AMORES IMAGINÁRIOS (Les amours imaginaires, 2010, Mifilifilms/Quebec Film and Television, 101min) Direção e roteiro: Xavier Dolan. Fotografia: Stéphanie Weber-Biron. Montagem: Xavier Dolan. Figurino: Xavier Dolan. Direção de arte: Delphine Gélinas. Produção: Xavier Dolan, Carole Mondello, Daniel Morin. Elenco: Xavier Dolan, Monica Chokri, Niels Schneider, Anne Dorval, Louis Garrell. Estreia: 16/5/10 (Festival de Cannes)
Logo que estreou no Festival de Cannes em 2009 com seu primeiro filme, "Eu matei minha mãe", o jovem (20 anos de idade à época) Xavier Dolan tornou-se, instantaneamente, o enfant terrible do cinema canadense. Levou pra casa um prêmio especial do júri e virou assunto em qualquer roda de cinéfilos pelo mundo afora: para cada crítica azeda a seu respeito, pipocavam fãs encantados com seu estilo modernoso. Seu filme seguinte, "Amores imaginários" - que também teve sua estreia na Riviera Francesa - apenas acentuou a polêmica em torno de seu nome e a divisão entre admiradores e detratores. É justo, porém, encontrar um meio-termo saudável entre esses dois extremos. "Amores imaginários", uma comédia romântica, nem é tão espetacular como querem fazer crer os convertidos mais fanáticos nem tão vazio como proclamam os mais críticos. É, sim, um filme leve e quase superficial, que privilegia o visual ao conteúdo. Mas é, também, uma delícia de se assistir, desde que se deixe de lado qualquer preconceito ou expectativas grandiosas.
A ideia de um triângulo amoroso moderno no cinema não é nenhuma novidade - haja visto François Truffaut ("Jules e Jim: uma mulher para dois") e Bernardo Bertolucci ("Os sonhadores"), alguns dos célebres cineastas que investigaram essa modalidade de relacionamento. Em seu filme, Dolan não faz questão de soar revolucionário ou ousado, preferindo o caminho da sutileza e da delicadeza, deixando ao espectador o prazer de ir descobrindo aos poucos os rumos de sua trama. O próprio cineasta interpreta um dos protagonistas, o homossexual Francis, que se apaixona perdidamente pelo belo, inteligente, sexy e liberal Nicolas (Niels Schneider). O problema maior é que sua melhor amiga, Marie (Monica Chokri), também cai de amores pelo rapaz, e nenhum dos dois sabe exatamente para qual deles o rapaz está mais inclinado em oferecer o seu amor (ou sequer SE está interessado nisso): Nicolas os trata com igual atenção e carinho, embaralhando cada vez mais as pistas que levam a seu coração - e à sua cama.
Se peca em não aprofundar a psicologia de seus personagens, Dolan acerta em cheio ao tratar seu filme como uma espécie de inventário visual de sua época. É perceptível o cuidado do jovem diretor com cada detalhe de sua mise-en-scéne, desde os objetos de cena até o figurino absurdamente antenado com sua ambientação, assim como a bela fotografia de Stéphanie Weber-Biron e alguns enquadramentos belíssimos que nem mesmo o quase exagero de sequências em câmera lenta consegue atrapalhar. O olho de Dolan para as pequenas coisas e reações é admirável, assim como seu talento em explorar ao máximo a potencialidade de cada tomada. Não há, em seu filme, nenhuma cena que não seja minuciosamente preparada por sua visão esteticamente apurada. E é justamente essa atenção ao aspecto visual - em detrimento a um desenvolvimento maior de seus personagens - que incomoda tanta gente. Porém, o que talvez muitos críticos não tenham percebido em "Amores imaginários" é a sua absoluta falta de compromisso com o realismo.
Dolan trata seu filme como uma espécie de sátira a seu próprio universo cultural, um lugar onde as pessoas querem se parecer com James Dean e idolatram Audrey Hepburn, frequentam cafés e festas com gente bonita e descolada e transitam em cenários coloridos e absurdamente fotogênicos. A beleza exterior é equilibrada apenas pelas histórias dolorosas/engraçadas/patéticas contadas por outros personagens diretamente para a câmera - um artifício que funcionou às mil maravilhas em "Harry & Sally: feitos um para o outro" e que volta a ser bastante interessante nas mãos do diretor: são essas personagens desconhecidas que dão suporte ao roteiro, mostrando ao espectador que amar dói, sim, mas não mata ninguém. Sendo assim, "Amores imaginários" não é um filme feito para aqueles que consideram o cinema como uma arte de reflexão séria e densa. Pode soar raso, sim, e talvez até o seja. Mas todos aqueles que já se apaixonaram entendem perfeitamente as sensações pelas quais passam Francis e Marie. E essa empatia, essa compreensão pelo sofrimento dos outros, é uma das grandes qualidades de um filme que já demonstra grande amadurecimento de seu diretor - que pegaria o caminho dos temas mais profundos em seus filmes seguintes, "Laurence anyways" e "Mommy".
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C.R.A.Z.Y. - LOUCOS DE AMOR
C.R.A.Z.Y.: LOUCOS DE AMOR (C.R.A.Z.Y., 2005, Téléfilm Canada, 127min) Direção: Jean-Marc Vallée. Roteiro: François Boulay, Jean-Marc Vallée. Fotografia: Pierre Mignot. Montagem: Paul Jutras. Figurino: Ginette Magny. Direção de arte/cenários: Patrice Bricault-Vermette/Nicolas Lepage. Produção executiva: Jacques Blain, Richard Speer. Produção: Pierre Even. Elenco: Marc-André Grondin, Michel Côté, Danielle Proulx, Émile Vallée, Pierre-Luc Brillant, Maxime Tremblay, Alex Gravel. Estreia: 27/5/05
Zac Beaulieu nasceu no Dia de Natal, no seio de uma família católica e conservadora do Canadá. Quarto filho de uma prole de cinco, desde sempre foi objeto de estranhamento em seu lar machista e pouco afeito aos avanços da sociedade. Sua mãe acreditava que ele tinha o poder de curar as pessoas à distância e seu pai não compreendia sua necessidade de vestir-se de buscar sua própria identidade - seja através de roupas copiadas de seus ídolos musicais ou de atitudes consideradas pouco masculinas mesmo nos efervescentes anos 60 e 70. Inquieto por natureza e rebelde em todas as definições, Zac é o protagonista de "C.R.A.Z.Y. - Loucos de amor", representante canadense por uma indicação ao Oscar de 2006. Baseada nas memória do corroteirista François Boulay e dirigido por Jean-Marc Vallée - que anos mais tarde se tornaria figura assídua nas festas da Academia, com "Clube de Compras Dallas" (2013) e "Livre" (2014) - a comédia dramática arrebatou prêmios em diversos festivais de cinema pelo mundo e, embalada por uma trilha sonora que mistura Patsy Cline, Charles Aznavour, Pink Floyd, Rolling Stones e principalmente David Bowie, revelou um diretor inventivo e sensível, que consegue equilibrar com destreza momentos de um humor sutil e um drama comovente e que escapa milagrosamente do piegas.
