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quarta-feira

MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO


MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO (Mamma Mia: Here we go again, 2018, Universal Pictures, 114min) Direção: Ol Parker. Roteiro: Ol Parker, estória de Richard Curtis, Ol Parker, Catherine Johnson, personagens de Catherine Johnson. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Peter Lambert. Música: Benny Andersson, Anne Dudley, Bjorn Ulvaeus. Figurino: Michele Clapton. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Anita Dujic. Produção executiva: Benny Andersson, Nicky Kentish Barnes, Richard Curtis, Tom Hanks, Phyllida Lloyd, Bjorn Ulvaeus, Rita Wilson. Produção: Claudia Balboa, Judy Craymer, Raphael Benoliel, Gary Goetzman, Anna Sofia Morck. Elenco: Amanda Seyfried, Pierce Brosnan, Lilly James, Stellan Skarsgaard, Colin Firth, Dominic Cooper, Meryl Streep, Julie Walters, Christine Baranski, Andy Garcia, Cher, Jeremy Irvine, Alexa Davies, Jessica Keenan Wynn, Hugh Skinner, Josh Dylan, Celia Imrie. Estreia: 20/7/2018

Quando surgiu a ideia - aparentemente estapafúrdia - de uma continuação do musical "Mamma Mia!",  pouca gente levava fé no projeto. Não apenas porque todo mundo sabia que seria quase impossível repetir o impressionante êxito do primeiro filme - que arrecadou assombrosos 700 milhões de dólares em sua carreira nos cinemas -, mas porque havia a dificuldade extra de encontrar-se um roteiro coerente com o desfecho do original e, mais ainda, de encaixar nele canções do ABBA não utilizadas no primeiro capítulo. Porém, nenhum desafio é grande o bastante para um estúdio em busca de um sucesso de bilheteria, e poucos repertórios são tão fortes quanto o do grupo sueco - em que até mesmo as músicas menos conhecidas são capazes de empolgar. Com isso, "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" não chegou a surpreender quando, dez anos depois da estreia do primeiro filme, encerrou sua carreira nas salas de exibição com uma respeitável renda de 365 milhões - nada mal para uma produção sem efeitos visuais dispendiosos, super-heróis devidamente testados e aprovados e uma campanha de marketing maciça. Mesmo com a ousadia de abdicar da presença marcante de Meryl Streep - aqui apenas em uma rápida participação especial -, o filme do britânico Ol Parker é divertido o bastante para não fazer feio diante da memória afetiva das plateias. 

De certa forma aprisionados pelo final redondinho do primeiro filme - cujo desfecho não abria espaço para novos desdobramentos -, os roteiristas de "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" (dentre os quais está o experiente Richard Curtis) encontraram uma solução interessante ao intercalar presente e passado: Sophie (Amanda Seyfried) está passando por dias conturbados, já que a reinauguração do hotel de sua mãe, Donna (Meryl Streep), morta há um ano, está ameaçado por questões naturais (uma tempestade que pode atrapalhar as festividades) e por situações mais prosaicas, como uma possível crise em seu relacionamento com Sky (Dominic Cooper) e a ausência de dois de seus pais afetivos, envolvidos em projetos profissionais. Enquanto lida com tais atribulações, nunca deixa de lembrar da encorajadora história de Donna, que em 1979 (e vivida por Lilly James), saiu de sua zona de conforto para realizar seu sonho de viajar pelo mundo - e de quebra, viveu uma surpreendente história de amor/desejo/paixão/liberdade com o romântico Harry (Hugh Skinner), o sexy Bill (Josh Dylan) e o misterioso Sam (Jeremy Irvine). Contando com a ajuda de Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski) - fiéis escudeiras de sua mãe - e com o apoio do novo gerente do hotel, o charmoso Fernando Cienfuegos (Andy Garcia), Sophie descobre que o legado de Donna é maior do que simplesmente a bela propriedade na Grécia... e até mesmo sua excêntrica avó reaparece, para sua surpresa.

 

Com uma direção mais ágil e segura do que a do primeiro filme - e apresentando coreografias mais elaboradas que tornam as canções ainda mais energéticas - "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" faz uso inteligente de flashbacks, que disfarçam o fiapo de história e a falta de conflitos relevantes. Cientes de que o mais importante do projeto eram as músicas e as personagens amadas pelo público, os roteiristas se dedicaram a criar uma nova trama de acordo com a trilha sonora - e acertaram em cheio ao dar prioridade à juventude de Donna em detrimento aos pouco interessantes problemas sentimentais e profissionais de Sophie: mesmo que Amanda Seyfried seja talentosa o suficiente para sustentar uma produção (como já fez em outras ocasiões), sua personagem quase desaparece diante da energia de Lilly James - mesmo que elas não dividam nenhuma cena, por razões óbvias. Centro do filme, James tira de letra o desafio de dividir um papel com Meryl Streep - e sua química com o elenco jovem aponta o talento do diretor Ol Parker, em sua primeira grande produção, depois dos pouco ambiciosos "Imagine eu e você" (2005) e "Agora e para sempre" (2012): sem o objetivo de aprofundar um estilo ou aparecer mais do que a história que deseja contar, Parker oferece ao público duas horas de diversão escapista, leve e alto-astral, que em nada mancha o legado do filme original - cujos maiores atrativos eram, a rigor, a trilha sonora e a presença ensolarada e rara (em um musical) de Streep. Se há algo a reclamar é apenas o pouco tempo em cena dos veteranos do "Mamma Mia!" original - em especial as excelentes Julie Walters e Christine Baranski. Mas, em compensação, há a surpresa da presença da sempre luminosa Cher, aqui no papel da apoteótica (como não poderia deixar de ser) Ruby, a bissexta avó de Sophie.

"Mamma Mia: lá vamos nós de novo" cumpre o que promete. É divertido, é despretensioso e é, acima de tudo, uma ode à alegria, ao amor e à amizade. Não tem o frescor do primeiro filme - e nem o carisma de Meryl Streeep a não ser em poucos minutos, no final -, mas não deixa a peteca cair em termos de energia e honestidade. Para o seu público-alvo é uma festa: dançante, contagiante e sem contra-indicações. Não é uma obra-prima e nem mudou a história do cinema, mas é um filme conforto dos mais agradáveis - exceto para quem busca produções cabeça ou repletas de testosterona pura e simples.

 

sexta-feira

AO ENTARDECER

 


AO ENTARDECER (Evening, 2007, Hart Sharp Entertainment/Twins Financing/MBF Erste Filmproduktiongesellschaft, 117min) Direção: Lajos Koltai. Roteiro: Michael Cunningham, Susan Minot, romance de Susan Minot. Fotografia: Gyula Pados. Montagem: Allyson C. Johnson. Música: Jan A. P. Kaczmarek. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Caroline Hanania/Catherine Davis. Produção executiva: Michael Cunningham, Jill Footlick, Michael Hogan, Robert Kessel, Susan Minot. Produção: Jeffrey Sharp. Elenco: Claire Danes, Patrick Wilson, Hugh Dancy, Vanessa Redgrave, Toni Collette, Natasha Richardson, Meryl Streep, Mamie Gummer, Eileen Atkins, Glenn Close, Barry Bostwick. Estreia: 09/6/2007 (Newport International Film Festival)

Autor dos livros que deram origem ao premiado "As horas" (2002) - vencedor do Oscar de melhor atriz e indicado a outras sete estatuetas - e ao pouco conhecido "Uma casa no fim do mundo" (2004), estrelado por Colin Farrell e Robin Wright -, o norte-americano Michael Cunningham tem predileção por personagens torturados por lembranças do passado e escolhas erradas. Por isso não é surpresa ver seu nome como um dos roteiristas de "Ao entardecer", baseado no romance de Susan Minot: o drama dirigido pelo húngaro Lajos Koltai tem muito da personalidade do escritor e de sua sensibilidade quase feminina, e sua história de amor, renúncia e arrependimentos é o material ideal para emocionar ao público fiel do gênero. Nem sempre a mistura funciona, no entanto, e por mais que sua lista de créditos seja invejável, o filme, lançado sem muito alarde no verão norte-americano de 2007, não chega a ser um marco na carreira de seus envolvidos.

