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quarta-feira

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (Wuthering heights, 1939, The Samuel Goldwyn Company, 104min) Direção: William Wyler. Roteiro: Charles MacArthur, Ben Hecht, romance de Emily Bronte. Fotografia: Gregg Toland. Montagem: Daniel Mandell. Música: Alfred Newman. Direção de arte/cenários: James Basevi/Julia Heron. Produção: Samuel Goldwyn. Elenco: Laurence Olivier, Merle Oberon, David Niven, Flora Robson, Donald Crisp, Geraldine Fitzgerald, Hugh Williams. Estreia: 24/3/39

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Ator (Laurence Olivier), Atriz Coadjuvante (Geraldine Fitzgerald), Roteiro Adaptado, Fotografia em preto-e-branco, Trilha Sonora Original, Direção de Arte
Vencedor do Oscar de Fotografia em preto-e-branco

Quando foi lançado, em 1847, o romance "O morro dos ventos uivantes", escrito por Emily Bronte, não foi exatamente saudado pela crítica. Isso não o impediu, no entanto, de atravessar os séculos como uma das mais importantes obras da literatura inglesa e de ter arrebatado milhares de fãs pelo mundo (no Brasil a primeira tradução chegou às livrarias somente em 1938, quando já era cultuado como um clássico). O cinema, é claro, não deixou de perceber todas as possibilidades da trágica história de amor entre Catherine Earnshaw e Heathcliff e logo tratou de adaptá-la para as telas, mesmo que de forma tímida: a primeira versão cinematográfica do livro de Bronte foi realizada em 1920, na Inglaterra, sob a direção de A. V. Bramble e ainda durante a fase do cinema mudo. Desde então, várias foram as tentativas de alcançar em imagens o tom opressivo, romântico e paranoico da trama da escritora britânica, com resultados díspares e poucas vezes memoráveis. Até hoje, é inegável que o mais perto que se chegou de um resultado fiel é um filme que, apesar do sucesso da obra original, dos elogios da crítica e dos prêmios conquistados, não foi um êxito comercial logo em sua estreia. A versão de 1939 de "O morro dos ventos uivantes" pode ser considerada um clássico inquestionável - mas foram necessários vários relançamentos nos anos seguintes para que ela finalmente pudesse escapar do indesejável adjetivo de "fracasso".

Mesmo indicado a 8 Oscars - incluindo melhor filme e direção -, "O morro dos ventos uivantes" não cativou a plateia tanto quanto seu produtor, Samuel Goldwyn, esperava. Além de ter sido lançado em um ano cujos competidores pela atenção do público eram nada menos que obras como "...E o vento levou", "O mágico de Oz", "No tempo das diligências", "Ninotchka" e "A mulher faz o homem" - todos eles clássicos instantâneos -, o filme dirigido por William Wyler sofreu com sérios problemas de bastidores, que incluíram até mesmo desentendimentos entre o diretor e o produtor. Wyler, que ainda não estava consagrado pela chuva de Oscar por seu "Ben-hur" - lançado apenas em 1960 -, teve de submeter-se a várias decisões artísticas com as quais não concordava apenas porque Goldwyn, já poderoso em Hollywood, tinha o poder de alterar tudo com o que não concordasse ou impor suas ideias (o que inclui a sequência final, totalmente imaginada pelo produtor). Não à toa, Goldwyn declarou que o filme - segundo ele, o seu preferido dentre todos os que ele realizou - foi dirigido por Wyler, mas na verdade era uma obra sua. A declaração não deixa de ser irônica, uma vez que, durante as filmagens, ele mesmo tinha sérias dúvidas a respeito do que poderia resultar do embate entre ele, Wyler e seus protagonistas - todos com uma saudável cota de problemas e crises pessoais e profissionais.


