VOANDO ALTO (Eddie the Eagle, 2016, Hurwitz Creative/Marv Films/Saville Productions, 106min) Direção: Dexter Fletcher. Roteiro: Sean Macaulay, Simon Kelton, estória de Simon Kelton. Fotografia: George Richmond. Montagem: Martin Walsh. Música: Matthew Margeson. Direção de arte/cenários: Mike Gunn/Naomi Moore. Produção executiva: Zygi Kamasa, Pierre Lagrange, Stephen Marks, Peter Morton, Claudia Vaughn. Produção: Adam Bohling, Rupert Maconick, David Reid, Valerie Van Galder, Matthew Vaughn. Elenco: Hugh Jackman, Taron Egerton, Tom Costello, Jim Broadbent, Christopher Walken. Estreia: 26/01/16 (Festival de Sundance)
As Olimpíadas de Inverno de 1988, em Calgary, Canadá, tornaram-se famosas no cinema graças ao filme "Jamaica abaixo de zero" (93), que contava a história da primeira equipe de trenó do país através de uma comédia em tom familiar. Mas na mesma competição, em outra categoria - salto de esqui - um outro atleta chamava a atenção, não por medalhas ou excelência, mas sim por sua paixão pelo esporte e pela persistência em ser o primeiro britânico a disputar os jogos em um esporte sem tradição em sua nação. Ao cativar o público torcedor, Eddie "The Eagle" Edwards tornou-se uma figura icônica a tal ponto de ser convidado para carregar a tocha olímpica dos jogos de 2010, em uma demonstração de sua importância para o espírito esportivo declarado pelo criador das Olimpíadas modernas, Pierre de Coubertin: "O mais importante nos Jogos Olímpicos não é ganhar, mas participar. O importante na vida não é o triunfo, e sim a luta." Desde então - ou mais precisamente desde 1999, projetos cinematográficos sobre a trajetória de Edwards começaram a surgir, a despeito de sua relutância em permitir uma adaptação. O fracasso de uma tentativa com o ator Steve Coogan - que tencionava realizar uma comédia rasgada sobre o assunto - deixou o campo livre, então, para o diretor e produtor Matthew Vaugh, de "Kingsman: Serviço Secreto" (2014) reconectar-se com o roteiro que havia lido alguns anos antes e que havia deixado de lado. Surgia "Voando alto", uma terna, divertida e emocionante comédia capaz de arrancar sorrisos do mais cético dos espectadores.
Por uma dessas circunstâncias do destino, Vaughn decidiu produzir o filme sobre Edwards depois de assistir, junto com os filhos, a uma exibição na televisão de "Jamaica abaixo de zero". Com o firme propósito de realizar uma obra de tom familiar, sem a violência - repleta de ironia, mas ainda assim violência - de seu "Kingsman", o cineasta preferiu deixar de lado a direção e oferecer o projeto a seu amigo de longa data Dexter Fletcher, ator de seu primeiro filme como produtor, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes", lançado quase vinte anos antes. Tornado diretor com o passar do tempo, Fletcher aceitou o desafio e, com a aprovação de Edwards, "Voando alto" começava finalmente a tomar forma. Não da maneira tradicional, mas com um toque de leveza e humor que faria do filme não uma cinebiografia convencional, mas antes disso, uma releitura em tom cômico de sua trajetória rumo à realização de seu sonho de ser um atleta olímpico. Para isso, não apenas muitos fatos foram alterados - com a anuência do próprio biografado - como personagens foram simplesmente inventados, como forma de impulsionar a narrativa em uma direção mais facilmente palatável ao gosto das plateias. Nascia, assim, a figura de Bronson Peary, um ex-atleta que se torna o hesitante treinador de Edwards e seu maior aliado na luta contra os céticos - e cínicos - burocratas do esporte britânico.
Segundo o roteiro de Simon Kelt e Sean Macaulay - que Edwards diz ser apenas dez ou quinze por centro baseado na verdade - o protagonista, filho único de um gesseiro e de uma dona-de-casa britânicos, sempre sonhou em ser um atleta olímpico, mesmo diante das dificuldades impostas por um problema físico na perna esquerda, que praticamente o impedia de andar direito. Livre do aparelho que o acompanhou na infância, Eddie passa a treinar obsessivamente com o objetivo de participar dos jogos, sempre desencorajado pelo pai, que deseja que ele siga sua profissão. Contrariando até mesmo o Comitê Técnico da Grã-Bretanha - que não deseja um amador tão destreinado junto com seus talentosos atletas - e contando apenas com o apoio da mãe, Edwards resolve ir treinar na Alemanha (na verdade, Eddie foi para os EUA), e lá conhece Bronson Peary (Hugh Jackman), que anos antes, devido a seu comportamento arrogante, deixou de ser um astro do esporte para trabalhar limpando os campos de treino. Depois de muito insistir, Eddie convence Peary a treiná-lo, talvez não para ganhar medalhas, mas para estabelecer um recorde para seu país e provar a todos que a perseverança e a paixão pelo esporte são maiores que a fama e o dinheiro.
Com esse subtexto familiar e politicamente correto, seria fácil para "Voando alto" esbarrar em clichês e sentimentalismos. Porém, em um toque de gênio, Vaughn e Fletcher fazem do filme uma homenagem carinhosa e empolgante a todos aqueles que um dia já tiveram um sonho. Acompanhado por uma trilha sonora caprichada, uma edição ágil, senso de humor inteligente e interpretações impecáveis, o que poderia ser um aborrecido e previsível amontoado de lugares-comuns cede espaço ao divertido retrato de uma paixão quase proibida que se torna, aos poucos, plenamente tangível. Para isso, é imprescindível a atuação exemplar do jovem Taron Egerton, descoberto por Vaughan em "Kingsman": dos maneirismos físicos à linguagem corporal, do visual à voz e à postura, Egerton incorpora Eddie Edwards com extrema perfeição, aliando um carisma impressionante à já facilmente adorável personalidade do protagonista. Sua química com Hugh Jackman é um dos pontos altos de um filme repleto deles. Despretensioso, inspirador e muito, mas muito divertido, "Voando alto" é uma pequena obra-prima, que mesmo quando apela aos clichês, o faz com sinceridade e respeito. Imperdível!
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OS SUSPEITOS
OS SUSPEITOS (Prisoners, 2013, Alcon Entertainment, 153min)
Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Aaron Guizowski. Fotografia: Roger
A. Deakins. Montagem: Joel Cox, Gary Roach. Música: Jóhan Jóhansson.
Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Frank
Galline. Produção executiva: Stephen Levinson, Edward L. McDonnell,
Robyn Meisinger, John H. Starke, Mark Wahlberg. Produção: Kira Davis,
Broderick Johnson, Adam Kolbrenner, Andrew A. Kosove. Elenco: Hugh
Jackman, Jake Gyllenhaal, Paul Dano, Melissa Leo, Terrence Howard, Maria
Bello, Viola Davis. Estreia: 30/8/13 (Festival de Telluride)
Indicado ao Oscar de Fotografia
Realizar um filme de gênero é sempre um desafio para um grande diretor: é preciso jogar com os elementos clássicos de forma inteligente, de maneira a prender a atenção de um público mal-acostumado com os clichês e ainda assim imprimir uma marca que o distingua de dezenas de outros lançamentos. Para sorte dos cinéfilos, vários mestres conseguiram esse feito: Pedro Almodovar fez isso magistralmente em "Má educação". David Fincher também, em "Zodíaco". Scorsese idem, em "A época da inocência" e Woody Allen em "Match point, ponto final". A lista, agora, tem um novo nome: Denis Villeneuve, o canadense do sublime "Incêndios", indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2011. Seu "Os suspeitos" foge da simples definição de filme policial para transformar-se, em suas mãos, em um sério e claustrofóbico estudo sobre a culpa, a justiça pelas próprias mãos e o sentimento de perda.
O título original - "Prisoners" - pra variar tem muito mais camadas do que a tradução preguiçosa escolhida pela distribuidora, que já havia batizado outro grande filme, dirigido por Bryan Singer em 1995 e que deu o primeiro Oscar a Kevin Spacey. No filme de Villeneuve, os protagonistas são realmente prisioneiros, cada um a seu modo, das consequências do desaparecimento de duas meninas no feriado de Ação de Graças em Boston. O pai de uma delas, Keller Dover (Hugh Jackman) parte em uma busca obsessiva por seu paradeiro, que ele julga ser de conhecimento de Alex Jones (Paul Dano), um rapaz com problemas mentais visto nas redondezas do rapto. O policial Locki (Jake Gyllenhaal), encarregado do caso, sente-se em dívida de honra com o desesperado pai, especialmente quando o principal suspeito é liberado apesar de sua promessa de mantê-lo sob vigilância. E, logicamente, as duas famílias também estão aprisionadas à dúvida sobre a vida ou morte de suas crianças.
