O DIA DEPOIS DE AMANHÃ (The day after tomorrow, 2004, 20th Century Fox, 124min) Direção: Roland Emmerich. Roteiro: Roland Emmerich, Jeffrey Nachmanoff, estória de Roland Emmerich. Fotografia: Ueli Steiger. Montagem: David Brenner. Música: Harald Kloser. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Barry Chusid/Paul Hotte, Victor J. Zolfo. Produção executiva: Ute Emmerich, Stephanie Germain, Kelly Van Horn. Produção: Roland Emmerich, Mark Gordon. Elenco: Dennis Quaid, Jake Gyllenhaal, Emmy Rossum, Dash Mihok, Jay O. Sanders, Sela Ward, Ian Holm. Estreia: 24/5/04
A premissa inicial não poderia ser mais nonsense, apesar de ter sua origem no propalado "efeito estufa" e tirar proveito da paranoia quase histérica em torno do aquecimento global que era o assunto do momento nos primeiros anos do século XXI: durante uma expedição à Antártida, um climatologista descobre que o mundo está à beira de um colapso meteorológico que deverá, em poucos dias, fazer com que a Terra viva uma nova Era Glacial, matando milhares e milhares de pessoas pelo mundo - o que faz com hordas de americanos tentem romper a fronteira com o México, que, devido à sua posição geográfica, tem menos chances de virar gelo. Com base nesse fiapo de trama - rechaçado violentamente por cientistas graças à seus exageros melodramáticos - o diretor e roteirista Roland Emmerich, o mesmo que já havia quase exterminado os EUA em "Independence Day", de 1996, construiu seu novo filme-catástrofe de estimação, "O dia depois de amanhã" (título sugerido por uma citação de - vejam só! - Nietzsche). De posse de um generoso orçamento de 125 milhões de dólares e efeitos visuais e cair o queixo, Emmerich mais uma vez mostrou que, diante de um espetáculo de destruição em grandes proporções, o público não exige muita inteligência: sucesso de bilheteria, o filme diverte e entretém, mas para isso é preciso desligar o cérebro e o senso crítico.
Como em todo e qualquer produto com a assinatura de Emmerich - com a possível exceção de "O patriota" (00), que tinha ambições cinematográficas maiores do que simplesmente distrair a plateia - "O dia depois de amanhã" é um festival de clichês costurado a imagens impressionantes e momentos dramáticos quase constrangedores. Sempre que o roteiro tenta deixar de lado o que tem de melhor (sequências ainda mais assustadoras do que as de "Independence day") para concentrar-se em seus personagens (rasos e previsíveis), a impressão que se tem é que isso acontece para que o público consiga dar uma pausa na adrenalina para recarregar o refrigerante e a pipoca. É claro que mesmo os mais clássicos filmes do gênero - vide "Inferno na torre" e "O destino do Poseidon" - existe uma trama, mesmo que tênue, mas Emmerich aposta mais uma vez no heroísmo individual como força-motriz de sua história, concentrando seu foco narrativo em uma história de relação entre pai e filho que não chega a entusiasmar.
O pai é o climatologista Jack Hall (Dennis Quaid, sempre esforçado), que não mantém a melhor das relações com o único filho, Sam (Jake Gyllenhaal), jovem estudante que vive com a mãe, a dedicada médica Lucy (Sela Ward). Quando descobre que o rapaz está em Nova York com sua turma de escola - e sem qualquer tipo de comunicação com o mundo - ele resolve partir em sua busca, principalmente porque a cidade está no centro da região mais propensa às tragédias meteorológicas previstas em seus estudos. Enquanto ele se esforça em manter-se vivo sob temperaturas negativas e à disposição das intempéries da natureza, Sam e seus amigos precisam também manter-se aquecidos na Biblioteca Municipal e buscar remédios para Laura (Emmy Rossum) - a jovem tímida por quem Sam é apaixonado e que está correndo risco de morrer devido a um ferimento na perna. No meio disso tudo, Lucy está sozinha no hospital onde trabalha, à espera de socorro para um menino seriamente doente.
A despeito da fragilidade dramática de seus personagens e do tom fatalista imposto pelo roteiro - rejeitado como excessivo pelos cientistas que assistiram ao filme - toda e qualquer sequência de "O dia depois de amanhã" que se apoia nos impressionantes efeitos especiais é fascinante. Utilizando-se com maestria de todos os recursos de uma superprodução hollywoodiana, Emmerich criou um entretenimento de primeira para aquele público disposto a um bom par de horas de escapismo puro e simples. É divertido, é bobo e é a Hollywood comercial em seu estado mais puro. Dependendo do que se procura pode ser sensacional ou simplesmente esquecível. Mas em termos de cinema, é um passo enorme à frente do tenebroso "Independence day".
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quarta-feira
DO INFERNO
DO
INFERNO (From hell, 2001, 20th Century Fox, 122min) Direção: Albert
Hughes, Allen Hughes. Roteiro: Terry Hayes, Rafael Yglesias, graphic
novel de Alan Moore, Eddie Campbell. Fotografia: Peter Deming. Montagem:
George Bowers, Dan Lebental. Música: Trevor Jones. Figurino: Kym
Barrett. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção
executiva: Thomas M. Hammell, Albert Hughes, Allen Hughes. Produção:
Jane Hamsher, Don Murphy. Elenco: Johnny Depp, Heather Graham, Ian Holm,
Robbie Coltrane, Ian Richardson, Jason Flemyng, Joanna Page, Mark
Dexter. Estreia: 08/9/01 (Festival de Veneza)
Um dos personagens mais fascinantes da crônica policial universal - e que deu origem a livros, filmes, peças de teatro, estudos, teses e todo tipo de material possível e imaginável - não poderia deixar de ser retratado em uma das manifestações artísticas mais cultuadas do final do século XX, as graphic novels. Tendo Jack, o Estripador como personagem principal - e revelando sua identidade logo nas primeiras páginas, com base em uma teoria que muitos consideram incorreta e sem sentido - o livro "Do inferno", escrito e desenhado por Alan Moore e Eddie Campbell chegou às livrarias em 1991, com mais de 570 páginas recheadas de informações e detalhes históricos capazes de fazer salivar qualquer interessado no assunto, por mais cético que seja a respeito de suas conclusões. Centrando sua trama nos pensamentos de Jack e em suas razões para assassinar as prostitutas londrinas que frequentavam a zona pobre da Londres de 1888, o livro parecia um desafio a qualquer roteirista de cinema, que se veria em maus lençóis para adaptar ao gosto do público médio uma história tão sangrenta e, pior ainda, sem um herói para se torcer. No entanto, como a terra do cinema tem seus meios - e um tema assim não poderia passar em brancas nuvens pelos ambiciosos produtores - o Festival de Veneza de 2001 serviu de plataforma para o lançamento de sua versão cinematográfica, dirigida por dois irmãos afro-americanos (Albert e Allen Hughes) e estrelada por um dos atores mais populares do cinema americano, Johnny Depp. Não, Depp - queridinho das adolescentes desde que fazia a telessérie "Anjos da lei" - não interpretava Jack. Aliás, Jack nem era mais o protagonista da história. Na versão da 20th Century Fox quem dava as cartas era Frederick Abberline, um dos inspetores responsáveis pela caça ao serial killer. Coisas de Hollywood.
