormente reservado para Emily Blunt, o papel ficou vago quando a atriz não conseguiu conciliar o trabalho com as filmagens de "As viagens de Gulliver", e não faltaram nomes cogitados para seu lugar: Angelina Jolie, Jessica Biel, Gemma Arterton e Jessica Alba estavam entre os boatos - assim como Natalie Portman (que depois estrelaria "Thor", de Kenneth Branagh) e Brie Larson (a Capitã Marvel em pessoa). Johansson tingiu os cabelos de ruivo, envolveu-se em treinamentos físicos antes e durante as filmagens, e surgiu como mais um elo do Homem de Ferro com a S.H.I.E.L.D. - que se tornará ponto crucial nos filmes seguintes da série.

Mais do que apenas um filme realizado para encher os cofres da Marvel - a esta altura já bem recheado -, "Homem de ferro 2" é, mais do que tudo, uma produção que estabelece ainda mais as fundações do universo cinematográfico da produtora, oferecendo ao público tudo que uma superprodução escapista e milionária pode oferecer. Tem bons momentos de humor (em boa parte graças ao carisma de Downey Jr., cada vez mais à vontade no papel principal), cenas de ação caprichadas e personagens coadjuvantes que não estão em cena como meros figurantes. Para quem gosta do gênero é um programa dos mais satisfatórios - em compensação, os detratores do cinemão comercial hollywoodiano continuarão torcendo o nariz para seus efeitos mirabolantes, piadas irônicas e mitologia própria. É uma questão de gosto - e os mais de 620 milhões de dólares arrecadados ao redor do mundo deixa bem claro que muita gente aprova as aventuras de Tony Stark.

terça-feira

HOMEM DE FERRO


HOMEM DE FERRO (Iron Man, 2008, Paramount Pictures/Marvel Studios, 125min) Direção: Jon Favreau. Roteiro: Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum, Matt Holloway, personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Dan Lebental. Música: Ramin Djawadi. Figurino: Rebecca Bentjen, Laura Jean Shannon. Direção de arte/cenários: J. Michel Riva/Lauri Gaffin. Produção executiva: Avi Arad, Peter Billingsley, Louis D''Esposito, Ross Fanger, Jon Favreau, Stan Lee, David Maisel. Produção: Avi Arad, Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Jeff Bridges, Gwyneth Paltrow, Terrence Howard, Jon Favreau, Paul Bettany, Leslie Bibb, Shaun Toub, Faran Tahir, Clark Gregg, Samuel L. Jackson. Estreia: 14/4/2008 (Sydney)

2 indicações ao Oscar: Edição de Som, Efeitos Visuais

No mundo do cinema, assim como na vida, há males que vem pra bem. Se tivesse sido realizado lá em 1990, quando surgiram as primeiras notícias a respeito, um filme estrelado pelo Homem de Ferro provavelmente não repetiria o sucesso de "Batman" (1989), dirigido por Tim Burton. Primeiro porque o super-herói da Marvel não tinha o mesmo impacto do homem morcego, e segundo - e mais importante - seu intérprete ideal ainda não estava pronto para o desafio. No começo da década de 1990, Robert Downey Jr. tateava em busca de uma personalidade artística própria e estrelava desde comédias românticas inócuas - como "O céu se enganou" (1989) - até filmes de ação pouco inspirados - a exemplo de "Air America: loucos pelo perigo" (1990), ao lado de Mel Gibson. Na década seguinte, conheceria a glória do prestígio - com uma indicação ao Oscar de melhor ator, por "Chaplin" (1992), e o início de um período em que quase sucumbiu às drogas. Foi somente depois de provar que seu talento estava intacto apesar dos altos e baixos que Downey Jr. finalmente encontrou o papel de sua vida: depois de ver o ator na comédia policial "Beijos e tiros" (2005), o ator/diretor Jon Favreau, escolhido para finalmente tocar adiante o projeto estrelado pelo multimilionário Tony Stark, encontrou nele o intérprete ideal. Era 2007, e a carreira de Downey Jr. nunca mais seria a mesma - assim como a história da Marvel no cinema.