Laurence Olivier, por exemplo, não estava nada feliz com o fato de ter de ficar afastado de sua noiva, a atriz Vivien Leigh, que ficou na Inglaterra enquanto ele filmava na Califórnia - e tampouco estava satisfeito por Leigh não ter sido a escolhida para o principal papel feminino. Em consequência disso, o grande ator inglês bateu de frente com sua parceira de cena, Merle Oberon, e os dois viviam em constante conflito nos sets. Oberon - também carente da presença do namorado, o produtor Alexander Korda - reclamava não apenas do colega mas também dos métodos do diretor, que a obrigou, por exemplo, a repetir inúmeras vezes a cena em que sua personagem, Cathy, corria atrás de Heathcliff sob uma chuva torrencial: a atriz acabou no hospital e atrasou (e encareceu) ainda mais a produção que já estava acima do orçamento e além do prazo. Não bastasse isso, David Niven também não estava feliz com seu papel (de coadjuvante) e com a necessidade de fazer cenas românticas com Oberon - com quem havia tido um romance até poucos anos antes -, além de surpreender Wyler com uma cláusula peculiar em seu contrato, que avisava que ele não choraria em cena (!!??).  Some-se a isso a tendência de Olivier em fazer de cada cena um espetáculo de Shakespeare (até que finalmente aprendeu a dominar seus excessos) e tinha-se tudo para um fracasso monumental. Mas, como muitas vezes acontece em Hollywood, bastidores problemáticos podem gerar obras inesquecíveis.

Cobrindo pouco menos da metade da história contada no livro - e deixando de fora a segunda geração de personagens e dezoito capítulos -, o filme de William Wyler se beneficia do tom poético do roteiro (que um jovem John Huston se recusou a alterar quando solicitado, afirmando estar perfeito) e da esplêndida fotografia de Gregg Toland, premiada com o Oscar. Toland, que em pouco tempo seria consagrado pelo trabalho com Orson Welles em "Cidadão Kane" (1931), cria a atmosfera ideal para ilustrar a trágica e passional história de amor entre Catherine e Heathcliff, surgida ainda na infância e que se mantém, apesar do temperamento difícil de ambos - ela, uma moça mimada e voluntariosa e ele, um rapaz de origem misteriosa, adotado por seu pai e renegado por seu irmão. Com elementos melodramáticos que incluem vingança, mortes trágicas, reconciliações e sobretudo uma paixão avassaladora, "O morro dos ventos uivantes" apresenta uma história poderosa contada com delicadeza e inteligência: Wyler evita o exagero e extrai interpretações memoráveis de Laurence Olivier e Merle Oberon, ela indicada ao Oscar de melhor atriz (que perdeu, ironicamente, para quem desejava seu papel, Vivien Leigh). O visual impresso por Toland, com tempestades, ventos e névoa, combina com perfeição com os sentimentos torturados dos personagens - e, apesar da opção por contar apenas metade da história, a produção de Samuel Goldwyn é justificadamente um clássico, digno de figurar entre os grandes filmes de sua época.

segunda-feira

MENINOS DO BRASIL

MENINOS DO BRASIL (The boys from Brazil, 1978, Paramount Pictures, 125min) Direção: Franklin J. Schaffner. Roteiro: Heywood Gould, romance de Ira Levin. Fotografa: Henri Decae. Montagem: Robert E. Swink. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Anthony Mendleson. Direção de arte/cenários: Gil Parrondo/Vernon Dixon. Produção executiva: Robert Fryer. Produção: Stanley O'Toole, Martin Richards. Elenco: Gregory Peck, Laurence Olivier, James Mason, Lilli Palmer, Rosemary Harris, Steve Guttenberg, Bruno Ganz, Uta Hagen, Denholm Elliott. Estreia: 04/10/78

3 indicações ao Oscar: Ator (Laurence Olivier), Montagem, Trilha Sonora Original

Hoje em dia, com o cinema de posse de um dos temas mais fascinantes da ciência - e que algumas décadas atrás soava apenas como uma delirante trama de ficção científica - a clonagem humana já não tem o mesmo impacto junto às plateias que se acostumaram a efeitos visuais acachapantes e uma realidade ainda mais assustadora. Nos anos 70, porém, a ideia de criar um ser humano idêntico a outro através de experiências genéticas era um assunto novo e praticamente inexplorado pela sétima arte. Lançado em 1976, o romance "Meninos do Brasil", do escritor Ira Levin - autor também de "O bebê de Rosemary", que Roman Polanski levou às telas em 1968 - não apenas lançava mão de tal artifício quase inédito, mas o ligava a outro argumento igualmente atraente ao público de cinema: os crimes de guerra cometidos pelo nazismo durante e após a II Guerra Mundial. Usando como protagonista o temível e infame Josef Mengele - conhecido também como "Anjo da Morte" - a trama de seu livro logo interessou à Hollywood, que em cerca de um ano estreava sua adaptação com uma equipe de tirar o chapéu.