Os desdobramentos da trama, criada pelo roteirista Aaron Guzikowski, não valem a pena ser mencionados, sob pena de estragar a diversão - se é que "diversão" é o adjetivo adequado a um filme que mantém a tensão da plateia à flor da pele. No pleno domínio de seu trabalho como cineasta, Villeneuve constroi um suspense crescente, espalhando pistas sobre a resolução do caso (quase simplista, mas coerente) pelas cenas, dirigidas com economia de movimentos de câmera e atenção redobrada aos detalhes. A fotografia úmida e noir do mestre Roger Deakins colabora para o tom sombrio da narrativa, que não dá espaço para momentos desnecessários (e o faz com tanta competência que as duas horas e meia passam sem que se perceba). O roteiro segue o padrão que todos conhecem - o crime, a investigação, as pistas falsas, o clímax, o desenlace - mas o faz com uma propriedade ímpar, que faz com que tudo soe como novidade aos olhos da plateia, principalmente por dar uma importância rara às consequências dramáticas dos atos de seus personagens.
Ao contrário da maioria dos filmes policiais, onde os personagens existem somente para empurrar a história, em "Os suspeitos" é a história que empurra os personagens. Interessa a Villeneuve, cineasta com um olho cuidadoso para as mazelas do ser humano, mais a violência psicológica que se passa no subterrâneo da mente de Dover, Jones e Locki do que a violência física que porventura possa estar ocorrendo no cativeiro das meninas sequestradas. É a forma com que o pai angustiado e o policial dedicado lidam com o caso que eleva o filme a um patamar acima de seus congêneres, e para tal conta com um elenco brilhante, liderado por Hugh Jackman na melhor atuação de sua carreira - muito superior à sua interpretação indicada ao Oscar pelo modorrento "Os miseráveis" - e Jake Gyllenhaal, que constrói seu Locki com uma expressão corporal sutil e eficaz. O cada vez melhor Paul Dano e a oscarizada Melissa Leo também tem interpretações de destaque, em papéis que exploram a contento suas melhores qualidades.
Forte, intenso e digno de figurar entre os indicados ao próximo Oscar - o que infelizmente não deve ocorrer, haja visto sua ausência nas listas divulgadas até o momento - "Os suspeitos" é uma estreia alvissareira do diretor Dennis Villeneuve em Hollywood. Que se mantenha assim.
Indicado ao Oscar de Fotografia
Realizar um filme de gênero é sempre um desafio para um grande diretor: é preciso jogar com os elementos clássicos de forma inteligente, de maneira a prender a atenção de um público mal-acostumado com os clichês e ainda assim imprimir uma marca que o distingua de dezenas de outros lançamentos. Para sorte dos cinéfilos, vários mestres conseguiram esse feito: Pedro Almodovar fez isso magistralmente em "Má educação". David Fincher também, em "Zodíaco". Scorsese idem, em "A época da inocência" e Woody Allen em "Match point, ponto final". A lista, agora, tem um novo nome: Denis Villeneuve, o canadense do sublime "Incêndios", indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2011. Seu "Os suspeitos" foge da simples definição de filme policial para transformar-se, em suas mãos, em um sério e claustrofóbico estudo sobre a culpa, a justiça pelas próprias mãos e o sentimento de perda.
O título original - "Prisoners" - pra variar tem muito mais camadas do que a tradução preguiçosa escolhida pela distribuidora, que já havia batizado outro grande filme, dirigido por Bryan Singer em 1995 e que deu o primeiro Oscar a Kevin Spacey. No filme de Villeneuve, os protagonistas são realmente prisioneiros, cada um a seu modo, das consequências do desaparecimento de duas meninas no feriado de Ação de Graças em Boston. O pai de uma delas, Keller Dover (Hugh Jackman) parte em uma busca obsessiva por seu paradeiro, que ele julga ser de conhecimento de Alex Jones (Paul Dano), um rapaz com problemas mentais visto nas redondezas do rapto. O policial Locki (Jake Gyllenhaal), encarregado do caso, sente-se em dívida de honra com o desesperado pai, especialmente quando o principal suspeito é liberado apesar de sua promessa de mantê-lo sob vigilância. E, logicamente, as duas famílias também estão aprisionadas à dúvida sobre a vida ou morte de suas crianças.
Os desdobramentos da trama, criada pelo roteirista Aaron Guzikowski, não valem a pena ser mencionados, sob pena de estragar a diversão - se é que "diversão" é o adjetivo adequado a um filme que mantém a tensão da plateia à flor da pele. No pleno domínio de seu trabalho como cineasta, Villeneuve constroi um suspense crescente, espalhando pistas sobre a resolução do caso (quase simplista, mas coerente) pelas cenas, dirigidas com economia de movimentos de câmera e atenção redobrada aos detalhes. A fotografia úmida e noir do mestre Roger Deakins colabora para o tom sombrio da narrativa, que não dá espaço para momentos desnecessários (e o faz com tanta competência que as duas horas e meia passam sem que se perceba). O roteiro segue o padrão que todos conhecem - o crime, a investigação, as pistas falsas, o clímax, o desenlace - mas o faz com uma propriedade ímpar, que faz com que tudo soe como novidade aos olhos da plateia, principalmente por dar uma importância rara às consequências dramáticas dos atos de seus personagens.
Ao contrário da maioria dos filmes policiais, onde os personagens existem somente para empurrar a história, em "Os suspeitos" é a história que empurra os personagens. Interessa a Villeneuve, cineasta com um olho cuidadoso para as mazelas do ser humano, mais a violência psicológica que se passa no subterrâneo da mente de Dover, Jones e Locki do que a violência física que porventura possa estar ocorrendo no cativeiro das meninas sequestradas. É a forma com que o pai angustiado e o policial dedicado lidam com o caso que eleva o filme a um patamar acima de seus congêneres, e para tal conta com um elenco brilhante, liderado por Hugh Jackman na melhor atuação de sua carreira - muito superior à sua interpretação indicada ao Oscar pelo modorrento "Os miseráveis" - e Jake Gyllenhaal, que constrói seu Locki com uma expressão corporal sutil e eficaz. O cada vez melhor Paul Dano e a oscarizada Melissa Leo também tem interpretações de destaque, em papéis que exploram a contento suas melhores qualidades.
Forte, intenso e digno de figurar entre os indicados ao próximo Oscar - o que infelizmente não deve ocorrer, haja visto sua ausência nas listas divulgadas até o momento - "Os suspeitos" é uma estreia alvissareira do diretor Dennis Villeneuve em Hollywood. Que se mantenha assim.
