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quarta-feira

O PLANO PERFEITO


O PLANO PERFEITO (Inside man, 2006, Universal Pictures, 129min) Direção: Spike Lee. Roteiro: Russell Gewirtz. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Donna Berwick. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Geore DeTitta Jr.. Produção executiva: Karen Kehela Sherwood, Jon Kilik, Daniel M. Rosenberg, Kim Roth, Christian Stibbe. Produção: Brian Grazer. Elenco: Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Willem Dafoe, Christopher Plummer, Chiwetel Ejiofor. Estreia: 20/3/2006

Um dos filmes mais populares da carreira de Spike Lee, "O plano perfeito" é, também, um de seus projetos menos pessoais. Assumindo o comando da produção depois da saída do diretor original - Ron Howard abandonou o barco para realizar "A luta pela esperança", com Russell Crowe -, Lee deixou de lado a maioria de suas marcas registradas para assinar uma obra inserida em um subgênero de grande tradição cinematográfica - os filmes de roubo  - e que, com um elenco de nomes conhecidos, não teve dificuldade em encontrar seu público. Com uma renda de mais de 180 milhões de dólares e elogios da maior parte da crítica, o 17º longa-metragem de Lee abraça todas as convenções do estilo e só não se tornou uma pequena obra-prima devido ao roteiro um tanto confuso de Russell Gerwitz, que insiste em reviravoltas por vezes desnecessárias e no desenvolvimento raso de seus personagens - nenhum deles carismático o bastante para despertar a torcida do espectador.

O filme começa com um monólogo de Dalton Russell (Clive Owen), explicando como aconteceu o roubo a banco no qual ele tomou parte. Em um flashback, o público é então jogado ao momento em que Dalton e seus cúmplices entram em uma agência do Manhattan Trust Bank de Nova York. Mascarados e armados, eles dão início à ação criminosa, tomando funcionários e clientes como reféns. Quem é chamado para comandar a resposta ao assalto é o detetive Keith Frazier (Denzel Washington), que não demora a chegar ao local com o parceiro, Bill Mitchell (Chiwetel Ejiofor) e unir-se a outro líder da polícia, o Capitão John Darius (Willem Dafoe). Sem saber ao certo quantas pessoas estão mantidas dentro do banco - e nem ao menos com quantos criminosos estão lidando - Frazier e seus colegas começam a dialogar com Russell, que aparenta não ter a menor pressa em concluir seu roubo e faz exigências surpreendentes para liberar os prisioneiros. A situação fica ainda mais complexa quando entra em cena Madeline White (Jodie Foster), contratada pelo dono do banco, Arthur Case (Christopher Plummer), para impedir que um cofre secreto seja descoberto e tenha seu conteúdo exposto.


 

Dirigindo com inteligência mas sem os rasgos de ironia e fúria de seus trabalhos mais conhecidos, Spike Lee faz de "O plano perfeito" um filme correto mas nunca brilhante. Tudo está em seu devido lugar: a trilha sonora de Terence Blanchard (uma das poucas marcas registradas do cineasta), o elenco acima de qualquer crítica (mais uma colaboração entre Lee e Denzel Washington), a fotografia elegante de Matthew Libatique (que seria indicado ao Oscar alguns anos depois, por "Cisne negro"), que substitui as cores quentes por uma paleta mais sóbria e claustrofóbica. Porém, apesar de suas inúmeras qualidades - devidamente louvadas pela crítica -, o filme falha em conectar-se emocionalmente com o espectador. A opção do roteiro em não aprofundar seus personagens e, com uma pequena exceção ao Keith Frazier vivido por Denzel, não fornecer informações de seu passado ou suas motivações, pode até ser interessante - focar no momento da ação tem prós e contras em uma narrativa -, mas impede o espectador de realmente se importar com os desdobramentos além do que está no centro da trama.  O excesso de questões a serem resolvidas também atrapalha - o que Arthur Case está escondendo em seu cofre pessoal? Por que Dalton Russell escolheu justamente o Manhattan Trust Bank? Quem dentre as pessoas interrogadas por Frazier é cúmplice no assalto? O exagero de perguntas (nem todas respondidas a contento) é o calcanhar de Aquiles de "O plano perfeito".

Com um roteiro que força suas reviravoltas - ingrediente básico do gênero - e não consegue deixar de ser mais confuso do que surpreendente, "O plano perfeito" peca ao negar ao público um elemento crucial: a diversão. Ao contrário de Steven Soderbergh e sua trilogia iniciada com "Onze homens e um segredo" (2000), que aposta no humor e na leveza para seduzir a plateia, Spike Lee prefere se levar a sério demais, optando por conduzir o público em um emaranhado de pistas e personagens dúbios que jamais conquistam o espectador completamente. O clímax frio tampouco ajuda a elevá-lo acima da média e torná-lo o clássico moderno que poderia ser. Mesmo assim, com seu elenco impecável, o filme de Lee agrada ao não subestimar a inteligência de quem se dispõe a passar duas horas envolvido em uma trama que foge do derivativo e do lugar comum. Um filme de adulto, ideal para quem gosta de ter suas células cinzentas desafiadas.

SETE HOMENS E UM DESTINO

SETE HOMENS E UM DESTINO (The magnificent seven, 2016, MGM/Columbia Pictures, 132min) Direção: Antoine Fuqua. Roteiro: Nic Pizzolatto, Richard Wenk, roteiro original de Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, Hideo Oguni. Fotografia: Mauro Fiore. Montagem: John Refoua. Música: James Horner. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Bradford Johnson, Melissa Lombardo. Produção executiva: Bruce Berman, Antoine Fuqua, Walter Mirisch, Ben Waisbren. Produção: Roger Birnbaum, Todd Black. Elenco: Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Haley Bennett, Vincent D'Onofrio, Peter Sarsgaard, Matt Bomer, Byung Hu-Lee, Manuel Garcia-Rulfo, Martin Seinsmeier, Luke Grimes, Cam Gigandet. Estreia: 08/9/16 (Festival de Toronto)

Não deixou de ser irônica a gritaria em torno da refilmagem de "Sete homens e um destino", quando ela foi anunciada pelo cineasta Antoine Fuqua. Primeiro porque o filme de 1960, dirigido por John Sturges, foi uma decepção de bilheteria quando estreou nos EUA, tornando-se cult somente anos mais tarde, depois do sucesso comercial na Europa. E segundo porque ele mesmo não era uma ideia original, e sim o remake americano do japonês "Os sete samurais" (54), de Akira Kurosawa, este sim um êxito internacional incontestável e atemporal. Estrelado por um elenco de astros do gabarito de Yul Brinner, Steve McQueen e Charles Bronson, a versão de Sturges acabou se transformando em um clássico do western americano, uma espécie de patrimônio intocável - o que resultou na série de questionamentos a respeito dos motivos que levariam Fuqua (um diretor apenas razoável, cujo maior cartão de visita é "Dia de treinamento", que deu o Oscar de melhor ator a Denzel Washington em 2002) a mexer com tal vespeiro. A boa notícia é que, apesar das alterações em pequenos detalhes da trama (ou talvez justamente por causa delas), a versão século XXI de "Sete homens e um destino" - politicamente correta, representativa e multicultural - é um faroeste à moda antiga filmado com os recursos da moderna Hollywood. Em resumo, o melhor dos dois mundos em um resultado final que agrada aos neófitos (aqueles que jamais assistiram a nenhum dos originais) e não ofende aos fãs dos clássicos.

Como não poderia deixar de ser ao tratar-se de um filme dirigido por um cineasta afro-americano engajado e militante, a principal mudança de "Sete homens e um destino" em relação à versão de Sturges foi eleger como protagonista um ator negro (algo impensável em uma Hollywood que somente no final da década de 60 começaria a dar os primeiros e tímidos passos em direção ao assunto, com a presença de Sidney Poitier em sucessos de bilheteria e crítica). Na pele do destemido oficial de justiça Sam Chilsom - que anda pelo país à caça de bandidos procurados pela polícia - está Denzel Washington, um dos mais representativos astros negros dos EUA, respeitado e admirado tanto pelo público quanto pela indústria. Sua imponência física e seu ar de autoconfiança cai como uma luva na história, reescrita por Nic Pizzolatto e Richard Wenk de acordo com os tempos modernos: não apenas o grupo de protagonistas é liderado por um negro, mas conta também com um oriental, um indígena, um mexicano e, surpresa das surpresas, tem até mesmo uma forte presença feminina na figura de Emma Cullen (Haley Bennett), a responsável por pedir ajuda a Chilsom na sua batalha para livrar sua pequena cidade, Rose Creek, dos desmandos do implacável e truculento Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard, assustadoramente magro e cruel). É Emma, que acaba de perder o marido pelas mãos sanguinárias de Bogue, quem contrata os serviços de Chilsom - mas, como manda o figurino do cinema do século XXI, não se faz de rogada e não foge à luta, encarando em pé de igualdade (ou quase) o batalhão de capangas que aceita o desafio de invadir a cidade e tomá-la a custo de sangue.


