TESTEMUNHA FATAL (Eyewitness, 1981, 20th Century Fox, 103min) Direção: Peter Yates. Roteiro: Steve Tesich. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Cynthia Scheider. Música: Stanley Silverman. Figurino: Hilary Rosenfeld. Direção de arte/cenários: Phillip Rosenberg/Gary J. Brink, Edward Stewart. Produção: Peter Yates. Elenco: William Hurt, Sigourney Weaver, Christopher Plummer, James Woods, Morgan Freeman, Pamela Reed. Estreia: 13/02/81
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quarta-feira
TESTEMUNHA FATAL
TESTEMUNHA FATAL (Eyewitness, 1981, 20th Century Fox, 103min) Direção: Peter Yates. Roteiro: Steve Tesich. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Cynthia Scheider. Música: Stanley Silverman. Figurino: Hilary Rosenfeld. Direção de arte/cenários: Phillip Rosenberg/Gary J. Brink, Edward Stewart. Produção: Peter Yates. Elenco: William Hurt, Sigourney Weaver, Christopher Plummer, James Woods, Morgan Freeman, Pamela Reed. Estreia: 13/02/81
segunda-feira
VIAGENS ALUCINANTES
VIAGENS ALUCINANTES (Altered states, 1980, Warner Bros, 102min)
Direção: Ken Russell. Roteiro: Paddy Chayefsky (como Sidney Aaron),
romance de sua autoria. Fotografia: Jordan Cronenweth. Montagem: Eric
Jenkins. Música: John Corigliano. Figurino: Ruth Myers. Direção de
arte/cenários: Richard McDonald/Thomas Roysden. Produção executiva:
Daniel Melnick. Produção: Howard Gottfried. Elenco: William Hurt, Bob
Balaban, Blair Brown, Charles Haid, Drew Barrymore. Estreia: 25/12/80
2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Som
Só mesmo quem não conhecia a obra pregressa do cineasta britânico Ken Russell poderia esperar que seu primeiro filme em Hollywood poderia ser algo diferente de "Viagens alucinantes": baseado em romance de Paddy Chayefsky publicado em 1978, sua estreia no cinema norte-americano é um mergulho sem freios em experiências lisérgicas, obsessão e, surpreendentemente, uma história de amor - que muitos interpretaram com uma releitura do mito de Orfeu e Eurídice, uma atualização de Dr. Jekyll e Mr. Hyde ou até com intenções religiosas. O fato é que, independente de qualquer ponto de vista, o filme fracassou nas bilheterias - nenhum choque, haja visto seu tema e o nome de Russell nos créditos - e, com o tempo, tornou-se uma espécie de cult movie, valorizado pela presença de William Hurt (em seu primeiro trabalho no cinema) e pela coragem do cineasta em explorar, com um visual exuberante e incômodo, um assunto que nem as mais radicais produções de ficção científica ousaram.
O roteiro - adaptado pelo próprio Chayefsky, que renegou o resultado final apesar de sua fidelidade ao material original - não era exatamente do agrado de Ken Russell, que embarcou no projeto após a desistência de Arthur Penn. Segundo Russell, o script era pesado, pretensioso e rebuscado demais, e o trabalho entre os dois profissionais esteve longe do ideal durante as filmagens, a ponto de o roteirista ser banido do set e ter tentado a demissão do diretor. Quando Chayefsky preferiu desligar-se do projeto (e assinar o roteiro com o pseudônimo de Sidney Aaron), o filme parecia já estar condenado, e o péssimo resultado nas bilheterias ajudou a relegar Ken Russell (que, segundo dizem, passou boa parte da produção sob o efeito de álcool) a uma espécie de limbo na indústria hollywoodiana. A morte de Chayefsky - que ganhou um Oscar pelo roteiro de "Hospital" (1971) -, poucos meses da estreia (e do fracasso) de "Viagens alucinantes" também não colaborou para o histórico do filme, apesar dos elogios da revista Time, que o elegeu um dos dez melhores do ano, e das duas indicações (técnicas) ao Oscar.
A trama concebida por Chayefsky já é, em si, bastante ousada: seu protagonista é o cientista e professor de psicologia Edward Jessup (William Hurt), um profissional brilhante mas pouco afeito às convenções impostas pela Medicina tradicional. Ambicioso em suas pesquisas alucinógenas, ele resolve, à revelia de seus superiores, fazer de si mesmo uma cobaia no uso de drogas em uma câmara de isolamento. Logo no começo ele consegue atingir regiões profundas da mente. Anos depois, já separado da também cientista Emily (Blair Brown) - que não consegue lidar com a obsessão do marido -, Jessup tem contato com rituais sagrados no México e com a utilização de drogas xamânicas. Tal novidade faz com que suas novas experiências fiquem ainda mais intensas: a cada sessão o audacioso professor vai ainda mais longe em suas viagens, chegando a formas progressivamente mais primárias de vida. O que muitos consideravam então simples alucinações começa a assustar seus colegas e familiares.
Produzido pela Warner depois que a Columbia Pictures desistiu do projeto por seu custo acima do esperado, "Viagens alucinantes" é, provavelmente, um dos melhores trabalhos de Ken Russell, mais conhecido pelo musical "Tommy" (1975) e por suas cinebiografias dos compositores Liszt, Mahler e Tchaicovsky. Com seu visual exuberante - influenciado por Magritte e Salvador Dalí - e uma trama consistente e frequentemente aflitiva, seu filme não apenas demonstra uma maturidade temática, mas confirma seu talento na direção de atores, que seria confirmado em sua produção seguinte, "Crimes do coração" (1984), estrelado por Anthony Perkins e Kathleen Turner: com um desempenho brilhante de William Hurt, que deixa verossímeis as teorias mais intrincadas, Russell ainda encontra espaço para trabalhar com efeitos visuais impressionantes que, ao contrário de atrapalhar, servem à história com uma inteligência ímpar. Injustamente esquecido pelo grande público, "Viagens alucinantes" é uma pequena obra-prima da ficção científica - e merece ser redescoberto e alçado à sua condição de clássico do gênero.quinta-feira
O BEIJO DA MULHER-ARANHA
O BEIJO DA MULHER-ARANHA (Kiss of the Spider Woman, 1985, HB Filmes/FilmDallas Pictures, 120min) Direção: Hector Babenco. Roteiro: Leonard Schrader, romance de Manuel Puig. Fotografia: Rodolfo Sanchez. Montagem: Mauro Alice. Música: John Neschling, Nando Carneiro. Figurino: Patrício Bisso. Direção de arte/cenários: Clovis Bueno. Produção executiva: Francisco Ramalho Jr.. Produção: David Weisman. Elenco: William Hurt, Raul Julia, Sonia Braga, José Lewgoy, Milton Gonçalves, Miriam Pires, Herson Capri, Nuno Leal Maia, Denise Dummont, Antonio Petrin, Wilson Grey, Miguel Falabella, Patrício Bisso. Estreia: 13/5/85 (Festival de Cannes)
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Hector Babenco), Ator (William Hurt), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (William Hurt)
Melhor Ator (William Hurt) no Festival de Cannes
Levando-se em consideração a profusão de problemas em sua produção, não deixa de ser admirável o grande sucesso de crítica alcançado por "O beijo da mulher-aranha", até hoje o único filme brasileiro a ser indicado ao Oscar de melhor filme. Adaptado do célebre romance do argentino Manuel Puig - que também foi adaptado para os palcos como peça de teatro e posteriormente como musical - e dirigido por Hector Babenco (nascido na Argentina e naturalizado brasileiro), o filme tornou-se também a primeira produção independente a concorrer ao prêmio máximo da Academia - e deu a William Hurt sua merecida estatueta de melhor ator (que foi parar em sua prateleira ao lado das láureas do Festival de Cannes, do BAFTA, do David de Donatello - o Oscar italiano -, e dos críticos de Los Angeles e Londres). Filmado em São Paulo entre outubro de 1983 e março de 1984 - contrariando o cronograma previsto em mais de um mês - e preso a problemas de pós-produção que atrasaram seu lançamento em mais de um ano (o Festival de Nova York chegou a recusá-lo, assim como várias distribuidoras, antes que Cannes finalmente o aceitasse), o filme de Babenco foi, também, responsável pelo estabelecimento de Sônia Braga como estrela internacional - ela foi indicada ao Golden Globe de melhor atriz coadjuvante e foi uma das apresentadoras do Oscar 1986.
Mesmo falando inglês foneticamente - ainda não dominava o idioma à época das filmagens -, Sonia é uma das maiores qualidades do filme de Babenco: linda, sexy e dotada de um ar misterioso que sublinha o tom onírico do roteiro, ela transita pela história criada por Puig (e adaptada por Leonard Schrader, irmão do cineasta Paul) na pele de três personagens distintas, e serve como unidade dramática a uma trama que se utiliza da fantasia como forma de sobreviver à dureza da realidade. Com fortes tons políticos - bem-vindos em um período em que o Brasil saía de uma ditadura militar, que também corroeu vários países da América do Sul, como a própria Argentina - e a coragem de ter como protagonistas um homossexual assumido e um preso político, "O beijo da mulher-aranha" é um marco inquestionável do cinema nacional, mesmo com seus defeitos (perdoáveis quando postos em perspectiva).
