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sexta-feira

BESAME MUCHO


BESAME MUCHO (Besame mucho, 1987, Francisco Ramalho Júnior Filmes/HB Filmes, 108min) Direção: Francisco Ramalho Jr.. Roteiro: Francisco Ramalho Jr.,Mário Prata, peça teatral de Mário Prata. Fotografia: José Tadeu Ribeiro. Montagem: Mauro Alice. Música: Wagner Tiso. Figurino: Domingos Fuschini. Direção de arte/cenários: Marcos Weinstock. Produção: Hector Babenco, Francisco Ramalho Jr.. Elenco: Antônio Fagundes, José Wilker, Christiane Torloni, Glória Pires, Giulia Gam, Paulo Betti, Isabel Ribeiro. Estreia: 13/8/87

Montada pela primeira vez em 1982 nos palcos de São Paulo - e no ano seguinte no Rio de Janeiro -, a peça teatral "Besame mucho", de Mário Prata, não demorou a chegar às telas de cinema. Adaptada pelo cineasta Francisco Ramalho Jr e pelo próprio Prata, a história com traços autobiográficos estreou em agosto de 1987, embalada pelos prêmios (roteiro e figurino) do Festival de Gramado e pela popularidade de seu elenco principal, formado por astros globais. Com um texto nostálgico e uma produção caprichada, acabou por se tornar um dos filmes nacionais mais queridos de sua temporada - apesar de raramente ser lembrado pela crítica ou até mesmo pelo público em listas de principais produções do cinema brasileiro, deixa a sensação, após os créditos finais, de um passatempo inofensivo dos mais agradáveis.

A trama criada por Prata não é das mais originais: ao acompanhar a trajetória de dois casais de amigos durante vinte anos, o dramaturgo não chega a aprofundar psicologicamente seus personagens nem tampouco apelar para reviravoltas dramáticas que possam provocar grandes catarses. Porém, é na sua estrutura que a peça (e o filme, acertadamente fiel) surpreende: ao começar a ação no final dos anos 1980 e regredindo até o fatídico 1964, o roteiro substitui a pergunta clássica "o que vai acontecer?" pela menos óbvia "como eles chegaram até esse ponto?". Dessa forma, Prata desnuda idiossincrasias, hipocrisias e inseguranças de seus protagonistas com um acento cômico que permite ao público envolver-se com o enredo sem questionar suas possíveis falhas. Além disso, aproveita para apontar, com inteligência, a mudança dos comportamentos sociais e políticos do país durante um de seus períodos mais críticos através de personagens que, de uma maneira ou outra, são afetados por tais transformações. 

 

Quando o filme começa, Xico (José Wilker) e Olga (Glória Pires) estão se divorciando, depois de uma crise longa e desgastante. Ele é um premiado autor de teatro, mas sem que ninguém saiba, sua principal peça, "Besame mucho", foi escrita, na verdade, por sua mulher - que, na juventude, passou da alienação política a um auto-exílio durante a ditadura militar. Em sentido oposto, o quase idealista Tuca (Antônio Fagundes) tornou-se um empresário de sucesso, crescendo financeiramente em sua cidadezinha natal ao lado da mulher, Dina (Christiane Torloni), que abandonou a rigidez moral da adolescência para embarcar em uma série de fantasias eróticas com o marido, como forma de enterrar um passado de frustrações sexuais. A partir desse primeiro momento, o filme começa a regredir cronologicamente e apresentar os dois casais na construção de seus relacionamentos, suas carreiras e vidas sentimentais - até chegar ao tenebroso 31 de março de 1964, data em que suas próprias relações interpessoais também chegam a um impasse - o primeiro de muitos que ainda lhes atormentariam a existência.

