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sábado

O CAÇADOR DE PIPAS


O CAÇADOR DE PIPAS (The kite runner, 2007, DreamWorks Pictures, 128min) Direção: Marc Forster. Roteiro: David Benioff, romance de Khaled Hosseini. Fotografia: Robert Schaefer. Montagem: Matt Chessé. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Frank Fleming. Direção de arte/cenários: Carlos Conti/Maria Nay, Caroline Smith. Produção executiva: Sidney Kimmel, Laurie MacDonald, Sam Mendes, Jeff Skoll. Produção: William Horberg, Walter Parkes, E. Bennett Walsh, Rebecca Yeldham. Elenco: Khalid Abdalla, Zekeria Ebrahimini, Ahmad Khan Mahmoodzada, Homayoun Ershadi, Atossa Leoni, Elham Ehsas, Shaun Toub, Nabi Tanha. Estreia: 05/10/07

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original

Quatro anos e oito milhões de exemplares vendidos separam o lançamento do livro "O caçador de pipas", de Khaled Hosseini, e sua adaptação para o cinema, dirigida pelo alemão Marc Forster. Neste meio-tempo, a história de amizade e reparação entre dois afegãos - da infância aparentemente inocente às trágicas consequências impostas pelo regime talibã no país - ganhou o mundo e emocionou milhares de leitores, comovidos com sua estrutura de melodrama e personagens bem construídos e complexos. Seu êxito incontestável, porém, mostrou-se uma faca de dois gumes quando seus direitos foram comprados pela DreamWorks: assim como a versão cinematográfica já teria um amplo público-alvo embutido, havia a (enorme) possibilidade de que as mudanças necessárias à transição entre mídias desagradasse justamente a quem poderia fazer do filme um sucesso comercial. Além disso, havia o problema do idioma: até que ponto uma produção hollywoodiana poderia se arriscar e rodar um filme em língua não-inglesa em um mercado tão hermético (para não dizer preguiçoso) a legendas? E quais as probabilidades de um filme com tema tão pesado alcançar um público propenso a blockbusters escapistas? Tais questões - somados a dificuldades logísticas como encontrar locações que fizessem as vezes do Afeganistão, uma vez que, por motivos óbvios, a produção teria problemas em filmar in loco - deixaram as expectativas em torno do resultado final nas alturas. Quando enfim aconteceu a estreia - em outubro de 2017, em festivais de cinema antes do lançamento em larga escala - muitos respiraram aliviados: por mais que a adaptação tenha feito suas previsíveis alterações ao material original, a essência do romance estava intacta nas telas (em especial em seu primeiro e mais controverso ato), a escolha do elenco havia sido certeira e, mais importante ainda, a opção em evitar um filme falado em inglês não parecia afastar a plateia. Com uma renda mundial de aproximadamente 75 milhões de dólares (um sucesso, levando-se em conta sua falta de astros internacionais e sua temática), "O caçador de pipas" repetiu no cinema o sucesso das livrarias.

Talvez o maior acerto de Marc Forster, um cineasta eficiente que consegue transitar entre gêneros e extrair de seus elencos atuações superlativas - foi por suas mãos que Halle Berry levou um Oscar por "A última ceia", de 2001, e Johnny Depp concorreu à estatueta por "Em busca da Terra do Nunca", de 2004 -, foi a escolha dos atores juvenis de sua produção. Elementos cruciais para envolver emocionalmente o espectador, os meninos afegãos selecionados por Forster (sem experiência alguma em cinema) não precisam mais do que alguns minutos em cena para transportar a plateia para o Afeganistão do final dos anos 1970: é lá que moram as memórias mais profundas da vida do escritor Amin (Khalid Abdalla), que, no momento do lançamento de seu primeiro livro nos EUA, se vê obrigado a resgatar lembranças pouco agradáveis de sua infância. Um telefonema o remete imediatamente à época em que, ainda criança (e na pele do sutil Zekeria Ebrahimi) e dando os primeiros passos em sua paixão pelas letras, ele passeava pelas ruas de Cabul sem maiores preocupações na vida a não ser estudar e brincar com o melhor amigo, Hassan (o expressivo Ahmad Khan Mahmoodzada). Filho de um empregado de seu pai e de uma etnia considerada inferior na sociedade afegã, Hassan não é apenas amigo de Amir, mas sim um companheiro de fidelidade que chega às raias da submissão. Depois de um trágico incidente envolvendo Hassan - e que poderia ter sido evitado por Amir, paralisado pela covardia -, a dinâmica de sua relação se transforma, e não demora para que outras situações acabem os separando definitivamente. Em 1979, a URSS invade o Afeganistão, e o pai de Amir (Homayoun Ershadi) - um crítico feroz do comunismo - se vê obrigado a emigrar para os EUA junto com o filho e tentar uma nova vida.