Com um orçamento restrito a ponto de William Hurt e Raul Julia concordarem em trabalhar pelas passagens aéreas e hospedagem em São Paulo, a produção de "O beijo da mulher-aranha" se viu sem dinheiro para a pós-produção, tão logo as filmagens (atrasadas) acabaram. Em nada ajudava o fato de Babenco e o produtor David Weisman brigarem constantemente durante a fase de edição - a ponto de obrigar o roteirista, Leonard Schrader, a viajar ao Brasil para impedir maiores estragos. A maior dificuldade enfrentada pelo editor, Mauro Alice, era conectar a história principal com as sequências que materializavam os filmes narrados por um dos protagonistas - um problema que explodiu logo depois do término do processo, quando tanto Hurt quanto Julia desgostaram profundamente do resultado. Hurt - não exatamente um ator de personalidade fácil - chegou a cogitar a ideia de comprar os negativos para queimá-los e impedir seu lançamento. Para sorte de todos, porém, as coisas se acalmaram com o tempo, e a estreia, no Festival de Cannes, começou a mostrar que o filme estava no caminho certo: Hurt levou seu primeiro prêmio e pavimentou sua trajetória rumo ao Oscar. Nada mal para um intérprete que não era exatamente a escolha ideal do diretor.
Hector Babenco não considerava Hurt a opção ideal para viver Luis Molina, um homossexual condenado por corrupção de menores e que divide a cela com Valentin Aguerri (Raul Julia), um preso político com quem tem uma relação a princípio distante e posteriormente de admiração, respeito e amor. Burt Lancaster, a escolha original, porém, já não tinha mais idade para o papel, e Hurt, já devidamente considerado um grande ator, soava norte-americano e saudável demais para ser convincente. Na primeira leitura, no entanto, o cineasta mudou de ideia - e, apesar do sucesso de sua escolha, teve bons motivos para quase arrepender-se da decisão: em determinado ponto das filmagens, ator e astro não se falavam diretamente, com seus gênios fortes impedindo a tranquilidade da relação. Além disso, constantes mudanças no roteiro incomodavam o ator - que, no entanto, era considerado um exemplo de dedicação ao trabalho, ao lado de seu colega de cena. Tanto empenho fica claro quando se assiste ao produto final: apesar do ótimo trabalho de Raul Julia, é Hurt quem rouba a cena e engole tudo à sua volta, em uma interpretação antológica e inesquecível. Molina é um personagem complexo, difícil e, em mãos erradas, bastante propensa à caricatura e ao exagero: com extrema sensibilidade, Hurt entrega uma performance jamais previsível.
É difícil não perceber alguns problemas sérios em "O beijo da mulher-aranha", uma produção nitidamente modesta, tanto em termos visuais quanto técnicos. Porém, a inteligência do roteiro - que dá pistas sobre a relação entre os dois protagonistas através das histórias contadas pelo romântico Molina, lindamente fotografadas por Rodolfo Sanchez - e o talento superlativo de seus intérpretes principais (Sonia Braga incluída) fazem dele um capítulo indispensável na história do cinema brasileiro, que, a despeito de seu crescimento artístico, ainda não voltou a figurar entre os escolhidos da Academia na disputa por seu prêmio máximo.
segunda-feira
O INCRÍVEL HULK
O INCRÍVEL HULK (The Incredible Hulk, 2008, Universal Pictures/Marvel Enterprises, 112min) Direção: Louis Leterrier. Roteiro: Zak Penn, personagens criados por Stan Lee, Jack Kirby. Fotografia: Peter Menzies Jr.. Montagem: Rick Shaine, Vincent Tabaillon, John Wright. Música: Craig Armstrong. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Kirk M. Petrucelli/Monica Delfino, Carolyn "Cal" Loucks, Monica Rochlin. Produção executiva: Stan Lee, David Maisel, Jim Van Wyck. Produção: Avi Arad, Kevin Feige, Gale Anne Hurd. Elenco: Edward Norton, Liv Tyler, William Hurt, Tim Roth, Tim Blake Nelson, Ty Burrell. Estreia: 08/6/08
Em 2003 os fãs de quadrinhos foram surpreendidos com "Hulk", um olhar bastante peculiar sobre um dos personagens mais queridos e populares da Marvel: sob a direção do premiado Ang Lee (acostumado a assinar produções mais artísticas, como "Razão e sensibilidade", de 1995, e "O tigre e o dragão", de 2000, pelo qual levou seu primeiro Oscar), o super-herói verde tornou-se protagonista de um filme de ação com tendências existencialistas e, apesar da bilheteria mundial acima de 245 milhões de dólares, não chegou a entusiasmar o público e dividiu a crítica. As chances de uma sequência no mesmo tom cerebral, escrita por James Schamus - colaborador habitual de Lee - acabaram sendo abandonadas em 2005, no entanto, quando a Universal Pictures devolveu os direitos do personagem à Marvel. Já dedicada a criar seu Universo Cinematográfico, a Marvel aproveitou a oportunidade para dar uma nova chance ao cientista Bruce Banner e seu monstruoso alterego - com um viés mais próximo de suas pretensões comerciais e possibilidades mais concretas de fazer dele parte de um projeto maior. Para isso, não apenas Ang Lee foi dispensado da função de diretor - em uma estratégia corajosa, o estúdio aproveitou a recusa de Eric Bana em retornar ao papel-título para, ao invés de recomeçar do zero, fazer de "O incrível Hulk" uma mistura entre um reboot e uma continuação. Pode não ter repetido o êxito de "Homem de ferro" (2008) - primeiro filme do ambicioso plano da Marvel e sucesso imenso de bilheteria -, mas marcou presença de forma nada desprezível.
A saída de Bana do projeto abriu a porta para perspectivas interessantes - e nomes como Matthew McConaughey, David Duchovny (da série "Arquivo X") e Dominic Purcell (astro de "Prision break") foram cogitados para assumir a liderança do elenco. Em uma espécie de clarividência, o novo diretor, o cineasta francês Louis Leterrier, chegou a propor, sem sucesso, o nome de Mark Ruffalo para o papel principal, mas foi voto vencido junto aos executivos da Marvel: poucos anos depois Ruffalo tornou-se o mais celebrado intérprete do personagem mesmo sem ter um filme-solo. A recusa da Marvel em aceitar Ruffalo em "O incrível Hulk" tinha uma razão, no entanto, e bem forte: sua preferência por Edward Norton, fã dos quadrinhos e um ator de prestígio o suficiente para garantir a boa vontade da crítica e de parte do público avesso a filmes-evento. Apesar de conhecido por seu gênio forte - e por sua interferência nas decisões criativas dos filmes dos quais participava -, Norton já tinha duas indicações ao Oscar no currículo e não era um ator que se prestava facilmente a produções comerciais: sua presença seria um belo chamariz e deixaria bastante claro a todos a intenção da Marvel em ser levada muito a sério.
Como era de se esperar, Norton não apenas fez sua parte como ator - reescreveu várias cenas do roteiro de Zak Penn e dirigiu algumas sequências para ajudar a manter o cronograma de filmagens. Com locações no Rio de Janeiro e Toronto fazendo o papel de Manahattan (por questões de concessões comerciais oferecidas pelo prefeito local, David Miller, fã do personagem), "O incrível Hulk" sofreu várias alterações em relação a seu primeiro filme. Não apenas no visual escolhido pelo novo diretor (um verde mais escuro e um tamanho fixo para a criatura, por exemplo), mas também em sua tentativa de fazer dele um herói trágico sem abandonar seu propósito de entreter a plateia, ávida pelos melhores efeitos visuais que um orçamento de 150 milhões de dólares podem comprar. Para isso, a trama não perde tempo em estabelecer as origens do personagem - e conta com um vilão bastante interessante, interpretado pelo sempre ótimo (e frequentemente subestimado) Tim Roth. Da mesma forma, a relação entre Banner e Betty Ross (Liv Tyler substituindo Jennifer Connelly com competência e elegância) não precisa ser estabelecida desde o princípio - seu reencontro se dá em uma cena que resume perfeitamente o equilíbrio entre drama e ação que faltou ao primeiro filme. E é claro que ter William Hurt na pele do general Ross não atrapalha em nada: fã de Hulk, assim como seu filho e Edward Norton, Hurt é mais um elemento a emprestar prestígio à produção.