Se o texto de Mário Prata parece mais apropriado ao palco do que às telas de cinema - uma linguagem mais direta e simples que nem sempre se conecta perfeitamente à sua adaptação -, a direção de Francisco Ramalho Jr. explora com precisão seu maior trunfo: o elenco. Aproveitando-se do tom mais leve de seus personagens, Antônio Fagundes e Christiane Torloni brilham com uma química previamente testada na televisão (e que voltariam a repetir em trabalhos futuros). José Wilker e Glória Pires, vivendo um casal com mais nuances dramáticas, brincam sem medo com todas as incoerências de Xico e Olga, provavelmente os mais alterados pela dinâmica da sociedade e da vida de uma cidade grande. Entre os coadjuvantes, Paulo Betti e Giulia Gam quase roubam a cena com momentos de humor equilibrado entre o ingênuo e o picante. Soma-se a isso a percepção triste de que o Brasil de 1964 não está tão distante assim do Brasil de 2022 - com a sombra folclórica de uma ameaça comunista que só existia (e existe) na paranoia da direita. É essa pitada de ironia (involuntária, uma vez que a peça estreou quando havia a ilusão de que o passado já estava enterrado de vez) que faz com que "Besame mucho" deixe de ser apenas uma comédia dramática sobre a imaturidade masculina e a evolução (ou não) da sociedade e se torne quase um lembrete de quão cíclicas são as mudanças no mundo.

quarta-feira

NISE: O CORAÇÃO DA LOUCURA


NISE: O CORAÇÃO DA LOUCURA (Nise: o coração da loucura, 2015, TV Zero, 106min) Direção: Roberto Berliner. Roteiro: Flávia Castro, Maurício  Lissovky, Maria Camargo, Chris Alcazar, roteiro final de Patrícia Andrade, Leonardo Rocha, Roberto Berliner. Fotografia: Andre Horta. Montagem: Pedro Bronz, Leonardo Domingues. Música: Jaques Morelenbaum. Figurino: Cristina Kangussu. Direção de arte/cenários: Daniel Flaksman. Produção executiva: Lorena Bondarovsky. Produção: Lorena Bondarovsky, Rodrigo Letier. Elenco: Glória Pires, Roberta Rodrigues,Augusto Madeira, Tadeu Aguiar, Fernando Eiras, Zecarlos Machado, Georgiana Góes, Felipe Rocha, Flávio Bauraqui, Fabrício Boliveira, Bernardo Marinho, Cláudio Jaborandy. Estreia: 25/10/2015 (Festival Internacional de Tóquio)

Nise Magalhães da Silveira pode não ser um nome facilmente reconhecível a todos, mas sua importância para o de doenças mentais e a forma como revolucionou a psiquiatria - no Brasil e no mundo - faz dela uma personalidade crucial da história da medicina. Inspirada pelos estudos do suíço Carl Gustav Jung, com quem se correspondia, e contrária à corrente mais agressiva de tratamentos à base de eletrochoques e lobotomia, Nise foi a responsável por incentivar nos pacientes uma nova forma de lidar com suas crises de esquizofrenia: através da arte, muitos de seus pacientes começaram a reatar seus vínculos com a realidade e saíram da catatonia em que viviam. Desafiando o preconceito, o machismo e a descrença em seus métodos, a médica alagoana, formada em 1926 e presa por 18 meses durante o Estado Novo de Vargas, acusada de comunismo, é a personagem central (e força motriz) de "Nise: o coração da loucura", filme dirigido por Roberto Berliner que rendeu à Glória Pires o prêmio de melhor atriz no Festival Internacional de Tóquio, em 2015.

A vida de Nise é um material e tanto a ser explorado, mas Berliner acerta em optar por um recorte específico de tempo, para melhor desenvolver os métodos da protagonista e apresentar seus coadjuvantes sem a pressa e a superficialidade nas quais uma cinebiografia convencional fatalmente sucumbiria. A prisão de Nise - que a fez ter contato com Olga Benário e Graciliano Ramos, personalidades já retratadas pelo cinema nacional - é praticamente ignorada pelo roteiro, que começa justamente quando a médica retoma seu trabalho junto a pacientes, no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, do Rio de Janeiro. O ano é 1944, e Nise imediatamente compra briga com os médicos locais, adeptos de força bruta como tratamento alternativo. Transferida para a seção de Terapia Ocupacional - leia-se limpeza e manutenção do hospital -, ela surpreende aos funcionários, acostumados à violência e ao descaso das autoridades locais, ao oferecer um ambiente menos opressivo e mais lúdico aos pacientes. Por sugestão de um dos enfermeiros, incentiva os internos (até então tratados como animais) a utilizar-se de pincéis e tintas para conversar com o mundo. Surge, então, diante de seus olhos, uma admirável coleção de obras de arte - que transmitem, através da cor e das formas, imagens do inconsciente (nome, inclusive, do museu criado para exibir os trabalhos e que hoje conta com mais de 360 mil obras).

