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sábado

O QUE É ISSO, COMPANHEIRO?


O QUE É ISSO, COMPANHEIRO? (O que é isso, companheiro?, 1997, Columbia Pictures/Luiz Carlos Barreto Produções, 110min) Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Leopoldo Serran, livro de Fernando Gabeira. Fotografia: Félix Monti. Montagem: Isabelle Rathery. Música: Stewart Copeland. Figurino: Emilia Duncan. Direção de arte/cenários: Marcos Flaksman, Alexandre Meyer/Carlos Eduardo Mallet. Produção: Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto. Elenco: Alan Arkin, Pedro Cardoso, Fernanda Torres, Cláudia Abreu, Matheus Nachtergaele, Luiz Fernando Guimarães, Caio Junqueira, Selton Mello, Marco Ricca, Alessandra Negrini, Fernanda Montenegro, Lulu Santos, Luiz Armando Queiroz, Nelson Dantas, Maurício Gonçalves, Milton Gonçalves, Eduardo Moscovis, Othon Bastos. Estreia: 19/4/97

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Publicado em 1979 e logo alçado ao posto de um clássico contemporâneo, "O que é isso, companheiro?" narrava, em primeira pessoa, as experiências de Fernando Gabeira na luta armada contra a ditadura militar brasileira, sua participação no sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, sua prisão e seu exílio na Europa. Com mais de 250 mil exemplares vendidos, o livro foi peça fundamental na consolidação da carreira política do autor e uma das obras seminais a respeito de um dos períodos mais sombrios da história do país. Cinco anos depois de servir como uma das bases da minissérie global "Anos rebeldes" - um sucesso estrondoso que voltou a colocar os anos de chumbo em evidência - e quase duas décadas depois de seu lançamento, as memórias de Gabeira voltaram à tona com sua adaptação para o cinema. Com produção de Lucy e Luiz Carlos Barreto, direção de Bruno Barreto - já com carreira internacional consolidada - e coprodução da Columbia Pictures, a versão para as telas do infame sequestro de Elbrick ganhou a simpatia do público, da crítica e da Academia de Hollywood, que lhe indicou ao Oscar de melhor filme estrangeiro: não chegou a sair como vencedor - teve os planos atrapalhados pelo holandês "Caráter" -, mas foi um passo adiante do cinema brasileiro em direção ao respeito mundial.

O roteiro do experiente Leopoldo Serran - responsável pela adaptação de "O quatrilho", outra produção dos Barreto a ter concorrido ao Oscar, em 1996 - não abarca todo o livro de Gabeira, concentrando-se exclusivamente em seu elemento mais cinematográfico: sua entrada para o temido Movimento Revolucionário 8 de outubro (ou MR-8) e sua participação naquele que se tornaria um dos momentos mais emblemáticos da luta armada do final dos anos 1960. O próprio autor admite que sua personificação no filme (na pele do ótimo Pedro Cardoso) tem mais importância do que ele teve na realidade, mas a licença poética é plenamente compreensível em termos dramáticos: como elemento narrativo, é muito mais interessante um personagem como Fernando - um jovem sem experiência na luta que se vê no olho de um furacão e assume papel fundamental em um episódio muito maior que ele - do que um espectador passivo, servindo apenas de testemunha da história. Fernando é um homem de letras, de propensões intelectuais, e não alguém cuja índole previa pegar em armas e participar de assaltos (ou expropriações) e sequestros. É assim, graças a tal personalidade pacífica, que Fernando se aproxima do público, que se identifica com sua (falta de) vocação para a guerrilha ao mesmo tempo em que sabe que ela é a (talvez) única solução imediata. Ajuda, é claro, o talento de Pedro Cardoso em transmitir a insegurança de seu personagem e seu tom quase cômico mesmo em situações perigosas - e o grande elenco, tão incrível que pode se dar ao luxo de contar com Fernanda Montenegro em uma participação mínima mas crucial.