A primeira parte do filme, como não poderia deixar de ser, serve para que Fuqua apresente seus personagens e mostre como cada um dos sete homens do título é recrutado. Assim, surge em cena o falastrão e carismático Josh Faraday (Chris Pratt em papel sob medida para seu talento em roubar cenas), o traumatizado e famoso atirador Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke) - junto com seu associado Billy Rocks (Byung-hun Lee) - e o veterano e excêntrico Jack Horner (Vincent D'Onofrio). O grupo é completo pelo mexicano fora-da-lei Vasquez (Manuel Garcia-Rulfo em papel que quase ficou com o brasileiro Wagner Moura) e o indígena Red Harvest (Martin Seinsmeier), que partem em direção à Rose Creek com o objetivo de resolver a questão definitivamente. Além deles, estão Emma e seu amigo Teddy Q (Luke Grimes), que tem razões mais do que suficientes para odiar Bogue e o que ele representa - algo que os une à Chilsom, que também tem questões mal-resolvidas com o ambicioso latifundiário. Depois de um tiroteio que anuncia sua chegada à cidade, o bando de Chilsom então marca o duelo com seu antagonista - e é aí que Fuqua surpreende positivamente.

Dirigindo com firmeza longas sequências de ação, o cineasta não apenas consegue o feito de não soar tedioso ou repetitivo como ainda vai mais longe, orquestrando uma coreografia milimetricamente criada para manter o público de olhos grudados na tela. Para isso, colabora a edição de John Refoua - que mantém mais de uma linha narrativa ao mesmo tempo - e o trabalho de sonorização, impecável e eficiente. Se até então o maior mérito do filme era desenvolver os personagens com a maior clareza possível em tão pouco tempo (a duração mal passa de duas horas, um milagre em tempos de obras que chegam a 180 minutos sem necessidade), a partir do começo da briga entre mocinhos e bandidos ,"Sete homens e um destino" se apresenta como um legítimo representante do western moderno - sem complexidades existenciais ou autoparódia, mas como um filme que deixa bem claro a linha que separa o bem do mal, a luz das trevas, a honra da traição. Seus protagonistas - por mais falíveis que sejam -, carregam a aura de heróis, uma aura que forjou um dos gêneros mais queridos e influentes da indústria hollywoodiana. Ao respeitar os cânones de tal gênero e filtrá-lo sob uma luz moderna, Fuqua criou seu melhor trabalho, um filme que encanta pelos valores de produção - como a bela fotografia de Mauro Fiore e a trilha sonora de James Horner, que homenageia a clássica composição de Elmer Bernstein para a produção de 1960 nos letreiros finais - e pela capacidade de contar uma velha e conhecida história lhe dando ares de novidade e inteligência. Um belo filme, uma bela surpresa e um dos raros remakes dignos já feitos em Hollywood!

sábado

TEMPO DE GLÓRIA

TEMPO DE GLÓRIA (Glory, 1989, TriStar Pictures, 122min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Kevin Jarre, livros de Lincoln Kirstein e Peter Burchard, cartas de Robert Gould Shaw. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Horner. Figurino: Francine Jamison-Tanchuck. Direção de arte/cenários: Norman Garwood/Garrett Lewis. Produção: Freddie Fields. Elenco: Matthew Broderick, Denzel Washington, Cary Elwes, Morgan Freeman, Andre Braugher, Bob Gunton, Jay O. Sanders. Estreia: 15/12/89

5 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Fotografia, Som 
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Denzel Washington) 

Segundo palavras dele mesmo, Edward Zwick estava apreensivo quando começou as filmagens de "Tempo de glória": o cineasta não sabia como o elenco de seu filme se sentia a respeito de ter um diretor branco, judeu e jovem (36 anos à época) contando a história do primeiro regimento de soldados negros da Guerra de Secessão americana, que contrapôs o Norte abolicionista contra o Sul escravagista. Sabendo que o evento tinha uma importância crucial no sentimento de autoestima dos afro-americanos (ainda que fosse pouco conhecido do público em geral), Zwick temia não ser capaz de honrá-lo. Por fim, todos os seus temores se mostraram infundados: não apenas os atores receberam com simpatia e profissionalismo seu trabalho, como a Academia de Hollywood também se rendeu ao resultado final: indicado a 5 Oscar, "Tempo de glória" recebeu 3 estatuetas (ator coadjuvante, fotografia e som) e se tornou o segundo filme mais premiado da temporada 1989, perdendo em números apenas para o grande vencedor, "Conduzindo Miss Daisy" (que saiu da cerimônia com um troféu a mais). Nem mesmo o grande favorito do ano, "Nascido de 4 de julho", de Oliver Stone, foi tão bem-sucedido.

Não é difícil entender os motivos que levaram o filme de Zwick a agradar tanto aos conservadores membros da Academia. Mais até que o tom épico - acentuado pela bela trilha sonora de James Horner, inexplicavelmente deixada de fora das indicações - e a produção caprichada, é a forma sincera e carinhosa do olhar do cineasta que fazem de "Tempo de glória" um filme de guerra que foge da estrutura óbvia de treinamento/batalha climática/final apoteótico. Justamente pelo background que o fazia temer por sua capacidade em comandar o filme, Zwick acabou por ser a escolha mais apropriada: com distanciamento emocional para equilibrar cenas grandiosas e momentos intimistas, ele criou uma pequena obra-prima, uma homenagem justa e sóbria não apenas a um homem - o Coronel Robert Gould Shaw, líder do pelotão -, mas também a um grupo de soldados que, contrariando um destino de subserviência, honrou o exército de seu país apesar do preconceito profundamente enraizado que os considerava indignos da luta.


Fisicamente semelhante ao verdadeiro Shaw, o ator Matthew Broderick encara pela primeira vez um protagonista adulto, com responsabilidades e angústias que vão além dos personagens que o fizeram conhecido do grande público. Nem sempre convence, especialmente em cenas dramaticamente mais potentes, mas não compromete o filme com um todo e tem carisma o bastante para disfarçar suas limitações. Seu personagem é um jovem de 25 anos, filho de uma influente família de Boston, a quem é dado, mesmo sem experiência sólida, o comando do primeiro batalhão formado exclusivamente formado por negros na Guerra de Secessão. O ano é 1863, e acompanhado do velho amigo Cabot Forbes (Cary Elwes), Shaw aceita o desafio, mesmo sabendo que seu sucesso na empreitada dependerá quase exclusivamente da relação que criará com seus subordinados. Vendo seu batalhão desacreditado e frequentemente tratado com desprezo por seus superiores - que enxergam neles apenas o talento para a mão-de-obra e não para batalhas reais -, o jovem coronel passa a comprar brigas com quem for preciso para exigir tratamento justo e provisões básicas (como sapatos, uniformes e pagamento igualitário). A princípio bastante imponente como forma de impor respeito, aos poucos ele vai se deixando conquistar pelos soldados - em especial o veterano John Rawlins (Morgan Freeman), a quem confia um cargo de confiança, e o rebelde Trip (Denzel Washington).

Se Broderick não vai muito além do básico, com uma interpretação contida e pouco inspirada (talvez culpa de um personagem que não se permite demonstrar muita emoção), o elenco coadjuvante de "Tempo de glória" é um de seus maiores trunfos. Denzel Washington levou seu primeiro Oscar para casa (como coadjuvante, batendo nomes como Marlon Brando e Martin Landau) por seu desempenho exemplar como o petulante Trip, dono de algumas das cenas mais memoráveis do filme. Morgan Freeman empresta seu semblante sereno ao equilibrado John Rawlins, ponto de acesso entre Shaw e seus subordinados, e tem pelo menos um grande momento (junto a Washington). E Andre Braugher, como Thomas Searles, amigo de infância do coronel, e Jihmi Kennedy, como o gago e inseguro Jupiter Sharts, completam o elenco de apoio impecável selecionado por Zwick. Um filme que fala ao mesmo tempo aos fãs do gênero e àqueles que procuram histórias humanistas, "Tempo de glória" precisa ser redescoberto como um dos melhores filmes do final da década de 80 - e um dos mais importantes quando se trata de combate ao preconceito.