 


A escolha de Glória Pires para o papel central do filme é um acerto gigantesco. Não apenas Glória tem um apelo comercial substancial - como bem demonstram as bilheterias dos filmes "Se eu fosse você", de 2006 e 2009 - como é uma atriz maiúscula, capaz de transmitir uma vasta gama de emoções de forma econômica e precisa. Em um filme no qual o silêncio fala tanto quanto longos diálogos, a presença de Glória é o leme que conduz a narrativa e rege a orquestra de coadjuvantes, todos tão convincentes que é difícil lembrar que são apenas atores interpretando doentes mentais - embora alguns rostos sejam conhecidos do público, como Fabrício Boliveira e Flávio Bauraqui. As faíscas produzidas entre o elenco confirmam o talento de seu diretor, Roberto Berliner, cineasta com larga experiência em documentários - "A pessoa é para o que nasce (2003) e "Herbert de perto" (2009) são os mais conhecidos - que se mostra igualmente dotado em sua segunda incursão na ficção. Seu olhar de documentarista evita o sentimentalismo e imprime uma narrativa sóbria, condizente com o tema e a personalidade de sua protagonista. Também ganha pontos em manter o foco, ainda que tal opção impeça o espectador de conhecer ainda mais sua personagem principal - ou seja, seu período como simpatizante do comunismo em um período pouco propício para tal, e sua consagração junto à comunidade psiquiátrica mundial.

"Nise: o coração da loucura" é um filme adulto, sério, relevante. Busca a empatia do espectador sem apelar para a condescendência e, ainda que retrate sua protagonista como uma heroína solitária lutando contra um sistema irascível - um clichê que não chega a atrapalhar o resultado final -, procura o máximo de realismo possível. Alguns momentos bastante comoventes - o desfecho de sua tentativa de aproximar os pacientes (a quem chama de clientes) a animais de estimação e a surpreendente história de amor e ciúme nascida dentro do hospital - valorizam a trama central e lembram o público de que estão diante de seres humanos e não apenas estatísticas. Emociona e faz pensar. E principalmente faz a devida homenagem a uma das mais ricas e importantes personalidades nacionais. Se hoje a psiquiatria já conseguiu abandonar seus traços mais sinistros, boa parte disso é consequência da sensibilidade de Nise, cujas imagens reais nos últimos minutos de filme apenas reiteram sua força e determinação. Imperdível!


quinta-feira

FLORES RARAS

FLORES RARAS (Flores raras, 2013, LC Barreto Productions/Globo Filmes, 118min) Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Matthew Chapman, Julie Sayres, livro "Flores raras e banalíssimas", de Carmem L. Oliveira, roteiro de Carolina Kotscho. Fotografia: Mauro Pinheiro Jr.. Montagem: Letícia Giffoni. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Marcelo Pies. Direção de arte/cenários: José Joaquim Salles/Clara Rocha. Produção executiva: Rômulo Marinho Jr., Penny Wolf. Produção: Lucy Barreto, Paula Barreto. Elenco: Glória Pires, Miranda Otto, Tracy Middendorf, Marcelo Airoldi, Treat Williams. Estreia: 09/02/2013 (Festival de Berlim)

Em dezembro de 1951, em meio a um bloqueio criativo, a poetista norte-americana Elizabeth Bishop aportou no Brasil, disposta a uma curta temporada para rever uma amiga de faculdade. Seus planos de ficar pouco tempo no país foram alterados graças a uma internação hospitalar - era alérgica a castanhas de caju - e à paixão avassaladora justamente pela companheira de sua colega. Lota Macedo de Soares, uma bem-sucedida arquiteta, encantada pela fragilidade de Bishop - que contrastava com sua personalidade forte e decidida -, não pensou duas vezes antes de assumir sua nova parceira. Começava então uma história de amor que atravessaria, aos trancos e barrancos, mais de uma década, e testemunharia momentos de dor e glória nas trajetórias de ambas. Embora tenham vivido um período auspicioso profissionalmente - Bishop ganhou um Pulitzer e Lota criou o ambicioso projeto do Aterro do Flamengo -, nem tudo era felicidade nos bastidores. O alcoolismo da escritora e a tendência da arquiteta em dominar a relação (além de problemas relacionados a seu trabalho no Rio) transformaram o idílio dos primeiros anos em uma constante guerra de nervos - e levaram o relacionamento a um final doloroso. Contada no livro "Flores raras e banalíssimas", de Carmem L. de Oliveira, a história de Bishop e Lota serviu como complemento ideal à redescoberta da poetisa pelo público brasileiro, na década de 1990 - e desde então lutou para ser adaptada para o cinema.

