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quarta-feira

O PLANO PERFEITO


O PLANO PERFEITO (Inside man, 2006, Universal Pictures, 129min) Direção: Spike Lee. Roteiro: Russell Gewirtz. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Donna Berwick. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Geore DeTitta Jr.. Produção executiva: Karen Kehela Sherwood, Jon Kilik, Daniel M. Rosenberg, Kim Roth, Christian Stibbe. Produção: Brian Grazer. Elenco: Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Willem Dafoe, Christopher Plummer, Chiwetel Ejiofor. Estreia: 20/3/2006

Um dos filmes mais populares da carreira de Spike Lee, "O plano perfeito" é, também, um de seus projetos menos pessoais. Assumindo o comando da produção depois da saída do diretor original - Ron Howard abandonou o barco para realizar "A luta pela esperança", com Russell Crowe -, Lee deixou de lado a maioria de suas marcas registradas para assinar uma obra inserida em um subgênero de grande tradição cinematográfica - os filmes de roubo  - e que, com um elenco de nomes conhecidos, não teve dificuldade em encontrar seu público. Com uma renda de mais de 180 milhões de dólares e elogios da maior parte da crítica, o 17º longa-metragem de Lee abraça todas as convenções do estilo e só não se tornou uma pequena obra-prima devido ao roteiro um tanto confuso de Russell Gerwitz, que insiste em reviravoltas por vezes desnecessárias e no desenvolvimento raso de seus personagens - nenhum deles carismático o bastante para despertar a torcida do espectador.

O filme começa com um monólogo de Dalton Russell (Clive Owen), explicando como aconteceu o roubo a banco no qual ele tomou parte. Em um flashback, o público é então jogado ao momento em que Dalton e seus cúmplices entram em uma agência do Manhattan Trust Bank de Nova York. Mascarados e armados, eles dão início à ação criminosa, tomando funcionários e clientes como reféns. Quem é chamado para comandar a resposta ao assalto é o detetive Keith Frazier (Denzel Washington), que não demora a chegar ao local com o parceiro, Bill Mitchell (Chiwetel Ejiofor) e unir-se a outro líder da polícia, o Capitão John Darius (Willem Dafoe). Sem saber ao certo quantas pessoas estão mantidas dentro do banco - e nem ao menos com quantos criminosos estão lidando - Frazier e seus colegas começam a dialogar com Russell, que aparenta não ter a menor pressa em concluir seu roubo e faz exigências surpreendentes para liberar os prisioneiros. A situação fica ainda mais complexa quando entra em cena Madeline White (Jodie Foster), contratada pelo dono do banco, Arthur Case (Christopher Plummer), para impedir que um cofre secreto seja descoberto e tenha seu conteúdo exposto.


 

Dirigindo com inteligência mas sem os rasgos de ironia e fúria de seus trabalhos mais conhecidos, Spike Lee faz de "O plano perfeito" um filme correto mas nunca brilhante. Tudo está em seu devido lugar: a trilha sonora de Terence Blanchard (uma das poucas marcas registradas do cineasta), o elenco acima de qualquer crítica (mais uma colaboração entre Lee e Denzel Washington), a fotografia elegante de Matthew Libatique (que seria indicado ao Oscar alguns anos depois, por "Cisne negro"), que substitui as cores quentes por uma paleta mais sóbria e claustrofóbica. Porém, apesar de suas inúmeras qualidades - devidamente louvadas pela crítica -, o filme falha em conectar-se emocionalmente com o espectador. A opção do roteiro em não aprofundar seus personagens e, com uma pequena exceção ao Keith Frazier vivido por Denzel, não fornecer informações de seu passado ou suas motivações, pode até ser interessante - focar no momento da ação tem prós e contras em uma narrativa -, mas impede o espectador de realmente se importar com os desdobramentos além do que está no centro da trama.  O excesso de questões a serem resolvidas também atrapalha - o que Arthur Case está escondendo em seu cofre pessoal? Por que Dalton Russell escolheu justamente o Manhattan Trust Bank? Quem dentre as pessoas interrogadas por Frazier é cúmplice no assalto? O exagero de perguntas (nem todas respondidas a contento) é o calcanhar de Aquiles de "O plano perfeito".

Com um roteiro que força suas reviravoltas - ingrediente básico do gênero - e não consegue deixar de ser mais confuso do que surpreendente, "O plano perfeito" peca ao negar ao público um elemento crucial: a diversão. Ao contrário de Steven Soderbergh e sua trilogia iniciada com "Onze homens e um segredo" (2000), que aposta no humor e na leveza para seduzir a plateia, Spike Lee prefere se levar a sério demais, optando por conduzir o público em um emaranhado de pistas e personagens dúbios que jamais conquistam o espectador completamente. O clímax frio tampouco ajuda a elevá-lo acima da média e torná-lo o clássico moderno que poderia ser. Mesmo assim, com seu elenco impecável, o filme de Lee agrada ao não subestimar a inteligência de quem se dispõe a passar duas horas envolvido em uma trama que foge do derivativo e do lugar comum. Um filme de adulto, ideal para quem gosta de ter suas células cinzentas desafiadas.

sexta-feira

DUPLICIDADE

DUPLICIDADE (Duplicity, 2009, Universal Pictures/Relativity Media, 125min) Direção e roteiro: Tony Gilroy. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: John Gilroy. Música: James Newton Howard. Figurino: Albert Wolksy. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Ryan Cavanaugh. Produção: Laura Bickford, Jennifer Fox, Kerry Orent. Elenco: Julia Roberts, Clive Owen, Tom Wilkinson, Paul Giamatti, Dennis O'Hare, Tom McCarthy. Estreia: 10/3/09

Cinco anos depois de formarem um casal envolvido em uma complicado quadrilátero amoroso no elogiado "Closer, perto demais", Julia Roberts e Clive Owen voltaram a dividir a tela. Dessa vez, porém, sem a densidade da obra dirigida de Mike Nichols, adaptada da peça teatral de Patrick Marber: na pele de dois espiões industriais que se apaixonam e tramam um golpe para garantir sua aposentadoria mesmo sem confiarem plenamente um no outro, a dupla oferece ao espectador uma trama leve e dotada de um senso de humor elegante que remete a clássicos como "Charada" - estrelado por Audrey Hepburn e Cary Grant - e comprova o talento do roteirista/diretor Tony Gilroy, recém-saído de várias indicações ao Oscar por seu "Conduta de risco" - que deu a estatueta de coadjuvante à Tilda Swinton. Fugindo do tom opressivo da obra estrelada por George Clooney, "Duplicidade" é uma comédia à moda antiga, que equilibra uma trama complexa com momentos de romantismo em cenários sofisticados ao redor do mundo. Pode soar confuso em vários momentos, mas é um entretenimento de classe, protagonizado por uma das mais carismáticas estrelas de Hollywood.