 

Em outro país, Amir insiste em tentar uma carreira de escritor, contando com o apoio do pai (sua única família desde a morte da mãe, em seu nascimento). Casado com Soraya (Atossa Leoni), filha de um general também exilado, Amir parece ter deixado para trás sua vida antiga - ao menos até o telefonema que lhe permite resgatar os erros de seu passado. De volta à sua terra natal - irreconhecível depois de tantos anos e tantas guerras -, o escritor toma conhecimento dos horrores que levaram a família de Hassan a mais uma tragédia - mas dessa vez, dotado de uma coragem surpreendente, ele parte em busca de reparar as atitudes que o empurraram para longe de seu fiel amigo de infância (que ele descobre ser mais do que apenas um amigo). Enfrentando perigos inimagináveis em sua vida ocidental, Amir não apenas busca limpar a consciência, mas também se vê diante de uma nação sufocada por um regime autoritário e triste que não poupa nem mesmo suas crianças.

Criticado por alguns como uma espécie de exaltação da intervenção norte-americana no Oriente Médio, "O caçador de pipas" deve ser visto apenas como um (bom) filme, contado de forma correta e adequadamente comovente. Dirigida com sobriedade por Forster - que também tem no currículo a comédia "Mais estranho que a ficção" (2007), "Guerra Mundial Z" (2013) e "007: Quantum of solace" (2008) - e adaptada com respeito pelo escritor David Benioff, a produção sofre com algumas pequenas quedas de ritmo (em especial na transição entre o segundo e o terceiro atos), mas desafia os perigos de tornar-se sentimental em excesso e desvia com elegância de sequências controversas (que levaram os produtores a transferir os atores mirins para fora do Afeganistão). É um filme que comove por tratar de questões humanas em sua essência, como lealdade, amor, amizade, perdão e remorso. É um filme que envolve por contar com precisão uma história com personagens que são gente de carne e osso, com falhas flagrantes e qualidades redentoras. E é um filme que permanece na memória por jamais subestimar a inteligência e a sensibilidade de seu público. Em comparação com tantas adaptações literárias anêmicas e desrespeitosas, "O caçador de pipas" é uma pérola.

quarta-feira

GUERRA MUNDIAL Z



GUERRA MUNDIAL Z (World War Z, 2013, Paramount Pictures, 116min) Direção: Marc Forster. Roteiro: Matthew Michael Canahan, Drew Goddard, Damon Lindelof, adaptação de Matthew Michael Canahan, J. Michael Straczynski, romance de Max Brooks. Fotografia: Ben Seresin. Montagem: Roger Barton, Matt Cheese. Música: Marco Beltrami. Figurino: Mayes C. Rubino. Direção de arte/cenários: Ben Collins, James Foster/Jennifer Williams. Produção executiva: David Ellison, Marc Forster, Dana Goldberg, Tim Headington, Paul Schwake, Brad Simpson. Produção: Ian Bryce, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Brad Pitt. Elenco: Brad Pitt, Mireille Enos, David Morse, James Badge Dale, Daniella Kertesz, Ludi Boeken, Pierfrancesco Favino, Moritz Bleibtreu. Estreia: 02/6/13