O VOO

O VOO (Flight, 2012, Paramount Pictures, 138min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: John Gatins. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Jeremiah O'Driscoll. Música: Alan Silvestri. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Nelson Coates/James Edward Ferrell Jr.. Produção executiva: Cherylanne Martin. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Denzel Washington, John Goodman, Don Cheadle, Bruce Greenwood, Kelly Reilly, Melissa Leo, Brian Geraghty, James Badge Dale. Estreia: 14/10/12 (Festival de Nova York)

2 indicações ao Oscar: Ator (Denzel Washington), Roteiro Original

Levando-se em consideração que a filmografia de Robert Zemeckis inclui a trilogia "De volta para o futuro", o revolucionário "Uma cilada para Roger Rabbit" e o megapremiado "Forrest Gump" - e que desde "Náufrago", de um distante ano 2000 ele não brindava seu público com filmes em live-action - não deixa de ser surpreendente ver seu nome assinando "O voo", uma produção simples, honesta e humana e que, excetuando-se uma tensa sequência que mostra um acidente aéreo, prescinde de efeitos visuais e artifícios estilísticos para conquistar a plateia. Depois de uma sucessão de trabalhos cujo visual importava mais do que o conteúdo, o mais bem-sucedido discípulo de Steven Spielberg marcou sua volta de maneira discreta mas bastante eficiente. Com uma renda de mais de 90 milhões de dólares no mercado americano - contra seu custo de apenas 30 milhões - "O voo" ainda conseguiu agradar à crítica e à Academia de Hollywood, que o brindou com duas indicações ao Oscar: roteiro original e ator - Denzel Washington em uma atuação bem mais contida do que o normal e consequentemente mais humana e passível de identificação com o espectador.

Afeito à personagens heroicas e/ou arrogantes, Washington se sai notavelmente bem em um papel que foge de sua zona de conforto. Whip Whitaker, o piloto de aviões alcóolatra e viciado em drogas que consegue milagrosamente evitar uma tragédia de grandes proporções e depois se vê acossado por seus superiores e pela própria consciência é uma das melhores personagens de sua carreira, lhe proporcionando a chance de explorar nuances de seu talento até então escondidos sob a camada de exarcebada autoestima que seus trabalhos anteriores insinuavam. Poucas vezes o público viu Denzel tão frágil e inseguro e esse risco - talvez calculado, mas eficiente - é a maior qualidade de um filme, que, mesmo mantendo o interesse da plateia até seu final, não consegue deixar de esbarrar em alguns clichês. Ainda assim, é um filme acima da média, graças a uma união de talentos que não tinha como dar errado.


Dirigido com firmeza e sutileza por um Robert Zemeckis de volta à sua atenção às personagens e seus atores - qualidade que lhe rendeu um Oscar por "Forrest Gump" e que sempre ficou muito em evidência em seus trabalhos, mesmo os menos sérios - "O voo" é, na verdade, totalmente centrado na figura de Whitaker, um homem em constante luta contra seus fantasmas que, depois do desastre do avião que pilotava (mesmo calibrado de álcool e cocaína) vê suas certezas abaladas e tenta reencontrar seu caminho - e sente-se pressionado por uma investigação que pode dar fim à sua carreira. Zemeckis acerta em centrar a trama nas costas capazes de Washington, mas de certa forma isso acaba deixando de lado algumas possibilidades interessantes - como sua relação com a jovem viciada Nicole (Kelly Reilly), tratada de forma um tanto desajeitada pelo roteiro, escrito com seriedade e grande senso de ritmo. Sem ter muito onde apoiar-se - até mesmo as cenas de tribunal soam apenas corretas e não empolgantes, apesar do auxílio luxuoso de Melissa Leo - resta ao ator (indicado ao Oscar, mas sem muitas chances de vitória ao encarar Daniel Day-Lewis e sua recriação de Abraham Lincoln no filme de Spielberg) dar seu show particular, o que com certeza agrada a seus fãs e pode conquistar outros.c

"O voo" é um belo drama, dirigido com competência e estrelado por um ator em um grande momento. Pode não ser excepcional ou inesquecível, mas cumpre o que promete sem aborrecer ao espectador. Em uma temporada repleta de obras ambiciosas e morosas como os louvados "Lincoln" e "Os miseráveis", não deixou de ser um oásis de simplicidade e concisão - e que entrega a John Goodman um dos melhores papéis de sua carreira, como o amigo e fornecedor de drogas do protagonista que tem suas cenas ilustradas com canções dos Rolling Stones. É um alívio cômico não exagerado que ajuda personagem e plateia a respirar por alguns minutos diante de tanto drama.

segunda-feira

DIA DE TREINAMENTO

DIA DE TREINAMENTO (Training day, 2001, Warner Bros, 122min) Direção: Antoine Fuqua. Roteiro: David Ayer. Fotografia: Mauro Fiore. Montagem: Conrad Buff. Música: Mark Mancina. Figurino: Michele Michel. Direção de arte/cenários: Naomi Shohan/Jan Pascale. Produção executiva: Bruce Berman, Davis Guggenheim. Produção: Jeffrey Silver. Elenco: Denzel Washington, Ethan Hawke, Scott Glenn, Tom Berenger, Harris Yulin, Raymond J. Barry, Cliff Curtis, Dr. Dre, Eva Mendes, Snoop Dogg, Macy Gray. Estreia: 02/9/01 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Ator (Denzel Washington), Ator Coadjuvante (Ethan Hawke)
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Denzel Washington) 

Um dos atores negros mais importantes de sua geração e certamente da história do cinema americano, Denzel Washington construiu sua carreira interpretando homens de personalidade forte, frequentemente desafiando o sistema e o preconceito, em especial como o ativista Steve Biko de "Um grito de liberdade" e o ícone máximo "Malcolm X", trabalhos que lhe deram indicações ao Oscar - prêmio que veio pela primeira vez como coadjuvante, por seu desempenho como um escravo fugido que se alista no Exército americano durante a Guerra de Secessão, em "Tempo de glória". Não deixou de ser uma surpresa, portanto, que seu Oscar de melhor ator principal tenha chegado por "Dia de treinamento", onde ele interpreta Alonzo Harris, um policial da divisão de narcóticos de Los Angeles que, apesar de dominador e intenso, joga do lado oposto da lei. Corrupto, violento e amoral, Alonzo Harris é a antítese de todos os personagens vividos por Washington até então e, talvez justamente por isso, é um dos mais empolgantes de sua vitoriosa trajetória.

Marcando história pelo fato de pela primeira vez um ator negro ser premiado com o Oscar por um filme dirigido por um cineasta também negro, Antoine Fuqua, "Dia de treinamento" na verdade poderia ter sido bem diferente do produto que acabou nas telas. Antes que Denzel assume o papel do veterano policial, nomes fortes recusaram a missão: Bruce Willis, Mickey Rourke, Samuel L. Jackson, Gary Sinise e Tom Sizemore pularam fora do projeto antes mesmo do início das filmagens, assim como Matt Damon, Tobey Maguire e até mesmo o rapper Eminem rejeitaram o papel de Jake Hoyt, o parceiro jovem e ingênuo do nada exemplar protagonista - que, no roteiro original, deixava claro à plateia as origens de seu comportamento nocivo, coisa que desapareceu da montagem final definida pelo romancista policial James Ellroy como "pura perda de tempo". Apesar dessa crítica nada gentil do autor de "Los Angeles, cidade proibida", porém, o filme de Fuqua - que já tinha no histórico o visualmente atraente mas oco de conteúdo "Assassinos substitutos" - cumpre o que promete: é um thriller intenso e ritmado, com atuações intensas e uma história interessante o bastante para prender a atenção da primeira à última cena.


O filme acompanha o primeiro dia do jovem Jake Hoyt (Ethan Hawke, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) na divisão de narcóticos de Los Angeles. Seu objetivo é trabalhar no escritório da corporação, mas para isso ele precisa passar ao menos 24 horas nas ruas da cidade, ao lado do veterano Alonzo Harris (Denzel Washington exercitando seu lado arrogante e cínico com visível prazer), que há mais de uma década frequenta as calçadas dos bairros mais perigosos e violentos. Pai de uma filha recém-nascida, Hoyt aos poucos começa a perceber que a má fama de Alonzo não é apenas lenda e testemunha atrocidades que o deixam tão chocados quanto revoltados: ameaçado de ter sua carreira destruída e sua família morta se revelar qualquer deslize, ele se vê envolvido em chantagem, corrupção, tráfico de drogas e homicídio e passa a questionar suas chances de terminar o dia com vida.

