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quarta-feira

QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?

QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF? (Who's afraid of Virginia Woolf?, 1966, Warner Bros, 131min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Ernest Lehman, peça teatral de Edward Albee. Fotografia: Haskel Wexler. Montagem: Sam O'Steen. Música: Alex North. Figurino: Irene Sharaff. Direção de Arte/Cenários: Richard Sylbert/George James Hopkins. Produção: Ernest Lehman. Elenco: Elizabeth Taylor, Richard Burton, George Segal, Sandy Dennis. Estreia: 21/6/66

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mike Nichols), Ator (Richard Burton), Atriz (Elizabeth Taylor), Ator Coadjuvante (George Segal), Atriz Coadjuvante (Sandy Dennis), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem,Trilha Sonora Original, Figurino em P&B, Direção em Arte/Cenários em P&B, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Atriz (Elizabeth Taylor), Atriz Coadjuvante (Sandy Dennis), Fotografia em P&B, Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B

Quando se diz que um filme arrebatou 13 indicações ao Oscar a primeira imagem que vem à cabeça é de uma superprodução épica, ao estilo "Lawrence da Arábia" e "...E o vento levou", com centenas de figurantes, efeitos visuais revolucionários e histórias maiores que a vida. Uma prova da falácia desse pensamento é "Quem tem medo de Virginia Woolf?", adaptação da peça teatral de Edward Albee que chegou à cerimônia de entrega do Oscar aos melhores de 1966 cheio de moral e repleto de possibilidades de vitória. Intimista e preocupado exclusivamente com a psicologia dos personagens, o filme de estreia de Mike Nichols quebrou paradigmas sociais e até mesmo de classificação etária junto ao público norte-americano: foi ele quem inaugurou o que posteriormente o selo NC-17, que estipula que menores de 17 anos só podem entrar nas salas de exibição acompanhados de um responsável.

Exagero? Talvez hoje em dia, estando o público acostumado com uma dieta de produções onde a vulgaridade é moeda corrente. Em 1966, porém, a história era bem outra. Ainda sofrendo com as restrições temáticas impostas pelo famigerado Código Hayes, o cinema americano raramente tratava de assuntos considerados tabus, como adultério - principalmente quando o tema era tratado de forma tão rude e agressiva quanto no texto de Albee, que usa e abusa de termos chulos e apresenta como protagonistas um casal de meia-idade a anos-luz de distância do que se convencionava no cinemão de então. Interpretados pelo então casal de verdade Elizabeth Taylor e Richard Burton em seu quarto trabalho juntos, Martha e George são assustadoramente reais e o retrato mais chocante de uma relação doentia.


Depois de uma reunião social em um sábado à noite, o casal Martha e George recebe, em sua casa, os jovens Nick (George Segal em papel recusado por Robert Redford) e Honey (Sandy Dennis). Nick é um ambicioso professor de Biologia por quem Martha nutre uma forte atração e aos poucos começa a perceber que seus anfitriões tem uma maneira muito particular de convivência: professor de História na universidade onde o pai de Martha é reitor, George mantém com ela uma relação que alterna momentos de enfado com outros de extrema agressividade verbal. Conforme a noite avança e todos vão ficando mais e mais calibrados de álcool, acusações de todos os lados começam a surgir, acompanhadas de ressentimentos e revelações vexaminosas. Quando o filho adolescente do casal torna-se o assunto, então, a truculência atinge seu mais alto grau.

É preciso paciência com "Quem tem medo de Virginia Woolf?". Centrado quase que unicamente nos diálogos fortes e cadenciados de Edward Albee, o filme de Nichols tem um ritmo próprio, intercalando momentos de alta combustão com cenas mais tranquilas, fotografadas em exuberante preto-e-branco por Haskel Wexler que exploram a melancolia de seus personagens. O texto da peça - seguido à risca pelo cineasta, que creditou Ernest Lehman como roteirista mas não utilizou sua adaptação - é a força motriz do filme, fato que não passou incólume a seus intérpretes, que dão corpo e alma em suas atuações. Enquanto Burton está em seu melhor momento da carreira e George Segal constrói seu Nick com a sutileza apropriada, porém, Sandy Dennis força a caricatura com sua Honey, que frequentemente parece carregar nas tintas - não deixa de ser irônico que Dennis tenha levado o Oscar de coadjuvante, enquanto os intérpretes masculinos tenham ficado apenas com indicações.

Mas, se "Virginia Woolf" tem uma cara, ela é Elizabeth Taylor. Mais gorda que o habitual e desprovida da vaidade que a marcaram como uma das mais belas atrizes de Hollywood, ela calou de vez a boca dos detratores - que debitaram seu Oscar por "Disque Butterfiel 8" a seus problemas de saúde - com uma atuação fabulosa como a amarga e bêbada Martha, que não hesita em trair o marido diante de seus olhos e tem como combustível a virulência e a crueldade verbal. Merecedora vencedora do Oscar de melhor atriz Taylor - que recebeu mais de 1 milhão de dólares por seu trabalho - mostrou que, por trás de todas as polêmicas que cercavam sua vida pessoal, ela era uma atriz de primeira grandeza.

