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terça-feira

BOSSA NOVA


BOSSA NOVA (Bossa nova, 2000, Columbia Pictures, 95min) Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Fernanda Young, Alexandre Machado, conto "A senhorita Simpson", de Sérgio Sant'Anna. Fotografia: Pascal Rabaud. Montagem: Ray Hubley. Música: Eumir Deodato. Figurino: Emilia Duncan. Direção de arte: Cassio Amarante. Produção executiva: Bruno Barreto. Produção: Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto. Elenco: Amy Irving, Antônio Fagundes, Deborah Bloch, Drica Moraes, Alexandre Borges, Pedro Cardoso, Giovanna Antonelli, Rogério Cardoso, Sérgio Loroza, Stephen Tobolowski, Alberto de Mendoza. Estreia: 21/02/2000 (Festival de Berlim)

"Bossa nova", a comédia romântica dirigida por Bruno Barreto, se passa em um universo particular. Um ecossistema próprio, dotado uma trilha sonora suave com canções de Tom Jobim (a quem o filme é devidamente dedicado), paisagens idílicas de um Rio de Janeiro idealizado e personagens cuja maior função na vida é amar e ser amado - mesmo que ainda não saibam disso. Baseado no conto "Senhorita Simpson", de Sérgio Sant'anna (e adaptado pelo casal Fernanda Young e Alexandre Machado, criadores da série "Os Normais"), o filme de Barreto marca seu retorno ao cinema nacional depois de uma tentativa malograda em ser abraçado por Hollywood (com o pouco visto "Entre o dever e a amizade") e, apesar de não apresentar nada de novo ao gênero e forçar uma estética quase pasteurizada, consegue conquistar o público com uma trama despretensiosa e agradável, valorizada por um elenco de peso liderado por sua então mulher, Amy Irving. Leve, romântico e francamente ingênuo - com tudo que isso tem de positivo e negativo -, "Bossa nova" foge da tendência do cinema brasileiro da época de explorar o regionalismo (em produções como "O auto da Compadecida", "Eu, tu, eles" e "Tainá: uma aventura na Amazônia") e não tem medo de apelar para o escapismo.

O centro do roteiro - que aposta em diálogos rápidos e uma estrutura, em seus melhores momentos, de uma comédia de erros - é a solitária Mary Ann Simpson (Amy Irving), viúva americana que mora no Rio de Janeiro e vive de ensinar inglês para brasileiros interessados (pelos mais diversos motivos) em aprender a se comunicar no idioma. Sua amiga Nadine (Drica Moraes) precisa saber a língua para uma melhor relação com um namorado estrangeiro, a quem nunca viu pessoalmente mas acredita ser um artista plástico do SoHo. O jogador de futebol Acácio (Alexandre Borges) acaba de ser contratado por um time inglês e quer aprender a xingar (e seduzir) na língua de Shakespeare. E o advogado Pedro Paulo (Antonio Fagundes), ainda sem aceitar o fim do casamento com Tania (Deborah Bloch), está mais interessado na própria professora do que em novos conhecimentos - e não mede esforços para conquistá-la. Enquanto isso, seu meio-irmão, Roberto (Pedro Cardoso), cai de amores por sua estagiária, Sharon (Giovanna Antonelli), que, por sua vez, se sente atraída por Acácio quando ele procura o escritório para tratar de seu novo contrato.

 


Com uma narrativa simples que faz uso das paisagens naturais do Rio de Janeiro - fotografadas com destreza pelo francês Pascal Rabaud - como elemento dramático crucial, "Bossa nova" é assumidamente uma declaração de amor à cidade que lhe serve de cenário, assim como se mostra apaixonado pelo ritmo que lhe dá nome. Emoldurada pelas canções de Tom Jobim, a história de amor entre Mary Ann e Pedro Paulo se mostra plácida, envolvente e delicada como a obra do compositor - e se beneficia do carisma e do talento de seus intérpretes. Se Amy Irving serve como musa inspiradora do diretor e catalisadora de todo o quiproquó que a envolve, o charme maduro de Antonio Fagundes surge como a tradicional figura do galã maduro - status que não o impede de demonstrar um talento já devidamente consagrado. No elenco coadjuvante, Drica Moraes e Deborah Bloch brilham com um timing cômico impecável, que valoriza cada linha de diálogo, e é uma pena que o ótimo Pedro Cardoso seja tão pouco explorado: sua história de amor não correspondido pela bela Sharon é, talvez, a mais romântica de um roteiro que privilegia o humor (provavelmente pelo currículo de Young e Machado, sempre sagazes em suas observações sobre a natureza humana). Não deixa de ser irônico, no entanto, que a direção de Bruno Barreto seja mais interessante quando se volta ao amor do que ao riso - apesar de engraçadas, as situações propostas soam mais como um especial de televisão do que como cinema.

Visualmente atraente, delicadamente amoroso e engraçado como a melhor das comédias românticas, "Bossa nova" é o programa ideal para os fãs do gênero, ainda que nem sempre atinja todo o seu potencial. Tecnicamente impecável e dotado de uma honestidade encantadora, é uma prova (mais uma) das possibilidades infinitas do cinema nacional - ainda que sua estética seja mais próxima de Hollywood do que das produções brasileiras clássicas. Apesar de suas inegáveis qualidades, é impossível não ficar com a impressão de que se trata de um filme brasileiro para gringo ver - mas, em sua defesa, é uma propaganda sensível de uma das mais belas cidades do mundo. E talvez isso seja o suficiente para o público que deseja apenas desligar-se dos problemas enquanto assiste a uma bela história de amor.

OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA


OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA (America's sweethearts, 2001, Columbia Pictures/Revolution Studios, 102min) Direção: Joe Roth. Roteiro: Billy Crystal, Peter Tolan. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Stephen A. Rotter. Música: James Newton Howard. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Garreth Stover/Larry Dias. Produção executiva: Charles Newirth, Peter Tolan. Produção: Susan Arnold, Billy Crystal, Donna Arkoff Roth. Elenco: Julia Roberts, John Cusack, Billy Crystal, Catherine Zeta-Jones, Stanley Tucci, Christopher Walken, Alan Arkin, Hank Azaria, Seth Green, Rainn Wilson. Estreia: 17/7/2001

Quando Billy Crystal escreveu o roteiro de "Os queridinhos da América" seus planos incluíam dirigir o filme e ficar com o principal papel masculino - além de desejar repetir a vitoriosa dupla com Meg Ryan depois do sucesso de "Harry & Sally: feitos um para o outro" (1989). As coisas nem sempre saem como imaginado, porém, principalmente em Hollywood: quando a produção finalmente começou Ryan passava por um período difícil (que envolvia o fim de seu casamento de anos com Dennis Quaid e o relacionamento escandaloso e breve com Russell Crowe) e Crystal percebeu que estava velho demais para viver o galã de uma comédia romântica. A ideia de manter o projeto, no entanto, era boa demais para ser deixada de lado e, com o veterano ator deixando a direção a cargo de Joe Roth e assumindo o segundo (e talvez mais interessante) papel masculino da história, o filme recebeu o reforço de Catherine Zeta-Jones e Julia Roberts (ainda fresquinha do Oscar de melhor atriz) e estreou em pleno verão norte-americano. Pode não ter sido um sucesso estrondoso de bilheteria - menos de 150 milhões de dólares arrecadados internacionalmente -, mas foi um respiro adulto em uma temporada cujos maiores êxitos comerciais foram direcionados ao público infantojuvenil, como "Harry Potter e a pedra filosofal", "Monstros S/A" e "Shrek". Simpático e inofensivo - mesmo com as alfinetadas na indústria de cinema norte-americano -, o filme segura bem uma sessão da tarde, mas está a anos-luz de distância dos melhores exemplares do gênero.

A trama gira em torno de Eddie Thomas (John Cusack) e Gwen Harrison (Catherine Zeta-Jones), dois astros de cinema que, como deixa claro o título, são os queridinhos das plateias, que lotam as salas de cinema para vê-los juntos. Casados também na vida real, eles acabam se separando quando Gwen trai Eddie com o galã latino Hector (Hank Azaria), fato que leva o ator a uma crise de nervos que o afasta da mídia. Acusada de ser a culpada pela separação, Gwen vê a chance de recuperar a simpatia do público quando Lee Phillips (Billy Crystal), responsável pelo setor de  relações públicas do estúdio, a procura com a proposta de embarcar em um concorrido esquema de promoção para seu novo filme - o último que ela estrelou com o ex-marido. Gwen demora a aceitar a ideia, mas é convencida pela irmã e assessora Kiki (Julia Roberts), que é apaixonada em segredo por Eddie - que, mesmo ainda revoltado com a ex-mulher, sai da clinica para tentar salvar a imagem da dupla. O que nenhum dois dois atores sabe, na verdade, é que os esforços de Lee tem outro motivo: disfarçar o fato de que o diretor do filme, o excêntrico Hal Weidmann (Christopher Walken), está com o material escondido e pretende mostrar a montagem final somente na hora da pré-estreia. Enquanto Lee precisa lidar com a fogueira das vaidades de atores, diretores e executivos do estúdio (temerosos de um fracasso monumental devido ao escândalo de seus astros), um romance inesperado surge entre o traumatizado Eddie e Kiki, antes um patinho feio que vivia à sombra da irmã, e agora uma bela e bem resolvida mulher.

 

Apesar de o romance entre Kiki e Eddie ter sido vendido como o principal ponto de interesse de "Os queridinhos da América", o que mais funciona no filme de Joe Roth - cineasta pouco inspirado e sem maiores sucessos no currículo - são as referências e piadas sobre Hollywood e sua indústria. Na pele do experiente Lee Phillips, o ator e roteirista Billy Crystal solta farpas sobre tudo e todos - desde a figura do recluso Hal Weidmann, claramente inspirado no veterano Hal Ashby, até as infames e repetitivas entrevistas a que atores são submetidos durante o período de lançamento de seus filmes. Crystal, com seu conhecido cinismo e sagacidade, é quem melhor se sai, bem mais à vontade em cena do que seus colegas de elenco. Subaproveitada, Julia Roberts tem pouco a fazer com uma personagem que não explora todo o seu carisma, e John Cusack (substituindo Robert Downey Jr., à época ainda um nome pouco confiável junto aos estúdios, por seus problemas com drogas) parece desconfortável em explorar um lado romântico pouco comum em sua carreira repleta de tipos pouco convencionais. E do quarteto central, a bela Catherine Zeta-Jones sobressai-se com seu dom para a fina ironia, que seria recompensado pouco depois com um Oscar de coadjuvante por "Chicago" (2002).