No filme dos Irmãos Hughes - estiloso, plasticamente estonteante e visceralmente violento, ainda que disfarce tal violência com uma fotografia apropriadamente escurecida - Abberline assume a protagonização da história, sendo promovido de sua função no livro e tendo sua personalidade alterada, uma vez que chamou para si características de outro personagem importante da narrativa literária (um vidente chamado Robert Lees que foi limado do roteiro final). Interpretado por Depp, o inspetor ganhou novas nuances (vício em ópio, por exemplo, o que cai como uma luva na mania do ator em sempre interpretar excêntricos ou drogados) e até uma insinuação de romance com a prostituta Mary Kelly (Heather Graham), que, a despeito da descrição de suas colegas feitas em todo e qualquer artigo escrito sobre o assunto, é bonita, limpa e jovem. Assumindo o papel que foi oferecido anteriormente a Daniel Day Lewis, Jude Law, Brad Pitt e até Sean Connery, Depp oferece ao filme o que a graphic novel não tinha - um herói com passado dramático com quem o público possa se identificar - mas tira do projeto o que ele poderia ter de melhor: personalidade.
Ao optar por um ritmo repleto de camadas que exploravam todas as linhas investigativas do caso de Jack, os autores da graphic novel criaram uma obra única e fascinante, mas os fãs do livro tiveram que contentar-se com uma adaptação narrativa nos moldes clássicos, ou seja, sem maiores ousadias ou surpresas. Na Londres de 1888, uma série de assassinatos mexe com a imaginação popular e com a segurança pública: prostitutas estão sendo violentamente mortas e mutiladas por um criminoso que parece ter conhecimento de anatomia humana e tem um sombrio senso de humor, deixando recados à polícia a respeito de seus feitos. Auto-intitulado Jack, o Estripador, ele acaba por tornar-se a missão do Inspetor Abberline (Depp) - cujos métodos pouco ortodoxos de investigação incluem visões promovidas pelo uso constante de ópio. Seguindo as pistas deixadas pelo psicopata, ele chega até Sir William Gull (Ian Holm), médico da família real e membro da comunidade maçônica londrina que aparenta saber muito mais do que deixa antever seu cuidado excessivo com o jovem príncipe Edward Albert (Mark Dexter) - que mantém uma misteriosa relação com uma jovem prostituta chamada Ann Crook (Joanna Page) e pode ser a chave do mistério.
Apesar de diluir todas as informações da obra original para que elas caibam em um filme de duas horas e de tirar dela sua essência, a versão para o cinema de "Do inferno" tem muitas qualidades, especialmente quando o assunto é visual. A fotografia de Peter Deming e a reconstituição de época que praticamente esfrega na cara do público a pobreza e a tristeza de um lado menos turístico de Londres são excepcionais, assim como a noção dos irmãos Hughes em explorar da melhor maneira possível os detalhes históricos da trama mesmo que seu desfecho não seja reconhecido como verdadeiro. Uma adaptação fiel seria genial, mas dentro do cinema comercial e suas exigências, é um filme policial clássico - com direito até mesmo a um final açucarado que quase põe tudo a perder e alguns exageros facilmente perdoáveis - capaz de agradar a quem tem paciência para produtos com ritmo menos alucinante. E nem Johnny Depp e seus excessos conseguem estragar o programa.
Um dos personagens mais fascinantes da crônica policial universal - e que deu origem a livros, filmes, peças de teatro, estudos, teses e todo tipo de material possível e imaginável - não poderia deixar de ser retratado em uma das manifestações artísticas mais cultuadas do final do século XX, as graphic novels. Tendo Jack, o Estripador como personagem principal - e revelando sua identidade logo nas primeiras páginas, com base em uma teoria que muitos consideram incorreta e sem sentido - o livro "Do inferno", escrito e desenhado por Alan Moore e Eddie Campbell chegou às livrarias em 1991, com mais de 570 páginas recheadas de informações e detalhes históricos capazes de fazer salivar qualquer interessado no assunto, por mais cético que seja a respeito de suas conclusões. Centrando sua trama nos pensamentos de Jack e em suas razões para assassinar as prostitutas londrinas que frequentavam a zona pobre da Londres de 1888, o livro parecia um desafio a qualquer roteirista de cinema, que se veria em maus lençóis para adaptar ao gosto do público médio uma história tão sangrenta e, pior ainda, sem um herói para se torcer. No entanto, como a terra do cinema tem seus meios - e um tema assim não poderia passar em brancas nuvens pelos ambiciosos produtores - o Festival de Veneza de 2001 serviu de plataforma para o lançamento de sua versão cinematográfica, dirigida por dois irmãos afro-americanos (Albert e Allen Hughes) e estrelada por um dos atores mais populares do cinema americano, Johnny Depp. Não, Depp - queridinho das adolescentes desde que fazia a telessérie "Anjos da lei" - não interpretava Jack. Aliás, Jack nem era mais o protagonista da história. Na versão da 20th Century Fox quem dava as cartas era Frederick Abberline, um dos inspetores responsáveis pela caça ao serial killer. Coisas de Hollywood.
No filme dos Irmãos Hughes - estiloso, plasticamente estonteante e visceralmente violento, ainda que disfarce tal violência com uma fotografia apropriadamente escurecida - Abberline assume a protagonização da história, sendo promovido de sua função no livro e tendo sua personalidade alterada, uma vez que chamou para si características de outro personagem importante da narrativa literária (um vidente chamado Robert Lees que foi limado do roteiro final). Interpretado por Depp, o inspetor ganhou novas nuances (vício em ópio, por exemplo, o que cai como uma luva na mania do ator em sempre interpretar excêntricos ou drogados) e até uma insinuação de romance com a prostituta Mary Kelly (Heather Graham), que, a despeito da descrição de suas colegas feitas em todo e qualquer artigo escrito sobre o assunto, é bonita, limpa e jovem. Assumindo o papel que foi oferecido anteriormente a Daniel Day Lewis, Jude Law, Brad Pitt e até Sean Connery, Depp oferece ao filme o que a graphic novel não tinha - um herói com passado dramático com quem o público possa se identificar - mas tira do projeto o que ele poderia ter de melhor: personalidade.
Ao optar por um ritmo repleto de camadas que exploravam todas as linhas investigativas do caso de Jack, os autores da graphic novel criaram uma obra única e fascinante, mas os fãs do livro tiveram que contentar-se com uma adaptação narrativa nos moldes clássicos, ou seja, sem maiores ousadias ou surpresas. Na Londres de 1888, uma série de assassinatos mexe com a imaginação popular e com a segurança pública: prostitutas estão sendo violentamente mortas e mutiladas por um criminoso que parece ter conhecimento de anatomia humana e tem um sombrio senso de humor, deixando recados à polícia a respeito de seus feitos. Auto-intitulado Jack, o Estripador, ele acaba por tornar-se a missão do Inspetor Abberline (Depp) - cujos métodos pouco ortodoxos de investigação incluem visões promovidas pelo uso constante de ópio. Seguindo as pistas deixadas pelo psicopata, ele chega até Sir William Gull (Ian Holm), médico da família real e membro da comunidade maçônica londrina que aparenta saber muito mais do que deixa antever seu cuidado excessivo com o jovem príncipe Edward Albert (Mark Dexter) - que mantém uma misteriosa relação com uma jovem prostituta chamada Ann Crook (Joanna Page) e pode ser a chave do mistério.
