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segunda-feira

ESTAMOS TODOS BEM

 


ESTAMOS TODOS BEM (Stanno tutti bene, 1990, Erre Produzioni/Les Films Ariane/TF1 Films Production, 118min) Direção: Giuseppe Tornatore. Roteiro: Giuseppe Tornatore, Massimo De Rita, Tonino Guerra. Fotografia: Blasco Giurato. Montagem: Mario Morra. Música: Ennio Morricone. Figurino: Beatrice Bordone. Direção de arte/cenários: Andrea Crisanti/Nello Giorgetti. Produção executiva: Mario Cotone. Produção: Angelo Rizzoli Jr.. Elenco: Marcello Mastroianni, Valeria Cavalli, Marino Cenna, Norma Martelli, Roberto Nobile, Salvatore Cascio. Estreia: 20/5/90 (Festival de Cannes)

Quando "Estamos todos bem" estreou, no Festival de Cannes de 1990, ainda não fazia nem dois meses que seu diretor, Giuseppe Tornatore, havia recebido (merecidamente) o Oscar de melhor filme estrangeiro pelo belo "Cinema Paradiso" (1989). Já considerado um dos mais promissores cineastas italianos e apostando mais uma vez na emoção, o jovem Tornatore - que ainda não tinha 34 anos completos na ocasião - voltou a emocionar o público, demonstrando uma maturidade narrativa envolvente, que se revela mais e mais profunda conforme se desdobra diante do espectador. Contando com a presença sempre magnética do veterano Marcello Mastroianni no papel principal e com a participação do pequeno Salvatore Cascio - o menino que emocionou o mundo em seu filme anterior -, o diretor conta uma história sobre segredos de família, sonhos frustrados e a inexorabilidade do envelhecimento, tudo acompanhado da trilha sonora de Ennio Morricone.

Mastroianni, de óculos fundo de garrafa e aparentando mais do que seus 65 anos à epoca das filmagens, é o corpo e a alma de "Estamos todos bem". Ele vive Matteo Scuro, um escrivão aposentado, que, depois de ver frustrado seu plano de reunir os cinco filhos - todos com nomes de personagens de ópera - para uma temporada de verão, resolve viajar pela Itália para surpreendê-los em suas rotinas familiares e profissionais. Orgulhoso da família que criou - a ponto de mostrar sua melhor fotografia a quem possa interessar (ou até a quem não tem o menor interesse) -, Matteo começa a jornada com Canio (Marino Cenna), que acredita ser um homem de grande importância dentro da política; depois, ele chega até Tosca (Valeria Cavalli), uma atriz requisitada e que, vez ou outra, cuida do bebê da vizinha; a terceira da lista é Norma (Norma Martelli), a única que lhe deu um neto, um adolescente que acaba de engravidar a namorada; o penúltimo é Guglielmo (Roberto Nobile), parte integrante de uma orquestra que faz shows pela Europa. O único que Matteo não consegue encontrar é Alvaro, que, mesmo que não reconheça, é seu filho preferido: seu paradeiro só é conhecido pelos irmãos, que preferem não revelá-lo ao carente e iludido pai.

 

Logicamente tudo que Matteo sabe sobre os filhos é apenas a superfície: vivendo longe do pai, todos levam uma vida oposta ao que aparentam diante de seu ingênuo patriarca. Enquanto vai revelando os segredos dos cinco Scuro (um sobrenome que já deixa antever suas existências dúbias), a câmera de Tornatore vai mostrando, também, uma Itália pouco a pouco deixando de ser o nostálgico e romântico país do velho burocrata, com suas ruas mal cuidadas, suas paisagens obscurecidas por obras e sua paz alterada pela velocidade de uma rotina esmagadora. Os respiros proporcionados pelos flashbacks que remetem Matteo a seus dias felizes ao lado da esposa - com quem conversa e a quem faz relatórios constantes de sua viagem solitária - pincelam a narrativa de um tom melancólico que trai a característica mais marcante do diretor: o carinho por seus personagens, que atenua até mesmo seus defeitos. E não atrapalha, é claro, que Marcello Mastroianni ofereça um de seus desempenhos mais emocionantes: na pele de um idoso romântico, por vezes inconveniente e frequentemente inconsciente de sua condição de indesejado, o ícone do cinema italiano deixa de lado a imagem de sedutor e assume a maturidade de forma comovente. É praticamente impossível passar por "Estamos todos bem" e não se emocionar ao menos em alguma de suas belas sequências - valorizadas pelos diálogos certeiros do roteiro enxuto.

"Estamos todos bem" não teve a mesma aclamação popular e crítica de "Cinema Paradiso"  - mas rendeu um remake americano estrelado por Robert DeNiro quase dez anos depois. Ao voltar seu olhar para as fissuras no núcleo familiar - um lugar de alcance universal e sempre delicado de se visitar -, Giuseppe Tornatore demonstra que a sensibilidade de seu filme mais celebrado era apenas uma pequena parte de sua calorosa personalidade. Lágrimas não faltam - e o mestre Morricone apenas as sublinham com sua bela e quase irônica melodia.

terça-feira

PARENTE É SERPENTE


PARENTE É SERPENTE (Parenti serpenti, 1992, Clemi Cinematografica, 105min) Direção: Mario Monicelli. Roteiro: Carmine Amoroso, Suso Cecchi D'Amico, Piero De Bernardi, Mario Monicelli, estória de Carmine Amoroso. Fotografia: Franco Di Giacomo. Montagem: Ruggero Mastroianni. Música: Rudy De Cesaris. Figurino: Lina Nerli Taviani. Direção de arte/cenários: Franco Velchi/Livia Del Priore. Produção Giovanni Di Clemente. Elenco: Tommaso Bianco, Renato Cecchetto, Marina Confalone, Alessandro Haber, Cinzia Leone, Eugenio Masciari, Paolo Panelli, Monica Scattini, Pia Velsi. Estreia: 26/3/92

Um dos mais celebrados cineastas italianos do pós-guerra, Mario Monicelli forjou seu nome na história graças a filmes que entraram para o inconsciente coletivo das plateias, como "O incrível exército Brancaleone" (1966) e "Quinteto irreverente" (1982), que explicitam seu estilo direto e sardônico ao retratar personagens banais e frequentemente falíveis. Com três produções indicadas ao Oscar de melhor filme estrangeiro - "Big deal on Madonna Street" (1958), "A grande guerra" (1959) e "The girl with a pistol" (1968) - e outras duas indicações à estatueta de roteiro original, Monicelli construiu, em mais de seis décadas, uma filmografia dedicada a prescutar a alma humana, sempre de forma bem-humorada mas paradoxalmente carinhosa. Sem pensar em aposentadoria mesmo na idade em que muitos já estavam descansado e contando o vil metal, ele surpreendeu a todos quando, em 1992, aos 77 anos, lançou mais um de seus petardos. Irônico e quase amargo, "Parente é serpente" tornou-se mais um de seus sucessos, dessa vez mirando sua atenção a um símbolo da estabilidade da sociedade: a família.

Subvertendo o otimismo e a delicadeza de filmes de Natal - aqueles com finais felizes e recheados de boas intenções -, "Parente é serpente" é narrado pelo pequeno Mauro (Riccardo Scontrini) , que com seu ponto de vista ingênuo não percebe o quão frágil é a aparente normalidade de sua vasta família - idiossincrática, um tanto hipócrita e repleta de pequenos atos de mesquinhez, disfarçados por uma religiosidade tradicionalista e uma série de rituais anuais. É no Natal que acontece um dos raros encontros de todas as ramificações do clã dos Colapietro - pais idosos, quatro filhos de meia-idade e dois netos em fase de transição (de graus variados) para a adolescência. Saverio (Paolo Panelli) e Trieste (Pia Velsi) vivem sozinhos na casa onde criaram os filhos e que não pode ser exatamente descrita como confortável - o aquecimento é falho, as acomodações nem sempre são ideais e sua distância das casas dos rebentos é um incômodo pouco mencionado. Para comemorarem a data festiva, todos se reúnem. A filha mais velha, Lina (Marina Confalone), mãe de Mauro, é hipocondríaca e mal consegue esconder uma certa inveja da cunhada, Gina (Cinzia Leone), uma mulher sofisticada que não se conforma com a falta de vaidade da única filha, Monica (Eleonora Alberti) - que sonha ser bailarina mas não abre mão dos prazeres da gula. A irmã de Lina é Milena (Monica Scattini), que sofre com a incapacidade de engravidar e com a possibilidade de tal problema afetar seu casamento com o suave Filippo (Renato Cecchetto). O único solteiro do grupo é Alessandro (Eugenio Masciari), um professor que mora sozinho enquanto não encontra "a mulher certa". O reencontro, marcado pelos tradicionais momentos nostálgicos, pela missa do galo e pela comilança generalizada é finalizado, no entanto, com uma bomba detonada pelos patriarcas: com medo das limitações que os anos vindouros podem trazer, eles resolveram - unilateralmente, é claro - que irão morar com um dos filhos. Cabe aos rebentos apenas decidirem qual deles será o felizardo a ter a vida alterada pela nova configuração familiar.

 

A partir do anúncio feito por Saverio e Trieste, o tom de "Parente é serpente" fica ainda mais amargo - apesar de não abandonar o humor, dessa vez com origem em uma série de revelações inesperadas e um ritmo mais apurado. Se até então as rachaduras na estrutura familiar estavam disfarçadas pelas regras de etiqueta natalina e os ressentimentos pareciam definitivamente enterrados, a notícia dada pelos pais transforma a aparente cordialidade fraternal em um campo de guerra. Cada um tem seus motivos para não desejarem a convivência diária com os genitores - que vão desde a falta de espaço e privacidade até a possibilidade de terem descobertos seus segredos mais profundos. Os embates - até então discretos e embalados pelo senso de preservação - se tornam mais raivosos (e por consequência mais propensos à agressão). E ninguém parece disposto a abrir mão das pretensas liberdades, nem mesmo com a chance de ficar com o apartamento prometido como forma de abono. E é nesse ato final que a ferocidade do humor de Mario Monicelli fica ainda mais evidente, desvelando sem medo a hipocrisia que cerca os núcleos familiares: os diálogos (deliciosos em sua sordidez) encontram eco em uma direção de atores precisa, que explora o melhor de cada um dos atores, dando a todos um momento de brilho. Como em uma boa peça de teatro, o roteiro vai crescendo até o clímax - uma mescla surpreendente de ironia e melancolia que encerra a narrativa com chave de ouro, além de reforçar o impecável tom de humor sombrio.

