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segunda-feira

BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA

BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA (Batman v Superman: The Dawn of Justice, 2016, Warner Bros, 151min) Direção: Zack Snyder. Roteiro: Chris Terrio, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane e Bill Finger (Batman), Jerry Siegel e Joe Shuster (Superman) e William Moulton Marston (Mulher Maravilha). Fotografia: Larry Fong. Montagem: David Brenner. Música: Junkie XL, Hans Zimmer. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Patrick Tatopoulos/Carolyn "Cal" Loucks. Produção executiva: Wesley Coller, David S. Goyer, Geoff Johns, Benjamin Melniker, Steven Mnuchin, Christopher Nolan, Emma Thomas, Michael E. Uslan. Produção: Charles Roven, Deborah Snyder. Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Laurence Fishburne, Jesse Eisenberg, Gal Gadot, Diane Lane, Kevin Costner, Holly Hunter, Jeremy Irons, Michael Shannon, Jeffrey Dean Morgan. Estreia: 20/3/16

Primeiro foi a polêmica em torno do nome de Ben Affleck para viver o Cavaleiro das Trevas, praticamente imortalizado por Christian Bale na trilogia dirigida por Christopher Nolan entre 2006 e 2012. Depois, as críticas generalizadas a "O Homem de Aço" (2013), que recomeçava a apresentar o Superman às novas gerações de cinéfilos - depois do inesquecível Christopher Reeve e do pouco memorável Brandon Routh. Por fim, havia a dúvida se Zack Snyder (cujo currículo incluía o sucesso "300", de 2008, e o fracasso "Sucker punch", de 2010) seria capaz de apagar a má impressão de seu primeiro filme estrelado pelo herói de Krypton - criticado principalmente pelo excesso de violência e efeitos visuais supérfluos. Com um orçamento generoso de aproximados 250 milhões de dólares, a volta do britânico Henry Cavill à pele de Clark Kent e uma trama que daria origem ao esperado filme sobre a Liga da Justiça (daí o subtítulo "Dawn of justice"), "Batman vs Superman: a origem da justiça" chegou aos cinemas cercado de expectativas e medos. Como era de se esperar, dividiu opiniões: puristas e fãs dos quadrinhos surgiram com listas intermináveis de reclamações; a imprensa não exatamente ficou entusiasmada, mas o público não deixou de correr às salas de exibição. Com uma renda mundial de quase 900 milhões de dólares, o filme de Snyder conseguiu o principal: deixou felizes os executivos da Warner, preparou terreno para um próximo capítulo ainda mais explosivo e, para alegria dos espectadores, apresentou em primeira mão sua arma mais poderosa e esperada, a Mulher Maravilha do século XXI, interpretada pela israelense Gal Gadot.

Protagonista de seu próprio filme de origem, que viria a ser lançado em 2017, a Mulher Maravilha é apenas uma pequena (mas crucial) peça no roteiro escrito por David S. Goyer e Chris Terrio (Oscar por "Argo") a partir de uma ideia surgida em 2001, quando o roteirista Andrew Kevin Walker (de "Seven: os sete crimes capitais") propôs um filme em que o Batman, enfurecido pela perda de sua noiva nas mãos do Coringa, parte em busca de vingança e se vê impedido pelo Superman. Diz-se que, na época, o script ficaria a cargo de Akiva Goldsman (Oscar por "Uma mente brilhante"), a direção seria do alemão Wolfgang Petersen e os protagonistas seriam George Clooney (voltando ao papel do Homem Morcego) e John Travolta. Felizmente a ideia acabou não vingando nos termos imaginados por Walker, e depois de mais de quinze anos no limbo, o que parecia meio absurdo começou a tomar forma. Com sérias mudanças, é verdade, mas com seu principal trunfo intacto: o encontro entre dois dos maiores super heróis dos quadrinhos (e do cinema) em uma produção caprichada, repleta de astros e, felizmente, bem melhor do que o público médio poderia esperar (apesar das ressalvas da crítica especializada e dos leitores mais radicais).


Começando dois anos depois dos eventos de "O Homem de Aço" - ou seja, após o show de destruição comandado pelo Superman em sua luta contra o General Zod (Michael Shannon) -, o filme de Snyder mostra uma população dividida entre acreditar nas boas intenções do misterioso alienígena de Krypton e temer por ainda mais tragédias na Terra. Mesmo defendido ferrenhamente pela jornalista Lois Lane (Amy Adams), o Superman é constantemente atacado pela mídia e pela congressista June Finch (Holly Hunter), que o intima a comparecer a uma sessão no Capitólio para defender-se diante da população. A explosão de uma bomba - plantada pelo milionário Lex Luthor (Jesse Eisenberg) - acaba por dar ainda mais credibilidade a quem o considera uma ameaça: acusado de ser o responsável pelo atentado, Superman abandona o planeta. Acreditando que tem o dever de proteger a humanidade dos poderes daquele que considera uma temeridade à população, Bruce Wayne assume a responsabilidade de, como Batman, destruí-lo sem compaixão. De certa forma manipulado por Luthor, ele bate de frente com Superman - mas não demora para que ambos, auxiliados pela corajosa Mulher Maravilha, se unam diante de um perigo ainda maior, representado por um monstro criado por Lex Luthor.

A princípio, parece que a trama de "Batman vs Superman" é um tanto forçada, criada mais pela necessidade de unir seus protagonistas do que exatamente contar uma história interessante ou plausível. No entanto, é surpreendente como as peças se encaixam, de forma a prender a atenção do público e construir uma base razoavelmente verossímil para o explosivo conflito final - esse sim, mais uma vez, exagerado e sem muita criatividade. Por incrível que pareça, Snyder se sai melhor quando estabelece o clima e as causas de todo o desfecho do que quando finalmente põe as mãos no clímax. Para isso, claro, ele conta com um elenco coadjuvante de nomes como Holly Hunter, Jeremy Irons e Laurence Fishburne, com o poder de fogo de seus personagens e com a produção caprichada - da fotografia de Larry Fong à trilha sonora, dividida entre Hans Zimmer e Junkie XL, tudo funciona muito bem, sem maiores percalços. Infelizmente nem tudo são flores, e a luta final - que finalmente coloca os heróis todos ao mesmo lado - é desnecessariamente longa, minando a força de um final que poderia ter sido ainda mais poderoso. Sem muito o que fazer em cena, Amy Adams e Diane Lane (como Martha, a mãe adotiva de Clark Kent), apenas enfeitam o filme com seu talento e beleza, e Jesse Eisenberg talvez esteja a um passo do overacting, mas o que era motivo de mais questionamentos antes da estreia acabou por ser um ponto positivo: emprestando prestígio a uma produção de objetivos claramente comerciais, o premiado Ben Affleck não compromete como Batman, mesmo estando à sombra de Christian Bale e assumindo as rédeas de um dos mais icônicos personagens da cultura popular mundial. Sua criticada escalação é, por fim, uma das maiores qualidades de um filme que, mesmo não sendo inesquecível ou artisticamente potente, serve muito bem como entretenimento. É só deixar o mau-humor de lado e embarcar na viagem!