Na direção, Franklin J. Schaffner, já premiado com um Oscar pelo comando de "Patton - rebelde ou herói?" (70). Na trilha sonora, o também já oscarizado - por "A profecia" (76) - Jerry Goldsmith. No elenco, Gregory Peck e Laurence Olivier - homenageados pela Academia por "A luz é para todos" (47) e "Hamlet" (48), respectivamente. E como coadjuvantes, o sempre preciso James Mason (indicado três vezes ao Oscar) e os futuramente respeitados Denholm Elliot e Rosemary Harris. Com tanta gente boa em cena e uma história intrigante em mãos, não tinha como dar errado. E não deu. Bem recebido pela crítica, "Meninos do Brasil" acabou por ser indicado em três categorias do Oscar, incluindo melhor ator para Laurence Olivier - que também concorreu ao Golden Globe e foi eleito o melhor ator do ano pelo National Board of Review, empatado com Jon Voight, por "Amargo regresso". Um suspense adulto e sem medo de ir até as últimas consequências em seu desejo de alertar para os perigos da ciência quando em mãos erradas, o filme de Schaffner cria uma atmosfera sombria e um tom de thriller para conquistar a plateia desde seus minutos iniciais e, ao contrário de "Maratona da morte" (76) - que também tinha um nazista foragido e Laurence Olivier na receita  - não exige da plateia a paciência de esperar até o ato final para esclarecer todas as questões levantadas pelo roteiro bem amarrado de Heywood Gould.



Se em "Maratona da morte" o veterano Laurence Olivier vivia um criminoso de guerra atrás de um tesouro roubado dos judeus mortos nos campos de concentração, em "Meninos do Brasil" ele muda de lado, na pele de Ezra Lieberman, um conhecido caçador de nazistas que é procurado pelo jovem Barry Kohler (Steve Guttenberg em início de carreira) com a informação de que um grupo de oficiais da SS está mantendo reuniões em uma cidade do Paraguai, com objetivos ainda não descobertos. Colocando escutas em tais reuniões, Kohler descobre que os criminosos - liderados pelo infame Josef Mengele (Gregory Peck) - tem planos de assassinar 94 homens com a idade de 65 anos, moradores de diferentes países do planeta. Intrigado com o projeto, Lieberman assume a investigação do caso e passa a visitar os familiares das primeiras vítimas. Para sua surpresa e choque, ele descobre que todos os mortos tinham em comum filhos adotivos da mesma idade e impressionante semelhança física e de personalidade. Quando a extensão dos planos nazistas ficam claros - para seu choque e desespero - resta a ele tentar impedir sua realização, que pode mergulhar a humanidade novamente em um pesadelo genocida.

A princípio um filme alarmista e pouco verossímil, "Meninos do Brasil" conquista principalmente por não ter medo em assumir seu lado sensacionalista, mas o cobrindo com uma bem-vinda dose de seriedade. A interpretação de Gregory Peck como Mengele pode não ser a melhor de sua carreira - apesar dele mesmo considerá-la um de seus pontos altos - mas Laurence Olivier mostra, com seu Ezra Lieberman, porque era um dos grandes atores de sua geração. Com a saúde frágil durante as filmagens, ele entrega mais uma performance memorável, oferecendo sua credibilidade à uma trama que, em mãos menos competentes, poderia facilmente descambar para uma produção B. O cuidado de Schaffner em tratar a história com um suspense que não subestima a inteligência da plateia é louvável, assim como sua opção em revelar os desdobramentos da trama de forma a encaminhar tudo para um clímax envolvente e digno, que não decepciona nem apela a incoerências patéticas. Os "meninos do Brasil" do título são realmente apavorantes - e seu objetivo é de arrepiar, mesmo que tudo não passe de uma (brilhante) ficção. Inteligente, sério, assustador. "Meninos do Brasil" é um filme que se mantém atual apesar da idade - especialmente em um mundo tão chocantemente fascista que começa a se (re)desenhar.