Mesmo não sendo o mais popular ou influente filme da carreira de Monicelli, "Parente é serpente" é uma produção que jamais envergonha sua obra pregressa. Inteligente, sarcástico e dotado de uma boa dose de cinismo, o resultado final conquista ao revelar em seus personagens (falíveis, dúbios, capazes de grandezas e mesquinharias) um espelho dos espectadores. Sem heróis ou vilões, o filme se utiliza do humor como ferramenta para discutir - sem falsos moralismos - as relações familiares, a velhice, a intolerância e a superficialidade da vida de aparências. O final - que flerta com o absurdo, mas sempre com os pés firmes no chão - é um primor de coragem mesmo em um mundo ainda longe das limitações do politicamente correto. É Mario Monicelli em seu melhor!

segunda-feira

SPLENDOR

 


SPLENDOR (Splendor, 1989, Cecchi Gori Group/Tiger Cinematografica/Studio El/Gaumont/Warner Bros, 115min) Direção e roteiro: Ettore Scola. Fotografia: Luciano Tovoli. Montagem: Francesco Malvestito. Música: Armando Torovaioli. Figurino: Gabriella Pescucci. Direção de arte/cenários: Luciano Ricceri/Ezizo Di Monte. Produção: Mario Cecchi Gori, Vittorio Cecchi Gori. Elenco: Marcello Mastrroianni, Massimo Troisi, Marina Vlady, Paolo Panelli, Pamela Villoresi. Estreia: 09/3/89

Dois filmes italianos, lançados com a diferença de seis meses entre si, fizeram com que plateias internacionais voltassem os olhos ao passado do cinema, com seus clássicos incontestáveis servindo de matéria-prima para uma jornada de nostalgia e emoção. Um deles, "Cinema Paradiso" - que estreou no final de setembro de 1988 - entrou diretamente no coração do público e acabou seu caminho com um merecido Oscar de melhor filme estrangeiro. O outro, "Splendor", dirigido pelo veterano Ettore Scola, chegou às telas em março de 1989 mas, apesar da presença sempre hipnotizante de Marcello Mastroianni, não obteve o mesmo reconhecimento por parte dos espectadores. Bem menos sentimental do que a viagem de Giuseppe Tornatore à sua pequena Giancaldo, o filme de Scola só apela para as lágrimas em seus belos minutos finais e talvez por isso - e pela provável sensação de que sua história havia recém sido contada - tenha ficado à sombra de seu rival mais consagrado. Isso quer dizer que é menor que ele? De forma alguma. Apesar da temática soar semelhante, "Cinema Paradiso" e "Splendor" tem qualidades e narrativas diferentes - pode-se até dizer que um complementa o outro e formam um belo panorama sobre a importância do cinema em existências aparentemente banais. E o fato de um deles contar com Mastroianni no elenco - um dos ícones da produção cinematográfica europeia (e da italiana em particular) torna tudo ainda mais interessante.

Enquanto "Cinema Paradiso" apostava na emoção deslavada e pontuava sua trama com uma pungente história de amor, "Splendor" centra sua narrativa em personagens adultos, que se equilibram na tênue linha que separa o idealismo romântico e o pragmatismo econômico e social. Seu protagonista, Jordan (Marcello Mastroianni), é o dono de uma sala de cinema que, a despeito de seus dias de glória, se vê às portas da falência. Com a concorrência da televisão e a queda de público, ele tenta quixotescamente manter as portas abertas - apelando até mesmo para possíveis shows de striptease -, mas sabe que o fim é inevitável. Com a ajuda do projecionista Luigi (Massimo Troisi) e da fiel Chantelle (Marina Vlady), Jordan busca a solução de seus problemas mesmo ciente da inutilidade de seus esforços. Tendo herdado o cinema de seu pai - que projetava filmes ao ar livre durante sua infância -, Jordan não vê seu trabalho como um mero negócio, e sim como um estilo de vida, uma profissão de fé. Seu amor pela rotina no salão significa mais para ele do que apenas uma prestação de serviços: apaixonado por filmes, ele os tem como marcas indeléveis para cada fase e momento de sua vida, desde os dias de criança até a maturidade. Quando finalmente joga a toalha e vende o espaço para um negociante de móveis, é impossível não se deixar invadir por uma profusão de memórias - nem todas em ordem cronológica, mas todas de vital importância em sua trajetória pessoal.

 

Sem a trilha sonora arrasadora de Ennio Morricone e sem o apelo da pureza infantil do pequeno Salvatore Cascio - dois dos maiores destaques do filme de Tornatore -, "Splendor" perde muito na comparação em termos sentimentais. Scola não é um diretor que manipula emoções de forma óbvia, preferindo sempre a sutileza e o tom sóbrio de suas narrativas. Sua opção em contar a história fora de ordem cronológica é válida, mas peca em não permitir ao espectador uma conexão mais profunda com seus personagens, que muitas vezes soam superficiais e pouco interessantes. O romance entre Luigi e Chantelle, por exemplo, falha em cativar a audiência, e até mesmo a relação de Jordan com a família não é aprofundada o bastante para causar algum tipo de catarse. Mastroianni é sempre um ator de presença forte, mas, com exceção da bela sequência final (e um ou outro momento pontual) não entrega a performance memorável que se poderia esperar de um encontro com Ettore Scola, com quem trabalhou em outras ocasiões - como no espetacular "Um dia muito especial" (1977). E Massio Troisi não está muito diferente do que demonstrou alguns anos depois com "O carteiro e o poeta" (1994), que lhe rendeu uma indicação póstuma ao Oscar de melhor ator.

Mesmo sem alcançar todo o seu potencial emotivo e de ter sido eclipsado pela obra-prima de Giuseppe Tornatore, "Splendor" ainda tem muito coisa a ser admirada. Com um roteiro que oferece pinceladas da história política e social da Itália pós-guerra - característica da obra do diretor - e uma produção caprichada que reconstitui com precisão todas as épocas que abarcam a história do filme, a declaração de amor de Scola ao cinema atinge em cheio o coração da plateia em seus minutos finais (uma referência direta ao clássico "A felicidade não se compra", de Frank Capra) e, no decorrer de sua narrativa carinhosa, brinda os fãs da sétima arte com flashes de grandes estrelas e cenas de produções inesquecíveis - e Scola, modesto que era, abdicou de colocar nesses clipes alguns de seus trabalhos geniais. Ou alguém acha que "Nós que nos amávamos tanto" (1974) ou "Feios, sujos e malvados" (1976) não poderiam estar nesta lista?

terça-feira

NOITES DE CABÍRIA


NOITES DE CABÍRIA (Le notti di Cabiria, 1957, De Laurentiis/Marceau, 110min) Direção: Federico Fellini. Roteir: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli. Fotografia: Aldo Tonti. Montagem: Leo Catozzo. Música: Nino Rota. Figurino: Piero Gherardi. Direção de arte: Piero Gherardi. Produção: Dino De Laurentiis. Elenco: Giulietta Masina, François Perier, Franca Marzi, Dorian Gray. Estreia: 11/5/57 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Giulietta Masina)

É impossível não se apaixonar por Cabíria. Alegre, resiliente e sempre otimista apesar de o mundo tentar nocauteá-la, ela trabalha nas ruas de Roma e se ergue constantemente das ruínas a que é transformada a cada (e frequente) decepção. E assim como é impossível não se apaixonar por Cabíria, é igualmente desafiador não se encantar por Giuletta Masina. Não apenas é ela é quem dá vida, corpo e alma à mais famosa prostituta do cinema europeu, como também é a responsável por fazer o espectador se envolver incondicionalmente com seus dramas e amores desde os primeiros minutos do filme, premiado com o Oscar de melhor produção estrangeira de 1957. Expressiva e carismática, não levou à toa a Palma de Ouro no Festival de Cannes do mesmo ano: em cada momento, em cada cena, em cada linha de diálogo ou em cada close em seus olhos molhados de lágrima (de alegria ou tristeza), Masina transmite um mundo de emoções de que somente as grandes atrizes são capazes. Seu encontro com Cabíria é, sem favor, um dos casamentos mais perfeitos, na história do cinema, entre atriz e personagem. Tudo sob o olhar luminoso e quase poético de Federico Fellini - ele mesmo um eterno apaixonado (e correspondido) por sua musa.

Cabíria não tem sorte na vida. Nem no amor. Logo nas primeiras cenas do filme ela quase morre afogada, empurrada em um rio por aquele a quem considerava o homem perfeito. De volta às ruas, continua sua rotina regada a rivalidades, amizades (profundas ou nem tanto) e pela busca pela felicidade. Dentre clientes encrenqueiros, noites solitárias e rituais católicos que remetem a crenças religiosas que conflitam com sua profissão, Cabíria se vê às voltas, ocasionalmente, com a esperança de preencher seu coração carente. É assim com Alberto Lazzari (Amedeo Nazzari, em personagem batizado e criado em sua própria homenagem), um astro de cinema que lhe dá o vislumbre de um mundo de sofisticação e glamour, antes de tratá-la como alguém inferior. E é assim, principalmente, com Oscar (François Périer), um homem que surge como a resposta a suas preces mais sentidas: completamente apaixonada, a doce e romântica prostituta se deixa seduzir pela chance de casar, formar uma família e abandonar a vida fácil. Mas, como já dizem por aí, para ver Deus rir, basta contar seus planos a Ele.

 

Embalado pela delicada trilha sonora de Nino Rota, "Noites de Cabíria" encontra beleza até mesmo na dureza do cotidiano de sua protagonista, graças a um roteiro que, ao contrário de algumas das mais famosas obras de Fellini, aposta na linearidade e no realismo (ainda que envernizado pelo tom poético da fotografia em preto-e-branco de Aldo Tonti). As prostitutas que cercam Cabíria - e até ela mesma - não são aquelas mostradas por Hollywood, e sofrem na carne uma vida repleta de privações. Cabíria mora em uma casa própria, mas nada em sua moradia lembra luxo ou comodidade. Cabíria não é deslumbrante nem exibe um corpo escultural. Não é particularmente inteligente e sua aparente vulnerabilidade só desaparece diante das (muitas) adversidades. E justamente por sua falta de grandeza, conquista a simpatia e a identificação com o público, que se vê nas telas com todas as suas fraquezas e - por que não? - encantos. Uma força da natureza em forma de atriz, Giulietta Masina é a mais completa tradução do cinema italiano dos anos 1950 - e a intérprete que melhor representou a veia artística de Federico Fellini em seus mais puro delírios artísticos.