sexta-feira

HOLLYWOODLAND: BASTIDORES DA FAMA

HOLLYWOODLAND: BASTIDORES DA FAMA (Hollywoodland, 2006, Focus Features/Miramax, 126min) Direção: Allen Coulter. Roteiro: Paul Bernbaum. Fotografia: Jonathan Freeman. Montagem: Michael Berenbaum. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Leslie McDonald/Odetta Stoddard. Produção executiva: J. Miles Dale, Jake Myers, Joe Pichirallo. Produção: Glenn Williamson. Elenco: Ben Affleck, Adrien Brody, Diane Lane, Bob Hoskins, Robin Tunney, Lois Smith. Estreia: 31/8/06 (Festival de Veneza)

Provavelmente apenas os mais dedicados estudiosos do cinema e da televisão conhecem - de nome e sem consultas ao Google - a trajetória do ator George Reeves, morto em 1959 depois de uma carreira marcada essencialmente por sua participação no seriado de tv "As aventuras do Super-homem", que permaneceu no ar entre 1952 e 1958 e no qual ele interpretava o super-herói de Krypton. Sentindo-se preso no papel que praticamente o impediu de ser levado a sério como ator dramático, Reeves foi encontrado morto, vítima de um tiro justamente na ocasião em que sua casa estava repleta de convidados. Foi suicídio ou homicídio? E, no caso de a segunda resposta for a correta, quem o cometeu? A jovem noiva, Leonore Lemmon (Robin Tunney)? A amante casada com um chefão da indústria de cinema, Toni Mannix (Diane Lane)? Ou o próprio executivo, Eddie Mannix (Bob Hoskins), vingando-se do adultério? Todas essas questões, ainda não definitivamente resolvidas, são a base de "Hollywoodland: bastidores da fama", filme que investiga, em tom ficcional, um caso que abalou a indústria do entretenimento americano à sua época. Comandado por Allen Coulter - experiente diretor de episódios de séries, como "Arquivo X", "Sex and the city", "A sete palmos", "Família Soprano" e "Roma" - e estrelado por um surpreendente Ben Affleck, o filme não chega a atingir todo o potencial de seu explosivo tema, mas é uma curiosa viagem pelos bastidores de Hollywood e os perigos da fogueira das vaidades que a cidade se orgulha em ser.

Na verdade, o roteiro se concentra em Louis Simo (Adrien Brody), um detetive particular com problemas no casamento que começa a investigar a morte de Reeves a partir do pedido da mãe da vítima, a aparentemente inconsolável Helen Bessolo (Lois Smith). Sabendo que o caso pode lhe dar a visibilidade necessária para que crie um nome respeitável na profissão, Simo passa a dedicar-se dia e noite à investigação - o que significa mergulhar não apenas na rotina do ator nas semanas imediatamente anteriores à sua morte, mas principalmente voltar no tempo, até os dias do começo de sua carreira, quando contou com a inestimável ajuda da bela Toni Mannix para manter-se confortavelmente e conseguir o papel de Super-homem em uma bem-sucedida série. Conforme vai avançando pelos meandros do sistema de entretenimento, Simo percebe que o glamour muitas vezes oferecido ao público nem sempre corresponde a bastidores saudáveis e/ou felizes. Esse choque de realidade o fará questionar a própria vida e carreira - principalmente quando, durante a investigação, passa a entender os sentimentos dúbios de Reeves em relação a seu status de ídolo popular.


Indicado ao Golden Globe de melhor ator em filme dramático e premiado no Festival de Veneza por sua atuação discreta e eficiente, Ben Affleck acerta o tom de seu George Reeves, criando um personagem repleto de idiossincrasias e nuances, fato raro em uma carreira marcada por severas críticas a seu talento como intérprete. Herdando um papel que quase foi de Hugh Jackman, ele deixa de lado sua persona de astro para tornar-se um ator real, imprimindo verdade e melancolia por baixo da máscara de vaidade e orgulho exibida por Reeves para o grande público. Não chega a ser uma atuação extraordinária e digna de um Oscar, mas é um grande passo para um ator que, à época, frequentava mais as manchetes sensacionalistas devido a seu romance com Jennifer Lopez - e o fracasso retumbante de filmes como "Contato de risco" (2003) e "Sobrevivendo ao Natal" (2004) - do que por seus méritos artísticos. Não à toa, seu trabalho chamou mais a atenção do público e da imprensa do que a interpretação sóbria e contida de Adrien Brody, que, desde seu inesperado Oscar por "O pianista" (2002) tenta encontrar um veículo adequado a seu modo quase sonolento de atuação. Na pele de Louis Simo ele nem precisa se esforçar muito para transmitir toda a sensação de tédio e desencanto que nasce das revelações que surgem em seu caminho - é uma interpretação minimalista que funciona, embora em alguns momentos dê a impressão de nunca atingir um clímax. E, de certa forma, esse é um problema do filme em si.

Mesmo tendo em mãos uma história intrigante e repleta de possibilidades, o roteirista Paul Bernbaum não consegue atingir todo seu potencial, principalmente por não conseguir fazer a conexão entre a história de Simo e a trajetória de Reeves de forma orgânica. Utilizando-se de flashbacks de forma confusa a maior parte do tempo, o filme tampouco ultrapassa a superficialidade quando trata dos bastidores de Hollywood, perdendo a chance de explorar um universo sempre rico e interessante. Diane Lane - que em 2015 viveu a esposa do roteirista Dalton Trumbo em "Trumbo: lista negra" - faz o que pode para dar vida a uma personagem dividida entre as aparências e a paixão, mas sofre com a irregularidade do roteiro. Sem apontar uma solução definitiva para o caso da morte de Reeves, o filme simplesmente levanta questões sem resolvê-las, para frustração do público que procura um desfecho mais contundente. É um bom filme, mas é incapaz de ficar na memória da plateia. Uma pena!