A trama de "Duplicidade" começa em Dubai, quando Ray Koval (Clive Owen) e Claire Stenwick (Julia Roberts) - dois agentes de órgãos de segurança rivais - se conhecem e passam a noite juntos. Ela rouba documentos importantes dele e desaparece por cinco anos, até que eles voltam a se encontrar, dessa vez trabalhando em empresas particulares, mas novamente inimigas. Ela é empregada de Howard Tully (Tom Wilkinson), o diretor de uma companhia farmacêutica que está em vias de lançar um revolucionário produto para acabar com a calvície. Ele trabalha para o rival de Tully, o egocêntrico Richard Garsick (Paul Giamatti), que tem uma equipe treinada para roubar segredos de seus concorrentes. Juntos, Ray e Claire resolvem trabalhar como agentes duplos, para descobrirem a fórmula secreta de Tully e se aposentarem em grande estilo. Através de flashbacks que contam como eles iniciaram seu plano, a trama avança até o grande clímax que vai finalmente mostrar se eles são tão inteligente e espertos quanto pensam - e se realmente estão jogando no mesmo time.


Abusando de uma edição complexa e esperta - ainda que às vezes em excesso - "Duplicidade" tem como seu maior mérito o fato de ser um filme direcionado ao público adulto, que foge dos efeitos visuais imbecilizantes e das piadas sem graça dos blockbusters. Apostando na inteligência da plateia, o roteiro de Gilroy exige dela uma atenção normalmente dispensada nas produções dos grandes estúdios, que visam apenas o retorno financeiro de seus projetos, independentemente de suas qualidades. O roteiro, que vai e volta no tempo, obriga a audiência a não desgrudar os olhos da tela, sob pena de perder o fio da meada - e consequentemente parar de acompanhar a trama, na verdade uma desculpa das mais charmosas para explorar mais uma vez a química entre Roberts e Owen, que parecem estar se divertindo ao dar vida a personagens tão distantes daqueles que lhes deram fama. Julia, principalmente, entrega uma performance inspirada e solar, que mostra um lado menos sério de seu talento, ainda pouco explorado apesar das comédias românticas que protagonizou nos anos 90. Sua Claire Stenwick é uma mulher forte, determinada e inteligente que manda no próprio nariz e não depende de homens para alcançar a felicidade - coisa rara no cinema americano apesar de opiniões contrárias - e ninguém melhor do que Roberts para interpretá-la. Um acerto de escalação de elenco que por si só já vale a sessão.

Além de Roberts, porém, "Duplicidade" também merece elogios por sua elegância visual. A fotografia de Robert Elswit (Oscar por "Sangue negro") tira o máximo proveito das paisagens naturais de Roma, Dubai e Nova York, evitando, apesar disso, os clichês quase inevitáveis. A leveza dos cenários, com seu charme e classe, contagia a atuação de um elenco à prova de qualquer crítica. Mesmo em papéis secundários, Paul Giamatti e Tom Wilkinson mostram que não são requisitados pelos maiores diretores de Hollywood à toa, e Clive Owen pela primeira vez deixa vislumbrar um lado cômico (ainda que sutil) de sua personalidade artística, um elemento a mais em um filme que, se não muda a história do cinema, ao menos lhe dá um pouco de consistência cerebral.

terça-feira

FILHOS DA ESPERANÇA

FILHOS DA ESPERANÇA (Children of men, 2006, Universal Pictures, 109min) Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Alfonso Cuarón, Timothy J. Sexton, David Arata, Mark Fergus, Hawk Ostby, romance de P.D. James. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Alfonso Cuarón, Alex Rodríguez. Música: John Tavener. Figurino: Jany Temime. Direção de arte/cenários: Jim Clay, Geoffrey Kirkland/Jennifer Williams. Produção executiva: Armyan Bernstein, Thomas A. Bliss. Produção: Marc Abraham, Eric Newman, Hilary Shor, Iain Smith, Tony Smith. Elenco: Clive Owen, Julianne Moore, Michael Caine, Chiwetel Ejiofor, Charlie Hunnam, Danny Huston. Estreia: 03/9/06 (Festival de Veneza)

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem

Inglaterra, novembro de 2027: há dezoito anos sem presenciar o nascimento de um bebê, a humanidade está a um passo da extinção. Na Inglaterra, refugiados são presos, humilhados e mortos na rua, o medo é palavra de ordem, a anarquia encontra bolsões de resistência violenta e grupos terroristas são perseguidos por um governo fascista e impiedoso. No meio do caos, a esperança na forma de uma jovem protegida por um grupo de rebeldes. Com esse tema - triste, tenso, distópico - o mexicano Alfonso Cuarón mostrou à Hollywood que, por trás do diretor de encomenda de filmes como "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" e do personalíssimo "E sua mãe também" existia um cineasta de extrema inteligência, sensibilidade e vigor. Adaptado livremente um livro da escritora P.D. James, "Filhos da esperança" é um dos melhores filmes de 2006, embora suas inúmeras qualidades não tenham sido devidamente reconhecidas pelo público na ocasião de sua estreia: com uma bilheteria doméstica que mal chegou a cobrir metade de seu orçamento de 76 milhões de dólares, o filme de Cuarón teve que contentar-se com os elogios unânimes da crítica e três indicações ao Oscar relativamente importantes, entre as quais de roteiro adaptado - que perdeu para o grande vencedor do ano, "Os infiltrados", de Scorsese.