Longe das elocubrações existenciais de "A doce vida" (1960), da metalinguagem autoparódica de "Oito e meio" (1963) e da nostalgia lúdica de "Amarcord" (1973), a direção de Fellini em "Noites de Cabíria"  se dedica à delicadeza, ao onírico, ao romantismo melancólico e ao humor por vezes involuntário que surge das desventuras tragicômicas de sua protagonista. O registro amoroso do cineasta fascina e  emociona no mais íntimo do espectador. Ao falar diretamente ao coração, ele acerta em cheio e assina (mais uma vez) sua entrada no rol do inesquecível.

 

CONCORRÊNCIA DESLEAL

 


CONCORRÊNCIA DESLEAL (Concorrenza sleale, 2001, Medusa Films/Massfilm/Agidi, 110min) Direção: Ettore Scola. Roteiro: Ettore Scola, Furio Scarpelli, Silvia Scola, Giacomo Scarpelli, estória de Furio Scarpelli. Fotografia: Franco Di Giacomo. Montagem: Raimondo Crociani. Música: Armando Trovajoli. Figurino: Odette Nicoletti. Direção de arte/cenários: Luciano Ricceri/Ezio Di Monte. Produção: Franco Committeri. Elenco: Diego Abatantuono, Sergio Castellitto, Gérard Depardieu, Antonella Attili, Elio Germano, Sabrina Impacciatore. Estreia: 23/02/2001

Itália, 1938. Umberto Melchiori tem uma loja de roupas sob medida e, mais do que o orgulho que tem do negócio que acompanha sua família há gerações, considera uma roupa bem talhada uma forma de arte subestimada. Católico praticante e marido dedicado à família - incluindo o cunhado folgado -, ele teria a vida tranquila que pediu a Deus se não fosse Leone Della Rocca, seu vizinho e nêmesis. Judeu e dono de uma loja de roupas prontas, Leone incomoda seu concorrente principalmente por não ter a mesma preocupação estética, preferindo conquistar seus clientes com preços atrativos e a praticidade de uma confecção moderna. Vivendo às turras - a ponto de chegarem às vias de fato -, Umberto e Leone nem desconfiam do romance Romeu e Julieta de seus filhos jovens, e de certa forma só concordam (tacitamente) com a amizade de seus dois caçulas, cujos olhos atônitos e inocentes são as testemunhas de uma rotina banhada a rusgas e constantes momentos de tensão. A rivalidade entre os dois vizinhos, porém, sofrerá uma profunda transformação com a ascensão de Hitler e o recrudescimento do antissemitismo - que fará com que a relação entre suas famílias assuma nuances inesperadas e/ou corajosas.

O 35º longa-metragem do diretor italiano Ettore Scola, lançado em 2001, não foge de sua elogiada sensibilidade quanto a relações interpessoais durante períodos históricos turbulentos. Assim como "Um dia muito especial" (1977) centralizava seu olhar no idílio entre uma dona-de-casa frustrada e um funcionário público homossexual durante a visita de Hitler à Itália, "Concorrência desleal" centraliza seu foco nas consequências funestas da adesão do país à política de Mussolini - e posteriormente às práticas segregacionistas e criminosas da Alemanha nazista. Com um roteiro em tom de crônica que privilegia os momentos mais pessoais em detrimento do didatismo, Scola apresenta, diante do espectador, tipos agradáveis e de fácil identificação - as crianças pensando em travessuras e em formas de chamar a atenção das belas mulheres a seu redor, a dupla de jovens apaixonados, o cunhado pouco afeito ao trabalho, o professor politicamente antenado - como um artifício narrativo leve, para que, em seu terço final, possa estabelecer, com um viés mais sério e melancólico, sua real intenção de emocionar sem apelar para qualquer tipo de excesso sentimental.

 

Mesmo sem o impacto dos melhores trabalhos de Scolla, "Concorrência desleal" não deixa de lado as principais características de sua vasta e prestigiada filmografia. Dotada do delicioso senso de humor italiano e realizada com o inegável talento de seu realizador em buscar a grandeza de seus personagens (sejam eles protagonistas ou coadjuvantes), a produção estrelada por Sergio Castellitto e Diego Abatantuono - ambos com desempenhos memoráveis - é extremamente feliz em sua tentativa de criar uma atmosfera lúdica que vai, gradativamente, se tornando mais pesada e sufocante. Sem forçar situações, o roteiro conduz a trama em um ritmo que permite ao espectador intercalar momentos calorosos com sequências da mais pura poesia, em que a natureza humana, com todas as suas idiossincrasias, se sobrepõe ao pesadelo fascista. Emocionante ao retratar pessoas que deixam de lado rusgas pessoais em nome de algo maior, o filme de Scolla reitera uma fé na humanidade de que somente cineastas com sua sensibilidade são capazes. A bela trilha sonora, de Armando Trovaioli, sublinha tal sentimento, sempre discreta e eficaz, assim como a competente reconstituição de época, que convida o público a uma viagem no tempo, e o elenco, impecável do primeiro ao último nome (e que pode se dar ao luxo de contar com Gérard Depardieu em um pequeno - mas representativo - papel).

O elenco, aliás, é crucial para o sucesso de "Concorrência desleal" em atingir seu objetivo de conquistar o coração do espectador. A química precisa entre Diego Abantuono (como Umberto) e Sergio Castellitto (na pele de Leone) é o ponto alto do filme: os dois atores constroem seus personagens sutilmente, apostando nos detalhes que os afastam e nos tons que os aproximam. Juntos em cena, os dois formam a base para todo o resto da produção, a pedra fundamental de uma história aparentemente frágil (e estabelecida em formato de crônica) que vai se desdobrando aos poucos diante do olhar do público. Sem ser exatamente um clássico instantâneo como "Nós que nos amávamos tanto" (1974) e "Feios, sujos e malvados" (1976) mas indiscutivelmente mais uma pequena obra-prima de seu diretor, "Concorrência desleal" é uma pérola que merece ser louvada como tal.

NÓS QUE NOS AMÁVAMOS TANTO


NÓS QUE NOS AMÁVAMOS TANTO  (C'eravamo tanto amati, 1974, La Deantir, 124min) Direção: Ettore Scola. Roteiro: Ettore Scola, Agenore Incrocci, Furio Scarpelli. Fotografia: Claudio Cirillo. Montagem: Raimondo Crociani. Música: Armando Trovajoli. Figurino: Luciano Ricceri. Direção de arte/cenários: Luciano Ricceri. Produção: Pio Angeletti, Adriano de Micheli. Elenco: Nino Manfredi, Vittorio Gassman, Stefania Sandrelli, Stefano Satta Flores. Estreia: 21/12/74

Na vasta e preciosa filmografia do italiano Ettore Scola, o poético e melancólico "Nós que nos amávamos tanto" tem um lugar todo especial. Uma homenagem à amizade, ao amor, ao tempo e ao cinema, o filme, lançado em 1974 - antes, portanto, dos clássicos "Feios, sujos e malvados" (1975) e "Um dia muito especial" (1977) - se mantém como uma aula de narrativa, inserindo organicamente à trajetória de três amigos apaixonados pela mesma mulher, um estudo sobre a sociedade italiana pós-guerra e as lutas sociais e culturais que perpassaram o país por trinta anos. Sem deixar de lado o viés político característico de sua obra, Scola conta uma das histórias mais fascinantes de sua carreira, valorizada por um elenco sublime, um roteiro preciso e uma edição primorosa - tanto na versão original quanto na redução em doze minutos lançada internacionalmente.

O filme é, na verdade, um longo flashback, como mostra a primeira sequência, que voltará nos minutos finais para encerrar a longa viagem de Scola pelos caminhos da memória. Os três personagens centrais, Antonio (Nino Manfredi), Gianni (Vittorio Gassman) e Nicola (Stefano Satta Flores), se conhecem durante a II Guerra e se tornam amigos inseparáveis. Com o final do conflito, todos tentam se encaixar na rotina como civis: Gianni começa uma carreira de advogado, Nicola se casa e volta a lecionar em uma escola do interior e Antonio inicia uma carreira como enfermeiro em um hospital de Roma. É Antonio quem primeiro conhece Luciana (Stefania Sandrelli) e se apaixona, sem perceber que a bela jovem caiu de amores por caiu de amores por Gianni, com quem inicia um romance. A partir de então, como um pomo da discórdia, Luciana, mesmo involuntariamente, será a causa de todos os conflitos entre os três amigos. Nicola, depois de separado e tentando trabalhar como crítico de cinema, também não resiste a seus encantos durante o tempo em que ela tenta a sorte como atriz. E enquanto Gianni se deixa corromper pelo capitalismo que sempre rejeitou na juventude - o que inclui um casamento por conveniência - o grupo vê passar diante de seus olhos uma série inexorável de transformações sociais. Apenas Antonio - ironicamente o responsável pela presença de Luciana entre eles - é que parece não conseguir chamar sua atenção em termos românticos.

 

O brilhante roteiro de "Nós que nos amávamos tanto" - escrito pelo mesmo trio de autores de "Ciúme à italiana" (1970), do mesmo diretor - não conta apenas belas histórias de amor (entre os amigos, entre amantes apaixonados, entre cidadãos e seu país), mas também as utiliza como pretexto para desfilar, na tela, sentimentos que remetem diretamente à reconstrução da Itália depois da II Guerra Mundial. Estão ali, de uma forma ou de outra, o nascimento da consciência política, a desilusão advinda dela, a busca por uma cultura própria e socialmente relevante, o recrudescimento do abismo social. Politicamente engajado, Scola não hesita em fazer de seus protagonistas homens comuns que, a exemplo de Gianni, nem sempre são capazes de resistir às tentações, sejam elas materiais ou emocionais - mas cujas complexidades os afastam de qualquer maniqueísmo. Nicola, por exemplo, é um cidadão comum, apaixonado por cinema e que luta para ascender socialmente através do seu trabalho e de sua convicção de que a arte é salvadora e crucial - uma discussão sobre o belo "Ladrões de bicicleta" (1948) é o detonador de uma crise profissional que irá ecoar para sempre em sua vida - a Antonio batalha arduamente na área da saúde, como forma de ajudar a população - o que o aproxima, a princípio, de Luciana. E Luciana, que sonha em ser atriz, é o ideal feminino de todos eles, apesar de, tristemente, nem sempre perceber que seus companheiros vivem a catar a poesia que entorna no chão.