JACK

JACK (Jack, 1996, American Zoetrope/Hollywood Pictures/Great Oaks, 113min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: James DeMonaco, Gary Nadeau. Fotografia: John Toll. Montagem: Barry Malkin. Música: Michael Kamen. Figurino: Aggie Guerard-Rodgers. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Armin Ganz, Barbara Munch. Produção executiva: Doug Claybourne. Produção: Francis Ford Coppola, Fred Fuchs, Ricardo Mestres. Elenco: Robin Williams, Diane Lane, Jennifer Lopez, Bill Cosby, Fran Drescher, Brian Kerwin, Adam Zolotin, Todd Bosley. Estreia: 09/9/96

Entre obras-primas incontestáveis ("O poderoso chefão"), projetos pessoais "("A conversação"), produções ambiciosas e complicadas ("Apocalypse now") e filmes sob encomenda ("Vidas sem rumo"), Francis Ford Coppola às vezes surpreende o público e a indústria de cinema com coisas como "Jack", um delicado e sincero conto infanto-juvenil que substitui a pretensão comercial e artística normalmente contidas em sua filmografia pela ambição pura e simples de contar uma história - que, afinal de contas é o cerne do cinema desde sua invenção. É de se questionar se o imenso talento cabe em obras tão minimalistas, mas o fato é que sempre é uma delícia se deixar entreter por alguém que sabe exatamente o que está fazendo. "Jack" pode não ser um filme extraordinário - está longe disso, aliás - mas dentro que se propõe, é um sopro de ar fresco em um cinema tão violento e inconsequente quanto o de Hollywood. Apenas uma dúvida persiste em seu final: é um filme infanto-juvenil com alma adulta, ou um filme adulto com alma juvenil?

"Jack" se aproveita de uma condição médica real chamada Sìndrome de Werner para, exagerando-a com fins dramáticos, contar a história de um menino de dez anos, Jack Powell, que, crescendo quatro vezes mais do que o normal, entra na escola pela primeira vez com a aparência de um homem de 40 anos. As angústias, situações cômicas e momentos de extrema emoção provenientes de tal situação são o recheio do roteiro de uma obra que usa e abusa de artifícios questionáveis para conquistar a plateia infantil - piadas sobre excrementos, escatologia visual - e esquece com frequência da outra parcela de sua audiência, que precisa contentar-se com situações nem sempre tão engraçadas como poderiam - as que envolvem a mãe de um dos colegas de Jack, que o confunde com o diretor da escola e é vivida pela ótima Fran Drescher, da série de TV "The Nanny" - e alguns momentos de emoção genuína que valem o filme, especialmente quando valorizadas pela atuação caprichada de Diane Lane como a mãe do protagonista, uma mulher tentando da melhor maneira possível lidar com a grande surpresa que o destino lhe fez.


"Jack" começa já mostrando de forma inteligente a peculiaridade de seu protagonista: a bela Karen Powell (Lane) está se divertindo em uma festa à fantasia, ao lado do marido, quando começa a sentir violentas contrações, incoerentes com seus meros dois meses de gravidez. Para sua surpresa, porém, ao chegar ao hospital, ela dá à luz um bebê saudável, forte e de tamanho condizente com um recém-nascido normal. Logo depois os médicos explicam a ela e a seu marido, Brian (Brian Kerwin), que Jack sofre de uma condição rara que o fará apresentar um crescimento celular desproporcional à sua idade. Preocupados, os pais de primeira viagem tomam a decisão de educar o menino dentro de casa, com um professor particular, o dedicado Dr. Woodruff (Bill Cosby). Dez anos depois, porém, eles não conseguem mais impedir seu filho - um menino tímido e solitário, que é vítima do falatório das crianças da vizinhança - se esconda do mundo, e, a pedido dele mesmo, o matriculam em uma escola normal. Lá, ele tem a proteção da professora, Miss Marquez (Jennifer Lopez) e, depois de sofrer certa discriminação por algum tempo, faz amizade com Louie (Adam Zolotin), um aluno-problema que lhe mostra as alegrias de ser criança.

É inegável o foco de Coppola na relação entre Jack e sua turma de novos amigos, um grupo de meninos endiabrados que vivem uma infância como aquelas de antigamente - com casa na árvore e rituais de passagem incluídos no pacote - em detrimento de um crescimento mais condizente com a época em que se passa a trama. Essa nostalgia (e não anacronia como possa parecer) dá um encanto a mais ao filme, permitindo ao espectador uma viagem à inocência da infância, aos sabores de um amadurecimento não mais permitido em um período tão repleto de tecnologia e individualismo (mesmo que a maior parte do filme se passe em 1996, ou seja, pré-uso massivo de celulares e internet, é impossível deixar de perceber o carinho do cineasta pela época em que crianças brincavam entre si e não apenas com seus computadores. Talvez não seja o ponto principal do roteiro, mas a ideia fica ainda mais clara hoje em dia).

E se as boas intenções do roteiro - e sua sensibilidade doce que se enfatiza no terço final - já são motivo o bastante para uma espiada em "Jack", ainda existe seu maior trunfo: a escalação de seu ator central. Poucos atores em Hollywood seria opção mais acertada do que Robin Williams, um adulto com alma de criança que já havia deixado a indústria de joelhos com os sucessos consecutivos de "Aladim" - no qual dublou com perfeição absoluta o Gênio da Lâmpada - e "Uma babá quase perfeita" - que encheu os cofres da 20th Century Fox. Na pele do inquieto Jack, ele não apenas recria as atitudes e maneirismos de uma criança de dez anos de idade: ele se transforma em uma, da mesma forma como Tom Hanks já havia feito com maestria em "Quero ser grande", que lhe valeu uma indicação ao Oscar. Williams não foi lembrado pela Academia dessa vez (só seria premiado dois anos depois, como coadjuvante por "Gênio indomável"), mas provou, mais uma vez, que era um ator extraordinário, capaz de fazer brilhar os roteiros mais simples que lhe caíssem às mãos. Ele é o maior motivo para se assistir a esse pequeno Francis Ford Coppola.