 

Em uma tentativa bem-sucedida de aproximar seu filme do público consumidor de programas de televisão, Bruno Barreto escolheu seu elenco a dedo. Dos consagrados Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães ao então novato Matheus Nachtergaele - passando por uma Cláudia Abreu no auge da popularidade e pelo norte-americano Alan Arkin -, a lista de créditos de "O que é isso, companheiro?" é admirável , com espaço até mesmo para pontas do cantor Lulu Santos como um militar. Se é questionável o fato de lotar o elenco de globais como forma de buscar o sucesso comercial - ainda que todos estejam excelentes em cena, independentemente de suas personas artísticas mais conhecidas -, o resultado foi bastante favorável. Além de dialogar com a audiência com mais facilidade, tal opção deu visibilidade o bastante ao filme em sua trajetória rumo a uma indicação ao Oscar - um objetivo para o qual contou também o nome de Bruno Barreto no exterior. Já bem instalado em Hollywood - principalmente graças ao êxito internacional de "Dona Flor e seus dois maridos" (1976) e produções de prestígio como "Assassinato sob duas bandeiras" (1990), estrelado por Amy Irving, com quem foi casado até 2005 -, Barreto nunca abandonou completamente suas raízes, e assim como seu irmão Fábio dois anos antes, chegou à corrida da estatueta com o apoio de nomes poderosos da indústria americana, como Steven Spielberg e a máquina de marketing da Columbia Pictures internacional. Não foi suficiente para arrebatar o prêmio - mas voltou a colocar o cinema brasileiro no mapa e jogar luz sobre um tema nunca desgastado.

Apesar de se passar durante a ditadura militar brasileira e contar uma de suas histórias mais emblemáticas, "O que é isso, companheiro?" dificilmente pode ser considerado um filme político. Longe dos questionamentos da filmografia de um Costa-Gavras, por exemplo - cujo "Z" (1969) é um cânone do gênero - e sem maior aprofundamentos do contexto histórico, o roteiro de Serran prefere focar-se na interrelação entre seus personagens, pressionados pela máquina governamental e diante da possibilidade de um fracasso que pode levá-los à morte. Boa parte da trama se passa durante o período do cativeiro do embaixador, interpretado com excelência por Alan Arkin - daí o título internacional, "Four days in September" - e são os vínculos entre os personagens que interessam a Serran e Barreto, mais do que os desdobramentos sociais e políticos de sua aventura. Tal escolha é válida, mas esbarra em alguns momentos um tanto quanto desconcertantes - como as crises de consciência do torturador a que Marco Ricca dá vida: Ricca é um ótimo ator e transmite verdade em suas cenas, mas é pouco crível que pessoas que ganham a vida com tal violência sejam tão suscetíveis a remorsos (em especial no calor do momento). Detalhes assim enfraquecem o filme como um todo - é uma tentativa não feliz em evitar o maniqueísmo - e o impedem de ter a potência que poderia. É uma produção caprichada - bem dirigida, com uma edição ágil e uma trilha sonora adequada - mas longe da obra-prima que se poderia esperar. Ainda assim, um belo produto do cinema nacional em sua fase de mesclar sucesso financeiro e prestígio internacional.

terça-feira

BERENICE PROCURA

 


BERENICE PROCURA (Berenice procura, 2017, EH Filmes, 90min) Direção: Allan Fiterman. Roteiro: Flávia Guimarães, romance de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Fotografia: Azul Serra. Montagem: Fábio Jordão. Música: João Paulo Mendonça. Figurino: Tatiana Rodrigues. Produção: Elisa Tolomelli. Elenco: Cláudia Abreu, Eduardo Moscovis, Emílio Dantas, Vera Holtz, Caio Manhente, Valentina Sampaio. Estreia: 07/10/2017