No mesmo ano em que outros dois conterrâneos também tiveram seus trabalhos reconhecidos pelos membros da Academia em maior ou menor grau - Alejandro Gonzalez Iñarritu concorreu ao prêmio de filme e direção por "Babel" (vencedor na categoria de trilha sonora) e Guillermo Del Toro foi lembrado como roteirista de "O labirinto do fauno" (que abocanhou as estatuetas de fotografia, direção de arte e maquiagem) - Cuarón acabou sendo o menos louvado dentre os "estrangeiros", saindo da cerimônia de mãos abanando (situação que ele reverteria sete anos depois quando fez uma limpa com o superestimado "Gravidade"). Tendo em mãos uma história forte e consistente, um elenco de atores acima de qualquer crítica e o rigor técnico que lhe permitiu ao menos três longas sequências de tirar o fôlego - que, ao contrário do que foi difundido por muitos críticos à época NÃO foram realizadas em apenas um único take - o cineasta assinou um filme que, exatamente como ele intencionava, não acaba quando rolam os créditos finais: não apenas deixa alguns de seus protagonistas em meio a uma situação inacabada como permanece na mente do espectador por muito mais tempo do que normalmente acontece com filmes do gênero.


Como dito anteriormente, "Filhos da esperança" começa em 2027, no dia em que a última criança nascida no mundo em 18 anos, o internacionalmente famoso "baby Diego" morre assassinado depois de uma briga em um bar. Sua morte comove o planeta inteiro, já sufocado por décadas de opressão e desespero. É nessa situação que o ex-revolucionário Theo (Clive Owen, brilhante) é procurado por um grupo de rebeldes liderado por sua ex-mulher, Julian (Julianne Moore em participação mais do que especial), que lhe pede ajuda para transportar uma jovem negra, a assustada Kee (Clare-Hope Ashitey), para fora do alcance do governo. Antes que possa explicar toda a situação de Kee ao ex-marido - de quem separou-se após a precoce morte do filho pequeno - Julian sai de cena, deixando nas mãos do cínico e individualista Theo não apenas a segurança da misteriosa garota (que esconde um segredo capaz de alterar o destino do mundo) mas também a chance de salvar o futuro da humanidade. Para isso, ele conta com a ajuda de um antigo amigo, o ex-cartunista político Jasper (Michael Caine, fenomenal), que vive isolado com a esposa catatônica em uma casa escondida nas florestas.

Fotografado com genialidade por Emmanuel Lubezki - que sublinha o clima de pesadelo com uma iluminação cinzenta e claustrofóbica - "Filhos da esperança" não dá tréguas ao espectador, bombardeando-o com um ritmo impecável, que equilibra as tais longas e empolgantes sequências - a saber: o ataque ao carro de Julian e Theo em uma estrada, um ataque terrorista em plena cidade e um (surpresa!) parto - com momentos reflexivos que jamais atrapalham o andamento da história. Clive Owen - que ajudou na confecção do roteiro durante as filmagens mas não foi creditado por suas ideias - segura com desenvoltura um papel que poderia facilmente descambar para o heroísmo vazio do cinema comercial emprestando a ele um viés de melancolia perceptível em seu olhar mesmo quando o foco da cena é a ação ou a violência. Escolha mais do que acertada de Cuarón, ele injustamente ficou de fora da lista dos indicados ao Oscar (poderia facilmente ter substituído Will Smith, que estava apenas correto no frágil "À procura da felicidade"), assim como Caine e Moore, perfeitos em cada entonação e a própria direção, muito mais intensa e criativa do que se poderia desejar em um filme de ação - gênero ao qual, aliás, o filme pertence por mero tecnicismo. No fundo, "Filhos da esperança" é um sensacional drama distópico com elementos de ação e ficção científica dos melhores. Imperdível!

quinta-feira

ASSASSINATO EM GOSFORD PARK

ASSASSINATO EM GOSFORD PARK (Gosford Park, 2001, USA Films/Capitol Films, 137min) Direção: Robert Altman. Roteiro: Julian Fellowes. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Tim Squyres. Música: Patrick Doyle. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Stephen Altman/Anna Pinnock. Produção executiva: Jane Barclay, Sharon Harel, Robert Jones, Hannah Leader. Produção: Robert Altman, Bob Balaban, David Levy. Elenco: Maggie Smith, Michael Gambon, Kristin Scott Thomas, Camilla Rutherford, Charles Dance, Tom Hollander, Jeremy Northam, Bob Balaban, Ryan Phillipe, Stephen Fry, Kelly McDonald, Helen Mirren, Clive Owen, Eileen Atkins, Emily Watson, Derek Jacobi, Richard E. Grant. Estreia: 07/11/01 (Festival de Londres)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Altman), Atriz Coadjuvante (Helen Mirren), Atriz Coadjuvante (Maggie Smith), Roteiro Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Robert Altman) 

Uma luxuosa casa de campo inglesa pré-II Guerra. Um fim-de-semana festivo, com convidados elegantíssimos e criados dedicados mas um tanto ressentidos. Um anfitrião aparentemente generoso, mas dono de segredos pouco louváveis. Esnobes britânicos e "vulgares" americanos da terra do cinema. E um homicídio misterioso cometido na biblioteca obrigando um típico inspetor a penetrar em um mundo de meias-verdades, traições e romances escusos. Parece Agatha Christie, mas é apenas "Assassinato em Gosford Park", o filme que deu ao cineasta Robert Altman sua última indicação ao Oscar, em 2002. Seguindo sua prática de trabalhar com um numeroso elenco de nomes de primeira linha - aqui atores britânicos consagrados nos palcos - ele brinca com a tradição dos romances policiais em um filme que, apesar do título e das características marcantes de um gênero específico, é mais uma dura crítica ao sistema de classes inglês do que um mero whodunit.