PARA MAIORES
PARA MAIORES (Movie 43, 2013, Relativity Media, 94min) Direção: Elizabeth Banks, Steven Brill, Steve Carr, Rusty Candief, James Duffy, Griffin Dunne, Peter Farrelly, Patrik Forsberg, Will Graham, James Gunn, Brett Ratner, Jonathan van Tulleken. Roteiro: Rocky Russo, Jeremy Sosenko, Ricky Blitt, Bill O'Malley, Will Graham, Jack Kukoda, Matt Portenoy, Claes Kjellstrom, Jonas Wittenmark, Tobias Carlson, Will Carlough, Jonathan van Tulleken, Elizabeth Shapiro, Patrik Forsberg, Olle Sarri, Jacob Fleisher, Greg Pritkin, James Gunn. Fotografia: Mattian Anderssonn Rudh, Frank G. DeMarco, Steve Gainer, Matthew F. Leonetti, Daryn Okada, William Rexer, Eric Scherbarth, Newton Thomas Sigel, Tim Suhrstedt. Montagem: Debra Chiate, Patrick J. Don Vito, Suzy Elmiger, Mark Helfrich, Craig Herring, Myron I. Kerstein, Joe Randall-Cutler, Sam Seig, Cara Silverman, Sandy S. Solowitz, Jonathan van Tulleken, Hakan Warn, Paul Zucker. Música: Tyler Bates, Christophe Beck, Leo Birenberg, William Goodrum, Dave Hodge. Figurino: Anna Bingemann, Nancy Ceo, Roseanne Fiedler, Florence Kemper, Judianna Makovsky, Sydney Maresca, Salvador Pérez Jr.. Direção de arte/cenários: Toby Corbett, Jade Healy, Nolan Hooper, Robb Wilson King, Dina Lipton, Happy Massee, Arlan Jay Vetter, Inbal Weinberg/Jasmine E. Ballou, Robert Covelman, Andrea Mae Fenton, Isaac Gabaeff, Amber Haley, Jean Landry, Lance Lombardo, Jessica Panuccio, Halina Siwolop. Produção executiva: Ron Burkle, Jason Felts, Tucker Tooley, Tim Williams. Produção: Peter Farrelly, Ryan Kavanaugh, John Penotti, Charles B. Wessler. Elenco: Hugh Jackman, Kate Winslet, Liev Schreiber, Naomi Watts, Anna Faris, Chris Pratt, Kieran Culkin, Emma Stone, Richard Gere, Kate Bosworth, Justin Long, Jason Sudeikis, Uma Thurman, Bobby Cannavale, Kristen Bell, Christopher Mintz-Plasse, Chloe Grace Moretz, Gerard Butler, Sean William Scott, Johnny Knoxville, Halle Berry, Stephen Merchant, Terrence Howard, Elizabeth Banks, Josh Duhamel. Estreia: 25/01/13
A primeira pergunta que surge na cabeça do espectador enquanto sobem os créditos finais da comédia "Para maiores" é a tradicional em casos do tipo: "Por que diabos atores tão bons e tão consagrados aceitaram fazer essa porcaria?" De fato a lista de nomes envolvidos no projeto é de causar inveja a qualquer diretor de elenco de Hollywood - há desde indicados e vencedores do Oscar, como Hugh Jackman, Kate Winslet e Halle Berry, até astros em franca ascensão, como Emma Stone, Chris Pratt e Chloe Grace Moretz - especialmente se for levado em consideração que o orçamento total não ultrapassou os seis milhões de dólares, o que normalmente não paga nem um terço do cachê de alguns dos atores escalados. Mas a gritaria quase unânime contra o filme - apedrejado sem dó nem piedade por crítica e público - não deixa de ser um tanto quanto exagerada. Ok, o humor de alguns quadros está realmente no limite do bom-gosto e nem sempre funciona como poderia. Tudo bem, a história que os liga é pífia e em muitos momentos tem-se a nítida impressão de que o roteiro foi escrito por um grupo de adolescentes escatológicos no auge da puberdade. Mas outros grandes sucessos de bilheteria também não eram exatamente assim? Não é à toa que um dos roteiristas e diretores do filme seja Peter Farrelly - um dos irmãos responsáveis por "Debi & Loide", que, apesar de ter o mesmo tipo de humor, serviu de trampolim milionário para a carreira de Jim Carrey.
Talvez o maior estranhamento em relação à "Para maiores" seja justamente o fato de contar com atores de prestígio e respeito se prestando a situações constrangedoras normalmente relegadas a elencos de segundo ou terceiro escalões. Não é sempre que se vê Hugh Jackman interpretando um homem com os testículos localizados no queixo ou Halle Berry fazendo guacamole com um seio. Sim, é esse o nível de humor do filme, que usa e abusa do politicamente incorreto e de algumas piadas francamente ofensivas para conquistar as gargalhadas da audiência. De acordo com a bilheteria - pouco mais de 8 milhões em casa, cerca de 23 no mercado internacional - nem todo mundo entendeu (ou quis entender) a brincadeira. O estigma de humor pouco sofisticado pesou mais do que o elenco milionário, mas não é difícil de imaginar que, deixando o preconceito de lado (junto com qualquer tipo de suscetibilidade), o público possa ter alguns bons momentos de diversão, mesmo que jamais assuma isso diante dos outros.
Quem quiser encarar o desafio de experimentar a brincadeira quase insana que é "Para maiores" tem que se preparar para quase tudo. Literalmente. Tudo começa quando dois adolescentes, em busca de vingança contra um amigo nerd, falam a ele sobre a existência de um filme maldito, proibido em todos os países do mundo e que só pode ser localizado no submundo da Internet. Tal premissa - boba como convém - serve como elo de ligação entre todos os esquetes da produção, que fazem as vezes de alguns dos filmes encontrados durante a procura dos jovens. A partir daí é bobagem atrás de bobagem, com níveis variáveis de graça e escatologia. Se não, vejamos: no primeiro encontro com um solteirão cobiçadíssimo (Hugh Jackman), uma mulher (Kate Winslet) descobre que ele tem uma particularidade física desconcertante; Naomi Watts e Liev Schreiber (casados na vida real) contam a um casal de amigos como fazem para fazer de seu lar o ambiente escolar ideal para o filho adolescente que estuda em casa; às vésperas de pedir sua namorada (Anna Faris) em casamento, rapaz (Chris Pratt, casado com Faris também atrás das câmeras) se surpreende com uma proposta pouco usual da moça para apimentar suas relações sexuais; caixa de um supermercado (Kieran Culkin) reencontra a namorada (Emma Stone) e resolve por a relação em pratos limpos esquecendo de desligar o microfone e faz todos os clientes de testemunhas de suas palavras pouco sutis.
A sessão de humor descompromissado segue adiante mostrando uma reunião de acionistas de um IPod em forma de boneca que vem mutilando os pênis dos usuários adolescentes e que encontra no diretor da empresa (Richard Gere) um empecilho para as mudanças necessárias solicitadas por uma colega do sexo oposto (Kate Bosworth); Justin Long aparece como Robin, que frequenta uma sessão de encontros-relâmpagos e dá de cara com Lois Lane (Uma Thurman), a Supergirl (Kristen Bell), o Batman (Jason Sudeikis) e o Superman (Bobby Cannavale); Chloe Grace Moretz é uma adolescente que tem a primeira menstruação na casa do namorado e, desesperada, não consegue a ajuda dele e do cunhado (Christopher Mintz-Plasse) para resolver o problema; para limpar a barra com o melhor amigo (Sean William Scott), Johnny Knoxville lhe dá de presente um duende irlandês desbocado e violento (Gerard Butler), o que irá lhes causar grandes dores de cabeça (e em outras partes do corpo); Halle Berry e Stephen Merchant se encontram às cegas e iniciam uma brincadeira de "Verdade ou desafio" que logo descamba para consequências impensáveis; Terrence Howard é um treinador de basquete dos anos 50 que tenta convencer seus atletas negros que eles tem possibilidade de vencer os rivais brancos somente porque são negros; e Elizabeth Banks (diretora do esquete estrelado por Chloe Grace Moretz) tenta, no último quadro, convencer seu noivo (Josh Duhamell) que o gato que ele trata como filho a odeia e nutre por ele sentimentos pouco fraternais e muito sexuais.
É de frequente mau-gosto? Sim. É ofensivo e por vezes inacreditável? Também. Mas "Para maiores" atinge plenamente seu objetivo de jogar para o alto o politicamente correto que vem minando a comédia no cinema e fazer rir, mesmo que de nervoso. Como cinema - em termos técnicos e narrativos - é uma nulidade, mas sua coragem em nadar contra a corrente merece ser louvada até mesmo por todos aqueles que rejeitam ferozmente seu resultado final. Não é uma comédia para todo mundo - pode-se até dizer que é para poucos, em um extremo oposto à sofisticação de Woody Allen, por exemplo - mas pode encontrar seu público, desde que este esteja disposto a mergulhar sem medo na baixaria explícita de um filme que jamais se leva a sério. Questão apenas de querer se arriscar!