Primeiro filme totalmente financiado da Marvel Studios - e o primeiro de um acordo com a Paramount Pictures - e rodado a um custo estimado de 140 milhões de dólares, "Homem de ferro" foi beneficiado pelo destino. Tivesse realmente sido produzido pela Universal Pictures em 1990, teria sido dirigido por Stuart Gordon, não exatamente um cineasta acostumado a grandes produções. Se mais tarde, em 1996, quando a 20th Century Fox assumiu o projeto, ele tivesse ido adiante, a presença de Nicolas Cage no papel principal poderia tanto ser um pró (ele recém havia recebido um Oscar por "Despedida em Las Vegas" e "A rocha" era um sucesso prestes a acontecer) quanto um contra (não demoraria para que Cage se tornasse um ator de apelo duvidoso nas bilheterias). Dois anos depois, foi a vez de Tom Cruise demonstrar interesse no personagem, mas novamente nada aconteceu. Em 1999, para a feliz ilusão dos cinéfilos, ninguém menos que Quentin Tarantino se viu envolvido na concepção de um roteiro e em um possível contrato como diretor, mas em seguida os direitos foram transferidos para a New Line Cinema e, com eles tal possibilidade. Joss Whedon, fã do personagem e diretor de episódios de séries de televisão, como "Buffy: a caça-vampiros", chegou perto de finalmente dar uma cara a Stark e companhia - mas só se uniria de vez ao universo Marvel com "Os vingadores" (2012). A última tentativa da New Line em levar "Homem de ferro" adiante foi com Nick Cassavetes - conhecido por dramas como "Loucos de amor" (1998) e "Diário de uma paixão" (2004), porém foi somente com a retomada da Marvel que as coisas finalmente aconteceram.

 

De posse dos direitos do personagem, a Marvel percebeu que, a menos que ela mesma tomasse as rédeas, seu tão estimado projeto jamais veria a luz dos refletores. Foi assim que Jon Favreau - mais conhecido como ator - ganhou sua tão sonhada chance de assumir o comando do filme: escalado para dirigir "Capitão América: o primeiro vingador" (que só chegaria às telas em 2011), Favreau optou por contar a história do multimilionário Tony Stark em direção à glória como o aclamado Homem de Ferro, e levou o desafio a sério. Com a Industrial Light & Magic contratada para supervisionar os efeitos visuais (acabou sendo o último trabalho do mestre Stan Winston, indicado ao Oscar da categoria) e vários escritores das revistas do personagem chamados para evitar discrepâncias em relação a suas origens, Favreau acertou em mesclar um tom mais sério a uma atmosfera leve e atualizar a história. Nos quadrinhos, Stark se torna o Homem de Ferro durante sua participação na Guerra do Vietnã, mas o roteiro do filme fez uma alteração crucial para uma maior comunicação com as plateias do século XXI, e transferiu parte da ação para o Afeganistão. Acertando em cheio em aproximar protagonista e público, Favreau teve ainda mais sorte em contar com Downey Jr. na pele de Tony Stark, um milionário filantropo, mulherengo, amante de aventuras e inventor - baseado no empresário Howard Hughes - que, depois de escapar por pouco de ser morto por um grupo terrorista, passa a se dedicar a aprimorar sua armadura de Homem de Ferro com o objetivo de lutar contra o mal.

Downey Jr. - que recebeu módicos 500 mil dólares por seu trabalho, menos inclusive do quanto foi pago a Terrence Howard, seu colega de elenco - é o corpo e a alma de "Homem de ferro". Mesmo ao lado de nomes fortes como Jeff Bridges, ele conduz o ritmo e o tom quase debochado do filme, conquistando o público sem fazer muito esforço. Clive Owen e Hugh Jackman - que chegaram a ser cogitados para o papel - podem ser excelentes atores, mas Downey nasceu para viver o Homem de Ferro, segundo palavras de seu próprio criador, Stan Lee. Seu talento não apenas para dar vida ao personagem, mas também para improvisar boa parte de suas falas durante as filmagens - para desespero do ortodoxo Bridges e da premiada Gwyneth Paltrow, que interpreta Pepper Potts, secretária e interesse romântico do herói - justifica o sucesso do filme junto à crítica e às mais exigentes plateias. O roteiro pode não apresentar nada de novo (em especial aos fãs dos quadrinhos) e os efeitos visuais não chegam a surpreender, mas o desempenho do ator, que teve sua carreira retomada com gás total, é motivo mais que suficiente para que até mesmo o espectador menos interessado no gênero dê uma conferida. É entretenimento de primeira, e o pontapé inicial da vitoriosa criação do Universo Cinematográfico Marvel!