Scola é um apaixonado por cinema, e a sétima arte é, provavelmente, o quinto personagem mais importante de "Nós que nos amávamos tanto". Não é apenas a citação direta ao clássico de Vittorio De Sica que empurra Nicola em direção a seu destino: com citações maiores ou menores a obras de Antonioni e Rossellini, o filme delicia a plateia com a recriação de uma cena antológica de "A doce vida" (1960), de Federico Fellini, com direito às luxuosas participações do cineasta e de seu ator preferido, Marcello Mastroianni, vivendo eles mesmo durante a produção do clássico italiano - da qual Luciana participa como extra. E Luciana é também a protagonista de uma sequência sublime, quando se esconde em uma máquina de fotografias instantâneas e, ao sair, deixa uma série de imagens que a mostram chorando copiosamente depois de uma das várias situações complicadas das quais participa. É como se o diretor lembrasse ao público que é disso que a vida - e seu filme - se trata: de momentos fugazes que ficam para sempre na memória.

"Nós que nos amávamos tanto" é uma obra-prima do cinema europeu. Como toda boa produção italiana, não deixa de apelar, vez ou outra, ao sentimentalismo mediterrâneo que a tantos agrada - e a outros aborrece. Mas é, sem sombra de dúvida, um filme para ver e rever inúmeras vezes. E se emocionar sempre.

 

quarta-feira

A PRIMEIRA NOITE DE TRANQUILIDADE


A PRIMEIRA NOITE DE TRANQUILIDADE (La prima notte di quete, 1972, Mondial Televisione Film/Adel Productions/Valoria Films, 132min) Direção: Valerio Zurlini. Roteiro: Valerio Zurlini Enrico Medioli, estória de Valerio Zurlini. Fotografia: Dario Di Palma. Montagem: Mario Morra. Música: Mario Nascimbene. Figurino: Luca Sabatelli. Direção de arte/cenários: Enrico Tovaglieri/Franco Gambarana. Elenco: Alain Delon, Sonia Petrova, Giancarlo Giannini, Renato Salvatori, Alida Valli, Salvo Randone, Lea Massari, Patrizia  Adiutori. Estreia: 18/10/72

Dentre os cineastas italianos celebrados nas décadas de 1960 e 1970, o nome do italiano Valerio Zurlini frequentemente é lembrado com o respeito reservado a Fellini, Bertolucci, Antonioni e Rosselini. Dono de um estilo discreto, que valorizava o visual em comunhão com um tom existencialista, Zurlini chegou a ganhar um prêmio no Festival de Veneza (em 1962, pelo filme “Dois destinos”, estrelado por Marcello Mastroianni e Jacques Perrin), mas sua obra mais conhecida – e ainda assim por uma parcela do público que nem de longe faz jus à sua qualidade dramática – é “A primeira noite de tranquilidade”. Lançado em 1972 como capítulo final da chamada Trilogia do Amor – que conta também com “Verão violento” (1959) e “A moça com a valise” (1961) -, o drama romântico estrelado por Alain Delon deixa claro ao espectador porque Zurlini era considerado o poeta da melancolia e da desilusão amorosa.

Delon, em uma das melhores atuações de sua carreira, vive Daniele Dominici, professor de Literatura que chega à pequena cidade de Rimini para substituir um colega de licença. Entediado com a rotina modorrenta do local – e com a falta generalizada de interesse por parte de seus alunos -, o novo professor se junta a um grupo que diminui as frustrações da vida com jogatina, festas em boates e bebedeiras. Sua vida, perdida em um cotidiano sem expectativas – e dividida com a esposa depressiva, com quem mantém um relacionamento puramente de aparências – sofre um baque quando ele percebe estar irremediavelmente atraído por Vanina (Sonia Petrova), uma bela e misteriosa aluna, namorada de um jovem milionário da cidade, que usa de seu poder econômico para humilhá-la sempre que possível. Apaixonado pela sensibilidade de Vanina e soterrado pela tristeza que o acompanha e sublinha a atmosfera melancólica de Rimini, Daniele vislumbra a possibilidade de finalmente encontrar um caminho que fuja da dor de sua existência. Porém, o que o atrai em Vanina é justamente o que pode lhes separar: uma visão pessimista da vida e a força avassaladora da realidade.

  

O inteligente roteiro de ”A primeira noite de tranquilidade” não se contenta apenas em contar uma história de amor ameaçada pela sensação de derrota: Zurlini espalha por seu filme referências literárias e artísticas que elevam sua produção a um nível intelectual acima da média. Através de conversas aparentemente banais, o público pode reconhecer citações de Stendhal, D.H. Lawrence, Dante, Shakespeare e Goethe (autor do poema que dá origem ao título original do filme) e o cineasta não hesita em utilizar-se de escultura renascentistas para ilustrar passagens de extrema beleza – até mesmo como metáfora das aspirações puras e utópicas de seus personagens. O estilo literário do cineasta fica bastante patente, da mesma forma, em sua opção de oferecer a seus atores longos diálogos, que contrastam com o ritmo veloz do cinema que entrava em voga nos anos 1970. Seus personagens se movem lentamente rumo à um destino que já julgam traçados anteriormente, e a edição não apressa sua jornada – pelo contrário, parece apenas contemplar, com olhos de ressaca, uma tragédia anunciada.

Relegado a um injusto segundo plano na história do cinema italiano – ao menos em termos de popularidade -, Valerio Zurlini transmite, em seu “A primeira noite de tranquilidade” um senso de inevitabilidade do destino que exala de cada cena, de cada diálogo, de cada personagem. A fascinante sequência em uma boate, em que Daniele e Vanina se encaram apaixonados, alheios ao caos à sua volta, talvez seja o melhor exemplo de seu estilo sensível e contundente: ao som da bela “Domani è un altro giorno”, na voz de Ornella Vanoni, seus protagonistas experimentam um momento de paz antes da tormenta – e convidam o espectador a juntar-se a eles em um mergulho triste e melancólico rumo à noite em que finalmente se pode dormir sem sonhar. “A primeira noite de tranquilidade” é uma pérola escondida no meio de dezenas de prouções europeias de seu tempo. Vale a pena procurá-la.

terça-feira

UMBERTO D.

UMBERTO D. (Umberto D., 1952, Rizzoli Film/Produzione Films Vittorio De Sica/Amato Film, 89min) Direção: Vittorio De Sica. Roteiro: Cesare Zavattini. Fotografia: G.R. Aldo. Montagem: Eraldo da Roma. Música: Alessando Cicognini. Direção de arte/cenários: Virgillio Marchi/Ferdinando Ruffo. Elenco: Carlo Battisti, Maria Pia Casillo, Lina Gennari, Ileana Simova. Estreia: 10/01/52 (Festival de Punta Del Este)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Umberto Domenico Ferrari (Carlo Battisti) não está em seus melhores dias. A aposentadoria que recebe do governo italiano mal serve para suas despesas pessoais, e está em vias de ser despejado do quarto que aluga há vinte anos em uma pensão. Sem família e sem amigos com os quais possa contar, ele encontra apoio apenas em seu cachorro de estimação, Flike, e em Maria (Maria Pia Casillo), funcionária da pensão que acaba de se descobrir grávida (ainda que não saiba com certeza quem é o pai). Sua maior urgência é conseguir dinheiro para pagar os aluguéis atrasados, mas nem a venda de seu relógio e de seus livros mais queridos são suficientes para atingir o valor total exigido pela fria Antonia (Lina Gennari) - que não tem a menor hesitação em usar seu quarto para prostituas quando ele não está em casa. Desesperado, Umberto se utiliza de artifícios - como fingir uma doença para ficar hospitalizado e adiar seus problemas -, mas não consegue abandonar seu fiel Flike, uma espécie de lembrança constante de lealdade e carinho. Estoico e resiliente (e um bocado esperto), Umberto D. é também o personagem-título do filme de Vittorio De Sica imediatamente após o estrondoso sucesso de "Ladrões de bicicleta" (1948). Emocionante e por vezes com um senso de humor inesperado, "Umberto D." faz uso inteligente das características do neorrealimo italiano enquanto seduz a plateia com um protagonista com o qual é impossível não simpatizar.

Se em Hollywood existe uma regra não escrita que dita que trabalhar com crianças e animais é o jeito mais certo de ser eclipsado, na carreira de Vittorio De Sica (ao menos durante o neorrealismo) a história é bem diferente. Enquanto em "Ladrões de bicicleta", o protagonista dividia a tela e as atenções com seu filho pequeno, que roubava as cenas sem pestanejar, em "Umberto D." o cineasta aposta - e acerta - no relacionamento entre seu personagem principal e um adorável cachorrinho. Apesar disso, não é um filme com apelo melodramático ou simples em excesso: o roteiro, sofisticado em sua simplicidade aparente, conquista o espectador sem fazer muita força, apresentando seus personagens e dramas pessoais com leveza e respeito. O equilíbrio de "Umberto D." entre a comédia quase inocente e o drama com brutais conotações realistas é um trunfo dos mais valiosos, e conduz o público por uma viagem sentimental (mas não piegas) rumo ao coração da sociedade italiana - ainda sofrendo as consequências da guerra e apresentando mazelas sociais pungentes. Não à toa, De Sica conta com coadjuvantes igualmente desnorteados - como Maria, escondendo a gravidez para não ser mandada embora, e Antonia, o poder financeiro que humilha os menos favorecidos enquanto canta alegremente em reuniões em sua casa.