O preconceito a respeito do tema "delicado" do projeto afastou possíveis financiadores de "Flores raras", e o processo de realização do filme - já normalmente ampliado quando se trata de produções brasileiras - estendeu-se por quase uma década. Nem o compromisso de Bruno Barreto - diretor de um dos maiores sucessos do cinema nacional, "Dona Flor e seus dois maridos", de 1976 - em assumir a direção e o interesse de Glória Pires em interpretar Lota foram argumentos fortes o bastante para facilitar a batalha das produtoras Lucy (mãe de Bruno) e Paula Barreto. Nesses oito anos entre o lançamento do livro e a estreia do filme, pode-se dizer que o projeto amadureceu. Quando chegou ao Festival de Berlim de 2013, "Flores raras" já tinha a elegância e a delicadeza que a história pedia, somadas à experiência de Bruno, dono de uma respeitável carreira internacional, iniciada no final dos anos 1980. Lançado para o público brasileiro em agosto do mesmo ano de sua apresentação na Alemanha, o filme agradou mais aos críticos do que à plateia média, mais afeita a comédias despretensiosas do que a romances homossexuais de mulheres na meia-idade. No entanto, apesar da relação entre Lota e Bishop ser o centro da trama, "Flores raras" caminha na direção oposta a histórias de amor lacrimosas quando opta - acertadamente - em explorar também o mundo que as rodeia, repleto de armadilhas profissionais que as afastam fisicamente e, ao mesmo tempo, as aproximam emocionalmente.


Foi durante o período em que Lota e Bishop estiveram juntas, por exemplo, que Carlos Lacerda foi eleito o primeiro governador do então Estado da Guanabara (em 1961) e deu à Lota a missão (absurdamente absorvente) de projetar o Aterro do Flamengo, fato que obrigou as duas mulheres a deixarem o idílio de Petrópolis pela agitação do Rio de Janeiro. Bishop não era fã da cidade, e enquanto Lota trabalhava quase sem folga, a poeta saía a beber em botequins - e ser, quase sempre, carregada para casa. Antes disso, em 1956, foi premiada com o Pulitzer, uma honra que deve a seus momentos no Brasil, quando finalmente retornou à criação de suas obras - e ganhou de presente da companheira um estúdio com vista para o verde de sua propriedade. Sua relação com o Brasil era dúbia: ao mesmo tempo em que amava o espírito nacional, não deixava de perceber as mazelas da sociedade, o que, logicamente, não a tornava exatamente popular entre os nativos. Seu romance com Lota também tinha altos e baixos: planejavam longas viagens que nunca fizeram e frequentemente se desentendiam, principalmente por causa dos ciúmes da arquiteta. Em uma dessas crises, a escritora aceitou o convite para lecionar por uma temporada nos EUA, uma forma de afastar-se terapeuticamente de Lota, severamente deprimida pelos problemas de seu trabalho no Aterro. Era o começo do fim. E elas certamente perceberam isso, apesar das tentativas de ignorarem tal destino.

O filme de Bruno Barreto é, sem dúvida, um recorte caprichado e bastante abrangente do relacionamento entre Lota e Bishop. Boa parte dos acontecimentos mais importantes de seu período como amantes está retratado no roteiro de Matthew Chapman e Julie Sayres, adaptado tanto do livro de Carmem L. de Oliveira quanto de um primeiro tratamento escrito por Carolina Kotscho, e a direção de Barreto é contemplativa, sem chamar a atenção para si. O que realmente dá suporte a "Flores raras" - assim como dava à relação entre as protagonistas - é a combinação entre a força de Glória Pires (premiada como melhor atriz no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, de onde a produção saiu também com as estatuetas de direção, figurino e direção de arte) e a fragilidade física de Miranda Otto, que empresta à Elizabeth Shop um misto de elegância e inteligência. A atriz australiana (conhecida por sua participação na trilogia "O Senhor dos Anéis" e na série de TV "Homeland") é o contraponto ideal ao desempenho (como sempre) sólido de Glória, que não permite que a barreira do idioma atrapalhe uma bela interpretação. Se "Flores raras" fosse um filme medíocre, somente a dupla de atrizes centrais já bastaria para que fosse altamente recomendável. Como absolutamente não o é, o encontro entre dois talentos à prova de qualquer crítica o torna imperdível para qualquer fã de bom cinema.