Com base em uma ideia de Altman e do ator Bob Balaban, o roteirista Julian Fellowes - que acabou por ganhar uma estatueta da Academia e depois tornou-se o criador da aclamada série "Dowtown Abbey" - utilizou-se de seu vasto conhecimento sobre os hábitos da alta sociedade britânica dos anos 30 para escrever uma astuciosa história a respeito não apenas de um assassinato, mas das engrenagens que moviam/movem/moverão o dia-a-dia e a rotina de patrões e empregados nem sempre felizes com suas relações de poder e hierarquia. Sutilmente explicitando tais relações em cada cena (nenhum personagem é mostrado sem que um empregado esteja por perto, por exemplo), Altman conquistou a crítica também por espalhar por seu filme uma elegância que reflete com perfeição a frieza e a indiferença dos personagens em relação à tragédia ocorrida em um dos aposentos da mansão: para os serviçais importa mais manter o funcionamento das refeições; para os aristocratas, tudo não passa de mais um aborrecimento que interrompe um fim-de-semana já movimentado o bastante por intrigas de bastidores. Essa opção do diretor apenas confirma seu estilo inconfundível, que a tantos agrada e a outros tantos repele. "Assassinato em Gosford Park" pode fascinar ou ser simplesmente chato. Depende apenas do gosto do espectador.


A história se passa em novembro de 1932, na casa de campo do benemérito William McCordle (Michael Gambon), que recebe convidados para um fim-de-semana regado a uma caçada em sua propriedade e jantares refinados, criados pela veterana cozinheira Mrs. Croft (Eileen Atkins) e organizados pela rígida governanta, Mrs. Wilson (Helen Mirren). Casado com a esnobe Lady Sylvia (Kristin Scott Thomas), o aristocrata McCordle não é exatamente um homem gentil ou delicado, mas é tratado com deferência pelos convidados, uma vez que, em maior ou menor grau, todos eles precisam de seu dinheiro,seja para manter um estilo de vida sofisticado, financiar um filme, manter uma pensão tida erroneamente como vitalícia ou evitar uma falência. Enquanto no andar de cima o jogo de interesses corre solto e pouco sutil, na parte de baixo da mansão, os criados vivem seus próprios dramas - que se misturam aos dos patrões quando o anfitrião aparece morto e a polícia surge para investigar o caso.

Em um elenco repleto de grandes atores do teatro e do cinema britânicos (o americano Ryan Philippe interpreta o criado de um astro do cinema vivido por Jeremy Northam), é difícil dizer quem está melhor. Maggie Smith e Helen Mirren foram indicadas ao Oscar de coadjuvante - a primeira pela interpretação de uma dama antipática e interesseira que vive da pensão da vítima do homicídio e não esconde seu desprezo pelos americanos e por aqueles abaixo dela na escala social, e a segunda como a líder dos empregados que esconde um segredo doloroso sobre o passado de seu patrão - mas outros nomes se destacam diante dos lúcidos diálogos de Fellowes. É o caso de Kristin Scott Thomas, mais uma vez demonstrando seu imenso talento como Lady Sylvia - uma viúva pouco propensa a sofrer pela morte do marido - e Eileen Atkins, que somente no terço final da narrativa mostra o poder de sua personagem, até então relegada a um injusto segundo plano. Dirigidos como se estivessem em uma bela peça teatral, todos brindam o espectador com trabalhos discretos e minimalistas, valorizados pelo roteiro aparentemente simples mas repleto de camadas que somente a experiência de Altman conseguiria orquestrar.

"Assassinato em Gosford Park" concorreu a sete Oscar, mas bateu de frente com "Uma mente brilhante" e "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" na busca pelas estatuetas. Foi (mais) um retorno de Altman às boas graças da crítica e da Academia, fato que não se repetiria mais até sua morte em 2006. Pode-se dizer que foi um testamento à altura de uma carreira que sempre teimou em não respeitar convenções comerciais - ou então revirá-las a ponto de torná-las irreconhecíveis. Não é um filme para todos, e sim para seus fãs - que não são poucos.

sábado

BENT

BENT (Bent, 1997, Channel Four Films, 105min) Direção: Sean Mathias. Roteiro: Martin Sherman, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Yorgos Avanitis. Montagem: Isabel Lorente. Música: Philip Glass. Figurino: Stewart Meachem. Direção de arte/cenários: Stephen Brimson Lewis. Produção executiva: Hisami Kuroiwa, Sarah Radclyffe. Produção: Dixie Linder, Michael Solinger. Elenco: Clive Owen, Ian McKellen, Luthaire Bluteau, Brian Webber. Estreia: Maio/97 (Festival de Cannes)

Quando foi anunciado que a peça teatral "Bent" - sucesso da Broadway que estreou em dezembro de 1979 e concorreu ao Tony de melhor espetáculo de 1980 - seria adaptada para o cinema, o primeiro nome divulgado no elenco foi o de Richard Gere, protagonista da montagem original quando ainda era desconhecido do público de cinema. Sua escalação para o papel central - um homossexual que sofre os horrores de um campo de concentração nazista durante a II Guerra - seria uma espécie de garantia e visibilidade comercial aos produtores para um projeto arriscado e potencialmente prejudicial à carreira de um ator sem sua estabilidade popular. Trabalhar com um astro de cinema, porém, não é tão simples como parece e antes mesmo do início da produção, Gere teve que abandonar o barco por questões profissionais - mais conhecidas como conflito de agendas - que o impediam de estar disponível para as filmagens no prazo planejado. Sendo assim, ele partiu para filmar "Justiça vermelha" e "O chacal" e acabou sendo substituído por um ator inglês - cujo trabalho basicamente para a televisão ainda não havia justificado o interesse de Hollywood - chamado Clive Owen. No cinema, como na vida, há males que vem pra bem, e a entrada de Owen no filme de Sean Mathias foi o que de melhor poderia ter acontecido. Ok, comercialmente sua presença não ajudou em nada, mas é difícil imaginar que Richard Gere - um ator mais conhecido por seus dotes de galã do que por seu talento - pudesse ter a força dramática que Owen imprime a cada cena do filme.