É inegável que "Os queridinhos da América" sofre de falta de um foco narrativo claro. Afinal, qual é a história principal que quer contar? Os bastidores da indústria de cinema hollywoodiano? A relação complicada entre dois astros populares que tem suas vidas devassadas pelo público e pela mídia? O romance inesperado entre dois cunhados? A constante necessidade de aprovação que surge junto com a fama? Essa indecisão, apesar de alguns diálogos preciosos e do talento de todos os envolvidos (Stanley Tucci como um executivo, Alan Arkin como um médico pouco confiável, Rainn Wilson como um repórter bisbilhoteiro, Seth Green como um estagiário que confunde Audrey e Katherine Hepburn), prejudica o resultado final e torna o filme uma produção esquecível, ainda que agradável. Não chega de ser um desperdício de tempo, mas quase uma decepção que tanta gente boa possa ter feito algo tão insosso.

NOIVA EM FUGA


NOIVA EM FUGA (Runaway bride, 1999, Paramount Pictures/Touchstone Pictures, 116min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Josann McGibbon, Sara Parriott. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Bruce Green. Música: James Newton Howard. Figurino: Edgar Pomeroy, Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Gary Lucchesi, David Madden, Ted Tannembaum. Produção: Robert W. Cort, Ted Field, Scott Kroopf, Tom Rosenberg. Elenco: Julia Roberts, Richard Gere, Joan Cusack, Hector Elizondo, Rita Wilson, Christopher Melony, Donal Logue, Laurie Metcalf. Estreia: 30/7/99

Nove anos se passaram entre "Uma linda mulher" e "Noiva em fuga". Nesse meio tempo, Julia Roberts foi do céu (Globo de Ouro, indicação ao Oscar, salários milionários) ao inferno (vida sentimental atribulada, brigas com a imprensa, fracassos de bilheteria), e Richard Gere equilibrou (poucos) êxitos comerciais com uma boa quantidade de fiascos financeiros. A reunião da dupla era algo que os fãs - e principalmente os estúdios, ávidos por dólares - esperavam ansiosamente desde que a comédia romântica, dirigida por Garry Marshall, tornou-se um fenômeno na temporada 1990, e depois de várias tentativas infrutíferas (inclusive projetos sempre abortados de uma continuação), finalmente o público pode conferir se a química milionária ainda se mantinha e se o raio poderia cair duas vezes no mesmo lugar. A resposta para ambas as perguntas foi um sonoro "sim" - mais de 300 milhões de dólares de arrecadação mundial e críticas majoritariamente favoráveis. Mas por que, então, a impressão de que, no final das contas, ficou faltando alguma coisa?

Talvez o maior problema de "Noiva em fuga" seja a falta do frescor de "Uma linda mulher" - especialmente quanto ao desempenho de Julia Roberts, então em começo de carreira e sem as marcas (boas e ruins) de uma década de caminhada. Ou talvez o roteiro pouco inspirado e sem o glamour da Los Angeles sofisticada do filme de 1990. Quem sabe até mesmo o excesso de personagens secundários, que tira o foco dos protagonistas e deixa o ritmo menos enxuto. O fato é que o reencontro de um casais mais icônicos do cinema moderno não despertou as faíscas esperadas - mesmo porque nem sempre eles foram os atores idealizados para os papéis centrais. Nos dez anos que separam o começo de sua gestação e sua estreia, nomes como Mel Gibson, Harrison Ford, Michael Douglas e Ben Affleck foram sondados para viver o jornalista Ike Graham, enquanto Geena Davis, Sandra Bullock e Demi Moore chegaram perto de assumirem a independente Maggie Carpenter. Levando-se em consideração o quanto tais intérpretes são diferentes entre si, pode-se imaginar o quanto o roteiro mudou ou se adaptou nesse período - o que não chega a ser surpresa, uma vez que o próprio "Uma linda mulher" também sofreu alterações radicais antes de seu lançamento - e o quanto as presenças de Roberts e Gere são quase acidentais em uma trama sem maiores encantos além de suas presenças carismáticas.

 

Apesar do título dar destaque a Roberts, pode-se dizer que o personagem principal de "Noiva em fuga" é Ike Graham (Richard Gere), colunista de um grande jornal de Nova York que se vê demitido depois de publicar - sem checar a veracidade dos fatos - um texto a respeito de uma jovem do interior de Maryland conhecida na cidade por ter abandonado vários noivos no altar sem explicação nenhuma. Tentando provar que estava certo em sua história, Ike vai até a pequena cidade de Hale para testemunhar, em primeira mão, mais uma fuga da bela Maggie Carpenter (Julia Roberts) - cuja carta para seus editores foi a responsável por sua dispensa. Noiva pela quarta vez - agora do professor de Educação Física Bob Kelly (Christopher Meloni) - e decidida a honrar definitivamente seu compromisso (até como forma de desmentir Ike), Maggie a princípio hostiliza o repórter, que se aproxima de seus amigos e família, mas aos poucos vai se deixando conquistar por seu charme e sua lábia. Confiando nele - apesar de sua fama de ser pouco simpático ao sexo feminino -, a jovem e bela noiva torna-se não apenas objeto de uma possível nova matéria, mas também a mulher que pode enfim fazê-lo descobrir o amor. Apaixonada, ela fica dividida entre finalmente casar-se com quem não ama, ou assumir seus sentimentos e deixar que Ike fique com a razão sobre seu passado pouco invejável.

Apesar de apresentar momentos divertidos e algumas situações no mínimo agradáveis, "Noiva em fuga"  é um filme irregular. Nem tudo funciona como deveria (os personagens secundários muitas vezes ficam sem função alguma a não ser soltar piadas avulsas) e o clímax tampouco empolga - culpa talvez da falha em envolver o espectador no romance entre seus protagonistas. A aura apaixonada que cobria Gere e Roberts em "Uma linda mulher" simplesmente inexiste aqui, apesar da química manter-se intacta, e nos embates mais dramáticos entre eles fica evidente a fragilidade do roteiro e a direção pouco inspirada de Garry Marshall, que parece confiar tanto em seus atores que esquece de dar-lhes um bom material. No final das contas, é uma comédia romântica simpática, mas muito aquém do que se poderia esperar da união de um time cujo primeiro encontro deu origem a um dos mais queridos filmes de seu tempo.

 

segunda-feira

À PROCURA DO AMOR

 


À PROCURA DO AMOR (Enough said, 2013, Fox Searchlights Pictures, 93min) Direção e roteiro: Nicole Holofcener. Fotografia: Xavier Grobet. Montagem: Robert Frazen. Música: Marcelo Zavros. Figurino: Leah Katznelson. Direção de arte/cenários: Keith Cunningham/Douglas Mowat. Produção executiva: Chrisann Verges. Produção: Stefanie Azpiazu, Anthony Bregman. Elenco: Julia Louis-Dreyfus, James Gandolfini, Catherine Keener, Toni Collette, Ben Falcone, Tracey Fairaway, Tavi Gevinson. Estreia: 07/9/2013 (Festival de Toronto)

No dia 17 de junho de 2013, os fãs de cinema em geral - e da série "Família Soprano" em particular - foram surpreendidos com a notícia da morte precoce, aos 51 anos, do ator James Gandolfini, vítima de um infarto fulminante durante uma viagem à Roma. Sua partida inesperada, além de deixar o público órfão de um ator de grande carisma, o impediu de colher os louros por seus dois últimos trabalhos. "A entrega" - cujas filmagens acabaram um mês antes de sua morte - só estreou em setembro de 2014 no Festival de Toronto, mas um ano antes, no mesmo festival, as plateias tiveram a oportunidade de conhecer um lado menos sombrio e violento do célebre intérprete de Tony Soprano: lançado pela Fox Searchlight Pictures, "À procura do amor" apresentava um Gandolfini doce e capaz de fazer suspirar as mulheres mais românticas. Sim, a produção escrita e dirigida por Nicole Holofcener era uma comédia romântica. Adulta, um tanto mais realista e com personagens mais verossímeis, mas ainda assim uma comédia romântica, com todos os elementos clássicos do gênero. E, para alegria de todos, uma produção deliciosa, daquelas de deixar qualquer um com um sorriso no rosto.

Eva (Julia Louis-Dreyfus) trabalha como massagista a domicílio e está em crise com a iminente viagem de sua filha adolescente, Ellen (Tracey Fairaway), para a faculdade. Separada e pouco otimista em relação a possíveis relacionamentos, ela se vê surpreendida com a inesperada atração que passa a sentir por Albert (James Gandolfini), um homem que, a princípio, não tem nada a ver com o que ela procura em homens. De meia-idade, acima do peso, igualmente separado e prestes a ver a filha sair de casa, Albert acaba a conquistando pelo humor, pela gentileza e pela química que surge entre eles. O romance nascente e promissor, no entanto, sofre um baque quando Eva descobre que seu novo príncipe encantado é o ex-marido de Marianne (Catherine Keener), uma nova cliente, que divide com ela fatos poucos lisonjeiros a seu respeito (sem imaginar do incipiente namoro entre os dois). Influenciada pelas conversas com Marianne - uma poetisa a quem tem em alta conta -, Eva começa a questionar seus sentimentos e as percepções sobre Albert, que nem de longe sonha que a relação está ameaçada por uma visão unilateral (e um tanto injusta de sua pessoa).