A primeira pergunta que surge na cabeça do espectador enquanto sobem os créditos finais da comédia "Para maiores" é a tradicional em casos do tipo: "Por que diabos atores tão bons e tão consagrados aceitaram fazer essa porcaria?" De fato a lista de nomes envolvidos no projeto é de causar inveja a qualquer diretor de elenco de Hollywood - há desde indicados e vencedores do Oscar, como Hugh Jackman, Kate Winslet e Halle Berry, até astros em franca ascensão, como Emma Stone, Chris Pratt e Chloe Grace Moretz - especialmente se for levado em consideração que o orçamento total não ultrapassou os seis milhões de dólares, o que normalmente não paga nem um terço do cachê de alguns dos atores escalados. Mas a gritaria quase unânime contra o filme - apedrejado sem dó nem piedade por crítica e público - não deixa de ser um tanto quanto exagerada. Ok, o humor de alguns quadros está realmente no limite do bom-gosto e nem sempre funciona como poderia. Tudo bem, a história que os liga é pífia e em muitos momentos tem-se a nítida impressão de que o roteiro foi escrito por um grupo de adolescentes escatológicos no auge da puberdade. Mas outros grandes sucessos de bilheteria também não eram exatamente assim? Não é à toa que um dos roteiristas e diretores do filme seja Peter Farrelly - um dos irmãos responsáveis por "Debi & Loide", que, apesar de ter o mesmo tipo de humor, serviu de trampolim milionário para a carreira de Jim Carrey.
Talvez o maior estranhamento em relação à "Para maiores" seja justamente o fato de contar com atores de prestígio e respeito se prestando a situações constrangedoras normalmente relegadas a elencos de segundo ou terceiro escalões. Não é sempre que se vê Hugh Jackman interpretando um homem com os testículos localizados no queixo ou Halle Berry fazendo guacamole com um seio. Sim, é esse o nível de humor do filme, que usa e abusa do politicamente incorreto e de algumas piadas francamente ofensivas para conquistar as gargalhadas da audiência. De acordo com a bilheteria - pouco mais de 8 milhões em casa, cerca de 23 no mercado internacional - nem todo mundo entendeu (ou quis entender) a brincadeira. O estigma de humor pouco sofisticado pesou mais do que o elenco milionário, mas não é difícil de imaginar que, deixando o preconceito de lado (junto com qualquer tipo de suscetibilidade), o público possa ter alguns bons momentos de diversão, mesmo que jamais assuma isso diante dos outros.
Quem quiser encarar o desafio de experimentar a brincadeira quase insana que é "Para maiores" tem que se preparar para quase tudo. Literalmente. Tudo começa quando dois adolescentes, em busca de vingança contra um amigo nerd, falam a ele sobre a existência de um filme maldito, proibido em todos os países do mundo e que só pode ser localizado no submundo da Internet. Tal premissa - boba como convém - serve como elo de ligação entre todos os esquetes da produção, que fazem as vezes de alguns dos filmes encontrados durante a procura dos jovens. A partir daí é bobagem atrás de bobagem, com níveis variáveis de graça e escatologia. Se não, vejamos: no primeiro encontro com um solteirão cobiçadíssimo (Hugh Jackman), uma mulher (Kate Winslet) descobre que ele tem uma particularidade física desconcertante; Naomi Watts e Liev Schreiber (casados na vida real) contam a um casal de amigos como fazem para fazer de seu lar o ambiente escolar ideal para o filho adolescente que estuda em casa; às vésperas de pedir sua namorada (Anna Faris) em casamento, rapaz (Chris Pratt, casado com Faris também atrás das câmeras) se surpreende com uma proposta pouco usual da moça para apimentar suas relações sexuais; caixa de um supermercado (Kieran Culkin) reencontra a namorada (Emma Stone) e resolve por a relação em pratos limpos esquecendo de desligar o microfone e faz todos os clientes de testemunhas de suas palavras pouco sutis.
A sessão de humor descompromissado segue adiante mostrando uma reunião de acionistas de um IPod em forma de boneca que vem mutilando os pênis dos usuários adolescentes e que encontra no diretor da empresa (Richard Gere) um empecilho para as mudanças necessárias solicitadas por uma colega do sexo oposto (Kate Bosworth); Justin Long aparece como Robin, que frequenta uma sessão de encontros-relâmpagos e dá de cara com Lois Lane (Uma Thurman), a Supergirl (Kristen Bell), o Batman (Jason Sudeikis) e o Superman (Bobby Cannavale); Chloe Grace Moretz é uma adolescente que tem a primeira menstruação na casa do namorado e, desesperada, não consegue a ajuda dele e do cunhado (Christopher Mintz-Plasse) para resolver o problema; para limpar a barra com o melhor amigo (Sean William Scott), Johnny Knoxville lhe dá de presente um duende irlandês desbocado e violento (Gerard Butler), o que irá lhes causar grandes dores de cabeça (e em outras partes do corpo); Halle Berry e Stephen Merchant se encontram às cegas e iniciam uma brincadeira de "Verdade ou desafio" que logo descamba para consequências impensáveis; Terrence Howard é um treinador de basquete dos anos 50 que tenta convencer seus atletas negros que eles tem possibilidade de vencer os rivais brancos somente porque são negros; e Elizabeth Banks (diretora do esquete estrelado por Chloe Grace Moretz) tenta, no último quadro, convencer seu noivo (Josh Duhamell) que o gato que ele trata como filho a odeia e nutre por ele sentimentos pouco fraternais e muito sexuais.
É de frequente mau-gosto? Sim. É ofensivo e por vezes inacreditável? Também. Mas "Para maiores" atinge plenamente seu objetivo de jogar para o alto o politicamente correto que vem minando a comédia no cinema e fazer rir, mesmo que de nervoso. Como cinema - em termos técnicos e narrativos - é uma nulidade, mas sua coragem em nadar contra a corrente merece ser louvada até mesmo por todos aqueles que rejeitam ferozmente seu resultado final. Não é uma comédia para todo mundo - pode-se até dizer que é para poucos, em um extremo oposto à sofisticação de Woody Allen, por exemplo - mas pode encontrar seu público, desde que este esteja disposto a mergulhar sem medo na baixaria explícita de um filme que jamais se leva a sério. Questão apenas de querer se arriscar!
segunda-feira
O GRANDE TRUQUE
O GRANDE TRUQUE (The prestige, 2006, Warner Bros/Touchstone Pictures, 130min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, romance de Christopher Priest. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: David Julyan. Figurino: Joan Bergin. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Julie Ochipinti. Produção executiva: Chris J. Ball, Valerie Dean, Charles J.D. Schlissel, William Tyler. Produção: Christopher Nolan, Aaron Ryder, Emma Thomas. Elenco: Hugh Jackman, Christian Bale, Scarlett Johansson, Michael Caine, Piper Perabo, Rebecca Hall, David Bowie, Andy Serkis. Estreia: 17/10/06
2 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de Arte/Cenários
Somente um cineasta do porte e da inteligência de Christopher Nolan conseguiria fazer de seu "filme de descanso" entre dois blockbusters - e no caso a expressão blockbuster assume proporções gigantescas, por se falar dos dois primeiros capítulos de sua reivenção do Homem-morcego - um trabalho tão interessante, empolgante e caprichado como "O grande truque". Carregando para o projeto sua equipe de confiança - que incluiu o fotógrafo Wally Pfister, o editor Lee Smith e o Batman em pessoa, Christian Bale, o diretor construiu um thriller de suspense elegante que fala muito mais ao cérebro do que aos músculos, comprovando seu imenso talento em criar pequenas obras-primas.
Baseado em um romance do escritor Christopher Priest - que optou por Nolan em detrimento de Sam Mendes por ser fã de seus "Amnésia" e "Insônia" - e roteirizado pelo próprio diretor e seu irmão Jonathan, "O grande truque" é daqueles filmes que exigem do espectador atenção absoluta, uma vez que brinca de maneira sagaz com as aparências e com pistas deixadas por toda a projeção. Como bom filme sobre mágicos - e em sua temporada surgiu também o pouco visto mas também interessante "O ilusionista", com Edward Norton, que dividiu com ele uma indicação ao Oscar de fotografia - o trabalho de Nolan utiliza a complexidade de sua trama para prender o espectador na poltrona desde seu arrebatador início até seu surpreendente (e coerente) final.
"O grande truque" conta, em sua essência, a história da rivalidade entre dois mágicos na Londres do século XIX, que começa com uma tragédia: o famoso Robert Angier (Hugh Jackman) perde a esposa durante um número e culpa seu então melhor amigo e assistente Alfred Borden (Christian Bale) pelo ocorrido. Sentindo-se injustiçado e ofendido por quem tinha em alto apreço, Borden inicia uma carreira paralela, sempre desejando obter mais sucesso do que seu agora rival. A disputa entre eles passa a atingir níveis extremos de suspense, até que uma nova mulher (Scarlett Johansson) surge entre eles, tornando o jogo ainda mais perigoso.