Quando o filme começa, no fim de 1960, o roteiro já dá mostras de que não se trata de uma produção comum - a ironia e o humor iconoclasta são sublinhados pela edição ágil, pela narração em off do protagonista e pela trilha sonora eclética e inteligente. Quando criança, Zac é interpretado pelo carismático Émile Vallée (filho do diretor), e é impossível não se deixar conquistar por seu sorriso franco e sua timidez incurável, que transforma até mesmo as visitas à Igreja - nos Natais em que precisa dividir a atenção com o outro aniversariante, mais famoso - em momentos inspirados. Quando Zac atinge a adolescência - e por consequência sua efervescência natural - o ator Marc-André Grondin assume o papel, e sem prejuízo nenhum à narrativa, envolve o espectador em uma história que consegue ser, ao mesmo tempo, uma homenagem à rebeldia e uma ode à família, por mais idiossincrática que ela possa ser. E a de Zac, como fica claro desde o início, não é nada simples.
Pais de cinco meninos - Christian, Raymond, Antoine, Zachary e Yvan - o casal Gervais (Michel Côté) e Laurianne (Danielle Proulx) levam uma vida confortável, mas não luxuosa. Ela se dedica profundamente à criação dos filhos e à religião, tanto na forma de visitas assíduas à igreja local quanto em constantes consultas com uma picareta que se diz paranormal e identifica em seu quarto filho alguém com poderes místicos (revelados através de uma mecha loura de cabelos). Ele é um pai rígido e pouco afeito a demonstrações de afeto e carinho, mas que vê nos filhos a chance de redimir-se de uma vida não exatamente bem-sucedida. Zac, por sua vez, tenta desesperadamente encaixar-se nos moldes da rotina imposta por seus pais, principalmente quando percebe, logo cedo, que é muito mais diferente de toda a sua família do que deveria ser. Por toda a sua infância e adolescência ele irá lutar contra esse sentimento de deslocamento, ao mesmo tempo em que tentará manter um relacionamento saudável com seus principais desafios: o machismo arraigado do pai e a virulência de Raymond (Pierre-Luc Brillant), seu irmão viciado em drogas e seu principal desafeto dentro do núcleo familiar. Buscando de todas as maneiras encaixar-se no perfil esperado por todos - mesmo que aparentemente esteja pouco ligando para quaisquer convenções - o rapaz irá, aos poucos, despertar para o fato de que, independente de tudo, sua individualidade sempre irá sobressair-se aos cânones impostos pela sociedade.
Mesmo que em sua segunda metade substitua a ironia e o bom-humor por uma alta dose de drama e melancolia, "C.R.A.Z.Y." é um filme que passa longe dos tradicionais retratos amargos e deprimentes da comunidade gay que o cinema costuma apresentar - ou ao menos premiar e louvar. Tem um clima constante de desconstrução de clichês, enfatizado pela seleção cuidadosa das obras que formam sua trilha sonora (especialmente a canção-título, interpretada por Patsy Cline, idolatrada pelo pai do protagonista) e pela reconstituição de época, impecável mas nada óbvia. Sem precisar nem ao menos explicitar a sexualidade de Zac com cenas mais ousadas, Jean-Marc Vallée constroi uma narrativa que funciona em todos os níveis emocionais e intelectuais a que se propõe. É um filme delicado, engraçado, comovente e que não subestima a inteligência do espectador. Um belo cartão de visitas para um cineasta de talento e sensibilidade. Em tempo: o titulo "C.R.A.Z.Y." é a união das iniciais dos cinco filhos do casal Beaulieu, como fica evidente nos créditos finais. Um filme encantador!
Zac Beaulieu nasceu no Dia de Natal, no seio de uma família católica e conservadora do Canadá. Quarto filho de uma prole de cinco, desde sempre foi objeto de estranhamento em seu lar machista e pouco afeito aos avanços da sociedade. Sua mãe acreditava que ele tinha o poder de curar as pessoas à distância e seu pai não compreendia sua necessidade de vestir-se de buscar sua própria identidade - seja através de roupas copiadas de seus ídolos musicais ou de atitudes consideradas pouco masculinas mesmo nos efervescentes anos 60 e 70. Inquieto por natureza e rebelde em todas as definições, Zac é o protagonista de "C.R.A.Z.Y. - Loucos de amor", representante canadense por uma indicação ao Oscar de 2006. Baseada nas memória do corroteirista François Boulay e dirigido por Jean-Marc Vallée - que anos mais tarde se tornaria figura assídua nas festas da Academia, com "Clube de Compras Dallas" (2013) e "Livre" (2014) - a comédia dramática arrebatou prêmios em diversos festivais de cinema pelo mundo e, embalada por uma trilha sonora que mistura Patsy Cline, Charles Aznavour, Pink Floyd, Rolling Stones e principalmente David Bowie, revelou um diretor inventivo e sensível, que consegue equilibrar com destreza momentos de um humor sutil e um drama comovente e que escapa milagrosamente do piegas.
Quando o filme começa, no fim de 1960, o roteiro já dá mostras de que não se trata de uma produção comum - a ironia e o humor iconoclasta são sublinhados pela edição ágil, pela narração em off do protagonista e pela trilha sonora eclética e inteligente. Quando criança, Zac é interpretado pelo carismático Émile Vallée (filho do diretor), e é impossível não se deixar conquistar por seu sorriso franco e sua timidez incurável, que transforma até mesmo as visitas à Igreja - nos Natais em que precisa dividir a atenção com o outro aniversariante, mais famoso - em momentos inspirados. Quando Zac atinge a adolescência - e por consequência sua efervescência natural - o ator Marc-André Grondin assume o papel, e sem prejuízo nenhum à narrativa, envolve o espectador em uma história que consegue ser, ao mesmo tempo, uma homenagem à rebeldia e uma ode à família, por mais idiossincrática que ela possa ser. E a de Zac, como fica claro desde o início, não é nada simples.
Pais de cinco meninos - Christian, Raymond, Antoine, Zachary e Yvan - o casal Gervais (Michel Côté) e Laurianne (Danielle Proulx) levam uma vida confortável, mas não luxuosa. Ela se dedica profundamente à criação dos filhos e à religião, tanto na forma de visitas assíduas à igreja local quanto em constantes consultas com uma picareta que se diz paranormal e identifica em seu quarto filho alguém com poderes místicos (revelados através de uma mecha loura de cabelos). Ele é um pai rígido e pouco afeito a demonstrações de afeto e carinho, mas que vê nos filhos a chance de redimir-se de uma vida não exatamente bem-sucedida. Zac, por sua vez, tenta desesperadamente encaixar-se nos moldes da rotina imposta por seus pais, principalmente quando percebe, logo cedo, que é muito mais diferente de toda a sua família do que deveria ser. Por toda a sua infância e adolescência ele irá lutar contra esse sentimento de deslocamento, ao mesmo tempo em que tentará manter um relacionamento saudável com seus principais desafios: o machismo arraigado do pai e a virulência de Raymond (Pierre-Luc Brillant), seu irmão viciado em drogas e seu principal desafeto dentro do núcleo familiar. Buscando de todas as maneiras encaixar-se no perfil esperado por todos - mesmo que aparentemente esteja pouco ligando para quaisquer convenções - o rapaz irá, aos poucos, despertar para o fato de que, independente de tudo, sua individualidade sempre irá sobressair-se aos cânones impostos pela sociedade.