A travessia de Umberto para conseguir dinheiro suficiente para pagar suas dívidas e manter-se ao lado de Flicke - uma companhia silenciosa mas que reafirma a sensibilidade do protagonista - passa por diversos níveis de desigualdade e desespero. Umberto come em um restaurante que dá comida aos necessitados (e alimenta seu cão secretamente), frequenta um hospital que pode lhe dar um lugar para dormir e entra em pânico diante da possibilidade de seu amigo de quatro patas ter sido morto pela carrocinha da cidade, durante sua falsa doença. De Sica consegue, ao mesmo tempo, mexer nas feridas pós-guerra e apresentar ao espectador uma história com sabor universal. Para isso, conta com a atuação sensível de Carlo Battisti, que transmite à plateia toda a angústia e esperteza de seu personagem, despertando dó e admiração na medida certa. É difícil ficar imune às sequências em que ele é obrigado a se desfazer de objetos queridos para conseguir pagar o aluguel - uma realidade ainda presente em muitos países, Brasil incluído. O que o público vê na tela não é apenas fruto da imaginação de um cineasta com preocupações sociais, e sim o retrato de uma parcela da população que nunca sabe de onde virá o próximo pagamento.

Dedicado ao pai do cineasta, "Umberto D." era o filme preferido de ninguém menos que Ingmar Bergman e foi eleito pela Associação de Críticos de Nova York como o melhor filme estrangeiro da temporada  (em empate com o genial "As diabólicas", de Henri-Georges Clouzot). É um filme sobre pessoas, sobre sentimentos, sobre dificuldades, mas, sobretudo, é um filme que ainda consegue emocionar e aquecer o coração. Menos sufocante que "Ladrões de bicicleta" - cujo desenvolvimento deixava o espectador em constante sofrimento -, é uma produção que pode arrancar lágrimas da audiência, mas que jamais busca a emoção fácil. Clássico europeu absoluto, é (mais uma) prova do talento de Vittorio De Sica em falar aos mais puros sentimentos da platéia. Um filme para ver, rever e admirar cada vez mais.

quarta-feira

LADRÕES DE BICICLETAS

LADRÕES DE BICICLETAS (Ladri di biciclette, 1948, Produzione De Sica, 89min) Direção: Vittorio De Sica. Roteiro: Oreste Biancoli, Suso D'Amico, Vittorio De Sica, Adolfo Franci, Gherardo Gherardi, Gerardo Guerrieri, Cesare Zavattini, romance de Luigi Bartolini, estória de Cesare Zavattini. Fotografia: Carlo Montuori. Montagem: Eraldo Da Roma. Música: Cicognini. Direção de arte: Antonio Traverso. Produção: Giuseppe Amato, Vittorio De Sica. Elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Elena Altieri, Gino Saltamerenda. Estreia: 24/11/48

Indicado ao Oscar de Roteiro 
Vencedor de um Oscar especial
Vencedor do Golden Globe: Melhor Filme Estrangeiro 

Quando realizou "Vítimas da tormenta", em 1946, o cineasta Vittorio De Sica cativou os espectadores do mundo inteiro com seus atores mirins, que, mesmo sem experiência anterior, mostraram-se extremamente capazes de emocionar e soar como profissionais. Para seu filme seguinte, então, ele foi ainda mais ousado: todo o elenco de "Ladrões de bicicletas" era formado por pessoas comuns, escolhidos pelo diretor pelos mais variados critérios. E mais uma vez ele conseguiu: na pele do pequeno Bruno, Enzo Staiola, descoberto enquanto assistia às primeiras filmagens do projeto, atinge o coração da plateia sem fazer esforço. Ao lado do igualmente impressionante Lamberto Maggiorani, o menino é responsável por um dos filmes mais dolorosos tanto do neorrealismo italiano quanto do cinema mundial. Referência absoluta para cineastas das mais variadas partes do mundo, mereceu um Oscar especial (antes da criação da categoria destinada a produções não faladas em inglês) e foi premiado com um Golden Globe, o BAFTA (o Oscar britânico), o prêmio máximo do National Board of Review e pela Associação de Críticos de Nova York - além de ter concorrido ao prêmio da Academia por seu roteiro. Forte, pungente e tristemente real, é, também, uma dos mais bem acabadas produções italianas no período pós-guerra e talvez a obra-prima de seu criador.


Sofrendo para conseguir financiamento para seu projeto seguinte a "Vítimas de uma tormenta", Vittorio De Sica esbarrava sempre na questão das polêmicas levantadas por seu filme anterior - a história de dois amigos engraxates que se deparavam com questões como lealdade durante seu período em uma instituição penal. Ao mesmo tempo em que produtores hollywoodianos lhe acenavam com a possibilidade de entrar com o dinheiro - mas faziam exigências absurdas e totalmente contrárias aos desejos do diretor -, De Sica descobria, da pior maneira possível, que sucesso de crítica não correspondia, dentro da indústria cinematográfica, a êxito comercial. David O. Selznick, por exemplo - o produtor de "... E o vento levou" (39) - demonstrou interesse em "Ladrões de bicicletas", mas queria que o ator central fosse Cary Grant. Antes de decidir que faria o filme em seu país natal e da forma com que sonhava, De Sica até considerou escalar Henry Fonda (que já tinha interpretado o icônico Tom Joad em "As vinhas da ira", que dialogava em temática com o neorrealismo), mas preferiu, em última análise, escalar apenas atores não profissionais em seu elenco. Foi uma decisão acertadíssima: com Grant ou Fonda no papel principal o filme talvez alcançasse maior visibilidade no mercado norte-americano, mas dificilmente alcançaria o tom naturalista proposto - e tampouco a melancolia palpável que a escalação de Lamberto Maggiorani oferece ao filme e que faz dele uma das produções mais aclamadas da história do cinema italiano.





Maggiorani - que depois do filme voltou à sua realidade de desempregado em Roma - é a força maior por trás de "Ladrões de bicicleta": sua performance, ao mesmo tempo lírica e realista, oferece ao espectador uma vasta gama de emoções - vergonha, orgulho, tristeza, desamparo - e conquista logo nas primeiras imagens. Sua química com o pequeno Enzo Staiola é fascinante, especialmente quando se sabe que nenhum dos dois tinha experiência como atores e tampouco seguiram com a carreira após as filmagens. Assim como em "Vítimas da tormenta", De Sica busca ao máximo retratar a vida como ela é, sem muitos enfeites ou truques baixos para buscar a compaixão da plateia. Seu tom realista é sublinhado apenas pela bela trilha sonora e pela estória em si, que envolve o público e faz dele seu observador privilegiado. Em "Ladrões de bicicletas" não há vilões (ao menos como o cinema costuma apresentá-los): o protagonista luta contra a própria realidade, contra a sociedade que o alija, contra o desespero de seus semelhantes, contra a própria Itália do pós-guerra, tentando reunir seus pedaços e cicatrizar suas feridas. Não é um filme fácil - mas é um brilhante recorte de um país buscando se erguer dignamente depois da tormenta.

Lamberto Maggiorani dá vida (e sentimento) a Antonio Ricci, um pai de família desempregado há dois anos em uma Roma pouco fotogênica e ainda sofrendo com as consequências da guerra. Pai do pequeno Bruno (Enzo Staiola), ele tem a possibilidade de voltar a ter a dignidade de um trabalhador quando é contratado para colar posters de cinema pela cidade. A única exigência do empregador é que ele tenha uma bicicleta. Depois de retomar a sua (que estava empenhada), Antonio começa sua nova vida, mas é frustrado logo no começo, quando vê seu veículo (e fonte de renda) ser roubado na sua frente. Desesperado, ele tenta, com a ajuda de seu filho, encontrar o ladrão. A missão torna-se, aos poucos, mais complicada do que parece: Antonio não tem apenas que encontrar sua bicicleta em meio a milhares delas, mas também provar que é seu dono. No caminho, ele e Bruno mergulham nas ruínas de Roma, procurando o que é o símbolo de sua luta e orgulho - e Vittorio De Sica não poupa seu protagonista de sofrer na carne as consequências de um conflito desumano e violento. Emocionante sem ser piegas, "Ladrões de bicicletas" ainda consegue arrancar lágrimas com seu final delicado e melancólico - e todos os elogios e prêmios que arrebatou pelo mundo apenas comprovam sua qualidade e urgência. Tão necessário hoje como o era há sessenta anos, é uma obra-prima irretocável e atemporal.

VÍTIMAS DA TORMENTA

VÍTIMAS DA TORMENTA (Sciuscià, 1946, CG Entertainment, 87min) Direção: Vittorio De Sica. Roteiro: Sergio Amidei, Adolfo Franci, Cesare Giulio Viola, Cesare Zavattini. Fotografia: Anchise Brizzi. Montagem: Nicolò Lazzari. Música: Alessandro Cicognini. Direção de arte: Ivo Battelli, G. Lombardozzi. Produção: Paolo William Tamburella. Elenco: Franco Interlenghi, Rinaldo Smordini, Annielo Mele, Bruno Ortensi, Emilio Cigoli. Estreia: 27/4/46

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor de um Oscar especial 

Mesmo antes de criar oficialmente a categoria de Melhor Filme Estrangeiro (o que ocorreria somente em 1956), a Academia de Hollywood já reconhecia, de uma forma ou outra, a excelência do cinema feito fora de seus domínios. Foi o caso de "Vítimas da tormenta", homenageado com um prêmio especial por suas grandes qualidades artísticas, "que provam ao mundo que o espírito criativo pode triunfar sobre a adversidade". Dirigida por Vittorio De Sica e eleita também um dos dez melhores filmes do ano pelo respeitado National Board of Review, a produção - parte integrante do aclamado neorrealismo italiano - concorreu ainda ao Oscar de roteiro original e preparou o cineasta para a sua grande obra-prima, "Ladrões de bicicleta", lançado dois anos mais tarde e que novamente encantou as plateias internacionais com seu equilíbrio entre o duro realismo do pós-guerra e a poesia da inocência infantil. Com um elenco predominantemente mirim, "Vítimas da tormenta" choca, emociona e faz refletir - e insere-se, por isso, na tradição de filmes imprescindíveis sobre a infância, como os posteriores "Os incompreendidos", de Truffaut, "Os esquecidos" (50), de Buñuel, e "Pixote: a lei do mais fraco" (81), de Hector Babenco.

A trama do filme se passa em uma Roma ainda sofrendo as consequências da guerra, com soldados norte-americanos convivendo pacificamente com a população local, que tenta retomar uma vida normal apesar da ruína econômica. É nesse ambiente que o público é apresentado a seus dois protagonistas, Pasquale e Giuseppe, que trabalham como engraxates nas ruas da cidade enquanto tentam economizar dinheiro para realizar um de seus maiores sonhos: comprar o cavalo pelo qual são apaixonados. Grandes e inseparáveis amigos, eles tem muito em comum, apesar de Pasquale viver nas ruas e Giuseppe ter uma família - da qual faz parte o pouco confiável Attilio, um rapaz frequentemente envolvido em problemas com a polícia. A rotina dos dois meninos, pouco empolgante, começa a mudar quando eles aceitam uma proposta de Attilio: vender cobertores roubados dos soldados a uma velha cartomante. Excitados com a possibilidade de comprar seu cavalo, os garotos aceitam a missão, mas acabam presos logo depois, envolvidos em um golpe que os leva imediatamente a um reformatório. Lá, eles são separados e colocados um contra o outro, como forma das autoridades conseguirem uma prova contra Attilio.