Antes de começar uma bem-sucedida carreira em Hollywood - que culminou com uma indicação ao Oscar de coadjuvante por "Closer, perto demais" (04) - Owen interpreta, com garra e sensibilidade, o alemão Max, um jovem de família influente que é renegado por ela por não tentar esconder de ninguém sua homossexualidade em plena efervescente Berlim de 1935, quando os nazistas estão começando sua escalada de terror. Conhecido na noite da cidade, ele tem uma relação relativamente estável com o bailarino Rudy (Brian Webber) - e por causa dele, recusa-se a aceitar um visto para fora do país quando passa a ser procurado graças ao envolvimento passageiro com o amante de um dos homens de confiança de Hitler, assassinado a mando do regime. Preso junto a ele, Max presencia a extrema violência da polícia nazista, testemunha o assassinato de Rudy e, com medo de ser tratado como homossexual - a escala mais baixa dentre os prisioneiros - mente sobre sua identidade sexual. Sua covardia chama a atenção de Horst (Lothaire Bluteau), um gay orgulhoso de sua condição que ostenta com o máximo de dignidade a estrela cor-de-rosa que o identifica perante os demais prisioneiros. Tal diferença de atitudes, no entanto, não os impede de se apaixonar, mesmo que sejam impedidos de trocar um simples abraço.


Mantendo a estrutura do texto original sem deixar que seu filme se transforme em um mero teatro filmado, o diretor Sean Mathias - também ator e que até hoje não assinou mais nenhum trabalho como cineasta - cria cenas visualmente poéticas que ilustram violentamente a crueldade fria da triste situação dos personagens. Contando com a ajuda da fotografia acinzentada de Yorgos Avanitis e com a trilha sonora delicada e densa de Philip Glass, ele conduz o espectador a uma atmosfera de pesadelo sombrio, repetitivo e sufocante que contrasta com a atmosfera de festividades orgiásticas e decadentes de seus primeiros minutos, que mostram a vida cotidiana de Max e seus amigos da boemia - com direito até a uma participação especialíssima de Mick Jagger como a performer Greta, que abre o filme com um belo número musical que dá o tom do espetáculo que virá. O roteiro, escrito pelo autor da peça, Martin Sherman, é cuidadoso também ao criar um protagonista crível, complexo e dotado de nuances tão sutis de que somente um ator do porte de Owen - e de sua imersão no papel - seria capaz.  Sua química com Lothaire Bluteau é palpável e de uma intensidade que transborda da tela, especialmente em momentos belíssimos, como a sequência em que fazem sexo sem ao menos tocar um no outro.

Recheado de belos momentos como esse e com um texto fluente que soa como poesia na boca de seus grandes atores - Ian McKellen como o tio enrustido de Max, entre eles - "Bent" é uma obra obrigatória dentro do universo do cinema homossexual e relativo aos horrores da II Guerra, tratando de um assunto frequentemente deixado de lado pelos grandes diretores e grandes estúdios. Sem apelar para o erotismo de publicidade ou o dramalhão manipulatório, é também um retrato bastante fiel do estilo de vida dos gays alemães da década de 30, que podiam optar entre a clandestinidade e o respeito alheio ou pela verdade e suas consequências - um estilo de hipocrisia ainda presente na sociedade ocidental mesmo nos dias de hoje. Um filme feliz em todos os aspectos, apesar da melancolia de sua trama e da tristeza inerente a seu desfecho. Filmaço!

quinta-feira

ELIZABETH: A ERA DE OURO


ELIZABETH, A ERA DE OURO (Elizabeth: The Golden Age, 2007, Universal Pictures, 114min) Direção: Shekar Kapur. Roteiro: William Nicholson, Michael Hirst. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: Jill Bilcock. Música: Craig Armstrong, A.R. Rahman. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Richard Roberts. Produção executiva: Liza Chasin, Debra Hayward, Michael Hirst. Produção: Tim Bevan, Jonathan Cavendish, Eric Fellner. Elenco: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Clive Owen, Samantha Morton, Abbie Cornish. Estreia: 12/10/07

2 indicações ao Oscar: Atriz (Cate Blanchett), Figurino
Vencedor do Oscar de Figurino

Se existe uma prova de que em Hollywood um raio dificilmente cai duas vezes no mesmo lugar - ao menos quando não se trata de franquias milionárias - essa prova é "Elizabeth, a era de ouro". Dando seguimento ao eletrizante primeiro capítulo sobre a filha de Henrique VIII e Ana Bolena que o indiano Shekar Kapur dirigiu em 1998 - e que concorreu a Oscars importantes como melhor filme e atriz - essa continuação não teve a mesma sorte. Massacrada pela crítica e rechaçada pelo público, essa segunda parte não conseguiu ser salva nem mesmo pelo trabalho mais uma vez esplêndido de Cate Blanchett no papel central. Arrastado, confuso e com uma história bem menos interessante, serve, no entanto, para provar que em certas coisas não é bom mexer.

Ao contrário do primeiro filme, que equilibrava com maestria os dramas pessoais de Elizabeth - sua paixão proibida pelo homem errado, a polêmica em torno de seu nome para assumir o trono - com as intrigas palacianas que tentavam derrubá-la do poder, o segundo volume da vida da monarca esbarra em uma falta de foco quase constrangedora. Enquanto narra de forma preguiçosa as batalhas engendradas pela Espanha católica com o intuito de acabar com o reinado da herege Elizabeth - com algumas cenas de ação bem fraquinhas e de gosto estético duvidoso - o roteiro também conta mais uma história de amor equivocada da rainha, que se apaixona perdidamente pelo misterioso e pouco confiável Walter Raleigh (Clive Owen tentando arrancar leite de pedra), que, por sua vez, encanta-se com uma protegida da corte.