Narrado em dois tempos cronológicos que se intercalam e completam, "Ao entardecer" tem como protagonista Ann Grant, uma mulher que, à beira da morte (e na pele da excelente Vanessa Redgrave), se deixa mergulhar em lembranças de um passado tão romântico quanto dolorido. Suas reminiscências remetem direto a um fim-de-semana em particular, quando (vivida por Claire Danes), compareceu ao casamento da melhor amiga, Lila Wittenborn (Mamie Gummer) em sua mansão litorânea de Newport. Acompanhada do melhor amigo Buddy (Hugh Dancy) - irmão da noiva -, a aspirante a cantora não resiste à beleza natural do local e à atmosfera romântica do evento e acaba por se apaixonar por Harris Arden (Patrick Wilson), um amigo não aristocrático da família. O problema é que não apenas Lila ainda tem fortes sentimentos pelo rapaz - com quem teve um rápido envolvimento no passado -, mas também o inconstante e quase irresponsável Buddy parece nutrir algo mais do que simples amizade por ele. Quando uma tragédia mancha irremediavelmente a festa, cabe a Ann decidir os rumos de sua vida adiante - uma decisão que irá atormentá-la pelo resto de seus dias.

 

Apesar de não apresentar a profundidade que se poderia esperar de uma trama tão repleta de melancolia e culpa, "Ao entardecer" se beneficia - e muito - de um poderoso elenco feminino que se dá ao luxo de ter, em curtas participações especiais, as espetaculares Meryl Streep e Glenn Close. A primeira dá vida à madura Lila, quando, em visita à sua melhor amiga, rememora a dor dos dias trágicos que praticamente as afastaram. Close, por sua vez, surge em cena como a excêntrica mãe de Lila e Buddy - com direito a pelo menos uma cena digna de seus melhores trabalhos. Dividindo o papel de Ann em diferentes fases da vida, Claire Danes e Vanessa Redgrave compartilham, também, a força da sutileza, optando sempre pelo mínimo para transmitir a variada gama de sentimentos de sua personagem. Na pele das filhas adultas de Ann - duas mulheres com visões distintas da vida e que se vêem diante da iminência da morte -, as ótimas Toni Collette e Natasha Richardson (filha de Vanessa Redgrave também na vida real) encontram o tom exato entre a angústia da perda  e a surpresa em descobrir uma história escondida na vida da mãe aparentemente feliz. Ao elenco masculino resta pontuar com correção o brilho das mulheres: Patrick Wilson é o galã ideal, másculo e romântico, e Hugh Dancy (que se apaixonou por Claire Danes durante as filmagens, e foi correspondido) se destaca como o vibrante e pouco ortodoxo Buddy. Premiado diretor de fotografia indicado ao Oscar por "Malena" (2000), Lajos Koltai sai-se relativamente bem no comando de seus atores e brilha na composição visual das cenas - algumas delas dotadas de uma poesia tocante  -, mas nem sempre consegue manter o ritmo de sua narrativa, o que acaba por comprometer o resultado final e amenizar seu impacto emocional. A carreira musical de Ann, por exemplo, é apenas citada em alguns diálogos - apenas no casamento de Lila ela solta a voz, mas sua paixão por Harris muitas vezes soa maior do que pela música, e até mesmo sua história de amor não alcança profundidade o suficiente para que o espectador se importe com ela. Claire Danes é uma atriz fantástica, mas sua química com Patrick Wilson é apenas morna, o que enfraquece o ponto principal de todo o filme.

Pouco lembrado dentro da filmografia de seus atores - todos eles com um vasto e relevante currículo -, "Ao entardecer" é um belo filme, tanto em termos visuais quanto dramáticos, mas carece da força que os grandes possuem. A história pouco memorável é valorizada pelo ótimo elenco, mas por vezes soa como um dèja-vu, misturando elementos de várias outros romances sem grandes critérios. O roteiro - coescrito por Michael Cunningham e pela autora do livro que lhe deu origem, Susan Minot - não apresenta maiores novidades e é quase previsível, com um final tão sutil que priva o espectador da catarse que se espera de uma produção do gênero. Apesar dos pesares, no entanto, tem tudo para comover aos mais sensíveis - e nunca é perda de tempo assistir gente como Claire, Vanessa, Meryl, Toni e Glenn Close.

quinta-feira

ELA É O DIABO


ELA É O DIABO (She-devil, 1989, Orion Pictures, 99min) Direção: Susan Seidelman. Roteiro: Barry Strugatz, Mark R. Burns, romance de Fay Weldon. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Craig McKay. Música: Howard Shore. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr.,William Durning Sr.. Produção: Jonathan Brett, Susan Seidelman. Elenco: Meryl Streep, Roseanne Barr, Ed Begley Jr., Linda Hunt, Sylvia Miles. Estreia: 06/12/89

Até 1989, com a estreia de "Ela é o diabo", havia uma cobrança quase unânime de público e crítica para que Meryl Streep, já então considerada uma das maiores atrizes de Hollywood - e com dois Oscar no currículo - fizesse uma comédia. Não uma comédia sutil, como "Manhattan" (1979), ou de tintas românticas, como "A difícil arte de amar" (1986), mas uma comédia rasgada, que pudesse apresentar à plateia um lado menos sombrio e dramático de seu potencial. Saída do denso "Um grito no escuro" (1988), que lhe renderia mais uma indicação ao prêmio da Academia, Streep acabou finalmente se rendendo à expectativa dos fãs ao entrar no elenco de "Ela é o diabo", que, dirigido pela mesma Susan Seidelman de "Procura-se Susan desesperadamente" (1986), lhe daria a chance de explorar ainda mais seus talentos. Como forma de inovar ainda mais e sair de vez da zona de conforto, Streep abriu mão do papel de esposa sofredora, traída e abandonada - e posteriormente vingativa - e escolheu viver uma escritora fútil, vaidosa e egocêntrica. Não poderia ter dado mais certo: com um frescor raro e um senso cômico preciso, Meryl Streep conseguiu ofuscar aquela que deveria ser a principal estrela do filme - a comediante Roseanne Barr, em sua estreia no cinema - e deixou na audiência a sensação de que realmente ela poderia fazer qualquer papel.

Baseado no romance "The life and loves of s She-devil", da britânica Fay Weldon, publicado pela primeira vez em 1983, o roteiro de "Ela é o diabo" transfere a ação da Inglaterra para os Estados Unidos e altera o tom um tanto pesado do original para oferecer uma atmosfera mais alto-astral ao público - o que difere bastante da primeira adaptação do livro, feita em forma de minissérie em 4 capítulos para a televisão, em 1986. A escolha de Roseanne Barr - bastante popular nos EUA graças à série "Roseanne" - também já demonstrava que Seidelman não tinha intenção de pesar a mão em sua visão da história, e sim pretendia transformá-la na base de um conto feminista e esperançoso. Com um enredo que, a despeito da origem geográfica, fazia sentido no mundo todo - não à toa teve duas versões no cinema indiano, durante a década de 1990 -, "Ela é o diabo" assumiu importância social inesperada ao falar ao público feminino de forma franca e divertida... e ao eleger como protagonista uma mulher longe do ideal estético e cultural fomentado pela sociedade do século XX. Ruth Pratchett, a personagem principal, está acima do peso, se veste mal, não é exatamente vaidosa (sua verruga monstruosa no rosto pode soar exagerada, mas não deixa de ser um símbolo a mais de sua rebeldia em relação ao convencional) e tampouco tem interesses além da casa, dos filhos e do marido - mas é capaz de qualquer coisa para dar o troco quando se sente apunhalada pelas costas.


 

Antes que Roseanne Barr assumisse o papel de Pratchett - que lhe cai como uma luva, diga-se de passagem -, uma lista de atrizes dos mais variados tipos físicos, etários e currículos foram sondadas e/ou testadas. É difícil imaginar que Kathy Bates, Bette Midler, Rosie O'Donnell e Beverly D'Angelo tenham sido imaginadas para o mesmo papel para o qual foram cogitadas Michelle Pfeiffer, Barbara Hershey, Ally Sheedy e Kathleen Turner, mas foi o que aconteceu. O mesmo ocorreu com a escalação de Ed Begley Jr. para viver Bob, o marido de Ruth: se Jeff Daniels e Jeff Bridges foram seriamente cotados, nomes diversos como Harrison Ford, Richard Dreyfuss, Chevy Chase, Steve Martin, Robin Williams (e até Michael Douglas e Robert DeNiro!!) passaram pela mente dos produtores, o que dá uma bela ideia de como a proposta do filme foi sendo alterada com o passar do tempo. Isso não impede, no entanto, que o resultado final tenha ficado bastante sólido - ainda que não exatamente inesquecível. Seidelman explora ao máximo o talento de seus atores e impõe um belo ritmo ao roteiro, mas falha ao oferecer um conteúdo um tanto superficial: a ideia de fazer Ruth descobrir-se uma mulher com mais qualidades do que pensava ter e com um insuspeito talento para o empreendedorismo acaba ficando em segundo plano diante da vingança inconsequente e pouco crível a que se dedica para infernizar a vida do ex-marido.