VIDAS SEM RUMO

VIDAS SEM RUMO (The outsiders, 1983, Zoetrope Studios, 91min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Kathleen Knutsen Rowell, romance de S.E. Hinton. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Anne Goursaud. Música: Carmine Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Gary Fettis. Produção Gray Frederickson, Fred Roos. Elenco: C. Thomas Howell, Ralph Macchio, Matt Dillon, Patrick Swayze, Diane Lane, Tom Cruise, Rob Lowe, Emilio Estevez. Estreia: 25/3/83

O filme "Vidas sem rumo" nasceu do encontro inusitado entre as fãs do romance escrito por S.E. Hinton e lançado em 1967 e o cineasta Francis Ford Coppola, vindo da falência de seu estúdio, o American Zoetrope, causada pelo fracasso calamitoso de "O fundo do coração" (82). Desiludido com o cinema, o homem que havia legado ao mundo as duas partes premiadas e elogiadas de "O poderoso chefão" e o problemático porém louvado "Apocalypse now" recebeu uma calorosa carta escrita por alunos de uma escola secundarista de Fresno, na California. Eles alegavam que somente Coppola poderia traduzir em imagens seu livro preferido. Escrito por Hinton quando ainda era uma adolescente de quinze anos, o livro contava a história de um grupo de adolescentes dos anos 50 que sofriam na pele tudo aquilo que os estudantes da década de 80 também sentiam: insegurança, deslocamento de uma sociedade que podia ser muito restritiva e principalmente a força dos laços de amizade. Não foi preciso insistir muito e Coppola aceitou o desafio. Lançado em 1983, seu novo trabalho não ajudou muito em suas finanças já atribuladas - não teve uma bilheteria significativa - mas o incentivou a adaptar outro romance de Hinton em 1984, "O selvagem da motocicleta", e, mais importante que tudo, deu o pontapé inicial nas carreiras de nomes que, nos anos seguintes, dominariam o cinema americano.

Os créditos de "Vidas sem rumo" são um verdadeiro quem é quem do cinema jovem hollywoodiano dos anos 80: estão lá Matt Dillon, Emilio Estevez, Patrick Swayze, Rob Lowe, Diane Lane, C. Thomas Howell, Ralph Macchio e Tom Cruise (em um papel bastante pequeno e bem diferente do galã que se tornaria ainda em 1983 com "Negócio arriscado"). Quando o filme foi feito, nenhum deles era famoso, o que demonstra, no mínimo, o faro de Coppola em descobrir novos talentos - é bom lembrar que foi ele quem insistiu em Al Pacino para viver Michael Corleone no primeiro "Chefão". Sua maior felicidade, em "Vidas sem rumo", foi encontrar atores que encarnam seus personagens com tal verdade que é difícil ficar indiferente a seus dramas apesar do roteiro falhar em desenvolvê-los melhor. No entanto, a ingenuidade, o frescor e o carinho com que todos são tratados na história se reflete na direção sensível de Coppola, que usa e abusa de belíssimas sequências de pôr-do-sol - cortesia de Stephen H. Burum - remetendo tanto ao ocaso da inocência de seus protagonistas quanto à adoração do doce Ponyboy (C. Thomas Howell) pelo livro "...E o vento levou", de Margareth Mitchell, citado em vários momentos no decorrer da narrativa.


"Vidas sem rumo" se passa em uma pequena cidade de Oklahoma, em um ano qualquer durante a década de 50 e narra basicamente a violenta rivalidade entre dois grupos de jovens, os Greasers e os Socials. Do primeiro grupo (assim batizado por utilizarem brilhantina no cabelo) faz parte o protagonista, Ponyboy Curtis, de 14 anos. Órfão e criado pelo irmão mais velho, Darrell (Patrick Swayze) - que também é o responsável pelo outro irmão, Sodapop (Rob Lowe) - Ponyboy vive em constante tensão devido ao clima de guerra declarado pelos dois grupos, que se dividem principalmente por suas classes sociais. Quem acaba por unindo, ainda que por pouco tempo, as duas facções, é a bela Cherry (Diane Lane em papel recusado por Sarah Jessica Parker e Brooke Shields), namorada de um dos líderes dos Socials que faz amizade com Ponyboy e sente-se atraída pelo beligerante Dallas (Matt Dillon), rapaz mais velho que passou inclusive uma temporada na cadeia. A relativa paz entre as duas gangues é interrompida, porém, quando o melhor amigo de Ponyboy, Johnny Cade (Ralph Macchio, o futuro Karatê Kid), mata um dos integrantes do grupo rival, o que desencadeia um recrudescimento ainda maior da violência que os cerca.

Mesmo tratando de uma história onde a violência e a tensão estão sempre presentes, Coppola não se deixa seduzir pela tentação de lavar a tela de sangue - ainda que em uma bela cena ele seja um elemento crucial e impactante. Sua preferência é investigar o relacionamento quase familiar que existe entre seus personagens, que criam um núcleo de auto-proteção e carinho que contrasta com a frieza e a crueldade com que eles constantemente esbarram em seu dia-a-dia. Coppola não se furta a enfatizar, sempre que possível, que aqueles meninos que estão na tela não são maus, nem ferozes, e sim adolescentes carentes de amor, de atenção, de igualdade de chances. É particularmente tocante o destino de Johnny, que acaba sendo o catalisador para o desfecho catártico de toda a trama: justo ele, que flertava com a morte por não suportar a vida como ela lhe aparecia, muda seu ponto de vista quando a encara de frente e precisa lutar para manter-se vivo, enquanto seus amigos partem em sua defesa, em uma cena de briga de gangues que, apesar de curta, já nasceu clássica graças a seu background literário e a seu elenco de ouro.