"O incrível Hulk" começa nas favelas do Rio de Janeiro, onde Bruce Banner está escondido depois dos catastróficos eventos do primeiro capítulo. Buscando incessantemente uma cura para sua condição, o cientista ainda precisa lidar com o fato de que forças militares lideradas pelo General Ross estão à sua procura, já que não pretendem abandonar o resultado de anos em estudos para a criação de um super soldado. Quando Banner retorna aos EUA, conta com o apoio da namorada, Betty (que, por caprichos do destino e dos roteiristas, é filha do general), para aproximar-se de um antídoto - uma questão que o colocará em rota de colisão com um monstro de poderes similares, criado justamente para enfrentá-lo e impedir sua deserção. O embate ente os dois é o centro do filme de Leterrier - que herdou a direção do filme depois que o comando de "Homem de ferro" foi parar nas mãos de Jon Favreau - e é bastante superior, em termos técnicos e emotivos, ao trabalho de Ang Lee, além de, é claro, deixar um espaço em aberto para as inevitáveis continuações ao lado de seus colegas vingadores. "O incrível Hulk" pode não ser um filme perfeito - mas funciona às mil maravilhas como entretenimento de qualidade.
domingo
FILHOS DO SILÊNCIO
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (William Hurt), Atriz (Marlee Matlin), Atriz Coadjuvante (Piper Laurie), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Marlee Matlin)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Marlee Matlin)
Muitos anos antes que campanhas sobre inclusão fizessem parte da rotina de Hollywood, a adaptação de uma peça teatral da Broadway, lançada pela Paramount Pictures fez com que a Academia quebrasse (mais ou menos) alguns paradigmas. Menos porque, apesar de indicado aos Oscar de melhor filme, ator, atriz e roteiro, "Filhos do silêncio" ficou de fora da disputa de melhor direção - sintomaticamente, o filme era assinado por uma mulher, Randa Haines, que perdeu a vaga para David Lynch e seu "Veludo azul". Mais porque, pela primeira e única vez até hoje, a vencedora na categoria de melhor atriz foi uma jovem surda-muda estreante nas telas. Com apenas dezenove anos de idade no período das filmagens e vinte e um na cerimônia de premiação, Marlee Matlin bateu veteranas (Jane Fonda, Sissy Spacek) e estrelas em ascensão (Kathleen Turner e Sigourney Weaver) para arrebatar sua estatueta - e de quebra conquistou também seu parceiro de cena, William Hurt, com quem manteve uma relação atribulada na segunda metade da década de 1980. Seu trabalho, contundente e emocional, é o grande destaque do filme de Haines, o primeiro dirigido por uma mulher a concorrer ao Oscar principal.
Selecionada a partir de uma busca por países como EUA, Canadá, Suécia e Grã-Bretanha, a iniciante Marlee Matlin foi escolhida quase por acaso, quando os produtores a viram em uma participação na montagem da peça original, em Chicago: mesmo em um papel coadjuvante nos palcos, Matlin conquistou a atenção e a confiança do estúdio e ganhou a chance de ser a protagonista na versão cinematográfica da história, criada por Mark Medoff. O próprio Medoff co-assinou o roteiro, ao lado de Hesper Anderson, e foi indicado ao Oscar por ele. Sua trama é simples, focada em personagens fortes e um romance difícil, mas o trabalho de Matlin é surpreendente: mesmo com pouca experiência, ela transmite com brilhantismo todas as várias nuances de sua personagem, muitas vezes dispensando a tradução de sua linguagem de sinais graças à sua expressividade. Nem mesmo contracenando com William Hurt - com um Oscar fresquinho em mãos, por "O beijo da mulher-aranha" (1985) - ela se deixa intimidar, em um embate de interpretações que justifica os elogios rasgados da crítica à produção de Haines, que, a não ser por seu belo elenco, poderia facilmente ser confundida com um filme feito para a televisão.
Visualmente convencional e com uma narrativa extremamente simples, "Filhos do silêncio" se ampara em sua trama e seus personagens para conquistar o público. Não que seja muito fácil: a protagonista feminina, Sarah Norman (interpretada por Marlee Matlin) não é exatamente simpática, e não faz a menor questão em disfarçar sua agressividade em relação ao mundo à sua volta. Ela trabalha como faxineira em uma escola para surdos-mudos na Nova Inglaterra na qual ela mesma estudou quando criança - e da qual era uma das melhores estudantes. Decidida a não descobrir o vasto mundo fora de sua zona de conforto e pouco afeita à vida familiar com sua mãe (Piper Laurie, indicada ao Oscar de coadjuvante), Sarah tem suas convicções abaladas quando conhece o novo professor da instituição, James Leeds (William Hurt), que fica encantado com ela assim que a vê pela primeira vez. Apaixonado, ele tenta convencê-la a buscar mais da vida, tentar falar e conviver também com pessoas que não pertençam a seu círculo de amizades. Suas tentativas, porém, não são muito felizes, e o amor que nasce entre os dois passa a ser ameaçado pelo silêncio entre seus dois universos.
O roteiro de "Filhos do silêncio" se concentra, então, a apresentar as dificuldades que atravessam o caminho dos dois amantes. Ele fica frustrado por não poder mostrar a ela a beleza da música; ela se sente diminuída diante dos amigos dele; ele não consegue se enturmar com quem a cerca; ela o acusa de forçá-la a ser quem ela não é. As discussões entre os protagonistas são interessantes e encontram intérpretes geniais em Hurt e Matlin, mas existe um sério problema de ritmo que dificulta a entrega total do espectador. O filme leva quase duas horas para contar uma história que poderia ter uns bons trinta minutos a menos, e Sarah, apesar de ter motivos para isso, é uma personagem um tanto irascível demais para conquistar completamente o público. Concentrando-se basicamente nos dois personagens centrais, o filme perde o foco quando tenta abraçar tramas paralelas - o relacionamento de James com seus alunos é fundamental para a história, mas poderia ser mais resumido - e estender demais a resolução dos conflitos estabelecidos desde o princípio. "Filhos do silêncio" tem seus momentos, mas no geral é bastante irregular - não à toa, a Academia premiou justamente seu maior trunfo e preferiu entregar seus troféus mais importantes do ano ao polêmico "Platoon", de Oliver Stone, muito mais marcante e cinematograficamente potente.
quarta-feira
O BOM PASTOR
Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários
"O bom pastor" é um filme caro. Caro e ambicioso. Ao retratar o surgimento da CIA, através dos olhos de um de seus primeiros agentes - e fazer isso com uma narrativa sofisticada, repleta de flashbacks e numerosos personagens em quase três horas de duração -, foi também um imenso risco comercial para a Universal Pictures, que herdou o projeto da Columbia e da MGM. Com um custo estimado em 90 milhões de dólares (uma fortuna para um filme sem efeitos visuais, cenas de ação ou um protagonista de fácil reconhecimento aos olhos do público médio), o segundo filme dirigido por Robert De Niro só chegou mesmo às telas graças ao empenho de seu diretor (que o tratava como projeto de estimação há pelo menos dez anos antes de sua estreia) e ao comprometimento de Matt Damon, jovem astro então com capacidade o bastante para tocar para frente qualquer produção graças ao sucesso dos dois primeiros filmes da série Bourne. Graças à tenacidade de ambos, o filme, cujo embrião surgiu em 1994 - quando o roteirista Eric Roth, em vias de ganhar um Oscar por "Forrest Gump: o contador de histórias", de Robert Zemeckis, apresentou a ideia à Francis Ford Coppola - finalmente viu a luz dos refletores no final de 2006, e quase como a crônica de uma morte anunciada, não fez barulho nas bilheterias.
Mas se o relativo fracasso comercial de "O bom pastor" não chegou a surpreender muita gente, o que mais chamou a atenção foi a esnobada que o filme levou da Academia: típico produto que disputa os principais Oscar, foi indicado apenas à estatueta de melhor direção de arte, que perdeu para "O labirinto do fauno", de Guillermo Del Toro. Não deixa de ser uma injustiça: da fotografia espetacular de Robert Richardson à trilha sonora discreta de Marcelo Zarvos, não há nada, em termos técnicos, que não seja impecável no resultado final. A reconstituição de época caprichada, a edição inteligente, o clima de suspense e paranoia criado pela direção e as interpretações no tom exato são flagrantes até mesmo ao espectador mais exigente. O problema é que, apesar disso tudo, o roteiro peca ao não oferecer, ao público, alguém com quem se identificar. O personagem principal, Edward Wilson, não permite qualquer empatia ou diálogo com a plateia - e essa frieza, que afastou Coppola da direção (mas não da produção executiva), acaba sendo o calcanhar de Aquiles da obra, um problema que nem o carisma de Matt Damon é capaz de superar.
Damon, aliás, está muito bem no papel central, em uma interpretação que ele afirma ter se inspirado no trabalho de Gene Hackman em "A conversação" (74), coincidentemente do mesmo Coppola a quem o filme foi oferecido em primeira mão. Como bom agente secreto, o Edward Wilson criado por Damon é lacônico, distante e aparentemente inexpressivo - enquanto seu interior é um tumultuado caos. É Damon quem dá o tom de todos à sua volta, evitando qualquer passo fora do minimalismo sublinhado pelas sombras da fotografia de Richardson, que evoca com sucesso os filmes noir dos anos 40 e 50 para enfatizar a construção dramática da história contada. Com duas linhas narrativas paralelas, "O bom pastor" começa às vésperas da crise na Baía dos Porcos, em 1961, quando o governo de John Kennedy estava no auge de seu conflito com Cuba e Fidel Castro. Enquanto o roteiro mostra as tentativas de Wilson em cooperar na resolução dos problemas políticos e fugir das suspeitas de que pode ser um traidor (descobrindo o nome do verdadeiro agente duplo), flashbacks dão conta de mostrar a forma como ele chegou a seu destino, retratando desde seus dias juvenis como parte de uma fraternidade universitária que lhe forneceu contatos e atalhos para chegar a Washington, até seu casamento com Clover Russell (Angelina Jolie) - uma relação marcada pela distância que seu trabalho impunha - e o relacionamento com o único filho, Edward Jr. (Eddie Redmayne), que resolve seguir os passos do pai e também entrar na CIA, apesar de ter testemunhado toda a sua trajetória marcada pela solidão.