Em uma época em que zumbis viraram mainstream - graças ao sucesso da série de TV "The walking dead" - não é de se admirar que até mesmo Brad Pitt - um dos atores mais confiáveis de Hollywood, incapaz de entrar em um projeto no qual não acredite - tenha aderido à tendência. A boa notícia é que "Guerra Mundial Z", um dos filmes mais caros da história do cinema - ao custo estimado de 400 milhões de dólares - e, segundo consta, com uma história de bastidores das mais complicadas, é um filmaço, capaz de deixar o espectador tenso e grudado na poltrona do início ao fim da projeção. Comandada com surpreendente segurança por Marc Forster - acostumado a produções menos ambiciosas e mais intimistas, como "A última ceia" e "Em busca da Terra do Nunca", mas que teve a experiência de dirigir um filme de James Bond em "007 - Quantum of Solace" - a adaptação bastante livre do livro de Max Brooks (filho de Mel) é capaz de agradar até mesmo àqueles que não são fãs do gênero, graças a um roteiro bem equilibrado, cenas de ação impressionantes e um elenco bem escalado.

O herói do filme - logicamente interpretado pelo sr. Angelina Jolie - é Gerry Lane, agente aposentado da ONU que é chamado às pressas para ajudar a organização quando um vírus desconhecido começa a atacar a população do mundo inteiro. Sem saber as origens ou as características específicas do vírus - que transforma imediatamente os infectados em zumbis ágeis e vorazes - o alto escalão da agência insiste para que Gerry os auxilie em sua busca por maiores informações que possam resultar em uma cura ou vacina para a pandemia. Para manter a família em segurança, ele aceita a missão, que o leva à Coreia do Sul, à Israel e à Moscou - sempre testemunhando sanguinolentas batalhas entre os humanos e os mortos-vivos.


Violento - mas não a ponto de impedir que o público juvenil lote as salas de exibição e garantam sua continuação - e capaz de momentos mais tranquilos - que tentam explicar a situação caótica do mundo em tempos de contaminação - "Guerra Mundial Z" é um filme raro, que sustenta sua ação não apenas em sequências aterrorizantes (e elas realmente o são) mas também em caprichadas cenas dramáticas, que dão o tom de urgência e suspense necessário para seu desenvolvimento. A estrutura do roteiro - que joga Gerry sempre no meio do furacão, lutando por sua vida enquanto tenta encontrar uma saída para a grave crise mundial - segue os livros policiais clássicos, sempre empurrando seu protagonista em direção à verdade através de coadjuvantes bastante interessantes (como o jovem médico que dá a primeira pista a respeito do vírus ou os líderes políticos que podem ou não saber mais do que aparentam). Esses personagens secundários são tão cruciais à trama quanto Gerry, e Forster, como bom diretor de atores, tira o melhor deles, sem deixar de preocupar-se com o que realmente é o ponto forte de seu filme: as impressionantes cenas dos ataques dos zumbis.

Desde a primeira sequência - que começa com um caminhão desgovernado destruindo o que vê pela frente em plena Filadélfia - até o tenso ato final em um laboratório (que deixa qualquer "Resident evil" com vergonha de ter sido feito), "Guerra mundial Z" não poupa os nervos do espectador, praticamente jogando-o dentro da estória - especialmente quando assistido em uma sala com tecnologia IMAX. A fotografia de Ben Seresin e a edição quase histérica são componentes essenciais para que a concepção de Forster atinja seus objetivos: em alguns momentos fica quase impossível saber o que está acontecendo em cena, devido à velocidade da câmera, exatamente como ocorre com as personagens, que só vão realmente ter noção da desgraça quando talvez já seja tarde demais. E se normalmente os zumbis da ficção são morosos e dormentes, aqui a coisa é bem diferente: basta piscar o olho para perder o ataque dos vilões, que apavoram os habitantes das cidades justamente por sua velocidade estonteante.