"Vidas sem rumo" é uma obra feita para se tornar o filme de cabeceira dos fãs do romance - que, a despeito da qualidade da adaptação, ainda assim conseguiram achar do que reclamar - e de adolescentes que se veem retratados com respeito e admiração, sem tentar explicar comportamentos com psicologismos baratos. É um belo e sincero filme, realizado por um diretor apaixonado para um público ainda mais ardoroso, e como tal, é uma versão emocionante e envolvente.

quarta-feira

NOITES DE TORMENTA

NOITES DE TORMENTA (Nights in Rodanthe, 2008, Warner Bros, 97min) Direção: George C. Wolfe. Roteiro: Ann Peacock, John Romano, romance de Nicholas Sparks. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: Brian A. Kates. Música: Jeanine Tesori. Figurino: Victoria Farrell. Direção de arte/cenários: Patrizia von Brandenstein/James Edward Ferrell Jr. Produção executiva: Bruce Berman, Doug Claybourne, Dana Goldberg, Alison Greenspan. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Richard Gere, Diane Lane, Christopher Meloni, Viola Davis, Scott Glenn, James Franco. Estreia: 26/9/08

Um dos mais populares escritores românticos americanos, Nicholas Sparks nem se dá ao trabalho de mudar a fórmula de seus livros, alterando, quando muito, a faixa etária de seus protagonistas - ou, no caso de "Diário de uma paixão", alternar duas tramas paralelas com casais de gerações diferentes. Seguindo a linha de suas narrativas mais maduras, o drama "Noites de tormenta" reune a dupla Richard Gere e Diane Lane (do polêmico "Infidelidade") em mais um romance açucarado e previsível - que, no entanto, é valorizado pela presença carismática da dupla, que consegue dar dignidade até mesmo ao amontoado de clichês dos quais a direção inexperiente de George C. Wolfe - acostumado com especiais de televisão - não se desvia.

A trama de Sparks já começa com um clichê básico: Adrienne Willis (Diane Lane, boa atriz relegada aos mesmos personagens desde que foi indicada ao Oscar por "Infidelidade") é uma mulher separada que recebe do ex-marido (Christopher Meloni, da série "Oz") a proposta de uma reconciliação justamente quando está saindo em viagem para cuidar da pousada de uma amiga (Viola Davis), que vai tirar um fim-de-semana de folga com o namorado. Isolada na pousada - que fica em uma idílica cidade litorânea da Carolina do Norte - Adrienne tem a companhia apenas de um único hóspede, o médico Paul Flanner (Richard Gere, canastrão como sempre, mas incapaz de decepcionar às fãs mais ardorosas), que está na cidade com o objetivo de desculpar-se com o viúvo de uma antiga paciente, que morreu em suas mãos. Não é preciso ser gênio para adivinhar que os dois irão começar a se entender maravilhosamente, irão se apaixonar e, depois que precisarem retomar suas vidas, o destino irá aprontar das suas.


Apesar de seguir completamente as regras do jogo de Sparks - que incluem cenários de sonho, romances proibidos, finais lacrimosos e personagens sem muita profundidade dramática - "Noites de tormenta" não chega a ofender os neurônios da plateia, oferecendo exatamente o que ela procura. Não interessa aos fãs da obra do autor nenhum tipo de elocubração psicológica ou complexidade narrativa, o que faz com que os filmes baseados nela sejam sistematicamente planos e quase maniqueístas. Esse detalhe, porém, não deve incomodar à audiência, que não deixa de inundar as salas de exibição com lágrimas sentidas - ainda que a bilheteria de "Noites de tormenta" não tenha sido o estouro esperado.

Em resumo, "Noites de tormenta" é um veículo para Lane e Gere desfilarem seu charme em um cenário interessante e presentearem seus fãs com personagens feitos sob medida para duas horas de entretenimento sem compromisso. Não é bom, mas passa longe de ser ruim.

sexta-feira

PROCURA-SE UM AMOR QUE GOSTE DE CACHORROS

PROCURA-SE UM AMOR QUE GOSTE DE CACHORROS (Must love dogs, 2005, Warner Bros, 98min) Direção: Gary David Goldberg. Roteiro: Gary David Goldberg, romance de Claire Cook. Fotografia: John Bailey. Montagem: Roger Bondelli, Eric A. Sears. Música: Craig Armstrong, Susie Suh, Vinnie Zimmo. Figurino: Florence-Isabelle Megginson, Gamila Smith. Direção de arte/cenários: Naomi Shohan/Kathryn Petes. Produção executiva: Brad Hall, Ronald G. Smith. Produção: Gary David Golberg, Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Diane Lane, John Cusack, Dermot Mulroney, Christopher Plummer, Elizabeth Perkis, Stockard Channing. Estreia: 21/7/05

Um dos atores mais confiáveis de Hollywood, capaz de imprimir sua personalidade em filmes tão distintos quanto a comédia romântica "Escrito nas estrelas", o suspense "Identidade", a comédia de humor negro "Matador em conflito", o cult movie "Alta fidelidade" e até mesmo o blockbuster "Con Air, a rota da fuga", John Cusack certamente chegaria a um ponto de sua vitoriosa carreira em que esbarraria em uma obra menos feliz - ainda que o filme de Michael Bay  não possa ser considerado um grande momento, assim como o tenebroso "1402". Apesar de não ser exatamente ruim, o romance "Procura-se um amor que goste de cachorros" corre o risco de levar esse injusto rótulo. Baseado em um romance "pra mulherzinha" de Claire Cook, o filme do bissexto cineasta Gary David Golberg - que assinou o lacrimoso "Meu pai, uma lição de vida" no longínquo 1989 - é simpático e agradável, mas peca justamente por não acrescentar muito às carreiras de nenhum dos envolvidos - uma lista que inclui ainda os respeitáveis Diane Lane e Christopher Plummer.

Seguindo sua tendência de estrelar filmes direcionados a um público feminino - depois do saboroso "Sob o sol da Toscana" - Diane Lane volta a desfilar seu charme na pele de Sarah Nolan, uma professora pré-escolar recentemente divorciada que não consegue convencer a sua onipresente família de que consegue levar uma vida de solteira. A principal responsável pela campanha que insiste em lhe arrumar um novo marido é sua irmã, Carol (Elizabeth Perkins), que chega ao extremo de cadastrá-la em um site de relacionamentos mesmo contra sua vontade. É nesse site que Sarah conhece Jake (John Cusack com a simpatia de sempre), que compartilha com ela o fato de ter acabado de se divorciar e de gostar de cachorros. Enquanto está conhecendo Jake - e gostando dele - Sarah se vê atraída também por Bob (Dermot Mulroney), pai de uma de suas alunas - que também está saindo com outra professora.