sexta-feira

TERAPIA DO SEXO

TERAPIA DO SEXO (Thanks for sharing, 2012, Class 5 Films/Olympus Pictures, 112min) Direção: Stuart Blumberg. Roteiro: Stuart Blumberg, Matt Winston. Fotografia: Yaron Orbach. Montagem: Anne McCabe. Música: Christopher Lennertz. Figurino: Peggy Schnitzer. Direção de arte/cenários: Beth Mickle/Lisa K. Nilsson. Produção executiva: Edward Norton. Produção: Miranda de Pencier, David Koplan, William Migliore, Leslie Urdang, Dean Vanech. Elenco: Mark Ruffalo, Gwyneth Paltrow, Tim Robbins, Josh Gad, Joely Richardson, Alecia Moore (Pink), Patrick Fugit, Carol Kane, Emily Meade. Estreia: 08/9/12 (Festival de Toronto)

Uma pista para se descobrir o que se pode esperar da comédia dramática "Terapia do sexo" é o nome de seu diretor e corroteirista Stuart Blumberg. Indicado ao Oscar de roteiro original por "Minhas mães e meu pai" - que escreveu com a diretora do filme, Lisa Cholodenko - Blumberg parece ter com seus personagens um carinho e um respeito que torna quase impossível à plateia ser-lhes indiferente. Ao construir sua trama em torno de três viciados em sexo em estágios diferentes do problema, ele não apenas fala de um assunto ainda pouco explorado no cinema como humaniza os protagonistas, aproximando cada um deles, com seus erros e acertos, de qualquer espectador. Esse cuidado é que faz toda a diferença: seu filme de estreia pode não ser uma obra-prima, mas é agradável, despretensioso e, o que não é nada desprezível, conta com um elenco acima de qualquer suspeita.

Mark Ruffalo - que concorreu ao Oscar de coadjuvante por "Minhas mães e meu pai" - é, de certa forma, o centro da história. Ele interpreta Adam, um viciado em sexo que comemora o quinto aniversário de sobriedade mantendo absoluto controle sobre as tentações que o cercam (não assiste televisão, não tem acesso à Internet e ainda frequenta as reuniões de seu grupo de apoio). Seu padrinho é Mike (Tim Robbins), que superou os vícios em sexo e álcool mas não consegue manter uma relação saudável com o filho Danny (Patrick Fugit), que se afastou da família por causa das drogas e retorna afirmando estar limpo há oito meses. Ao contrário dos dois, porém, o jovem Neil (Josh Gad) ainda está nos primeiros passos do tratamento: médico que tem sua carreira prejudicada por seu vício, ele tem dificuldades de abandonar sua rotina de masturbação compulsiva e assédios no metrô. Seguindo esses três personagens, a trama acompanha também suas vitórias e derrotas pessoais, sem esquecer de outras personagens que lhes servem de apoio.


Sentindo-se confiante em recomeçar sua vida, Adam conhece e se apaixona por Phoebe (Gwyneth Paltrow), sobrevivente de um câncer de mama que dedica seus dias à alimentação saudável e aos treinos para um triatlo. Mike conta com a compreensão incondicional de Katie (Joely Richardson), a esposa que o perdoou pelos erros do passado e tenta lidar com sua dificuldade de expressar afeto pelo único filho. E Neil encontra em outra paciente do grupo de apoio, Dede (a cantora Pink, creditada como Alecia Moore), uma relação calcada na amizade e no companheirismo que ajuda a ambos a superar seus problemas e descobrir uma nova forma de viver com eles. Todas essas relações - familiares, amorosas, de amizade - mostram que é a ajuda dos outros que faz de cada um uma pessoa melhor. E é esse otimismo outro ponto positivo de "Terapia do sexo".