Bem diferente do primeiro filme dirigido por De Niro - o despretensioso "Desafio no Bronx" (94), com ecos autobiográficos -, "O bom pastor" mostra que o cineasta sabe muito bem o que faz quando se trata de dirigir atores (e são muitos, todos conhecidos do grande público, às vezes em papéis bem pequenos, mas sempre muito importantes). Falta, porém, a experiência necessária para enxugar a trama e lhe injetar um dinamismo que lhe faria muito bem. Além de necessitar de certo conhecimento da história dos EUA, o espectador ainda é soterrado de informações, nomes e datas que, mais do que empurrar a trama adiante, apenas a tornam confusa demais para quem procura entretenimento. Quando finalmente o ritmo entra nos eixos, nos vinte minutos finais, já é tarde para empolgar àqueles que não são fãs incondicionais de histórias de espionagem - ainda que talvez suas inúmeras outras qualidades possam minimizar seus pequenos defeitos. No final das contas, é um filme adulto, complexo, de narrativa elegante e alguns bons momentos de tensão. Não é tão bom quanto poderia ser, mas pode ser que, com o passar do tempo, se torne um clássico a ser descoberto.
sexta-feira
FORA DE CONTROLE
Doyle Gipson precisa chegar ao tribunal para provar ao juiz que acaba de dar entrada em uma casa onde seus filhos pequenos poderão morar com a mãe - o que evitaria que fossem de mudança com ela para longe de Nova York. Gavin Banek é um jovem e bem-sucedido advogado que também tem um compromisso importante, que fará com que sua firma (cujo principal sócio é seu sogro) assuma a administração de um fundo milionário de um cliente já morto. No meio do caminho, os dois carros batem um no outro e, na pressa, Banek deixa Gipson para trás, sem dar-lhe tempo de resolver seu grande problema - e, consequentemente, salvar-se da separação dos filhos. Porém, o destino não brinca em serviço: assim que chega no tribunal, Banek descobre que um importantíssimo documento (crucial para sua vitória) ficou nas mãos de Gipson - que, por sua vez, não tem a menor intenção de devolvê-lo antes que seu prejuízo seja sanado. Essa guerra de nervos, que retrata o tênue limite entre a civilidade e a barbárie, é o tema de "Fora de controle", dirigido por Roger Michell como seu projeto seguinte ao grande sucesso da comédia romântica "Um lugar chamado Notting Hill" (1999). Ao contrário do solar e delicado filme estrelado por Julia Roberts e Hugh Grant, porém, "Fora de controle" mostra um lado amargo, pessimista e cínico da humanidade - daí, talvez, o motivo de seu fracasso comercial nos EUA mesmo com o elenco liderado por Ben Affleck e Samuel L. Jackson. Mesmo conseguindo cobrir seu custo estimado de 45 milhões de dólares, o filme nem chegou à marca dos 70 milhões no mercado doméstico - o que também pode ser creditado ao marketing equivocado, que vendia um thriller dramático como um suspense de ação.
O trailer de "Fora de controle" realmente prometia à plateia uma trama eletrizante, com cenas repletas de tensão - e a presença de Ben Affleck, então um ator em ascensão e vindo direto de "Pearl Harbor" apenas aumentava essa impressão. O que Michell apresenta, no entanto, é um filme de ritmo bem mais lento do que o esperado, com uma pegada bem menos dinâmica e violenta do que se poderia supor. Não é um defeito - a narrativa é fluida e evita com inteligência o óbvio - mas de forma alguma se conecta com aqueles que procuram uma produção calcada em perseguições de carro, tiroteios ou a velha e boa troca de socos. A intenção do diretor (apoiado em um roteiro repleto de diálogos a respeito de ética, civilidade e tentativas de manter a esperança em um mundo com armadilhas à espreita em cada esquina) é fazer pensar, mais do que injetar adrenalina no espectador. Poderia ter dado mais certo se um dos protagonistas não fosse interpretado por Ben Affleck, notadamente um dos atores mais inexpressivos de sua geração - o que fica ainda mais evidente diante do show de seu parceiro de cena, o sempre espetacular Samuel L. Jackson.
Descoberto pelo público com sua atuação hipnotizante em "Pulp fiction: tempo de violência" (94), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, Jackson teve, a partir de então, um novo recomeço de carreira - iniciada no começo dos anos 70 e finalmente reconhecida na década de 90, graças ao cineasta Spike Lee, que lhe deu o papel de um viciado em drogas no filme "Febre da selva" (91), responsável por um prêmio de coadjuvante no Festival de Cannes (uma categoria, aliás, criada exclusivamente naquela edição do Festival e nunca mais repetida). Parceiro constante também de Quentin Tarantino - seu trabalho em "Jackie Brown" (98) resultou em um prêmio no Festival de Berlim - e dono de um típico físico marcante, o ator empresta ao desiludido mas ainda esperançoso Doyle Gipson nuances que vão se avolumando com o desenrolar da narrativa: é um homem comum que se vê sem alternativa quando vê, diante de si, a possibilidade de perder tudo que lhe é mais caro. Jackson passeia com maestria entre diferentes estados de espírito - a esperança, a raiva, o desespero, a ternura, a angústia - e leva o público junto com ele por todo o caminho. O mesmo não acontece com Affleck - que ainda tem o azar de ter ficado com um personagem bem menos gostável.
Quando fez "Fora de controle", Affleck já era um nome conhecido dos cinéfilos, graças a filmes como "Gênio indomável" (que lhe deu o Oscar de roteiro original, dividido com o amigo Matt Damon), "Armageddon" (98), "Forças do destino" (99) e "Pearl Harbor" (2001), superprodução de Michael Bay que, ao invés de tornar-se um novo "Titanic", decepcionou crítica e público. Frequentado capas de revistas mais por seus casos amorosos - com as atrizes Gwyneth Paltrow e Jennifer Lopez - do que exatamente por seus dotes artísticos, Affleck é um ator que funciona razoavelmente quando bem dirigido, mas que, sob um comando menos rígido, demonstra toda a fragilidade de seu talento como ator. Roger Michell enquadra-se na segunda categoria, o que acaba por minar a potência de sua trama: quando os dois protagonistas estão juntos em cena, a fúria e o desespero de Jackson é palpável, mas tudo que vem de Affleck soa artificial e forçado. Não ajuda nem mesmo colocar como coadjuvantes atores excelentes como William Hurt, Richard Jenkins e Toni Collette (subaproveitada como uma colega de trabalho e ex-amante de Gavin): servindo apenas como peões em uma trama centrada basicamente no duelo entre os dois personagens centrais, eles não conseguem disfarçar o fato óbvio de que, com um ator com mais recursos para fazer frente à Samuel L. Jackson, nem mesmo o equívoco na hora de vender "Fora de controle" ao público seria um pecado tão mortal. Do jeito que está, o filme de Michell é um bom entretenimento, com qualidade dramática e uma história que faz pensar nos rumos de uma sociedade cada vez mais intolerante e sem empatia - mas é pouco diante do grande filme que poderia ter sido.
domingo
PONTO DE VISTA
O presidente dos Estados Unidos está na cidade de Salamanca, na Espanha, para fazer parte de uma conferência que irá ditar novos rumos internacionais para o combate ao terrorismo. Transmitido via satélite para o mundo todo, seu discurso na praça central da cidade acaba por transformar-se em uma inesperada tragédia quando ele é atingido por um tiro, apesar dos esforços de sua equipe de segurança, que irá contar então com as imagens amadoras capturadas por um turista americano, que podem esclarecer uma conspiração envolvendo gente do próprio governo americano. A trama de "Ponto de vista" pode não ser das mais criativas, especialmente depois do 11/9, que recolocou o terrorismo como tema favorito de nove entre dez filmes de ação de Hollywood. O que diferencia o filme de Pete Travis em relação a vários outros da mesma temática é a engenhosidade de sua narrativa: ainda que em alguns momentos soe cansativa e/ou exagerada, é ela que mantém aceso o interesse da plateia até o final, com uma série de reviravoltas que, a despeito de sua inverossimilhança, entretém com bastante dignidade - especialmente com a ajuda de um elenco que conta com nomes de prestígio, como William Hurt, Sigourney Weaver e Forest Whitaker.
Como o próprio título sugere, a trama de "Ponto de vista" é contada sob diferentes ângulos, com informações complementares sendo acrescentadas a cada rodada, como peças de um quebra-cabeças que, aos poucos, vai sendo montado diante do espectador, que muda sua percepção a respeito da história quando as reais motivações de seus personagens se revelam e alteram (ou não) o desenrolar da história. Seguindo a tradição de clássicos como "Z", de Costa-Gavras e de tramas políticas como "JFK", de Oliver Stone - mas logicamente sem a mesma ambição e sem o mesmo resultado perturbador e fascinante - o filme de Travis vai e volta no tempo, sempre recomeçando sua narrativa poucos minutos antes do atentado ao presidente e terminando em um ponto que pode dar respostas às questões levantadas pelo roteiro no momento da tragédia. Somando-se a isso alguns dramas pessoais - traumas profissionais, chantagem e até uma improvável história de amor que pode ou não ser sincera - a atmosfera está criada e o cineasta aproveita o roteiro de Barry L. Levy para explorar todas as possibilidades de suspense. Uma pena, porém, que em seu terço final, ele sucumba à tentação de deixar de lado o tom de urgência de seu começo e assuma sua vocação para o filme de ação descerebrado: quando a intriga dá espaço para perseguições e tiroteios - mesmo que bem realizados - é impossível segurar a frustração.