A estrutura triângulo amoroso que dá sustentação ao filme de Goldberg não deixa de ser frágil, com personagens que não são interessantes o bastante para manter a atenção do público, apesar de alguns ótimos momentos - como a sequência em que Sarah e Jake saem à procura de preservativos pela madrugada. Felizmente o roteiro encontra espaço para aquele que talvez seja a melhor personagem do filme, o sedutor Bill (Christopher Plummer), pai de Sarah e Carol, um conquistador convicto que também procura amantes em sites de relacionamento - o que resulta em uma cena no mínimo inusitada e na participação da sempre ótima Stockard Channing como uma de suas pretendentes, Dolly. A subtrama que versa sobre a relação entre Dolly e as filhas de seu "namorado" acaba se tornando um ponto favorável e quase eclipsa a real história que o filme pretende contar.

No final das contas, "Procura-se um cachorro" cumpre o que promete, entregando a seu público-alvo 98 minutos de uma trama engraçadinha e delicada. Mas é, sem dúvida, um filme que não marca o espectador, permanecendo na memória somente durante o tempo de sua exibição. E tem Diane Lane e John Cusack, o que quase sempre é sinônimo de qualidade.

quarta-feira

SOB O SOL DA TOSCANA

SOB O SOL DA TOSCANA (Under the Tuscan sun, 2003, Touchstone Pictures, 113min) Direção: Audrey Wells. Roteiro: Audrey Wells, livro de Frances Mayes. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: Arthur Coburn, Andrew Marcus, Todd E. Miller. Música: Christophe Beck. Figurino: Nicoletta Ercole. Direção de arte/cenários: Stephen McCabe/Nick Evans, Mauro Passi, Cinzia Sleiter. Produção executiva: Laura Fattori, Mark Gill, Sandy Kroopf. Produção: Tom Sternberg, Audrey Wells. Elenco: Diane Lane, Raoul Bova, Sandra Oh, Lindsay Duncan, Mario Monicelli, Pawel Szadja. Estreia: 26/9/03

Filmes de mulheres. Talvez um gênero, talvez um preconceito, talvez uma classificação justa. Mas o fato é que filmes como “Sob o sol da Toscana” parecem ter sido feitos para encaixar-se nesse rótulo um tanto limitatório. Afinal, quem, além de mulheres podem se interessar por filmes cuja protagonista é uma mulher abandonada que tenta reconstruir sua vida em outro país, com paisagens deslumbrantes como cenário? A resposta não é tão óbvia assim. O filme de Audrey Wells pode ter apelo ao público feminino, sim, mas quem gosta de uma boa história contada com certa dose de humor e não tem medo de parecer “sensível demais” pode encantar-se com ele.

Estrelado por uma Diane Lane cada vez mais bonita e melhor atriz, “Sob o sol da Toscana” é baseado no livro de Frances Mayes, que utilizou sua experiência de vida para contar a sua história, adaptada com carinho e sensibilidade pela diretora do filme. Lane vive a própria Frances, uma escritora de 35 anos que tem sua vida virada de cabeça pra baixo quando descobre um caso extra-conjugal do marido. Divorciada e contando apenas com a sua parte em dinheiro do apartamento que possuía com ele, Frances fica arrasada, mas é praticamente obrigada por duas amigas a fazer uma viagem à Toscana em uma excursão gay. Assim que chega à Itália, no entanto, a triste e derrotada Frances toma uma decisão surpreendente: compra uma pequena villa, a reforma e recomeça uma nova vida, tentando esquecer seu casamento fracassado. Em pouco tempo, a deprimida Frances faz novos amigos – inclusive os homens que a ajudam a reformar sua casa e um casal de jovens que se descobre apaixonado – e descobre que o tempo é um santo remédio para curar desastres amorosos. Quando ela se apaixona pelo sedutor Marcello (Raoul Bova) seus problemas, que pareciam encerrados, iniciam um novo capítulo, no entanto.
         

Tudo bem que a história encorajadora contada no livro e no filme soe como auto-ajuda e que o tema seja água-com-açúcar na maior parte do tempo. Mas o fato é que “Sob o sol da Toscana” nunca é exagerado. O sofrimento de Frances não exige lágrimas apesar de ser palpável, graças ao excelente trabalho de Diane Lane. As cenas românticas nunca caem no clichê de mãos entrelaçadas e meia-luz. Nem mesmo o final é exatamente o que poderia se esperar, ainda que seja esperançoso e feliz como se deseja de um filme do gênero. E as tramas paralelas nunca tiram o foco da protagonista, que encanta a todos e é encantada por eles – em especial a ótima personagem de Claudia Gerini, que insiste em dizer que trabalhou com Federico Fellini.
 
Fotografado com generosidade por Geoffrey Simpson – que nem teve muito trabalho, a julgar pelos belíssimos cenários naturais da Toscana – e dirigido com leveza por Audrey Wells – talvez se fosse dirigido por um homem fosse menos delicado e menos interessante – “Sob o sol da Toscana” é um filme apaixonante de verdade e que ainda conta com a participação especialíssima do veterano Mario Monicelli.

quinta-feira

INFIDELIDADE

INFIDELIDADE (Unfaithful, 2002, Fox 2000 Pictures, 112min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Alvin Sargent, William Broyles Jr., roteiro original de Claude Chabrol. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Anne V. Coates. Música: Jan A.P. Kaczmarek. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Susan Tyson. Produção executiva: Lawrence Steven Meyers, Arnon Milchan, Pierre-Richard Muller. Produção: G. Mac Brown, Adrian Lyne. Elenco: Richard Gere, Diane Lane, Olivier Martinez, Chad Lowe, Erik Per Sullivan, Michelle Monaghan, Myra Lucretia Taylor. Estreia: 10/5/02

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Diane Lane)

Em 1986 o cineasta inglês Adrian Lyne inspirou centenas de casais mundo afora com as tórridas fantasias retratadas no cult "9 1/2 semanas de amor". No ano seguinte, apavorou homens casados e foi indicado ao Oscar por "Atração fatal" e em 1993 aproveitou o auge da beleza de Demi Moore para provocar polêmica com "Proposta indecente". Utilizando mais uma vez seus ingredientes "infalíveis" ele voltou à a baila com "Infidelidade", que mistura a sensualidade de "9 1/2" com a temática adulta de "Atração" e a controvérsia de "Proposta". O resultado é um filme que não se decide entre o drama, o erotismo e o suspense e que tem como maior trunfo a atuação irrepreensível de Diane Lane.