Apesar de diluir todas as informações da obra original para que elas caibam em um filme de duas horas e de tirar dela sua essência, a versão para o cinema de "Do inferno" tem muitas qualidades, especialmente quando o assunto é visual. A fotografia de Peter Deming e a reconstituição de época que praticamente esfrega na cara do público a pobreza e a tristeza de um lado menos turístico de Londres são excepcionais, assim como a noção dos irmãos Hughes em explorar da melhor maneira possível os detalhes históricos da trama mesmo que seu desfecho não seja reconhecido como verdadeiro. Uma adaptação fiel seria genial, mas dentro do cinema comercial e suas exigências, é um filme policial clássico - com direito até mesmo a um final açucarado que quase põe tudo a perder e alguns exageros facilmente perdoáveis - capaz de agradar a quem tem paciência para produtos com ritmo menos alucinante. E nem Johnny Depp e seus excessos conseguem estragar o programa.
sexta-feira
O AVIADOR
O AVIADOR (The aviator, 2004, Miramax Films, 170min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: John Logan. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Howard Shore. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Chris Brigham, Colin Cotter, Leonardo DiCaprio, Rick Schwartz, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Rick Yorn. Produção: Sandy Climan, Charles Evans Jr., Graham King, Michael Mann. Elenco: Leonardo DiCaprio, Cate Blanchett, Kate Beckinsale, Alan Alda, Alec Baldwin, John C. Reilly, Ian Holm, Danny Huston, Jude Law, Adam Scott, Frances Conroy, Gwen Stefani. Estreia: 14/12/04
11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Alan Alda), Atriz Coadjuvante (Cate Blanchett), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de arte/cenários, Mixagem de Som
Vencedor de 5 Oscar: Atriz Coadjuvante (Cate Blanchett), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/cenários
Vencedor de 3 Golden Globe: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Leonardo DiCaprio), Trilha Sonora
O projeto sobre Howard Hughes já vagava em Hollywood há anos quando Martin Scorsese entrou em cena. E, ao finalmente transportar para as telas a história de um dos maiores visionários dos primórdios da sétima arte, o veterano diretor chegou pertinho de seu primeiro Oscar. "O aviador" concorreu em dez categorias e venceu em cinco: fotografia, montagem, figurino, direção de arte e atriz coadjuvante, para uma irrepreensível Cate Blanchett na pele de Katharine Hepburn, uma atuação quase mediúnica.
Howard Hughes (Leonardo DiCaprio) é um milionário de herança que tem três paixões na vida, não necessariamente nessa ordem: aviões, cinema e mulheres. Visionário e perfeccionista, ele resolve unir seus três amores no mesmo projeto e produz e dirige um ambicioso filme sobre a primeira guerra, utilizando aviões de verdade e lançando a carreira da atriz Jean Harlow (a cantora Gwen Stefani em aparição-relâmpago). Mesmo indo contra seus contadores - a cada dia mais apavorados - ele demora anos para finalmente estar satisfeito com a obra e lançá-la nos cinemas. Nesse meio-tempo, Hughes envolve-se com as atrizes Katharine Hepburn (Cate Blanchett) e Ava Gardner (Kate Beckinsale), com os poderosos membros da Panam, com um senador ambicioso e mau-caráter (Alan Alda, surpreendentemente indicado ao Oscar de coadjuvante masculino) e, depois de um grave acidente aéreo, com um sério problema de transtorno obsessivo-compulsivo, contra o qual lutará até o fim de sua vida.

"O aviador" tem inúmeras e inegáveis qualidades: todos os Oscar que recebeu foram justíssimos, e até mesmo Leonardo DiCaprio deixa de ser um astro para voltar a ser o ator com o talento com o qual acenava em "Gilbert Grape, aprendiz de sonhador" e que parecia ter perdido em filmes como "A praia". A complexa personagem que defende é repleta de armadilhas e o jovem ator sai-se admiravelmente bem na maioria delas, esbarrando apenas na questão etária: apesar de bom ator, ele não aparenta a idade que é necessária em certos momentos. Até mesmo sua relação com Cate Blanchett em cena fica comprometida devido a essa questão fundamental.
A única razão que pode-se apontar é a falta de emoção do resultado final. "O aviador" carece de emoção real, verdadeira. É dono de um belíssimo visual, tem uma equipe impecável e uma história forte e emocionante, mas parece não ter coração. Apesar do esforço de todo o elenco, por exemplo, somente Cate Blanchett parece ter uma personagem humana em mãos. O próprio Hughes aparenta uma frieza que provavelmente prejudica sua empatia com o público. Talvez por isso Scorsese tenha perdido o Oscar para Clint Eastwood, uma vez que "Menina de ouro" - o filme vencedor do ano - apelava muito mais para os sentimentos do que para os olhos, ao contrário dessa superprodução suntuosa mas quase insensível.
Ainda assim, é flagrante que "O aviador" é um dos grandes filmes de Scorsese, infinitamente superior ao seu antecessor "Gangues de Nova York" e digno dentrar na lista de seus maiores sucessos.
11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Alan Alda), Atriz Coadjuvante (Cate Blanchett), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de arte/cenários, Mixagem de Som
Vencedor de 5 Oscar: Atriz Coadjuvante (Cate Blanchett), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/cenários
Vencedor de 3 Golden Globe: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Leonardo DiCaprio), Trilha Sonora
O projeto sobre Howard Hughes já vagava em Hollywood há anos quando Martin Scorsese entrou em cena. E, ao finalmente transportar para as telas a história de um dos maiores visionários dos primórdios da sétima arte, o veterano diretor chegou pertinho de seu primeiro Oscar. "O aviador" concorreu em dez categorias e venceu em cinco: fotografia, montagem, figurino, direção de arte e atriz coadjuvante, para uma irrepreensível Cate Blanchett na pele de Katharine Hepburn, uma atuação quase mediúnica.
Howard Hughes (Leonardo DiCaprio) é um milionário de herança que tem três paixões na vida, não necessariamente nessa ordem: aviões, cinema e mulheres. Visionário e perfeccionista, ele resolve unir seus três amores no mesmo projeto e produz e dirige um ambicioso filme sobre a primeira guerra, utilizando aviões de verdade e lançando a carreira da atriz Jean Harlow (a cantora Gwen Stefani em aparição-relâmpago). Mesmo indo contra seus contadores - a cada dia mais apavorados - ele demora anos para finalmente estar satisfeito com a obra e lançá-la nos cinemas. Nesse meio-tempo, Hughes envolve-se com as atrizes Katharine Hepburn (Cate Blanchett) e Ava Gardner (Kate Beckinsale), com os poderosos membros da Panam, com um senador ambicioso e mau-caráter (Alan Alda, surpreendentemente indicado ao Oscar de coadjuvante masculino) e, depois de um grave acidente aéreo, com um sério problema de transtorno obsessivo-compulsivo, contra o qual lutará até o fim de sua vida.
"O aviador" tem inúmeras e inegáveis qualidades: todos os Oscar que recebeu foram justíssimos, e até mesmo Leonardo DiCaprio deixa de ser um astro para voltar a ser o ator com o talento com o qual acenava em "Gilbert Grape, aprendiz de sonhador" e que parecia ter perdido em filmes como "A praia". A complexa personagem que defende é repleta de armadilhas e o jovem ator sai-se admiravelmente bem na maioria delas, esbarrando apenas na questão etária: apesar de bom ator, ele não aparenta a idade que é necessária em certos momentos. Até mesmo sua relação com Cate Blanchett em cena fica comprometida devido a essa questão fundamental.
A parte técnica de "O aviador" é admirável, como se espera de um filme com a assinatura de Martin Scorses. A reconstituição de época é formidável, a fotografia de Robert Richardson parece ter vida própria e a música de Howard Shore combina perfeitamente com o clima pretendido pelo cineasta. O elenco, além de DiCaprio e Blanchett, conta com um Alan Alda venal e odioso, um Alec Baldwin cada vez melhor e Jude Law e Gwen Stefani em pontas luxuosas. Por que, então, o filme não é a obra-prima que poderia ter sido?