Visto na tela grande, "Guerra mundial Z" parece exatamente o que é: um filme extremamente caro e complicado. Cada centavo gasto na produção está visível ao público, em momentos intensos que mostram os ataques zumbis e no cuidado com a direção e a técnica. Diferentemente do que acontece com a maioria dos blockbusters, que gasta centenas de milhões em filmes onde não se percebe os motivos para tal, é um produto caprichado, forte e por que não?, inteligente. Pode não o gênero preferido de todo mundo, mas jamais será uma perda de tempo.

sexta-feira

MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO



MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO (Stranger than fiction, 2006, Columbia Pictures, 113min) Direção: Marc Forster. Roteiro: Zach Helm. Fotografia: Roberto Schaefer. Montagem: Matt Cheese. Música: Britt Daniel, Brian Reitzel. Figurino: Frank Fleming. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Ford Wheeler. Produção executiva: Joe Drake, Nathan Kahane, Eric Kopeloff. Produção: Lindsay Doran. Elenco: Will Ferrell, Maggie Gyllenhaal, Emma Thompson, Dustin Hoffman, Queen Latifah. Estreia: 05/10/06 (Festival de Chicago)

Em uma área árida de boas e criativas ideias como Hollywood, um roteiro original e fresco é motivo de grandes celebrações. Não foi à toa que Charlie Kaufman tornou-se um dos mais celebrados autores da primeira década do século, graças a filmes como "Quero ser John Malkovich", "Confissões de uma mente perigosa", "Adaptação" e "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" - que lhe rendeu um justíssimo Oscar. E em sua busca desesperada por nomes capazes de sacudir a indústria, a capital do cinema logo se assanhou com Zach Helm, autor do script de "Mais estranho que a ficção": ao mesclar com inteligência e bom humor a metalinguagem com os conhecidos ingredientes da comédia, o jovem roteirista encantou a crítica especializada, que lhe concedeu o prêmio do National Board Review. Não foi sem motivos, já que seu roteiro é a maior qualidade do filme dirigido por Marc Forster, o homem por trás de obras tão díspares quanto "Em busca da Terra do Nunca", "A última ceia" e "A passagem".

Demonstrando um insuspeito senso de humor, Forster deixa que o roteiro de Helm e seu elenco de sonhos brilhe mais do que sua direção, o que por si só já é um mérito dos maiores. Sem interferir com ângulos complicados ou inovadores, o cineasta é apenas o sóbrio narrador da trajetória de Harold Crick (Will Ferrell no melhor papel de sua carreira), um auditor da Receita Federal que, de uma hora pra outra descobre ser a personagem de um livro que, para seu desespero, está em vias de morrer. Sua descoberta - através da narração de uma voz feminina que ele passa a ouvir repentinamente - o leva a uma busca angustiada atrás de uma solução que ele nem mesmo sabe se existe. Tentando descobrir quem é a autora do romance que narra a sua tediosa vida, ele chega até o veterano professor de Literatura Jules Hilbert (Dustin Hoffman, divertindo-se notadamente no papel), que passa a guiar sua investigação. Enquanto isso, Crick tenta levar sua vida normalmente, mas se apaixona por Ana Pascal (Maggie Gyllenhaal), a dona de uma confeitaria que tem suas próprias ideias a respeito dos impostos cobrados em seu país. Sua nova paixão e a consciência de seu fim próximo levam o antes certinho executivo a mudar a sua vida.


Além de contar com a ajuda preciosa de Ferrell e Hoffman, "Mais estranho que a ficção" tem ainda uma trama paralela tão interessante (ou até mais) do que as desventuras de Harold Crick. Na pele de uma Emma Thompson sem maquiagem e desprovida do humor ácido que a caracteriza, a escritora Karen Eiffel é talvez a melhor personagem criada por Zach Helm. Mentora do romance que conta a vida de Crick, ela é insegura, melancólica e utiliza sua profissão e talento em criar ficção para fugir de sua própria existência um tanto solitária e é genial a maneira com que a narrativa do filme vai inserindo o espectador dentro de sua mente, imaginando o desfecho trágico que se anuncia no início do filme - e que pode ou não ser alterado de acordo com a imaginação da autora.