MARATONA DA MORTE

MARATONA DA MORTE (Marathon man, 1976, Paramount Pictures, 126min) Direção: John Schlesinger. Roteiro: William Goldman, romance de William Goldman. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Jim Clark. Música: Michael Small. Figurino: Robert De Mora. Direção de arte/cenários: Richard MacDonald/George Gaines. Produção: Sidney Beckerman, Robert Evans. Elenco: Dustin Hoffman, Laurence Olivier, Roy Scheider, William Devane, Marthe Keller. Estreia: 06/10/76

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Laurence Olivier)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Laurence Olivier) 

Pode-se dizer, sem medo de errar, que existe o cinema policial e o cinema policial americano dos anos 70, com características próprias que o diferenciam substancialmente de outros exemplares do gênero. Não apenas pelo visual inconfundível - fotografia granulada, figurino típico da época - mas também e principalmente pelo estilo seco e direto de contar uma história, apostando na inteligência do espectador e apontando para temas relevantes e realistas. Al Pacino foi um dos grandes ícones do período, estrelando obras-primas como "Um dia de cão" (75) e "Serpico" (73), ambos dirigidos por Sidney Lumet. Não por acaso, Pacino, com seu jeito de homem comum, foi a primeira escolha do cineasta inglês John Schlesinger para protagonizar "Maratona da morte", adaptação do romance de William Goldman que tinha todos os elementos necessários a um eletrizante exemplar do gênero. O problema é que o produtor do filme, o todo-poderoso da Paramount Pictures, Robert Evans, não era exatamente um fã de Pacino - a quem tentou demitir das filmagens de "O poderoso chefão" (72) e apelidou maldosamente de "anão" - e vetou a ideia de Schlesinger, indicando outro pequeno grande ator para o papel do frágil protagonista Babe Levy: Dustin Hoffman.

Repetindo a parceria com o diretor que havia lhe dado o inesquecível Ratzo de "Perdidos na noite" (69), Hoffman entrega mais uma memorável atuação, tornando crível até mesmo o fato de, aos 38 anos, interpretar um estudante universitário muitos anos mais jovem - algo que já havia feito com propriedade em sua estreia nas telas, "A primeira noite de um homem" (67). Ele está completamente à vontade como Thomas "Babe" Levy, um rapaz que cursa a faculdade de História como forma de honrar a memória do pai, que cometeu suicídio após ter a reputação arruinada pela perseguição política no período do infame macarthismo - a caça aos comunistas que tomou conta dos EUA nos anos 50. Inteligente e dedicado, ele vê sua pacata rotina completamente alterada quando o inesperado retorno de seu irmão mais velho, Doc (Roy Scheider), acaba em uma tragédia que o transforma em alvo de uma misteriosa organização que tem ligações com o temível Christian Szell (Laurence Olivier), um criminoso nazista que abandona seu exílio para buscar, em Nova York, um valioso tesouro em diamantes. Nessa situação ambígua e aflitiva, ele não consegue confiar nem mesmo na nova namorada, a suíça Elsa Opel (Marthe Keller), que parece saber mais do que aparenta.


Inserindo aos poucos as informações a respeito de seus personagens e sua trama - uma aposta arriscada que o público atual, mal acostumado com roteiros quase didáticos - Schlesinger não poupa a plateia de cenas bastante violentas e uma dose de crueldade quase excessiva. Sua sequência mais famosa, em que Szell tortura Babe com uma broca de dentista, por exemplo, chegou a ter sua duração cortada na edição final, depois de reclamações sobre seu conteúdo, apesar de figurar, hoje em dia, em seletas listas que elegem as melhores cenas da história do cinema. Boa parte de sua tensão vem da forma como o cineasta constrói sua narrativa, com cortes secos e um senso de desorientação que aproxima a audiência do protagonista, uma pessoa normal diante de um turbilhão de violência inesperado e angustiante. O roteiro, adaptado pelo próprio William Goldman - que modificou, a contragosto, o final da história - não facilita as coisas para o público, que passa quase metade do filme sem ter a menor ideia de como personagens tão díspares - um estudante, um criminoso nazista e um executivo constantemente em viagens ao exterior - podem estar conectados. A paciência, porém, oferece um prêmio a partir da entrada de Laurence Olivier em cena: seu Christian Szell, é, sem dúvida, uma de suas maiores criações no cinema - e isso que ele fez todas as suas cenas sob forte medicação para tratamento de um câncer que todos acreditavam que seria fatal. Não apenas Olivier sobreviveu à doença como levou um Golden Globe e uma indicação ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho - e só morreu em 1989, aos 82 anos de idade.