Autora de filmes cujo foco são personagens críveis e humanos, como "Amigas com dinheiro" (2006) e "Sentimento de culpa" (2010), Nicole Holofcener faz um gol de placa com "À procura do amor": sem buscar catarses exageradas e fugindo da artificialidade comum a comédias românticas, faz de seu filme uma pérola dirigida a uma fatia do público frequentemente alijada dos maiores sucessos do gênero. Sua escolha por dois atores atípicos como protagonistas - ao lado de sua constante colaboradora, Catherine Keener - é, paradoxalmente, seu maior acerto. Julia Louis-Dreyfus é uma força da natureza, uma atriz que consegue ir do humor ao drama sem maior esforço, dotando sua Eva de nuances e idiossincrasias que a aproximam do espectador até mesmo quando comete erros bobos e desnecessários. Gandolfini, por sua vez, deixa antever uma faceta solar e agradável, raramente percebida em suas atuações anteriores (com a possível exceção do pouco lembrado "A mexicana") e acabou por merecer aplausos unânimes por sua sutileza em dar vida a um personagem a anos-luz de sua mais famosa criação. A química entre os dois é precisa e conduz a trama com um ritmo próprio, que é costurado sem pressa e à base de diálogos inteligentes e perspicazes - além de um elenco coadjuvante onde brilha também a sempre ótima Toni Collette.

Ao driblar os clichês que deixam quase todas as comédias românticas com o mesmo tom de artificialidade, Holofcener imprime a "À procura do amor" uma organicidade rara - mérito de seu roteiro que flui com extrema felicidade tanto em momentos mais leves quanto naqueles que exigem do elenco uma carga maior de dramaticidade (ainda que jamais em exagero). Uma cineasta que encoraja o improviso em seus trabalhos, Nicole extrai de Gandolfini e Louis-Dreyfus desempenhos que soam absolutamente reais - e, por consequência, bem distantes de suas personas até então mais conhecidas. Calorosos, humanos e falíveis, Eva e Albert são o mais próximo que personagens de cinema podem chegar de seu público - e isso se deve primordialmente graças a seus intérpretes, em estado de graça da primeira à última cena. "À procura do amor" é ouro.

sexta-feira

AMOR À DISTÂNCIA

 


AMOR À DISTÂNCIA (Going the distance, 2010, New Line Cinema, 103min) Direção: Nanette Bernstein. Roteiro: Geoff LaTulippe. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Peter Teschner. Música: Mychael Danna. Figurino: Catherine Marie Thomas. Direção de arte/cenários: Kevin Kavanaugh/David Schlesinger. Produção executiva: Richard Brener, Michael Disco, Dave Neustadter. Elenco: Drew Barrymore, Justin Long,Charlie Day, Jason Sudeikis, Christina Applegate, Ron Livingston. Estreia: 27/8/2010

Os fãs de comédias românticas via de regra não são muito exigentes. Uma dupla de protagonistas carismáticos e/ou bonitos, piadas engraçadinhas, uma trilha sonora agradável e de preferência um final feliz (verossímil ou não) bastam para que a experiência seja positiva por aqueles que procuram apenas uma hora e meia de diversão descompromissada. "Amor à distância", estrelado por Drew Barrymore em 2010 não é uma exceção: simples, simpático - e talvez por isso mesmo pouco memorável -, é um filme capaz de deixar qualquer um com sorriso no rosto, desde que não haja grandes expectativas. Seguindo à risca a fórmula já exaustivamente testada e aprovada, o primeiro filme de ficção da documentarista Nanette Bernstein ganha pontos, no entanto, a apostar em algumas piadas mais adultas e eleger como maior vilão não uma ex-namorada vingativa ou mal-entendidos romanescos, mas sim uma circunstância bem mais prosaica: a distância geográfica.

Erin Langford (Drew Barrymore, repetindo com graça a personagem amalucada que salvou sua carreira) é uma jornalista de 31 anos que ainda busca a realização profissional, sempre adiada por sua tendência a valorizar mais seus relacionamentos do que sua incipiente . Às vésperas de deixar um estágio em Nova York para voltar a sua São Francisco natal, ela conhece e se apaixona por Garrett Scully (Justin Long), que trabalha em uma gravadora, paparicando bandas adolescentes enquanto não dá seu pulo do gato musical. Quando ela volta para casa, depois de um rápido idílio amoroso, os dois resolvem manter o namoro à distância, mesmo plenamente conscientes das dificuldades do pacto de fidelidade a que se propõem. Aos poucos, porém, eles percebem que a coisa não será assim tão simples e cor-de-rosa como pretendiam. Saudoso, ele se apoia nos pouco confiáveis amigos, Dan (Charlie Day) e Box (Jason Sudeikis), enquanto ela não chega a ser propriamente incentivada pela irmã mais velha, Corinne (Christina Applegate) - que passa os dias cuidando do marido e dos filhos pequenos.

 

O humor de "Amor à distância" surge, como se poderia imaginar, a partir de seus coadjuvantes - ainda que os protagonistas sejam adoráveis e carismáticos. Tanto os companheiros de Garrett quanto a família de Erin são o tempero ideal de uma história de amor ligeiramente inspirada pela experiência real de um amigo do roteirista Geoff  LaTulippe (provavelmente muito disfarçada e exagerada em sua transposição para as telas). Todas as situações decorrentes do relacionamento atípico do casal central são tratadas com carinho e leveza - os longos e saudosos telefonemas, as conversas diante da tela do computador, os temores (infundados ou não) de infidelidade, as dúvidas em relação ao prosseguimento do namoro, a falta de sexo, as dificuldades logísticas de um reencontro - e, ilustrados por uma trilha sonora das melhores (The Cure, The Pretenders). Drew Barrymore e Justin Long (que já foram namorados na vida real) apresentam uma química das mais certeiras e mesmo que algumas sequências flertem com o vulgar (apesar de bastante engraçadas), jamais ultrapassam os limites esperados para o gênero - e servem para conduzir a história, sem prejuízos para seu ritmo ou foco. Tudo isso, somado a acertada opção de Bernstein em não forçar a mão no drama, fazem do filme uma sessão praticamente sem contra-indicações.

Não exatamente um sucesso estrondoso de bilheteria, "Amor à distância" é mais um exemplar na lista de produções inofensivas estreladas por Drew Barrymore - ao lado de "Afinado no amor" (1998), Para sempre Cinderela" (1998), "Nunca fui beijada" (1999) e "Como se fosse a primeira vez" (2004). Seu público-alvo sabe o que esperar de cada um de seus filmes. E não é isso que se chama de conforto?

quinta-feira

MEU QUERIDO PRESIDENTE

 


MEU QUERIDO PRESIDENTE (The American president, 1995, Universal Pictures/Castle Rock Entertainment, 114min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Aaron Sorkin. Fotografia: John Seale. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Lillu Kilvert/Karen O'Hara. Produção executiva: Charles Newirth, Jeffrey Stott. Produção: Rob Reiner. Elenco: Michael Douglas, Annette Bening, Michael J. Fox, Martin Sheen, Richard Dreyfuss, Samantha Mathis, Anna Deavere Smith, Shawna Waldron. Estreia: 08/11/95

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original (Comédia ou Musical)

Às vezes tudo que um diretor de cinema precisa é de uma comédia romântica para demonstrar que também tem um lado menos denso - e de quebra deixar para trás um fiasco homérico. Depois que seu "O anjo da guarda" (1994) fracassou gigantescamente nas bilheterias e foi massacrado pela crítica, Rob Reiner percebeu que a forma de fazer as pazes com o público e com o sucesso seria retornar ao gênero que já havia lhe dado a oportunidade de criar um clássico contemporâneo. Sendo assim, seis anos depois que Meg Ryan entrou para a história fingindo um orgasmo em pleno restaurante lotado - em "Harry & Sally: feitos um para o outro" - uma nova história de amor inofensiva e elegante chegava às telas com sua assinatura, mas dessa vez, com um pequeno upgrade em relação a seus protagonistas: em vez de um casal normal no começo dos trinta anos e vivendo em uma fotogênica Nova York, os personagens principais de "Meu querido presidente" são uma lobista ambiental e um quarentão viúvo que é ninguém menos que o presidente dos EUA.

Andrew Sheperd (interpretado com charme por Michael Douglas) está chegando à segunda metade de seu mandato como presidente, com alto índice de aprovação do eleitorado e sem causar maiores problemas junto a seus correligionários do Partido Democrata. Eleito logo após a morte da esposa, vítima de câncer, Sheperd é visto como um pai dedicado (de uma filha pré-adolescente) e de uma integridade a toda prova - para desgosto de seu maior rival, o republicano Bob Rumson (Richard Dreyfuss), à espera de qualquer deslize para tentar suplantá-lo em uma nova e próxima eleição. A chance de ouro de Rumson chega quando entra em cena Sydney Ellen Wade (Annette Bening), uma competente e conhecida lobista lutando pela aprovação de uma lei a favor do meio-ambiente. Encantado pela inteligência e pela sensibilidade de Sydney, o presidente se deixa seduzir pela possibilidade de um novo romance - até que seus oponentes resolvem apelar para táticas pouco elogiáveis com o intuito de destruir suas chances de reeleição. Resta a ele decidir-se, então, pelo amor ou pelo poder.

Escrito por Aaron Sorkin - criador e roteirista da bem-sucedida série "The West Wing", que também trata dos bastidores da política norte-americana -, "Meu querido presidente" não tenta ser um retrato fiel dos meandros da Casa Branca e seus adendos. Pelo contrário, o filme de Reiner apresenta uma visão romântica e idealizada, quase a ponto de tornar-se maniqueísta: enquanto Sheperd é retratado como bom moço, honesto e incapaz de qualquer deslize deliberado, seu rival - vivido por Richard Dreyfuss nitidamente à vontade - é a epítome da política como algo venal, sujo e amoral. Entre os dois extremos, está a heroína de Annette Bening, mostrada como uma mulher independente, bem-sucedida e respeitada que, no entanto, não escapa de ser a típica protagonista de histórias de amor direcionadas aos fãs do gênero: mesmo tentando manter a pose de alguém que põe a carreira acima da vida pessoal, basta um encontro regado a belas roupas, boa bebida e uma rodada de dança para que suas prioridades entrem em xeque. São poucos os momentos em que Reiner (que conduz o filme com sobriedade mas nunca a ironia que se poderia esperar) deixa sobressair a argúcia característica da obra mais famosa de Sorkin - somente quando entram em cena os assessores de Sheperd, interpretados por Martin Sheen e Michael J. Fox, é que se pode reconhecer seu texto quase cínico (é de se imaginar como seria seu roteiro original, que contava com 385 páginas).