Mesmo que em sua segunda metade substitua a ironia e o bom-humor por uma alta dose de drama e melancolia, "C.R.A.Z.Y." é um filme que passa longe dos tradicionais retratos amargos e deprimentes da comunidade gay que o cinema costuma apresentar - ou ao menos premiar e louvar. Tem um clima constante de desconstrução de clichês, enfatizado pela seleção cuidadosa das obras que formam sua trilha sonora (especialmente a canção-título, interpretada por Patsy Cline, idolatrada pelo pai do protagonista) e pela reconstituição de época, impecável mas nada óbvia. Sem precisar nem ao menos explicitar a sexualidade de Zac com cenas mais ousadas, Jean-Marc Vallée constroi uma narrativa que funciona em todos os níveis emocionais e intelectuais a que se propõe. É um filme delicado, engraçado, comovente e que não subestima a inteligência do espectador. Um belo cartão de visitas para um cineasta de talento e sensibilidade. Em tempo: o titulo "C.R.A.Z.Y." é a união das iniciais dos cinco filhos do casal Beaulieu, como fica evidente nos créditos finais. Um filme encantador!
sábado
É APENAS O FIM DO MUNDO
É
APENAS O FIM DO MUNDO (Juste la fin du monde, 2016, Sons of Manual/MK2
Productions/Téléfilm Canada, 97min) Direção: Xavier Dolan. Roteiro:
Xavier Dolan, peça teatral de Jean-Luc Lagarce. Fotografia: André
Turpin. Montagem: Xavier Dolan. Música: Gabriel Yared. Direção de
arte/cenários: Colombe Raby/Pascale Deschênes. Produção executiva:
Patrick Roy. Produção: Sylvain Corbeil, Xavier Dolan, Nancy Grant,
Elisha Karmitz, Nathanael Karmitz, Michel Merkt. Elenco: Gaspard Ulliel,
Marion Cotillard, Vincent Cassel, Léa Seydoux, Nathalie Baye. Estreia:
19/5/16 (Festival de Cannes)
Um perfeito exemplo de que nem mesmo a crítica é capaz de chegar a um consenso quando se trata de arte é o filme "É apenas o fim do mundo", sexto longa-metragem do jovem canadense Xavier Dolan: vaiado pela imprensa na ocasião de sua estreia no Festival de Cannes de 2016, o filme acabou saindo da Riviera Francesa com o Grande Prêmio do Júri Oficial e o Prêmio do Júri Ecumênico, além de ter ficado entre os nove pré-finalistas ao Oscar de melhor filme estrangeiro do ano. Sucesso de bilheteria na França, onde arrastou mais de 1 milhão de pessoas às salas de cinema, a adaptação da peça teatral de Jean-Luc Lagarce é, talvez, o mais maduro filme do diretor, que mantém nele suas características mais importantes mas consegue, ao mesmo tempo, administrar sua tendência ao excesso e entregar à plateia uma obra dramaticamente consistente e visualmente atraente, com um equilíbrio excepcional entre as linguagens do teatro e do cinema e um elenco excepcional.
Encontrando no texto de Lagarce - inspirado em suas próprias vivências familiares - uma matéria-prima que vai ao encontro de sua coerente filmografia até o momento, Xavier Dolan constrói uma atmosfera claustrofóbica e melancólica que, como qualquer bom teatro, vai se avolumando gradativamente até a explosão final, catártica e emocional. Ao contrário de seus filmes anteriores, onde os conflitos eram sempre resolvidos no grito - do início ao fim da projeção - em "É apenas o fim do mundo" os dramas são tratados de forma discreta, sutil, em fogo brando, dando apenas pequenas mostras do turbilhão que se passa nos corações e nas mentes de seus personagens, todos com uma saudável cota de problemas e angústias. Utilizando com inteligência a linguagem cinematográfica, ele faz uso exemplar dos silêncios reveladores e da edição minimalista, que revelam com parcimônia o clima de desespero e nostalgia que acompanha a visita do protagonista à casa dos pais, doze anos depois de sua deserção. Vivido com brilhante suavidade por Gaspard Ulliel (que foi o herói romântico de "Eterno amor" (04), de Jean-Pierre Jeunet), o escritor Louis Knipper é mais um alter-ego do cineasta, mas concebido com mais nuances e menos agressividade - uma docilidade que contrasta com a violência de seus dramas pessoais.
Afastado da família há mais de uma década, Louis resolve fazer uma inesperada visita à cidade natal, com o objetivo declarado já em sua primeira fala, de "anunciar a sua morte". Assim que chega em casa, porém, o rapaz já se vê diante da dificuldade de expressar seus sentimentos, uma vez que todos parecem munidos de uma extrema incapacidade de empatia. Sua excêntrica mãe (Nathalie Baye) preocupa-se exclusivamente com o cardápio da ocasião, falando sem parar para disfarçar seu desconforto. Sua irmã caçula, Suzanne (Léa Seydoux) - com quem teve pouco contato - é uma jovem rebelde e hostil, que vê nele uma possibilidade de abandonar um lar opressivo e tedioso. Seu irmão mais velho, Antoine (Vincent Cassel), é bruto, amargo e pouco afeito a demonstrações de carinho - nem mesmo com a bela e fragilizada esposa, Catherine (Marion Cottilard). Sintomaticamente, é com ela, a única pessoa sem laços de sangue, que surge o maior entendimento: não é preciso palavras para que a frequentemente oprimida Catherine descubra o motivo da visita de Louis, que aos poucos passa a questionar a decisão de informar à família seu estado de saúde.
Com uma trilha sonora escolhida a dedo - desde a abertura com "Home is where it hurts", da cantora Camille, até os créditos finais ao som de "Natural blues", de Moby - Dolan pontua sua narrativa com imagens poderosas (um de seus pontos fortes) para ilustrar as muitas vezes dolorosas palavras escritas por Jean-Luc Lagarce, que encontram nos atores escolhidos pelo diretor seus intérpretes ideais. Gaspard Ulliel nunca esteve tão bem, transmitindo a dor de seu personagem mesmo sendo o mais silencioso dentre toda a barulhenta família. Nathalie Baye - que já havia trabalhado com o diretor em "Laurence anyways" (2012) - se entrega com corpo e alma à sua quase desagradável mãe, enquanto Vincent Cassel faz como ninguém o tipo "boçal com orgulho". Não à toa, ambos estão foram indicados ao César de coadjuvantes - o filme também está no páreo de melhores ator, diretor, montagem e filme estrangeiro. Mas é Marion Cottilard, mais uma vez, que rouba a cena. Com uma personagem que difere de tudo que já fez até então - uma mulher oprimida e quase humilhada por um marido abusivo - a vencedora do Oscar por "Piaf, um hino ao amor" (2008) mostra, mais uma vez, porque é uma das grandes atrizes de sua geração. Seus momentos de dor e compreensão com Gaspard Ulliel são o grande trunfo de "É apenas o fim do mundo", um filme de silêncios e segredos que aponta um novo caminho na carreira de Xavier Dolan. Difícil entender as vaias.