A trama começa quando Ruth - uma dona-de-casa dedicada mas pouco atraente e bastante simplória - perde o marido, Bob, para Mary Fisher, uma escritora bem-sucedida, bela, milionária e famosa. Fútil e afetada, Fisher representa o completo oposto de Ruth, que vê na situação o motivo de que precisava para virar a mesa. Ciente de tudo que importa para o ex-marido - família, casa, carreira e liberdade -, a esposa traída arma um plano meticulosamente armado para destruir tudo - e no caminho descobre que a separação talvez tenha sido o melhor que lhe poderia ter acontecido. A trama pode até soar um pouco maniqueísta, mas serve como comédia e envolve até os minutos finais - mesmo que pudesse ser explorada com menos pressa e mais atenção a situações que poderiam render mais, como a relação de Mary com a mãe (a veterana Sylvia Miles) e a amizade entre Ruth e Hooper (Linda Hunt), de quem se torna colega como parte do seu plano de vingança. Susan Seidelman é uma cineasta que busca a simplicidade como parte fundamental de sua obra - e "Ela é o diabo" consegue unir as expectativas de uma produção de estúdio (Orion Pictures) e o senso de independência de um videoclipe. É problemático em termos de condicionar a felicidade feminina ao suporte masculino - ainda que tente timidamente ensaiar aplausos à independência da mulher -, mas é uma sessão da tarde saudosista e divertida.

domingo

THE POST: A GUERRA SECRETA


THE POST: A GUERRA SECRETA (The Post, 2017, 20th Century Fox/Dreamworks Pictures/Reliance Entertainment, 116min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Liz Hannah, Josh Singer. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Sarah Broshar, Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Rena DeAngelo. Produção executiva: Tom Karnoswski, Josh Singer, Adam Somner, Tim White, Trevor White. Produção: Kristie Macosko Krieger, Amy Pascal, Steven Spielberg. Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Alison Brie, Carrie Coon, Jesse Plemons, Michael Stuhlbarg. Estreia: 14/12/2017

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Meryl Streep

Até "A lista de Schindler" (1993) sair da cerimônia do Oscar 1994 com sete estatuetas - incluindo melhor filme e direção -, havia uma certa resistência da Academia em relação à filmografia de Steven Spielberg, um dos mais bem-sucedidos cineastas da história de Hollywood. Problemas deixados de lado, o diretor voltou a ser premiado, em 1999, graças ao comando do impecável "O resgate do soldado Ryan" - que chegou perto de também levar o troféu principal e acabou perdendo para "Shakespeare apaixonado", em uma das decisões mais polêmicas do prêmio - e tornou-se, desde então, um eterno indicado em potencial. Cada filme seu, independente do sucesso junto ao público, tem boas chances de estar na seleta lista dos melhores de cada temporada. Às vezes com justiça - caso dos ótimos "Munique"" (2005) e "Ponte dos espiões" (2015). Em outras ocasiões como resultado de uma quase alucinação coletiva - como o soporífero "Lincoln" (2012), que deu o terceiro Oscar de melhor ator a Daniel Day-Lewis. "The Post: A Guerra Secreta", lançado no final de 2017 com pretensões de seduzir a Academia, fica no meio do caminho: não chega nem perto de ser um dos destaques da sua celebrada filmografia, mas tampouco é tão difícil como seus trabalhos mais lentos.

Baseado em uma história real - e realizado com um impressionante grau de realismo -, "The Post" é um caso raro dentro da indústria: entre o começo de suas filmagens, em maio de 2017, e seu lançamento limitado, em dezembro do mesmo ano, passaram-se apenas sete meses. A pressa de Spielberg era justificada pelo clima político dos EUA, assolado (como em outros países) por ondas criminosas de fake news. Como forma de demonstrar um posicionamento a favor de imprensa livre e séria, o cineasta foi buscar no roteiro de Liz Hannah (coescrito por Josh Singer, que já havia lidado com o tema em "O quinto poder", de 2013, e "Spotlight: segredos revelados", que lhe rendeu um Oscar em 2015) o material ideal. Escrito com base em livros de memórias de seus dois protagonistas - e um terceiro, escrito por uma fonte crucial para a ação -, "The Post" é um thriller político com ecos nítidos de "Todos os homens do presidente" (1976) e, como tal, se esforça em ser o mais fiel possível na reconstituição dos fatos que levaram a um dos mais sérios dilemas éticos do jornalismo norte-americano do século XX. Por coincidência (ou não), no olho do furacão estava o mesmo Washington Post que, poucos anos depois, seria o responsável pelas reportagens que levaram à renúncia do então presidente Richard Nixon. Ao contrário do filme dirigido por Alan J. Pakula, no entanto, "The Post" centra seu foco menos nos repórteres e mais nos editores - mais nas dúvidas a respeito da publicação do que na busca pelas informações.


 Coadjuvante em "Todos os homens do presidente" - tanto que seu intérprete no filme, Jason Robards, levou o Oscar da categoria -, o editor-chefe Ben Bradlee assume, em "The Post", a co-protagonização, ao lado da diretora do jornal, Kay Adams, interpretada por Meryl Streep. Na pele de Tom Hanks (em sua quinta colaboração com Steven Spielberg), Bradlee é o que mais se aproxima de herói, no filme: ético, responsável, pai de família respeitável e bom amigo, ele é, também, a voz da consciência que permeia a narrativa, que inclui, de forma oportuna e inteligente, uma discussão muito bem-vinda sobre machismo. Ao herdar a direção do jornal depois do suicídio do marido, Kay precisa passar por cima de todo o preconceito em relação a seu gênero - o que inclui embates com financiadores e banqueiros pouco confiantes em seus talentos como administradora. "The Post" é, então, um filme com duas frentes dramáticas que se encontram na segunda (e superior) metade: se publicar os documentos secretos que confirmam um sistemático encobertamento do governo dos EUA em relação à guerra do Vietnã - um processo que envolveu vários presidentes -, o jornal pode sofrer consequências jurídicas que podem levá-lo à falência, mas sua posição em relação à liberdade de imprensa fatalmente será comprometida junto aos leitores. Essa questão - cada vez mais pertinente e atual - é o cerne do filme de Spielberg, mas demora a estabelecer-se, e essa morosidade quase estraga o resultado final.

Apesar da premissa ser eletrizante e apontar para um desenvolvimento ágil como se espera de um thriller, "The Post: a guerra secreta" sofre de um sério problema de ritmo em sua primeira metade. Não que sem sua segunda parte o filme abandone suas longas sequências de reuniões de escritório e bastidores burocráticos do jornalismo, mas é perceptível que a coisa só engrena de verdade quando o Washington Post assume as rédeas da narrativa, tomando para si a responsabilidade de desafiar o governo Nixon. Não é tão empolgante quanto seu irmão mais velho - novamente é preciso relembrar "Todos os homens do presidente" - e nem tão ágil quanto "Spotlight" (no qual o ator John Slattery interpreta o filho de Ben Bradlee, personagem de Hanks), mas consegue, de certa forma, explicar os motivos pelos quais encantou parte da crítica. Eleito o melhor filme de 2017 pelo National Board of Review e indicado a dois Oscar - incluindo a 21ª indicação de Streep, um recorde absoluto -, "The Post" pode não ser um dos melhores trabalhos de Spielberg, mas, como sempre, sua excelência técnica (fotografia, música, edição, elenco) o destaca positivamente dentre os filmes de sua geração. É uma bela homenagem à força feminina e à liberdade de imprensa - e seus defeitos de ritmo podem ser perdoados diante de tal importância histórica.

quinta-feira

RICKI AND THE FLASH: DE VOLTA PARA CASA

RICKI AND THE FLASH: DE VOLTA PARA CASA (Ricki and The Flash, 2015, TriStar Pictures, 101min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Diablo Cody. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Wyatt Smith. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/George De Titta Jr.. Produção executiva: Ron Bozman, Lorene Scafaria, Adam Siegel, Ben Waisbren. Produção: Diablo Cody, Gary Goetzman, Mason Novick, Marc Platt. Elenco: Meryl Streep, Kevin Kline, Mammie Gummer, Rick Springfield, Audra McDoald, Ben Platt, Sebastian Stan, Nick Westrate. Estreia: 03/8/15

O diretor é Jonathan Demme, vencedor do Oscar por "O silêncio dos inocentes" (91). O roteiro é de Diablo Cody, que levou pra casa uma estatueta por "Juno" (2007). O elenco reúne os premiados Meryl Streep (três Oscar e mais de vinte indicações) e Kevin Kline (laureado como coadjuvante por "Um peixe chamado Wanda", de 1988) - ambos do elenco do inesquecível "A escolha de Sofia" (82). A trilha sonora conta com canções de Bruce Springsteen, Tom Petty, Rolling Stones, Pink e Lady Gaga - todas interpretadas por Streep. E, para completar, a veterana atriz estaria em cena no papel de mãe de sua filha na vida real, Mammie Gummer. Com tantos atrativos, por que então "Ricki and The Flash: de volta para casa" deu tão errado? Tido como um forte candidato às cerimônias de premiação das quais Streep é frequentadora assídua, o filme de Demme não apenas naufragou nas bilheterias americanas como foi solenemente ignorado nos tapetes vermelhos de Hollywood. Talvez tenha sido o excesso de expectativas, mas o fato é que o último trabalho do cineasta (que morreu em abril de 2017) decepcionou a crítica e não chamou a atenção do público - o que não é exatamente difícil de entender, uma vez que o filme é um drama familiar apenas mediano, nem de longe inovador e corajoso como seus melhores trabalhos.