Optando por fugir da densidade psicológica de "Shame" - dirigido por Steve McQueen, estrelado por Michael Fassbender e que também tinha o vício em sexo como tema central - Stuart Blumberg tempera seu filme com pitadas de humor (em especial na relação entre Josh Gad e Pink), referências à cultura popular contemporânea e um visual claro e ensolarado que contrasta com o peso que o drama de seus personagens exige. O elenco acerta o tom proposto pelo diretor - nem um dramalhão sofrido nem uma comédia rasgada - e tira de letra todas as nuances dos protagonistas, que, como afirmado anteriormente, soam como pessoas reais, com todas as idiossincrasias a que tem direito. Não é um grande filme - nem tem pretensões quanto a isso - mas é um entretenimento honesto e bem realizado, que demonstra o talento de Blumberg em contar histórias sobre gente como a gente. Que venham as próximas!

terça-feira

CONTÁGIO

CONTÁGIO (Contagion, 2011, Warner Bros, 106min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Scott Z. Burns. Fotografia: Peter Andrews (Steven Soderbergh). Montagem: Stephen Mirrione. Música: Cliff Martinez. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Cindy Carr. Produção executiva: Jonathan King, Michael Polaire, Jeff Skoll, Ricky Strauss. Produção: Gregory Jacobs, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Matt Damon, Jude Law, Kate Winslet, Marion Cottilard, Gwyneth Paltrow, Laurence Fishburne, Jennifer Ehle, John Hawkes. Estreia: 03/9/11 (Festival de Veneza)

Quando surgiu no mundo do cinema, em 1989, com seu independente “sexo, mentiras e videotape” – que ganhou a Palma de Ouro em Cannes e foi indicado ao Oscar de roteiro original – o cineasta Steven Soderbergh foi louvado como um gênio que poderia renovar o sangue do cinema americano. Com o tempo, ele tanto deu com os burros n’água com produções pretensiosas – “Kafka” (91), por exemplo – como assinou sucessos de bilheteria apenas divertidos – “Onze homens e um segredo” (01) e suas continuações, “Erin Brockovich: uma mulher de talento” (00), que deu o Oscar à Julia Roberts e “Magic Mike” (02), que apesar do êxito comercial é indigno de seu talento. No meio do caminho, filmes muito bons, como “Irresistível paixão” (98) e “Traffic” (00), que lhe rendeu uma estatueta de melhor diretor. Em uma carreira de altos e baixos constantes, “Contágio” fica no meio-termo: não é um filme marcante ou memorável nem tampouco um desastre completo. É um competente thriller médico cuja eficiência se escora mais no elenco multi-estelar do que exatamente em suas qualidades narrativas.
Na tradição de filmes que se utilizam de alguma epidemia para retratar o pânico da população, a ganância da indústria farmacêutica, o descaso das autoridades e o suspense inerente a tantos elementos, Soderbergh criou um produto que mantém a atenção da plateia do primeiro ao último minuto – quando enfim completa o quebra-cabeças cuja primeira peça é lançada na cena inicial – fazendo a intersecção de diversas histórias paralelas ao redor do mundo. Mal comparando, é um “Babel”, de Alejandro González Iñarrítu, mas com viés científico e um elenco tão repleto de estrelas que faz lembrar os filmes-catástrofes dos anos 70, como “Inferno na torre” (74) e “O destino do Poseidon” (75). A vantagem é que Soderbergh, apesar dos tropeços, é um diretor bem mais competente que a média mesmo em produções mais comerciais e menos autorais. Assim como fez em “Traffic” – que também levou as estatuetas de roteiro adaptado, montagem e ator coadjuvante (Benicio Del Toro) – ele demonstra um soberbo senso de ritmo e grande segurança na condução de seus atores, o que faz da missão de se assistir à “Contágio” um prazer mesmo que a história não seja das mais animadoras.
A trama começa em Hong Kong, mostrando os últimos momentos da executiva norte-americana Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow) antes de sua volta para casa, depois de uma viagem profissional que lhe deu a oportunidade inclusive de reencontrar um antigo romance. Antes mesmo que ela chegue em Minneapolis, sua cidade natal, o filme já mostra o que vem pela frente: um grupo de pessoas, em países diferentes (Inglaterra, Japão, EUA, China), se torna vítima de uma doença desconhecida, com sintomas de gripe comum, que leva à morte em poucas horas. Não demora para que a própria Beth – assim como seu filho de seis anos de idade - entre para as estatísticas, para desespero de seu marido, Mitch (Matt Damon). Sem querer alarmar a população, organizações médicas começam a investigar a origem da doença, com profissionais de várias partes do mundo buscando encontrar formas de prevenção e respostas imediatas, como modos de contágio e tempo de encubação. Enquanto correm contra o relógio, o blogueiro Alan Krumwiede (Jude Law), de São Francisco alerta seus leitores para uma provável conspiração do governo para impedir que a população saiba do que realmente está por trás da trágica epidemia.