Um perfeito exemplo de que nem mesmo a crítica é capaz de chegar a um consenso quando se trata de arte é o filme "É apenas o fim do mundo", sexto longa-metragem do jovem canadense Xavier Dolan: vaiado pela imprensa na ocasião de sua estreia no Festival de Cannes de 2016, o filme acabou saindo da Riviera Francesa com o Grande Prêmio do Júri Oficial e o Prêmio do Júri Ecumênico, além de ter ficado entre os nove pré-finalistas ao Oscar de melhor filme estrangeiro do ano. Sucesso de bilheteria na França, onde arrastou mais de 1 milhão de pessoas às salas de cinema, a adaptação da peça teatral de Jean-Luc Lagarce é, talvez, o mais maduro filme do diretor, que mantém nele suas características mais importantes mas consegue, ao mesmo tempo, administrar sua tendência ao excesso e entregar à plateia uma obra dramaticamente consistente e visualmente atraente, com um equilíbrio excepcional entre as linguagens do teatro e do cinema e um elenco excepcional.
Encontrando no texto de Lagarce - inspirado em suas próprias vivências familiares - uma matéria-prima que vai ao encontro de sua coerente filmografia até o momento, Xavier Dolan constrói uma atmosfera claustrofóbica e melancólica que, como qualquer bom teatro, vai se avolumando gradativamente até a explosão final, catártica e emocional. Ao contrário de seus filmes anteriores, onde os conflitos eram sempre resolvidos no grito - do início ao fim da projeção - em "É apenas o fim do mundo" os dramas são tratados de forma discreta, sutil, em fogo brando, dando apenas pequenas mostras do turbilhão que se passa nos corações e nas mentes de seus personagens, todos com uma saudável cota de problemas e angústias. Utilizando com inteligência a linguagem cinematográfica, ele faz uso exemplar dos silêncios reveladores e da edição minimalista, que revelam com parcimônia o clima de desespero e nostalgia que acompanha a visita do protagonista à casa dos pais, doze anos depois de sua deserção. Vivido com brilhante suavidade por Gaspard Ulliel (que foi o herói romântico de "Eterno amor" (04), de Jean-Pierre Jeunet), o escritor Louis Knipper é mais um alter-ego do cineasta, mas concebido com mais nuances e menos agressividade - uma docilidade que contrasta com a violência de seus dramas pessoais.
Afastado da família há mais de uma década, Louis resolve fazer uma inesperada visita à cidade natal, com o objetivo declarado já em sua primeira fala, de "anunciar a sua morte". Assim que chega em casa, porém, o rapaz já se vê diante da dificuldade de expressar seus sentimentos, uma vez que todos parecem munidos de uma extrema incapacidade de empatia. Sua excêntrica mãe (Nathalie Baye) preocupa-se exclusivamente com o cardápio da ocasião, falando sem parar para disfarçar seu desconforto. Sua irmã caçula, Suzanne (Léa Seydoux) - com quem teve pouco contato - é uma jovem rebelde e hostil, que vê nele uma possibilidade de abandonar um lar opressivo e tedioso. Seu irmão mais velho, Antoine (Vincent Cassel), é bruto, amargo e pouco afeito a demonstrações de carinho - nem mesmo com a bela e fragilizada esposa, Catherine (Marion Cottilard). Sintomaticamente, é com ela, a única pessoa sem laços de sangue, que surge o maior entendimento: não é preciso palavras para que a frequentemente oprimida Catherine descubra o motivo da visita de Louis, que aos poucos passa a questionar a decisão de informar à família seu estado de saúde.
Com uma trilha sonora escolhida a dedo - desde a abertura com "Home is where it hurts", da cantora Camille, até os créditos finais ao som de "Natural blues", de Moby - Dolan pontua sua narrativa com imagens poderosas (um de seus pontos fortes) para ilustrar as muitas vezes dolorosas palavras escritas por Jean-Luc Lagarce, que encontram nos atores escolhidos pelo diretor seus intérpretes ideais. Gaspard Ulliel nunca esteve tão bem, transmitindo a dor de seu personagem mesmo sendo o mais silencioso dentre toda a barulhenta família. Nathalie Baye - que já havia trabalhado com o diretor em "Laurence anyways" (2012) - se entrega com corpo e alma à sua quase desagradável mãe, enquanto Vincent Cassel faz como ninguém o tipo "boçal com orgulho". Não à toa, ambos estão foram indicados ao César de coadjuvantes - o filme também está no páreo de melhores ator, diretor, montagem e filme estrangeiro. Mas é Marion Cottilard, mais uma vez, que rouba a cena. Com uma personagem que difere de tudo que já fez até então - uma mulher oprimida e quase humilhada por um marido abusivo - a vencedora do Oscar por "Piaf, um hino ao amor" (2008) mostra, mais uma vez, porque é uma das grandes atrizes de sua geração. Seus momentos de dor e compreensão com Gaspard Ulliel são o grande trunfo de "É apenas o fim do mundo", um filme de silêncios e segredos que aponta um novo caminho na carreira de Xavier Dolan. Difícil entender as vaias.
quinta-feira
LAURENCE ANYWAYS
LAURENCE ANYWAYS (Laurence anyways, 2012, Lyla Films/MK 2 Productions, 168min) Direção e roteiro: Xavier Dolan. Fotografia: Yves Bélanger. Montagem: Xavier Dolan. Música: Noia. Figurino: François Barbeau, Xavier Dolan. Direção de arte/cenários: Anne Pritchard/Louis Dandonneau, Pascale Deschênes. Produção executiva: Xavier Dolan, Gus Van Sant. Produção: Charles Gillibert, Nathanael Karmitz, Lyse Lafontaine. Elenco: Melvil Poupaud, Suzanne Clément, Nathalie Baye, Monica Chokri, Sophie Faucher, Emmanuel Schwartz. Estreia: 18/5/12 (Festival de Cannes)
O que fazer se, com apenas 22 anos de idade, você já realizou dois filmes elogiados pela crítica, premiados em festivais de prestígio como Cannes e é considerado um dos maiores talentos do cinema de seu país? Se seu nome for Xavier Dolan, a resposta óbvia é: fazer um filme ainda mais ambicioso, que trate de um assunto tabu e que enfatize ainda mais as características de sua filmografia até então. Com todos esses elementos, "Laurence anyways" faz todo o sentido dentro do universo artístico de Dolan, um menino-prodígio alçado à condição de gênio tão prematuramente que, como era de se esperar, arrumou tanto detratores ferozes quanto fãs devotos. E seu terceiro filme apenas serviu para fomentar ainda mais as discussões a respeito de seu talento: afinal, ele é um cineasta realmente dotado ou apenas um rapaz de sorte adotado por uma parcela da crítica sedenta por novidades? Para delírio de ambas as facções, "Laurence anyways" dá munição aos dois lados.
Como nos dois primeiros filmes de Dolan, em "Laurence anyways" há uma preocupação extrema com o visual: desde a fotografia deslumbrante de Yves Bélanger até os cenários e os figurinos (supervisionados pelo próprio diretor), tudo é cuidadosamente planejado para causar o máximo e impacto dramático e estético. Com uma profusão de belíssimas sequências em câmera lenta que enfatizam o universo particular de seus personagens - assim como seus estados de espírito - o cineasta cria metáforas visuais poéticas e inteligentes, mas em alguns momentos tropeça na redundância e em sua dificuldade de enxugar a narrativa, desnecessariamente longa a ponto de testar a paciência do espectador. No entanto, esse excesso de virtuosismo não impede a plateia de compreender e se envolver com o drama de seus protagonistas, complexos e dotados de dimensões raras no cinema contemporâneo, tão propenso a dedicar-se a personagens maniqueístas e simplórios. Ajuda muito, nesse ponto, que Dolan conte com dois ótimos atores principais, Melvin Poupaud (substituindo Louis Garrell, o escolhido inicial) e principalmente Suzanne Clément.