Dirigido com segurança por Fuqua - que imprime ao filme uma tensão palpável e uma violência crível que utiliza os clichês do gênero a seu favor - "Dia de treinamento" é um policial politicamente incorreto, que não tem medo de retratar latinos e negros como traficantes e vilões, seguindo o caminho inverso do cinema comercial americano de seu tempo, sempre pisando em ovos para não se indispor com nenhuma comunidade. Chegando às últimas consequências em seu desenvolvimento, o roteiro de David Ayer - que se tornaria especialista em tramas semelhantes nos anos seguintes - praticamente coloca o espectador no banco de trás do carro de Alonzo, sentindo na pele todo o drama de Hoyt em sua tentativa de sobreviver ao pior dia de sua vida. Essa cumplicidade entre plateia e herói é o grande trunfo do filme - além da atuação de Washington - e o que faz com que ele se sobressaia a tantas outras produções similares. É um belo entretenimento, para adultos que buscam diversão longe dos blockbusters inconsequentes oferecidos por Hollywood.

domingo

O COLECIONADOR DE OSSOS

O COLECIONADOR DE OSSOS (The bone collector, 1999, Universal Pictures/Columbia Pictures, 118min) Direção: Philip Noyce. Roteiro: Jeremy Iacone, romance de Jeffery Deaver. Fotografia: Dean Semler. Montagem: William Hoy. Música: Craig Armstrong. Figurino: Odette Gaudory. Direção de arte/cenários: Nigel Phelps/Marie-Claude Gosselin, Susan C. MacQuarrie, Harriet Zucker. Produção executiva: Dan Jinks, Michael Klawitter. Produção: Martin Bregman, Michael Bregman, Louis A. Stroller. Elenco: Denzel Washington, Angelina Jolie, Queen Latifah, Michael Rooker, Luis Guzman, Mike McGlone, Leland Orser, Ed O'Neil, Bobby Cannavale. Estreia: 29/8/99 (Festival de Montreal)

O ano de 1999 foi movimentado para Denzel Washington e Angelina Jolie: antes mesmo que passassem a acumular elogios e prêmios por suas atuações em "Hurricane, o furacão" e "Garota, interrompida", respectivamente, os dois atores tiveram o gostinho de brincar de gato e rato no suspense policial "O colecionador de ossos", baseado em livro do escritor Jeffery Deaver. Uma espécie de "O silêncio dos inocentes" sem ambições psicológicas maiores do que as necessárias para prender a atenção da plateia, o filme tem a seu favor a intensidade dramática de Washington - um dos atores mais confiáveis de Hollywood - e a direção segura de Philip Noyce, mas esbarra em tantas implausibilidades e em um final tão anti-climático que nem mesmo os esforços da produção caprichada conseguem disfarçar a fragilidade de sua trama.

O protagonista vivido por Washington no piloto automático é Lincoln Rhyme, um policial tornado famoso por seus métodos investigativos heterodoxos e pelos livros que escreveu sobre o assunto. Tetraplégico após um acidente de trabalho mas ainda ajudando a polícia mesmo preso a uma cama que limita seus movimentos - e que o faz flertar seriamente com a eutanásia mesmo contra a vontade de sua enfermeira, Thelma (Queen Latifah) - ele é procurado por seu ex-parceiro, Paulie Selitto (Ed O'Neill) para colaborar na caça a um psicopata que, caçando suas vítimas em seu táxi, anda deixando pistas que remetem a algo que os detetives nova-iorquinos não conseguem compreender em sua totalidade. Sentindo-se desafiado, Rhyme aceita o desafio, mas exige a ajuda de Amelia Donaghy (Angelina Jolie), uma jovem policial que está em vias de abandonar as ruas para dedicar-se a uma carreira menos violenta dentro da corporação. A princípio hesitante - por não ter experiência e nem estômago para coletar as evidências, além de ter um passado traumático - ela muda de ideia e torna-se o corpo de Lincoln nas cenas dos crimes. Juntos, eles partem em busca da identidade e dos motivos do serial killer, que, entre outras delicadezas, arranca pedaços dos ossos de suas vítimas.


Philip Noyce acerta em cheio no clima que propõe a "O colecionador de ossos", exalando tensão em cada sequência, principalmente por conta da trilha sonora do veterano Craig Armstrong e da fotografia soturna do oscarizado Dean Semler - vencedor da estatueta por "Dança com lobos". O problema resume-se basicamente à trama, inverossímil e carente da intensidade psicológica que separa os filmes apenas corretos daqueles que se tornam clássicos inesquecíveis. É difícil, por exemplo, acreditar nas epifanias de Rhyme: por mais genial que ele seja ou por mais experiência que tenha, a facilidade com que ele entra na mente do assassino - e entende todas as suas motivações e antecipa seus próximos passos - soa forçada demais até mesmo para um público acostumado a explosões e efeitos visuais sem sentido. As revelações finais sobre o nome do assassino também soam artificiais e apressadas, como se fosse extremamente necessário surpreender a plateia com um desfecho inesperado (e carente de lógica). Mesmo que esse exagero venha do romance de Deaver - um escritor respeitado e querido por um público fiel - em cinema é quase impossível comprar a premissa básica, o que acaba por comprometer fatalmente o resultado final, por mais esforço que haja por parte da direção e do talentoso elenco.

Prejudicada por uma personagem sem maiores justificativas dramáticas que não sejam comerciais - e desprovida de qualquer traço da sensualidade que se tornaria uma de suas maiores características - Angelina Jolie faz o que pode em cena, transmitindo a seriedade exigida pelo papel mesmo quando o exagero toma conta da história. Queen Latifah brilha sempre que entra em cena, com uma presença que ficaria evidente com sua indicação ao Oscar de coadjuvante, por "Chicago", três anos depois. E Denzel Washington, do alto de sua consagração como um dos mais importantes atores negros do cinema americano, impõe respeito e credibilidade a um personagem que, em mãos menos eficientes, poderia resvalar facilmente ou para a caricatura ou para o dramalhão excessivo. Econômico e sutil, ele dá sustentação a um filme eficiente, mas exagerado demais em suas tentativas de chocar o público. Assistível, mas facilmente esquecível.

terça-feira

HURRICANE - O FURACÃO

HURRICANE - O FURACÃO (The Hurricane, 1999, Universal Pictures, 146min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Armyan Bernstein, Dan Gordon, livros "The 16th Round", de Rubin "Hurricane" Carter e "Lazarus and the Hurricane", de Sam Chaiton e Terry Swinton. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Stephen Rivkin. Música: Christopher Young. Figurino: Aggie Guerard-Rodgers. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Gordon Sim. Produção executiva: Marc Abraham, Irving Azoff, Thomas A. Bliss, Rudy Langlais, Tom Rosenberg, William Teitler. Produção: Armyan Bernstein, Norman Jewison, John Ketcham. Elenco: Denzel Washington, Deborah Kara Unger, Liev Schrieber, John Hannah, Dan Hedaya, Vicellous Reon Shannon, Clancy Brown, David Paymer, Rod Steiger, Debbi Morgan. Estreia: 17/9/99 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Denzel Washington)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Denzel Washington)

Em 1966, o lutador de boxe Rubin "Hurricane" Carter, forte candidato ao título de campeão mundial de peso médio, foi preso, acusado de múltiplo homicídio. Condenado a três penas de prisão perpétua, ele nunca cansou de clamar inocência, chamando a atenção dos ativistas pelos direitos civis dos negros e de personalidades como o lutador Muhamad Ali, a atriz Ellen Burstyn e o cantor Bob Dylan, que inclusive compôs uma canção de protesto narrando os fatos que levaram o atleta à prisão e levantando a clara hipótese de perseguição racial. Tal história, um dos mais contundentes retratos das diferenças sociais dos EUA na década de 60 rendeu dois livros: um, escrito pelo próprio Carter, narrava sua vida repleta de preconceito e violência. O outro, mais inspirador, revelava a relação entre ele e um adolescente negro chamado Lesra, que, se identificando com a biografia do boxeador, convenceu seus tutores canadenses a colaborar na tentativa de um novo julgamento, mais de 30 anos depois de sua condenação. Essa história - escrita pelos professores do rapaz - foi o que serviu de base para "Hurricane, o furacão", a versão cinematográfica que quase deu o Oscar de melhor ator a Denzel Washington em 2000. Dirigido pelo veterano Norman Jewison - cujo "No calor da noite" também tinha o preconceito racial como mote dramático - a história de Rubin Carter chegou às tela cercada de elogios, mas não passou incólume ao teste da realidade: acusado de distorcer os fatos em favor do protagonista, o filme sofre de uma parcialidade que dilui sua denúncia (apesar de não diminuir seu valor como arte).