O tema principal de “Contágio” é a busca desesperada da comunidade médica pelas respostas cada vez mais fugidias a respeito do vírus – o que não impede o roteiro de tocar em temas como a irresponsabilidade da mídia, o declínio da civilidade diante de uma crise e a desigualdade social e econômica. Porém, peca por não desenvolver a contento nenhum desses pontos da trama, preferindo ater-se a um suspense que nem sempre funciona, ainda que disfarçado por uma fotografia inteligente (em tons amarelados na trama médica e em tonalidades frias quando retrata as consequências cada vez mais tenebrosas da doença). A edição do veterano Stephen Mirrione – premiado por “Traffic”, também um filme calcado em tramas paralelas – dá espaço igual a todos os personagens, mas mesmo assim por vezes é impossível à plateia realmente se conectar com eles devido à agilidade um tanto exagerada da narrativa. Assim, o drama de Mitch e sua filha adolescente – surpreendentemente imunes ao vírus, mas impedidos de travar qualquer tipo de contato normal com o restante da população – acaba por se tornar, em muitos momentos, muito mais interessante do que as investigações promovidas pelas médicas Leonora Orantes (Marion Cottilard) – que viaja à Ásia representando a OMS e acaba pega como refém por um grupo popular desesperado por uma vacina – e Erin Mears (Kate Winslet) – que segue os passos de Beth Emhoff em busca da origem de tudo. Cottilard e Winslet são atrizes espetaculares e quando entram em cena engolem tudo à sua volta, mas não são capazes de desenvolver a contento seus papéis, graças principalmente ao roteiro superficial.
O roteiro é culpado, também, de não dar a Jude Law e seu personagem um espaço maior: a trama do blogueiro que tenta alertar a população a respeito do descaso do governo em relação às vacinas experimentais e sobre a ganância das indústrias farmacêuticas é empolgante, mas intercalada com as demais ramificações da história, perde o pique e o ritmo, tornando-se apenas uma série de conversas e discussões éticas e morais – seja com o médico Ellis Cheever (Laurence Fishburne) ou com o cientista Ian Sussman (Elliot Gould), que ignora ordens superiores para abandonar as pesquisas e se torna, juntamente com a dra. Ally Hextall (Jennifer Ehle), um dos principais responsáveis pelos avanços rumo à cura. Enquanto Law surge como o olhar questionador do caos, Matt Damon representa o público comum, jogado no meio de um tornado sem ter respostas ou orientações. Fatalista como os bons filmes do gênero, “Contágio” ainda arruma espaço, em seus minutos finais, para culpar o ser humano por toda a situação – um recado que não apenas faz sentido em um período tão ecologicamente alerta quanto imprime ao filme um tom ainda mais dramático e assustador, apropriado ao tema e coerente com o discurso desenvolvido pelo roteiro – que, sem diálogos, encerra o filme deixando o espectador com uma sensação desconfortável. Um tiro certeiro que torna perdoáveis seus pequenos pecados narrativos.
No final das contas, “Contágio” cumpre o que promete: é um suspense médico eficiente na tensão e apresenta um elenco de cair o queixo, que inclui também os indicados ao Oscar John Hawkes e Bryan Cranston (de “Breaking bad”). É um filme de primeira linha, realizado por um cineasta de comprovada competência e com uma história aterrorizante que, apesar do tema pouco atraente, cativa a plateia até o seu desfecho. Soderbergh já fez melhor, mas não deixa de ser um programa acima da média.  

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