terça-feira

A PARTILHA

A PARTILHA (A partilha, 2001, Globo Filmes/Lereby Productions, 96min) Direção: Daniel Filho. Roteiro: João Emanuel Carneiro, Miguel Falabella, Daniel Filho, Mark Haskell Smith, peça teatral homônima de Miguel Falabella. Fotografia: Félix Monti. Montagem: Felipe Lacerda. Música: Rita Lee, Nelson Motta. Figurino: Marilia Carneiro. Direção de arte: Marcos Flaksman. Produção executiva: Caíque Martins Ferreira. Produção: Valéria Costa Amorim, Daniel Filho. Elenco: Glória Pires, Andréa Beltrão, Lília Cabral, Paloma Duarte, Herson Capri, Marcello Antony, Thiago Fragoso, Guta Stresser, Cassiano Carneiro, Fernanda Rodrigues, Chica Xavier. Estreia: 08/6/01

Em 1987, quando interpretava a vilã Laura da novela "O outro", da Rede Globo, a atriz Natália do Valle deu ao ator Miguel Falabella - seu irmão na trama - a ideia de uma peça teatral que falava sobre o reencontro de um grupo de irmãs bastante diferentes entre si para discutir o inventário da mãe recentemente morta. Arlete Salles, que também estava na novela interpretando uma misteriosa governanta, também entrou no projeto, e quatro anos depois surgia "A partilha", um dos maiores sucessos de bilheteria do teatro nacional, que ficou em cartaz por seis anos, viajou para mais de dez países e fez gargalhar e chorar milhares de espectadores. Seu sucesso extraordinário logo chamou a atenção até mesmo de Hollywood, que acenou com a possibilidade de levar o texto para as telonas - devidamente adaptado para a realidade norte-americana e com outras atrizes nos papéis defendidos (e consagrados) por Natália, Arlete, Susana Vieira e Thereza Piffer, que viviam as outras irmãs. Felizmente o projeto de uma versão ianque da peça não vingou, mas Daniel Filho - um dos mais influentes diretores da televisão brasileira e que havia sentido o gostinho do cinema ao dirigir "O cangaceiro trapalhão", veículo para o estrelato do quarteto Os Trapalhões, em 1982 - achou que era hora de voltar ao ofício de cineasta, uma paixão há muito reprimida. Foi assim que, dez anos depois da estreia de "A partilha" nos palcos, ela finalmente chegava aos cinemas, com um elenco novo em folha, subtramas expandidas e cara de especial de televisão.

Co-produzido pela Globo Filmes - o que explica sua linguagem pouco cinematográfica e o elenco de rostos conhecidos das telenovelas - "A partilha" sofre de um grave defeito: para garantir uma hora e meia de duração, o roteiro dilui a densidade dramática e o timing cômico da peça, diminuindo assim um de seus maiores trunfos, o texto ágil e redondo de Falabella, que no filme assume o papel de co-roteirista, ao lado do próprio diretor, do futuro autor de novelas João Emanuel Carneiro e do americano Mark Haskell Smith. Evitando a claustrofobia de manter a ação somente no apartamento da família - o maior bem do inventário e principal motivo de discussão entre as personagens - o roteiro amplia os dramas de suas protagonistas, apresentando ao público coadjuvantes apenas citados na versão teatral, como um marido militar e sua filha adolescente grávida, um filho revoltado com a distância geográfica que sua mãe impôs e uma namorada lésbica. Nem todos funcionam, principalmente porque nem sempre o texto consegue manter o frescor que Falabella imprime em seus diálogos, mas ainda assim o filme conquista facilmente a plateia graças ao imenso carisma de suas intérpretes centrais.