Revelado por comédias anárquicas, como "Totalmente selvagem" (87) e "De caso com a máfia" (88), Jonathan Demme acabou rendido ao mainstream depois da surpreendente (e maciça) vitória no Oscar 92, quando seu mórbido "O silêncio dos inocentes" ganhou as cinco principais estatuetas da noite - filme, diretor, roteiro, ator e atriz. Alçado imediatamente a um nome comercialmente viável (o filme de suspense também foi um enorme sucesso financeiro), ele abraçou de vez a comunidade hollywoodiana. Realizou "Filadélfia" (93) - que deu o Oscar de melhor ator a Tom Hanks - e passou a dividir a carreira entre produções caras ("Bem-amada", fracasso de 1998, estrelado e produzido por Oprah Winfrey), remakes ("O segredo de Charlie" em 2002 e "Sob o domínio do mal" em 2004) e documentários e ocasionais episódios de séries de televisão. Em 2008, experimentou uma quase ressurreição crítica quando seu "O casamento de Rachel" proporcionou à Anne Hathaway sua primeira indicação ao Oscar. Experiente e iconoclasta - mas bem mais manso do que no começo de sua trajetória -, Demme não demonstra, em "Ricki and The Flash", a mesma energia de suas obras mais célebres. Mesmo sendo um filme que não chega a ofender a inteligência da plateia, é apenas uma pálida lembrança de seu talento incendiário e pulsante.


Levemente inspirada na história de sua sogra (uma roqueira mãe de família), Diablo Cody criou uma trama frágil, amparada basicamente no carisma de seus protagonistas e na trilha sonora caprichada. Meryl Streep faz o que pode no papel principal - além de cantar e tocar guitarra de verdade -, mas Kevin Kline é subaproveitado, relegado a um segundo plano injusto e pouco interessante. Streep vive a líder de um grupo de rock chamado Ricki and The Flash, que toca em um pequeno bar da Califórnia: é assim, ao lado do marido/colega/namorado Greg (o músico Rick Springfield) e outros músicos de meia-idade que terminou sua busca pelo sucesso artístico, que a levou a abandonar a família quando os filhos ainda eram crianças. Como um chamado do passado, seu ex-marido, Pete (Kevin Kline) lhe pede socorro em uma situação emergencial: abalada com o fim de seu casamento ainda recente, sua filha, Julie (Mamie Gummer), está em depressão profunda e, segundo seu pai, precisa da ajuda materna. Mesmo hesitante quanto à veracidade da carência de Julie, Ricki (cujo nome verdadeiro é Linda) pega um avião para Indianapolis e encontra a jovem realmente em estado deplorável. Porém, como sua saída da vida da família não foi exatamente diplomática, existem muitas arestas a serem aparadas na relação mãe e filha - assim como na dinâmica de seu relacionamento com os outros dois filhos, um deles prestes a casar e o outro assumidamente gay.

A volta inesperada de Ricki (ou Linda) ao seio da família, que foi reconstruída em sua ausência, serve como o catalisador que faltava para uma tormenta de ressentimentos vir à tona. Seus filhos não a consideram tanto como à nova esposa de Peter, a dedicada Maureen (Audra McDonald), e ela passa a questionar se suas escolhas realmente valeram a pena. Nesse meio-tempo, ressurge entre ela e Julie uma tênue, mas ainda existente, ligação, e seu deslocamento em relação a tudo que se refere à vida normal torna-se não mais motivo de orgulho, e sim de certa tensão. O cineasta constrói com delicadeza a reconciliação entre mãe e filhos, mas é inegável que o maior problema do filme é o roteiro superficial de Diablo Cody. Ao contrário de "Juno" - e até mesmo de "Jovens adultos" (2012), seu reencontro com o cineasta Jason Reitman -, a trama de "Ricki and The Flash" nunca soa convincente o bastante para emocionar o espectador. Até mesmo o clímax parece forçado - seguindo uma receita já testada diversas vezes e que pode até divertir, mas nunca ultrapassa o previsível e o inverossímil. É uma pena que a despedida de Demme não tenha feito jus à sua carreira - mas, ao menos, é uma produção simpática que, se não muda a vida de ninguém, também não é uma total perda de tempo. Realmente é só uma questão de baixar as expectativas que seus créditos possam suscitar.

domingo

JULIE & JULIA

JULIE & JULIA (Julie & Julia, 2009, Columbia Pictures, 118min) Direção: Nora Ephron. Roteiro: Nora Ephron, livros de Julie Powell e Julia Child e Alex Prud'homme. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Richard Marks. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Donald J. Lee Jr., Scott Rudin, Dana Stevens. Produção: Nora Ephron, Laurence Mark, Amy Robinson, Eric Steel. Elenco: Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci, Chris Messina, Kelly Lynch, Frances Sternhagen, Linda Emond. Estreia: 30/7/09

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz em Comédia/Musical (Meryl Streep) 

Primeiro foram livros e peças de teatro. Depois, ideias vinham de notícias de jornal e de biografias de celebridades e/ou políticos. Mais adiante, histórias em quadrinhos (adultos ou não). Hollywood nunca pode se queixar da falta de material original para suas adaptações - fossem elas bem-sucedidas ou não, fieis à origem ou não. Mas, com o advento da Internet um novo manancial de ideias apareceu no horizonte de roteiristas e produtores: parcialmente inspirado em um blog (devidamente transformado em livro e publicado de acordo com a tradição),"Julie & Julia" também inovou ao utilizar-se de um livro de receitas (dos mais prestigiados e populares, mas ainda assim de receitas) como parte de sua trama. Adaptados pela veterana Nora Ephron, os livros de Julie Powell e Julia Child chegaram às telas e conquistaram público e crítica: com mais de 100 milhões de dólares arrecadados pelo mundo e premiado com o Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical de 2009, "Julie & Julia" é uma deliciosa história de amor à gastronomia... ou, sendo ainda mais correto: são duas histórias de amor à gastronomia!

Amparada por uma inspiradíssima Meryl Streep (que arrebatou sua 16ª indicação ao Oscar por seu papel) e por uma então ainda promissora Amy Adams (que já havia concorrido à estatueta de coadjuvante justamente por um filme ao lado de Streep, "Dúvida", de 2008), Nora Ephron exercita seu habitual senso de humor e sofisticação ao narrar duas histórias paralelas que, mesmo separadas por meio século, se conectam através da paixão pela culinária e por detalhes que, enfatizados sutilmente pela edição, as tornam muito mais próximas do que poderiam supor. Obviamente mirando em um público-alvo mais adulto do que a maioria das comédias hollywoodianas, o roteiro de Ephron
evita piadas fáceis e até mesmo escapa da polêmica que seria revelar as atividades de Julia Child para o governo norte-americano - depois do lançamento do livro, mas antes das filmagens, já se sabia que a famosa autora havia servido de informante durante seu período na França, mas tal fato é apenas mencionado de passagem em um curto diálogo. Tais complicações políticas não interessam à trama engendrada pela diretora/roteirista, que prefere focar sua atenção no crescimento pessoal de suas protagonistas oferecido por sua entrega à cozinha - que surgem como válvula de escape e se tornam parte indissociável de suas vidas pessoais.