O psicanalista Luiz Alfredo Garcia-Roza só estreou na literatura aos 60 anos de idade, quando seu "O silêncio da chuva" foi lançado, em 2006. A partir de então, tornou-se um dos nomes mais populares entre os leitores de romances policiais - um gênero que, no Brasil, consagrou Rubem Fonseca e Patrícia Melo. Dez anos depois, outro livro seu, "Achados e perdidos", foi adaptado para o cinema por José Joffily, com Antonio Fagundes no papel principal - e encontrou outro público, disposto a acompanhar audiovisualmente um gênero clássico da sétima arte mesclado com elementos de identidade nacional. Tal característica da obra do escritor - utilizar os cânones das histórias policiais em um universo tipicamente brasileiro (carioca, mais exatamente) - está nítida e assumida em "Berenice procura", segundo livro seu a fazer a transposição das páginas para as telas. Assinado por Allan Fiterman - conhecido diretor de telenovelas globais fazendo sua estreia como cineasta - e estrelado pela sempre competente Cláudia Abreu, o filme acerta em cheio ao jogar luz em um tema controverso e relevante (a violência contra os LGBTQ+) mas escorrega em um quesito que volta e meia atormenta o cinema nacional: o roteiro.

A trama criada por Garcia-Roza é repleta de personagens dúbios, pistas falsas, hipocrisias morais e meandros da vida noturna de Copacabana. São elementos que, em um romance, podem ser desenvolvidos sem pressa. Em um roteiro cinematográfico, porém, é crucial que tais ingredientes sejam inseridos de maneira orgânica, como forma de envolver o espectador sem que as engrenagens da trama soem óbvias. Não é o que acontece em "Berenice procura": a roteirista Flávia Guimarães peca em simplesmente jogar as informações diante do público, sem aprofundá-las ou dar a elas a devida importância. É preciso fazer um exercício mental para descobrir as relações entre alguns personagens - e até mesmo para compreender algumas subtramas de extrema importância para o desenvolvimento da história. A intenção pode até ser confundir (afinal, trata-se de um jogo de detetive), mas somado à edição irregular de Fábio Jordão, o roteiro peca por não oferecer à plateia (e até mesmo aos atores envolvidos no projeto) uma base mais sólida: cenas fortes são diluídas em um excesso de cortes e um distanciamento estilístico que impede uma maior empatia pelos personagens - um erro fatal em um enredo cuja maior força é justamente a emoção primordial.

O filme começa muito bem, com uma sequência belamente fotografada e que emula os melhores momentos do cinema de David Lynch: a câmera passeia pelo amanhecer na praia de Copacabana até dar de cara com o cadáver de uma bela mulher, encostado em uma árvore. Quem descobre o corpo é um menino acompanhado da babá, e logo o crime é notícia nacional - a cobertura local é feita pelo repórter Domingos (Eduardo Moscovis), misógino, preconceituoso e casado com Berenice (Cláudia Abreu), que dirige um táxi para ganhar o próprio dinheiro e não depender do marido, com quem vive uma relação apenas formal. O casal tem um filho adolescente, Thiago (Caio Manhente), que vive em seu mundo particular, longe dos olhos dos pais - e perto demais do universo da vítima do crime, a transexual Isabelle (a bela Valentina Sampaio, atriz trans que demonstra grande potencial). Em flashback, o filme mostra os últimos dias de Isabelle, desejada pelos clientes da boate dirigida pela rígida Greta (Vera Holtz), e que sonha em abandonar a prostituição - no que é apoiada pela mãe adotiva, Brigitte (Brigitte de Búzios) e pelo irmão, Russo (Emílio Dantas), um contraventor envolvido em uma série de pequenos roubos e que passa a ser acusado pelo homicídio. Através de Thiago, inconsolável pela morte da amiga, Berenice acaba se envolvendo na investigação do crime - uma decisão que a conduz a um mundo diametralmente oposto à sua rotina doméstica de classe média.