A única razão que pode-se apontar é a falta de emoção do resultado final. "O aviador" carece de emoção real, verdadeira. É dono de um belíssimo visual, tem uma equipe impecável e uma história forte e emocionante, mas parece não ter coração. Apesar do esforço de todo o elenco, por exemplo, somente Cate Blanchett parece ter uma personagem humana em mãos. O próprio Hughes aparenta uma frieza que provavelmente prejudica sua empatia com o público. Talvez por isso Scorsese tenha perdido o Oscar para Clint Eastwood, uma vez que "Menina de ouro" - o filme vencedor do ano - apelava muito mais para os sentimentos do que para os olhos, ao contrário dessa superprodução suntuosa mas quase insensível.
Ainda assim, é flagrante que "O aviador" é um dos grandes filmes de Scorsese, infinitamente superior ao seu antecessor "Gangues de Nova York" e digno dentrar na lista de seus maiores sucessos.
segunda-feira
O DOCE AMANHÃ
O DOCE AMANHÃ (The sweet hereafter, 1997, 112min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Atom Egoyan, romance de Russell Banks. Fotografia: Paul Sarossy. Montagem: Susan Shipton. Música: Mychael Danna. Figurino: Beth Pasternak. Direção de arte/cenários: Phillip Barker/Patricia Cuccia. Produção executiva: Andras Hamori, Robert Lantos. Produção: Atom Egoyan, Camelia Frieberg.. Elenco: Ian Holm, Caerthan Banks, Sarah Polley, Tom McCamus, Gabrielle Rose. Estreia: 04/10/97
2 indicações ao Oscar: Diretor (Atom Egoyan), Roteiro Adaptado
Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes
Para provar que é cosmopolita e presta atenção em filmes além daqueles feitos pelos grandes estúdios só para ganhar Oscar, a Academia de Hollywood sempre dá um jeito de indicar diretores menos comerciais ao seu cobiçado prêmio. Em 1997, disputando a preferência dos eleitores com James Cameron e Curtis Hanson, estava o egípcio Atom Egoyan, conhecido do circuito de filmes de arte graças a filmes como "Exótica", premiado no Festival de Cannes de 1994. No entanto, sua indicação, ainda que inesperada, não pode ser creditada somente a essa tendência. "O doce amanhã", que lhe proporcionou uma indicação dupla - como diretor e como roteirista - é um profundo estudo sobre a condição humana e suas idiossincrasias, realizado com a delicadeza de que somente cineastas de fora do circuito do cinemão são capazes.
Adaptado de um romance de Russell Banks - que faz uma pequena participação especial como ator - "O doce amanhã" é um drama adulto, sério e maduro, que não se prende a uma narração linear para contar não apenas uma, mas duas histórias intensas e fortes. Apoiado em uma atuação espetacular de Ian Holm, que substituiu Donald Sutherland no último minuto, o filme de Egoyan toca em assuntos difíceis, como incesto, adultério e vício em drogas mas nunca apela para o choque gratuito ou para denúncias vazias. A intenção do diretor, mais do que fazer discursos ocos, é deixar sua audiência acompanhar como um voyeur todos os desdobramentos de uma (ou duas) tramas que, aparentemente sem conexão, complementam uma à outra.
Ian Holm, em uma interpretação repleta de silêncios devastadores, vive Mitchell Stevens, um advogado que chega a uma pequena cidade do Canadá com o objetivo de convencer seus moradores a mover um processo de negligência contra os fabricantes do ônibus escolar que matou 20 crianças em um trágico acidente. Assombrado pela relação falha que tem com a única filha, Zoe (Caerthan Banks, filha do autor do livro que deu origem ao roteiro), Stevens encontra tanto apoio quanto resistência em sua ideia de ganhar a ação como forma de aplacar seus sentimentos de perda. O único morador que luta contra Stevens é Billy (Bruce Greenwood), que perdeu os filhos gêmeos no acidente e que não vê como um processo pode diminuir sua dor. Enquanto tenta fazer Billy mudar de ideia - contando para isso com a ajuda de uma das poucas sobreviventes, a adolescente Nicole (Sarah Polley), confinada a uma cadeira de rodas - o advogado tem que lidar também com os problemas da filha, viciada em drogas e contaminada pelo vírus da AIDS.

A trama principal do livro e do filme - a tentativa de Stevens em levar adiante seu processo - proporciona ao público a possibilidade de ter uma visão privilegiada da vida dos habitantes da pequena cidade, algo assim como David Lynch fez com "Twin Peaks" - não por acaso também localizada na fronteira do Canadá. Enquanto Lynch usava e abusava de personagens bizarros, porém, Egoyan prefere retratar gente comum, pessoas simples na aparência mas com demônios interiores poderosos. Ele não julga em momento algum, por exemplo, o fato de Nicole, uma adolescente que sonha em tornar-se cantora, ter um relacionamento físico e romântico com seu próprio pai, Sam (Tom McCamus) ou o caso extra-conjugal entre Billy e Risa (Alberta Watson). A bela fotografia de Paul Sarossy dá o tom de uma gélida melancolia, que encontra eco no olhar expressivo de Ian Holm. Elegante e discreta, a interpretação de Holm - vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Toronto - transmite a exata ideia do turbilhão emocional pelo qual passa sua personagem. Principalmente quando dá vazão aos sentimentos de Stevens em relação à filha - com a qual se comunica por telefone - o trabalho de Holm nunca fica aquém do espetacular. É arrebatadora, por exemplo, a cena em que Stevens conta a uma amiga da filha (e sua companheira em uma viagem de avião) a experiência de tê-la quase perdido na infância. A relação dessa cena, contada com delicadeza, com a sequência de abertura - e posteriormente em um outro momento de forte emoção - é coisa de quem sabe o que está fazendo. Só por essa cena Atom Egoyan já fez por merecer sua indicação ao Oscar.
"O doce amanhã" não é um filme de resultados imediatos. Sua história permanece na mente do público por um bom tempo, amadurecendo, fazendo sentido aos poucos - e é fascinante também sua conexão com a famosa fábula do flautista de Hamelin. É um filme triste, mas que cumpre com louvor seu objetivo de encantar os espectadores mais sensíveis e inteligentes. Um gol de placa de um diretor que, apesar de nunca ser medíocre, não conseguiu mais atingir tal nível de excelência.
2 indicações ao Oscar: Diretor (Atom Egoyan), Roteiro Adaptado
Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes
Para provar que é cosmopolita e presta atenção em filmes além daqueles feitos pelos grandes estúdios só para ganhar Oscar, a Academia de Hollywood sempre dá um jeito de indicar diretores menos comerciais ao seu cobiçado prêmio. Em 1997, disputando a preferência dos eleitores com James Cameron e Curtis Hanson, estava o egípcio Atom Egoyan, conhecido do circuito de filmes de arte graças a filmes como "Exótica", premiado no Festival de Cannes de 1994. No entanto, sua indicação, ainda que inesperada, não pode ser creditada somente a essa tendência. "O doce amanhã", que lhe proporcionou uma indicação dupla - como diretor e como roteirista - é um profundo estudo sobre a condição humana e suas idiossincrasias, realizado com a delicadeza de que somente cineastas de fora do circuito do cinemão são capazes.