O roteiro de Dolan acompanha dez anos na vida de um casal atípico - ainda que apaixonado e em plena sintonia emocional e cultural. Laurence Alia (Melvin Poupaud em atuação brilhante em sua discrição) é um professor de literatura e Fred (Suzanne Clément) uma atriz tentando um lugar ao sol. Seu relacionamento franco e honesto sofre um duro golpe quando o rapaz resolve dar vazão a uma antiga necessidade de sua alma e passa a assumir uma identidade feminina. Apesar de chocada com a novidade, Fred tenta apoiar o marido, enfrentando o preconceito da sociedade e as próprias dúvidas em relação ao destino de seu relacionamento. Enquanto isso, Laurence gradualmente vai se tornando uma outra pessoa, dedicada à poesia e discriminada pela hipocrisia da sociedade em que antigamente vivia - o que inclui até mesmo sua mãe, Julienne (Nathalie Baye). Com o passar do tempo, Laurence e Fred chegam à conclusão de que a separação é o melhor caminho, mas o forte sentimento que nutrem um pelo outro os impede de cortar definitivamente o laço que os une - e nem mesmo novos relacionamentos parecem empecilhos para sua inegável química.
Fascinante em seu retrato de um personagem transsexual antes que o tema se tornasse comum até na televisão - em séries como "Transparent" e "Sense8" - "Laurence anyways" inova também em não discutir de forma definitiva a sexualidade de seu protagonista, preferindo deixar no ar a forma com que ele lida com o assunto. Laurence não é gay - ele é um homem com identidade feminina, uma discussão que assumiu relevância social enorme do lançamento do filme até hoje. O fato de vestir-se de mulher não significa que ele não tenha tesão em Fred, que, no entanto, sofre com a ambiguidade da situação mas mantém-se leal até onde seu coração permite. Todas as sequências que mostram suas tentativas de permanecer ao lado do homem que ama são de cortar o coração - a mostra definitiva de que Dolan, apesar da juventude e da tendência exibicionista, também sabe como falar à alma do espectador e criar personagens críveis e humanos. Afora isso, o final amargo/realista é de apertar o peito de todos aqueles que se deixarem cativar pela angústia e pela coragem dos protagonistas. Dolan não é um gênio - ainda tem muito o que aprender - mas tampouco é fogo de palha. Existe muito talento no rapaz e ele ainda vai dar muito o que falar.
O que fazer se, com apenas 22 anos de idade, você já realizou dois filmes elogiados pela crítica, premiados em festivais de prestígio como Cannes e é considerado um dos maiores talentos do cinema de seu país? Se seu nome for Xavier Dolan, a resposta óbvia é: fazer um filme ainda mais ambicioso, que trate de um assunto tabu e que enfatize ainda mais as características de sua filmografia até então. Com todos esses elementos, "Laurence anyways" faz todo o sentido dentro do universo artístico de Dolan, um menino-prodígio alçado à condição de gênio tão prematuramente que, como era de se esperar, arrumou tanto detratores ferozes quanto fãs devotos. E seu terceiro filme apenas serviu para fomentar ainda mais as discussões a respeito de seu talento: afinal, ele é um cineasta realmente dotado ou apenas um rapaz de sorte adotado por uma parcela da crítica sedenta por novidades? Para delírio de ambas as facções, "Laurence anyways" dá munição aos dois lados.
Como nos dois primeiros filmes de Dolan, em "Laurence anyways" há uma preocupação extrema com o visual: desde a fotografia deslumbrante de Yves Bélanger até os cenários e os figurinos (supervisionados pelo próprio diretor), tudo é cuidadosamente planejado para causar o máximo e impacto dramático e estético. Com uma profusão de belíssimas sequências em câmera lenta que enfatizam o universo particular de seus personagens - assim como seus estados de espírito - o cineasta cria metáforas visuais poéticas e inteligentes, mas em alguns momentos tropeça na redundância e em sua dificuldade de enxugar a narrativa, desnecessariamente longa a ponto de testar a paciência do espectador. No entanto, esse excesso de virtuosismo não impede a plateia de compreender e se envolver com o drama de seus protagonistas, complexos e dotados de dimensões raras no cinema contemporâneo, tão propenso a dedicar-se a personagens maniqueístas e simplórios. Ajuda muito, nesse ponto, que Dolan conte com dois ótimos atores principais, Melvin Poupaud (substituindo Louis Garrell, o escolhido inicial) e principalmente Suzanne Clément.
O roteiro de Dolan acompanha dez anos na vida de um casal atípico - ainda que apaixonado e em plena sintonia emocional e cultural. Laurence Alia (Melvin Poupaud em atuação brilhante em sua discrição) é um professor de literatura e Fred (Suzanne Clément) uma atriz tentando um lugar ao sol. Seu relacionamento franco e honesto sofre um duro golpe quando o rapaz resolve dar vazão a uma antiga necessidade de sua alma e passa a assumir uma identidade feminina. Apesar de chocada com a novidade, Fred tenta apoiar o marido, enfrentando o preconceito da sociedade e as próprias dúvidas em relação ao destino de seu relacionamento. Enquanto isso, Laurence gradualmente vai se tornando uma outra pessoa, dedicada à poesia e discriminada pela hipocrisia da sociedade em que antigamente vivia - o que inclui até mesmo sua mãe, Julienne (Nathalie Baye). Com o passar do tempo, Laurence e Fred chegam à conclusão de que a separação é o melhor caminho, mas o forte sentimento que nutrem um pelo outro os impede de cortar definitivamente o laço que os une - e nem mesmo novos relacionamentos parecem empecilhos para sua inegável química.
Fascinante em seu retrato de um personagem transsexual antes que o tema se tornasse comum até na televisão - em séries como "Transparent" e "Sense8" - "Laurence anyways" inova também em não discutir de forma definitiva a sexualidade de seu protagonista, preferindo deixar no ar a forma com que ele lida com o assunto. Laurence não é gay - ele é um homem com identidade feminina, uma discussão que assumiu relevância social enorme do lançamento do filme até hoje. O fato de vestir-se de mulher não significa que ele não tenha tesão em Fred, que, no entanto, sofre com a ambiguidade da situação mas mantém-se leal até onde seu coração permite. Todas as sequências que mostram suas tentativas de permanecer ao lado do homem que ama são de cortar o coração - a mostra definitiva de que Dolan, apesar da juventude e da tendência exibicionista, também sabe como falar à alma do espectador e criar personagens críveis e humanos. Afora isso, o final amargo/realista é de apertar o peito de todos aqueles que se deixarem cativar pela angústia e pela coragem dos protagonistas. Dolan não é um gênio - ainda tem muito o que aprender - mas tampouco é fogo de palha. Existe muito talento no rapaz e ele ainda vai dar muito o que falar.
domingo
MOMMY
MOMMY
(Mommy, 2014, Metafilms/SODEC, 139min) Direção e roteiro: Xavier Dolan.
Fotografia: André Turpin. Montagem: Xavier Dolan. Música: Noia.