Lane mereceu uma surpreendente indicação ao Oscar por seu trabalho como Connie Sumner, uma dona-de-casa que leva uma vida tranquila e sem maiores sobressaltos em um subúrbio de Nova York, ao lado do marido, Edward (Richard Gere no atípico papel de marido sem sex-appeal) e do filho pequeno. Em uma tarde como outra qualquer em Manhattan, durante uma ventania ela esbarra no sexy Paul Martel (o inexpressivo francês Olivier Martinez), um comerciante de livros usados e vai pra casa dele cuidar de um ferimento no joelho. Intrigada com o rapaz, logo ela passa a encontrar-se regularmente com ele, iniciando um quente e passional relacionamento extra-conjugal. Em breve a relação começa a atrapalhar a rotina de Connie e despertar a suspeita do marido, que, desconfiado, contrata um detetive para seguir a mulher. Quando a verdade vem à tona, uma tragédia transforma a vida de todos.


O problema maior de "Infidelidade" é justamente sua falta de foco. O que parecia um drama familiar - casal sendo obrigado a lidar com a falta de novidades e uma traição - logo transforma-se em um romance com um erotismo tórrido e de bom gosto - marca registrada do diretor - e, no terço final, vira um filme de suspense de pouco alcance, que ainda consegue decepcionar com mais uma conclusão decepcionante e ambígua, que enfraquece o conjunto (e isso vindo do homem que não teve medo de fazer Glenn Close cozinhar um coelhinho de estimação!) Se tivesse se concentrado em qualquer uma das vertentes que a história - baseada em um filme de Claude Chabrol - oferece, Lyne com certeza teria tido mais sucesso, principalmente porque daria a seu elenco personagens menos unidimensionais e um tanto inverossímeis.

Mas para não dizer que não falei das flores, nem tudo é fraco em "Infidelidade". Como já foi dito, as cenas de sexo entre Diane Lane e Olivier Martinez são fotografadas com maestria por Peter Biziou - vencedor de um Oscar por "Mississipi em chamas" - e o clima de tensão que permeia o filme são realmente competentes. Mas é a presença luminosa de Lane que definitivamente salva a obra de Adrian Lyne da vala dos dramas corriqueiros que infestam as sessões de sábado à noite na televisão. Madura e bonita como nunca, ele consegue transmitir toda a gama de emoções que o roteiro limitado lhe proporciona (um exemplo claro dessa afirmação é a cena em que, em um trem, ela relembra o primeiro encontro sexual com o amante, uma cena filmada em um único take e que é suficiente para deixar claros os sentimentos da personagem). Apesar de todos os problemas do filme, ela vale cada minuto de projeção, em uma interpretação que lhe colocou entre os grandes nomes de sua geração.

terça-feira

CHAPLIN

CHAPLIN (Chaplin, 1992, Carolco Pictures, 143min) Direção: Richard Attenborough. Roteiro: William Boyd, Bryan Forbes, William Goldman, história de Diana Hawkins, livros "Chaplin: his life and art", de David Robinson e "My autobiography", de Charles Chaplin. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Anne V. Coates. Música: John Barry, José Padilla. Figurino: Ellen Mirojnick, John Mollo. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Norman Dorme. Casting: Mike Fenton, Susie Figgis, Valorie Massalas. Produção: Richard Attenborough, Mario Kassar. Elenco: Robert Downey Jr., Geraldine Chaplin, Anthony Hopkins, Moira Kelly, Dan Aykroyd, Marisa Tomei, Penelope Ann Miller, Kevin Kline, Maria Pitillo, Milla Jovovich, Diane Lane, Nancy Travis, James Woods. Estreia: 25/12/92

3 indicações ao Oscar: Ator (Robert Downey Jr.), Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários

Que Charles Chaplin foi um dos maiores gênios da história da humanidade é impossível discordar. Diretor e intérprete de clássicos absolutos como "O garoto", "Luzes da cidade" e "O grande ditador" - apenas para citar alguns de inúmeros títulos sensacionais - o ator inglês é uma das figuras mais reconhecidas da sétima arte, principalmente através de Carlitos, o vagabundo criado por ele e protagonista de muitos de seus filmes. Como a personagem foi criada, como algumas ideias para suas obras surgiram e principalmente como ele foi injustamente expulso dos EUA, acusado de ser simpatizante do comunismo, no entanto, não é material tão conhecido assim. Por isso, o cineasta Richard Attenborough resolveu que era hora de homenagear um de seus maiores ídolos com uma cinebiografia e lançou "Chaplin" no 15º aniversário de sua morte. Porém, ao contrário de sua obra mais famosa  -"Gandhi" - seu filme não apenas ficou aquém do esperado em termos de crítica, mas bombou feio nas bilheterias.

O papel principal de "Chaplin" ficou com o americano Robert Downey Jr., antes que seus problemas com drogas o tirasse das páginas de entretenimento e o colocasse na seção policial. Em uma atuação impressionante, Downey mostra que é, sim, um extraordinário ator, tirando leite de pedra de um roteiro capenga - inspirado em duas biografias do artista - que não ilustra a contento nem a carreira nem a vida pessoal de Charlie. Narrado em flashback, uma vez que a história é contada pelo diretor a um biógrafo (Anthony Hopkins), "Chaplin" começa mostrando a infância miserável do protagonista, que, abandonado pelo pai, substituiu a mãe com problemas mentais (Geraldine Chaplin interpretando sua avó) em um show de vaudeville e conheceu o gosto do sucesso. Contratado para fazer filmes em Hollywood - em saltos temporais que mais prejudicam do que ajudam na compreensão do todo - ele chega à conclusão que precisa de controle total sobre sua obra, entrando em rota de colisão com o então todo poderoso Mack Sennet (Dan Aykroyd) e a cineasta Mabel Normand (Marisa Tomei). De posse de seu talento e de sua fama, ele galga rapidamente os degraus do sucesso, emendando um sucesso atrás do outro. No entanto, sua predileção por mulheres mais jovens - e às vezes menores de idade - e o fato de ter comprado briga com o criador do FBI, J.Edgar Hoover (Kevin Dunn) os leva a ter sérios problemas com a justiça americana, culminando com sua expulsão do país.