Muita coisa em "Berenice procura" parece capenga: o envolvimento da protagonista na investigação soa gratuito demais, a relação entre Thiago e Isabelle nunca fica exatamente clara, o desfecho é abrupto e anticlimático, alguns personagens coadjuvantes são simplesmente subaproveitados e o romance entre Berenice e Russo não convence (mais por problemas de roteiro do que pelo talento de Cláudia Abreu e Emílio Dantas). Porém, esses equívocos - que comprometem bastante a narrativa - são amenizados por algumas qualidades redentoras. Allan Fiterman acerta em boa parte das sequências na boate, com shows produzidos com bom gosto e com uma atmosfera bastante realista; o tratamento dado à transexualidade é respeitoso (todo preconceito vem de personagens de caráter duvidoso) e o elenco é um espetáculo à parte - principalmente Vera Holtz (tirando o máximo de uma personagem unidimensional) e Eduardo Moscovis (sempre ótimo em papéis duros). Mas o destaque é mesmo a bela Valentina Sampaio, que estreia no cinema com o pé direito - a cena com a avassaladora "Amor marginal", de Johnny Hooker, é deslumbrante e coloca o filme definitivamente no rol das mais importantes produções LGBTQ+ da história do cinema nacional. É um marco - mas que poderia estar em um filme menos apressado e genérico.

O HOMEM DO ANO


O HOMEM DO ANO (O homem do ano, 2003, Conspiração Filmes/Warner Bros, 105min) Direção: José Henrique Fonseca. Roteiro: Rubem Fonseca, livro "O matador", de Patrícia Melo. Fotografia: Breno Silveira. Montagem: Sérgio Mekler. Música: Dado Villa-lobos. Figurino: Cláudia Kopke. Direção de arte/cenários: Kiti Duarte/Toni Vanzolini. Produção executiva: Beto Bruno. Produção: José Henrique Fonseca, Leonardo Monteiro de Barros, Flávio R. Tambelini. Elenco: Murilo Benício, Cláudia Abreu, Natália Lage, Paulo César Pereio, José Wilker, Agildo Ribeiro, Jorge Dória, Lázaro Ramos, Wagner Moura, Amir Haddad, Mariana Ximenes, André Gonçalves, Perfeito Fortuna, Moska, Marilu Bueno. Estreia: 11/4/2003 (Festival de Cognac)

Não fosse o talento indiscutível dos envolvidos,"O homem do ano" poderia facilmente ser confundido com uma reunião de família: o roteiro é do celebrado escritor Rubem Fonseca, que é pai do diretor, José Henrique Fonseca, que por sua vez, é casado com Cláudia Abreu, dona de um dos principais papéis femininos. Basta assistir-se ao filme, porém, para constatar que este feliz encontro artístico apenas valoriza o resultado final, uma trama policial recheada de ironia que envolve o espectador em uma teia de situações quase surreais pelas quais passa o protagonista, um homem comum alçado à condição de herói do dia para a noite. Interpretado por Murilo Benício - perfeito em sua composição quase calada e por vezes atônita -, o lacônico Maiquel é criação da escritora Patrícia Melo em seu livro "O matador", e em sua encarnação cinematográfica é, sem favor, um dos personagens mais interessantes do cinema brasileiro do começo dos anos 2000.

"O homem do ano" se passa no Rio de Janeiro longe dos cartões-postais e apresenta, ao invés de corpos dourados de sol e um clima bossa-nova, um universo claustrofóbico, no qual a violência é tão comum quanto um jogo de sinuca e quaisquer mal-entendidos pode resultar em tragédia. É mais ou menos o que acontece com Maiquel, um jovem introspectivo que tem sua vida virada de cabeça para baixo por um motivo mais que banal: depois de perder uma aposta e ser obrigado a pintar o cabelo de loiro, ele entra em conflito com Suel (Wagner Moura em um papel pequeno mas marcante), um dos clientes do bar que frequenta e, antes que possa mudar de ideia, acaba matando o rapaz diante da namorada dele, Érica (Natália Lage, ótima em um papel bastante complexo). Ao contrário do que imaginava, no entanto, ele não é preso, e sim transformado em um benfeitor pela comunidade, que sofria nas mãos da vítima, um bandido pé-de-chinelo que amedrontava a vizinhança. Se não bastasse as homenagens que começa a receber dos vizinhos, Maiquel é procurado por um grupo de homens endinheirados que lhe propõem um alto pagamento em troca de seu trabalho em eliminar toda e qualquer ameaça à segurança de seus bens. 