Figurino: Xavier Dolan. Direção de arte/cenários: Colombe
Raby/Jean-Charles Claveau. Produção: Xavier Dolan, Nancy Grant. Elenco:
Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément, Patrick Huard,
Alexandre Goyette. Estreia: 22/5/14 (Festival de Cannes)
Prêmio do Júri no Festival de Cannes
Em 2009, o jovem Xavier Dolan, então com meros 20 anos de idade, lançou o autobiográfico "Eu matei a minha mãe", em que narrava a difícil convivência de um adolescente homossexual com sua mãe - colocando-o como vítima de uma criação severa e opressiva. Cinco anos, quatro filmes e uma série de elogios e prêmios depois, o enfant terrible do cinema canadense surpreendeu ao demonstrar uma precoce maturidade em seu quinto longa-metragem. Em "Mommy"", ele inverte o ponto-de-vista de seu filme de estreia e, ciente das dificuldades pelas quais sua mãe teve de passar ao criar um filho não exatamente convencional, entrega um drama potente, belamente fotografado e interpretado com os nervos à flor da pele. Não à toa, levou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e angariou os mais entusiasmados aplausos de sua carreira até então.
Abdicando do papel central - afinal o personagem é um adolescente de 15 anos e nem mesmo com seu rosto juvenil ele convenceria o público - Dolan tem o controle quase total de seu filme, assinando a obra como diretor, roteirista, produtor e editor. Poderia ser apenas mais um exercício cansativo de autossuficiência se o rapaz não tivesse talento bastante para dar conta de tantas responsabilidades. Ao optar até mesmo por um formato de fotografia que enfatiza as limitações claustrofóbicas do jovem protagonista (e que se abre em uma já antológica sequência ao som de "Wonderwall", da banda inglesa Oasis), o jovem cineasta demonstra uma segurança ímpar no desenvolvimento do emocional material que tem em mãos, conseguindo até mesmo conter a tendência ao exagero dramático que caracterizava seus primeiros trabalhos. Cuidadoso na escolha de cada detalhe de seu filme, Dolan atinge o coração do espectador ao sublinhar principalmente a relação complicada entre seus dois protagonistas - visceralmente interpretados por Antoine-Olivier Pilon e Ann Dorval (que, sintomaticamente, também era a atriz central de "Eu matei a minha mãe").
Dorval - intensa, entregue, à flor da pele - dá vida à Diane Després, uma viúve jovem e atraente que dá duro como faxineira para sustentar-se e ao filho único, Steve (Antoine Olivier-Pilon), que vive em uma instituição psiquiátrica desde que foi diagnosticado como portador da Síndrome do Déficit de Atenção. Quando ela toma a decisão de retirá-lo do hospital - impulsionada pelo fato do rapaz ter agredido violentamente um colega - sua vida se transforma. Steve é extremamente inconstante e oscila radicalmente entre a docilidade e a agressividade, além de ser incapaz de encaixar-se nos moldes tradicionais de ensino. É aí que entra em cena Kyla (Suzanne Clemént), uma vizinha que s oferece para dar aulas particulares para ele e torna-se amiga íntima de Diane. Dona de um trauma familiar que envolve a morte de uma criança, ela acaba por ser testemunha da relação extrema entre mãe e filho, que atinge níveis surpreendentes de violência física e psicológica. No entanto, ela não consegue deixar de notar, também, o amor obsessivo de um pelo outro.
Um filme capaz de deixar o coração do espectador apertado e em lágrimas, "Mommy" é mais do que apenas o filme da maturidade de Xavier Dolan: é um poderoso drama familiar, repleto de momentos antológicos e sequências dolorosamente realistas, escritas e interpretadas com uma naturalidade admiráveis. Com cenas intensamente tristes - em especial perto do desfecho, razoavelmente otimista - e uma trilha sonora que mistura Oasis, Dido, Lana Del Rey, Counting Crows e Andrea Bocelli, o filme de Dolan funciona bem tanto como cinema - é tecnicamente o mais bem-acabado do cineasta - quanto como pedido de desculpas por seus dramas e excessos juvenis. Um trabalho avassalador e inesquecível, de deixar qualquer um de queixo caído.
Prêmio do Júri no Festival de Cannes
Em 2009, o jovem Xavier Dolan, então com meros 20 anos de idade, lançou o autobiográfico "Eu matei a minha mãe", em que narrava a difícil convivência de um adolescente homossexual com sua mãe - colocando-o como vítima de uma criação severa e opressiva. Cinco anos, quatro filmes e uma série de elogios e prêmios depois, o enfant terrible do cinema canadense surpreendeu ao demonstrar uma precoce maturidade em seu quinto longa-metragem. Em "Mommy"", ele inverte o ponto-de-vista de seu filme de estreia e, ciente das dificuldades pelas quais sua mãe teve de passar ao criar um filho não exatamente convencional, entrega um drama potente, belamente fotografado e interpretado com os nervos à flor da pele. Não à toa, levou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e angariou os mais entusiasmados aplausos de sua carreira até então.
Abdicando do papel central - afinal o personagem é um adolescente de 15 anos e nem mesmo com seu rosto juvenil ele convenceria o público - Dolan tem o controle quase total de seu filme, assinando a obra como diretor, roteirista, produtor e editor. Poderia ser apenas mais um exercício cansativo de autossuficiência se o rapaz não tivesse talento bastante para dar conta de tantas responsabilidades. Ao optar até mesmo por um formato de fotografia que enfatiza as limitações claustrofóbicas do jovem protagonista (e que se abre em uma já antológica sequência ao som de "Wonderwall", da banda inglesa Oasis), o jovem cineasta demonstra uma segurança ímpar no desenvolvimento do emocional material que tem em mãos, conseguindo até mesmo conter a tendência ao exagero dramático que caracterizava seus primeiros trabalhos. Cuidadoso na escolha de cada detalhe de seu filme, Dolan atinge o coração do espectador ao sublinhar principalmente a relação complicada entre seus dois protagonistas - visceralmente interpretados por Antoine-Olivier Pilon e Ann Dorval (que, sintomaticamente, também era a atriz central de "Eu matei a minha mãe").
Dorval - intensa, entregue, à flor da pele - dá vida à Diane Després, uma viúve jovem e atraente que dá duro como faxineira para sustentar-se e ao filho único, Steve (Antoine Olivier-Pilon), que vive em uma instituição psiquiátrica desde que foi diagnosticado como portador da Síndrome do Déficit de Atenção. Quando ela toma a decisão de retirá-lo do hospital - impulsionada pelo fato do rapaz ter agredido violentamente um colega - sua vida se transforma. Steve é extremamente inconstante e oscila radicalmente entre a docilidade e a agressividade, além de ser incapaz de encaixar-se nos moldes tradicionais de ensino. É aí que entra em cena Kyla (Suzanne Clemént), uma vizinha que s oferece para dar aulas particulares para ele e torna-se amiga íntima de Diane. Dona de um trauma familiar que envolve a morte de uma criança, ela acaba por ser testemunha da relação extrema entre mãe e filho, que atinge níveis surpreendentes de violência física e psicológica. No entanto, ela não consegue deixar de notar, também, o amor obsessivo de um pelo outro.