Indicado ao Oscar de melhor trilha sonora original (comédia ou musical), "Meu querido presidente" é um filme que, mesmo longe de ser brilhante, jamais subestima o espectador. Oferece um casal central extremamente simpático (Bening ficou com o papel para o qual foram consideradas Jessica Lange, Emma Thompson, Michelle Pfeiffer e Susan Sarandon), uma história sem sobressaltos ou ousadias temáticas e narrativas e uma atmosfera romântica e adulta rara em filmes comerciais de sua época - vale lembrar que foi o ano de blockbusters como "Toy story", "Pocahontas", Duro de matar 3" e "Ace Ventura 2", nenhum deles exatamente apropriado para quem desejava apenas sentir-se apaixonado ao entrar em uma sala de exibição. Delicado mas pouco memorável, ao menos serviu para deixar para trás o fracasso de "O anjo da guarda" - pelo menos até o filme seguinte de Reiner, "Fantasmas do passado", que também não foi exatamente um sucesso.

segunda-feira

O PODER DO AMOR

 


O PODER DO AMOR (Something to talk about, 1995, Warner Bros, 106min) Direção: Lasse Hallstrom. Roteiro: Callie Khouri. Fotografia: Sven Kykvist. Montagem: Mia Goldman. Música: Graham Preskett, Hans Zimmer. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Roberta J. Holinko. Produção executiva: Goldie Hawn. Produção: Anthea Sylbert, Paula Weinstein. Elenco: Julia Roberts, Dennis Quaid, Robert Duvall, Kyra Sedgwick, Gena Rowlands, Brett Cullen. Estreia: 20/7/95

Nem sempre o encontro de talento, prestígio e popularidade resulta em um grande sucesso. "O poder do amor" é um exemplo claro dessa afirmação: mesmo com a união do celebrado diretor Lasse Hallstrom (então já indicado ao Oscar por "Minha vida de cachorro", de 1987), da roteirista Callie Khouri (oscarizada por "Thelma & Louise", de 1991) e da atriz Julia Roberts, o filme ficou muito aquém do esperado nas bilheterias e tampouco entusiasmou a crítica. Vendida como uma comédia romântica quando na verdade é um drama familiar quase sonolento, e lançado em um período de crise na carreira de Roberts - que vinha acumulando fracassos comerciais que ameaçavam seu status de grande estrela - a produção da Warner decepcionou tanto o estúdio (que esperava um estouro financeiro) quanto seus fãs, ansiosos por rever seu belo sorriso e seu carisma milionário, o que só voltaria a acontecer com "O casamento do meu melhor amigo", lançado dois anos mais tarde.

Além da direção burocrática de Hallstrom, "O poder do amor" sofre, basicamente, pela absoluta falta de humor de seu roteiro - uma surpresa quando se trata de Khouri - e por personagens que falham em despertar a simpatia do espectador. Até mesmo a protagonista, uma mulher traída e tentando refazer a vida, sofre com um desenvolvimento pouco interessante. Grace Bichon (interpretada no piloto automático por Julia Roberts) administra o haras de seu pai, Wyly King (Robert Duvall), e vive um casamento aparentemente perfeito com o sedutor Eddie (Dennis Quaid). Sua frágil felicidade sofre um baque, no entanto, quando ela descobre que seu marido tem um romance com uma colega de trabalho. Humilhada e ressentida, Grace vai morar com a irmã caçula, Emma Rae (Kyra Sedgwick) e, se recusando a qualquer contato com o ex-marido, passa a questionar o sistema de quase submissão a que as mulheres de sua família se sujeitam em relação aos homens que a cercam. Tal comportamento chega até sua mãe, Georgia (Gena Rowlands), que até então jamais havia percebido tal situação em seu relacionamento.

 

O roteiro de Callie Khouri, como não poderia ser diferente, oferece às personagens femininas um destaque maior do que aos homens da história. Isso não significa, no entanto, que elas sejam capazes de conquistar a plateia. Com diálogos frequentemente enfadonhos e que soam artificiais até mesmo recitados por atrizes do porte de Roberts, Rowlands e Sedgwick, a trama anda em círculos, dá espaço para histórias paralelas pouco atraentes - que envolvem o haras da família e um novo relacionamento pouco crível à protagonista - e sofre com uma indesculpável falta de charme. Nem mesmo os belos cenários, os imponentes cavalos e o elenco carismático são suficientes para disfarçar o ritmo claudicante imposto pela direção - uma surpresa, uma vez que o sueco Hallstrom tem enorme talento para sublinhar as características mais emocionais de seus filmes, como mostrou em "Regras da vida" (1999), que lhe rendeu uma segunda indicação ao Oscar. E se não bastasse o fato do desperdício de suas atrizes, o filme oferece oportunidades ainda menores a seus atores, relegados a segundo plano e com personagens quase patéticos - se tal opção é proposital para enfatizar a força das mulheres há formas menos simplórias de atingir seu objetivo do que fazer dos maridos da família King/Bichon dois babacas machistas e unidimensionais.

É uma pena que "O poder do amor" fique tão aquém das possibilidades de sua equipe de talentos. Seu marketing desastroso - certamente o público esperava uma comédia romântica leve e agradável e encontrou um pretensioso drama com ambições de emular o cinema europeu - foi apenas um dos culpados por fazer dele um dos trabalhos menos marcantes de Julia Roberts. Sem nenhuma cena marcante, uma trama pouco inventiva e uma narrativa cujo ritmo jamais permite o envolvimento do espectador, o filme só não é um desastre completo porque, apesar de tudo, seu elenco esforçado faz valer seus longos 106 minutos de duração - mesmo que a história seja esquecida pouco tempo depois do final da sessão.

E AGORA, MEU AMOR?

E AGORA, MEU AMOR? (Fools rush in, 1997, Columbia Pictures, 109min) Direção: Andy Tennant. Roteiro: Katherine Reback, estória de Joan Taylor, Katherine Reback. Fotografia: Robbie Greenberg. Montagem: Roger Bondelli. Música: Alan Silvestri. Figurino: Kimberly A. Tillman. Direção de arte/cenários: Edward Pisoni/Leslie Morales. Produção executiva: Michael McDonnell. Produção: Doug Draizin. Elenco: Matthew Perry, Salma Hayek, Jill Claybourgh, Jon Tenney, Carlos Gomez, Siobhan Fallon, John Bennett Perry. Estreia: 14/02/97

No começo de 1997, poucos programas de tv eram tão populares e queridos quanto "Friends" - cujo sucesso só fez aumentar ainda mais nas temporadas seguintes. Nenhuma surpresa, portanto, que seus astros tentassem o caminho natural rumo em direção ao cinema, ainda considerado um veículo mais nobre e com mais status. Enquanto Jennifer Aniston já começava a brilhar em comédias românticas - como "Nosso tipo de mulher" (1996) e "Paixão de ocasião" (1997) -, Courteney Cox ganhava ainda mais fama com o primeiro capítulo de "Pânico" (1996) e Lisa Kudrow apostava na comédia, com "Romy & Michelle" (1997), o elenco masculino buscava arduamente ser reconhecido além de seus personagens mais célebres. Se David Schwimmer havia tentado a sorte no elogiado mas pouco visto "O primeiro amor de um homem" (1996) - ao lado de uma Gwyneth Paltrow pré-Oscar - foi Matthew Perry quem deu o passo mais bem-sucedido. Tudo bem que "E agora, meu amor?" não foi um sucesso avassalador de bilheteria - nem tampouco chegou a fazer barulho nas cerimônias de premiação do ano -, mas o romance dirigido por Andy Tennant conseguiu mostrar, ainda que de forma tímida, que o intérprete do sardônico Chandler Bing tinha mais a oferecer do que piadas ininterruptas. 

Simples e inofensivo, o filme de Tennant - que se especializaria em comédias românticas no decorrer dos anos 2000 - serve como um veículo perfeito para o carisma de Perry, um ator simpático e talentoso, capaz de provocar a identificação do público masculino sem maiores dificuldades. Na trama, ele interpreta Alex Whitman, um homem comum, que trabalha como supervisor no mercado de construção civil enquanto leva uma vida quase tediosa, se envolvendo aqui e ali em relações fugazes e sem profundidade. Uma dessas relações acontece durante uma viagem a Las Vegas, quando ele conhece a mexicana Isabel Fuentes (Salma Hayek) e passa a noite com ela. O que parecia apenas mais um caso passageiro logo se revela algo mais complicado, porém: alguns meses depois do encontro, a bela fotógrafa ressurge em sua vida com a notícia de que está grávida. Atônito com a novidade - e ciente de que a jovem não tem o menor interesse em interromper a gravidez, por motivos religiosos e morais -, Alex a pede em casamento. Mesmo diante do fato de que se conhecem muito pouco e que suas diferenças culturais e sociais podem ser um empecilho para o relacionamento, os dois se casam - e descobrem, com o passar dos meses, que estavam certos quanto às dificuldades de um compromisso tão precoce.

 

Se há alguma diferença entre "E agora, meu amor?" e dezenas de filmes do gênero é em sua tentativa - nem sempre feliz, mas bem intencionada - de retratar o choque cultural que nasce do encontro entre Alex e Isabel, duas pessoas de mundos cuja distância pode ser facilmente subestimada em um primeiro olhar. Alex tem uma relação quase distante com os pais (interpretados por Jill Claybourgh e John Bennett Perry, pai de Matthew também na vida real), enquanto Isabel tem a família - numerosa, ruidosa e onipresente - como base de sua existência. Isabel é católica fervorosa - e seu novo marido não é exatamente um sujeito religioso. Alex tem planos profissionais que pedem que ele more em Nova York; a futura mãe de seu filho não tem a menor intenção de abandonar Las Vegas e seu clamoroso clã. Tais diferenças - administráveis em um namoro, mas pouco remediáveis quando se começa uma família - formam o conflito que é praticamente todo o roteiro do filme. O problema é que, apesar de talentosa, a dupla central falha no principal: não há química entre o casal, e a paixão que surge entre eles soa pouco crível, tornando difícil o principal objetivo de uma comédia romântica, que é torcer pelo casal de protagonistas.