Fugindo das gargalhadas óbvias - o que a presença de Will Ferrell como protagonista poderia fazer pressupor - "Mais estranho que a ficção" é quase uma comédia de humor negro com toques de uma melancolia muito bem-vinda. Ao utilizar com propriedade ingredientes de outros gêneros caros ao público - comédia romântica e até um pouco de suspense - o filme de Forster o confirma como um cineasta pau-pra-toda-obra, característica também de seu contemporâneo James Mangold. Logo depois desse híbrido um tanto estranho mas muito eficaz, ele assinaria o drama "O caçador de pipas" e o 007 "Quantum of solace". Nada mal para um diretor chamado pejorativamente de "sem estilo".

domingo

A PASSAGEM

A PASSAGEM (Stay, 2005, 20th Century Fox, 99min) Direção: Marc Forster. Roteiro: David Benioff. Fotografia: Roberto Schaefer. Montagem: Matt Chesse. Música: Asche & Spencer. Figurino: Frank L. Fleming. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/George De Titta Jr. Produção executiva: Bill Carraro, Guymon Casady. Produção: Eric Kopeloff, Tom Lassally, Arnon Milchan. Elenco: Ewan McGregor, Naomi Watts, Ryan Gosling, Janeane Garofalo, Bob Hoskins. Estreia: 21/10/05

Hollywood é um lugar muito estranho. Filmes de suspense onde roteiros servem apenas para indicar às personagens em que hora gritar e bater no vilão clichê levam multidões às salas de cinema, e obras interessantes e criativas como "A passagem" - título nacional meio bobo - são praticamente ignoradas, apesar do elenco com nomes populares. Dirigido pelo mesmo Marc Forster que comandou os celebrados "A última ceia" e "Em busca da Terra do Nunca", o filme estrelado por Ewan McGregor e Naomi Watts - além de um ainda desconhecido Ryan Gosling - é um suspense inteligente e intrigante, que mantém o público preso em sua trama até os minutos finais. E se Forster consegue fazer do roteiro do escritor David Benioff um belíssimo filme é de se imaginar as misérias que David Fincher - primeiro nome a ser cotado para a direção - conseguiria fazer.

Diretor competente mas jamais brilhante, Forster extrapola todos os seus limites em "A passagem", que lhe dá base para fugir do naturalismo e do academicismo de seus trabalhos anteriores ao contar uma história que, a princípio, soa absolutamente surreal - mas que faz todo sentido do mundo em seus minutos finais. Brincando de David Lynch (porém sem a profundidade psicológica de suas personagens), Forster mergulha sem medo em um mundo bizarro e esquisito que embaralha realidade e alucinação na medida certa - e que conta com o mais apurado visual de seu currículo até então.

 

O filme começa quando o terapeuta Sam Foster (Ewan McGregor) é chamado para substituir uma colega que está em depressão e atender ao jovem Henry Letham (Ryan Gosling já mostrando o monstro de ator que se revelaria em poucos anos), um rapaz melancólico e problemático que lhe promete cometer suicídio em poucos dias. Na tentativa de evitar tal desenlace - que lhe remete à tentativa feita por sua namorada (Naomi Watts) - Foster corre para investigar a vida e a rotina de Letham, que utiliza seu talento como pintor para expressar sua tristeza e suas dúvidas existenciais. Conforme o tempo vai passando - e a data da morte programada do jovem se aproximando - o psiquiatra começa a questionar sua própria sanidade mental.

O melhor a se fazer em relação a "A passagem" é saber o menos possível a seu respeito antes do início da projeção. As pistas deixadas pelo roteiro de Benioff - e que serão encaixadas mais tarde em uma sequência editada com perfeição - parecem confusas e sem sentido a maior parte do tempo, lembrando muito os pesadelos em forma de celulóide perpetrados por David Lynch, mas permitem a Marc Forster demonstrar que ainda é um exímio diretor de atores. Se Ewan McGregor e Naomi Watts não precisam mais provar nada a ninguém - mesmo que dela pouco seja exigido no filme - Ryan Gosling rouba a cena como o desajustado Henry Letham e as participações pequenas mas cruciais de Bob Hoskins e Janeane Garofalo deixam tudo ainda mais intrigante e tenso - isso sem falar na angustiante sequência em que Sam precisa lidar com a mãe e o cachorro de Letham.