Adaptado de um romance de Russell Banks - que faz uma pequena participação especial como ator - "O doce amanhã" é um drama adulto, sério e maduro, que não se prende a uma narração linear para contar não apenas uma, mas duas histórias intensas e fortes. Apoiado em uma atuação espetacular de Ian Holm, que substituiu Donald Sutherland no último minuto, o filme de Egoyan toca em assuntos difíceis, como incesto, adultério e vício em drogas mas nunca apela para o choque gratuito ou para denúncias vazias. A intenção do diretor, mais do que fazer discursos ocos, é deixar sua audiência acompanhar como um voyeur todos os desdobramentos de uma (ou duas) tramas que, aparentemente sem conexão, complementam uma à outra.
Ian Holm, em uma interpretação repleta de silêncios devastadores, vive Mitchell Stevens, um advogado que chega a uma pequena cidade do Canadá com o objetivo de convencer seus moradores a mover um processo de negligência contra os fabricantes do ônibus escolar que matou 20 crianças em um trágico acidente. Assombrado pela relação falha que tem com a única filha, Zoe (Caerthan Banks, filha do autor do livro que deu origem ao roteiro), Stevens encontra tanto apoio quanto resistência em sua ideia de ganhar a ação como forma de aplacar seus sentimentos de perda. O único morador que luta contra Stevens é Billy (Bruce Greenwood), que perdeu os filhos gêmeos no acidente e que não vê como um processo pode diminuir sua dor. Enquanto tenta fazer Billy mudar de ideia - contando para isso com a ajuda de uma das poucas sobreviventes, a adolescente Nicole (Sarah Polley), confinada a uma cadeira de rodas - o advogado tem que lidar também com os problemas da filha, viciada em drogas e contaminada pelo vírus da AIDS.

A trama principal do livro e do filme - a tentativa de Stevens em levar adiante seu processo - proporciona ao público a possibilidade de ter uma visão privilegiada da vida dos habitantes da pequena cidade, algo assim como David Lynch fez com "Twin Peaks" - não por acaso também localizada na fronteira do Canadá. Enquanto Lynch usava e abusava de personagens bizarros, porém, Egoyan prefere retratar gente comum, pessoas simples na aparência mas com demônios interiores poderosos. Ele não julga em momento algum, por exemplo, o fato de Nicole, uma adolescente que sonha em tornar-se cantora, ter um relacionamento físico e romântico com seu próprio pai, Sam (Tom McCamus) ou o caso extra-conjugal entre Billy e Risa (Alberta Watson). A bela fotografia de Paul Sarossy dá o tom de uma gélida melancolia, que encontra eco no olhar expressivo de Ian Holm. Elegante e discreta, a interpretação de Holm - vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Toronto - transmite a exata ideia do turbilhão emocional pelo qual passa sua personagem. Principalmente quando dá vazão aos sentimentos de Stevens em relação à filha - com a qual se comunica por telefone - o trabalho de Holm nunca fica aquém do espetacular. É arrebatadora, por exemplo, a cena em que Stevens conta a uma amiga da filha (e sua companheira em uma viagem de avião) a experiência de tê-la quase perdido na infância. A relação dessa cena, contada com delicadeza, com a sequência de abertura - e posteriormente em um outro momento de forte emoção - é coisa de quem sabe o que está fazendo. Só por essa cena Atom Egoyan já fez por merecer sua indicação ao Oscar.
"O doce amanhã" não é um filme de resultados imediatos. Sua história permanece na mente do público por um bom tempo, amadurecendo, fazendo sentido aos poucos - e é fascinante também sua conexão com a famosa fábula do flautista de Hamelin. É um filme triste, mas que cumpre com louvor seu objetivo de encantar os espectadores mais sensíveis e inteligentes. Um gol de placa de um diretor que, apesar de nunca ser medíocre, não conseguiu mais atingir tal nível de excelência.
quarta-feira
POR UMA VIDA MENOS ORDINÁRIA
POR UMA VIDA MENOS ORDINÁRIA (A life less ordinary, 1997, Channel Four Films/Polygram Filmed Entertainment, 103min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: Masahiro Irakubo. Música: David Arnold. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Marcia Calosio. Produção: Andrew Macdonald. Elenco: Cameron Diaz, Ewan McGregor, Ian Holm, Holly Hunter, Delroy Lindo, Dan Hedaya, Stanley Tucci, Tony Shalhoub, Timothy Olyphant. Estreia: 24/10/97
Robert Lewis (Ewan McGregor) é um sujeito de pouca sorte. Desacreditado em suas tentativas de tornar-se escritor de um romance trash, ele, no mesmo dia, é abandonado pela namorada (que o deixa pelo professor de aeróbica) e demitido do emprego de faxineiro de uma empresa (sendo substituído por um robô). Indignado com sua situação desesperadora, ele invade o escritório de seu chefe e, ao perceber que nada fará o frio empresário mudar de ideia a respeito de sua dispensa, faz a única coisa que lhe passa na cabeça: sequestra sua filha, a dondoca Celine Naville (Cameron Diaz). A moça, revoltada com o fato de ser obrigada a trabalhar para pagar por seus luxos, une-se então a Robert para arrancar dinheiro de seu pai. O que os dois jovens nem de longe sonham, porém, é que dois anjos bastante atrapalhados - O'Reilly (Holly Hunter) e Jackson (Delroy Lindo) - tem a difícil missão de fazê-los se apaixonarem um pelo outro, para que não sejam obrigados a viver na Terra pra sempre.
Com essa premissa de novela das sete, a dupla Danny Boyle (diretor) e John Hodge (roteirista) voltou às telas depois do estrondoso sucesso crítico de "Trainspotting", que colocaram seus nomes no mapa da indústria hollywoodiana. Contando ainda com o ator Ewan McGregor (com quem haviam trabalhado ainda em "Cova rasa"), Boyle e Hodge experimentaram, para seu desgosto, o amargo sabor do fracasso. Ignorado pelo público e malhado pela crítica, "Por uma vida menos ordinária" nem de longe causou o mesmo impacto de seus trabalhos anteriores e, pior ainda, foi rechaçado até mesmo pelos fãs mais fiéis do time até então vencedor. Mas afinal de contas, a comédia romântica de Boyle mereceu todo essa vaia generalizada?

É preciso saber se o público - e até mesmo a imprensa - entendeu a proposta do cineasta e seus fiéis asseclas. O que se pode esperar de uma comédia romântica cujos autores deram ao mundo um suspense recheado de humor negro e um drama sobre drogas que foi acusado de glamourizá-las? Obviamente não há, em "Por uma vida menos ordinári"a, cenas daqueles romances melosos que Hollywood costuma empurrar a plateias sedentas por escapismo sentimental. Quando acontece de falarem de amor, logo somos lembrados - pela trilha sonora propositalmente piegas ou pelos absurdos do roteiro - de que estamos diante de um filme que fala de amor, sim, mas da maneira menos convencional possível. Robert e Celine não formam um típico par romântico ele é quase um banana, capaz de desmaiar ao ver sangue, e ela é uma riquinha mimada cujo hobby é brincar de Guilherme Tell (mesmo que corra o risco de ferir o próprio ex-namorado). E o fato de estarem à mercê de dois anjos nada dados a sentimentalismos e capazes de violência física para atingir seus objetivos apenas reitera o tom de brincadeira absoluta. É preciso que se compre a proposta de Por uma vida menos ordinária. E o público, infelizmente, dessa vez não comprou.