 A princípio hesitante em aceitar essa nova incumbência, Maiquel acaba por tornar-se o homem de confiança dos empresários, com todo o respeito que a função possibilita. E se não fosse o bastante, Érica reaparece em sua vida, exigindo que ele a proteja depois da morte de seu amante - um problema que atrapalha os planos de Maiquel de ter uma vida relativamente normal com Cledir (Cláudia Abreu), com quem se casa e começa uma família. Dividido entre as duas mulheres, Maiquel se torna a pedra no caminho de bandidos profissionais, que iniciam uma série de represálias para impedi-lo de continuar sua carreira de matador. Eleito homem do ano pelo grupo que lhe paga - e bem-visto pela comunidade onde mora -, o outrora pacífico rapaz se vê cada vez mais afundado em uma vida regida pela violência e pela paranoia, em que nem mesmo seu suíno de estimação parece estar a salvo. De modo inacreditável, Maiquel, mesmo que pareça dono do seu destino, se sente impotente em acabar com sua nova rotina, preso entre duas mulheres e um trabalho que lhe dá prestígio e dinheiro - mas não a paz de espírito que ele almeja.

A ironia que permeia "O homem do ano" é, sem dúvida, um dos pontos altos do roteiro do veterano Rubem Fonseca, que mantém o estilo direto e seco de Patrícia Melo sem abrir mão de suas particularidades como autor. Seu texto é abrilhantado pelo elenco - Murilo Benício e Natália Lage à frente. e veteranos como Jorge Dória, José Wilker e Agildo Ribeiro como coadjuvantes de luxo - e pela direção inteligente de José Henrique, que conduz a trama com perfeito equilíbrio entre a tensão e o humor quase sombrio. Comparado por alguns críticos ao excepcional "Cidade de Deus" (2002), "O homem do ano" tem como similar apenas a ambientação e o tom realista - ainda que em seu filme Fonseca não se aprofunde em questões sociais ou na violência gráfica. A sutileza do cineasta em evitar, sempre que possível, a sanguinolência explícita, empurra o filme para características dramáticas das mais interessantes - e embora nem sempre tente analisá-las sob um viés psicológico, se aproveita delas para criar uma obra com características únicas, que se sustenta sozinha mesmo dentro um gênero com suas próprias regras. Pelo conjunto de qualidades que apresenta, "O homem do ano" é uma produção que não teve a atenção merecida quando chegou às telas. Nunca é tarde, porém, para reparar uma injustiça!

domingo

O CAMINHO DAS NUVENS

O CAMINHO DAS NUVENS (O caminho das nuvens, 2003, Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas, 85min) Direção: Vicente Amorim. Roteiro: David França Mendes. Fotografia: Gustavo Hadba. Montagem: Pedro Amorim. Música: André Abujamra. Figurino: Cristina Kangussu, Valeria Stefani. Direção de arte: Jean-Louis Leblanc. Produção executiva: Paula Barreto. Produção: Bruno Barreto, Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto, Angelo Gastal. Elenco: Cláudia Abreu, Wagner Moura, Ravi Ramos Lacerda, Manoel Sebastião, Felipe Newton, Cristina de Lima, Cláudio Jaborandy, Sidney Magal, Carol Castro, Augusto Madeira, Alexandre Zacchia. Estreia: 11/8/2003 (Festival de Toronto)