Construindo sua narrativa de forma a estabelecer uma crescente tensão entre seus protagonistas, que vem sua amizade posta à prova diante de armadilhas e situações violentas dentro do reformatório, "Vítimas da tormenta" consegue, ao mesmo tempo, manter as características do neorrealismo italiano - atores amadores, preocupação social, improvisações, um visual cru - e manter um constante tom de imprevisibilidade dramática. O elenco infantil é absolutamente impressionante, formado por jovens amadores que se destacam pela maneira natural e orgânica de transmitir uma vasta gama de emoções sem forçar o sentimentalismo. De Sica, um dos maiores diretores italianos de todos os tempos, extrai de seu elenco juvenil uma verdade dolorida, que imprime a cada sequência uma melancolia única, transmitida também pela bela fotografia em preto-e-branco de Anchise Brizzi e pela trilha sonora de Alessandro Cicognini, que, discretamente, comenta com suavidade os percalços dos protagonistas sem jamais chamar a atenção para si própria.

"Vítimas da tormenta" pode até não ser tão lembrado quanto outros filmes do neorrealismo italiano, como "Ladrões de bicicleta" (48), do próprio De Sica, ou o seminal "Roma: cidade aberta" (45), de Roberto Rossellini, mas é, sem dúvida nenhuma, um dos pontos altos do gênero. Atingindo o público tanto por seu lado emocional quanto por sua plasticidade cuidadosamente simples, o filme deixa sua marca graças à capacidade do diretor em contar uma história simples e universal, que ressoa atual mesmo tão distante cronologicamente. Com personagens que cativam logo na primeira cena - e que vão se tornando adultos precocemente em contato com a vida real -, é uma produção que machuca, mas, justamente por isso, se mantém inesquecível no coração da plateia. Excepcional!

terça-feira

SATURNO EM OPOSIÇÃO

SATURNO EM OPOSIÇÃO (Saturno contro, 2007, Medusa Film, 110min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Gianni Romoli. Fotografia: Gian Fillippo Corticelli. Montagem: Patrizio Marone. Música: Giovanni Pellino "Neffa". Figurino: Alessandro Lai. Direção de arte/cenários: Massimiliano Nocente. Produção: Tilde Corsi, Gianni Romoli. Elenco: Stefano Accorsi, Margherita Buy, Piefrancesco Favino, Serra Yilmaz, Ennio Fantastichini, Ambra Angiolini, Luca Argentero, Michelangelo Tommaso, Milena Vukotic, Luigi Diberti, Lunetta Savino, Isabella Ferrari. Estreia: 23/02/07

Por nome talvez os espectadores não saibam logo de saída quem é Ferzan Ozpetek. Basta, porém, citar alguns de seus filmes para que os cinéfilos mais antenados com a produção italiana do começo do século XXI percebam de quem se está falando. Diretor de "Um amor quase perfeito" (2001), "A janela da frente" (2003) e "O primeiro que disse" (2010), entre outros menos conhecidos, o turco radicado na Itália é um dos nomes mais relevantes do novo cinema europeu - mesmo que nunca tenha tido a sorte de, por exemplo, chegar a ser indicado a um Oscar. Premiado em diversos festivais de cinema mundo afora, Ozpetek é um cineasta com características marcantes (personagens complexos, histórias que valorizam a amizade como uma forma de família, a simpatia pela comunidade LGBT) e elas ficam bastante claras em "Saturno em oposição", seu sexto longa-metragem, lançado em 2007 e que reúne o trio de atores de seu "Um amor quase perfeito" (Stefano Accorsi, Margherita Buy e Serra Yilmaz). Uma bela história sobre laços afetivos e luto, seu filme arrebatou sete indicações ao David di Donatello (o Oscar italiano) e, apesar da pouca repercussão no Brasil, é mais um pequeno grande filme do diretor.

Sua trama, como de costume, é simples e direta - o que não significa, de modo algum, que é simplória ou superficial: sem um protagonista específico, ela gira em torno de um grupo de amigos que, confrontados com a efemeridade da vida, são obrigados a rever seus conceitos e prioridades - assim como seus próprios relacionamentos interpessoais. Se algum dos personagens pode ser considerado o principal, este é Lorenzo (Luca Argentero), um jovem bonito e saudável que vive feliz com o namorado, o escritor Davide (Pierfrancesco Favino), e está em franca ascensão profissional. De repente, em meio a um jantar oferecido ao tradicional grupo de amigos, ele sofre um derrame cerebral e se torna o centro das atenções de todos - que deixam seus problemas de lado para se revezarem no hospital, enquanto lidam com suas próprias questões. Antonio (Stefano Accorsi) e Angelica (Margherita Buy), um casal aparentemente feliz, se descobre em meio a um tumultuado caso de adultério; a tradutora Nerval (Serra Yilmaz) tenta manter a união de todos e a paz de seu casamento com o policial Roberto (Fillipo Timi); o ex-namorado de Davide, Sergio (Ennio Fantastachini), mantém a amizade com o novo casal; os mais jovens, Paolo (Michelangelo Tommaso) - um aspirante a escritor - e Roberta (Ambra Angiolini), envolvida com drogas, testemunham os embates dos mais velhos; e Davide enfrenta o conservador pai de Lorenzo, Vittorio (Luigi Diberti), que não aceita totalmente a orientação sexual do filho único.


Dividindo sua atenção entre todos os seus personagens - com um pouco mais de ênfase no casal Antonio e Angelica, que se sobressaem também pelo carisma de seus intérpretes -, Ferzan Ozpetek brinda o espectador com cenas de uma delicadeza ímpar, nunca apelando para o sentimentalismo exagerado ou o caminho mais fácil. Ao dotar suas criações com uma série de nuances que os afastam do maniqueísmo, o diretor e roteirista permite aos atores que explorem com menos pressa e avidez o âmago de cada um deles. Ozpetek é mestre em trabalhar com sutilezas, como um olhar triste, um sorriso esperançoso, um abraço redentor, e faz isso com abundância, recheando de calor humano uma história que apresenta, em sua origem, poucas novidades. "Saturno em oposição" é, mais do que um filme de trama forte, uma obra de personagens interessantes e situações verossímeis, que encontram eco no público justamente por sua simplicidade aparente. Com o uso adequado da trilha sonora - comovente e eficaz em sua função de ilustrar passagens que exigem uma emoção mais forte - e um respeito absoluto pela humanidade de cada um (na tela e na plateia), o filme de Ozpetek faz parte de um tipo cada vez mais raro de cinema: aquele que retrata e embeleza o cotidiano.

Todos os problemas dos personagens de "Saturno em oposição" são graves - em níveis distintos e em graus maiores ou menores, mas definitivamente graves. Doença, morte, adultério, uso de drogas, problemas financeiros e o medo do fracasso atormentam sem descanso o grupo de amigos. Mas o roteiro faz questão de nem dourar a pílula e fazê-los de resolução milagrosa nem tampouco torná-los impossíveis de contornar. Oferecendo uma boa dose de generosidade a todos, Ferzan Ozpetek parece acenar com um gesto de esperança para cada um deles - e consequentemente também para o espectador. Em alguns momentos pode ser difícil segurar as lágrimas, mas no final das contas, o filme deixa claro que a amizade, a união e o respeito podem fazer grande diferença - não milagres, mas a quantidade necessária de conforto e carinho para que se possa manter a espinha ereta e o coração tranquilo. Mais uma vez acertando em cheio na emoção e na sensibilidade, Ozpetek se torna, com "Saturno em oposição", um diretor indispensável.

sexta-feira

O PRIMEIRO QUE DISSE

O PRIMEIRO QUE DISSE (Mine vaganti, 2010, Fandango/Rai Cinema, 110min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Ivan Cotroneo. Fotografia: Maurizio Calvesi. Montagem: Patrizio Marone. Música: Pasquale Catalano. Figurino: Alessandro Lai. Direção de arte/cenários: Andrea Crisanti/Lily Pungitore. Produção: Domenico Procacci. Elenco: Riccardo Scamarcio, Nicole Gramaudo, Alessandro Preziosi, Ennio Fantastichini, Lunetta Savino. Estreia: 13/02/10 (Festival de Berlim)

Quem já assistiu ao belo "Um amor quase perfeito" (2001) - em que a médica interpretada por Margherita Buy descobre a vida dupla do marido depois que ele morre atropelado - e ao melancólico "A janela da frente" (2003) - que mostra Giovanna Mezzogiorno e seu charmoso vizinho Raul Bova investigando o passado de um desmemoriado senhor de idade encontrado vagando pelas ruas de Roma - sabem que o cineasta Ferzan Ozpetek sempre encontra um jeito de retratar de forma poética e respeitosa a homossexualidade, além de colocá-la frequentemente como ponto de suma importância em seus roteiros. Às vezes mais discretamente e em outras explicitamente, o assunto é peça fundamental de suas narrativas, e em "O primeiro que disse" é o ponto de partida para uma história que fala de hipocrisia, preconceito e da necessidade de se lutar pelos próprios sonhos. Um tanto melancólico mas com pitadas saudáveis de humor, seu filme é um libelo a favor da liberdade individual - ainda que para conquistá-la seja obrigatório romper padrões e expectativas alheias.

Tommaso Cantone (Riccardo Scamarcio) é o filho caçula de uma tradicional família proprietária de uma bem-sucedida fábrica de massas no interior da Itália. Vivendo há anos em Roma, ele sente-se livre para ir contra todos os planos dos pais, fazendo o curso de Letras, tentando a carreira de escritor e vivendo um romance com Marco (Carmine Recano). Em uma visita à casa paterna, ele decide contar a verdade sobre sua vida na capital e, assim, fugir da responsabilidade de comandar uma empresa com a qual não tem a menor afinidade. Para sua surpresa, porém, seu irmão mais velho, Antonio (Alessandro Preziosi) sai do armário antes dele, confessando seu amor por um antigo empregado da fábrica. Com o irmão expulso de casa pelo pai - que tem um enfarte logo em seguida - Tommaso se vê impedido de dar seguimento a seus planos e é obrigado a continuar morando na cidade e sendo a ligação entre a família e a empresa. Suas tentativas de esconder sua vida alternativa sofrem um duro golpe, no entanto, quando Marco resolve visitá-lo em busca de notícias - e chega acompanhado de um grupo de amigos nada discretos.