Fabuloso na pele de Rubin Carter, Denzel Washington levou o Golden Globe de melhor ator dramático, mas perdeu o Oscar para Kevin Spacey, brilhante em "Beleza americana". Alguns chegaram a culpar as controvérsias geradas pelo roteiro do filme - como a criação do personagem Della Pesca, vivido por Dan Hedaya, uma espécie de Javert (de "Os miseráveis", de Victor Hugo) em sua busca incessante pela condenação do protagonista desde sua infância - para enfatizar a conotação racial da perseguição. É possível que tais polêmicas tenham realmente respingado em Denzel, mas o fato é que nem mesmo sua atuação visceral consegue esconder a irregularidade do trabalho de edição e da fragilidade da estrutura do roteiro, que muda de tom e foco repentinamente, prejudicando inclusive o ritmo empolgante de sua primeira hora. Contando praticamente dois filmes em um só - a divisão fica clara entre os dois livros que lhe deram origem - Jewison não consegue manter a unidade de sua narrativa, deixando de lado, por exemplo, a montagem fora de ordem cronológica de seus primeiros minutos, que conquistam a audiência sem muito esforço. O terço inicial do filme, forte e dramático, logo é substituído por um tom mais ameno e pacifíco que, se corresponde às mudanças espirituais do protagonista em seu processo de amadurecimento na cadeia, deixa o produto final com menos força do que poderia se mantivesse a fúria do começo.


A trama já começa com a prisão de Carter, em 1966, juntamente com um amigo, igualmente negro, pela morte de três pessoas em um bar. Reconhecido por uma testemunha ocular retratada no filme como incapaz de tal - e coagida por um policial que persegue o lutador desde que ele ainda era uma criança, ele é imediatamente preso e, depois de um julgamento pouco mostrado em cena (o que dá margem às dúvidas sobre a veracidade de seu rigor histórico) é condenado e, rebelde, impõe sua forte personalidade junto às autoridades policiais, trocando o dia pela noite, estudando seu próprio caso e escrevendo sua biografia, chamada "O 16º round". O livro se torna um sucesso e, sete anos depois, cai nas mãos de um jovem negro chamado Lesra (Vicellous Reon Shannon), que, identificando-se com a história do famoso presidiário, inicia com ele uma correspondência fraternal. Morando no Canadá com três tutores que veem nele um futuro que estava ameaçado pelo descaso paterno e familiar, Lesra acaba por convencer seus amigos a iniciarem uma campanha que exija um novo julgamento para Carter - com base em incoerências durante o processo, eles desejam anular as sentenças.

É difícil não gostar de "Hurricane, o furacão": a direção de atores de Norman Jewison é certeira, extraindo de cada ator a expressão mais correta e apropriada, a trilha sonora de Christopher Young é eficaz, e a história é contada de forma emocionante, ainda que burocrática em seus dois terços finais. Além do mais, Denzel Washington entrega uma performance avassaladora, equilibrando fúria e desespero nas medidas certas. Mas talvez com mais ousadia no roteiro e na direção um filme bom poderia ter se transformado em uma pequena obra-prima. A falta de coragem dos produtores talvez tenha sido o golpe fatal para suas intenções. Mesmo assim, é um dos grandes filmes da temporada 99.

O DOSSIÊ PELICANO

O DOSSIÊ PELICANO (The Pelican Brief, 1993, Warner Bros, 141min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Alan J. Pakula, romance de John Grisham. Fotografia: Stephen Golblatt. Montagem: Tom Rolf, Trudy Ship. Música: James Horner. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Lisa Fischer, Rick Simpson. Produção: Pieter Jan Brugge, Alan J. Pakula. Elenco: Julia Roberts, Denzel Washington, Sam Shepard, John Heard, Tony Goldwin, James B. Sikking, Stanley Tucci, Hume Cronyn, John Lithgow, Anthony Heald, Cynthia Nixon. Estreia: 17/12/93

Depois de tornar-se a maior estrela surgida em Hollywood no início da década de 90 - e ter sido indicada duas vezes consecutivas ao Oscar - Julia Roberts achou que era hora de dar uma parada: presente mais nas páginas de tabloides sensacionalistas (graças a seu casamento com Kiefer Sutherland desmarcado em cima da hora, seu romance com o ator Jason Patric e posteriormente seu casamento-surpresa com o cantor country Lyle Lovett) do que nos sets de filmagens, a linda mulher que havia encantado os homens e inspirado as mulheres de plateias do mundo inteiro tentava colocar ordem na vida pessoal. Questão resolvida, era hora, então, de voltar ao batente, e para isso nada melhor do que um papel escrito especialmente para ela por um autor em vias de tornar-se o nome mais quente da terra do cinema: John Grisham. Autor do best-seller que deu origem ao filme "A firma" (93), estrelado por Tom Cruise, Grisham criou a protagonista de seu livro seguinte, "O dossiê Pelicano" com Roberts como modelo - não foi preciso muito para que a atriz, lisonjeada, topasse o desafio de encarná-la em seu retorno às telas sem nem mesmo ler a adaptação do romance.

Especializado em uma literatura digestiva, fluente e de pegada fácil, Grisham conquistou milhares de leitores com seus protagonistas, invariavelmente advogados ou estudantes de Direito que se veem forçados a lidar com a ganância e a corrupção do meio em que se instruem. No caso de "O dossiê Pelicano" a bola da vez é Darby Shaw (Julia Roberts, linda e carismática como sempre), uma jovem estudante que, apesar de manter um romance secreto com Thomas Callahan (Sam Shepard) - seu professor e mentor - é dedicada e inteligente o bastante para, sozinha, encontrar o fio da meada de uma conspiração gigantesca (e que envolve membros da Casa Branca) na morte de dois juízes da Suprema Corte. O dossiê que ela escreve apontando os possíveis responsáveis - e que leva o nome de pelicano por causa da ave ameaçada de extinção graças à exploração criminosa de petróleo feita pelos culpados - acaba chegando ao FBI e, consequentemente, ela se vê perseguida e ameaçada de morte. Cercada de violência - que vitima seu amante e qualquer pessoa de quem ela se aproxima - ela recorre a Gray Grantham (Denzel Washington), repórter político em quem ela passa a confiar cegamente.


Acostumado a assinar filmes que tratam de conspirações - são dele "Todos os homens do presidente" (76) e "A trama" - o diretor Alan J. Pakula foi a escolha certa para conduzir "O dossiê Pelicano". Cineasta sóbrio e inteligente, ele consegue extrair sempre o melhor de seu elenco e escolher ângulos improváveis para suas cenas, sejam elas longos diálogos explanativos ou empolgantes correrias dentro de um estacionamento coberto. Mesmo que seu filme seja um tanto longo demais para os padrões comerciais hollywoodianos - quase duas horas e meia de pouca ação e muito papo - ele consegue manter o interesse da plateia graças à tensão construída pela trilha sonora adequada de James Horner, pela fotografia claustrofóbica de Stephen Goldblatt e principalmente pela química entre Julia e Denzel - que foi convencido pela atriz a tomar parte no projeto. É uma bênção, também, que não exista um interesse romântico entre os protagonistas - o que diminuiria o impacto da trama central - e que o final não apele para o clichê da luta corporal entre mocinhos e bandidos. Além disso, Pakula cria alguns momentos brilhantes - como a morte de um dos vilões em pleno parque de diversões e a tentativa de matar Gray e Darby em um carro armado com uma bomba - que amenizam o tom quase morno da narrativa.