Dois dos mais assíduos e talentosos nomes do cinema brasileiro durante o final dos anos 1990/começo dos anos 2000, Cláudia Abreu e Wagner Moura se encontraram pela primeira vez nas telas graças a dois dos mais reconhecidos e longevos produtores nacionais, Lucy e Luiz Carlos Barreto. "O caminho das nuvens" pode não ter levado multidões às salas de cinema, mas foi uma promissora estreia de Vicente Amorim como diretor de longas-metragem. Depois de trabalhar como diretor de curtas e alguns episódios da série de televisão "A justiceira", o cineasta, apesar de nascido na Áustria e criado em diversas cidades do mundo, voltou sua câmera para o interior do Nordeste brasileiro, com suas dificuldades econômicas e sociais, para criar uma história de amor familiar e da obstinação de um homem para oferecer uma vida digna para seus filhos. Contando com o carisma extraordinário de sua dupla de protagonistas e uma trilha sonora repleta de sucessos de Roberto Carlos (interpretados pela própria Cláudia Abreu), "O caminho das nuvens" é, no mínimo, um filme simpático - apesar de apresentar uma trama um tanto fraca e um final em aberto que pode incomodar à parte da plateia.

Premiado como Melhor Ator no Festival de Cartagena, Wagner Moura está à vontade na pele de Romão, um pai de família sem estudo e desempregado que acredita piamente que apenas um emprego que pague 1000 reais pode resolver o problema de sustentar a mulher, Rose (Cláudia Abreu), e os cinco filhos - um deles ainda de colo. Sem dinheiro para pagar passagens de ônibus a todos, Romão e sua prole embarcam em uma viagem absurda, de bicicletas, do nordeste do país até o Rio de Janeiro, onde ele espera - como um obcecado Dom Quixote - encontrar finalmente o emprego que sonha. No meio do caminho, o grupo ganha dinheiro como pode: as crianças lavam carros e Rose, mãe dedicada e esposa amorosa, se apresenta em restaurantes de beira de estrada, cantando músicas de Roberto Carlos, sempre acompanhada de um de seus meninos. Tentando sobreviver de forma honrada, a família encontra ainda uma dificuldade inesperada quando o filho mais velho, Antônio (Ravi Ramos Lacerda), resolve tornar-se independente dos pais: sentindo-se maduro o suficiente para isso, ele desafia o poder paterno e põe em risco a estabilidade da caravana.


O roteiro, escrito por David França Medeiros, não se propõe a fazer discursos sobre a desigualdade social e tampouco aprofunda a psicologia de seus personagens, dos quais o público só tem informações esparsas e pouco informativas. O que interessa a Medeiros - e a Amorim, como diretor -, são as interrelações que surgem no decorrer de seu road movie, sejam elas entre pais e filhos, marido e mulher, ou a família com outros personagens que vão surgindo no caminho. Tais personagens, que tanto ajudam quanto atrapalham o herói em sua jornada, são ainda menos desenvolvidos: aparecem, cumprem seu papel na trama e são abandonados, assim como a estrada que vai ficando para trás a cada dia. Tal decisão do roteiro é justificada e coerente, mas priva o espectador de algumas histórias paralelas que poderiam ser igualmente fascinantes - como o diretor de um show para turistas, vivido por Sidney Magal, que se utiliza de Romão e alguns de seus filhos para uma versão estilizada de rituais indígenas em um hotel. A presença de tal personagem é catalisadora: não apenas reforça a vontade do protagonista de seguir seus instintos, como mostra ao jovem Antônio um mundo bem distante de seu universo - limitado pela proteção da família e pelos áridos cenários a que está acostumado.