Assim como em "Um amor quase perfeito", Ozepetek cria, em seu filme, uma galeria de personagens coadjuvantes que emolduram a trama principal com graça e inteligência. Enquanto no primeiro filme eram os amigos de Michele (Stefano Accorsi) - um grupo de homossexuais que se tratavam como uma família alternativa - que roubavam a cena, em "O primeiro que disse" essa missão cabe aos familiares de Tommaso, um conjunto de personalidades que varia do patético (como a tia solteirona que alega ter ladrões invadindo constantemente seu quarto) ao hipócrita (o pai preconceituoso e cioso dos valores familiares mas que tem uma amante à vista de todos). Sob o olhar prescrutador da matriarca da família (Ilaria Occhini) - cujo passado tem um drama que a faz perceber o mundo com um ponto de vista mais benevolente e carinhoso - todo o clã vive sua rotina tentando encontrar maneiras de lidar com seus próprios problemas, retratados com sensibilidade e humor. Evitando a todo custo pesar a mão seja na questão da sexualidade ou na dos preconceitos arraigados do interior da Itália - onde meninas são obrigadas desde crianças a se comportarem como pequenas damas e a fofoca é quase um esporte nacional - o cineasta (um turco que vive na Itália desde os anos 70) trata seus personagens como um pai compreensivo, nem sempre concordando com eles, mas respeitando seus pontos de vista por piores que possam ser. Essa generosidade é uma das maiores qualidades de seu texto, que, além disso, injeta um bem-vindo senso de humor na hora mais do que apropriada.

Justamente quando "O primeiro que disse" está se levando a sério demais e as dúvidas de Tommaso a respeito de suas decisões estão a ponto de tornar o filme um dramalhão, Ozpetek surge com a brilhante ideia de jogar um bocado de sol na trama. A chegada de Marco e seus amigos - três gays espalhafatosos tentando disfarçar sua sexualidade para não chocar a conservadora família Cantone - dá um choque de humor na trama e a direciona para sua reta final, quando decisões terão de ser tomadas e/ou repensadas. Sem deixar seu roteiro cair na mesmice ou no didatismo, o cineasta encerra sua trama com uma bela e onírica sequência que mais faz pensar do que determina desfechos. Pode não ser uma opção que agrade a todos, mas ao menos é corajosa e coerente com a proposta de sacudir o status quo. "O primeiro que disse" é um filme que não apenas entretém: como toda a filmografia de Ferzan Ozpetek, é uma obra aberta a discussões que em momento algum perde sua qualidade de entretenimento. Louvável!

domingo

UM DIA MUITO ESPECIAL

UM DIA MUITO ESPECIAL (Una giornata particolare, 1977, Compagnia Cinematografica Champion, 106min) Direção: Ettore Scola. Roteiro: Ettore Scola, Ruggero Maccari. Fotografia: Pasqualino De Santis. Montagem: Raimondo Crociani. Música: Armando Trovaioli. Figurino: Enrico Sabbatini. Direção de arte/cenários: Luciano Ricceri. Produção: Carlo Ponti. Elenco: Marcello Mastroianni, Sophia Loren, John Vernon, Françoise Berd. Estreia: 19/5/77 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Ator (Marcello Mastroianni)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro


Menos celebrado que Federico Fellini e menos polêmico que Pier Paolo Pasolini e menos radical que Roberto Rossellini, o cineasta Ettore Scola pode ser considerado o mais poético dentre os diretores que colocaram a Itália no mapa do cinema internacional a partir dos anos 40. Sem abrir mão da crítica social que marcou o neorrealismo e buscando sempre o enfoque humanista em suas histórias, Scola acabou por assinar alguns dos mais brilhantes filmes realizados na Europa a partir de sua estreia, em 1964, com "Fala-se de mulheres". Da lista de suas realizações mais respeitadas, fazem parte de sua obra produções como "Nós que nos amávamos tanto" (74), "Feios, sujos e malvados" (75), "Casanova e a Revolução" (82), "O baile" (83) e "A viagem do Capitão Tornado" (90). Por melhores que todos sejam, no entanto, poucos conseguiram atingir o equilíbrio perfeito entre o drama intimista e a preocupação histórica de "Um dia muito especial", que lhe deu o Golden Globe de melhor filme estrangeiro de 1977, uma indicação ao Oscar na mesma categoria (e de quebra uma para Marcello Mastroianni) e um César (o Oscar francês). Centrando seu foco em um par de protagonistas em dias iluminados, Scola faz de um prédio de apartamentos da classe operária da Roma de 1938, um microcosmo de seu país - e quiçá do mundo, prestes a entrar em uma sangrenta guerra.

Com uma estrutura teatral mas jamais cansativa ou verborrágica em excesso, "Um dia muito especial" se passa no dia em que Adolf Hitler chegou à Roma, com o objetivo de encontrar-se com o presidente de então, Benito Mussolini. A guerra ainda não era uma certeza, mas a sombra do nazismo já começava a se espalhar pela Europa. Um dos entusiastas das ideias do ditador alemão é Emanuele (John Vernon), que aproveita sua visita ao país para, junto com milhares de conterrâneos, saudá-lo nas ruas da capital. Emanuele é casado com a dona-de-casa Antonietta (Sophia Loren), que aproveita a ausência do marido e dos seis filhos para alguns momentos de solidão que é incapaz de manter em sua apressada rotina. O que poderia ser apenas um dia normal, porém, se revela bastante atípico quando ela vai parar no apartamento de um vizinho, Gabriele (Marcello Mastroianni), em busca de seu passarinho de estimação. Gabriele é um locutor de rádio intelectual e discreto que não demora a fazer amizade com a bela matriarca, com quem consegue, surpreendentemente, encontrar uma conexão emocional e profunda. A verdade é que a solitária e carente Antonietta sente-se atraída pelos modos educados e gentis de Gabriele, que tem motivos de sobra para estar precisando de um ombro amigo: homossexual, ele acaba de ser demitido e está esperando pelos guardas que irão levá-lo para um campo de prisioneiros.


Apresentando seus personagens e dramas aos poucos, com elegância e sutileza, Ettore Scola - também coautor do roteiro, ao lado de Ruggero Maccari - apresenta também, de forma inteligente, alguns outros moradores do edifício onde moram Antonietta e Gabriele, pessoas aparentemente comuns mas dotadas de uma mesquinharia atroz que explica, em boa parte, os rumos tomados pela Itália nos anos seguintes, quando o país aliou-se com a Alemanha. O cineasta não faz a menor questão de esconder sua simpatia pelos protagonistas, imbuindo-os de um certo tom de resiliência que imediatamente os coloca no patamar de heróis silenciosos. Antonietta encara a falta de sensibilidade do marido e dos filhos e não encontra tempo nem ao menos de ler um livro - sem falar na ausência absoluta de romantismo e cavalheirismo de seu relacionamento. Gabriele, por sua vez, está vendo sua vida ser completamente destruída pela arbitrariedade do preconceito em relação à sua orientação sexual. São dois seres perdidos, tristes e necessitados de compaixão e carinho, que se encontram em um período curto mas forte o bastante para fortalecer seu senso de sobrevivência em dias difíceis que virão.

Amparando-se basicamente no trabalho de extrema sensibilidade de seus atores - a indicação de Mastroianni ao Oscar não foi mera homenagem da Academia - e em seu texto conciso e delicado, Scola apresenta um trabalho que foge dos clichês românticos ou do tratamento dado pelo cinema à homossexualidade, tratando do assunto com respeito e naturalidade. O romance entre seus personagens - mais do que simplesmente físico ou emocional - é fruto de sua extrema necessidade de afeto e compreensão, não de desejos vulgares ou lascívia adolescente. Antonietta vê em Gabriele a antítese de seu marido brutal, quase cruel. Gabriele vê na vizinha uma válvula de escape, um bote salva-vidas que pode lhe fazer respirar antes da tragédia iminente que bate à sua porta. São personagens tristes, mas carregados de uma humanidade de que somente o cinema europeu - Scola à frente - é capaz de retratar sem apelar para sentimentalismos ou estilizações. Seu cinema fascina justamente por tratar de pessoas de carne e osso, com sentimentos à flor da pele, e "Um dia muito especial" talvez seja a síntese mais terna de sua filmografia. Um belo filme, valorizado pela fotografia árida de Pasqualino De Santis e por seus intérpretes espetaculares.

sexta-feira

O LEOPARDO



O LEOPARDO (Il gattopardo, 1963, Titanus, 187min) Direção: Luchino Visconti. Roteiro: Suso Cecchi D'Amico, Pasquale Festa Campanile, Enrico Medioli, Massimo Franciosa, Luchino Visconti, romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Fotografia: Giuseppe Rottuno. Montagem: Mario Serandrei. Música: Nino Rota. Figurino: Piero Tosi. Direção de arte/cenários: Mario Garbuglia/Laudomia Herculani, Giorgio Pes. Produção executiva: Pietro Notarianni. Produção: Goffredo Lombardo. Elenco: Burt Lancaster, Claudia Cardinale, Alain Delon, Paolo Stoppa, Giuliano Gemma. Estreia: 27/3/63


Indicado ao Oscar de Figurino
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 

O filme preferido do cineasta Martin Scorsese é, hoje, um dos clássicos mais cultuados do cinema, graças principalmente a seu cuidado com o visual - uma das características mais marcantes de seu diretor Luchino Visconti - e à atenção dada à fidelidade da adaptação do romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, uma crônica tão ácida quanto poética da decadência da aristocracia italiana no século XIX através da figura de seu protagonista, o Príncipe Fabrizio di Salina, em uma aplaudida interpretação do americano Burt Lancaster. Fotografado brilhantemente por Giuseppe Rottuno e com uma minuciosa reconstituição de época que rendeu a Piero Tosi uma indicação ao Oscar de figurino, "O Leopardo" é, sem dúvida, um filme que encanta os olhos do espectador. Mas, é preciso que se diga, é necessária uma paciência maior do que a normal para encarar a narrativa construída por Visconti e poder se deliciar com suas belas imagens: em mais de três horas de duração, os acontecimentos se sucedem de forma lenta e contemplativa, sob o olhar ora atônito ora compreensivo de seu protagonista. Definitivamente é um filme que nem de longe irá agradar ao público médio acostumado com o ritmo do cinema hollywoodiano.