terça-feira

CLEÓPATRA

CLEOPATRA (Cleopatra, 1963, 20th Century Fox, 192min) Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Joseph L. Mankiewicz, Ranald MacDougall, Sidney Buchman, livro "The life and times of Cleopatra", de C.M. Franzero, estórias de Plutarco, Suetônio e Appian. Fotografia: Leon Shamroy. Montagem: Dorothy Spencer. Música: Alex North. Figurino: Vittorio Nino Novarese, Renié. Direção de arte/cenários: John De Cuir/Paul S. Fox, Ray Moyer, Walter M. Scott. Produção: Walter Wanger. Elenco: Elizabeth Taylor, Richard Burton, Rex Harrison, Hume Cronyn, Cesare Danova, Martin Landau, Roddy McDowall. Estreia: 12/6/63

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Rex Harrison), Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Fotografia em Cores, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais

Para se falar sobre "Cleopatra", o filme estrelado por Elizabeth Taylor é imprescindível que se afogue em números: 129.800 dólares somente para o figurino de Taylor, que troca de roupa 65 vezes durante a projeção; 44 milhões de dólares de orçamento (em números atuais cerca de 300); salário de 1 milhão de dólares para sua estrela (que, atualizados, chegam a 30 milhões); dez pessoas premiadas com o Oscar de direção de arte; 79 cenários construídos; 26.000 figurinos criados; quase três anos de filmagens; seis horas em sua primeira montagem. A superprodução que quase levou a 20th Century-Fox à falência é hoje mais lembrada por suas fofocas de bastidores do que exatamente pelo filme que é. Culpa dos excessos de todos os tipos que circundaram suas filmagens, desde o estouro do orçamento até as crises pessoais de seus intérpretes (Taylor entrou em coma depois de uma cirurgia durante as filmagens, além de ter se envolvido com seu co-astro Richard Burton). No entanto, apesar de todos os problemas, "Cleopatra" foi um dos maiores sucessos de bilheteria dos anos 60 e, se jogou seu estúdio na mais grave crise de sua história - da qual só saiu em 1965 com o êxito de "A noviça rebelde" - é porque seu orçamento extrapolou as mais ambiciosas previsões.

Tudo começou no final dos anos 50, quando a Fox, já em problemas financeiros, resolveu refilmar algum de seus êxitos mais antigos como forma de economia. O filme escolhido - "Cleopatra" - era o remake de um clássico de 1917 estrelado por Theda Bara. A ideia inicial era fazer do filme um veículo para a atriz Joan Collins, com um custo de 2 milhões de dólares, mas a saída de Collins do projeto, devido a adiamentos frequentes da produção, mudou tudo. Quando Elizabeth Taylor finalmente entrou no barco, a coisa começou a sair do controle: com um cachê de 1 milhão de dólares, a atriz tornou-se imediatamente a mais bem paga estrela de Hollywood. Para piorar - ou melhorar, dependendo do ponto de vista - ela voltou a encontrar-se com Richard Burton, com quem não havia simpatizado em uma primeira ocasião. Dessa vez, Burton, que viveria Marco Antonio, a segunda paixão da rainha do Egito, foi visto com mais simpatia por Taylor, com quem iniciou um tórrido romance que alterou até mesmo a ideia central do diretor Joseph L. Mankiewicz quanto ao lançamento do filme.


Mankiewicz - o mesmo cineasta que levou uma cusparada da indignada Katharine Hepburn ao final das filmagens de "De repente, no último verão" - chegou às filmagens de "Cleopatra" depois que o primeiro diretor, Rouben Mamoulian, abandonou o projeto. Quando assumiu as rédeas do filme, Mankiewicz tinha nas mãos um produto 5 milhões acima do orçamento inicial e nenhuma cena pronta. Teve, então, a ideia de fazer dois filmes com três horas de duração cada: "Cesar e Cleopatra" e "Antonio e Cleopatra". A princípio aceita, a ideia logo foi descartada por Darryl F. Zanuck, presidente do estúdio, que, querendo capitalizar em cima do notório romance entre Taylor e Burton, previu que a primeira metade - que tratava da relação entre Cleopatra e Julio Cesar (Rex Harrison) - seria um fracasso de público, uma vez que as atenções já estavam voltadas para o relacionamento entre dois de seus atores principais - que iniciariam ali um romance polêmico e cheio de idas e vindas. Rumores dizem, porém, que duas horas inéditas de filme ainda existem em algum lugar - e os fãs mal podem esperar para assistí-las.

Mas, afinal de contas, "Cleopatra" é um bom filme? Logicamente é uma produção caprichada, bem cuidada e visualmente impressionante, especialmente se for levado em consideração o fato de que é um produto pré-CGI. Porém, em sua ambição de ser esteticamente inesquecível, acaba deixando de lado o roteiro e concentrando-se no visual. Seu roteiro é repleto de cenas dispensáveis, que prejudicam fatalmente o ritmo. Sempre que Taylor - deslumbrante - e Burton estão em cena o filme cresce, mas enquanto isso não acontece, a audiência sofre com longuíssimos discursos sobre política e geografia que, ao invés de ajudar a compreender a história, apenas confundem. Fosse menos megalomaníaco e mais pessoal certamente teria maior sucesso em conquistar a simpatia do espectador, que, apesar disso, pode encantar-se com a opulência do resultado final. Como está, é um filmão - no sentido literal - mas um tanto oco e aborrecido. Vale por Liz Taylor no auge da beleza e sensualidade.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...