Logicamente nem tudo são flores... É necessário admitir que há muitos erros em "Por uma vida menos ordinária", a começar pelo roteiro que, apesar de alguns bons momentos, não chega nem aos pés do brilhantismo de "Trainspotting" e "Cova rasa". As personagens são mal delineadas (talvez de propósito, mas isso não fica exatamente claro) e certas situações não se desenvolvem a contento, dando a impressão de uma colagem de desventuras sem muita conexão. Mas Danny Boyle é visivelmente um diretor muito criativo e isso fica nítido em soluções visuais bastante interessantes, como o céu de um branco absoluto e na sequência musical em que Ewan McGregor e Cameron Diaz parecem se divertir a valer (McGregor inclusive voltaria a demonstrar seus dotes vocais nos filmes "Velvet Goldmine" e "Moulin Rouge"). Somados à atuação delirante de Holly Hunter (de longe a melhor coisa do filme) e à trilha sonora impecável (característica das obras do diretor), esses momentos de criatividade fazem do filme uma agradável experiência. Pode não ser um Danny Boyle dos melhores, mas está longe de ser um dos piores. E tem a simpatia contagiante de Ewan McGregor.
Robert Lewis (Ewan McGregor) é um sujeito de pouca sorte. Desacreditado em suas tentativas de tornar-se escritor de um romance trash, ele, no mesmo dia, é abandonado pela namorada (que o deixa pelo professor de aeróbica) e demitido do emprego de faxineiro de uma empresa (sendo substituído por um robô). Indignado com sua situação desesperadora, ele invade o escritório de seu chefe e, ao perceber que nada fará o frio empresário mudar de ideia a respeito de sua dispensa, faz a única coisa que lhe passa na cabeça: sequestra sua filha, a dondoca Celine Naville (Cameron Diaz). A moça, revoltada com o fato de ser obrigada a trabalhar para pagar por seus luxos, une-se então a Robert para arrancar dinheiro de seu pai. O que os dois jovens nem de longe sonham, porém, é que dois anjos bastante atrapalhados - O'Reilly (Holly Hunter) e Jackson (Delroy Lindo) - tem a difícil missão de fazê-los se apaixonarem um pelo outro, para que não sejam obrigados a viver na Terra pra sempre.
Com essa premissa de novela das sete, a dupla Danny Boyle (diretor) e John Hodge (roteirista) voltou às telas depois do estrondoso sucesso crítico de "Trainspotting", que colocaram seus nomes no mapa da indústria hollywoodiana. Contando ainda com o ator Ewan McGregor (com quem haviam trabalhado ainda em "Cova rasa"), Boyle e Hodge experimentaram, para seu desgosto, o amargo sabor do fracasso. Ignorado pelo público e malhado pela crítica, "Por uma vida menos ordinária" nem de longe causou o mesmo impacto de seus trabalhos anteriores e, pior ainda, foi rechaçado até mesmo pelos fãs mais fiéis do time até então vencedor. Mas afinal de contas, a comédia romântica de Boyle mereceu todo essa vaia generalizada?
É preciso saber se o público - e até mesmo a imprensa - entendeu a proposta do cineasta e seus fiéis asseclas. O que se pode esperar de uma comédia romântica cujos autores deram ao mundo um suspense recheado de humor negro e um drama sobre drogas que foi acusado de glamourizá-las? Obviamente não há, em "Por uma vida menos ordinári"a, cenas daqueles romances melosos que Hollywood costuma empurrar a plateias sedentas por escapismo sentimental. Quando acontece de falarem de amor, logo somos lembrados - pela trilha sonora propositalmente piegas ou pelos absurdos do roteiro - de que estamos diante de um filme que fala de amor, sim, mas da maneira menos convencional possível. Robert e Celine não formam um típico par romântico ele é quase um banana, capaz de desmaiar ao ver sangue, e ela é uma riquinha mimada cujo hobby é brincar de Guilherme Tell (mesmo que corra o risco de ferir o próprio ex-namorado). E o fato de estarem à mercê de dois anjos nada dados a sentimentalismos e capazes de violência física para atingir seus objetivos apenas reitera o tom de brincadeira absoluta. É preciso que se compre a proposta de Por uma vida menos ordinária. E o público, infelizmente, dessa vez não comprou.
Logicamente nem tudo são flores... É necessário admitir que há muitos erros em "Por uma vida menos ordinária", a começar pelo roteiro que, apesar de alguns bons momentos, não chega nem aos pés do brilhantismo de "Trainspotting" e "Cova rasa". As personagens são mal delineadas (talvez de propósito, mas isso não fica exatamente claro) e certas situações não se desenvolvem a contento, dando a impressão de uma colagem de desventuras sem muita conexão. Mas Danny Boyle é visivelmente um diretor muito criativo e isso fica nítido em soluções visuais bastante interessantes, como o céu de um branco absoluto e na sequência musical em que Ewan McGregor e Cameron Diaz parecem se divertir a valer (McGregor inclusive voltaria a demonstrar seus dotes vocais nos filmes "Velvet Goldmine" e "Moulin Rouge"). Somados à atuação delirante de Holly Hunter (de longe a melhor coisa do filme) e à trilha sonora impecável (característica das obras do diretor), esses momentos de criatividade fazem do filme uma agradável experiência. Pode não ser um Danny Boyle dos melhores, mas está longe de ser um dos piores. E tem a simpatia contagiante de Ewan McGregor.
domingo
FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY
FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY (Mary Shelley's Frankenstein, 1994, TriStar Pictures, 123min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Frank Darabont, Steph Lady, romance de Mary Shelley. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Andrew Marcus. Música: Patrick Doyle. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Tim Harvey/Martin Childs. Produção executiva: Fred Fuchs. Produção: Francis Ford Coppola, James V. Hart, John Veitch. Elenco: Kenneth Branagh, Robert De Niro, Helena Bonham Carter, Ian Holm, Aidan Quinn, Tom Hulce, John Cleese, Hugh Bonneville, Richard Briers. Estreia: 04/11/94
Indicado ao Oscar de Maquiagem
Entusiasmado com o sucesso de bilheteria e crítica de "Drácula de Bram Stoker" - sua visão opulenta e operística de um clássico absoluto - o cineasta Francis Ford Coppola teve a ideia de reapresentar a um público carente de boas produções do gênero alguns outros "monstros" da literatura de terror. Antes de desistir de um filme sobre lobisomens (mesmo porque o tenebroso "Lobo", de Mike Nichols, matou qualquer interesse no assunto), o diretor de "O poderoso chefão" produziu, através de sua Zoetrope, a versão mais intensa e fiel de um dos livros mais conhecidos do estilo. No entanto, dirigido pelo irlandês Kenneth Branagh (em alta depois de ser considerado um novo Laurence Olivier, graças a suas adaptações de obras de Shakespeare), "Frankenstein de Mary Shelley" não atingiu as altas expectativas em torno de si: fracassou nas bilheterias e não empolgou a crítica.
Assim como em "Drácula de Bram Stoker" o filme de Branagh começa com um prólogo que suas versões anteriores dispensaram: no final do século XVIII, o explorador Robert Walton (Aidan Quinn) tenta descobrir novas terras, ignorando os perigos que a aventura proporciona. Durante uma viagem, ele encontra Victor Frankenstein (Kenneth Branagh), que lhe conta, sôfrego e apavorado, sua trágica história de desafio à ordem natural das coisas. Órfão de mãe desde a infância, ele sempre tentou encontrar uma maneira de reverter o processo da morte. Durante seu curso de Medicina - e depois de testemunhar a cruel morte de um mestre - ele finalmente tem a oportunidade que esperava: utilizando anotações de um professor, ele dá vida a uma criatura juntando partes de diversos corpos. Depois de rejeitá-la por considerá-la um erro, ele tenta continuar com sua vida normal ao lado da amada Elizabeth (Helena Bonham-Carter), mas o monstro criado por ele (Robert DeNiro) resolve vingar-se da rejeição da única maneira que conhece: com violência.