Quem está acostumado aos thrillers americanos leva um choque ao assistir a "O dossiê Pelicano": o ritmo é mais lento, o desenvolvimento é menos atropelado e as reações dos personagens são mais críveis do que na maioria dos filmes do mainstream. Ao mesmo tempo que isso qualifica o filme de Pakula como um produto mais inteligente que a média, afasta a plateia que busca adrenalina e a catarse que normalmente acompanha o gênero. Pakula era um diretor elegante, que fugia da violência gratuita, e isso está claro em cada fotograma de seu filme. A história pode não empolgar, mas a qualidade da narrativa é impecável.

quinta-feira

UM GRITO DE LIBERDADE

UM GRITO DE LIBERDADE (Cry freedom, 1987, Universal Pictures, 157min) Direção: Richard Attenborough. Roteiro: John Briley, livros "Biko" e "Asking for trouble", de Donald Woods. Fotografia: Ronnie Taylor. Montagem: Lesley Walker. Música: George Fenton, Jonas Gwangwa. Figurino: John Mollo. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Michael Seirton. Produção: Richard Attenborough. Elenco: Kevin Kline, Denzel Washington, Kevin McNally, Penelope Wilton, Kate Hardie. Estreia: 05/11/87

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Trilha Sonora Original, Canção Original ("Cry freedom")

Uma das figuras mais importantes na luta anti-Apartheid na África do Sul nos anos 70, Steve Biko pode não ser tão reconhecido internacionalmente como Nelson Mandela, mas seu legado, centrado principalmente na fundação do Movimento da Consciência Negra é incontestável, o que fez com que o cineasta Richard Attenborough o escolhesse como tema de um de seus filmes mais extraordinários, "Um grito de liberdade". Baseado em dois livros escritos pelo jornalista sul-africano Donald Woods sobre o assunto, o roteiro de John Briley escolhe como foco de sua narrativa não a vida do militante - interpretado com a garra de sempre por um Denzel Washington indicado ao Oscar de coadjuvante - mas sim a sua relação com Woods, editor do Daily Dispatch, importante jornal do país, que tem sua visão imparcial sobre a situação política transformada a partir de seu contato com a realidade da população negra. Politicamente impactante e bem interpretado, o filme de Attenborough só peca em estender demais sua história - ainda que nunca chegue a perder o ritmo de urgência que imprime desde seus primeiros minutos.

Ao optar por dar a protagonização de sua história a Donald Woods - branco, bem-sucedido, protegido pelas leis criadas por pessoas como ele - e não a Steve Biko (em tese a gênese da produção), o roteiro de Briley acerta duplamente. Primeiro, por fazer com que o público vá descobrindo, junto com o jornalista (interpretado com maestria por Kevin Kline), toda a extensão do problema do racismo endêmico da África do Sul pelos olhos de quem o sofre: antes de seu contato com Biko, Woods apenas o considerava um racista ao contrário, que defendia a violência com as mesmas armas de seus antagonistas. Quando finalmente as coisas ficam claras para ele - e consequentemente para a plateia - vem o primeiro choque, que não convém revelar, mas que dará o empurrão para a segunda parte do filme. Revoltado e agora consciente das barbaridades do regime, caberá ao jornalista bradar a verdade ao mundo, mesmo que isso signifique o fim de sua pacífica vida familiar e profissional.


Não é à toa que o cineasta grego Costa-Gavras - sempre inclinado a assinar produções de forte cunho político - tinha intenção de filmar a história de Steve Biko: a segunda metade do filme de Attenborough se mostra um thriller político de primeira linha, com direito a sequências de suspense, planos mirabolantes e um final arrepiante, que encena um dos mais inexplicáveis (se é que algum é) massacres ocorridos no país durante o período retratado na trama. Nessa segunda parte da narrativa, Woods - banido pelo governo e impedido de sair de casa ou comunicar-se com quem quer que seja exceto membros de sua família - resolve atravessar um manuscrito onde descreve todos os absurdos que testemunhou (assim como as ostensivas mentiras contadas pelo governo a respeito da morte de dezenas de ativistas negros) e lançá-lo em forma de livro. Attenborough comanda esses momentos com segurança, deixando o público aflito, torcendo por um final que, apesar de já ser conhecido, parece nunca chegar. É aí que entra também a importância da trilha sonora - indicada ao Oscar - e do trabalho de Kevin Kline, que conquista a simpatia da audiência como uma espécie de super-herói, disposto a melhorar um mundo apesar de suas consequências.

"Um grito de liberdade" é um filme político sem o ranço de um filme político. É, mais do que isso, um filme sobre pessoas, sobre seres humanos, sobre o desejo inquebrantável de um povo por sua liberdade, por seus direitos inatos. É também uma aula de história ilustrada com momentos de tensão, emoção e esperança, além de um filme como Attenborough nunca mais conseguiu fazer - talvez nem mesmo o anterior "Gandhi" (82), apesar dos Oscar e do frisson na ocasião de sua estreia, seja tão bom do ponto de vista narrativo. E é, finalmente, um filme que precisa ser revisto sempre, como lembrança das atrocidades de que o homem é capaz de fazer a outro.

quarta-feira

SOB O DOMÍNIO DO MAL

SOB O DOMÍNIO DO MAL (The Manchurian candidate, 2004, Paramount Pictures, 129min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Daniel Pyne, Dean Georgaris, roteiro de George Axelrod, romance de Richard Condon. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Carol Littleton, Laura Rosenthal. Música: Rachel Portman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Scott Aversano. Produção: Jonathan Demme, Ilona Herzberg, Scott Rudin, Tina Sinatra. Elenco: Denzel Washington, Meryl Streep, Liev Schrieber, Jon Voight, Jeffrey Wright, Ted Levine, Miguel Ferrer, Vera Farmiga, Kimberly Elise, Zeljko Ivanek. Estreia: 22/7/04

A palavra "remake" tem o poder de causar arrepios nos cinéfilos, escaldados com aberrações como o desnecessário "Psicose" que Gus Van Sant cometeu em 1998 e outras atrocidades que volta e meia assombram clássicos absolutos da sétima arte. Nem mesmo nomes consagrados como Jonathan Demme - vencedor do Oscar pelo sublime "O silêncio dos inocentes" - conseguiram sair ilesos pela prova de tentar renovar histórias pré-aprovadas pela audiência, como demonstrou no terrível "O segredo de Charlie", estrelado por Mark Wahlberg e Charlize Theron em 2002, releitura de "Charada". Mas como em Hollywood nada é definitivo, Demme voltou a buscar inspiração no passado quando aceitou comandar a refilmagem de "Sob o domínio do mal", filmaço de 1962 dirigido por John Frankenheimer e estrelado por Frank Sinatra e Angela Lansbury. Percebendo na trama criada pelo romancista Richard Condon um reflexo ainda bastante atual da paranoia política - em especial pós-11 de setembro - Demme atualizou a história de forma inteligente, escalou um elenco impecável e criou um filme que, se não marcou época como seu original, ao menos tem o mérito de manter o interesse do espectador até o final com um tom opressivo e de suspense que raros cineastas conseguem atingir.

Enquanto no filme original - que Frankenheimer dirigiu no mesmo ano em que também lançou "O anjo violento", com Warren Beatty e "O homem de Alcatraz", com Burt Lancaster - a trama se apoiava no período posterior à Guerra da Coreia, a releitura de Demme tem como ponto de partida a Guerra do Golfo, de onde emerge o Sargento Raymond Shaw (Liev Schreiber, ótimo), que, assumindo o comando de seu pelotão depois de seu superior ter sido posto fora de combate, conseguiu salvar seus colegas soldados. Condecorado como herói de guerra, Shaw inicia uma promissora carreira política, seguindo os passos de seu falecido pai e de sua mãe, a ambiciosa senadora Eleanor Prentiss Shaw (Meryl Streep, estupenda como sempre). Adorado pelo público, ele é nomeado candidato à vice-presidente, substituindo o experiente Thomas Jordan (Jon Voight), pai de uma antiga namorada, com quem rompeu devido a maquinações de sua mãe. Porém, justamente quando começa sua escalada rumo à Casa Branca, Shaw passa a ser assediado por seu antigo superior, Tenente Ben Marco (Denzel Washington), que, torturado por pesadelos constantes, procura saber, através de Shaw ou qualquer outra pessoa ligada a seu período militar, o que realmente aconteceu durante os dias em que sua equipe esteve desaparecida.