Se existe um protagonista em "Ponto de vista" ele é Thomas Barnes (Dennis Quaid), segurança do presidente norte-americano (William Hurt) que volta a seu antigo cargo depois de um tempo afastado por ter sido ferido em ação. Seu retorno é visto com insegurança pela maior parte dos colegas, inclusive seu parceiro mais próximo, Kent Taylor (Matthew Fox, no auge do sucesso da série "Lost") - nem mesmo a produtora de telejornal Rex Brooks (Sigourney Weaver) está confiante em sua recuperação total, o que acaba se mostrando um tanto acertado quando o presidente é alvejado em pleno discurso. Enquanto ele é socorrido - e mesmo assim corre risco de tornar-se vítima de terroristas infiltrados na equipe de socorro - Barnes e Taylor partem em busca de alguma pista a respeito do atirador e dos mentores do atentado, contando com a ajuda do americano Howard Lewis (Forest Whitaker) - que filmou tudo - e do misterioso Enrique (Eduardo Noriega), que alega ser da polícia espanhola mas tem uma relação mal-explicada com a responsável pelo segundo atentado do dia: uma explosão na praça de Salamanca.
Mesmo que explore mal a presença sempre forte de Sigourney Weaver e apresente algumas resoluções simplistas para algumas das questões levantadas em seu começo, "Ponto de vista" é um entretenimento acima da média. Sua edição ágil e inteligente disfarça com competência as falhas de um roteiro bastante superficial no desenho dos personagens e em suas motivações um tanto clichê, assim como impede que o público descubra com antecedência as reviravoltas da história - ainda que, depois de reveladas em sua totalidade, elas não sejam assim tão surpreendentes. No cômputo geral, é um filme que cumpre o que promete e, maior de suas qualidades, se leva a sério e não resvala na autoparódia que é a sentença de morte de grande parte de seus congêneres
segunda-feira
MARCAS DA VIOLÊNCIA
2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (William Hurt), Roteiro Adaptado
A princípio parece estranho que o nome de David Cronenberg esteja nos créditos de abertura do filme "Marcas da violência", afinal o cineasta canadense sempre privilegiou, em sua filmografia, histórias que se distanciassem do banal - a não ser que alguém considere convencionais obras como "A mosca" (86), "Gêmeos, mórbida semelhança" (88), "Mistérios e paixões" (93), "Crash, estranhos prazeres" (96) e "Spider, desafie sua mente" (02), só para citar alguns. O estranhamento, porém, fica apenas na superfície: apesar da narrativa linear e clássica, a adaptação da graphic novel de John Wagner e Vince Locke tem, em seu âmago, um tema caro ao diretor: uma crise de identidade capaz de transformar uma vida pacata e normal em um turbilhão de violência e sangue. O fato de tal crise se passar em um ambiente doméstico, distante de laboratórios, clínicas de cirurgia plástica ou instituições psiquiátricas, portanto, apenas amplia o desconforto e a tensão geradas por uma história simples, mas contada com o talento visceral de um dos mais corajosos cineastas de sua geração em um encontro mais do que feliz com um ator que se tornaria um parceiro fiel: Viggo Mortensen.
Ficando com o papel recusado por Thomas Jane e Harrison Ford (em uma escalação que soaria um tanto esquisita devido à sua idade inadequada), Mortensen tem uma das melhores atuações de sua carreira na pele do tranquilo e caseiro Tom Stall, feliz proprietário de uma lanchonete em uma pequena cidade de Indiana que tem sua vida virada pelo avesso quando, ao defender uma funcionária durante um assalto, mata os dois criminosos com técnica e disposição surpreendentes. Tornado ídolo dos moradores da cidade e pauta de telejornais por todo o país, ele é procurado por um misterioso homem chamado Carl Fogarty (Ed Harris), que, deformado por uma cicatriz no lado esquerdo do rosto, insiste em chamá-lo de Joey. Cercando e ameaçando a família de Tom - a esposa Edie (Maria Bello), o filho adolescente Jack (Ashton Holmes) e a pequena Sarah (Heidi Hayes) - Fogarty acaba despertando um lado obscuro no sereno e dedicado comerciante, que se vê obrigado a enfrentar seu passado escondido de todos (e que envolve a máfia irlandesa e seu próprio irmão, o sinistro Richie Cusack, interpretado por um William Hurt indicado ao Oscar de coadjuvante por menos de dez minutos em cena).
Apesar do tema comum à obra de Cronenberg, é inegável que "Marcas da violência" é um produto atípico em sua trajetória. Narrado de forma quase clássica e prescindindo de artifícios visuais além daqueles necessários a sublinhar a violência bastante gráfica de algumas sequências, o filme mergulha o espectador em um universo onde a tensão é constante e cada silêncio deixa revelar contornos assustadores a respeito do protagonista, cuja verdadeira personalidade vai sendo descoberta aos poucos - tanto pelo público quanto por sua atônita esposa, interpretada por Maria Bello também em um momento inspirado da carreira e protagonista de duas tórridas cenas de sexo que deram muito o que falar e que inteligentemente marcam a ruptura psicológica de Tom, que passa de marido romântico e carinhoso a um interessante contraponto violento e viril. Essa ruptura também é perceptível no ritmo da narrativa, que começa sossegadamente mostrando o cotidiano quase monótono da vida familiar até explodir em um inesperado banho de sangue que passa a ditar o tom da segunda metade do filme - um tom que a primeira cena já deixava antever, ainda que com uma certa sutileza que vai se esvaecendo no decorrer da trama.
Saindo de sua zona de conforto como diretor, David Cronenberg acaba por entregar um excelente drama policial, repleto de cenas de grande impacto visual e emocional e com uma história sólida o bastante para não deixar que se apoie somente em tais sequências. Ao mesmo tempo em que desenvolve uma trama com início, meio e fim bem definidos, o roteiro - também indicado ao Oscar, que perdeu para "O segredo de Brokeback Mountain" - questiona, de forma inteligente, de que forma a genética pode influenciar uma personalidade, quando põe em jogo os problemas do filho adolescente de Tom, que, sofrendo bullying na escola, vê na atitude corajosa do pai uma maneira de resolver suas questões e acaba se envolvendo muito mais do que o esperado e desejado no mundo de violência do qual sua família estava a salvo até então. Esse subtexto dramático - forte e adequado - dá ainda mais consistência à "Marcas da violência", um dos grandes filmes da temporada 2005.
UM AMOR VERDADEIRO
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)
A história é conhecida e banhada de clichês: jovem e promissora jornalista, às vésperas de um dos mais importantes trabalhos de sua recém iniciada trajetória profissional, é obrigada a voltar à sua cidade natal para cuidar da mãe, uma mulher forte e determinada que sempre foi o centro da família mas está sofrendo de um câncer terminal. Nesse meio-tempo, a jovem precisa também enfrentar a difícil relação que sempre teve com o pai, um professor de literatura que fracassou como escritor e nunca soube dar o amor que os filhos e a mulher precisavam. Qual é, então, a razão para se assistir a "Um amor verdadeiro"? A mesma que o distingue de dezenas de outras obras semelhantes que volta e meia preenchem a programação da televisão: o elenco extraordinário escalado pelo diretor Carl Franklin. Bom diretor de atores, Franklin extrai de gente do porte de Meryl Streep e William Hurt atuações muito acima da média - não à toa Meryl recebeu sua 11ª indicação ao Oscar por seu desempenho - e entrega à então estrela em ascensão Renée Zellweger um dos papéis mais densos de sua carreira.
É de Zellweger a responsabilidade de dar ao filme de Franklin, baseado em romance de Anna Quindlen - uma escritora conhecida nos EUA por seus livros de teor feminino adocicado - um tom menos piegas e previsível, e ela desincumbe-se muito bem da missão. Na pele da ambiciosa e talentosa Ellen Gulden, que precisa abrir mão de seus objetivos profissionais em prol da saúde de sua mãe, ela dosa com precisão uma gama extensa de sentimentos por vezes contraditórios e que, nas mãos de uma atriz menos competente, fatalmente descambaria para o sentimentalismo barato ou o exagero dramático. Encarando de frente uma das melhores atrizes de todos os tempos, Zellweger - que menos de dois anos antes, quando contracenou com Tom Cruise em "Jerry Maguire", ainda era uma ilustre desconhecida - não se deixa diminuir em cena, crescendo até mesmo quando precisa enfrentar um sempre potente William Hurt, que vai desenhando seu personagem gradualmente até explodir em uma devastadora cena no terço final da projeção - onde seu George finalmente diz a que veio e sai de um melancólico segundo plano. Não é injusto afirmar, aliás, que tanto Renée quanto Hurt também mereciam ter sido lembrados pela Academia, já que conseguem tirar leite de pedra, dando consistência até mesmo a diálogos pouco inspirados e algumas cenas simplesmente supérfluas.
Meryl Streep, por sua vez, está em sua zona de conforto. Kate Gulden é a típica personagem dos sonhos para qualquer atriz ciente de suas capacidades dramáticas, e a veterana vencedora (à época) de dois Oscar não deixa por menos, emocionando o espectador com alguns momentos que demonstram claramente os motivos que a levam a ser tão respeitada e admirada. Vivendo uma mulher simples, altruísta e dedicada que se vê às portas da morte, ela tanto é capaz de despertar uma sincera compaixão do público quanto um sentimento de paz e serenidade que poucas intérpretes conseguiriam com tanta maestria. Mesmo que sua personagem sofra devido a um desenvolvimento pobre - de certa forma ela é quase uma coadjuvante de luxo, já que a trama gira em torno das dificuldades de sua filha em confrontar-se com um nova realidade - Streep consegue extrair dela sempre o máximo de profundidade e verdade. A cena em que ela e sua filha cantam emocionadas na festa de Natal da cidadezinha onde moram é de cortar o coração justamente por essa intensidade.