"E agora, meu amor?" é, na verdade, e em seu favor, um entretenimento despretensioso, que cumpre o que promete. Se não consegue ultrapassar os limites do mediano é somente porque o roteiro foge de qualquer ousadia narrativa e/ou profundidade dramática. Salma Hayek é linda - e em papel oferecido à Jennifer Lopez, que o recusou para estar em "Anaconda" (1997) -, mas não é exatamente uma atriz de grandes recursos (levaria ainda quase meia década para concorrer ao Oscar por "Frida" (2002)) e Matthew Perry, simpático e carismático, faz o que pode para extrair substância de um personagem muito aquém de seu talento cômico - e, segundo ele, foi durante as filmagens que um acidente de jetski aprofundou ainda mais seu vício em remédios controlados, problema que o atormentou durante décadas. Leve (até demais), "E agora, meu amor?" é o programa ideal para os fãs dos atores e do gênero. Mas não entrega mais do que se poderia esperar.

quarta-feira

O CASAMENTO DOS MEUS SONHOS


O CASAMENTO DOS MEUS SONHOS (The wedding planner, 2001, Columbia Pictures, 103min) Direão: Adam Shankman. Roteiro: Pamela Falk, Michael Ellis. Fotografia: Julio Macat. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: Mervyn Warren. Figurino: Pamela Whiters. Direção de arte/cenários: Bob Ziembicki/Barbara Munch. Produção executiva: Moritz Borman, Guy East, Nina R. Sadowsky, Chris Sievernich, Nigel Sinclair. Produção: Peter Abrams, Deborah Del Prete, Jennifer Gibgot, Robert L. Levy, Gigi Pritzker. Elenco: Jennifer Lopez, Matthew McConaughey, Bridgette Wilson-Sampras, Judy Greer, Justin Chambers, Kathy Najimi, Alex Rocco, Joanna Gleason, Kevin Pollack. Estreia: 26/01/2001

No começo dos anos 2000, Jennifer Lopez já era uma estrela. Em seu currículo como atriz já constavam produções com diretores consagrados, como Francis Ford Coppola ("Jack", de 1996), Oliver Stone ("Reviravolta", de 1997) e Steven Soderbergh ("Irresistível paixão", de 1998) e elogios da crítica especializada por seu trabalho em "Selena" (1996). Como cantora, já havia vendido mais de 8 milhões de cópias com seu álbum de estreia, "On the 6" (1999) e estava lançando seu segundo trabalho, "J.Lo" - que tinha expectativas de se tornar um sucesso ainda maior. Portanto, quando "O casamento dos meus sonhos" estreou, em janeiro de 2001, seu nome no cartaz de um filme já era um atrativo e tanto - e levando-se em conta que seu parceiro de cena, Matthew McConaughey, também já tinha um fã-clube feminino dos maiores, não chegou a ser surpresa a bilheteria acima dos 90 milhões de dólares do filme no mercado internacional. Mesmo sem apresentar nenhuma novidade e seguindo à risca a receita das comédias românticas, o filme de Adam Shankman provou que, mesmo contra tecnologias de ponta e estratégias milionárias de marketing, histórias de amor ingênuas e superficiais sempre terão espaço junto a seu público fiel.

Assumindo o lugar de Sarah Michelle Gellar - que não conseguiu conciliar as filmagens com as gravações da série "Buffy: a caça-vampiros" - e Minnie Driver (segundo afirmações da atriz em entrevistas), Jennifer Lopez não precisa fazer muito esforço no papel principal do filme. Ela interpreta Mary Fiore, uma bem-sucedida organizadora de casamentos que se esforça para tornar-se sócia da empresa onde trabalha, enquanto luta para superar o traumático fim de seu relacionamento. Jovem e bonita, ela é, também, constantemente pressionada pelo pai viúvo a encontrar um novo amor - a ponto de fugir dos avanços do bem intencionado amigo de infância Massimo (Justin Chambers, que anos depois se tornaria astro com a série "Grey's Anatomy"). Dedicada à carreira, Mary vê na milionária Fran Donnolly (Bridget Wilson-Sampras) a chance de finalmente atingir seus objetivos profissionais: planejar a festa de seu casamento parece o caminho certo para o sucesso. Porém, seu encontro com o médico Steve Edison (Matthew McConaughey) vira tudo do avesso: apaixonada, Mary vê no rapaz o homem ideal para resolver sua vida romântica, mas descobre, decepcionada, que ele é o noivo de sua mais promissora cliente.


 

Apostando nos clichês e sem medo de contar uma história sem nenhuma grande novidade, o roteiro de "O casamento dos meus sonhos"serve, na verdade, como um veículo para o estrelato de Jennifer Lopez: bela, carismática e dotada de um razoável timing cômico, Lopez deita e rola com uma personagem que não lhe exige mais do que fazer exatamente isso: ser bela, carismática e exercitar seus dotes em comédia - que, se não chegam a ser brilhantes, funcionam como um relógio. O roteiro não aprofunda nenhum personagem e nenhum conflito (como é comum aos filmes do gênero), mas a direção de Shankman - que em 2007 assinaria a versão para as telas do musical "Hairspray: em busca da fama" - se equilibra entre o burocrático e o elegante, disfarçando a fragilidade do enredo e até de algumas soluções um tanto quanto apressadas. É também uma pena que o filme não aproveite o talento de coadjuvantes como Kathy Najimi (que pouco aparece como a dona da empresa da protagonista), Judy Greer (especialista em roubar a cena mesmo em papéis pequenos) e Joanna Gleason (na pele da mãe da noiva que está em vias de ver o futuro marido nos braços de sua organizadora de casamentos). Nem mesmo Bridget Wilson-Sampras tem muito o que fazer, eclipsada pela química entre Lopez e Matthew McConaughey - que substituiu Brendan Fraser no último minuto e viu fortalecido seu status de galã romântico.

Responsável pelo cancelamento de um projeto semelhante que seria protagonizado por Jennifer Love Hewitt, "O casamento dos meus sonhos" é o que pode se chamar de filme-conforto. Seus personagens são velhos conhecidos do público-alvo (a romântica sonhadora com azar no amor, o galã comprometido com a mulher errada, a antagonista fútil), a história é previsível até o osso, a trilha sonora é suave e com uma canção feita para vender discos (a canção que toca nos créditos finais é "Love don't coast a thing", da própria Jennifer Lopez) e os coadjuvantes servem como contraponto humorístico à trama romântica. Se não entrega mais do que propõe é justamente por sua intenção em servir à plateia como mais uma coleção de clichês a que sua plateia possa recorrer quando necessitar de duas horas de diversão sem compromisso. "O casamento dos meus sonhos" é o equivalente cinematográfico de uma caixa de bombons ou um pote de sorvete nos momentos de crise. Esperar mais dele é um erro, mas aceitar suas limitações é o caminho para um passatempo agradável e leve.

 

sexta-feira

INGRESSO PARA O PARAÍSO

 


INGRESSO PARA O PARAÍSO (Ticket to paradise, 2022, Universal Pictures/Working Title Films, 104min) Direção: Ol Parker. Roteiro: Ol Parker, Daniel Pipski. Fotografia: Ole Bratt Birkeland. Montagem: Peter Lambert. Música: Lorne Balfe. Figurino: Lizzy Gardiner. Direção de arte/cenários: Owen Patterson/Nikki Barrett. Produção executiva: George Clooney, Jennifer Cornwell, Marisa Yeres Gill, Lisa Gillan, Amelia Granger, Grant Heslov, Rebecca Miller, Julia Roberts, Sarah-Jane Robinson, Nicholas Simpson, Sam Thompson. Produção: Deborah Balderstone, Tim Bevan, Eric Fellner, Sarah Harvey. Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Kaitlyn Dever, Billie Lourd, Maxime Bouttier. Estreia: 08/9/2022

Poucas pessoas no mundo perderiam a chance de viajar a uma praia paradisíaca em companhia de um dos melhores amigos e ainda ganhar uma fortuna para isso. E dentre essas pessoas não se incluem Julia Roberts e George Clooney: dois dos maiores astros de Hollywood, ricos, bonitos, famosos e bem-sucedidos (além de amigos e parceiros profissionais), eles voltam a se encontrar na frente das câmeras (e atrás também, já que assinam como produtores executivos) na comédia romântica "Ingresso para o paraíso" uma bobagem simpática e fotogênica que pouco faz por suas carreiras. Longe de ser um desastre completo mas tampouco memorável, o filme de Ol Parker - cujo currículo ainda pequeno inclui "Mamma Mia! Lá vamos nós de novo" (2018) e outras produções menores - usa e abusa do carisma de seus protagonistas e das belas paisagens naturais da Austrália (posando de Bali) para contar uma história sem maiores novidades, mas que pode agradar aos menos exigentes e os cinéfilos que nao vivem sem um romance  fictício.

Previsível sucesso de bilheteria - mais de 160 milhões de dólares arrecadados no mercado internacional -, "Ingresso para o paraíso" foi disputado por várias plataformas de streaming ainda em sua fase de pré-produção: entusiasmadas com a reunião de Roberts e Clooney, todas elas desejavam a chance de adicionar mais um êxito em seu catálogo, mas, acertadamente, a Working Title Films preferiu um lançamento em salas de exibição, tentando uma retomada pós-Covid-19, e a distribuição nos cinemas ficou a cargo da Universal Pictures. Deu certo: atingindo em cheio seu público-alvo, o filme não decepcionou em termos comerciais, ainda que não tenha feito o barulho esperado junto às demais plateias. Justificável. Apesar de seus protagonistas exalarem o charme que lhes é característico e de uma ou outra boa piada, o trabalho de Parker soa como mais do mesmo - mas, no final das contas, isso não chega a ser novidade quando se trata de comédias românticas, que parece ter, entre suas regras de ouro, nunca mexer em time que está ganhando. Em outras palavras, "Ingresso para o paraíso" é um filme ideal para quem procura uma produção da qual se é possível adivinhar o final desde a primeira cena - ou até mesmo desde o cartaz.