Quanto menos se souber a respeito da trama de "O grande truque" melhor a diversão. Christopher Nolan não tem medo de lançar pistas falsas e dicas verdadeiras durante a narrativa, sempre desafiando a lógica e a perspicácia da audiência com reviravoltas em número o suficiente para conquistar a todos. Dotado de um ritmo específico, sem pressa mas nunca monótono, o filme se beneficia também da palpável atmosfera criada pela fotografia de Wally Pfister e pela impecável reconstituição de época. Hugh Jackman - entrando no seleto grupo do diretor, que ainda conta com o habitual Michael Caine e o cantor David Bowie em uma participação especial como o cientista Nikola Testa - está soberbo como o quase arrogante Robert Angier, em uma atuação que o livra do estigma de uma personagem só (e no caso o icônico Wolverine) e mostra suas capacidades dramáticas e Christian Bale prova que tem tudo para ser um dos grandes atores britânicos de sua geração.
Excitante, esperto e sóbrio, "O grande truque" é um filme que merece ser visto e revisto, para que todos os seus elementos sejam devidamente degustados e apreciados. Filmaço!
2 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de Arte/Cenários
Somente um cineasta do porte e da inteligência de Christopher Nolan conseguiria fazer de seu "filme de descanso" entre dois blockbusters - e no caso a expressão blockbuster assume proporções gigantescas, por se falar dos dois primeiros capítulos de sua reivenção do Homem-morcego - um trabalho tão interessante, empolgante e caprichado como "O grande truque". Carregando para o projeto sua equipe de confiança - que incluiu o fotógrafo Wally Pfister, o editor Lee Smith e o Batman em pessoa, Christian Bale, o diretor construiu um thriller de suspense elegante que fala muito mais ao cérebro do que aos músculos, comprovando seu imenso talento em criar pequenas obras-primas.
Baseado em um romance do escritor Christopher Priest - que optou por Nolan em detrimento de Sam Mendes por ser fã de seus "Amnésia" e "Insônia" - e roteirizado pelo próprio diretor e seu irmão Jonathan, "O grande truque" é daqueles filmes que exigem do espectador atenção absoluta, uma vez que brinca de maneira sagaz com as aparências e com pistas deixadas por toda a projeção. Como bom filme sobre mágicos - e em sua temporada surgiu também o pouco visto mas também interessante "O ilusionista", com Edward Norton, que dividiu com ele uma indicação ao Oscar de fotografia - o trabalho de Nolan utiliza a complexidade de sua trama para prender o espectador na poltrona desde seu arrebatador início até seu surpreendente (e coerente) final.
"O grande truque" conta, em sua essência, a história da rivalidade entre dois mágicos na Londres do século XIX, que começa com uma tragédia: o famoso Robert Angier (Hugh Jackman) perde a esposa durante um número e culpa seu então melhor amigo e assistente Alfred Borden (Christian Bale) pelo ocorrido. Sentindo-se injustiçado e ofendido por quem tinha em alto apreço, Borden inicia uma carreira paralela, sempre desejando obter mais sucesso do que seu agora rival. A disputa entre eles passa a atingir níveis extremos de suspense, até que uma nova mulher (Scarlett Johansson) surge entre eles, tornando o jogo ainda mais perigoso.
Quanto menos se souber a respeito da trama de "O grande truque" melhor a diversão. Christopher Nolan não tem medo de lançar pistas falsas e dicas verdadeiras durante a narrativa, sempre desafiando a lógica e a perspicácia da audiência com reviravoltas em número o suficiente para conquistar a todos. Dotado de um ritmo específico, sem pressa mas nunca monótono, o filme se beneficia também da palpável atmosfera criada pela fotografia de Wally Pfister e pela impecável reconstituição de época. Hugh Jackman - entrando no seleto grupo do diretor, que ainda conta com o habitual Michael Caine e o cantor David Bowie em uma participação especial como o cientista Nikola Testa - está soberbo como o quase arrogante Robert Angier, em uma atuação que o livra do estigma de uma personagem só (e no caso o icônico Wolverine) e mostra suas capacidades dramáticas e Christian Bale prova que tem tudo para ser um dos grandes atores britânicos de sua geração.
Excitante, esperto e sóbrio, "O grande truque" é um filme que merece ser visto e revisto, para que todos os seus elementos sejam devidamente degustados e apreciados. Filmaço!
domingo
SCOOP, O GRANDE FURO
Sempre que Woody Allen lança um filme as expectativas são as maiores. Afinal de contas, o cineasta nova-iorquino é um dos poucos diretores em atividade no cinema americano que consegue - mesmo mantendo a impressionante média de um filme por ano - manter uma coerência de estilo. Logicamente nem toda a sua obra mantém o mesmo nível de obras-primas como "Manhattan", "A rosa púpura do Cairo" ou mesmo o mais recente, "Match point, ponto final", mas é inegável que mesmo seus filmes menos inspirados são muito superiores às comédias medíocres que chegam às telas semanalmente. Um exemplo disso é "Scoop, o grande furo", que não agradou à maioria da crítica mas consegue fazer rir sem maiores dificuldades.
Talvez a maior qualidade de "Scoop" seja contar com Hugh Jackman, o Wolverine em pessoa, exercitando seu timing cômico. Ele vive o charmoso, educado e milionário inglês Peter Lyman, que passa a ser o principal suspeito de ser o temido Assassino do Tarô, que anda aterrorizando Londres. Sem saber que está sendo investigado pela jovem jornalista Sondra Pransky (Scarlett Johansson), ele se apaixona por ela, que se aproxima dele junto de Sidney Waterman (Woody Allen), mágico que se faz passar por seu pai. O que a repórter - também encantada pelo belo herdeiro - não pode lhe contar também é como chegou a seu nome: o furo de reportagem lhe foi passado por Joe Strombel (Ian McShane), jornalista veterano que, já morto, dá a dica depois de um truque de mágica de Sidney.
Mais uma vez utilizando uma trama de suspense como centro da narrativa - como fez em "Match point" e "Misterioso assassinato em Manhattan" - Allen dessa vez não se furta a brindar a plateia com diálogos engraçadíssimos e uma química perfeita com Scarlett Johansson. Mesmo que as surpresas da história não sejam exatamente brilhantes, nota-se perfeitamente seu objetivo de utilizá-los apenas como pano de fundo para explorar as possibilidades de criar um roteiro que se ampara basicamente em suas personagens principais - nem ao menos há coadjuvantes interessantes como é comum na obra do diretor, o que centra tudo principalmente em Johansson e Jackman. Se a atriz não faz muito mais do que tentar mostrar que não é apenas um símbolo sexual, é Jackman quem rouba a cena, mostrando que, mais do que um herói de ação, tem também talento suficiente para brilhar em gêneros diferentes.
Mesmo que não seja o melhor Woody Allen, "Scoop, o grande furo" diverte e entretém com inteligência, bom-humor e sutileza. Para os fãs do diretor, isso é mais do que o bastante.
segunda-feira
X-MEN 3
Depois de dois capítulos empolgantes, que agradaram aos fãs dos quadrinhos, aos neófitos e à crítica especializada, os mutantes da Marvel chegaram à sua terceira parte cercados de expectativas. Sem seu diretor Bryan Singer - que foi comandar as aventuras do homem de aço em "Superman, o retorno" - o final da trilogia não teve a mesma repercussão positiva. Apesar dos mais de 230 milhões de dólares de arrecadação doméstica - que mal cobriu os custos de 210 milhões - o filme foi criticado principalmente por não ter mantido o equilíbrio dos seus predecessores entre ação e profundidade psicológica, além de ter um excesso de personagens secundários. Baixada a poeria da polêmica, porém, a justiça precisa ser feita. "X-Men 3" pode não ser o entretenimento perfeito do segundo episódio, mas está muito longe de ser ruim. É um final bastante digno para a série que, do nada, transformou-se no pioneiro das boas adaptações de quadrinhos para o cinema.
Sem deixar de lado a ação que virou característica da série - com cenas de extrema competência - esse terceiro capítulo tem um ponto de partida bastante interessante, com a descoberta de uma vacina que pode curar o gene da mutação. Essa vacina acaba dividindo as opiniões: enquanto centenas de mutantes fazem fila para finalmente terem uma vida normal, outros - liderados por Magneto (Ian McKellen) - consideram o fato uma atitude criminosa e preconceituosa. Essa divisão acirra de vez a guerra entre os mutantes que o seguem e acreditam numa revolução à base da violência e aqueles que acreditam em um método mais pacífico, como manda o professor Xavier (Patrick Stewart). Para piorar ainda mais a situação, Jean Grey (Famke Janssen) ressurge da morte com o codinome Fênix, transformada com sua experiência e disposta a unir-se a Magneto.