A presença de Olivier no elenco de "A maratona da morte", no entanto, quase não aconteceu. Preocupados com seu estado de saúde precário, os executivos da Paramount não sentiam-se seguros em tê-lo em seu elenco. Foi preciso que Robert Evans apelasse aos veteranos David Niven e Merle Oberon para que eles pressionassem uma companhia de seguros londrina para que o grande intérprete shakespereano finalmente pudesse assinar contrato para interpretar o cruel Christian Szell. Demonstrando seu talento acima do normal, Olivier não deixou que sua condição médica ficasse em seu caminho - nem sua dificuldade de lembrar seus diálogos, consequência dos efeitos colaterais de seus remédios para dor - e entregou uma performance assustadora que ficou em 34º lugar em uma enquete feita pelo AFI (American Film Institute) sobre os maiores vilões na ocasião do centenário do cinema. Seu trabalho consegue até mesmo ofuscar a intensa atuação de Dustin Hoffman - em um de seus melhores momentos na carreira, diga-se de passagem - e disfarçar o ritmo um tanto lento da primeira hora de duração do filme. Não é injusto dizer que "A maratona da morte", apesar de suas qualidades, deve boa parte de sua permanência na memória graças à potência de Olivier como ator, em um show inesquecível. O filme como um todo pode não agradar a todo mundo, mas sua atuação chega a ser milagrosa.

sábado

SPARTACUS

SPARTACUS (Spartacus, 1960, Universal Pictures, 197min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Dalton Trumbo, romance de Howard Fast. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Robert Lawrence. Música: Alex North. Figurino: Valles. Direção de arte/cenários: Alexander Golitzen/Russell A. Gausman, Julia Heron. Produção: Edward Lewis. Elenco: Kirk Douglas, Laurence Olivier, Jean Simmons, Charles Laughton, Peter Ustinov, John Gavin, Nina Foch, Tony Curtis, John Ireland. Estreia: 06/10/60

6 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores
Vencedor de 4 Oscar: Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), Fotografia em Cores, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama 

Quando o diretor inglês Stanley Kubrick foi chamado para substituir Anthony Mann no comando do épico "Spartacus", em 1960, ele ainda não havia realizado aquele filme que lhe consagraria e marcaria para sempre seu estilo detalhista ao ponto da obsessão: a ficção científica existencial "2001: uma odisseia no espaço", que só estrearia em 1962. Isso explica porque a história do escravo que se rebela contra o Império Romano quase um século antes de Cristo tem bem menos a ver com sua obra posterior e bem mais com os questionamentos políticos de um roteiro assinado pelo ex-renegado de Hollywood Dalton Trumbo - acusado de colaborar com os comunistas perseguidos pelo governo americano, Trumbo finalmente pode ver nome estampado nos créditos de um filme sem submeter-se a artimanhas intelectuais como a que quase lhe impediu de ganhar o Oscar pela comédia "A princesa e o plebeu". Aproveitando-se da trama criada pelo escritor Howard Fast em seu livro homônimo - por sua vez inspirado em uma história real - Trumbo explorou-lhe ao máximo as nuances políticas, para desgosto do próprio Kubrick, que não concordava com tal viés, e de alguns nomes de Hollywood que não viam com bons olhos a volta do roteirista à atividade normal - caso do ator John Wayne e da colunista Hedda Hopper, que começaram uma campanha contra o filme mesmo antes de sua estreia, com a alegação de que ele era "propaganda marxista". Um problema a mais para seu astro, Kirk Douglas, que via sua tentativa de mostrar à indústria que poderia realizar um épico à altura de "Ben-hur" (59) - papel que ele havia disputado com fervor - mostrar-se bem mais complicada do que parecera em um primeiro olhar.

A deserção de Anthony Mann da cadeira de diretor não foi o único problema da pré-produção. Ainda antes de Mann entrar no projeto outros cineastas já haviam declinado do convite de Douglas. Enquanto Joseph L. Mankiewicz e David Lean simplesmente recusaram a proposta, Laurence Olivier preferiu não misturar duas funções - ele já estava escalado como o grande vilão da história, Marcus Crassus. Mann, no entanto, não permaneceu muito tempo ligado ao filme: apesar de já ter filmado algumas cenas iniciais, logo foi afastado por Douglas, que percebeu nele uma afabilidade excessiva que prejudicava sua forma de lidar com o elenco repleto de grandes atores (e seus respectivos egos). A contratação de Stanley Kubrick, no entanto, acabou por revelar-se não uma solução, mas um problema a mais a ser driblado: dono de uma personalidade forte, o inglês bateu de frente com o diretor de fotografia Russell Metty - que reclamava constantemente das interferências do cineasta em seu trabalho e chegou até a pedir para ter seu nome retirado dos créditos, antes de ser premiado com o Oscar - e com Dalton Trumbo, de quem discordava a respeito da personalidade do protagonista, que considerava puro e sem defeitos demais para ser real. Somados a isso, havia a falta de afinidade entre Laurence Olivier e Charles Laughton - conhecidos desafetos - e os ataques de estrelismo de Laughton, que ameaçava constantemente processar os produtores, já preocupados com o medo da Universal com o teor considerado "subversivo" da história sob o olhar de Trumbo.