 

Casados graças aos arroubos da juventude, David (George Clooney) e Georgia Cotton (Julia Roberts) ficaram juntos apenas cinco anos, tempo suficiente para descobrirem uma imensa incompatibilidade de gênios e porem no mundo uma única filha, Lily (Kaitlyn Denver). Adulta, Lily é a responsável por reunir seus pais em ocasiões especiais, como sua formatura - e por impedir que a animosidade do ex-casal atrapalhe qualquer evento em que se encontrem juntos. Depois de um período de férias antes de iniciar uma carreira de advogada, porém, Lily surpreende os pais ao anunciar que está perdidamente apaixonada e irá se casar. Se a notícia já seria um choque normalmente, os detalhes são ainda mais perturbadores: sua jovem e bela filha irá abandonar tudo para ficar em Bali com o marido nativo, Gede (Maxime Bouttier). Temerosos que a filha repita o maior erro de suas vidas, os ex-casados deixam de lado suas diferenças e partem para a Indonésia com o objetivo de impedir o casamento - mas a magia da beleza local resolve agir e fazê-los rever seus sentimentos.

Avesso a comédias românticas desde que fez "Um dia especial" (1996) - ao lado de Michelle Pfeiffer -, George Clooney voltou ao gênero com a certeza de que seu carisma (somado ao sorriso radiante de Julia Roberts) seria o suficiente para garantir um belo retorno. Acertou em termos. "Ingresso para o paraíso" insiste em piadas sobre diferenças culturais, desencontros amorosos, diálogos sarcásticos e um visual de tirar o fôlego, como forma de disfarçar a fragilidade de seu roteiro. Algumas vezes tais artifícios funcionam, principalmente pelo talento dos dois astros, mas frequentemente fica a impressão de que o elenco se divertiu mais fazendo o filme do que a plateia quando o assiste. Talvez um pouco longo demais - uma edição mais enxuta provavelmente deixaria o ritmo menos truncado e a trama menos repetitiva -, o filme de Ol Parker segura bem uma sessão da tarde em um dia chuvoso, mas dificilmente será lembrado como um destaque na carreira de seus atores - ambos em momentos da carreira em que não precisam mais provar nada a ninguém. Divertido mas sem o brilhantismo das melhores comédias do gênero, "Ingresso para o paraíso" é um filme para fãs e ocasionais cinéfilos românticos.

quinta-feira

MAIS QUE AMIGOS


MAIS QUE AMIGOS (Bros, 2022, Universal Pictures, 115min) Direção: Nicholas Stoller. Roteiro: Billy Eichner, Nicholas Stoller. Fotografia: Brandon Trost. Montagem: Daniel Gabbe. Música: Marc Shaiman. Figurino: Tom Broecker. Direção de arte/cenários: Lisa Myers/Nicki Ritchie. Produção executiva: Billy Eichner, Karl Frankenfield. Produção: Judd Apatow, Josh Church, Nicholas Stoller. Elenco: Billy Eichner, Luke Macfarlane, Guy Branum, Harvey Fierstein, Miss Lawrence, Debra Messing. Estreia: 09/9/2022 (Festival de Toronto)

Primeiro, uma opinião polêmica: filmes de temática LGBTQIA+ que fogem do tradicional drama feito para ganhar Oscar dificilmente encontrarão, em um futuro próximo, público suficiente para fazer deles campeões de bilheteria. Por se tratar de um nicho (ainda) marginalizado dentro da indústria, produções que tentam desviar das tragédias e/ou biografias históricas gays fatalmente fracassam comercialmente. É difícil imaginar, por exemplo, heterossexuais saindo de casa e pagando um ingresso para assistir à comédia romântica "Mais que amigos" - primeiro filme do gênero com elenco principal formado por atores homossexuais a ser lançado por um grande estúdio de Hollywood (no caso, a Universal Pictures). Apesar dos elogios entusiasmados da crítica e de suas inegáveis qualidades, a produção dirigida por Nicholas Stoller ficou bem aquém das expectativas, em termos financeiros - o que provavelmente irá desencorajar outros estúdios a tentar a sorte nesta seara (ainda) espinhosa. A boa notícia é que, apesar da bilheteria decepcionante, o filme de Stoller é divertido para qualquer um que se proponha a deixar o preconceito de lado.

Logicamente, o público LGBTQIA+ encontrará muito mais razões para rir, uma vez que boa parte das referências pop que permeiam o roteiro diz respeito a seu universo todo próprio. Mas, ao contrário do que se poderia supor, a trama criada pelo diretor e pelo ator principal, Billy Eichner, sobrevive muito bem sem as piadas sobre "Queer eye for the straight guy" ou "Will & Grace", por exemplo. Na verdade, é uma comédia romântica simples, sobre um par aparentemente incompatível que descobre que, para viver um grande amor, é preciso aceitar as diferenças e as pressões sociais - nada de muito diferente de produções estreladas por Meg Ryan nos anos 1990, Katherine Heigl nos anos 2000 e Jennifer Aniston nos anos 2010, mas dessa vez com dois homens estampando o cartaz e buscando a torcida da plateia.



Billy Eichner dá vida a Bobby, um homossexual de trinta e poucos anos, conhecido por um podcast ácido e que está correndo atrás de um patrocínio para o lançamento do primeiro museu de história queer dos EUA - que, entre suas ousadias, quer provar a bissexualidade de Abraham Lincoln. Solteiro, ele deve boa parte de sua solidão à sua própria dificuldade de aprofundar-se em relações amorosas. Cansado de buscar parceiros em aplicativos de relacionamentos, ele conhece, em uma balada, o advogado Aaron (Luke Macfarlane), que considera além de suas possibilidades de conquista: sarado, popular, bonito e afeito a transas casuais, Aaron se aproxima de Bobby como amigo, mas não demora a  perceber que entre eles existe algo mais do que uma simples amizade. Avesso a compromissos, porém, propões ao escolado novo amigo uma relação aberta. Bobby aceita, a princípio, mas logo passa a ver que está (ao menos em sua perspectiva) em grande desvantagem. O conflito nasce - e aumenta até proporções que os impede de (ainda) ficarem juntos.

Repleto de diálogos espirituosos e inteligentes, "Mais que amigos" brinca com todos os clichês das comédias românticas e os estereótipos do mundo gay, sem medo de ofender suscetibilidades ou afugentar plateias mais puritanas. Não se priva de cenas de sexo (ousadas, mas ainda muito aquém do que é mostrado no cinema comercial heterossexual), não foge do sentimentalismo, quando necessário, e tampouco evita tocar em assuntos que povoam o universo LGBTQIA+ - a apologia ao corpo perfeito, o amor incondicional por divas pop, o preconceito dentro da própria bolha, o sexo casual como subterfúgio à solidão. Mas faz tudo com tanta leveza, tanto bom humor, tanta propriedade, que é difícil não se deixar levar e dar boas risadas. Billy Eichner brilha como o azedo e desiludido Bobby, que esconde, por trás de uma fachada cáustica, sérios problemas de autoestima, e Luke Macfarlane (conhecido pela série "Brothers & Sisters") é o contraponto perfeito a seu mau-humor quase encantador. Contando ainda com uma participação impagável de Debra Messing (de "Will & Grace") como ela mesma, "Mais que amigos" é um programa ideal para quem procura um passatempo inofensivo - e, apesar do fracasso comercial, tem tudo para virar cult. Basta mergulhar sem medo e se preparar para torcer para um casal (ainda) atípico.

PAIXÃO DE OCASIÃO


PAIXÃO DE OCASIÃO (Picture perfect, 1997, Warner Bros, 121min) Direção: Glenn Gordon Caron. Roteiro: Arleen Sorkin, Paul Slansky, Glenn Cordon Caron, estória de Arleen Sorkin, Paul Slansky, May Quigley. Fotografia: Paul Sarossy. Montagem: Robert Reitano. Música: Carter Burwell. Figurino: Jane Robinson. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Debra Schutt. Produção executiva: William Teitler. Produção: Erwin Stoff. Elenco: Jennifer Aniston, Kevin Bacon, Jay Mohr, Olympia Dukakis, Illeana Douglas, Kevin Dunn. Estreia: 01/8/97

Comédias românticas, via de regra, seguem algumas fórmulas - já consagradas e sem as quais os fãs do gênero se sentiriam órfãos. Uma dessas fórmulas (talvez a mais utilizada, mas sempre eficiente) é seguida quase à risca em "Paixão de ocasião", um dos primeiros sucessos no cinema de Jennifer Aniston - então já famosa por "Friends" mas ainda antes de seu célebre casamento com Brad Pitt. Dirigido por Glenn Gordon Caron, produtor executivo de televisão, mas com poucos trabalhos como cineasta, o filme, simpático e agradável, serviu para comprovar o carisma de Aniston, que se tornaria, com o passar dos anos, a mais bem sucedida integrante do elenco da série (ao menos na tela grande). Mesmo sem apresentar maiores novidades em seu enredo - e talvez justamente por isso -, a história de um triângulo amoroso surgido através de um mal entendido conquistou o público (em especial o feminino) com sua mistura de humor, romance, belas paisagens e uma trilha sonora moderna - em suma, a receita completa para uma bela sessão da tarde despretensiosa.

Kate (Jennifer Aniston) é uma jovem de 28 anos que trabalha em uma agência de publicidade de Nova York, ao lado do homem por quem é apaixonada, o galante Sam (Kevin Bacon). Ainda solteira apesar dos apelos de sua dramática mãe, Rita (Olympia Dukakis), que não vê a hora de ser avó, Kate está praticamente desistindo da vida amorosa quando percebe que nem mesmo sua vida profissional está andando pra frente devido a seu estado civil. Deixada de lado em uma campanha milionária somente por ser solteira - de acordo com seus chefes ela não tem a estabilidade necessária para que confiem a ela uma responsabilidade maior -, Kate acaba aceitando fazer parte de uma mentira criada por sua amiga e colega de trabalho Darcy (Illeana Douglas): de uma hora para outra, o cinegrafista Nick (Jay Mohr) - que vive de filmar eventos particulares em Massachussets - se torna seu noivo, graças a uma fotografia casual tirada em um casamento. Para manter a mentira, Kate convida Nick para visitá-la e acompanhá-la em um jantar de negócios - ele se apaixona de verdade por ela, que não percebe a situação por ainda estar obcecada por Sam, que repentinamente também passa a sentir-se atraído pela colega capaz de trair o noivo para ficar com ele.