Quando direciona sua trama para as guerras marítimas e para a história política da Inglaterra, o filme de Kapur derrapa em cenas sonolentas e pouco ágeis - que chegam inclusive a ser confusas. Quando vira seu foco para o romance hesitante entre Elizabeth e Raleigh, porém, o filme cresce. Não por obra e graça do roteiro - que soa como uma pálida cópia do primeiro exemplar - mas devido ao talento imenso de Cate Blanchett. Repetindo o papel que quase lhe deu o Oscar (que perdeu de forma absolutamente injusta para Gwyneth Paltrow), a irlandesa demonstra que é capaz de transformar um filme que poderia ser uma comédia de erros em um produto memorável. É quando Blanchett está em cena que tudo faz sentido, que tudo se ilumina, que tudo é engolido. Novamente indicada à estatueta por seu trabalho (no mesmo ano em que concorreu como coadjuvante na pele de Bob Dylan em "Não estou lá") e novamente derrotada (dessa vez de forma justa, para Marion Cottilard em "Piaf, um hino ao amor"), ela é o corpo e a alma do filme de Kapur.

Mas, no final das contas, Cate Blanchett consegue salvar o filme da desgraça total? Sim e não. Sim, porque ela é extraordinariamente capaz. Mas não é a única qualidade do filme, afinal de contas. O Oscar de figurino foi justo, a trilha sonora ainda é impactante, a direção de arte é impecável e o elenco coadjuvante também não faz feio (e Geoffrey Rush reprisa seu papel de Sir Francis Walsingham). Se não tivesse um original tão bom com o qual ser comparado até não seria tão ruim assim. Mas é, sem dúvida, o patinho feio da família.

segunda-feira

SIN CITY, A CIDADE DO PECADO

SIN CITY, A CIDADE DO PECADO (Sin City, 2005, Dimenson Films, 124min) Direção: Frank Miller, Robert Rodriguez, Quentin Tarantino. Roteiro: HQ de Frank Miller. Fotografia e montagem: Robert Rodriguez. Música: John Debney, Graeme Revell, Robert Rodriguez. Direção de arte/cenários: Steve Joyner,Jeanette Scott/David Hack, Jeannette Scott. Produção executiva: Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Elizabeth Avellan. Elenco: Bruce Willis, Mickey Rourke, Benicio Del Toro, Clive Owen, Brittany Murphy, Michael Madsen, Rutger Hauer, Elijah Wood, Nick Stahl, Michael Clarke Duncan, Powers Boothe, Josh Hartnett, Jessica Alba, Rosario Dawson. Estreia: 28/3/05

Depois do sucesso estrondoso de "X-Men" e "Homem-aranha" as adaptações de histórias em quadrinhos para as telas de cinema viraram moeda corrente em Hollywood, com resultados os mais diversos, tanto em termos de qualidade quanto de bilheteria. Mas ninguém em sã consciência poderia imaginar que uma adaptação fosse tão longe em fidelidade quanto "Sin City, a cidade do pecado", dirigida, produzida, fotografada, editada e musicada (ufa!) por Robert Rodriguez, que, de posse de praticamente todo e qualquer controle sobre a obra, ainda teve a ousadia de co-assinar a direção com o criador das histórias em papel, Frank Miller. O sindicato de diretores não gostou e expulsou Rodriguez de seu quadro. A plateia náo se deu ao trabalho de se interessar por isso, encantada que estava com o resultado final do trabalho dos co-diretores (que ainda contaram com a luxuosa ajuda de Quentin Tarantino em uma cena). Mais do que a transição de uma história em quadrinhos para a tela de cinema, "Sin City, a cidade do pecado" - subtítulo absolutamente desnecessário - é uma pequena obra-prima dentro de um subgênero do qual provavelmente é o mais bem acabado produto.

Assim como nas publicações editadas, o filme "Sin City" é dividido em histórias independentes que vez ou outra se cruzam sutilmente. O primeiro segmento - que serviu como uma espécie de teste visual para o sinal verde dos produtores - é uma pequena cena estrelada pelo sempre péssimo Josh Hartnett, e nem ele consegue estragar o impacto que esses poucos minutos causam no espectador. A partir daí, o que se segue é um festival de violência, clima noir e uma sensação de ineditismo que faz das duas horas seguintes uma experiência rica e empolgante.



A trama começa pra valer quando o policial Hartigan (Bruce Willis, talvez um pouco novo demais para o papel) consegue impedir um jovem psicopata (vivido por um irreconhecível Nick Stahl) de matar uma garotinha e com isso ganha sua afeição eterna, que se revelará quase vinte anos depois, quando ela, já adulta (e interpretada com inegável sensualiade por Jessica Alba), parte com ele em busca de vingança por seus anos passados na cadeia por um crime que não cometeu. Outro que precisa provar sua inocência e encontrar os culpados por um violento assassinato é Marv (Mickey Rourke em impressionante caracterização), que busca vingar a morte de uma prostituta com quem passou a noite mais carinhosa de sua vida. O que ele sequer desconfia, porém, é que gente muito importante - em altos níveis de poder - não deseja que ele descubra a verdade. E Clive Owen - vindo do sucesso crítico de "Closer, perto demais" - vive Dwight, um homem disposto a qualquer coisa para proteger sua namorada, a garçonete Shellie (Brittany Murphy), de seu antigo amante, o truculento policial Jackie (Benicio Del Toro em um papel que despertou a cobiça de Adrien Brody), que tem uma perigosa relação com as prostitutas lideradas por Gail (Rosario Dawson).

Se fosse um filme policial comum, ainda assim "Sin City" seria imperdível, tão interessante é sua gama de personagens marginalizadas e suas histórias repletas de sangue e suor. Mas a obra de Robert Rodriguez é muito mais do que simples cinema. Visualmente impactante e dono de um roteiro com diálogos brilhantes - cortesia do texto enxuto e visceral de Frank Miller - o filme passa por cima do politicamente correto e do medo de mostrar a violência como ela é para, com a licença de ser literalmente quadrinhos no cinema, explicitar situações chocantes - pedofilia, cães comendo seres humanos - sem soar gratuito e/ou apelativo.