Revelando aos poucos o horror da tramoia política que envolve Marco e Shaw - que tem ligações com empresas de tecnologia médica e a sede pelo poder no governo americano - Demme conta com uma edição que equilibra com inteligência momentos de pura claustrofobia e paranoia com cenas que demonstram de maneira quase cínica os meandros da política ianque (e por que não, mundial?). O público descobre junto com Marco - em atuação excepcional de Denzel Washington - toda a enorme teia de violência e interesses financeiros por trás de uma aparente trama de simples ambição. A partir do momento em que um colega de guerra (interpretado por um Jeffrey Wright assustador) chega até Marco e questiona suas lembranças, a audiência é mergulhada em um turbilhão de informações que podem ou não ser reais, em histórias que podem ou não ter acontecido, de pessoas que podem ou não ser dignas de confiança. É aí que o cineasta - que assombrou o mundo com seu Hannibal Lecter - mostra seu diferencial, contando sua história com sutileza visual, onde a iluminação e os enquadramentos dizem mais do que páginas de diálogo. Basta reparar na forma como Shaw e Marco, por exemplo, se comportam diante de forças que não podem controlar: uma pequena mudança de semblante, uma luz diferente e pronto... o suspense está instaurado!

Co-produzido por Tina Sinatra - que detinha os direitos do filme, herdados de Frank - "Sob o domínio do mal" tem também como destaque mais uma atuação irrepreensível de Meryl Streep, nitidamente se divertindo na pele da velha raposa política Eleanor Shaw, que deu a Angela Lansbury uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante de 1962. Elegante e fria, Streep cria uma dupla afinadíssima com Liev Schrieber, um ator subestimado que mostrou-se à altura de substituir Laurence Harvey e entrar em embates com a própria Streep e Denzel Washington, dois monstros sagrados do cinema americano. São os atores excelentes, somados à direção segura de Demme e à história perigosamente realista de Condon que fazem com que a nova versão de "Sob o domínio do mal" seja, mais do que uma refilmagem, um produto que resiste bravamente às comparações.

terça-feira

O GÂNGSTER


O GÂNGSTER (American gangster, 2007, Universal Pictures, 157min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Steven Zaillian, artigo "The return of Superfly", de Mark Jacobson. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Pietro Scalia. Música: Marc Streitenfield. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Leslie Rollins, Beth A. Rubino. Produção executiva: Michael Costigan, Branko Lustig, Nicholas Pileggi, Jim Whitaker, Steven Zaillian. Produção: Brian Grazer, Ridley Scott. Elenco: Denzel Washington, Russell Crowe, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Ruby Dee, Ted Levine, Carla Cugino, Cuba Gooding Jr., Armand Assante. Estreia: 19/10/07

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Ruby Dee), Direção de Arte/Cenários

Ridley Scott é um injustiçado da Academia. Nem mesmo quando um filme seu ganha o Oscar principal - caso de "Gladiador", vencedor de 2001 - ele consegue ser reconhecido como o grande cineasta que é. Autor de filmes essenciais do cinema americano dos anos 70 - "Alien, o oitavo passageiro"- dos 80 - "Blade Runner, o caçador de andróides" - e dos 90 - "Thelma & Louise", o inglês nunca conseguiu passar de indicações à estatueta e, em alguns casos, nem chegou a ela. Um ótimo exemplo disso é o sensacional "O gângster", que passou incólume nas cerimônias de premiação que incensaram o bobinho "Juno". Baseado na história real de um dos maiores traficantes de droga dos EUA na década de 70, o filme de Scott é uma prova inconteste de seu talento como contador de histórias - e que até faz com que ele seja perdoado por atentados como "Hannibal" e "Cruzada".

Terceira parceria de Scott com o ator Russell Crowe - depois do já citado "Gladiador" e do chatinho "Um bom ano" - "O gângster" é, ao contrário do que seu título e sua trama podem sugerir, um drama policial bem construído e tratado com o máximo de cuidado que uma superprodução de 100 milhões de dólares pode oferecer. Sem abusar da violência física e preferindo deter-se na trajetória de seu protagonista e nas consequências de seus atos - junto à sua família e as forças policiais que lhe caçavam - o roteiro preciso de Steven Zaillian conta sua história sem a pressa habitual dos filmes do gênero. Demora um bom tempo de projeção até que Frank Lucas (Denzel Washington) finalmente fique cara a cara com Richie Roberts (Russell Crowe), seu nêmesis, mas nem por isso o ritmo chega a incomodar, por um motivo muito simples: tanto Zaillian quanto Scott sabem o que querem dizer, e conhecem a importância da história que estão contando e o fazem com maestria.


Frank Lucas, o protagonista vivido sem maiores novidades por Denzel Washington, não é exatamente uma personagem que possa ser considerada heroica, mas isso não impede ao filme que o retrate sem julgamentos morais. Protegido do respeitado Bumpy Johnson (Clarence Williams III), gângster que reinava no Harlem, Lucas descobre, após a morte de seu mentor, uma forma de traficar heroína para dentro dos EUA, vinda do Vietnã: dentro dos caixões dos soldados mortos. Enquanto faz fortuna, desafia o corrupto detetive Trupto (um grande Josh Brolin) e desperta a atenção de Richie Roberts (em atuação contida de Crowe), um policial visto com maus olhos pelos colegas por causa de sua fama de incorruptível. Dedicado, Roberts passa a caçar Lucas, com quem mantém uma relação de respeitável admiração.

Apesar de sua longa duração (a versão do diretor chega a quase três horas), "O gângster" não tem ambições de tornar-se um épico anabolizado. Ridley Scott movimenta sua câmera sem intrometer-se na história, sendo apenas uma espetacular testemunha do duelo entre duas personagens carismáticas e extremamente interessantes - mas que nem mesmo assim deixa de lado coadjuvantes fantásticos. Josh Brolin começa aqui sua escalada rumo ao respeito profissional - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante por "Milk" no ano seguinte - e poderia tranquilamente ter sido lembrado pela Academia, que por uma razão inexplicável só lembrou-se de Ruby Dee como atriz coadjuvante por seu trabalho nada marcante como a mãe de Frank Lucas. E é imprescindível elogiar também a edição fantástica do experiente Pietro Scalia e a direção de arte impecável, que retrata com exatidão o ambiente onde se passa a história, elementos que completam mais uma obra-prima do cineasta.

"O gângster" é um filmaço de primeira que merece ser descoberto. É, sem dúvida, um dos melhores trabalhos de Ridley Scott. E vindo de um cara com o seu currículo isso não é pouca coisa.

sábado

CORAGEM SOB FOGO

CORAGEM SOB FOGO (Courage under fire, 1996, Fox 2000 Pictures, 117min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Patrick Sheane Duncan. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Steven Rosenlblum. Música: James Horner. Figurino: Francine Jamison-Tanchuck. Direção de arte/cenários: John Graysmark/Rick Gentz. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, Debra Martin Chase. Produção: John Davis, David T. Friendly, Joseph M. Singer. Elenco: Denzel Washington, Meg Ryan, Lou Diamond Phillips, Michael Moriarty, Matt Damon, Zeljko Ivanek, Sean Astin, Sean Patrick Thomas. Estreia: 12/7/96

O primeiro filme de um grande estúdio hollywoodiano a respeito do conflito do Iraque não foi uma obra exatamente do gênero que todos poderiam esperar. Ao contrário de um convencional filme de guerra, "Coragem sob fogo", dirigido pelo competente Edward Zwick, é um drama sobre pessoas, acima de qualquer outra coisa. Mesmo contando com algumas sequências que retratam com bastante fidelidade as batalhas travadas entre americanos e iraquianos, o cerne do roteiro de Patrick Sheane Duncan - autor do script de "Mr. Holland, adorável professor" - é a dificulade do Tenente Nat Serling (Denzel Washington) em lidar com uma tragédia ocorrida em combate ao mesmo tempo que investiga a verdade sobre a morte da primeira oficial norte-americana cotada para uma Medalha de Honra do exército.

Seguindo a estrutura do clássico "Rashomon", de Akira Kurosawa, "Coragem sob fogo" começa quando o Tenente Serling, por engano, vitima alguns colegas durante uma batalha no deserto. Extremamente abalado pelo trágico acontecimento, ele recebe a missão de apurar as circunstâncias da morte de Karen Walden (Meg Ryan), uma capitã que morreu depois de ter salvo a vida de soldados ameaçados pelos inimigos. Indicada para receber a maior homenagem do exército americano, ela torna-se objeto de uma dedicada investigação por parte do oficial em crise de consciência. Serling acaba se vendo diante de subordinados de Walden contando histórias diferentes da morte de sua líder: enquanto o jovem Ilario (Matt Damon, quase vinte quilos mais magro do que o normal) a considera uma mulher corajosa e heróica, o rebelde Monfriez (Lou Diamond Phillips, de "La Bamba") a vê como uma covarde que arriscou a vida de seu pelotão. Cabe a Sterling definir o que é verdade e o que não é.