E nem mesmo Hollywood conseguiu digerir apropriadamente o filme de Visconti - ele mesmo um aristocrata com simpatias claras e explícitas com o comunismo. Distribuído pela Fox no mercado de língua inglesa, "O Leopardo" foi um fracasso de bilheteria quase previsível, apesar das críticas positivas e do elenco internacional que incluía, além de Lancaster, o francês Alain Delon (amigo pessoal do diretor e que foi escalado apesar das tentativas de Warren Beatty em participar do projeto) e a italiana Claudia Cardinale. O nome de Lancaster -  a essa altura já premiado com o Oscar de melhor ator por "Entre Deus e o pecado" (60) - foi sugerido à Visconti pelos produtores, que tentavam, assim, incluir um nome conhecido mundialmente e que pudesse despertar a atenção das plateias que não conheciam a trajetória do cineasta italiano, mais prestigiado entre a crítica e os festivais de cinema do que exatamente por êxitos comerciais. Visconti queria Laurence Olivier no papel principal, e até Marlon Brando e Gregory Peck foram considerados (já que a Fox financiaria parte do orçamento caso um astro americano estrelasse o filme), mas foi o ator de "A um passo da eternidade" (53) que acabou conquistando o veterano diretor, convencido finalmente após vê-lo em cena no clássico "Julgamento em Nuremberg" (61). A relação entre diretor e astro, no entanto, não foi feita apenas de flores: demorou até que Lancaster mostrasse à Visconti sua imersão e dedicação ao papel - algo que aconteceu e foi reiterado com uma nova colaboração em 1974, no filme "Violência e paixão".


"O Leopardo" não tem uma história envolvente e repleta de acontecimentos dramáticos, podendo ser classificado mais como uma crônica dos costumes sicilianos do século XIX e suas transformações sociais do que exatamente como um drama romântico ou algo parecido. Ao adaptar fielmente o livro de Lampedusa em imagens e atmosfera, Visconti - que em sua vitoriosa carreira ainda assinaria a difícil adaptação de "Morte em Veneza", de Thomas Mann - opta por um viés mais bucólico e sentimental, que reflete o tom de nostalgia que perpassa toda a sua narrativa. Em seus quarenta minutos finais - um espetacular baile que sublinha visualmente todas as questões da trama - um dos mais elegantes cineastas da história apresenta à plateia um retrato quase melancólico de uma metamorfose inevitável, que, segundo diz o personagem central, mostra que, às vezes, "é preciso mudar tudo para que as coisas permaneçam como estão.". E é esse o pensamento central do filme e do Príncipe Fabrizio, vivido com maestria por um Burt Lancaster diferente de tudo que havia feito até então, com um ar de sobriedade e elegância dos mais intensos do cinema.

A trama - simples, minimalista, quase inexistente - gira em torno do Príncipe Fabrizio Di Salina, um aristocrata italiano que, depois de hesitar por um algum tempo, finalmente passa a aceitar a união entre seu mundo de luxo, pompa e circunstância com a burguesia que tanto serve de chacota junto a seus semelhantes. Percebendo que a única forma de manter-se no topo da cadeia alimentar social é a aliança com o prefeito da cidade, o exuberante Calogero Sedara (Paolo Stoppa), representante do novo dinheiro, ele não apenas concorda como incentiva o casamento de seu sobrinho, Tancredi (Alain Delon), com a filha do mal-afamado vizinho, a jovem e bela Angelica (Claudia Cardinale). Contando sua história com detalhes, discrição rítmica e sutileza, Visconti não apela para cenas de grande impacto dramático, preferindo revelar ao espectador as nuances de uma sociedade unicamente por meio de cenas milimetricamente arquitetadas de modo a encantar os olhos antes de qualquer outro nível de racionalização. Funciona: plasticamente, "O Leopardo" é impecável, ainda que prescinda de um ritmo um tanto menos letárgico. Ainda assim, para quem procura cinema de alto padrão estético, é um desbunde.

terça-feira

DUAS MULHERES

DUAS MULHERES (La ciociara, 1960, Compagnia Cinematografica Champion, 100min) Direção: Vittorio De Sica. Roteiro: Vittorio De Sica, romance de Alberto Moravia, adaptação de Cesare Zavattini. Fotografia: Gabor Pogany. Montagem: Adriana Novelli. Música: Armando Trovajoli. Figurino: Elio Constanzi. Direção de arte/cenários: Gastone Medin/Elio Constanzi. Produção: Carlo Ponti. Elenco: Sophia Loren, Jean-Paul Belmondo, Eleonora Brown, Carlo Ninchi. Estreia: 22/12/60

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Sophia Loren)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Sophia Loren)

Demorou quase três décadas até que a Academia de Hollywood finalmente percebesse que fora do alcance da língua inglesa também existia cinema de qualidade - a categoria de Melhor Filme Estrangeiro, por exemplo, só começou a ser oficialmente competitiva em 1956, quando "A estrada da vida", de Federico Fellini, levou a estatueta. Foi somente na cerimônia de 1961, no entanto - a de número 34 - que uma atriz conseguiu finalmente romper a barreira do idioma e sagrar-se vencedora do Oscar na categoria principal. E engana-se que para isso foi preciso que tivesse uma longa e vitoriosa carreira que justificasse um prêmio de consolação: a italiana Sophia Loren tinha apenas 27 anos de idade quando foi eleita pelos membros da Academia, batendo nomes como Audrey Hepburn ("Bonequinha de luxo") e Natalie Wood ("Clamor do sexo"). Além de jovem e no auge da sensualidade, Loren deixava claro, com sua interpretação visceral em "Duas mulheres", que talento não tinha idade, nacionalidade ou aparência física - e devolvia à Academia um pouco da credibilidade abalada com a vitória de Elizabeth Taylor no ano anterior por pura e simples piedade (ela ganhou por "Disque Butterfield 8" mais pelos sérios problemas de saúde pelos quais passava do que propriamente por mérito artístico).

A escalação de Loren para o papel principal de "Duas mulheres" foi um tanto problemática, apesar do produtor do filme ser seu marido, Carlo Ponti: quando surgiu a ideia de adaptar o romance de Alberto Moravia, publicado em 1958, o filme seria dirigido por George Cukor e produzido pela Paramount, com toda a estrutura de um grande estúdio hollywoodiano. A protagonista seria vivida por outra italiana, Anna Magnani, com quem Cukor havia trabalho em "A fúria da carne" (57) e que havia sido indicada ao Oscar pelo papel. Loren estaria no elenco, mas como a filha adolescente de Magnani, e então a história oferece duas versões: em uma delas, a estrela de "Roma, cidade aberta" abriu mão do filme por motivos de saúde e recomendou Sophia para o seu papel, certa de que ela não se importaria em interpretar uma mulher mais velha. Em outra, menos favorável à Magnani, ela recusou-se a dividir a cena com a jovem atriz por temer que sua aparência roubasse a cena e se tornasse o principal atrativo do filme. Seja como for, Cukor abandonou o projeto e o filme acabou sendo realizado no país natal de Moravia, em seu idioma original e filmado em cenários naturais - o que, de certa forma, aproximava o resultado final das raízes neorrealistas de seu novo diretor, Vittorio De Sica. Premiado no Festival de Cannes e com o Golden Globe de melhor filme estrangeiro, "Duas mulheres" terminou por beneficiar-se de suas dificuldades iniciais e ficar para a história.


A trama se passa em 1943, em meio ao auge da II Guerra Mundial. Em Roma, a viúva Cesira (Sophia Loren) vive como comerciante, mas, temerosa diante dos constantes bombardeios na capital italiana, decide abandoná-la e esconder-se em sua região natal, no interior do país, deixando sua propriedade aos cuidados de um antigo amante, Giovanni (Raf Vallone). Acompanhada da única filha, a adolescente Rosetta (Eleanora Brown), sua maior razão de viver e preocupação constante, Cesira atravessa cidades a pé, de mula e de trem, sofrendo com a possibilidade de ser atingida por algum dos aviões que fazem voos rasantes ou soldados perdidos pela região. Quando finalmente chega a seu destino, encontra um grupo de moradores que vivem à margem do conflito, ainda que cientes de sua importância no dia-a-dia. Desse grupo faz parte Michele (Jean-Paul Belmondo), um professor com tendências esquerdistas que não demora a encantar-se com a nova integrante do grupo - e que acaba por interessar a jovem Rosetta. A tranquilidade do lugar, porém, é maculada quando um grupo de soldados alemães obriga Michele a guiá-los pelas montanhas - com medo da aproximação da guerra, Cesira resolve voltar para Roma com Rosetta. Mas, para seu desespero, o que as espera é ainda pior que a fome e a miséria.

Restaurado em 2002, "Duas mulheres" é um dos filmes mais importantes da carreira do cineasta Vittorio De Sica - autor do emblemático "Ladrões de bicicleta" - e certamente a produção que atestou a maturidade do talento de Sophia Loren, que entrega uma atuação desesperada e sensual na medida certa. Inspirado em relatos verdadeiros ocorridos durante a II Guerra Mundial na região de Monte Cassino - onde mais de 60 mil mulheres sofreram violência sexual por soldados marroquinos - o romance de Alberto Moravia serviu de base para um filme de guerra onde ela surge apenas como uma sombra perigosa e nefasta, que faz vítimas tanto no campo de batalha quanto fora dele. Mesmo que o roteiro escrito pelo próprio diretor sofra de quedas de ritmo, algumas imagens são fortes o bastante para permanecer na memória do espectador e atestar seu talento em falar tão diretamente à emoção sem apelar para o piegas. Loren, linda e carismática, entrega uma performance arrebatadora - em um papel que repetiu no remake televisivo do filme, realizado em 1988 - e eleva o filme a um patamar acima dos dramas de guerra americanos, normalmente com um nível de patriotismo exagerado. Um filme para quem procura pela verdade humana mais do que por artifícios emocionais.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...