 

As situações criadas pelo roteiro de "Paixão de ocasião" são deliciosas, tanto no que diz respeito aos problemas criados na vida de Kate por sua mentira quanto por seu encontro com Nick, que se demonstra uma pessoa adorável e muito mais apaixonante do que ela poderia prever. Ao contrário de seus colegas nova-iorquinos, esnobes e consumidos pelas carreiras, ela vê, no rapaz, alguém sensível e capaz de oferecer mais do que conversas sobre mercado financeiro e estabilidade profissional: delicado e atencioso, Nick é a antítese de Sam, egoísta, autocentrado e que só percebe Kate quando tem certeza de que ela, comprometida, não lhe cobrará mais do que noites de sexo escondido. Enquanto um mal entendido leva a outro, no entanto, a trama perde a oportunidade de discutir temas relevantes, como a posição da mulher no mercado de trabalho e o preconceito contra mulheres solteiras e independentes. Não chega a ser um demérito - afinal não parece ser a intenção do roteiro - mas soa a uma oportunidade perdida ignorar uma premissa tão cheia de possibilidades, principalmente porque, conforme é mostrado logo nas primeiras cenas, Kate é tão talentosa quanto qualquer um de sua agência, sendo casada ou solteira. Mas essa discussão praticamente inexiste no filme - e, levando-se em conta de que se trata de uma comédia romântica com o objetivo simples de entreter e deixar a plateia com um sorriso nos lábios, é algo perdoável e compreensível.

"Paixão de ocasião" é, para os ávidos consumidores do gênero, uma delícia. Atores fotogênicos e talentosos, um roteiro que não exige demais dos neurônios, um roteiro que trabalha os clichês com segurança e carinho e uma direção que não tenta sobrepujar os elementos de que dispõe. Correto e sem grandes deslizes, Glenn Gordon Caron - cujo maior crédito em cinema é "Love affair: segredos do coração" (1994), remake de "Tarde demais para esquecer" (1957) - conduz seu filme com elegância e, mesmo que pudesse inserir um pouco mais de leveza a seu ritmo, faz dele um programa sem contra-indicações. Em seu primeiro papel principal em um gênero que fez a glória de Meg Ryan, Jennifer Aniston mostra personalidade própria e carisma o bastante para alçar voos mais ambiciosos - como seu elogiado desempenho em "Cake: uma razão para viver", lançado em 2015 e que comprovou seu talento dramático.

ARTHUR: O MILIONÁRIO SEDUTOR


ARTHUR: O MILIONÁRIO SEDUTOR (Arthur, 1981, Orion Pictures, 97min) Direção e roteiro: Steve Gordon. Fotografia: Fred Schuler. Montagem: Susan E. Morse. Música: Burt Bacharach. Figurino: Jane Greenwood. Direção de Arte/Cenários: Stephen Hendrickson/Carol Joffe, Steven J. Jordan. Produção executiva: Charles H. Joffe. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Dudley Moore, Liza Minelli, John Gielgud, Geraldine Fitzgerald, Jill Eikenberry. Estreia: 17/7/81

4 indicações ao Oscar: Ator (Dudley Moore), Ator Coadjuvante (John Gielgud), Roteiro Original, Canção Original ("Arthur's Theme (Best you can do")

Vencedor do Oscar de Canção Original: "Arthur's Theme (Best you can do)"

Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Dudley Moore), Ator Coadjuvante (John Gielgud), Canção Original ("Arthur's Theme (Best you can do)")

Nem só de dramas lacrimosos e épicos históricos vive a cerimônia do Oscar. Em 1981, mesmo ano em que "Carruagens de fogo" surgiu como o grande vencedor da festa da Academia, contra pesos-pesados como "Num lago dourado", "Reds" e "Caçadores da arca perdida", uma comédia romântica de grande sucesso popular demonstrou um poder de fogo inesperado, arrebatando duas das quatro estatuetas douradas a que estava indicada. "Arthur, o milionário sedutor", único filme escrito e dirigido por Steve Gordon (que morreu precocemente, aos 44 anos, em novembro de 1982) não apenas acabou a temporada como a quarta maior bilheteria do ano (com quase 100 milhões de dólares arrecadados pelo mundo) como conquistou a crítica a ponto de ganhar quatro Golden Globes (incluindo melhor filme e ator em comédia/musical) e chegar ao Oscar com moral suficiente para colocar Dudley Moore na disputa com nomes fortes como Paul Newman, Burt Lancaster e Henry Fonda - que acabou prevalecendo depois de uma carreira longa e vitoriosa. Estrelado ainda por uma Liza Minelli no auge da graça e da popularidade e por um John Gielgud brilhante em sua elegância britânica, "Arthur" se tornou, com o tempo, um incontestável clássico contemporâneo que nem mesmo a refilmagem desnecessária e sofrível estrelada por Russell Brand e Helen Mirren em 2011 conseguiu estragar.

Excêntrico, alcóolatra contumaz, mulherengo e de língua ferina, Arthur Bach não é apenas o personagem-título do longa de Gordon, mas seu centro absoluto - assim como suas relações com o fiel mordomo Hobson (John Gielgud) e a espevitada Linda Marolla (Liza Minnelli). Mas se é impensável imaginar ator mais apropriado do que o impagável Dudley Moore para vivê-lo, é preciso saber que o britânico estava bem longe de ser a primeira escolha do diretor. E nem apenas George Segal foi substituído por ele, como já havia acontecido em "Mulher nota dez" (1979): na lista de possíveis intérpretes para Arthur figuraram Al Pacino, James Caan, John Travolta, John Belushi, Robert Redford, Jeff Bridges, Chevy Chase, Steve Martin, Bill Murray, Jack Nicholson, Sylvester Stallone, Robin Williams, Burt Reynolds e Tom Selleck - um verdadeiro quem é quem na indústria no começo dos anos 1980. O êxito absoluto de Moore no papel não deixa de ser mérito do cineasta, que admitiu depois do lançamento, que suas dúvidas a respeito do ator central não eram as únicas a lhe atormentar: nada menos que quatro finais diferentes foram filmados e somente no processo de edição as coisas finalmente entraram nos eixos - detalhe que não impediu que o roteiro original fosse indicado ao Oscar e de certa forma servisse de influência a todas as comédias românticas que viriam a seguir.


A trama de "Arthur" não é exatamente inovadora - e nem o era à época de seu lançamento: o protagonista é um milionário irresponsável mas de bom coração que passa seus dias (ou melhor, noites) bebendo e dando em cima de toda bela mulher que passa em seu caminho. Seu fiel escudeiro, o mordomo Hobson, está sempre à espreita, consertando seus erros e tentando amenizar as consequências de seus atos tresloucados causados pelo excesso de bebida. Por trás da existência errática de Arthur, no entanto, existe um grande problema: a pressão para que se case com outra milionária, a deslumbrada Susan Johnson (Jill Eikenberry), única condição para que não tenha todo o seu dinheiro bloqueado por seu pai e sua avó. Pouco tempo antes de tomar a decisão mais importante de sua vida, porém, Arthur esbarra em Linda Marolla (Liza Minnelli), uma garçonete espevitada e de bem com a vida, que mora com o pai, Ralph (Barney Martin), e lhe mostra uma existência mais leve e distante do luxo a que está acostumado. Apaixonado por ela, o milionário precisa decidir entre o dinheiro e o amor - e descobrirá que a decisão não é tão fácil quanto poderia parecer.

"Arthur" é uma comédia deliciosa, que faz rir de forma orgânica e conquista pela simpatia dos atores principais - uma química preciosa que por pouco não aconteceu. Além da dificuldade de escalar um ator apropriado para viver o protagonista masculino, a produção também sofreu para encontrar uma atriz capaz de dividir a cena com Dudley Moore de forma a não ser eclipsada. Antes que Liza Minnelli entrasse no jogo, Carrie Fisher e Debra Winger já haviam recusado o papel, e na lista de possíveis intérpretes para a carismática Linda Marolla constavam Mia Farrow, Goldie Hawn, Farrah Fawcett, Barbara Hershey, Diane Keaton, Jessica Lange, Bette Midler, Susan Sarandon, Cybill Sheperd e Meryl Streep. A entrada de Minnelli no projeto se aproveitava do sucesso pós-Oscar por "Cabaret" (1977), mas é impossível não perceber que, apesar de seu talento incontestável, sua personagem é pouco desenvolvida, praticamente vivendo em função de seu relacionamento com Arthur. Quando juntos, ela e Dudley Moore brilham cintilantes - mas é uma pena a trama muitas vezes se desloque para as desventuras familiares do ricaço, em detrimento de seu nascente e divertido romance. Isso não impede, no entanto, que o filme de Steve Gordon seja um passatempo dos mais agradáveis e felizes de sua época

domingo

DIGAM O QUE QUISEREM


DIGAM O QUE QUISEREM (Say anything..., 1989, 20th Century Fox, 100min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: Laszlo Kovacs. Montagem: Richard Marks. Música: Anne Dudley, Richard Gibbs. Figurino: Jane Ruhm. Direção de arte/cenários: Mark Mansbridge/Joe Mitchell. Produção executiva: James L. Brooks. Produção: Polly Platt. Elenco: John Cusack, Ione Skye, John Mahoney, Lily Taylor, Pamela Segall, Jason Gould, Loren Dean, Jeremy Piven, Bebe Neuwirth, Eric Stoltz. Estreia: 14/4/89

Comédias românticas adolescentes seguem, via de regra, a mesma equação - especialmente aquelas criadas na década de 1980, quando o gênero floresceu graças ao talento de John Hughes, pai (como diretor, roteirista ou produtor) de clássicos absolutos como "Gatinhas e gatões" e "A garota de rosa-shocking", ambos estrelados pela diva maior da época, Molly Ringwald. Sendo assim, não se poderia esperar muitas ousadias em "Digam o que quiserem" - aparentemente mais um exemplar da série de romances juvenis com regras próprias e ingredientes facilmente reconhecíveis. Porém, regras existem para que possam ser quebradas, e o então jornalista Cameron Crowe, estreando como cineasta, subverteu um tantinho a receita de Hughes e criou uma história de amor que, com o julgamento normalmente sábio do tempo, transformou-se em um cult movie dos mais adorados pelos saudosistas.