Mesmo os detratores de "X-Men 3" são obrigados a concordar que o argumento do filme é sensacional, mais uma vez conectando a mutação com inúmeras minorias (o grande acerto de toda a ideia da série). É impressionante, por exemplo, a cena inicial que apresenta o Anjo ainda criança e desesperado com sua condição "anormal" - e a atuação do ótimo Ben Foster como a personagem na idade adulta reitera a boa primeira impressão. É muito interessante também perceber como o público consegue compreender perfeitamente as dúvidas de Rogue (Anna Paquin), tentada a submeter-se à vacina para não perder o amor de Bobby (Shawn Hashmore) e tornar-se finalmente uma pessoa normal. Essa capacidade do roteiro de ligar a trama às suas personagens mais conhecidas é louvável, mesmo que a profusão de novos mutantes acabe tirando tempo de cena daqueles que se tornaram velhos conhecidos. A sequência final, apesar de muito bem realizada, não é tão potente quanto a do segundo filme, justamente porque apresenta tanta gente que fica difícil prestar atenção em todo mundo. E é também preciso aplaudir a coragem do roteiro em promover a verdadeira carnificina, que elimina da história algumas personagens cruciais - o que encerrou de vez a franquia, ao menos no formato que já estava consagrado.
"X-Men 3" pode não ser o melhor filme da trilogia - e talvez seja mesmo o mais fraco dos três. Mas é infinitamente superior, por exemplo, ao terceiro capítulo de "Homem-aranha", que afundou a personagem-título em uma trama infantilóide e inverossímil até mesmo para uma história de super-herói. E não tem como não gostar de um filme que junte Wolverine, Magneto, Xavier e Mística.
quinta-feira
X-MEN 2
X-MEN 2 (X2, 2003, 20th Century Fox, 133min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Michael Dougherty, Dan Harris, David Hayter, estória de Zak Penn, David Hayter, Bryan Singer. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem e Música: John Ottman. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Elizabeth Wilcox. Produção executiva: Avi Arad, Tom DeSanto, Stan Lee, Bryan Singer. Produção: Lauren Shuler Donner, Ralph Winter. Elenco: Patrick Stewart, Ian McKellen, Hugh Jackman, Hale Berry, Famke Janssen, James Marsden, Brian Cox, Rebecca Romjin-Stamos, Anna Paquin, Ellen Page, Alan Cumming, Aaron Stanford, Shawn Ashmore. Estreia: 28/4/03
Nada como um sucesso arrebatador de crítica e público pra dar confiança a um diretor ainda hesitante. Quando dirigiu o primeiro “X-Men” Bryan Singer ainda titubeava em sua busca de agradar aos fãs – fanáticos seria uma palavra mais adequada – dos quadrinhos e atingir a uma plateia maior, cujo acesso às histórias publicadas em revistas é mais restrito. O resultado foi elogiado por gregos e troianos, rendeu milhares de dólares e deu ao cineasta – cujo talento já havia sido reconhecido massivamente com “Os suspeitos” – a confiança necessária para que, na continuação inevitável ele realmente fizesse o filme que sonhava. Da maneira que está, “X-Men 2” não é apenas o filme que ELE sonhava e sim o filme que todos os fãs esperavam ansiosamente.
Sem a necessidade de apresentar seus personagens, já conhecidos e aprovados em seus respectivos intérpretes, a trama já começa a todo vapor. A invasão da Casa Branca por um novo mutante – vivido por Alan Cumming – empurra a narrativa em várias direções, todas absolutamente bem dosadas e equilibradas pelo roteiro extraordinário. Graças a este roteiro, várias histórias paralelas começam e terminam – algumas de maneira bastante instigantes – sem que nunca nenhuma delas perca o interesse do público. Sendo assim, vemos desde o início da transformação de Jean Grey (Famke Jansen) em Fênix até a união efêmera mas crucial entre os mutantes do mal, liderados por Magneto (o esplêndido Ian McKellen) com a turma pacífica do Professor Xavier (Patrick Stewart) para impedir que as ideias malévolas do cientista William Striker (Brian Cox) os destruam. Striker, aliás, é uma das personagens mais importantes do novo longa, uma vez que tem ligação com a origem de Wolverine (Hugh Jackman, ainda roubando a cena), que finalmente tem a oportunidade de mostrar toda a sua raiva contida em cenas de mais absoluta adrenalina.
Adrenalina, aliás, é o que não falta em “X-Men 2”. Repleto de cenas espetaculares de ação – incluindo uma luta entre Wolverine e a bela e fatal Lady Letal e um clímax extremamente mais potente do que o mostrado no primeiro filme –, a obra de Singer não decepciona nem aos mais afoitos fãs do material original. E se não bastasse corrigir tudo que não era perfeito no primeiro capítulo – efeitos mais elaborados, uma duração maior, mais cenas de ação – o roteiro da segunda parte ainda se dá ao luxo de criar cenas de relevância muito maior do que poderia se esperar, dando ressonância àquele que é provavelmente o subtema mais importante de toda a série: a tolerância às diferenças, tão perfeitamente representadas pelos mutantes e de forma tão divertida.
Mostrando-se uma gloriosa exceção à regra, “X-Men 2” consegue ser ainda melhor que sua primeira parte e escancarou as portas para uma nova continuação. Um filme de ação absolutamente perfeito!
Nada como um sucesso arrebatador de crítica e público pra dar confiança a um diretor ainda hesitante. Quando dirigiu o primeiro “X-Men” Bryan Singer ainda titubeava em sua busca de agradar aos fãs – fanáticos seria uma palavra mais adequada – dos quadrinhos e atingir a uma plateia maior, cujo acesso às histórias publicadas em revistas é mais restrito. O resultado foi elogiado por gregos e troianos, rendeu milhares de dólares e deu ao cineasta – cujo talento já havia sido reconhecido massivamente com “Os suspeitos” – a confiança necessária para que, na continuação inevitável ele realmente fizesse o filme que sonhava. Da maneira que está, “X-Men 2” não é apenas o filme que ELE sonhava e sim o filme que todos os fãs esperavam ansiosamente.
Sem a necessidade de apresentar seus personagens, já conhecidos e aprovados em seus respectivos intérpretes, a trama já começa a todo vapor. A invasão da Casa Branca por um novo mutante – vivido por Alan Cumming – empurra a narrativa em várias direções, todas absolutamente bem dosadas e equilibradas pelo roteiro extraordinário. Graças a este roteiro, várias histórias paralelas começam e terminam – algumas de maneira bastante instigantes – sem que nunca nenhuma delas perca o interesse do público. Sendo assim, vemos desde o início da transformação de Jean Grey (Famke Jansen) em Fênix até a união efêmera mas crucial entre os mutantes do mal, liderados por Magneto (o esplêndido Ian McKellen) com a turma pacífica do Professor Xavier (Patrick Stewart) para impedir que as ideias malévolas do cientista William Striker (Brian Cox) os destruam. Striker, aliás, é uma das personagens mais importantes do novo longa, uma vez que tem ligação com a origem de Wolverine (Hugh Jackman, ainda roubando a cena), que finalmente tem a oportunidade de mostrar toda a sua raiva contida em cenas de mais absoluta adrenalina.
Adrenalina, aliás, é o que não falta em “X-Men 2”. Repleto de cenas espetaculares de ação – incluindo uma luta entre Wolverine e a bela e fatal Lady Letal e um clímax extremamente mais potente do que o mostrado no primeiro filme –, a obra de Singer não decepciona nem aos mais afoitos fãs do material original. E se não bastasse corrigir tudo que não era perfeito no primeiro capítulo – efeitos mais elaborados, uma duração maior, mais cenas de ação – o roteiro da segunda parte ainda se dá ao luxo de criar cenas de relevância muito maior do que poderia se esperar, dando ressonância àquele que é provavelmente o subtema mais importante de toda a série: a tolerância às diferenças, tão perfeitamente representadas pelos mutantes e de forma tão divertida.