A história criada por Mary Shelley em uma única noite (segundo reza a lenda) tem inúmeras ressonâncias filosóficas e éticas que o roteiro de Steph Lady e Frank Darabont - este último diretor do ótimo "Um sonho de liberdade" - tenta manter, sem muito sucesso. O belo visual impresso pela fotografia imponente de Roger Pratt impressiona, mas a direção de Branagh esbarra em um erro crasso: a falta absoluta de sutileza. Não há espaço, nessa versão quase histérica, para momentos de silêncios ou discrição. Do início ao fim do filme, por exemplo, o ator Branagh surge em cena gritando, correndo e suando, enquanto seus colegas de elenco apenas tentam seguir seu ritmo acelerado (e não ágil, entenda-se). Helena Bonham-Carter, uma excelente atriz, pouco tem a fazer com sua Elizabeth, que nunca passa de uma expectadora passiva dos trágicos acontecimentos que ocorrem à sua volta até que torna-se vítima da ambição do amado. E Robert DeNiro, cujo currículo dispensa qualquer tipo de comentário, está no pior momento de sua carreira, restrito a caras e bocas exageradas que nem mesmo a maquiagem asquerosa (que concorreu merecidamente ao Oscar) consegue salvar.

Mas, então, o que "Frankenstein de Mary Shelley" tem de bom, que justifique uma sessão? Longe de ser uma porcaria, o filme de Branagh (diretor do interessante "Voltar a morrer" e da genial adaptação de "Hamlet" feita logo em seguida) não é uma obra-prima como "Drácula de Bram Stoker" mas está longe de ser de todo ruim. Como já foi dito, o visual é arrebatador, desde a fotografia sombria até a direção de arte caprichada e a trilha sonora de Patrick Doyle é sensível o suficiente para amenizar algumas sequências mais pesadas. E a história de Shelley por si mesma já é boa o bastante para prender a atenção, sem contar em algumas ideias muito interessantes do cineasta - a criação do monstro, por exemplo, apresenta uma espécie de útero em tamanho descomunal, com direito a líquido amniótico e tudo. Porém, a concepção do filme é melhor do que seu resultado final, conforme o próprio Coppola admitiu, retirando-se da divulgação do produto.
No final de contas, "Frankenstein de Mary Shelley" vale a pena por seu visual barroco e por sua história atemporal e repleta de questionamentos. Mas sem dúvida poderia ter sido um filme bem melhor.
Indicado ao Oscar de Maquiagem
Entusiasmado com o sucesso de bilheteria e crítica de "Drácula de Bram Stoker" - sua visão opulenta e operística de um clássico absoluto - o cineasta Francis Ford Coppola teve a ideia de reapresentar a um público carente de boas produções do gênero alguns outros "monstros" da literatura de terror. Antes de desistir de um filme sobre lobisomens (mesmo porque o tenebroso "Lobo", de Mike Nichols, matou qualquer interesse no assunto), o diretor de "O poderoso chefão" produziu, através de sua Zoetrope, a versão mais intensa e fiel de um dos livros mais conhecidos do estilo. No entanto, dirigido pelo irlandês Kenneth Branagh (em alta depois de ser considerado um novo Laurence Olivier, graças a suas adaptações de obras de Shakespeare), "Frankenstein de Mary Shelley" não atingiu as altas expectativas em torno de si: fracassou nas bilheterias e não empolgou a crítica.
Assim como em "Drácula de Bram Stoker" o filme de Branagh começa com um prólogo que suas versões anteriores dispensaram: no final do século XVIII, o explorador Robert Walton (Aidan Quinn) tenta descobrir novas terras, ignorando os perigos que a aventura proporciona. Durante uma viagem, ele encontra Victor Frankenstein (Kenneth Branagh), que lhe conta, sôfrego e apavorado, sua trágica história de desafio à ordem natural das coisas. Órfão de mãe desde a infância, ele sempre tentou encontrar uma maneira de reverter o processo da morte. Durante seu curso de Medicina - e depois de testemunhar a cruel morte de um mestre - ele finalmente tem a oportunidade que esperava: utilizando anotações de um professor, ele dá vida a uma criatura juntando partes de diversos corpos. Depois de rejeitá-la por considerá-la um erro, ele tenta continuar com sua vida normal ao lado da amada Elizabeth (Helena Bonham-Carter), mas o monstro criado por ele (Robert DeNiro) resolve vingar-se da rejeição da única maneira que conhece: com violência.
A história criada por Mary Shelley em uma única noite (segundo reza a lenda) tem inúmeras ressonâncias filosóficas e éticas que o roteiro de Steph Lady e Frank Darabont - este último diretor do ótimo "Um sonho de liberdade" - tenta manter, sem muito sucesso. O belo visual impresso pela fotografia imponente de Roger Pratt impressiona, mas a direção de Branagh esbarra em um erro crasso: a falta absoluta de sutileza. Não há espaço, nessa versão quase histérica, para momentos de silêncios ou discrição. Do início ao fim do filme, por exemplo, o ator Branagh surge em cena gritando, correndo e suando, enquanto seus colegas de elenco apenas tentam seguir seu ritmo acelerado (e não ágil, entenda-se). Helena Bonham-Carter, uma excelente atriz, pouco tem a fazer com sua Elizabeth, que nunca passa de uma expectadora passiva dos trágicos acontecimentos que ocorrem à sua volta até que torna-se vítima da ambição do amado. E Robert DeNiro, cujo currículo dispensa qualquer tipo de comentário, está no pior momento de sua carreira, restrito a caras e bocas exageradas que nem mesmo a maquiagem asquerosa (que concorreu merecidamente ao Oscar) consegue salvar.
Mas, então, o que "Frankenstein de Mary Shelley" tem de bom, que justifique uma sessão? Longe de ser uma porcaria, o filme de Branagh (diretor do interessante "Voltar a morrer" e da genial adaptação de "Hamlet" feita logo em seguida) não é uma obra-prima como "Drácula de Bram Stoker" mas está longe de ser de todo ruim. Como já foi dito, o visual é arrebatador, desde a fotografia sombria até a direção de arte caprichada e a trilha sonora de Patrick Doyle é sensível o suficiente para amenizar algumas sequências mais pesadas. E a história de Shelley por si mesma já é boa o bastante para prender a atenção, sem contar em algumas ideias muito interessantes do cineasta - a criação do monstro, por exemplo, apresenta uma espécie de útero em tamanho descomunal, com direito a líquido amniótico e tudo. Porém, a concepção do filme é melhor do que seu resultado final, conforme o próprio Coppola admitiu, retirando-se da divulgação do produto.
No final de contas, "Frankenstein de Mary Shelley" vale a pena por seu visual barroco e por sua história atemporal e repleta de questionamentos. Mas sem dúvida poderia ter sido um filme bem melhor.
terça-feira
A OUTRA

A OUTRA (Another woman, 1988, Orion Pictures, 81min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Gena Rowlands, Mia Farrow, Ian Holm, Gene Hackman, Blythe Danner Martha Plimpton, Frances Conroy, Sandy Dennis, Philip Bosco, Betty Buckley. Estreia: 18/11/88
Emulando mais uma vez Ingmar Bergman, um de seus ídolos máximos (de quem conseguiu inclusive o diretor de fotografia Sven Nykvist), Woody Allen entrega, em “A outra” um de seus mais interessantes trabalhos de sua fase “séria”. Deixando de lado seu humor paranóico-judeu, o cineasta nova-iorquino criou uma pequena obra-prima (e pequena também é sua duração – meros 81 minutos, pouco menos de duas sessões de tearapia).