Julie Powell (Amy Adams dando um banho de carisma) é uma jovem aspirante a escritora que passa seus dias em um frustrante e monótono emprego burocrático que a deprime - a despeito de sua relação apaixonada com o marido, Eric (Chris Messina). Como forma de fixar um objetivo que possa arrancar-lhe do marasmo, ela desafia a si mesma a cozinhar, por um ano inteiro, todas as receitas do primeiro e mais famoso livro da escritora Julia Child - e registrar suas tentativas em um blog, que não demora a tornar-se um fenômeno de popularidade. Durante o processo, Julie começa a tornar-se obcecada pela história de Child (Meryl Streep), uma americana que, casada com o diplomata Paul Child (Stanley Tucci), transforma sua estada em Paris, a partir de 1949, em uma maneira de traduzir para suas conterrâneas as sofisticadas receitas francesas que aprendeu na tradicional Cordon Bleu. Dedicada e talentosa, ela acaba por publicar seu livro de receitas, apresentar programas de culinária na TV e se transformar em um nome conhecido internacionalmente - e, décadas depois, inspirar Julie a encontrar um sentido para sua vida. O segredo de Ephron em seu roteiro é fazer com que suas duas personagens centrais passem pelas mesmas dificuldades, mas logicamente de acordo com sua época e contextos histórico e social. Esse artifício de utilizá-las como espelho uma da outra funciona muito bem, especialmente porque a química entre Adams e Streep é perfeita: mesmo que elas jamais contracenem, existe uma sensação de unidade entre as duas que é palpável, graças à direção leve e aos desempenhos acima da média de ambas - amparadas também por seus excelentes colegas de cena Stanley Tucci e Chris Messina.

Como é normal no cinema de Nora Ephron, não há nada de espetacular ou catártico em "Julie & Julia". Seu roteiro fluido e por vezes surpreendentemente emocionante segue sem sustos por um caminho que pode até parecer previsível, mas que encanta justamente por oferecer ao público o conforto da simplicidade. Streep (que conta com a ajuda de ângulos especiais para dar a impressão de ser do real tamanho da gigantesca Julia Child) mais uma vez é maior que o filme, ainda que sua personagem pareça caricatural com seu jeito de falar e se movimentar. A maior surpresa, porém, é a segurança de Amy Adams em não se deixar intimidar pela presença da celebrada atriz e fazer de sua Julie Powell uma personagem interessante e repleta de nuances a ponto de quase roubar a cena. Se Streep foi indicada ao Oscar, Adams ficou de fora da seleção da Academia injustamente: é seu olhar cheio de esperança, otimismo e às vezes desespero que fazem do filme de Nora Ephron a delícia que é - e sua dupla com Chris Messina é simplesmente adorável. Que venham novas colaborações!

sexta-feira

A MULHER DO TENENTE FRANCÊS

A MULHER DO TENENTE FRANCÊS (The French Lieutenant's woman, 1981, United Artists, 124min) Direção: Karel Reisz. Roteiro: Harold Pinter, romance de John Fowles. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: John Bloom. Música: Carl Davis. Figurino: Tom Rand. Direção de arte/cenários: Assheton Gordon/Ann Mollo. Produção: Leon Clore. Elenco: Meryl Streep, Jeremy Irons, Hilton McRae, Emily Morgan, Charlotte Mitchell. Estreia: 18/9/81 (Festival de Toronto)

5 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Meryl Streep) 

Quando Meryl Streep recebeu sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz, por "A mulher do tenente francês" (81), ela já estava acostumada a ser lembrada pela Academia na categoria de coadjuvante - já havia sido indicada por "O franco-atirador" (78) e premiada por "Kramer vs Kramer" (79). Seu desempenho duplo no filme de Karel Reisz lhe valeu um Golden Globe de melhor atriz em drama, um prêmio dos críticos de Los Angeles e o BAFTA - mas, do alto de sua modéstia, ela o considera um dos mais fracos de sua carreira. Basta assistir ao filme uma única vez, no entanto, para constatar que já nos primeiros anos de sua carreira no cinema, Streep já era um fenômeno. Mesmo que Helen Mirren fosse a escolha do escritor John Fowles (autor do livro que deu origem ao filme), é difícil imaginar que alguém pudesse ser tão absolutamente certeira nos papéis centrais. Já brilhando em seu talento de imitar sotaques, a atriz teve lições diárias para aperfeiçoar seu tom britânico - mas é em seu olhar, sua expressão corporal e na vasta gama de emoções que ela transmite que reside seu maior trunfo: a sinceridade.

Sem buscar respostas definitivas a respeito da personagem-título, Streep serve como um canal (espetacular) para que a trama de Fowles (autor também do romance que originou "O colecionador", de 1966) chegue ao espectador da forma mais limpa e emocionante possível. Um livro difícil de ser adaptado (que o digam cineastas como Milos Forman, Mike Nichols, Sidney Lumet e Fred Zinnemann, entre outros que tentaram a façanha durante anos), "A mulher do tenente francês" ganha requintes de sofisticação com o roteiro escrito pelo premiado dramaturgo Harold Pinter. Experiente, Pinter criou uma solução inusitada como forma de comportar dois dos três finais alternativos propostos por Fowles em sua obra: inventou uma trama paralela, contemporânea, que dialogava com a trágica e romântica estória descrita no livro. Nem sempre funciona - em alguns momentos desvia o foco sem necessidade e não tem a força necessária para envolver o público -, mas não deixa de ser um exemplo de criatividade e, de certa forma, liga o passado e o presente com toques poéticos e dramáticos que também realçam as diferenças cruciais na visão do comportamento feminino em circunstâncias e tempos distintos.


A trama original se passa no interior da Inglaterra do século XIX, e é centrada na figura melancólica e desamparada de Sarah (Meryl Streep), que passa seus dias à sombra do preconceito de que é vítima graças a seu infeliz caso de amor com um militar francês, que a abandonou à própria sorte. Seu semblante misterioso acaba por chamar a atenção de Charles (Jeremy Irons), um biólogo que está no lugar para acertar os detalhes de seu casamento. Atraído irremediavelmente pela aura trágica de Sarah - cuja história é contada aos quatro ventos pela cidade -, o rapaz acaba por aproximar-se dela, a princípio por curiosidade e posteriormente por uma paixão avassaladora que arrisca sua reputação e seu noivado. Sarah, no entanto, não é uma personalidade fácil de decifrar - e logo Charles percebe que embarcou em um relacionamento cujas consequências poderão ser desastrosas. Enquanto isso, em uma narrativa paralela, um estúdio de Hollywood está filmando a trajetória de Sarah e Charles - e seus intérpretes, Anna e Mike (novamente Streep e Irons) se descobrem tão apaixonados quanto seus personagens.

A divisão da história em dois tempos - com suas características próprias e personagens distintos - proporciona a Meryl Streep e Jeremy Irons (que voltariam a contracenar em "A casa dos espíritos", em 1994) a chance de mostrar sua versatilidade como intérpretes, dotando cada um de seus personagens com motivações e sentimentos próprios. Mesmo que a subtrama contemporânea não seja tão envolvente quanto o romance entre Sarah e Charles, a química entre os dois atores é brilhante, valorizada pela edição (indicada ao Oscar) e pela diferença de tons na fotografia de Freddie Francis - mais pesada no passado, mais clara no presente. O clima de opressão da vida de Sarah é também ilustrada pela trilha sonora inspirada e pela direção de arte, cinzenta e enevoada como sua alma. Dirigido com precisão pelo tcheco Karel Reisz, "A mulher do tenente francês" é um clássico romântico dos anos 80 - e mesmo que a própria Meryl Streep o contradiga, uma das atuações mais sutis e delicadas de sua carreira.

segunda-feira

IRONWEED

IRONWEED (Ironweed, 1987, TriStar Pictures, 143min) Direção: Hector Babenco. Roteiro: William Kennedy, romance de sua autoria. Fotografia: Lauro Escorel. Montagem: Anne Goursaud. Música: John Morris. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Leslie Pope. Produção executiva: Denis Blouin, Rob Cohen, Joseph H. Canter. Produção: Keith Barish, Marcia Nasatir. Elenco: Jack Nicholson, Meryl Streep, Tom Waits, Carroll Baker, Diane Venora, Frank Whaley. Estreia: 18/12/87

2 indicações ao Oscar: Ator (Jack Nicholson), Atriz (Meryl Streep)

O primeiro encontro entre Meryl Streep e Jack Nicholson nas telas foi em 1986, com "A difícil arte de amar", de Mike Nichols, que retratava o conturbado casamento entre a roteirista Nora Ephron e o jornalista Carl Bernstein (ele mesmo, um dos responsáveis pelas reportagens que derrubaram o presidente Nixon pelo escândalo Watergate). No ano seguinte, a dupla de grandes atores voltaria a se encontrar, sob as mãos do brasileiro/argentino Hector Babenco (em alta devido ao prestígio de "O beijo da mulher-aranha") em uma obra bem mais densa e complicada comercialmente. Baseado no romance de William Kennedy vencedor do Prêmio Pulitzer, "Ironweed" é, segundo seu diretor, "sobre o amor, a coragem e a beleza de pessoas de quem não costumamos pensar que podem ter emoções complexas e profundas". Tais pessoas, no caso, são aquelas cujo passado trágico/dramático/sofrido as empurraram para as ruas - sem-tetos, viciados em álcool e relembrando com melancólica nostalgia seus dias junto às famílias e a uma vida estável. Situado em plena Grande Depressão Americana (consequência da quebra da bolsa de valores de Nova York em 1929) e passando longe dos cartões postais que fazem dos EUA a terra das oportunidades, "Ironweed" é um filme pesado, mas consegue o milagre de extrair poesia e até uma pontinha de otimismo de uma trama centrada basicamente em dor, perda e culpa.