De certa forma, os temores da Universal tinham certo fundamento: desafiando o poderoso senador Joseph McCarthy ao recusar-se a delatar colegas com ligações comunistas e impedido de trabalhar em Hollywood por mais de uma década, Dalton Trumbo aproveitou a chance de ouro oferecida por Kirk Douglas para não apenas fazer um retorno triunfal - que coincidiu também com seu trabalho em "Exodus", de Otto Preminger - mas também para fazê-lo com um filme cujo tema combinava perfeitamente com sua ideologia. Porém, enquanto Kirk Douglas via a luta de Spartacus como uma metáfora para a fuga dos judeus do Egito, Trumbo via a ação como um símbolo da Guerra Fria. Não chegou a ser uma questão problemática: de qualquer modo que se veja "Spartacus", o filme de Kubrick é um poderoso drama de ação, repleto de cenas de grande impacto visual e personagens construídos com esmero, que servem facilmente a qualquer leitura ideológica que contraponha opressores e oprimidos.

A história é simples e direta: Spartacus (interpretado com vigor por Kirk Douglas) é um escravo rebelde, que não se conforma com o tratamento que recebe de seus senhores, na Roma pré-era cristã. Quando é vendido e passa a treinar para ser um gladiador, ele se apaixona por outra cativa, Varínia (Jean Simmons, em papel oferecido à Ingrid Bergman e para o qual Kubrick queria Audrey Hepburn) e, depois de matar um dos treinadores, começa a liderar um exército de amotinados que desafia o poder romano - em especial o cruel Marcus Crassus (Laurence Olivier). Perseguido e cada vez mais idolatrado pelos companheiros, ele se torna uma lenda, enquanto não se cansa de bradar contra as injustiças e os desmandos do governo. Indicado a seis Oscar - e premiado em quatro categorias, inclusive ator coadjuvante para Peter Ustinov como o diretor da escola de gladiadores - "Spartacus" fez grande sucesso de bilheteria, mas acabou rejeitado por Stanley Kubrick, famoso posteriormente pelo controle total sobre seus filmes. Em 1991, ocasião em que foi restaurado digitalmente, teve cenas cortadas à época de seu lançamento finalmente incorporadas à metragem original (Laurence Olivier foi dublado por Anthony Hopkins, uma vez que a trilha sonora havia sido perdida), dando novas nuances à relação entre Crassus e seu escravo Antoninus (Tony Curtis), eliminada então por seu teor homoerótico, uma subtrama que enriquece ainda mais o belo trabalho conjunto de Douglas, Kubrick e Trumbo. Um épico legítimo e inquestionável!

terça-feira

REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL

REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL (Rebecca, 1940, Selznick International Pictures, 130min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Robert E. Sherwood, Joan Harrison, adaptação de Philip MacDonald, Michael Hogan, romance de Daphne Du Maurier. Fotografia: George Barnes. Montagem: W. Donn Hayes. Música: Franz Waxman. Direção de arte: Lyle Wheeler. Produção: David O. Selznick. Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Nigel Bruce. Estreia: 27/3/40

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alfred Hitchcock), Ator (Laurence Olivier), Atriz (Joan Fontaine), Atriz Coadjuvante (Judith Anderson), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte/cenários em P&B, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Filme, Fotografia em P&B

Todas as lendas que correm por Hollywood desde sempre dizem que a relação de Alfred Hitchcock com suas atrizes não era exatamente o que se pode chamar de saudável. Como uma espécie de confirmação nefasta de tais boatos, basta que se saiba o que o pai do suspense fez com Joan Fontaine durante as filmagens de "Rebecca, a mulher inesquecível", seu primeiro filme em terras americanas: sabendo que Fontaine era praticamente destratada por seu astro Laurence Olivier (que preferiria que o papel tivesse ficado com sua então esposa Vivien Leigh), o genial diretor teve a brilhante ideia - ao menos para ele - de fazer chegar aos ouvidos de Fontaine que não apenas Olivier a detestava, mas sim a equipe inteira. Não é preciso fazer um exercício muito grande de imaginação para entender que tal situação deixou a atriz incomodada, desconfortável e apavorada. Justamente como o diretor queria que ela fosse na pele da personagem!