É difícil ficar indiferente a "Sin City". Seja por suas qualidades visuais - a fotografia belíssima lembra os clássicos do cinema noir e a maquiagem deixa os atores irreconhecíveis -, por suas histórias violentas ou por seu elenco de peso (em que até mesmo Mickey Rourke e Bruce Willis conseguem brilhar sem fazer esforço), o filme de Robert Rodriguez é, com certeza, um gigantesco passo à frente na tecnologia de unir - com talento e parcimônia - quadrinhos e cinema. Bravíssimo!

quinta-feira

CLOSER, PERTO DEMAIS

CLOSER, PERTO DEMAIS (Closer, 2004, Columbia TriStar, 104min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Patrick Marber, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: John Bloom, Antonia Van Drimmelen. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Tim Hatley/John Bush. Produção executiva: Celia D. Costas, Robert Fox, Scott Rudin. Produção: Cary Brokaw, John Calley, Mike Nichols. Elenco: Julia Roberts, Jude Law, Clive Owen, Natalie Portman. Estreia: 03/12/04


2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Clive Owen), Atriz Coadjuvante (Natalie Portman)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Clive Owen), Atriz Coadjuvante (Natalie Portman)

Qualquer drama romântico/sensual forjado por Hollywood frequentemente esbarra na superficialidade, na vulgaridade e muitas vezes no sentimentalismo barato. Quando acontece um filme como "Closer - perto demais", então, o choque é nunca menos do que desconcertante: forte, contundente, real e longe de qualquer concessão ao tradicional final feliz, o filme de Mike Nichols - diretor do aclamado e igualmente poderoso "Quem tem medo de Virginia Woolf?" - é um dos dramas adultos mais impactantes realizados pelo cinema americano no início do século XXI e um dos raros a mostrar relações humanas vividas por personagens que realmente parecem humanos e não criações fictícias.


Sem delongas e conversas desnecessárias, o público é jogado diretamente na trama logo nos primeiros acordes da belíssima canção "The blower's daughter", do inglês Damien Rice - que de certa forma é a quinta personagem da história de amor, traição, vingança e sexo que se desenrolará a partir dali: recém chegada a Londres, a bela e sensual americana Alice (interpretada com fúria e entrega por uma Natalie Portman irrepreeensível) conhece e se apaixona pelo jornalista e aspirante a escritor Daniel Woolf (Jude Law, deixando de lado a persona sexy e quase arrogante com que vinha conduzindo sua carreira até então). O romance dos dois poderia correr sempre às mil maravilhas se o rapaz não se sentisse atraído pela fotógrafa Ana (Julia Roberts em uma performance corajosa e desprovida de glamour), que, mesmo envolvida por ele inicia um romance com o dermatologista Larry (Clive Owen no grande papel de sua carreira). Durante alguns anos os destinos dos quatro irão permanecer ligados em uma corrente de desejo, dependencia e até amor verdadeiro.


Na verdade, grande parte dos méritos de "Closer" deve ser creditado ao roteirista Patrick Marber, também autor da peça teatral que deu origem ao filme (e que chegou a ser montada no Brasil). São de Marber os diálogos corantes, ácidos e secos declamados pelos atores - todos eles em grande momento de suas carreiras - e é de sua autoria a trama, que apresenta personagens vulneráveis em seus desejos e fortes em suas obsessões. Com o texto forte em mãos, coube ao veterano Mike Nichols conduzir a história sem ceder
ao lugar-comum. A edição jamais é previsível, a fotografia de Stephen Goldblatt é elegante e a trilha sonora é discreta mas fundamental. Nem mesmo as frases menos sutis do roteiro soam grosseiras e sim reais, graças principalmente à empatia das personagens e das situações propostas.

Dolorosamente real, "Closer" é um filme para se ver e rever, nem que seja para ter a convicção de que nenhum relacionamento é um mar de rosas e que qualquer pessoa, por mais amor que julgue estar sentindo ainda é apenas uma pessoa em busca de algo novo, de mais felicidade e mais amor. Dói, mas é necessário.

AMOR SEM FRONTEIRAS

AMOR SEM FRONTEIRAS (Beyond borders, 2003, Mandalay Pictures, 127min) Direção: Martin Campbell. Roteiro: Caspian Tredwell-Owen. Fotografia: Phil Meheux. Montagem: Nicholas Beauman. Música: James Horner. Figurino: Norma Moriceau. Direção de arte/cenários: Wolf Kroeger/Jim Erickson. Produção executiva: J. Geyer Kosinski, Roland Pellegrino. Produção: Dan Halsted, Lloyd Phillips. Elenco: Clive Owen, Angelina Jolie, Linus Roache, Teri Polo, Noah Emmerich, Yorick van Wageningen. Estreia: 24/10/03

Em um mundo onde filmes são feitos pelos motivos mais variados, desde egos inflados até por ganância mal dissimulada, não deixa de ser um alívio saber que filmes como esse “Amor sem fronteiras” ainda podem chegar às telas. O diretor Martin Campbell, que já comandou uma aventura de 007, um dos maiores estandartes do cinema como entretenimento, forja aqui uma história de amor, sofrimento e ideais humanitários, sem apelar para efeitos especiais espetaculares e protagonistas com super-poderes. Suas intenções são as melhores, mas nem por isso ele deixa de tropeçar em algumas delas, durante o caminho.
         
Em 1984, em Londres, a bela socialite Sarah Jordan (Angelina Jolie) fica impressionada com a figura de Nicholas Calahan (Clive Owen), um médico especializado em causas humanitárias da Etiópia, que interrompe uma festa de gala para expor a situação do país. Sem conseguir tirar o episódio da cabeça, Sarah resolve ir até à África para ajudar os famintos. A príncipio desencorajada por Nicholas, que vê nela apenas uma moça fútil em busca de aventuras para sua vida tediosa, ela encanta-se com os ideais do grupo liderado pelo médico, mas volta para seu país e seu marido (Linus Roache).