Um filme capaz de deixar o coração do espectador apertado e em lágrimas, "Mommy" é mais do que apenas o filme da maturidade de Xavier Dolan: é um poderoso drama familiar, repleto de momentos antológicos e sequências dolorosamente realistas, escritas e interpretadas com uma naturalidade admiráveis. Com cenas intensamente tristes - em especial perto do desfecho, razoavelmente otimista - e uma trilha sonora que mistura Oasis, Dido, Lana Del Rey, Counting Crows e Andrea Bocelli, o filme de Dolan funciona bem tanto como cinema - é tecnicamente o mais bem-acabado do cineasta - quanto como pedido de desculpas por seus dramas e excessos juvenis. Um trabalho avassalador e inesquecível, de deixar qualquer um de queixo caído.
quinta-feira
INCÊNDIOS
INCÊNDIOS (Incendies, 2010, TS Productions, 139min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Denis Villeneuve, peça teatral de Wadji Mouawad. Fotografia: André Turpin. Montagem: Monique Dartonne. Música: Grégoire Hetzel. Figurino: Sophie Lefebvre. Direção de arte/cenários: André-Line Beauparlant/Rana Aboot, Marie-Soleil Dénomme, Amin Charif El Masri, Philippe Lord. Produção: Luc Déry, Kim McCraw. Elenco: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette, Remy Girard. Estreia: 04/9/10 (Festival de Cinema de Namur)
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Indicado ao Oscar 2011 de Melhor Filme Estrangeiro, o canadense "Incêndios" é provavelmente um dos mais impactantes dramas lançados nos últimos anos. Narrado com a força de uma tragédia grega (dando ao destino o poder das maiores ironias), o longa do cineasta Denis Villeneuve - também autor do roteiro, adaptado da peça teatral de Wajdi Mouawad montada no Brasil com Marieta Severo no papel central - consegue ser, ao mesmo tempo, emocionante, surpreendente e, mais do que tudo, chocante como poucos filmes de nossa época tão dada ao cinismo. Ao misturar em uma única história elementos políticos inquietantes e um drama familiar poderoso, a trama de Mouawad não tem medo de avançar em temas ousados e um desfecho aterrador que dificilmente seria visto em um filme do mainstream hollywoodiano.
A protagonista de "Incêndios" é Nawal Marwan - em uma atuação visceral da belga Lubna Azabal. Quando o filme começa, no Canadá, ela está morta, mas é seu último desejo, deixado em testamento e testemunhado por seu chefe e amigo Jean Lebel (Rémy Girard) que dá a partida na trama. Discreta e introvertida, Nawal surpreende seu casal de filhos gêmeos com um pedido incomum: eles tem que localizar seu irmão mais velho e seu pai (que julgavam morto) e entregar a eles dois envelopes lacrados. Enquanto Simon (Maxim Gaudette) considera tudo um delírio da mãe, Jeanne (Mélissa Désourmeax-Poulin) resolve acatar a última ordem da mãe, partindo então para o Oriente Médio, onde ela foi criada. As coisas, porém, não serão fáceis: como Jeanne acaba descobrindo, o nome de sua mãe não é exatamente bem-quisto e a história de sua família tem origens muito mais complexas e tristes do que ela ou seu irmão poderiam supor.
A adaptação do diretor também é digna de elogios. O roteiro mantém os momentos de impacto da peça teatral, expandindo-os de maneira a tornar quase impossível ao espectador imaginar o que estava realmente no palco e o que foi criado para o filme. Além de fazer alterações necessárias - a maneira como Marwal descobre o paradeiro de seu primeiro filho, por exemplo, é bem mais forte no filme do que na peça - Villeneuve dá à sua protagonista mais presença em cena. No texto de Mouawad, as lembranças que trazem a personagem ao centro da trama são bem mais vividas por Jeanne, sua filha, do que por ela mesma. Na versão cinematográfica a condução da trama fica nas mãos mais que competentes de Lubna Azanal, capaz de transformações físicas impressionantes e uma variedade de nuances de interpretação invejável.
Utilizando de maneira inteligente o batido recurso do flashback, "Incêndios" tem em sua narrativa seca e quase documental seu maior trunfo. Fugindo do sentimentalismo barato, Villeneuve confia em sua história o suficiente para deixar que ela, forte por si só, seja o centro da atenção, sem apelar para artifícios que desviem o foco do mistério que vai se desvendando aos poucos diante dos olhos incrédulos do espectador, testemunha de uma saga de violência física e psicológica capaz de deixar rastros indeléveis no corpo e na alma. Seu final, devastador, parece dizer que a guerra, ainda que mutile os seres humanos de todas as maneiras possíveis, não é capaz de apagar um espírito. É uma afirmação que poucos filmes conseguem fazer sem soar piegas!
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Indicado ao Oscar 2011 de Melhor Filme Estrangeiro, o canadense "Incêndios" é provavelmente um dos mais impactantes dramas lançados nos últimos anos. Narrado com a força de uma tragédia grega (dando ao destino o poder das maiores ironias), o longa do cineasta Denis Villeneuve - também autor do roteiro, adaptado da peça teatral de Wajdi Mouawad montada no Brasil com Marieta Severo no papel central - consegue ser, ao mesmo tempo, emocionante, surpreendente e, mais do que tudo, chocante como poucos filmes de nossa época tão dada ao cinismo. Ao misturar em uma única história elementos políticos inquietantes e um drama familiar poderoso, a trama de Mouawad não tem medo de avançar em temas ousados e um desfecho aterrador que dificilmente seria visto em um filme do mainstream hollywoodiano.
A protagonista de "Incêndios" é Nawal Marwan - em uma atuação visceral da belga Lubna Azabal. Quando o filme começa, no Canadá, ela está morta, mas é seu último desejo, deixado em testamento e testemunhado por seu chefe e amigo Jean Lebel (Rémy Girard) que dá a partida na trama. Discreta e introvertida, Nawal surpreende seu casal de filhos gêmeos com um pedido incomum: eles tem que localizar seu irmão mais velho e seu pai (que julgavam morto) e entregar a eles dois envelopes lacrados. Enquanto Simon (Maxim Gaudette) considera tudo um delírio da mãe, Jeanne (Mélissa Désourmeax-Poulin) resolve acatar a última ordem da mãe, partindo então para o Oriente Médio, onde ela foi criada. As coisas, porém, não serão fáceis: como Jeanne acaba descobrindo, o nome de sua mãe não é exatamente bem-quisto e a história de sua família tem origens muito mais complexas e tristes do que ela ou seu irmão poderiam supor.
A adaptação do diretor também é digna de elogios. O roteiro mantém os momentos de impacto da peça teatral, expandindo-os de maneira a tornar quase impossível ao espectador imaginar o que estava realmente no palco e o que foi criado para o filme. Além de fazer alterações necessárias - a maneira como Marwal descobre o paradeiro de seu primeiro filho, por exemplo, é bem mais forte no filme do que na peça - Villeneuve dá à sua protagonista mais presença em cena. No texto de Mouawad, as lembranças que trazem a personagem ao centro da trama são bem mais vividas por Jeanne, sua filha, do que por ela mesma. Na versão cinematográfica a condução da trama fica nas mãos mais que competentes de Lubna Azanal, capaz de transformações físicas impressionantes e uma variedade de nuances de interpretação invejável.