Adaptado do romance homônimo de Daphne Du Marier - autora também de "Os pássaros", que Hitch dirigiu em 1963 - "Rebecca" marcou a estreia do cineasta no cinema americano em grande estilo, sob o comando do todo-poderoso produtor David O. Selznick, que havia comprado os direitos da obra de Maurier para ser estrelada por Carole Lombard e Ronald Colman. Quando Colman pulou fora do projeto - por achar as personagens femininas mais fortes e por desgostar do tom macabro da trama - Laurence Olivier, um dos maiores atores ingleses de todos os tempos foi escolhido. Acontece que Olivier queria que sua amada Vivien Leigh fosse a escolhida para o principal papel feminino, o que batia de frente com as opções do produtor: além de Anne Baxter e Loretta Young, Selznick também estava em dúvida entre duas irmãs que, como todos sabem, se odiavam além de qualquer limite, Olivia de Havilland e Joan Fontaine. Como Havilland não foi emprestada pela Warner - e também não estava nada feliz em disputar o papel com sua irmã - Fontaine acabou escolhida, para desgosto de muita gente na equipe, que não a considerava famosa o bastante para liderar um elenco. Hitchcock chegou no meio da tempestade - ele sempre quis filmar o livro mas não tinha condições financeiras de pagar os direitos - e, colocando pimenta nos bastidores, construiu um fenomenal suspense psicológico que lhe deu uma indicação ao Oscar de diretor (que perdeu para John Ford, por "As vinhas da ira") e deu a Selznick mais uma estatueta de melhor filme.


Joan Fontaine - que ganharia o Oscar de melhor atriz no ano seguinte com outro filme de Hitchcock, "Suspeita" - está na medida exata como a dama de companhia de uma desagradável senhora de idade que se apaixona perdidamente durante uma viagem pelo milionário Maxim de Winter (Laurence Olivier), um viúvo discreto e misterioso que a pede em casamento pouco tempo depois de conhecê-la. Inebridada de amor, ela aceita o pedido e, depois de casada, se vê diante da responsabilidade de administrar a imensa propriedade do marido, a fantástica Manderley, e todas as regras sociais que a circundam. Seu maior desafio, porém, será lidar com a memória da falecida esposa de Winter, a bela Rebecca, morta em um acidente de barco. Além da atmosfera sombria da mansão - em que tudo parece tenso e macabro - a lembrança de Rebecca é também sempre trazida à tona pela governanta, Mrs. Danvers (Judith Anderson), que faz questão de atormentar a nova patroa.

Para criar a atmosfera perfeita para Manderley - uma casa que é também personagem crucial para a trama - Hitchcock optou pela fotografia em preto-e-branco (também recompensada com um Oscar) e usou de artifícios simples mas extremamente eficazes em transmitir a tensão que rodeia a protagonista, cujo nome jamais é mencionado, também como forma de oprimí-la diante da opulência de sua nova vida. Assim, a apavorante Mrs. Danvers nunca é vista caminhando, sempre aparecendo diante dos olhos de sua patroa de uma hora para outra (além de nunca piscar em cena). Os duelos entre as duas atrizes estão entre os melhores momentos do filme, que não abdica nem mesmo das reviravoltas mirabolantes tão importantes nos melodramas literários. O espectro de Rebecca - que não, não aparece em forma de fantasma real, mas sim ilustrada pelo que é ainda mais assustador, a imaginação - permeia toda a narrativa, como uma ameaça tangível à felicidade da nova Sra. De Winters e a sutileza com que o diretor mostra tal fato é que faz a diferença entre o drama psicológico aterrador que apresenta e as dezenas de produções de terror que vieram logo após, extirpando a inteligência do gênero.

"Rebecca, a mulher inesquecível" é um Hitchcock quase atípico: não tem senso de humor, não toma partido de sequências técnicas de tirar o fôlego e tampouco é exatamente um filme de suspense, podendo até mesmo ser considerado um drama. Mas é mais um perfeito exemplo de como um cineasta de talento sempre foi e sempre será a principal razão do sucesso de um bom produto cinematográfico.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...