Fotografado com precisão cirúrgica por Lauro Escorel, "Ironweed" não tenta embelezar a vida de tristeza de seus personagens - muito pelo contrário, ilustra de forma visual o cinzento de seu dia-a-dia como uma testemunha silenciosa e compreensiva. O ano é 1938, e o feriado de Halloween leva os dois amantes Francis Pheelan (Jack Nicholson) e Helen Archer (Meryl Streep) à cidade natal dele, Albany, no estado de Nova York. Seu passado é repleto de traumas, sendo o maior a morte de seu filho pequeno, que ele deixou cair no chão ainda bebê - um acontecimento que o afastou da família e o jogou na rua e nos braços do álcool. Helen, por sua vez, era uma cantora talentosa que deixou seus dias de glória no passado e luta contra uma doença incurável, enquanto permanece fiel e leal a Francis e seu grupo de amigos, que inclui o também doente Rudy (Tom Waits) - "tenho câncer e é a primeira vez que eu tenho algo!". Entre abrigos, bares e sarjetas, o casal e seus ocasionais parceiros de copo e de cruz tentam encontrar luz para seus dias tristes, de vez em quando iluminados por momentos de beleza efêmera.


Fugindo bravamente do sentimentalismo barato e da tentação de banalizar ou enfeitar uma camada de seres quase invisíveis da sociedade americana (e por que não universal?), o roteiro de William Kennedy - adaptando seu próprio romance com lances de genialidade - não facilita para o público, tornando seus protagonistas personagens adoráveis e/ou simpáticos. Se existe empatia é graças aos desempenhos extraordinários de seus intérpretes, como sempre impecáveis. Jack Nicholson empresta a seu Francis Pheelan um toque de humanidade e fragilidade poucas vezes visto em sua carreira recheada de tipos excêntricos e arrogantes - seu monólogo frente ao túmulo do filho, logo no início do filme, é uma pérola das mais valiosas (não por acaso, ele foi eleito o melhor ator do ano pelos críticos de Nova York e Los Angeles). Já Meryl Streep brilha sem fazer muito esforço, construindo uma Helen Archer cuja dor de viver está estampada em cada close, em cada sorriso forjado - e principalmente em seu momento-solo, quando sobe ao palco de uma espelunca qualquer para relembrar seus dias de estrela. Ambos foram indicados ao Oscar - e provavelmente perderam as estatuetas devido ao status de "difícil" do filme e seu fraco desempenho na bilheteria: mesmo tendo relativamente poucas cenas juntos, eles elevam o patamar do filme a um nível muito acima da média - e o estabelece como um dos melhores trabalhos de Babenco, um cineasta cuja carreira é marcada por uma série de altos e baixos.

Lançado quatro anos depois da publicação do livro que lhe deu origem - e que está na lista dos 100 melhores romances em língua inglesa do século XX segundo a "The Modern's Library" -, "Ironweed" é um filme único, que trata de pessoas reais e críveis, dotadas de alma e sensibilidade. Jack Nicholson - o ator que William Kennedy tinha em mente desde o começo, apesar de nomes fortes como Gene Hackman, Jason Robards, Paul Newman, Robert Duvall e Sam Shepard terem flertado com o projeto - nunca esteve tão vulnerável em cena, oferecendo ao papel uma delicadeza ímpar, que contrasta com a aridez do cenário, a dureza do tema e a melancolia que perpassa cada minuto. "Ironweed" é uma bela canção sobre dor, luto, perda, desespero. Mas é, também, um filme excepcional, que abraça calorosamente o espectador enquanto lhe mostra um lado feio, sujo e malvado da vida. Um trabalho irretocável de roteiro, direção e elenco, que fica na mente e no coração em iguais medidas. É a obra-prima de Hector Babenco.

quinta-feira

FLORENCE: QUEM É ESSA MULHER?

FLORENCE: QUEM É ESSA MULHER? (Florence Foster Jenkins, 2016, Qwerthy Films/Pathé Pictures International/BBC Films, 111min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Nicholas Martin. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Valerio Bonelli. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Consolata Boyle. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Caroline Smith. Produção executiva: Christine Langan, Cameron McCracken, Malcolm Ritchie. Produção: Michael Kuhn, Tracey Seaward. Elenco: Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg, Rebecca Ferguson, Nina Arianda, Stanley Townsend. Estreia: 23/4/16 (Festival de Belfast)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Figurino

Em 1994, o cineasta Tim Burton retratou, em seu sublime "Ed Wood", a história de um diretor de cinema cuja paixão pela arte era tamanha que o impedia de perceber a absoluta falta de qualidade de seus filmes - e que, após a sua morte, passou a ser considerado unanimemente como "o pior diretor da história do cinema". A história de Florence Foster Jenkins - socialite nova-iorquina que virou tema de uma produção do inglês Stephen Frears - pode não ser exatamente igual, por questões econômicas, sociais e pela diferença no objeto da paixão, mas tem suas similaridades. Incapaz de perceber a si mesma como uma péssima cantora lírica (sendo que péssima, no caso, é eufemismo), Jenkins usava seu dinheiro para financiar compositores e saraus em uma Nova York ainda sofrendo com a II Guerra Mundial - e, de quebra, se autopromovia em pequenas apresentações e até mesmo em disco. Objeto de adoração por amigos e de deboche quase explícito por quem a conhecia somente através de seu suposto dom, ela chegou a lotar o Carnegie Hall, em um show para o qual distribuiu mil convites para soldados americanos. A música era seu grande amor - assim como o marido mais jovem, St. Clair Bayfield - e essa relação íntima e feliz é o tema de "Florence: quem é essa mulher?", comédia dramática que rendeu à Meryl Streep a vigésima indicação ao Oscar de sua carreira, uma marca impressionante que não comprova apenas seu imenso talento mas também o prestígio gigantesco dentro da indústria hollywoodiana.

Exercitando sua veia cômica ao mesmo tempo em que encontra o tom dramático certo para os momentos mais emocionantes de sua personagem, Streep faz uso também de seu vasto carisma para compor uma Florence que transita sem descanso entre o naturalismo e a quase caricatura. Esse equilíbrio - que já vem no roteiro fluido de Nicholas Martin - esbarra apenas na direção um tanto pesada de Stephen Frears. Veterano com duas indicações ao Oscar no currículo - por "Os imorais" (1990) e "A rainha" (2006) - e eclético por natureza, a ponto de adaptar escritores tão díspares quanto Chorderlos de Laclos (em "Ligações perigosas", de 1988) e Nick Hornby (em "Alta fidelidade", de 2000), Frears parece não saber exatamente se prefere imprimir um tom de pastiche à trajetória da protagonista ou concentrar-se em seus dramas particulares (como a sífilis adquirida no primeiro casamento e a relação aberta com o segundo marido). Essa dubiedade - talvez proposital - acaba por dificultar uma entrega completa do público, que gargalha facilmente com o timing cômico perfeito de Streep mas estranha quando a trama escorrega, sem aviso prévio, para o dramalhão. Sorte que Frears sabe escolher seus colaboradores como ninguém, e "Florence: quem é essa mulher?" é exemplar em cada um de seus quesitos.


A reconstituição de época - dos cenários sofisticados ao figurino de Consolata Boyle, copiado das extravagantes roupas da personagem-título, também indicado ao Oscar - é primorosa: a Nova York dos anos 40 é retratada com riqueza de detalhes e um requinte que poderia tranquilamente uma outra nomeação à estatueta dourada. A trilha sonora de Alexandre Desplat faz-se notar apenas quando necessário, deixando que as óperas amadas por Florence ilustrem com mais frequência sua trajetória. E a fotografia acinzentada sublinha a opressão dos anos de guerra, situando a narrativa em um período histórico bastante específico, em que nem mesmo a beleza da música e da arte eram suficientes para fazer esquecer o sangrento conflito na Europa. A atmosfera de festa da alta sociedade em que circula Florence e seus amigos contrasta com a dureza do front - que só chega até eles pelo rádio e pela presença constante de soldados (objetos de admiração e caridade por parte da socialite, que nem por isso deixava de ser alvo de seus comentários debochados). O clímax do filme - o concerto de Florence no Carnegie Hall - é representativo: estão na plateia a alta sociedade nova-iorquina, celebridades (a atriz Tallulah Bankhead, o compositor Cole Porter) e o povo (representado pelos soldados), e no palco, a diva de meia-idade sem noção de sua falta de talento e seu fiel escudeiro, o desajeitado porém competente Cosmé McMoon (Simon Helberg, da série "The Big Bang Theory", e indicado ao Golden Globe de ator coadjuvante). É um encontro e tanto, resumido na declaração da vulgar e emergente Agnes Stark (Nina Arianda): "Não riam! Ela está cantando com o coração!".