Utilizando de maneira inteligente o batido recurso do flashback, "Incêndios" tem em sua narrativa seca e quase documental seu maior trunfo. Fugindo do sentimentalismo barato, Villeneuve confia em sua história o suficiente para deixar que ela, forte por si só, seja o centro da atenção, sem apelar para artifícios que desviem o foco do mistério que vai se desvendando aos poucos diante dos olhos incrédulos do espectador, testemunha de uma saga de violência física e psicológica capaz de deixar rastros indeléveis no corpo e na alma. Seu final, devastador, parece dizer que a guerra, ainda que mutile os seres humanos de todas as maneiras possíveis, não é capaz de apagar um espírito. É uma afirmação que poucos filmes conseguem fazer sem soar piegas!
terça-feira
AS INVASÕES BÁRBARAS
AS INVASÕES BÁRBARAS (Les invasions barbares, 2003, Canadá, 99min) Direção e roteiro: Denys Arcand. Fotografia: Guy Dufaux. Montagem: Isabelle Dedieu. Música: Pierre Aviat. Figurino: Denis Sperdouklis. Direção de arte/cenários: François Séguin/Patrice Bengle, Annika Krausz. Produção: Daniel Louis, Denise Robert. Elenco: Rémy Girard, Stéphane Rousseau, Marie-Josée Croze, Marina Hands, Yves Jacques. Estreia: 21/5/03 (Festival de Cannes)
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Festival de Cannes: Melhor Atriz (Marie-Josée Croze), Melhor Roteiro
Normalmente, quando vai escolher o vencedor do Oscar na categoria de Melhor Produção Estrangeira a Academia de Hollywood gosta de praticar a política de boa vizinhança ou optar por filmes de países cuja relevância política e/ou social esteja em voga no momento. Felizmente quando este “As invasões bárbaras” estava no páreo não houve nenhum tipo de polêmica. Um dos mais belos produtos cinematográficos do ano, o filme do canadense Denys Arcand emociona e faz pensar sem apelar para sentimentalismos baratos, graças a um roteiro equilibrado e atuações acima de quaisquer críticas.
Espécie de continuação de “O declínio do império americano”, realizado por Arcand em 1986 – cujos personagens retornam aqui, mais velhos e um tanto mais cínicos – o filme que ganhou dois prêmios em Cannes – roteiro e atriz (Marie-Josée Croze) – conta uma história triste e melancólica, mas com um senso de esperança raramente visto em produções comerciais, sejam elas de que país forem. E talvez justamente por tratar de temas tão universais como amor entre amigos, família e aos ideais, “As invasões bárbaras” tenha conquistado tanta atenção e provocado tantas lágrimas.

A trama começa quando o bem-sucedido empresário Sebastien (Stephane Rousseau), que trabalha no mercado financeiro de Londres, é chamado de volta ao Canadá por sua mãe, que o avisa que seu pai está seriamente doente, precisando de um tratamento para seus últimos momentos. O pai de Sebastien é Remy (o extraordinário Remy Girard), um professor universitário socialista que já teve seus dias de conquistador e que agora vive um casamento quase de aparência com sua nem tão compreensiva mulher. Mesmo sentindo que seus dias estão no fim, ele reluta em aceitar a ajuda do filho – que em sua concepção não passa de um materialista colonizador - em pagar seu tratamento. No entanto, as coisas começam a mudar quando recebe a visita de seu grupo de antigos amigos, todos intelectuais tentando lidar com a passagem do tempo e com a destruição de seus sonhos políticos e sociais. Entre lembranças divertidas com seus amigos e discussões ferrenhas com o filho, Remy ainda faz duas amizades no hospital: uma enfermeira paciente e dedicada e a filha de uma amiga, uma jovem viciada em heroína que encontra nele a inspiração para deixar as drogas.
O roteiro de “As invasões bárbaras” é um primor de delicadeza, inteligência e de um eruditismo que nem de longe soa como pedante. Ao confrontar suas personagens – mais maduras e consequentementes com suas próprias cargas de perdas pessoais e espirituais – com a passagem do tempo e a inevitabilidade da morte, Denys Arcand de uma certa forma faz o inventário de uma geração, sem precisar apelar para lágrimas fáceis. Nem mesmo as cenas entre pai e filho, de uma beleza pungente, consegue tirar a sensação de uma pequena obra-prima sobre as coisas boas da vida. Um filme para ver e rever sempre!
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Festival de Cannes: Melhor Atriz (Marie-Josée Croze), Melhor Roteiro
Normalmente, quando vai escolher o vencedor do Oscar na categoria de Melhor Produção Estrangeira a Academia de Hollywood gosta de praticar a política de boa vizinhança ou optar por filmes de países cuja relevância política e/ou social esteja em voga no momento. Felizmente quando este “As invasões bárbaras” estava no páreo não houve nenhum tipo de polêmica. Um dos mais belos produtos cinematográficos do ano, o filme do canadense Denys Arcand emociona e faz pensar sem apelar para sentimentalismos baratos, graças a um roteiro equilibrado e atuações acima de quaisquer críticas.
Espécie de continuação de “O declínio do império americano”, realizado por Arcand em 1986 – cujos personagens retornam aqui, mais velhos e um tanto mais cínicos – o filme que ganhou dois prêmios em Cannes – roteiro e atriz (Marie-Josée Croze) – conta uma história triste e melancólica, mas com um senso de esperança raramente visto em produções comerciais, sejam elas de que país forem. E talvez justamente por tratar de temas tão universais como amor entre amigos, família e aos ideais, “As invasões bárbaras” tenha conquistado tanta atenção e provocado tantas lágrimas.
A trama começa quando o bem-sucedido empresário Sebastien (Stephane Rousseau), que trabalha no mercado financeiro de Londres, é chamado de volta ao Canadá por sua mãe, que o avisa que seu pai está seriamente doente, precisando de um tratamento para seus últimos momentos. O pai de Sebastien é Remy (o extraordinário Remy Girard), um professor universitário socialista que já teve seus dias de conquistador e que agora vive um casamento quase de aparência com sua nem tão compreensiva mulher. Mesmo sentindo que seus dias estão no fim, ele reluta em aceitar a ajuda do filho – que em sua concepção não passa de um materialista colonizador - em pagar seu tratamento. No entanto, as coisas começam a mudar quando recebe a visita de seu grupo de antigos amigos, todos intelectuais tentando lidar com a passagem do tempo e com a destruição de seus sonhos políticos e sociais. Entre lembranças divertidas com seus amigos e discussões ferrenhas com o filho, Remy ainda faz duas amizades no hospital: uma enfermeira paciente e dedicada e a filha de uma amiga, uma jovem viciada em heroína que encontra nele a inspiração para deixar as drogas.
O roteiro de “As invasões bárbaras” é um primor de delicadeza, inteligência e de um eruditismo que nem de longe soa como pedante. Ao confrontar suas personagens – mais maduras e consequentementes com suas próprias cargas de perdas pessoais e espirituais – com a passagem do tempo e a inevitabilidade da morte, Denys Arcand de uma certa forma faz o inventário de uma geração, sem precisar apelar para lágrimas fáceis. Nem mesmo as cenas entre pai e filho, de uma beleza pungente, consegue tirar a sensação de uma pequena obra-prima sobre as coisas boas da vida. Um filme para ver e rever sempre!
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OS AGENTES DO DESTINO
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