"Um amor verdadeiro" em si não é um grande filme. Ainda que tente surpreender a plateia no final, com uma pequena reviravolta que muda as perspectivas da audiência em relação aos protagonistas, não consegue desviar-se dos lugares-comuns das produções sobre famílias disfuncionais, doenças terminais e lições de vida. Porém, ao unir em cena três grandes intérpretes em momentos iluminados, merece aplausos e boas lembranças.
domingo
TE AMAREI ATÉ TE MATAR
Joey Boca é um italiano simpático, bem-humorado e extrovertido. Dono de uma pizzaria do Brooklyn que leva seu nome - e tem na parede reproduções de Cristo, do presidente e de Frank Sinatra - e pai de família aparentemente respeitável, ele tem, no entanto, um defeito irrecuperável: não pode ver um rabo-de-saia sem que seus hormônios latinos não entrem em ebulição. Suas constantes escapadas sexuais são de conhecimento de toda a vizinhança, mas de certa forma ignorados por sua cara-metade, a paciente Rosalee - que tampouco percebe a paixão que desperta em Devo, jovem funcionário da pizzaria com idade para ser seu filho. Levemente machista, quase cafajeste e acintosamente sedutor, Joey Bocca é o protagonista de "Te amarei até te matar", uma comédia de humor negro dirigida pelo mesmo Lawrence Kasdan dos seríssimos "Corpos ardentes" (81), "O reencontro" (83) e "O turista acidental" (88). Mas se o nome de Kasdan não deixa de ser uma surpresa por trás de um filme tão atípico em sua cinematografia, é o nome do protagonista que surpreende ainda mais: na pele de um personagem tão explicitamente cômico que beira o histriônico está Kevin Kline, o mesmo homem que interpretou o torturado amante judeu de Meryl Streep em "A escolha de Sofia" (82) e o jornalista sul-africano que fugiu de seu país de origem para denunciar as atrocidades do apartheid de "Um grito de liberdade" (87). Ou seja, nada mais distante da imagem que se esperaria de um ator que vive tão intensamente alguém chamado Joey Bocca.
Tudo bem que o público de cinema já sabia dos dotes cômicos de Kline, que ganhou seu Oscar de coadjuvante na pele do atrapalhado, ciumento e levemente demente Otto no sucesso "Um peixe chamado Wanda" (88). Mas, sabendo-se que o ator tem uma formação clássica, shakespereana e dramática, não deixa de ser refrescante perceber o quão versátil ele pode ser. E é graças a seu talento imenso e seu carisma que Bocca não se transforma, no decorrer do filme de Kasdan - com quem ele já havia trabalhando em "O reencontro" e no western "Silverado" (84) - em um personagem antipático ou uma aberração criada unicamente com fins burlescos. Mesmo inspirado em um caso real ocorrido na Pensilvânia em 1984, o roteiro de John Kostmayer (de estrutura levemente teatral, em especial em seu terceiro ato) está a um passo do exagero e do inverossímil, com seus acontecimentos constantemente desafiando o público a embarcar em uma história tão inacreditável quanto deliciosamente insana. E se consegue o grande feito de fazer rir com seu alto grau de nonsense, o mérito deve ser dividido entre Kline (fantástico em cada cena), Kasdan (demonstrando um domínio até então desconhecido do timing da comédia) e o elenco coadjuvante, que consegue misturar sem efeitos colaterais a veterana dos palcos Joan Plowright (que ficou viúva de Laurence Olivier durante as filmagens), a estrela da TV Tracey Ullman, o colaborador habitual do diretor, William Hurt (também surpreendendo em papel menos sério do que o habitual) e dois jovens atores então em início de carreira, River Phoenix e Keanu Reeves.
A trama de "Te amarei até te matar" é, conforme afirmado antes, um primor de nonsense. Tudo começa de verdade quando Rosalee (Ullman) descobre uma traição do marido Joey Bocca e, como boa católica, prefere assassiná-lo a ter que encarar um divórcio. Contando com a ajuda de sua mãe, Nadja (Joan Plowright, sempre prestes a roubar a cena), que despreza o genro, e o jovem Devo (Phoenix), que mantém por ela um paixão assumida, ela resolve dar cabo do pizzaiolo. Depois de uma primeira tentativa frustrada pela ojeriza do rapaz a qualquer tipo de violência e do fracasso em matar Bocca com uma overdose de comprimidos para dormir, eles contratam uma dupla de drogados, Harlan (Hurt) e Marlon (Reeves) para resolver o problema: a questão passa a ser, então, a inacreditável resistência da vítima, que sobrevive a todos os atentados contra a sua vida, para surpresa (e pânico) dos pretensos criminosos.
Engraçadíssimo como poucos filmes americanos da década de 80 conseguiram ser sem apelar para o besteirol desvairado dos irmãos Zucker e de Jim Abrahams, "Te amarei até te matar" ainda tem a vantagem de arrancar gargalhadas tanto por seu humor visual e o absurdo de sua trama quanto por seus diálogos, banhados em ironia e sarcasmo. Equilibrando o tom na tênue linha entre o caricato e o divertido de Kevin Kline, o texto de Kostmayer brinda o espectador com momentos de grande inteligência verbal (o encontro da polícia com o "corpo" de Bocca em sua cama, por exemplo, é sensacional) e com sequências do mais puro vaudeville (como a conversa entre Harlan e Marlon diante de uma provável vítima anestesiada de pílulas para dormir e prestes a ser morto). É um filme rápido, conciso e extremamente eficiente que comprova Kasdan como um dos grandes cineastas pouco reconhecidos do cinema americano.
sexta-feira
O TURISTA ACIDENTAL
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Geena Davis), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Geena Davis)
A expectativa era grande em torno do reencontro entre o cineasta Lawrence Kasdan e a dupla de atores William Hurt e Kathleen Turner, afinal, eles haviam incendiado as telas de cinema sete anos antes com o neo-noir "Corpos ardentes" (81), que embora tenha fracassado nas bilheterias, tornou-se referência no gênero thriller erótico pouco depois - chegando a gerar inúmeras imitações, quase nunca tão boas quanto ele. Acontece que tal expectativa acabou sendo o maior problema enfrentado por "O turista acidental", drama familiar baseado no best-seller de Anne Tyler e que foi o projeto que marcou a reunião do talentoso trio: misturar um livro de sucesso, um cineasta competente, uma atriz em alta (Turner já havia concorrido ao Oscar por "Peggy Sue, o passado à espera" (86)) e um ator oscarizado (por "O beijo da mulher-aranha" (85)) só poderia dar coisa boa, e ninguém esperava o contrário. Mas, apesar de todos os ingredientes estarem disponíveis, o filme não obteve o resultado esperado. Mesmo tendo concorrido ao Oscar de melhor filme do ano - em uma indicação até hoje pouco compreensível - e ter sido premiado pela Associação de Críticos de Nova York, o filme de Kasdan peca por ser um drama irregular, que alterna momentos brilhantes com outros simplesmente aborrecidos.
Apesar do nome de Turner aparecer no cartaz com o mesmo destaque que Hurt - certamente uma estratégia de marketing - é o ator, que emplacou uma sucessão de indicações ao Oscar (em 85, 86 e 87) que carrega o filme nas costas, como o protagonista absoluto da trama criada por Tyler. Ele interpreta Macon Leary, um escritor de guias de viagem para executivos torturado pela morte violenta do filho adolescente e que vê seu casamento aparentemente estável com a bela Sarah (Kathleen Turner) acabar melancolicamente. Vivendo seus dias sem maior entusiasmo - e voltando a conviver com sua estranha família, com quem mantém uma relação quase distante - Macon tem sua rotina alterada quando conhece Muriel Pritchett (Geena Davis), uma jovem amalucada que trabalha no hotel para cães onde ele deixou seu animal de estimação durante uma viagem. Os dois - ele retraído, tenso e incapaz de lidar com os sentimentos em torno da perda do filho e ela excêntrica, alegre e corajosamente criando seu filho pequeno sozinha - acabam por formar um inusitado casal, que será ameaçado por suas diferenças, pelas circunstâncias sociais e, pior ainda, pelo retorno de Sarah, que resolve tentar uma nova chance para seu casamento.
A boa ideia do roteiro de Kasdan e Frank Galati - indicados ao Oscar da categoria - de ilustrar passagens dos livros de Leary (que faz sugestões práticas aos leitores de como carregar pouca bagagem, por exemplo) com momentos de sua vida é realmente interessante, fazendo um bem-vindo contraponto entre o que é teoria e realidade. As metáforas do livro de Tyler parecem intactas em sua transposição para o cinema e Kasdan é, comprovadamente um roteirista de mão cheia, capaz de escrever diálogos que soam naturais mesmo com personagens que beiram o surreal, como a doidivanas Muriel, que Geena Davis interpreta com graça e propriedade mesmo não tendo sido a primeira escolha para o papel - Jessica Lange, Ellen Barkin e Laura Dern estavam à sua frente. Optando pela discrição da atuação em contraste com o quase exagero das atitudes da personagem, Davis (que no mesmo ano estava no elenco do blockbuster "Os fantasmas se divertem") equilibra os dois pontos de Muriel a ponto de fazer com que o público acredite que, por exemplo, ela é capaz de sair de seu país de uma hora para outra apenas para encontrar o ex-namorado. Talvez tenha sido essa sutileza da interpretação a responsável pelo Oscar de coadjuvante que Davis papou de nomes mais fortes, como Sigourney Weaver, Michelle Pfeiffer e Frances McDormand.