Mostrando-se uma gloriosa exceção à regra, “X-Men 2” consegue ser ainda melhor que sua primeira parte e escancarou as portas para uma nova continuação. Um filme de ação absolutamente perfeito!
terça-feira
KATE & LEOPOLD
KATE & LEOPOLD (Kate & Leopold, 2001, Miramax Films, 118min) Direção: James Mangold. Roteiro: James Mangold, Steven Rogers, história de Steven Rogers. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: David Brenner. Música: Rolfe Kent. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Kerry Orent, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad. Elenco: Meg Ryan, Hugh Jackman, Liev Schreiber, Breckin Meyer, Natasha Lyonne, Bradley Whitford, Philip Bosco. Estreia: 25/12/01
Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Until")
Filme ideal para aquelas mulheres que reclamam da falta de romantismo e galanteria dos homens contemporâneos, a comédia romântica "Kate & Leopold", protagonizada pela estrela máxima do gênero, Meg Ryan, é uma aula de como conquistar um público ávido por histórias de amor com finais felizes. Em pouco menos de duas horas de duração, o filme de James Mangold usa e abusa de clichês, mas o faz com tanto carinho, bom humor e leveza que é difícil deixar de gostar.
O cientista Stuart (vivido com graça pelo prestigiado Liev Schreiber) descobre um rasgo no tempo que o permite visitar a Nova York de 1876. Na apressada volta para 2001 ele acaba, por acidente, ganhando a companhia de Leopold (Hugh Jackman, perfeito), um duque falido que está sendo pressionado por seu tio a fazer um bom casamento. Em choque com as diferenças culturais e sociais de duas épocas completamente distintas, o gentil e cavalheiro Leopold acaba conquistado pela ex-namorada de Stuart, a executiva Kate McKay (Meg Ryan), que, desiludida com a espécie masculina em geral, demora a perceber que também está apaixonada pelo galante duque, que, de quebra, ajuda o irmão da moça, o aspirante a ator Charlie (Breckin Meyer) a mudar suas atitudes para seduzir uma colega.

O roteiro do diretor Mangold - exercitando um estilo diferente do dramalhão que apresentou em "Garota, interrompida" - escrito em parceria com Steven Rogers não tenta explicar como funciona as viagens no tempo que são cruciais para o início da trama, deixando que a bela e delicada história de amor entre os protagonistas comande o espetáculo. Ao optar por centrar seus esforços na dupla de atores, o cineasta marca um gol de placa. Enquanto Ryan continua utilizando seu arsenal de caras e bocas que a fizeram a preferida entre o público cativo das comédias românticas, é o astro Hugh Jackman quem rouba todas as cenas. Distante anos-luz de seu personagem mais conhecido, o furioso Wolverine de "X-Men", o ator australiano demonstra um timing cômico perfeito, além de ter o tipo físico ideal para encarnar o sedutor Leopold. Juntos, ele e Meg formam um casal adorável, o que torna a experiência de assistir a "Kate & Leopold" deliciosa.
E dá pra não simpatizar com um filme que homenageia, ainda que de leve, o clássico "Bonequinha de luxo"?
PS - Reparem na ponta da atriz Viola Davis (indicada ao Oscar de coadjuvante por "Dúvida") como a policial que aborda Leopold em seu primeiro passeio pelas ruas da Nova York de 2001.
Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Until")
Filme ideal para aquelas mulheres que reclamam da falta de romantismo e galanteria dos homens contemporâneos, a comédia romântica "Kate & Leopold", protagonizada pela estrela máxima do gênero, Meg Ryan, é uma aula de como conquistar um público ávido por histórias de amor com finais felizes. Em pouco menos de duas horas de duração, o filme de James Mangold usa e abusa de clichês, mas o faz com tanto carinho, bom humor e leveza que é difícil deixar de gostar.
O cientista Stuart (vivido com graça pelo prestigiado Liev Schreiber) descobre um rasgo no tempo que o permite visitar a Nova York de 1876. Na apressada volta para 2001 ele acaba, por acidente, ganhando a companhia de Leopold (Hugh Jackman, perfeito), um duque falido que está sendo pressionado por seu tio a fazer um bom casamento. Em choque com as diferenças culturais e sociais de duas épocas completamente distintas, o gentil e cavalheiro Leopold acaba conquistado pela ex-namorada de Stuart, a executiva Kate McKay (Meg Ryan), que, desiludida com a espécie masculina em geral, demora a perceber que também está apaixonada pelo galante duque, que, de quebra, ajuda o irmão da moça, o aspirante a ator Charlie (Breckin Meyer) a mudar suas atitudes para seduzir uma colega.

O roteiro do diretor Mangold - exercitando um estilo diferente do dramalhão que apresentou em "Garota, interrompida" - escrito em parceria com Steven Rogers não tenta explicar como funciona as viagens no tempo que são cruciais para o início da trama, deixando que a bela e delicada história de amor entre os protagonistas comande o espetáculo. Ao optar por centrar seus esforços na dupla de atores, o cineasta marca um gol de placa. Enquanto Ryan continua utilizando seu arsenal de caras e bocas que a fizeram a preferida entre o público cativo das comédias românticas, é o astro Hugh Jackman quem rouba todas as cenas. Distante anos-luz de seu personagem mais conhecido, o furioso Wolverine de "X-Men", o ator australiano demonstra um timing cômico perfeito, além de ter o tipo físico ideal para encarnar o sedutor Leopold. Juntos, ele e Meg formam um casal adorável, o que torna a experiência de assistir a "Kate & Leopold" deliciosa.
E dá pra não simpatizar com um filme que homenageia, ainda que de leve, o clássico "Bonequinha de luxo"?
PS - Reparem na ponta da atriz Viola Davis (indicada ao Oscar de coadjuvante por "Dúvida") como a policial que aborda Leopold em seu primeiro passeio pelas ruas da Nova York de 2001.
X-MEN, O FILME
X-MEN (X-Men, 2000, 20th Century Fox/Marvel Enterprises/Donner's Company, 104min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: David Hayter, estória de Tom DeSanto, Bryan Singer. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Steven Rosenblum, Kevin Stitt, John Wright. Música: Michael Kamen. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: John Myhre/James Edward Ferrell. Produção executiva: Avi Arad, Tom DeSanto, Richard Donner, Stan Lee. Produção: Lauren Shuler Donner, Ralph Winter. Elenco: Patrick Stewart, Ian McKellen, Hugh Jackman, Halle Berry, Anna Paquin, James Mardsen, Famke Janssen, Rebecca Romijn-Stamos, Bruce Davison. Estreia: 14/7/00
Até o dia 14 de julho de 2000, o destino dos filmes baseados em histórias em quadrinhos era sempre uma incógnita. Para cada “Superman” de Richard Donner ou “Batman” de Tim Burton surgiam aberrações como os filmes do homem-morcego dirigidos por Joel Schumacher – que humilhavam seu herói impiedosamente com roteiros deploráves e produções vexaminosas. Foi somente quando um grupo de mutantes chegou às telas de cinema sob o comando de um diretor improvável e um elenco desprovido de astros de primeira grandeza que a porta para o sucesso constante do universo dos famigerados comic books foi finalmente aberta (ou seria melhor até dizer, escancarada). “X-Men, o Filme” foi a prova que todo mundo precisava de que, adaptados em um roteiro inteligente e dirigidos por gente criativa e talentosa, os quadrinhos poderiam – e até mesmo deveriam, dada a sua importância dentro do universo pop – ser uma matéria-prima quase infinita para a sétima arte.
Relativamente fiel a suas origens, “X-Men” é um êxito absoluto, principalmente se for levado em conta que seu diretor não era exatamente um fã nem da série nem tampouco do gênero. Revelado por obras fortes e dotadas de grande poder dramático – “Os suspeitos” e “O aprendiz” – Bryan Singer assumiu as rédeas do filme depois que nomes conhecidos dos fãs de ação - como John McTiernan, James Cameron, Richard Donner e Joel Schumacher – foram sendo sistematicamente deixados de lado (até mesmo Danny Boyle, Robert Rodriguez e Tim Burton estiveram na lista de possíveis diretores). Ao sentar na cadeira de diretor, porém, o jovem Singer (na época com apenas 34 anos) não se fez de rogado e criou o filme que todos os fãs dos mutantes esperavam (pelo menos até o segundo capítulo, também dirigido por ele e lançado três anos depois, que expandiu ainda mais as qualidades da história). Levando a trama extremamente a sério, Singer não dirigiu apenas um entretenimento escapista de verão: ele criou um clássico pop que, além de divertir o suficiente, apresenta uma metáfora bastante pertinente a respeito de preconceito e tolerância.