A trilha sonora de "O caminho das nuvens" é um caso à parte. Belas canções de Roberto Carlos ("Como é grande o meu amor por você", "Se você pensa") ilustram cada movimento da família, interpretadas por uma surpreendentemente afinada Cláudia Abreu - que não esquece de acrescentar o sotaque nordestino a suas apresentações. De certa forma, a música alivia a dor e a dureza da trajetória de Romão e Rose, oferecendo a ela uma aura romântica que os faz lembrar, sempre, de que, apesar das dificuldades, eles tem grande amor e respeito um pelo outro. Os olhares expressivos de Cláudia e Wagner em determinados momentos dizem mais do que muitos diálogos - e a música sublinha seus sentimentos mais nobres. Poucos anos mais tarde, o cineasta Breno Silveira voltaria a utilizar o cancioneiro de Roberto no sensível "À beira do caminho" (2012), mas "O caminho das nuvens" faz isso de maneira ainda mais orgânica e sentimental. É um complemento e tanto para um filme delicado e que, se não encontrou seu público à época de seu lançamento (apesar de ser uma co-produção da Globo Filmes), vale a pena descobrir, nem que seja pelos talentos superlativos de sua dupla central de atores.

GUERRA DE CANUDOS

GUERRA DE CANUDOS (Guerra de Canudos, 1997, Columbia Pictures Television Trading Company/Riofilme, 170min) Direção: Sergio Rezende. Roteiro: Paulo Halm, Sergio Rezende. Fotografia: Antonio Luiz Mendes. Montagem: Isabelle Rathery. Música: Edu Lobo. Figurino: Beth Filipecki. Direção de arte: Claudio Amaral Peixoto. Produção executiva: Mariza Figueiredo. Produção: Mariza Leão. Elenco: José Wilker, Cláudia Abreu, Paulo Betti, Marieta Severo, José de Abreu, Selton Mello, Tuca Andrada, Tonico Pereira, Dandara Guerra, Orlando Vieira, Roberto Bomtempo, Camilo Bevilaqua, Ernani Moraes. Estreia: 03/10/97

Com exceção do clássico "Deus e o Diabo na Terra do Sol", do cultuado Glauber Rocha, o cinema nacional sempre ignorou um dos maiores conflitos históricos do país, a guerra de Canudos - basicamente um confronto entre o exército brasileiro e um grupo de sertanejos contrários à República que terminou no massacre de mais de 20.000 revolucionários em 1897. Tema do livro "Os sertões", de Euclides da Cunha, a batalha, que desmoralizou as tropas do governo e consagrou indelevelmente o nome de seu líder, Antonio Conselheiro, como um dos mais importantes da história do Brasil, levou exatamente um século para chegar às telas em uma produção do tamanho que merecia. Orçado em 6 milhões de dólares - uma fortuna para o ainda cambaleante cinema comercial nacional de 1997 - "Guerra de Canudos", de Sérgio Rezende, levou quatro anos para ser finalizado e chegou às telas com o estardalhaço esperado de uma superprodução estrelada por atores globais. O resultado final, porém, ficou a desejar, se equilibrando sem muita necessidade entre dramas pessoais de personagens fictícios e sequências de batalhas campais vergonhosamente pobres. Salva-se, porém, a excelência dos atores, que conseguem dar humanidade e veracidade até mesmo quando tem pouco material que lhes ajude na missão.