Essa grande mensagem do filme - a de que a paixão e o amor podem ser mais importantes que o talento e a afinação - é que faz de "Florence" uma obra tão simpática e calorosa (apesar de estar longe de ser um dos melhores trabalhos de seu diretor). É difícil não se deixar conquistar pela personagem principal, por sua química com o marido adúltero porém carinhoso (que marcou a volta de Hugh Grant ao cinema e lhe rendeu uma indicação ao Golden Globe) e sua relação com o novato Cosmé, a princípio abismado com o fato de ninguém falar a verdade à sua nova patroa mas logo envolvido por seu sentimento de absoluta devoção à música. A interrelação entre os três personagens centrais é o que há de melhor no filme de Stephen Frears - uma conexão impecável que o torna agradável e encantador a ponto de ter seus pecadilhos deixados de lado. Um belo e descompromissado entretenimento!

sexta-feira

AS SUFRAGISTAS

AS SUFRAGISTAS (Suffragette, 2015, Ruby Films/Pathé/Film4, 106min) Direção: Sarah Gavron. Roteiro: Abi Morgan. Fotografia: Edu Grau. Montagem: Barney Pilling. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Alice Normington/Barbara Herman-Skelding. Produção executiva: Nik Bower, Rose Garnett, Cameron McCracken, Teresa Moneo, Tessa Ross, James Schamus. Produção: Alison Owen, Faye Ward. Elenco: Carey Mulligan, Helena Bonham-Carter, Anne-Marie Duff, Ben Whishaw, Brendan Gleeson, Meryl Streep, Romola Garai. Estreia: 04/9/15 (Festival de Teluride)

Tinha tudo para ser um daqueles filmes que a Academia de Hollywood adora e enche de estatuetas douradas: uma história socialmente relevante, um elenco com nomes já lembrados em outras ocasiões (Carey Mulligan, Helena Bonham-Carter, Meryl Streep), um tema de grande importância sociopolítica (os direitos das mulheres) e uma reconstituição de época caprichada. No entanto, "As sufragistas" - filme que tem como foco narrativo a luta das mulheres inglesas pelo direito ao voto, no começo do século XX - acabou passando batido pelas cerimônias de premiação e naufragou nas bilheterias, apesar dos elementos que poderiam ter feito dele um vencedor. Não deixou de ser um tanto injusta essa esnobada absoluta: por mais que o filme da cineasta Sarah Gavron esteja longe da perfeição, é consistente o bastante para levantar discussões e comparações com a fragilizada sociedade ocidental contemporânea. Além disso, ainda apresenta mais uma ótima atuação de Carey Mulligan, perfeita no papel principal e mais uma vez se mostrando uma das melhores atrizes de sua geração. Dono de um timing perfeito de lançamento, falta à "As sufragistas" um pouco mais de uma contundência que lhe poderia tornar muito maior.

A estrutura do roteiro de Abi Morgan segue uma linha narrativa bastante tradicional, inserindo uma protagonista fictícia em um contexto real: Carey Mulligan, caprichando no tom suave de sua personagem, interpreta Maud Watts, uma jovem londrina que, em 1912, trabalha no insalubre ambiente de uma lavanderia, assim como fazia sua mãe e da mesma forma que fazem muitas mulheres de sua geração, que se dividem entre o lar e um sub-emprego que não lhes dá nem ao menos o direito ao voto. É justamente essa questão que se põe no caminho de Maud quando ela se vê repentinamente próxima de Violet Miller (Anne-Marie Duff), uma das maiores entusiastas do movimento sufragista inglês - e que trabalha a seu lado, incentivando a participação de todas as mulheres na militância. Mesmo contra a vontade do marido, Sonny (Ben Whishaw), que não vê com bons olhos a participação feminina na política e especialmente a de sua mulher em questões consideradas masculinas, Maud acaba se envolvendo cada vez mais nos comícios, nas passeatas e nas discussões parlamentares a respeito do assunto - e quando chega a participar de atos considerados terroristas, corre o risco de perder a guarda do único filho.


O problema de "As sufragistas" nem é tanto o didatismo do roteiro ou a indecisão entre enfatizar a luta feminina pelo direito ao voto (retratada na figura carismática da líder do movimento, Emmeline Pankhurst, vivida rapidamente por Meryl Streep) ou os dilemas de sua protagonista - um símbolo da luta contra o machismo e a sociedade patriarcal que lhe oprime desde a infância, quando era abusada pelo patrão. Sempre que a cineasta opta por sequências que ilustram a violência da repressão do Estado contra as mulheres, seu filme demonstra fragilidade técnica, com uma edição que mais esconde do que mostra e por vezes soa confusa e sem energia. Por outro lado, quando o foco é o olhar melancólico e expressivo de Carey Mulligan, a produção cresce em emoção e atinge o objetivo de alcançar o espectador e torná-lo cúmplice de sua narrativa. Para isso, Mulligan conta com o apoio de Helena Bonham-Carter em uma atuação discreta mas poderosa, que foge de seus trabalhos mais conhecidos ao lado do ex-marido Tim Burton: sua composição de uma mulher que enfrenta o machismo da sociedade de cabeça erguida e peito aberto é, talvez, uma das melhores de sua carreira, infelizmente ignorada pela Academia que já havia lhe indicado duas vezes ao Oscar (melhor atriz por "Asas do amor", em 1998, e coadjuvante por "O discurso do rei", em 2011). A química entre ela, Mulligan e Anne-Marie Duff é a maior força do filme de Sarah Gavron - o que não deixa de ser coerente de se dizer a respeito de uma obra que fala justamente sobre o poder da união entre mulheres.

Com apenas um longa para cinema no currículo (o pouco visto "Brick Lane", de 2007), Sarah Gavron dá um grande passo à frente na carreira, com uma produção correta e socialmente relevante, estrelada por nomes fortes e sem maiores escorregões. Não criou uma obra com o impacto que se poderia esperar de um tema tão contundente, mas foi feliz ao não apelar para o melodrama exagerado ou o panfletarismo barato. Equilibrado em suas intenções (ainda que por vezes um tantinho aquém do que se poderia desejar em ênfase), Gavron se mostrou uma diretora sensível, inteligente e capaz de explorar com sutileza o talento de seu excepcional elenco. "As sufragistas" é um filme de grande importância, e se não é um grande e inesquecível filme, ao menos levanta questões e provoca reflexões a cada dia mais prementes em um mundo progressivamente conservador. Vale mais pela intenção do que pelo resultado, mas jamais pode ser considerado ruim ou insignificante.

DÍVIDA DE HONRA

DÍVIDA DE HONRA (The homesman, 2014, ) Direção: Tommy Lee Jones. Roteiro: Tommy Lee Jones, Kieran Fitzgerald, Wesley A. Oliver, romance de Glendon Swarthout. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Roberto Silvi. Música: Marco Beltrami. Figurino: Lahly Poore-Ericson. Direção de arte/cenários: Merideth Boswell/Wendy Ozols-Barnes. Produção executiva: G. Hughes Abell, Deborah Dobson Bach, Michael Fitzgerald, Tommy Lee Jones, Richard Romero. Produção: Luc Besson, Peter Brant, Brian Kennedy. Elenco: Tommy Lee Jones, Hilary Swank, Miranda Otto, John Litghow, James Spader, Grace Gummer, Meryl Streep, Hailee Steinfeld, William Fichtner, Sonja Richter, Tim Blake Nelson. Estreia: 18/5/14 (Festival de Cannes)

A primeira incursão de Tommy Lee Jones atrás das câmeras aconteceu em 2005, com o seco e agreste faroeste "Três enterros", e o ator, vencedor do Oscar de coadjuvante por "O fugitivo" (93), mostrou-se um cineasta atento e sensível às necessidades de um gênero em constante mutação. Porém, demorou quase uma década - e outras duas indicações à estatueta da Academia, por "No vale das sombras" (07) e "Lincoln" (12) - para que Jones retornasse à cadeira de diretor, sintomaticamente com outro faroeste. No entanto, apesar de "Dívida de honra" compartilhar do mesmo universo de sua estreia, seu segundo filme tem um viés menos violento e mais contemplativo, reflexo de um fato raro no gênero: o olhar feminino não apenas como testemunha distante, mas sim como parte ativa do desenrolar da trama.  Baseado em um romance de Glendon Swarthout, "Dívida de honra" tem como um de seus protagonistas a determinada e solitária Mary Bee Cuddy, interpretada com a dedicação habitual de Hilary Swank em um papel que lhe rendeu os maiores elogios de sua carreira desde o Oscar por "Menina de ouro" (04).