"O turista acidental" é um filme americano de alma europeia. Seu drama, apesar de devastador, não se revela em catárticas cenas lacrimosas e sim na tristeza profundamente enraizada de Macon Leary, que prefere isolar-se do mundo e das emoções a ter que enfrentá-las corajosamente. Lawrence Kasdan não se permite nem ao menos explorar mais detalhadamente a origem da tragédia do casal central, optando, ao invés disso, por flashes rápidos do acontecido (mais como forma de situar a plateia do que para buscar a comoção rasteira). Esses acertos, porém, esbarram em cenas desnecessárias (como quase todas as que envolvem a família de Macon, inclusive retratando o romance nascente entre sua irmã e seu chefe, vivido por um ainda desconhecido Bill Pullman) que tiram o foco, a energia e o ritmo do filme. Fosse mais econômico certamente ele teria criado uma pequena obra-prima. Como está, seu filme é, longe de ruim, apenas correto e sóbrio - e, considerando a explosão sensual de "Corpos ardentes", a quase frieza de "O turista acidental" não deixa de ser um interessante paradoxo que mostra sua versatilidade e competência.
sábado
O REENCONTRO
3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Glenn Close), Roteiro Original
Um grupo de amigos, unidos na juventude idealista, são obrigados a confrontarem o que fizeram de suas vidas quando voltam a se encontrar, no funeral de um deles. Tal reunião, logicamente, traz à tona frustrações profissionais, romances interrompidos e a sensação de que o tempo, cruel e implacável, pode tê-los transformados naquilo que eles mais desprezavam: membros capitalistas de um sistema que afrontava suas aspirações pessoais. Essa história, que hoje é velha conhecida dos fãs de cinema, foi tratada de diversas maneiras, tanto em tom cômico quanto em nuances dramáticas, em filmes com inúmeros graus de qualidade. Mas o pai de todos eles, aquele que deu origem a esse quase sub-gênero do cinema mundial (até mesmo a França bebeu em sua fonte, recentemente, com o belo "Até a eternidade", dirigido pelo ator Guillaume Caunet) é o já clássico "O reencontro", lançado por Lawrence Kasdan em 1983. Co-roteirista de "Os caçadores da arca perdida" (81) e "O império contra-ataca" (80), dentre outros sucessos, e diretor do elogiado "Corpos ardentes" (81), Kasdan escreveu seu roteiro inspirado em colegas com quem conviveu durante seus anos de universidade, o que dá a ele um senso de verdade poucas vezes visto em seus congêneres. Resultado: três indicações ao Oscar - incluindo filme e roteiro original - e uma aura de doce melancolia que se mantém fresca e atual mesmo depois de três décadas.
Para contar sua história de perdas e emoções, Kasdan teve a sorte de reunir um elenco extraordinário, com nomes populares do cinema americano de sua época que teriam, pelos próximos anos, um sucesso ainda maior, com indicações (e vitórias) no Oscar e enormes êxitos de bilheteria. Glenn Close - que chegou a concorrer ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho, de certa forma representando o elenco inteiro - faria em breve "Atração fatal" (87) e "Ligações perigosas" (88), que também lhe levaram ao caminho da estatueta, que foi mais simpática com William Hurt - premiado como melhor ator por "O beijo da mulher-aranha" (85) - e Kevin Kline - que amealhou o prêmio de coadjuvante por "Um peixe chamado Wanda" (88). Tom Berenger concorreu também como coadjuvante por "Platoon" (86), e Jeff Goldblum tornou-se sinônimo de sucesso na década de 90 por seu trabalho nos blockbusters "Jurassic Park" (93) e "Independence day" (96). Juntos a Jobeth Williams - a mãe de família de "Poltergeist, o fenômeno" (82), Mary Kay Place e Meg Tilly - que também chegaria a concorrer ao prêmio da Academia como a freira acusada de matar seu filho recém-nascido em "Agnes de Deus" (85) - eles formam um time imbatível, capaz de prender a atenção do público mesmo com uma trama sem maiores lances e acontecimentos dramáticos. "O reencontro" é um filme de pequenos momentos, recheado de um inusitado senso de humor, ritmo adequado, cenas emocionantes e uma deliciosa trilha sonora que busca nos anos 60 sua matéria-prima.
Kevin Costner chegou a filmar algumas cenas com Alex, o suicida cuja morte catalisa o reencontro do título, mas teve suas cenas cortadas na edição final - Kasdan o recompensaria futuramente lhe dando um papel importante nos faroestes "Silverado" (85) e "Wyatt Earp" (94). O fim trágico de seu personagem dá o pontapé inicial ao filme, já que seus amigos, distanciados uns dos outros por compromissos profissionais, por estilos de vida e até mesmo por alguns problemas românticos, são obrigados a uma reunião inesperada que lhes dará, depois do choque, novos pontos de vista sobre suas vidas. Harold (Kevin Kline) e Sarah (Glenn Close) parecem os mais abalados pelo suicídio de Alex, uma vez que foi cometido durante uma temporada em sua casa - e também porque ele foi o pivô de uma crise no casamento dos amigos depois de um rápido caso com Sarah. A namorada do morto, Chloe (Meg Tilly) dá a impressão de não ter se abalado tanto assim com a tragédia, como se visse de outro nível a complexa teia de relações que se desenrola diante de seus olhos no fim-de-semana que todos dividem após o funeral. Meg (Mary Kay Place) é uma advogada corporativista infeliz com sua carreira e disposta a convencer um dos amigos a ser o pai de um filho seu; Michael (Jeff Goldblum) é um repórter de amenidades que precisa lidar com o fato de ter escrito um perfil pouco elogioso de Sam Weber (Tom Berenger), ator de uma série de TV medíocre, mas de muito sucesso popular e que balança ao reencontrar Karen (Jobeth Williams), por quem sempre foi apaixonado, mas que está vivendo um casamento estável e seguro. E Nicholas (William Hurt) tenta lidar com sua experiência no Vietnã - e suas consequências - convivendo com drogas e bebida.
A forma elegante e carinhosa com que Kasdan lida com seus personagens e seus dramas é um dos maiores méritos de "O reencontro". Por mais que alguns deles não sejam exatamente simpáticos ou ajam de maneira correta ou ética, é difícil não encontrar em cada um deles um rasgo de humanidade, de verdade, de sensibilidade. Glenn Close - justificando sua indicação ao Oscar - vive talvez a personagem mais complexa, uma Sarah que ama o marido e a família e busca conviver com um erro passado ao mesmo tempo em que também encara de frente a diferença entre tudo que quis ser e o que é em seu dia-a-dia. No final, quando tenta resgatar essa mulher do passado tomando uma atitude corajosa (e um tanto polêmica), fica claro ao público que tudo que os personagens de Kasdan querem é voltar a ser o que foram na juventude: idealistas, felizes, esperançosos e rebeldes. Mas a vida passa, o tempo é implacável e os caminhos nem sempre são fáceis. E é isso que "O reencontro" demonstra, ao som de músicas que acariciam os ouvidos e diálogos saborosos recitados por atores em dias inspirados. Cinema de primeira qualidade.
NA NATUREZA SELVAGEM
NA NATUREZA SELVAGEM (Into the wild, 2007, Paramount Vantage, 148min) Direção: Sean Penn. Roteiro: Sean Penn, livro de Jon Krakauer. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Jay Cassidy. Música: Michael Brook, Kaki King, Eddie Vedder. Figurino: Mary Claire Hannan. Direção de arte/cenários: Derek Hill/Danielle Berman, Christopher Nelly. Produção executiva: David Blocker, Frank Hildebrand, John J. Kelly. Produção: Art Linson, Sean Penn, Bill Pohlad. Elenco: Emile Hirsch, William Hurt, Marcia Gay Harden, Jena Malone, Hal Holbrook, Vince Vaughn, Catherine Keener, Kristen Stewart. Estreia: 01/9/07 (Festival de Telluride)
2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Hal Holbrook), Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Guaranteed")
Que Sean Penn é um ator superlativo qualquer fã de cinema sabe. Mas que por detrás da persona agressiva com que ficou conhecido nos anos 80 - quando era casado com Madonna e tinha por hobby espancar paparazzi - existe um cineasta sensível e talentoso pouca gente sabia até o lançamento de "Na natureza selvagem", adaptação do livro de Jon Krakauer. Tudo bem que ele já tinha três filmes no currículo, mas pouca gente notou "Unidos pelo sangue" (91), "Acerto final" (95) e "A promessa" (01), por mais qualidades que eles tivessem. Mas foi somente com a história triste/pungente/libertadora de Christopher McCandless, jovem que abandona uma vida abastada para buscar um contato com a liberdade que só mesmo a natureza poderia lhe oferecer é que Penn carimbou de vez seu passaporte rumo ao panteão dos grandes cineastas.