É justamente sobre terapia seu filme. A protagonista é Marion Post (uma sensacional Gena Rowlands), uma especialista em filosofia, que vive um segundo casamento estável e leva uma vida tranqüila e sem maiores sobressaltos. Para escrever seu novo livro, ela aluga um pequeno apartamento em uma rua tranqüila de Nova York. Para sua surpresa, no entanto, pelo aparelho de ventilação do apartamento, ela consegue ouvir todas as consultas do psicanalista que trabalha ao lado. A princípio incomodada com o fato, ela logo muda de idéia quando começa a ouvir o trabalho do médico com uma jovem grávida (Mia Farrow, que não poderia faltar), cujos problemas refletem aqueles que ela mesma tem e deixa guardados em seu inconsciente. A partir daí, Marion começa a examinar sua vida atual e pregressa, tentando resolver sua relação com o irmão, com o ex-marido, o pai e principalmente revendo seu casamento e seu acabado caso de amor com o melhor amigo de seu marido (em participação pequena mas marcante de Gene Hackman).
Allen consegue, em menos de hora e meia, levar o espectador para dentro da mente da personagem de Rowlands (ajudado, é claro pela performance espetacular da atriz), utilizando de idéias criativas, como uma peça de teatro e idas e vindas no tempo, bem ao gosto de seu mentor Bergman. Pode parecer difícil e pesado. Certamente, leve e divertido como a maioria dos trabalhos do diretor não é. Mas “A outra” tem uma qualidade redentora, além de seu roteiro brilhante e de seu elenco perfeito – é inteligente, faz pensar e não sai da mente do espectador por um bom tempo, como uma boa consulta ao terapeuta.
ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO
ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO (Alien, 1979, 20th Century Fox, 117min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Dan O'Bannon, estória de Dan O'Bannon e Ronald Shusett. Fotografia: Derek Vanlint. Montagem: Terry Rawlings, Peter Weatherley. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: John Mollo. Direção de arte/cenários: Michael Seymour/Ian Whittaker. Produção executiva: Ronald Shusett. Produção: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill. Elenco: Tom Skerrit, Sigourney Weaver, Ian Holm, John Hurt, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton, Yaphet Kotto. Estreia: 25/5/79
2 indicações ao Oscar: Direção de arte, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais
"Do espaço, ninguém pode ouvir você gritar!" Com esse slogan de efeito chegava às telas americanas, em maio de 1979, um filme que iria revolucionar a ficção científica, influenciando todas as posteriores produções do gênero - além de gerar, até agora, três sequências com diretores diferentes e resultados finais variados. Acrescentando elementos de suspense e terror aos tradicionais elementos que o gênero normalmente apresentava, "Alien, o oitavo passageiro", de Ridley Scott virou referência obrigatória. E prova, mais uma vez que os filmes originais são, via de regra, superiores a suas continuações.
A trama de Scott (substituindo o diretor original Walter Hill, que assumiu a produção do filme) se passa dentro da nave comercial Nostromo, que, a caminho de volta à Terra se vê compelida a investigar um pedido de SOS vindo de um planeta próximo à sua rota. Liderados por Dallas (Tom Skerrit), a tripulação de sete integrantes leva um susto quando uma forma de vida desconhecida ataca um de seus colegas, Kane (John Hurt), grudando-se em seu capacete. Ao ser examinado pelo cientista da equipe, Ash (Ian Holm), Kane é morto pelo invasor, que mistura-se às engrenagens da nave, aumentando assustadoramente de tamanho. Conforme todos os membros da tripulação começam a ser aniquilados pelo alien, resta à Tenente Ripley (Sigourney Weaver) lutar pela sua sobrevivência e pela destruição do monstro.
Grande sucesso de bilheteria em 1979, "Alien" deu à novata Sigourney Weaver a chance de sua carreira. Comparada com Jane Fonda pelos sortudos que assistiram a seu teste, ela ficou com o papel central - que era masculino nos primórdios do roteiro e que chegou a ser confirmado como sendo de Veronica Cartwright antes das filmagens - e tornou-se a heroína mais conhecida do cinema de ação hollywoodiano. Dona de um rosto de traços marcantes e exalando uma personalidade forte e corajosa - sem nunca deixar de lado as qualidades que a fazem ser também uma mulher - Weaver empresta à Ripley tudo que é necessário para convencer a plateia a ser seu cúmplice. E de certa forma isso é preciso, pois, apesar da truculência e da crueldade de seu rival, poucas vezes Hollywood construiu um vilão tão à altura dos mocinhos quanto o monstro criado pela imaginação de Dan O'Bannon e pelo talento visual de Carlo Rambaldi.
A equipe de Rambaldi levou o Oscar de efeitos especiais pela criação de seu alien, um monstro quase amorfo que é capaz de fundir-se à nave espacial que invade, sangra ácido e é dono de uma violência sem precedentes. O visual da criatura, que foi ficando maior e mais sofisticado conforme os anos iam passando e a série ia tornando-se mais e mais generosa em termos de orçamento, virou espécie de referência para qualquer ficção científica que se preze e é impossível, hoje em dia, tirar da cabeça sua forma assustadora e ameaçadora.
Ao contrário de sua primeira continuação, dirigida por James Cameron em 1986, que transformava a luta da Tenente Ripley em super-espetáculo, o primeiro capítulo da série opta pelo caminho menos fácil. É somente depois de seis silenciosos minutos que começamos a entender o que é a Nostromo, quem são seus tripulantes e passamos a saber mais sobre suas personalidades. É somente depois do primeiro ataque do monstro que ficamos sabendo que Ash não era o cientista original do grupo, que Dallas e Ripley tem uma relação a mais (a cena de sexo entre os dois foi escrita mas nunca filmada) e que a "Mãe" (computador que passa as coordenadas a serem seguidas) tem ideias diferentes a respeito da manutenção do alienígena dentro da nave. Ridley Scott leva tempo antes de começar a matança, extraindo o possível de cada cena, de cada clima, de cada personagem. E quando o suspense realmente começa, é impossível ficar tranquilo.
Mesmo depois de se assistir a "Alien" inúmeras vezes ainda é interessante perceber como Ridley Scott (que meros 3 anos depois legaria ao mundo o sensacional "Blade Runner") tem o dom de levar o espectador para onde ele quer. Apesar dos termos técnicos utilizados em alguns momentos do longa (problema inevitável em filmes do estilo) o público é seduzido logo de cara pelo intrigante roteiro, pela fotografia claustrofóbica e pela trilha sonora angustiante do mestre Jerry Goldsmith. Não bastasse tudo isso, a plateia ainda leva uma boa meia dúzia de sustos e fica o filme todo na ponta da cadeira. Precisa mais de um filme de terror?
Por mais que os filmes de James Cameron, David Fincher e Jean-Pierre Jeunet (todos cineastas criativos, inteligentes e talentosos) tenham cada um uma assinatura diferente e por conseguinte objetivos diversos, ainda é o escuro e apavorante primeiro capítulo de Ridley Scott que mantém a série "Alien" acima de qualquer suspeita.
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