Cineasta de grande talento e inteligência, Sérgio Rezende tem no currículo filmes que ajudam a esclarecer a história do Brasil através de personagens marcantes, como o deputado Tenório Cavalcanti de "O homem da capa preta" e um dos guerrilheiros mais conhecidos da época da ditadura militar em "Lamarca" - sintomaticamente estrelados por dois dos atores principais de "A Guerra de Canudos", José Wilker e Paulo Betti. A Wilker coube o papel mais difícil, o líder messiânico Antonio Conselheiro, que pregava o fim da República e a volta da monarquia, conseguindo com isso - e com o dom da oratória - arrebanhar milhares de seguidores fieis que fundaram, com ele, a cidade que dá nome ao filme, localizada no interior da Bahia. Betti vive Zé Lucena, um sertanejo simples e trabalhador que se revolta com a cobrança abusiva de impostos por parte do governo e parte com o grupo de Conselheiro, levando consigo a esposa, Penha (Marieta Severo, sensacional) e os dois filhos caçulas. Fica para trás apenas a filha mais velha, Luiza (Cláudia Abreu), que não aceita acompanhá-los e parte sozinha em busca de uma vida melhor. A partir dessa separação é que a trama do filme se sustenta. De um lado, a plateia testemunha as artimanhas do Exército em exterminar os inimigos de seu regime, cada vez mais ferozes e determinados. De outro, assiste à trajetória de Luíza em sobreviver em um mundo hostil à independência feminina, se entregando à prostituição e posteriormente ao envolvimento com dois homens contrários a Canudos: o ex-soldado Arimateia (Tuca Andrada) e o Tenente Luís (Selton Mello).


Essa opção do roteiro em dividir seu foco para melhor seduzir a plateia acaba sendo bastante prejudicial às pretensões de "Guerra de Canudos" em ser um grande filme. Toda vez que a trama se desvia dos conflitos históricos para acompanhar o sofrimento de Luíza fica a impressão nítida de um artifício questionável para conquistar o público acostumado às telenovelas globais. Além de roubar preciosos minutos de projeção - que elevam a duração do filme para intermináveis duas horas e cinquenta minutos - a subtrama não acrescenta nada ao conflito central, a não ser que se considere imprescindível a discussão de Luíza com seu pai perto do clímax, uma cena que é memorável unicamente devido à garra de Cláudia, uma atriz capaz de tirar leite de pedra - ou que alguém ache que era essencial ao roteiro um reencontro da personagem com Antonio Conselheiro, tratado por Wilker e Rezende mais como um personagem à beira da caricatura do que pelo homem mitológico que na verdade ele foi. Repetindo sem cansar todos os trejeitos de seus personagens anteriores, o veterano ator não consegue dar a dimensão espiritual e inspiradora de Conselheiro, transformando-o quase em um velho desequilibrado e bufão - o que tira muito do peso e da força da história em si.

Também é um problema grave a forma como são tratadas no filme as batalhas travadas entre os dois exércitos. Mesmo com um orçamento relativamente generoso, elas soam constrangedoramente precárias, mal coreografadas e filmadas quase com displicência. Em momento algum do filme se consegue imaginar que o número de baixas de ambos os lados chegou a mais de vinte mil homens: a direção de arte dá a impressão de que Canudos era apenas um vilarejo com algumas centenas de habitantes, o que está bastante longe da verdade, e os figurantes - sempre uma pedra no sapato dos filmes brasileiros - são nunca aquém de vergonhosos, escalados nas regiões das filmagens para parecerem legítimos. Nesse ponto, o filme é um passo atrás em relação ao cuidado mostrado em "Lamarca", que apresentava uma consistência artística e técnica de primeiro nível.

Mas então "A Guerra de Canudos" é um lixo? Não, claro que não. Jamais um filme com intenções tão nobres - retratar um período que a maior parte da população conhece somente através de livros didáticos - pode ser considerado perda de tempo, por mais desnecessariamente longo que seja. A obra de Sérgio Rezende conta a história com todos os detalhes que se pode utilizar sem aborrecer o público como uma aula sem ritmo e tenta fisgar o espectador com um romance que, se é questionável do ponto artístico, talvez funcione para amaciar a resistência do público médio a uma trama que lhe pode soar como aborrecida. Esse mérito é inegável, assim como a atuação de seus atores - com a possível exceção dos exageros de José Wilker - e o respeito pela história real. Um pouco menos de ambição e mais de parcimônia poderia ter-nos legado uma obra-prima. Como está, é interessante, mas um tanto quanto aquém de suas possibilidades.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...