Escrito com a mesma inteligência e sensibilidade que fez de Crowe um dos roteiristas mais elogiados da década seguinte - quando entregou ao público pérolas como "Vida de solteiro" (1993), "Jerry Maguire: a grande virada" (1996) e "Quase famosos" (2000), que lhe rendeu o Oscar da categoria -, "Digam o que quiserem" se aproveita das diretrizes mais simples das comédias românticas adolescentes para contar uma história com personagens que fogem dos padrões inalcançáveis de beleza e que agem como pessoas reais. Com diálogos tão naturais quanto frescos (em parte cortesia do preciso elenco) e situações dramáticas verossímeis, o filme envolve o espectador não por criar intrigas melodramáticas e/ou trágicas, mas por proporcionar identificação com problemas mundanos típicos da adolescência  - e até da idade adulta. "Será que ela vai aceitar sair comigo?" "Será que vou conseguir suprir as expectativas do meu pai?" "Será que devo interferir na vida da minha filha de forma tão peremptória?" As questões levantadas por Crowe encontram eco em qualquer época e para qualquer um - daí a perenidade de "Digam o que quiserem" e seu sucesso em manter-se relevante.


Mas não foi sempre assim. Quando estreou, em 1989, "Digam o que quiserem" não empolgou nas bilheterias, e só não chegou a ser um fiasco absoluto porque foi ajudado pela boa vontade de dois dos mais respeitados críticos dos EUA. Entusiasmados com o trabalho de Crowe, os consagrados Roger Ebert e Gene Siskel aplaudiram a produção em suas colunas - Ebert chegou a incluí-lo em um de seus livros sobre grandes filmes - e lhe ofereceram uma segunda chance. Mesmo com o bem-vindo empurrão dos jornalistas, porém, o filme não tornou-se um grande êxito comercial, e viu sua popularidade aumentar com o passar dos anos. Redescoberto, inspirou outros cineastas - e a antológica cena de seu protagonista segurando um aparelho de som sobre a cabeça, em uma moderna serenata, foi recriada com inteligência no divertido "A mentira", que revelou Emma Stone em 2009. E se o encanto do filme se mantém ainda hoje, é a presença de um jovem John Cusack no papel central que aumenta ainda mais seu interesse: em uma atuação natural e encantadora, Cusack rouba a cena até mesmo da colega de cena Ione Skye (filha do cantor Donovan), e faz entender porque foi escolhido pelo diretor, em detrimento de nomes como Christian Slater, Loren Dean, Peter Berg, Todd Field, Brandon Lee e Robert Downey Jr. (todos em começo de carreira).

Simpático como sempre, Cusack dá vida a Lloyd Dobler, um jovem estudante que acaba de terminar o ensino médio em uma escola de Seattle (cenário também de "Vida de solteiro"). Sem nenhum talento óbvio ou qualquer tipo de brilhantismo acadêmico, ele sabe apenas que é apaixonado por Diane Court (Ione Skye), uma colega que mal sabe quem ele é até que aceita, num arroubo de espontaneidade, ir com ele a uma das festas de formatura. A noite mostra a Diane as maiores qualidades de Lloyd - mas mesmo assim, sua prioridade é dedicar-se ao futuro, na forma de uma faculdade na Inglaterra, e à relação com o pai, Jim (John Mahoney em papel oferecido a Richard Dreyfuss), dono de um asilo e divorciado. De certa forma encantada com Lloyd - que vive com a irmã, Constance (Joan Cusack), e o sobrinho pequeno -, Diane aceita passar com ele as semanas que faltam para que embarque para a Europa, e logicamente se apaixona. Porém, suas dúvidas acerca das possibilidades de um relacionamento mais sério com alguém tão indeciso a fazem hesitar. E é com essa trama simples mas eficiente que Crowe fez sua auspiciosa estreia como diretor - bancada pelo produtor James L. Brooks e transformada, com o passar dos anos, em uma deliciosa máquina do tempo, capaz de levar a plateia de volta aos felizes anos 1980.

CELESTE E JESSE PARA SEMPRE


CELESTE E JESSE PARA SEMPRE (Celeste & Jesse forever, 2012, Envision Media Arts/Team Todd/PalmStar Media, 92min) Direção: Lee Toland Krieger. Roteiro: Rashida Jones, Will McCormack. Fotografia: David Lanzenberg. Montagem: Yana Gorskaya, Jonathan Melin. Música: Zach Cowie, Sunny Levine. Figurino: Julia Caston. Direção de arte/cenários: Ian Phillips/Joseph Oxford. Produção executiva: Kevin Frakes, Rashida Jones, Will McCormack. Produção: Lee Nelson, Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Rashida Jones, Andy Samberg, Elijah Wood, Will McCormack, Emma Roberts, Chris Messina, Chris Pine. Estreia: 20/01/2012 (Festival de Sundance)

Celeste e Jesse nasceram um para o outro. Amigos desde a escola, se descobriram almas gêmeas, se apaixonaram, se casaram e pareciam destinados a viverem felizes para sempre. Mas a vida é real e de viés, e como o amor nem sempre é o bastante, Celeste e Jesse estão se divorciando - principalmente porque ela não vê no marido a menor disposição de amadurecer e tornar-se o que ela considera um homem de verdade, digno de ser o pai de um filho seu. Apesar da separação, porém, Celeste e Jesse continuam grudados, morando praticamente juntos (ele ainda vive no estúdio nos fundos da casa dela) e enervando os amigos, que não se conformam com sua relação sui generis. A aparente tranquilidade entre Celeste e Jesse - que poderiam facilmente viver no limbo entre casamento e divórcio para o resto da vida - é quebrada, no entanto, quando o rapaz descobre que uma noite casual de sexo (quando já estava novamente solteiro) terá consequências bem mais sérias do que ele poderia esperar: subitamente, o infantil Jesse está em vias de tornar-se pai, e a exigente Celeste passa a questionar se a separação era o que ela realmente queria. Em crise no trabalho como analista de tendências e vendo o ex-marido avançando na carreira que deixava de lado durante seu relacionamento, ela tenta reconstruir a vida - mas talvez a missão não seja tão fácil quanto ela julgava.

Só de começar justamente pelo fim de um relacionamento - contrariando as regras das comédias românticas hollywoodianas e apostando na melancolia mais do que no encantamento -, "Celeste e Jesse para sempre" já merece ser aplaudido entusiasticamente. Porém, mais do que essa relativa ousadia da atriz e roteirista Rashida Jones (cansada da mesmice do gênero e disposta a enxergar os relacionamentos amorosos por ângulos menos óbvios), o filme estrelado pela própria Jones e por Andy Samberg (antes do estouro da série "Brooklyn Nine-nine") oferece ao público uma gama variada de sentimentos, que vão das risadas resultantes de piadas visuais e verbais e referências pop a algumas discretas lágrimas. Ao criar protagonistas críveis e dotados de falhas que os aproximam profundamente do espectador, o roteiro foge da idealização estéril das histórias de amor cinematográficas para entregar um sensível e (por que não?) incômodo estudo sobre relações humanas. Longe de ser um mergulho denso e sufocante ao estilo Ingmar Bergman, o filme de Lee Toland Krieger - que posteriormente assinaria episódios de séries como "Modern love", "Riverdale" e "Você" - é um exemplar típico do cinema independente norte-americano do começo dos anos 2000, como ""(500) dias com ela" (2009), de Marc Webb, com suas histórias agridoces e simpáticas dispostas a subverter um dos gêneros mais queridos e tradicionais de Hollywood. Distantes da aparência artificial dos símbolos sexuais que frequentam os romances açucarados realizados dentro dos domínios dos grandes estúdios, Jones e Samberg ainda tem a vantagem de serem excelentes intérpretes, dando consistência e veracidade a diálogos dolorosos (e também a outros, mais leves e menos marcantes).

 

"Celeste e Jesse para sempre" talvez deva muito de seu frescor e sua verdade ao fato de ter sido inspirado (muito livramente) no relacionamento dos dois roteiristas, Jones e Will McCormack (que marca presença no filme como um amigo do casal central): toda vez que o roteiro se concentra na relação dos protagonistas e deixa de lado as tramas paralelas desnecessárias (a estrelinha pop que remete a cantoras ao estilo Britney Spears, o amigo gay vivido por Elijah Wood) o filme alcança tons bem mais interessantes e sólidos. Mesmo que o humor por vezes soe um tanto deslocado (mas nunca vulgar ou pastelão em excesso), o equilíbrio entre drama e comédia é certeiro, permitindo ao público respiros aliviados enquanto acompanha as desventuras amorosas de um par que, perceptivelmente, funciona muito mais na teoria que na prática. É um toque de mestre dos roteiristas mostrar que Celeste e Jesse se amam mas estão, apesar de tanta sintonia em determinados pontos, em frequências diferentes no que mais importa - um detalhe crucial que é o algoz de seu relacionamento. Não há certo ou errado na situação (ainda que ela imprima um tom mais duro do que o simpático e quase bobalhão ex-marido) e justamente por isso as coisas funcionem tão bem a maior parte do tempo. É fácil dar razão à Celeste quando ela reclama da falta de ambição de Jesse, assim como não é difícil ficar ao lado dele quando ela resolve perceber que o ama justamente quando ele está finalmente tentando progredir emocionalmente.

São vários os momentos marcantes de "Celeste e Jesse para sempre": a constatação de Jesse que terá um filho e não será com a mulher que ama; o duro diálogo do ex-casal no meio da rua; o discurso de Celeste no casamento de uma amiga. São momentos que emocionam e tocam fundo no espectador - e que provavelmente foram responsáveis para que John Lasseter chamasse a dupla de roteiristas para criar a trama de "Toy story 4" (2019). Simples e complexo ao mesmo tempo (exatamente como a vida), o filme é uma comédia romântica sem açúcar - mas com personagens apaixonantes em suas falhas e equívocos. Uma pérola que comprova o talento de Rashida Jones atrás das câmeras e de Andy Samberg longe de sua tradicional persona boba. Para ver e rever de tempos em tempos.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...