Quando o filme começa, o público fica sabendo que há muitos anos milhares de mutantes transitam pela Terra, convivendo de forma pacífica e discreta com seres humanos convencionais, ainda que muitos escondam seus dons para que possam viver normalmente. O sensato Professor Xavier (Patrick Stewart) comanda uma escola para jovens mutantes (disfarçada como escola para superdotados), onde eles podem aprender a controlar seus poderes e utilizá-los de forma apropriada. Porém, um senador da República (Bruce Davison) dá início a uma campanha nacional que pede a todos os mutantes que se identifiquem. Com medo da discriminação que tal lei poderia causar, Magneto (Ian McKellen), um mutante com poder de manipular metais com o poder da mente, pretende começar uma guerra contra os humanos. Sobrevivente de um campo de concentração na II Guerra, Magneto conhece as conseqüências de ser “diferente” e entra em conflito direto com Xavier, que acredita que a tolerância e o diálogo são os melhores meios para lidar com a situação. Para impedir Magneto de principiar sua sangrenta e violenta guerra, Xavier conta com o auxílio do misterioso Wolverine (Hugh Jackman) – um homem cujas garras de adamantium são apenas uma parte de seu misterioso passado – a belas Tempestade (Hale Berry) e Jean Grey (Famke Janssen), o jovem Ciclope (James Mardsen) e a adolescente Vampira (Anna Paquin) – que une-se ao grupo como forma de auto-aceitação.

Além do roteiro enxuto que apresenta de forma quase didática seus personagens e situações – além de deixar um bela porta aberta para sua brilhante continuação – “X-Men” ainda por cima com um elenco excepcional. Sir Ian McKellen mais uma vez rouba a cena como o vilão Magneto, cuja maldade é compreensível em grande parte pelo talento do ator. As oscarizadas Anna Paquin e Hale Berry (que levaria a estatueta pouco depois de sua atuação como Tempestade) dão estofo artístico ao projeto e Patrick Stewart (fã dos quadrinhos) é a escolha ideal para Xavier. Mas é o então desconhecido Hugh Jackman que mais chama a atenção da plateia, com sua perfeita criação de Wolverine, uma personagem que parece ter sido criada para ele (e no entanto seria de Dougray Scott, que perdeu o papel por estar preso nas atrasadas filmagens de “Missão: Impossível 2”. Mesmo que não parecesse a escolha ideal para os fãs dos quadrinhos (o Wolverine original é baixinho e Jackman tem quase 1,90m), o ator australiano não deixou pedra sobre pedra com seu trabalho impecável – que garantiu inclusive um filme solo para seu personagem, o fraquinho “Wolverine: Origens”, de 2009.
Com efeitos visuais discretos mas eficientes, humor nas horas certas (e em quantidade limitada) e um roteiro esperto mas nunca bobo ou querendo ser alternativo e/ou artístico, “X-Men” conquistou seu público como uma das melhores traduções do universo dos quadrinhos para a tela do cinema, alterando definitivamente – para o bem e para o mal – o panorama do entretenimento no século XXI.
Até o dia 14 de julho de 2000, o destino dos filmes baseados em histórias em quadrinhos era sempre uma incógnita. Para cada “Superman” de Richard Donner ou “Batman” de Tim Burton surgiam aberrações como os filmes do homem-morcego dirigidos por Joel Schumacher – que humilhavam seu herói impiedosamente com roteiros deploráves e produções vexaminosas. Foi somente quando um grupo de mutantes chegou às telas de cinema sob o comando de um diretor improvável e um elenco desprovido de astros de primeira grandeza que a porta para o sucesso constante do universo dos famigerados comic books foi finalmente aberta (ou seria melhor até dizer, escancarada). “X-Men, o Filme” foi a prova que todo mundo precisava de que, adaptados em um roteiro inteligente e dirigidos por gente criativa e talentosa, os quadrinhos poderiam – e até mesmo deveriam, dada a sua importância dentro do universo pop – ser uma matéria-prima quase infinita para a sétima arte.
Relativamente fiel a suas origens, “X-Men” é um êxito absoluto, principalmente se for levado em conta que seu diretor não era exatamente um fã nem da série nem tampouco do gênero. Revelado por obras fortes e dotadas de grande poder dramático – “Os suspeitos” e “O aprendiz” – Bryan Singer assumiu as rédeas do filme depois que nomes conhecidos dos fãs de ação - como John McTiernan, James Cameron, Richard Donner e Joel Schumacher – foram sendo sistematicamente deixados de lado (até mesmo Danny Boyle, Robert Rodriguez e Tim Burton estiveram na lista de possíveis diretores). Ao sentar na cadeira de diretor, porém, o jovem Singer (na época com apenas 34 anos) não se fez de rogado e criou o filme que todos os fãs dos mutantes esperavam (pelo menos até o segundo capítulo, também dirigido por ele e lançado três anos depois, que expandiu ainda mais as qualidades da história). Levando a trama extremamente a sério, Singer não dirigiu apenas um entretenimento escapista de verão: ele criou um clássico pop que, além de divertir o suficiente, apresenta uma metáfora bastante pertinente a respeito de preconceito e tolerância.
Quando o filme começa, o público fica sabendo que há muitos anos milhares de mutantes transitam pela Terra, convivendo de forma pacífica e discreta com seres humanos convencionais, ainda que muitos escondam seus dons para que possam viver normalmente. O sensato Professor Xavier (Patrick Stewart) comanda uma escola para jovens mutantes (disfarçada como escola para superdotados), onde eles podem aprender a controlar seus poderes e utilizá-los de forma apropriada. Porém, um senador da República (Bruce Davison) dá início a uma campanha nacional que pede a todos os mutantes que se identifiquem. Com medo da discriminação que tal lei poderia causar, Magneto (Ian McKellen), um mutante com poder de manipular metais com o poder da mente, pretende começar uma guerra contra os humanos. Sobrevivente de um campo de concentração na II Guerra, Magneto conhece as conseqüências de ser “diferente” e entra em conflito direto com Xavier, que acredita que a tolerância e o diálogo são os melhores meios para lidar com a situação. Para impedir Magneto de principiar sua sangrenta e violenta guerra, Xavier conta com o auxílio do misterioso Wolverine (Hugh Jackman) – um homem cujas garras de adamantium são apenas uma parte de seu misterioso passado – a belas Tempestade (Hale Berry) e Jean Grey (Famke Janssen), o jovem Ciclope (James Mardsen) e a adolescente Vampira (Anna Paquin) – que une-se ao grupo como forma de auto-aceitação.
Além do roteiro enxuto que apresenta de forma quase didática seus personagens e situações – além de deixar um bela porta aberta para sua brilhante continuação – “X-Men” ainda por cima com um elenco excepcional. Sir Ian McKellen mais uma vez rouba a cena como o vilão Magneto, cuja maldade é compreensível em grande parte pelo talento do ator. As oscarizadas Anna Paquin e Hale Berry (que levaria a estatueta pouco depois de sua atuação como Tempestade) dão estofo artístico ao projeto e Patrick Stewart (fã dos quadrinhos) é a escolha ideal para Xavier. Mas é o então desconhecido Hugh Jackman que mais chama a atenção da plateia, com sua perfeita criação de Wolverine, uma personagem que parece ter sido criada para ele (e no entanto seria de Dougray Scott, que perdeu o papel por estar preso nas atrasadas filmagens de “Missão: Impossível 2”. Mesmo que não parecesse a escolha ideal para os fãs dos quadrinhos (o Wolverine original é baixinho e Jackman tem quase 1,90m), o ator australiano não deixou pedra sobre pedra com seu trabalho impecável – que garantiu inclusive um filme solo para seu personagem, o fraquinho “Wolverine: Origens”, de 2009.
Com efeitos visuais discretos mas eficientes, humor nas horas certas (e em quantidade limitada) e um roteiro esperto mas nunca bobo ou querendo ser alternativo e/ou artístico, “X-Men” conquistou seu público como uma das melhores traduções do universo dos quadrinhos para a tela do cinema, alterando definitivamente – para o bem e para o mal – o panorama do entretenimento no século XXI.
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