"A passagem" é um filme que não fez o barulho que merecia. Mas que precisa ser descoberto como um dos suspenses mais criativos e inteligentes de sua época.

quinta-feira

EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA




EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA (Finding Neverland, 2004, Miramax Films, 106min) Direção: Marc Foster. Roteiro: David Magee, peça teatral "The man who was Peter Pan", de Allan Knee. Fotografia: Robert Schaefer. Montagem: Matt Cheesee. Música: Jon A. P. Kaczmarek. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Gemma Jackson/Trisha Edwards. Produção executiva: Gary Binkow, Neal Israel, Michelle Shy, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Nellie Bellflower, Richard N. Gladstein. Elenco: Johnny Depp, Kate Winslet, Dustin Hoffman, Julie Christie, Radha Mitchell, Freddie Highmore, Kelly McDonald, Ian Hart. Estreia: 04/9/04 (Festival de Veneza)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Johnny Depp), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Montagem, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original

É fácil emocionar a plateia quando se fala de temas comoventes como fantasia, doenças fatais e crianças em busca da felicidade e inocência eternas. Mas é difícil tocar nesses assuntos sem escorregar rumo à pieguice e ao sentimentalismo barato. Por isso não deixa de ser louvável o fato de Marc Foster – do econômico “A última ceia” – ter transformado “Em busca da Terra do Nunca”, um roteiro repleto de armadilhas emocionais, em um filme delicado sem exageros e em uma obra ingênua sem ser simplória. Indicado a sete Oscar – inclusive de Melhor Filme – a adaptação da peça teatral de Allan Knee levou apenas a estatueta de Trilha Sonora, mas ganhou audiências do mundo inteiro graças a suas qualidades inegáveis.

A trama se passa em Londres, em 1903, quando o dramaturgo James Barrie (um Johnny Depp controlado mas inexplicavelmente indicado ao Oscar de melhor ator) está amargando um grande fracasso de crítica e público. Pressionado por seu empresário (uma simpática participação de Dustin Hoffman) e por sua esposa Mary (Radha Mitchell), ele passa horas de seu dia em um parque da cidade, aguardando por inspiração. Ela surge de maneira imprevisível quando ele conhece a bela viúva Sylvia Llewelyn Davies (Kate Winslet excelente como sempre) e seus quatro filhos pequenos. Fascinado pela família que luta contra suas dificuldades financeiras, Barrie começa a escrever uma peça de teatro em que conta a história de um menino que se recusa a crescer, unindo a suas idéias elementos bastante diferentes como fadas, piratas e crocodilos. Quando a estréia está prestes a acontecer, o escritor tem que lidar com a doença fatal de Sylvia e de como esse fato irá repercutir junto ao pequeno Peter (a revelação Freddie Highmore), o mais sensível e carente de seus filhos.

         

É quase impossível não render-se à simpatia de “Em busca da Terra do Nunca”. O roteiro equilibrado de David Magee conquista pelo humor, pela delicadeza e até mesmo pela emoção, passando perto de tornar-se lacrimoso. Graças à engenhosidade do diretor e do editor Matt Chesse, as histórias de Barrie e sua esposa e de sua relação com a família Davies nunca chegam a se atropelar, e o mundo de fantasia criado pelo escritor junto às crianças serve como metáfora de uma forma de escape do mundo injusto e triste a que elas são obrigadas a submeter-se. Ancorado em um elenco em plena sintonia, o roteiro prende a atenção do público, para então entregar-lhe um final arrasador, de arrancar lágrimas do mais empedernido ser humano.