Depois de um flerte de mais de uma década com a história de McCandless, Penn finalmente conseguiu o apoio da família do rapaz para realizar um dos filmes mais emocionantes e pungentes a chegar às telas dos cinemas no século XXI. Versando sobre liberdade pessoal, o amor à natureza e a importância das relações interpessoais, "Na natureza selvagem" é um espetáculo de delicadeza, inteligência e sensibilidade, valorizado por um roteiro maduro, um elenco excepcional - que consegue arrancar atuações convincentes até mesmo de Kirsten Stewart e Vince Vaughn - e uma trilha sonora que, mais do que comentar a ação, é uma personagem importante e onipresente.
Vivido por um sensacional Emile Hirsch - que ficou com o papel felizmente recusado por Leonardo DiCaprio - o jovem Christopher McCandless salta das páginas do livro de Krakauer para ganhar uma dimensão de herói moderno, um homem capaz de correr atrás de uma vida que fuja de tudo que ele sempre desprezou em relação aos pais (William Hurt e Marcia Gay Harden) e à sociedade em geral. Livrando-se dos cartões de crédito, do nome verdadeiro (e assumindo o pseudônimo de Alexander Supertramp) e das amarras de qualquer tipo de relacionamento (inclusive com a irmã com quem se dá bem, interpretada por Jena Malone), ele parte em busca da realização pessoal junto à natureza. Logicamente, sem preparo algum para tal aventura, ele passa por situações nada convencionais e bastante arriscadas, somente para descobrir, surpreso, que são as pessoas - e o carinho que surge entre elas - que dá sentido à vida. "A felicidade só é real quando compartilhada" é o que ele aprende, talvez tarde demais.
Pontuado por uma belíssima trilha sonora, composta por canções deslumbrantes de Eddie Vedder (da banda Pearl Jam) que ilustram com extraordinária perfeição as cenas captadas pelo editor de fotografia Eric Gautier e editadas com maestria por Jay Cassidy, "Na natureza selvagem" emociona por proporcionar ao espectador uma viagem para dentro de seus próprios desejos de fuga de uma realidade massacrante e muitas vezes estéril. Alexander Supertramp vive, na tela, tudo que o público sonha em realizar mas tem medo (ou acomodação em demasia). As lágrimas que brotam ao final da projeção - e elas surgem, com toda certeza - limpam a alma, espelham vontades e, mais do que tudo, são a catarse mais absoluta de que o bom cinema é capaz.
"Na natureza selvagem" é uma obra-prima. Lindo, delicado, emocionante, inesquecível. E que atire a primeira pedra quem não se arrepiar com a fantástica atuação do veterano Hal Holbrook como Ron Franz, o aposentado que se oferece para adotar o protagonista em uma cena devastadora. Para ver, rever, trever e chorar sempre.
domingo
SYRIANA
2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (George Clooney), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (George Clooney)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (George Clooney)
O ano de 2005 foi particularmente feliz para a carreira de George Clooney: o ator, revelado como o sedutor doutor Ross na série "Plantão médico" não apenas deixou pra trás a imagem de galã como tornou-se ainda mais respeitado pela indústria e pela crítica, lançando seu segundo filme como cineasta - o ótimo "Boa noite, e boa sorte", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de diretor - e faturando a estatueta de ator coadjuvante por seu papel no polêmico "Syriana". Dirigido por Stephen Gaghan (roteirista oscarizado por "Traffic"), Clooney abdicou da vaidade e aceitou um papel secundário (ainda que essencial) em um projeto complexo, de importância política e pouco comercial. O resultado final, mesmo que não tenha sido tão explosivo quanto poderia, serviu ao menos para provar seu bom gosto na hora de escolher seus trabalhos: "Syriana" é um filme muito mais importante do que a grande maioria das produções hollywoodianas de sua época.
Dono de um roteiro bastante complexo - adaptado de um livro de Robert Baer, mas inexplicavelmente indicado ao Oscar como original - que conta várias histórias simultaneamente para ligá-las no ato final, "Syriana" não atinge o mesmo nível de "Traffic" especialmente por tratar de um assunto que exige muito mais conhecimento prévio do público. Mesmo assim, é difícil ficar incólume à forma ágil com que a edição de Tim Squyres joga suas tramas ao público, equilibrando intrigas palacianas no governo árabe com problemas familiares e um intrigante suspense policial que joga Bob Barnes (George Clooney mais gordo especialmente para o papel), agente da CIA, em uma perigosa teia de interesses escusos da qual faz parte inclusive o governo americano - daí a polêmica envolvendo o filme, lançado em um período em que as relações entre EUA e Oriente Médio estavam mais uma vez bastante estremecidas.
"Syriana" não se concentra em nenhuma trama específica em seus dois terços iniciais, apresentando suas personagens de maneira quase didática. É assim que somos apresentados a Bob Barnes - em crise com sua ex-mulher e seu filho adolescente e que se descobre descartado pelos colegas da CIA justo em um momento crucial de sua carreira -, ao analista de mercado de petróleo Bryan Woodman (Matt Damon) - que vê sua família desmoronar depois de uma tragedia que lhe faz prescrutar com outros olhos o ambiente em que vive -, ao xeique Nasir Al-Subaai (Alexander Siddig) - cujas ideias reformistas não exatamente agradam os americanos -, ao advogado Dean Whiting (Christopher Plummer) - envolvido na fusão de indústrias petrolíferas - e a um jovem muçulmano que vê no terrorismo islâmico a chance de se tornar importante a seu país. Depois que todos eles são apresentados, Gaghan parte para a partida, ligando-os de maneira sutil mas orgânica, mostrando - como fez com sucesso em "Traffic" - que um pequeno ato pode atingir inúmeras vidas (e países).
Mesmo que muitas vezes confunda o espectador com tantos nomes e personagens - nem todos interessantes, mas todos suficientemente bem desenvolvidos pelo roteiro - "Syriana" é admirável porque trata de um assunto relevante de forma quase completamente acessível. Mas, ao mesmo tempo que tenta transmitir suas ideias esbarra na inexperiência de seu diretor, que não tem o domínio da narrativa que seria imprescindível em tal situação. Ainda assim, é forte e politicamente imperdível.
quarta-feira
SIMPLESMENTE ALICE
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Que Woody Allen é um cineasta autoral, independente e criativo todo mundo sabe! Dono de uma carreira que, a despeito de não ter nenhum êxito comercial retumbante é absolutamente respeitada pela integridade, ele é capaz de equilibrar pequenas obras-primas como "Crimes e pecados" com filmes que não obtiveram o mesmo sucesso entre a crítica e o público, como é o caso de "Simplesmente Alice". Mesmo tendo sido indicado ao Oscar de roteiro original, o 21º longa-metragem de Allen não tem o mesmo frescor que a maioria de seus trabalhos, utilizando elementos de outros filmes com a sua assinatura ao lado de um elemento novo:a fantasia.
Mia Farrow é novamente a protagonista em "Simplesmente Alice". Ela vive Alice Tate, uma mulher que vive dividida entre compromissos sociais, visitas ao shopping e aos salões de beleza e um casamento morno com o bem-sucedido Doug (William Hurt). Sofrendo de constantes dores nas costas, ela visita o afamado Dr. Yang (Keye Luke), acunpunturista recomendado por todas as suas amigas. Surpreendida pelo tratamento do médico oriental, que lhe oferece os mais variados tipos de ervas naturais - que permitem que ela fique invisível, que fale com um ex-namorado morto (Alec Baldwin) e que se torne menos tímida - ela aproveita o momento para levar adiante um hesitante romance com Joe Ruffalo (Joe Mantegna), músico divorciado, pai de uma colega de seus filhos pequenos. Além disso, passa a questionar suas escolhas em abandonar tudo para tornar-se esposa e mãe.
A trama lembra "A outra", filme bastante superior dirigido por Allen em 1988. No entanto, o cineasta não é feliz em lançar mão de alguns artifícios que não combinam com seu estilo. Ver Alice voando sobre Nova York ao lado do falecido namorado não encanta como deveria e sim torna-se bobo. Até mesmo o fato de conseguir ficar invisível para espionar a vida do amante, das melhores amigas e do marido infiel soa como uma solução fácil e sem imaginação. Suas dúvidas a respeito de seguir uma nova carreira como escritora e sua relação mal-resolvida com a irmã advogada (Blythe Danner, mãe da atriz Gwyneth Paltrow) são extremamente semelhantes às questões levantadas por Gena Rowlands em "A outra", mas sem o peso e a densidade do filme anterior.
Sendo assim, "Simplesmente Alice" é um filme ruim? De jeito nenhum. Woody Allen é incapaz de criar alguma coisa que seja menos do que interessante. Mia Farrow novamente entrega uma atuação consistente, mesmo quando sua personagem passa por situações quase inverossímeis. O elenco coadjuvante também não atrapalha nem um pouco - até mesmo Joe Mantegna consegue apagar sua imagem de "gângster" e William Hurt, apesar de não ter muito o que fazer, pontua com correção mais uma grande interpretação de Mia. Nem mesmo o final um tanto abrupto consegue esconder o fato, no entanto, de que Allen tem o que dizer em qualquer trabalho que assine.
"Simplesmente Alice" não é um dos mais populares trabalhos de Woody Allen. Ao assistí-lo logo se vê os motivos. Não é particularmente engraçado nem especialmente sério. Mas é Woody Allen é sempre Woody Allen, quer seja para o bem ou para o mal.
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