Glória Pires vive Selma, uma mulher reprimida que abdicou de uma profissão para viver ao lado do marido, Luís Fernando (Herson Capri), da filha adolescente e da mãe viúva. Quando a mãe morre, depois de uma longa enfermidade, ela resolve chamar as irmãs para discutir os detalhes do funeral, o inventário e a partilha dos bens. De Paris, chega Lúcia (Lília Cabral), uma mulher expansiva e excêntrica que abandonou marido e o filho para viver uma história de amor fora do Brasil, o que nunca conformou a família. Outra irmã, Regina (Andréa Beltrão), é natureba, esotérica e solteira, praticando o sexo casual sem muita culpa depois de ter criado seus filhos com extrema liberdade. E a caçula, Laura (Paloma Duarte), bem mais jovem que as outras, está terminando sua tese, quer viajar para a Alemanha para fazer pós-graduação e vive um romance com outra mulher. Juntas, elas irão lembrar do passado, discutir ressentimentos, lavar roupa suja e redescobrir o amor que sempre as manteve unidas.

No palco, "A partilha" seduzia a plateia com um senso de humor politicamente incorreto, uma dose bem generosa de melancolia e uma química intocável entre suas atrizes. Na tela, muitas dessas qualidades se perdem: sem ousadia de espécie alguma, Daniel Filho conduz seu filme de maneira burocrática, quase preguiçosa, apostando todas as suas fichas nos talentos individuais de suas atrizes principais - todas excelentes, mas nem sempre adequadas aos papéis e em alguns momentos com tons dissonantes. Enquanto Glória Pires sublinha sempre o lado mais dramático de sua personagem reprimida - que tenta um romance extraconjugal com o corretor de imóveis vivido por Marcello Antony - Lília Cabral quase resvala no exagero de sua Lúcia (interpretada com maestria por Arlete Salles na versão teatral). Das quatro protagonistas, Andréa Beltrão é quem se sai melhor, equilibrando com talento os dois lados de sua Regina, mesmo quando precisa passar por cima de um clímax desnecessariamente exagerado, que só se justifica pela vontade de criar um humor mais popular - e não exatamente engraçado.

Para quem teve a sorte de assistir à sua versão teatral, o filme "A partilha" é decepcionante, apesar de ser sempre um prazer ver o talento de suas atrizes. Quem assiste à versão cinematográfica sem conhecer o original, é diversão ligeira, inofensiva e por vezes engraçada. Merecia uma adaptação melhor - e de preferência com seu primeiro (e sensacional) elenco.

quinta-feira

O QUATRILHO

O QUATRILHO (O quatrilho, 1995, Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas, 92min) Direção: Fábio Barreto. Roteiro: Leopoldo Serran, adaptação de Antonio Calmon, romance de José Clemente Pozenato. Fotografia: Félix Monti. Montagem: Karen Harley, Mair Tavares. Música: Jaques Morelenbaum, Caetano Veloso. Figurino: Isabel Paranhos. Direção de arte: Paulo Flaksman, Sérgio Silveira. Produção executiva: Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto. Elenco: Glória Pires, Patrícia Pillar, Alexandre Paternost, Bruno Campos, Cecil Thiré, Gianfrancesco Guarnieri, José Lewgoy. Estreia: 20/10/95

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Em 1995, os fãs de cinema brasileiro, que ainda estavam em êxtase com o inesperado sucesso de "Carlota Joaquina, princesa do Brazil", de Carla Camuratti - o marco inicial da retomada de nossa filmografia - tiveram um motivo a mais para sentir orgulho. "O quatrilho", adaptado do romance do escritor gaúcho José Clemente Pozenato e produzido pelo mesmo Luiz Carlos Barreto do mega-sucesso "Dona Flor e seus dois maridos", foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, mais de trinta anos depois de "O pagador de promessas", de Anselmo Duarte, ter conseguido a mesma distinção. A euforia do momento era tanta que pouca gente percebeu que, a despeito de suas qualidades, o filme de Fábio Barreto não era exatamente um competidor muito forte. Dono de uma linguagem excessivamente televisiva, "O quatrilho" morreu na praia, perdendo a estatueta para o holandês "A excêntrica família de Antonia" - mesmo contando com uma espécie de apadrinhamento do poderoso Steven Spielberg.