Pode até parecer bobinho, superficial e sentimentaloide, mas "Em busca da Terra do Nunca" é muito mais do que isso: é uma obra centrada em pessoas, seres humanos buscando fugir de uma realidade triste e acinzentada em busca de um lugar colorido, onde fadas convivem harmoniosamente com crianças que não querem nunca crescer e descobrir sua finitude. Uma pequena obra-prima!

quarta-feira

A ÚLTIMA CEIA


A ÚLTIMA CEIA (Monster's ball, 2001, Lions Gate Films, 111min) Direção: Marc Forster. Roteiro: Milo Addica, Will Rokos. Fotografia: Roberto Schaefer. Montagem: Matt Chessé. Música: Asche and Spencer. Figurino: Frank Fleming. Direção de arte/cenários: Monroe Kelly/Leonard R. Spears. Produção executiva: Michael Burns, Michael Paseornek. Elenco: Billy Bob Thornton, Halle Berry, Heath Ledger, Peter Boyle, Sean Combs, Mos Def, Coronji Calhoun. Estreia: 26/12/01

2 indicações ao Oscar: Atriz (Halle Berry), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Halle Berry)

Halle Berry foi a primeira (e até agora a única) negra a ganhar o Oscar de Melhor Atriz, abrindo um importante precedente na história do cinema. Bela e sensual, ela despojou-se de todo o seu arsenal sedutor para encarar sua personagem em "A última ceia", uma viúva amargurada e com uma vida infeliz, que se envolve em um romance melancólico com um homem igualmente desesperançado. Seu trabalho intenso e forte mereceu a estatueta, ainda que o fato de ela ter levado o prêmio no mesmo ano em que Denzel Washington foi eleito o Melhor Ator pelo banal "Dia de treinamento" tenha sido considerado por muitos como um ato de diplomacia da formal Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Especulações paranoicas à parte, a atuação de Berry é, sem dúvida, um atrativo e tanto ao filme de Marc Foster, um trabalho pesado, denso e dono de um ritmo que foge léguas dos dramas mais convencionais que costumam ganhar o Oscar. Ela vive Leticia, uma garçonete que acaba de ficar viúva do criminoso Lawrence Musgrove (o cantor Sean "Puff Daddy" Combs, se saindo melhor do que se poderia esperar), executado na cadeira elétrica. Como se viver ameaçada de despejo e ter perdido o marido em circunstâncias tão cruéis não fosse o suficiente, Leticia ainda passa por uma outra experiência devastadora, o que a leva a travar conhecimento com Hank Grotoski (Billy Bob Thornton), que acaba de passar por uma tragedia envolvendo seu filho único, Sonny (Heath Ledger começando a demonstrar que era um excelente ator), com quem mantinha uma relação fria e de quase ódio. Os dois começam uma relação baseada no apoio mútuo, mas, além de ter que enfrentar o racismo de Buck (Peter Boyle), pai de Hank - e até dele mesmo - Leticia também terá de enfrentar a revelação de que Hank e seu filho foram os guardas responsáveis pelos últimos dias de seu marido na prisão.

"A última ceia" não é um filme leve e recomendável a quem procura dramas pasteurizados ao estilo "Filme da Semana". Sem dar espaço para um mínimo de senso de humor ou leveza - até mesmo suas polêmicas cenas de sexo são secas, duras, sem glamour ou qualquer tipo de romantismo - o roteiro narra o encontro de seus protagonistas como uma válvula de escape, a última chance de viverem seus dias com menos peso e tristeza. Os personagens defendidos por Berry e Thornton (em um ano excepcional que também ofereceu a ele os filmes "O homem que não estava lá" e "Vida bandida") são duas pessoas desencantadas e cansadas da vida que levam, e isso se reflete em seus olhares desprovidos de empolgação ou paixão. Billy Bob vive um Hank cuja vida não passa de um dia-a-dia enfadonho e que vislumbra em Leticia uma possibilidade de redenção (e uma prova para si mesmo de que é capaz de sentir algo mais do que desprezo). Hale Berry interpreta Leticia como uma mulher que precisa de sustentação, de alguém que a apoie, de um respiro de tranquilidade e paz. E a cena final, de uma sutileza ímpar no cinema americano talvez incomode àqueles que procuram roteiros simplistas. Mas tem uma verdade e uma honestidade difícil de se encontrar em filmes comerciais.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...