Quem procura um faroeste como aqueles que fizeram a glória de John Ford, Sérgio Leone e Clint Eastwood certamente irá se decepcionar com "Dívida de honra", dono de um ritmo e de uma trama que dispensa tiroteios, sacrifícios heróicos e duelos ao sol - ainda que a fotografia extraordinária de Rodrigo Prieto faça sua parte de encantar o espectador.  A trama começa no Nebraska da segunda metade do século XIX, quando a independente e corajosa Mary Bee - solteirona que vê todas as suas tentativas de mudar de status fracassarem sistematicamente - aceita o desafio de levar três mulheres da região que mergulharam na loucura até Iowa, onde poderão ter um tratamento adequado. Assumindo uma missão que deveria ser masculina, ela se vê de uma hora para outra no meio dos descampados do oeste. No meio do caminho, ela dá de cara com George Briggs (Tommy Lee Jones), em vias de morrer enforcado por inimigos. Por ter salvo sua vida, ela propõe a Briggs que a acompanhe em sua viagem, como forma de protegê-la e às suas conterrâneas. Ele aceita a proposta - com o incentivo de um pagamento - e aos poucos surge uma espécie de amizade entre eles, dificultada pelo desejo ainda vívido de Mary Bee de casar-se.


Ao incutir na trama central de seu filme um olhar feminista, Tommy Lee Jones surpreende positivamente não apenas por dar voz a um gênero normalmente relegado a segundo plano na vasta filmografia sobre o Velho Oeste, mas também por abrir um leque de possibilidades dramáticas que tornam seu filme imprevisível. Assim como Katharine Hepburn e Humphrey Bogart se apaixonaram em "Uma aventura na África" - mesmo sendo a personagem de Hepburn uma religiosa renitente - também Mary Bee pode convencer o seco e mau-humorado George Briggs a vê-la não apenas como a fonte de um pagamento mas também como uma mulher, disposta a aceitá-lo como marido. Apesar de não ser o foco da narrativa, tal questão paira grandiosa sobre os personagens a cada momento, até que uma reviravolta muda a percepção da plateia, os planos de um dos dois e o desfecho da história - que conta com as participações mais do que especiais de Hailee Steinfeld (indicada ao Oscar de coadjuvante por outro western, "Bravura indômita", de 2010) e Meryl Streep, em um papel pequeno que lhe dá oportunidade de contracenar com a filha Grace Gummer, que vive uma das três mulheres desequilibradas conduzidas pela carroça de Mary Bee.

Um faroeste atípico mas realizado com alma e extremo talento na frente e atrás das câmeras, "Dívida de honra" consegue o feito de ser ainda melhor que o filme anterior de Lee Jones, "Três enterros", que tinha roteiro de Guillermo Arriaga (dos primeiros filmes de Alejandro Iñárritu) e um tom mais trágico e violento. Contemplativo e dotado de uma melancolia quase palpável, é um projeto maduro e sério, com a marca de seu diretor, um dos mais respeitados atores de sua geração e mais uma interpretação digna de nota de sua estrela, Hilary Swank. São os dois os grandes responsáveis pela qualidade inegável da obra. Para os fãs e os não-fãs do gênero é um grande programa.

terça-feira

ÁLBUM DE FAMÍLIA

ÁLBUM DE FAMÍLIA (August: Osage County, 2013, The Weinstein Company, 121min) Direção: John Wells. Roteiro: Tracy Letts, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: David Gropman/Nancy Haigh. Produção executiva: Ron Burkle, Celia Costas, Jerry Frankel, Claire Rudnick Polstein, Jeffrey Richards, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: George Clooney, Jean Doumanian, Grant Heslov, Steve Traxler. Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Ewan McGregor, Sam Shepard, Chris Cooper, Benedict Cumberbatch, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Margo Martindale, Julianne Nicholson, Dermot Mulroney. Estreia: 09/9/13 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)

O dramaturgo Tracy Letts foi apresentado ao público cinéfilo com o ultra-violento e cínico “Killer Joe, matador de aluguel”, que chegou às telas sob a direção do veterano William Friedkin e apresentava uma família cuja desfuncionalidade chegava às raias do assassinato. Os personagens de “Álbum de família”, também baseado em um de seus textos teatrais, não alcançam tal extremo, mas dificilmente podem ser considerados exemplos de equilíbrio e respeito por laços de sangue. Interpretados por alguns dos maiores nomes do cinema atual, os membros da família Weston fazem desfilar pela tela, em cerca de duas horas de duração, um festival de rancores, humilhações, ciúmes, inveja e agressão capaz de causar inveja à Tenessee Williams e Edward Albee. Infelizmente, nem mesmo a experiência do elenco excepcional consegue disfarçar a inseguirança do diretor John Wells, que, confiando plenamente em seus atores e no texto pulsante de Letts, parece ter medo de fugir da armadilha do teatro filmado.

Ok, Wells até foge dos limites do cenário único – no caso, a velha casa da família Weston, localizada na pequena cidade de August, condado de Osage (daí o título original) – mas não é o bastante para esconder as origens teatrais da história. Para sua sorte, o texto de Letts é ágil o bastante para prender a atenção do público até suas cenas finais, principalmente porque os dramas do clã retratado pelo dramaturgo são os mais variados possíveis, indo de romances ilícitos até a segredos mantidos por décadas. No centro de todo o furacão emocional está a matriarca Violet (Meryl Streep no papel que lhe rendeu sua 18ª indicação ao Oscar), que depois do desaparecimento do marido, Beverly (Sam Shepard), recebe em sua propriedade toda a sua família - e, junto com ela, uma série de problemas que resolvem vir à tona encorajados pela falta de tato da anfitriã, que sofre de câncer na língua e vê seus medicamentos falarem mais alto que a delicadeza. É assim que ela enfrenta, amarga e cruel, a filha mais velha, Barbara (Julia Roberts), que passa por uma grave crise no casamento com Bill (Ewan McGregor) – cujo relacionamento extraconjugal com uma mulher mais jovem não consegue ser esquecida por ela – e na criação da única filha, a adolescente Jean (Abigail Breslin em papel para o qual foi testada a também excelente Chloe Grace Moretz). Barbara era a filha preferida de Beverly, e quando ele finalmente é encontrado morto, seu funeral aprofunda ainda mais as diferenças da família.



A única que ficou em casa cuidando da mãe durante sua doença, Ivy (Julianne Nicholson) é tratada com desprezo por Violet, que não vê nela a capacidade de casar ou viver uma história de amor – em segredo, porém, ela está apaixonada e é correspondida pelo primo, Charlie (Benedict Cumberbatch), que, assim como ela, é menosprezado pela mãe, Mattie Fae (a ótima Margo Martindale substituindo Kathy Bates, sondada pela produção), mas protegido pelo pai, Charles (Chris Cooper). Fechando o barulhento grupo está a caçula do trio de filhas de Violet, a inconsequente Karen (Juliette Lewis), que chega acompanhada do novo namorado, Steve (Dermot Mulroney) – que acaba por se engraçar com a adolescente Jean, para desespero de Barbara e Bill. Testemunhando toda a confusão, há a empregada doméstica Johnna (Misty         Uphaim), de origem indígena e alvo de constantes ataques de racismo por parte de Violet. É essa família que irá passar um fim-de-semana inteiro lavando a roupa suja acumulada por anos e anos de segredos e meias-verdades.

“Álbum de família” é um show de atores. John Wells nem tem muito trabalho em comandar seu elenco, completamente à vontade em papéis repletos de possibilidades – todas elas exploradas à perfeição. Os embates mais verbalmente violentos – entre Meryl Streep e Julia Roberts, ambas indicadas pela Academia – são uma delícia de assistir, principalmente porque Streep deita e rola com uma personagem francamente desagradável e hostil e Roberts deixa de lado sua persona de estrela para entregar uma atuação forte e visceral. Wells não se preocupa em criar um visual marcante, preferindo dedicar-se a aproveitar a carpintaria dramática do texto de Letts – com reviravoltas dignas de uma boa telenovela – como base para seu filme. Experiente em programas de televisão (dirigiu vários episódios da série “Plantão médico”) mas com apenas um outro filme no currículo, o pouco visto “A grande virada”, de 2001, Wells não consegue escapar de uma direção pouco inventiva e ousada. Mesmo que a produção caminhe sem trancos até o final (diferente do desfecho da peça) fica a nítida impressão de um filme que não atingiu todo o seu potencial. Ainda assim, é um prazer enorme ser testemunha de tantos shows de interpretação concentrados em pouco mais de duas horas.

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