"Chaplin" poderia ter sido contado com dois enfoques diferentes e bastante interessantes: Attenborough (que demonstrou um pouco de preguiça na direção) poderia ter explorado os bastidores da Hollywood do início do século XX, com suas brigas por poder, suas fofocas, seu glamour e a construção do cinema mais popular do biografado. Ou poderia ter optado por narrar as aventuras amorosas e sexuais de Chaplin e suas eventuais complicações - o relacionamento com a perturbada Joan Barry (Nancy Travis), o casamento feliz com Paulette Godard (Diane Lane) e a felicidade ao lado de Oona O'Neil (Moira Kelly), por exemplo. Ao tentar reunir tanta informação em um filme de duração comercial - menos de 2 horas e meia - o roteiro impede o espectador de ter um contato mais profundo com qualquer personagem e situação. Fica-se, então, privado do ótimo trabalho de Kevin Kline como Douglas Fairbanks Jr. ou de Diane Lane como Paulette Goddard - sem falar que a simpatia de Chaplin em relação ao povo judeu (e sua subsequente fama de "comunista") tem muita origem em seu casamento com ela. Logicamente seria impossível dentro dos limites do tempo equilibrar tudo que precisa ser contado, mas um pouco de foco não faria mal nenhum e ainda ajudaria na contemplação dos destaques da produção, essa sim, digna de nota.

Não foi à toa que "Chaplin" foi indicado ao Oscar de direção de arte. É visível o capricho na reconstituição da época mostrada no filme, assim como o figurino e a maquiagem. É fascinante a maneira com que Attenborough revela ao público alguns segredos de como eram realizados os filmes nos anos 10 e 20, bem como apresenta de maneira simpática a origem das ideias de Chaplin para resolver - de forma barata e eficiente - seus problemas criativos. Mas nem mesmo esse cuidado todo e a bela e delicada trilha sonora de John Barry - também indicada ao Oscar - não impedem que seja percebido o óbvio: "Chaplin" deve tudo o que é à interpretação arrebatadora de Robert Downey Jr.

Indicado ao Oscar por seu trabalho, Downey entrega uma atuação quase mediúnica. Ele desaparece dentro da personagem, fazendo com que o público esqueça que ali está um ator na pele de uma personalidade real. Para a audiência, Downey e Chaplin são a mesma pessoa, ao menos durante a duração do filme. É uma pena que ele tenha que arrancar essa atuação de dentro de si sem um roteiro que lhe faça jus. É de se imaginar o quão sensacional ele teria sido se tivesse uma base melhor!!!

quarta-feira

RUAS DE FOGO


RUAS DE FOGO (Streets of fire, 1984, Universal Pictures, 93min) Direção: Walter Hill. Roteiro: Larry Gross, Walter Hill. Fotografia: Andrew Laszlo. Montagem: Jim Coblentz, Freeman A. Davies, Michael Ripps. Música: Ry Cooder. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John Vallone/Richard C. Goddard. Casting: Judith Holstra, Marcia Ross. Produção executiva: Gene Levy. Produção: Lawrence Gordon, Joel Silver. Elenco: Michael Paré, Diane Lane, Willem Dafoe, Rick Moranis, Amy Madigan, Rick Rossovich, Bill Paxton, Mykelty Williamson, Ed Begley Jr. Estreia: 01/6/84

Algumas ideias dos estúdios hollywoodianos acabam se espatifando no caminho de tornarem-se mais do que ideias. Um desses insights que nunca passaram de projetos era o de uma trilogia de ação noir protagonizado por Michael Paré na pele do mercenário cool Tom Cody, o herói de "Ruas de fogo". O fracasso retumbante do filme inicial da trilogia, dirigido por Walter Hill, jogou a possibilidade em uma gaveta dos engravatados do estúdio, onde permanece até hoje, mesmo depois do filme ter-se tornado, com o tempo, uma espécie de cult-movie.

Passado em um lugar e uma época não identificados pelo roteiro, "Ruas de fogo" - título tirado de um verso de Bruce Springsteen - começa com o sequestro da estrela do rock Ellen Aim (uma jovem Diane Lane dublada vergonhosamente nas cenas musicais) por um grupo de motoqueiros vândalos e violentos, liderados por Raven Shaddock (Willem Dafoe). Para resgatá-la, seu empresário e atual namorado, Billy Fish (Rick Moranis) contrata o atraente e cínico Tom Cody (Michael Paré), sem saber que ele e a cantora tiveram um apaixonado caso romântico que acabou quando o rapaz foi pra guerra. Acompanhado da durona McCoy (Amy Madigan), Cody invade a vizinhança barra-pesada de Raven, dando início a uma guerra sem tréguas.

Batizado com o subtítulo de "Uma fábula do rock'n'roll", "Ruas de fogo" não agradou o público à época de seu lançamento, apesar de ter várias semelhanças temáticas e visuais com um sucesso anterior do diretor Walter Hill, "Warriors, os selvagens da noite". Deixando de lado o humor que foi o diferencial em sua maior bilheteria, "48 horas", estrelado pelo então ascendente Eddie Murphy, Hill ficou em um constrangedor meio do caminho. O roteiro de "Ruas" não se aprofunda em desenvolvimento de personagens, não tem senso de humor e nem ao menos apresenta cenas de ação antológicas. Por que então ainda permanece firme e forte no imaginário de uma boa parte da geração que assistia a filmes nos anos 80?


Basicamente, o charme maior de "Ruas de fogo" reside em sua vibrante trilha sonora, composta por Ry Cooder depois que três versões de James Horner foram descartadas pelo diretor. Não apenas pontuando a ação - em um roteiro fraquinho e sem grandes qualidades -, a música é parte integrante e fundamental na história de amor entre Cody e Ellen Aim. Canções como "Tonight is what means to be young" e "Nowhere fast" tornaram-se clássicas e são o maior destaque do filme, sobrevivendo na memória da audiência mais do que os diálogos clichê e as personagens mal delineadas do roteiro, co-escrito por Walter Hill e Larry Gross. Não é à toa que sempre que as músicas são o centro da atenção no filme, ele cresce e torna-se mais orgânico.

"Ruas de fogo" faz parte daquele rol de filmes que eram reprisados volta e meia nas tardes globais na segunda metade da década de 80 e como tal se mantém como uma espécie de relíquia quase sentimental, ainda que seja bastante fraco em termos artísticos. Tom Cody não vingou, assim como a carreira de Michael Paré. Mas ele sempre será lembrado por quem tem trinta e poucos anos..

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...