Em 1989, já com um filho e em crise no casamento com o marido desempregado, Sarah volta a demonstrar solidariedade, embarcando para o Camboja para ajudar seu povo, envolvido em uma séria crise política. Dessa vez a atração entre Sarah e Nicholas transforma-se em amor, mas o médico foge do relacionamento, temeroso que o romance possa desviar-lhe dos problemas que ele tenta solucionar. No início dos  anos 90, Sarah, com outro filho, descobre que Nicholas foi pego como refém por terroristas da Chechênia. Decidida a salvar a vida do homem que ama, ela mais uma vez parte atrás dele, correndo sérios riscos de morte.

 

“Amor sem fronteiras” tem inúmeras qualidades: a fotografia de Phil Meheux é deslumbrante, a música de James Horner é apropriada e os problemas sociais mostrados no decorrer do filme são reais e importantes. No entanto, a obra de Campbell esbarra em alguns problemas bastante chatos. Apesar da primeira hora fascinante e de cenas de grande impacto emocional, o ritmo empaca no terceiro ato, e nem a beleza estonteante de Angelina Jolie consegue evitar alguns bocejos. O amor entre os dois protagonistas nunca chega a convencer totalmente, em grande parte devido ao papel reservado ao sempre competente Owen, cujo personagem parece amar mais as causas que abraça do que qualquer pessoa e em parte devido ao pouco tempo dos dois juntos em cena.
        
Mas é preciso levar em conta, apesar disso, as boas intenções do filme, que são extremamente válidas e que foi graças a ele que Angelina Jolie tomou contato com os problemas sociais mostrados, tornou-se embaixadora da ONU e adotou um menino etíope. E a quantos filmes você assiste que são feitos pelos motivos certos?

quarta-feira

A IDENTIDADE BOURNE

A IDENTIDADE BOURNE (The Bourne identity, 2002, Universal Pictures, 119min) Direção: Doug Liman. Roteiro: Tony Gilroy, W. Blake Herron, romance de Robert Ludlum. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Saar Klein. Música: John Powell. Figurino: Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Alexandrine Mauvezin. Produção executiva: Robert Ludlum, Frank Marshall. Produção: Patrick Crowley, Richard N. Gladstein, Doug Liman. Elenco: Matt Damon, Franka Potente, Chris Cooper, Clive Owen, Brian Cox, Adewale Akinnouye-Agbaje, Julia Stiles. Estreia: 14/6/02

Em 1988, uma minissérie feita para a TV americana adaptou o romance "A identidade Bourne", do escritor Robert Ludlum. Estrelada por Richard Chamberlain - conhecido como o ator central da famosa "Pássaros feridos" - a adaptação seguiu fielmente o livro de Ludlum e fez relativo sucesso. Quatorze anos depois, Hollywood resolveu contar a sua versão da história, contando com Doug Liman - da comédia independente "Vamos nessa" - na direção. Depois de ter Brad Pitt e Matthew McConaughey (as primeiras escolhas para o papel central) fora da jogada, Liman não poderia ter tido mais sorte com a escolha de seu protagonista: em seu primeiro papel em filmes de ação, Matt Damon criou um novo modelo a ser seguido em termos de adrenalina.

Ao custo de 60 milhões de dólares, a versão livre de "A identidade Bourne" rendeu mais de 120 milhões somente nos EUA, calando a boca daqueles que não acreditavam que uma trama que mistura espionagem, amnésia e um ator mais conhecido por papéis dramáticos do que por tiroteios e altamente coreografadas cenas de luta não tinha como dar certo. Mas justamente a ousadia na escolha do ator central é que faz toda a diferença: ao contrário de outros filmes de ação em que o protagonista serve apenas e unicamente para quebrar ossos e salvar o mundo, Jason Bourne é uma personagem crível e até certo ponto trágica. E ter um ator competente como Damon o interpretando deixa tudo ainda mais interessante.

Quando o filme começa, um grupo de marinheiros recolhe do Mar Mediterrâneo o corpo inconsciente de um rapaz baleado. Sem memória alguma de sua identidade e de seus passos até o momento, o rapaz tem apenas uma pista a respeito de sua origem: uma tatuagem subcutãnea com o número de uma conta bancária em Zurique. Recuperado dos ferimentos, o jovem segue então em direção à tentativa de descobrir sua origem e, no caminho, topa com a alemã Marie (Franka Potente), que tenta regularizar sua situação no país. Enquanto foge de homens misteriosos que aparentemente querem vê-lo morto (por razões absolutamente desconhecidas por ele), o agora nomeado Jason Bourne (ao menos é o que dizem alguns dos documentos encontrados no cofre do banco suíço) e a assustada Marie partem atrás da solução de um quebra-cabeças que parece ter desdobramentos em altos escalões do governo americano e em um tal projeto Treadstone.

 

A maior qualidade do roteiro de Tony Gilroy - que poucos anos mais tarde disputaria o Oscar de direção por "Conduta de risco" - é o fato de apresentar aos poucos os fatos que levaram o protagonista à situação extrema em que se encontra nas primeiras cenas. É  junto com Bourne que o público vai juntando todos os elementos, todas as ligações queo fizeram passar à condição de fugitivo de algo que ele nem mesmo sabe o que é. E, se ele desperta gradualmente para sua agitada vida pregressa, a edição impressionante de Saar Klein não deixa ninguém chegar perto do tédio: a impressionante perseguição nas estreitas ruas de Paris é uma das mais impactantes cenas do cinema de ação da década, de se assistir com a respiração suspensa e todas as cenas em que Bourne precisa utilizar da força física para manter-se em fuga são extremamente bem dirigidas e realistas. Precisa mais? Pois tem: até mesmo a relação entre Bourne e Marie, ainda que apresentada de maneira rápida demais, soa verdadeira.

"A identidade Bourne" é entretenimento de primeira, entregando ao público ação e inteligência na medida correta. Suas continuações, "A supremacia Bourne" e principalmente "O ultimato Bourne" são ainda melhores, mas é preciso que se tire o chapéu para um dos filmes mais empolgantes de 2002.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...