"Coragem sob fogo" estreou nos EUA cercado de muita expectativa e um burburinho que o classificava como o primeiro filme do ano "com cara de Oscar". No entanto, fazendo um sucesso apenas relativo nas bilheterias, acabou sendo ignorado em todas as cerimônias importantes. Antes que seja taxado de injustiçado, porém, é preciso que se tenha a frieza de perceber que, apesar dos talentos envolvidos e do tema momentoso, é um filme que fica longe de ser tão empolgante quanto promete. Longe de ser ruim - tem qualidades gritantes, tanto técnica quanto artisticamente - também não consegue impressionar sua audiência, ao contrário do filme anterior do cineasta, o dramaticamente superior "Lendas da paixão".

Talvez o maior problema no roteiro de "Coragem sob fogo" seja a decisão de contar duas histórias simultaneamente. Provavelmente para não deixar que Denzel Washington fosse apenas um coadjuvante da trama bem mais interessante que cerca a morte de Karen Walden, inventaram para sua personagem uma tragédia inicial que pouco acrescenta ao resultado final. Já iniciando sua fase de ser mais Denzel Washington do que qualquer personagem, o oscarizado ator mesmo assim tem pouco a fazer, sendo eclipsado pelo elenco coadjuvante. Se Matt Damon pouco foi percebido pela crítica por seu belo trabalho - mas não por Francis Ford Coppola, que o escalou para "O homem que fazia chover" - toda a mídia não se furtou a tecer loas encantadas com a atuação de Lou Diamond Phillips, como o quase psicótico soldado Monfriez. Os elogios a Phillips não foram exagerados: sua interpretação é forte, com uma potência dramática que se avoluma a cada cena, até explodir em uma climática sequência que esclarece todas as dúvidas - tanto do Tenente Serling quanto da audiência.

Mas é inegável que o grande diferencial de "Coragem sob fogo" - além de ter inaugurado o filão de filmes sobre o Iraque - é a escalação de Meg Ryan para o papel crucial da Capitã Karen Walden. Conhecida do grande público por seus papéis de mocinha em comédias românticas como "Sintonia de amor", Ryan tentou uma guinada na carreira, na pele de uma complexa líder militar. Não apenas por ser uma soldada - com toda a preparação física que o papel exige - Karen Walden proporcionou a ela a chance de mostrar todas as nuances de seu trabalho. Nem sempre ela consegue, mas é bem sucedida ao fazer com que todos esqueçam que ela é a mesma atriz responsável pelo orgasmo falso mais conhecida da história do cinema, em "Harry & Sally, feitos um para o outro". Esforçada, ela não tem culpa se o roteiro não explora a contento todas as probabilidades que poderia.

Fotografado com maestria por Roger Deakins - um dos melhores profissionais em sua área - e editado com competência ímpar (além de utilizar os efeitos de som com inteligência), "Coragem sob fogo" é um filme que prende a atenção do espectador até seus momentos finais, podendo até mesmo surpreendê-lo com suas viradas. Não é um petardo como "O resgate do soldado Ryan", por exemplo, mas é um filme que reitera o talento de Edward Zwick em transitar entre diversos gêneros sem nunca perder a elegância.

sexta-feira

FILADÉLFIA

FILADÉLFIA (Philadelphia, 1993, TriStar Pictures, 125min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ron Nyswaner. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Carig McKay. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Ron Bozman, Gary Goetzman, Kenneth Utt. Produção: Jonathan Demme, Edward Saxon. Elenco: Tom Hanks, Denzel Washington, Jason Robards, Mary Steenburgen, Antonio Banderas, Bradley Whitford, Joanne Woodward. Estreia: 23/12/93

5 indicações ao Oscar: Ator (Tom Hanks), Roteiro Original, Canção Original ("Streets of Philadelphia", "Philadelphia"), Maquiagem
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Tom Hanks), Canção Original ("Streets of Philadelphia")
Vencedor do Urso de Ouro de Melhor Ator (Tom Hanks) no Festival de Berlim
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Tom Hanks), Canção Original ("Streets of Philadelphia")

Em 1993, Tom Hanks ainda não era levado muito a sério como ator dramático. Ser o primeiro nome nos créditos de filmes como "Quero ser grande" e "A última festa de solteiro" não lhe ajudavam muito nesse sentido - ainda que tenha sido indicado ao Oscar pelo primeiro. Suas tentativas de provar que seu talento iam além de provocar risadas não tinham obtido muito sucesso, como bem prova a equivocada versão cinematográfica de "A fogueira das vaidades", dirigido por Brian De Palma. Por essa razão não deixou de ser uma enorme surpresa para o público que ele tenha sido o ator mais premiado do ano por seu papel em "Filadélfia". Na pele de um advogado soropositivo que vai aos tribunais contra seus ex-empregadores, o simpático protagonista de "Sintonia de amor" e "Splash, uma sereia em minha vida" deu a virada definitiva em sua carreira, entrando pela porta da frente no rol dos atores respeitados pela crítica e por seus pares.

Levemente inspirado em uma história real, "Filadélfia" é dirigido por Jonathan Demme, cineasta que havia arrumado sérios problemas com a comunidade gay com seu filme anterior, o multi-premiado "O silêncio dos inocentes" - vale lembrar que o serial killer do filme tinha a frustração de não ter conseguido uma operação de mudança de sexo... Inconscientemente ou não, aqui ele tenta remediar a situação, elegendo como protagonista um homossexual bem-sucedido, inteligente e de boa formação familiar. Mesmo que tenha soado um tanto assépticas, as escolhas de Demme ao retratar o modo de vida gay serviu, ao menos, para aproximar das salas de cinema uma parcela do público que provavelmente jamais se interessaria por um assunto não exatamente festivo. Espertamente, o roteiro de Ron Nyswaner - indicado ao Oscar - une dois sub-gêneros de filmes bastante populares entre as audiências; um drama de tribunal junto com um filme sobre doenças terminais. Golpe de mestre para cativar o público e abocanhar prêmios. Sorte de todo mundo que Demme é um diretor talentoso, que foge do melodrama barato.



Andrew Beckett (Tom Hanks se saindo muito bem em um papel difícil e que poderia facilmente escorregar para o kitsch) é um advogado competente que, logo depois de tornar-se sócio da firma de direito em que trabalha, é demitido por alegada negligência em um caso importante. Julgando-se vítima de preconceito - por ser homossexual e portador de AIDS - ele procura um colega de profissão, Joe Miller (Denzel Washington) e lhe pede que o represente no tribunal contra seus antigos patrões. A princípio recusando a causa - por ser assumidamente ignorante em relação aos gays, quase um homofóbico - Miller acaba aceitando processar a tradicional firma.

"Filadélfia", a bem da verdade, não dispensa o uso de vários clichês que assolam os filmes de seus estilos - tanto um quanto o outro. No tribunal, o desenrolar do julgamento é tão interessante quanto as cenas que revelam o lado mais humano dos protagonistas - é quase impossível segurar as lágrimas durante a belíssima sequência ao som de "La Mamma Morta", ária interpretadapor Maria Callas. Não apenas a entrega de Hanks à cena é admirável mas também seu desfecho, onde pela primeira vez Joe Miller demonstra a fragilidade que sempre escondera. Aliás, é seguro dizer que "Filadélfia" apresenta o melhor trabalho da carreira de Washington, antes que ele se tornasse uma cópia de si mesmo. A cena em que ele tem seu primeiro contato com um Beckett doente é um primor de sutileza - bem como a demissão de Andrew, em que ele fica à distância de seus empregadores temerosos de um contágio. A agressividade silenciosa dessa cena dá o tom exato da elegância imposta por Demme a seu trabalho.

Motivos para críticas à visão dos produtores não faltam, em "Filadélfia": o parceiro de Andrew, Miguel (Antonio Banderas) poderia ser taxado de mais uma estereotipagem dos latinos nos EUA; a aceitação incondicional de sua família à sua opção sexual e a resiliência da mesma durante o julgamento soa um tanto cor-de-rosa; e a relação entre os dois amantes é praticamente desprovida de calor. Mas é preciso que se leve em consideração que "Filadélfia" é antes de tudo o produto de um grande estúdio (a TriStar) e, mais do que veracidade absoluta, buscava lucro e precisava atingir um grande público. E fazer com que milhares de pessoas voltasse sua atenção para um dos maiores problemas de saúde da história - ainda que uma década atrasada - já faz com que ele mereça ser admirado.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...