Impressionado com o trabalho de Glória Pires - com quem manifestou interesse de trabalhar, dizem as más línguas - Spielberg até tentou fazer uma espécie de campanha a favor do filme brasileiro, mas esbarrou em um grave problema: apesar da história interessante e do brilho de suas atrizes centrais, a direção de Fábio Barreto é burocrática e sem inspiração, que o impede de ser grande cinema e o aproxima perigosamente de filmes feitos para a televisão. Nem mesmo a caprichada direção de arte e a fotografia conseguem fazer com que "O quatrilho" levante maiores voos. É um filme que promete muito mas jamais chega a encantar por completo sua audiência, sendo altamente prejudicado também pela absoluta apatia de seus dois atores principais.

A trama de "O quatrilho" se passa em Santa Corona, na serra gaúcha, e começa em 1910, com o casamento do pacato Angelo Gardone (Alexandre Paternost) com a bela Teresa (Patrícia Pillar). Devido a tradições culturais, logo após o matrimônio eles são obrigados a deixar a propriedade da família e, ambicioso, o rapaz resolve começar um negócio próprio, contando para isso com a ajuda de Mássimo (Bruno Campos), marido da prima de Teresa, a calada Pierina (Glória Pires). Enquanto as finanças prosperam, no entanto, o casamento de Angelo e Teresa não segue o rumo certo. Frustrada em suas aspirações românticas e sensuais, a bela jovem acaba encontrando no marido da prima um espelho de seus desejos e, em um rompante, foge com ele e a filha. A príncipio prostrados com a dupla traição, aos poucos Angelo e Pierina começam a reconstruir a vida e, mais por motivos práticos do que românticos, assumem uma relação, que irá chocar a conservadora sociedade católico/italiana em que vivem.



Não há dúvida de que a trama de Pozenato - que faz uma ponta no filme, como um fotógrafo - serve muito bem a um belo filme, a ponto de sua adaptação ser praticamente literal. Inspirada em um caso real, a troca de casais remete a um tradicional jogo de cartas dos italianos - em que a cada rodada é feita uma troca de parceiros - mas todas as inúmeras possibilidades da história acabam sendo desperdiçadas pelo roteiro preguiçoso e sem maiores aprofundamentos psicológicos ou dramáticos. Não fosse o talento superlativo de Glória Pires e Patrícia Pillar - capazes de transformar qualquer cena em um espetáculo à parte - "O quatrilho" correria o sério risco de tornar-se um poderoso soporífero.

Patrícia Pillar brilha intensamente na primeira parte do filme. Linda, carismática e provando-se uma excelente atriz, ela dá consistência a uma personagem que em outras mãos menos capazes poderia soar como leviana ou mau-caráter. Na interpretação de Patrícia, Teresa é uma Madame Bovary italiana, uma mulher presa em um casamento que oprime seus desejos e sonhos até o ponto de não suportar mais e, ao contrário da personagem de Flaubert, partir em busca da realização deles, mesmo sem ter exata consciência das consequências de seu ato. Quando ela sai de cena, boa parte dos encantos do filme vai com ela. Felizmente é aí que se abre espaço para Glória Pires mostrar porque é considerada uma das grandes atrizes do país.

Interpretando uma Pierina calada, taciturna, séria e ciente de seus deveres de esposa e mãe - apenas para explodir dramaticamente em uma cena inesquecível em que desafia um padre diante de uma paróquia lotada - Glória utiliza toda sua experiência para construir uma personagem que se comunica basicamente através de olhares baixos, de gestos comedidos e de um tom de voz sussurrante que escondem uma personalidade forte, prática e batalhadora. Se Patrícia é o corpo de "O quatrilho", Glória é sua alma. E consegue ser boa até mesmo contracenando com um tenebroso Bruno Campos, que, inexplicavelmente, fez relativo sucesso em uma carreira internacional. Com sua absoluta inexpressividade em cena - em um papel crucial - Campos atrapalha ainda mais as intenções do filme de ter qualidade de primeiro mundo.

Ufanismos à parte, "O quatrilho" é apenas um filme que, abdicando de palavrões e nudez gratuita - um avanço em relação ao que criou toda a aura de preconceito contra filmes brasileiros que somente anos depois seria parcialmente derrubado - conquistou um público considerável antes que isso se tornasse razoavelmente comum. Está a anos luz de distância de "Cidade de Deus", mas é infinitamente superior às obras cometidas por seu diretor pouco depois, como o sofrível "A paixão de Jacobina". E ouvir a doce voz de Caetano Veloso nos créditos iniciais e finais sempre será um deleite.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...