BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS (The dark knight, 2008, Warner
Bros, 152min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan,
Jonathan Nolan, estória de Christopher Nolan, David S. Goyer,
personagens de Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith.
Música: James Newton Howard, Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming.
Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Peter Lando. Produção
executiva: Kevin de La Noy, Benjamin Melniker, Thomas Tull, Michael E.
Uslan. Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco:
Christian Bale, Heath Ledger, Maggie Gyllenhaal, Morgan Freeman, Aaron
Eckhart, Michael Caine, Cillian Murphy, Anthony Michael Hall. Estreia:
14/7/08
8 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante
(Heath Ledger), Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Efeitos
Visuais, Maquiagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Heath Ledger), Edição de Som
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Heath Ledger)
Em
2005, o cineasta Christopher Nolan provou a todos que o fracasso dos
filmes "Batman eternamente" e "Batman & Robin" eram unicamente
culpa da concepção equivocada do diretor Joel Schumacher - que os
transformou em ridículas alegorias carnavalescas e aniquilou qualquer
complexidade da personagem - do que de um possível desinteresse da
plateia por novas aventuras do heroi mascarado. Ao recuperar o
tom sombrio da criação de Bob Kane, dando a seu "Batman begins" a
seriedade apropriada, o autor de filmes criativos e inteligentes como
"Amnésia" e "Insônia" não apenas imprimiu ao trabalho sua assinatura
como também conquistou uma nova legião de fãs, deixando de lado a versão
cartunesca de Tim Burton e cafona de Schumacher. O melhor na história
toda, porém, é que esse primeiro capítulo, a despeito de suas inúmeras
qualidades, foi apenas o prelúdio para aquele que Nolan transformaria na
mais espetacular adaptação da personagem para as telas em seu segundo
capítulo: mais longo, mais anabolizado e nem por isso menos inteligente e
empolgante, "Batman: o cavaleiro das trevas" é ainda melhor do que o
seu original - e, não à toa, rendeu extraordinários 533 milhões de
dólares somente no mercado doméstico, tornando-se uma das maiores bilheterias da
história. Nada mais justo e merecido!
Ao contrário da maioria das adaptações de quadrinhos para o cinema, que dão prioridade às cenas de ação e a piadinhas de gosto duvidoso, "Batman: o cavaleiro das trevas" - assim como seu antecessor - leva sua trama a sério, injetando complexidade narrativa e densidade psicológica a seus personagens sem sacrificar aquilo que a plateia mais anseia: sequências de pura adrenalina, filmadas com o melhor que um orçamento milionário pode oferecer (e um diretor de imenso talento como Nolan pode proporcionar). Sendo assim, nem mesmo a longa duração do filme (duas horas e meia) consegue atrapalhar a diversão - equilibrada com maestria pela direção, pelo roteiro impecável e pela escalação extraordinária do elenco (que substituiu acertadamente a chatinha Katie Holmes pela ótima Maggie Gyllenhaal no papel crucial de Rachel Dawes, a amada do heroi mascarado que é a catalisadora do clímax inesperado e sanguinolento do final, capaz de surpreender àqueles que não conhecem de cabo a rabo todas as histórias de Batman nos quadrinhos).
Um dos maiores destaques de "Batman: o cavaleiro das trevas" é, sem sombra de dúvida, a atuação nunca aquém de espetacular de Heath Ledger naquele que seria seu último filme completo - ele ainda foi visto no bizarro "O mundo imaginário do Dr. Parnassus", de Terry Gillian, mas não chegou a finalizar as filmagens, morrendo de overdose de drogas autorizadas em janeiro de 2008. Na pele do doentio Coringa, o jovem ator australiano revelado na comédia adolescente "10 coisas que eu odeio em você" deixa para trás a caracterização clássica de Jack Nicholson no filme de 1989 dirigido por Tim Burton e cria um vilão inesquecível já em sua primeira cena - um assalto a banco que termina em violência e que dá o tom exato da história a ser contada. Usando e abusando de trejeitos que dão a seu personagem uma personalidade única, Ledger tornou-se apenas o segundo ator a receber um Oscar póstumo - depois do veterano Peter Finch, de "Rede de intrigas" - em uma premiação que jamais deve ser creditada à emoção dos eleitores: seu trabalho é fascinante, escapando fácil dos clichês do gênero e atingindo um nível poucas vezes vista em filmes do gênero.
E a história, afinal, qual é? Basta dizer que Batman (mais uma vez interpretado por Christian Bale) continua aterrorizando os criminosos de Gotham City, apesar das dúvidas que circundam suas intenções. Quando um novo promotor público, Harvey Dent (Aron Eckhart) é eleito, Bruce Wayne - para quem não sabe a verdadeira identidade do heroi) - respira aliviado, acreditando que as coisas finalmente começarão a mudar em sua metrópole. Suas esperanças começam a mostrar-se infundadas, porém, quando um misterioso fora-da-lei auto-nomeado Coringa surge, disposto a disseminar o caos e a violência - e enfrentar Batman cara a cara.
Apesar da sinopse soar como mais do mesmo, "Batman: o cavaleiro das trevas" tem um roteiro inteligente, que jamais se deixa cair nas armadilhas fáceis de um blockbuster, buscando, pelo contrário, exigir do espectador mais do que o corriqueiro nos filmes do gênero. Essa sua qualidade acabou despertando polêmicas quando a Academia indicou-lhe a oito estatuetas, mas ignorou-o nas categorias mais importantes, como melhor filme e diretor. A gritaria dos fãs de certa forma incentivou o aumento do número de filmes indicados na categoria principal a partir do ano seguinte - em uma tentativa dos acadêmicos de aproximar o público mais jovem da cerimônia de entrega dos prêmios (e que ainda não se mostrou muito eficaz). O fato, porém, é que o filme de Nolan tinha qualidades suficientes para ser lembrado como um dos melhores de seu ano. Pode não ter sido um grande vencedor do Oscar, mas é, certamente, adorado pelos fãs.
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O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN
O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN (Brokeback Mountain, 2005, Focus Features, 134min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Larry McMurtry, Diana Ossana, conto de Anne Proulx. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Geraldine Peroni, Dylan Tichenor. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Patricia Cuccia, Catherine Davis. Produção executiva: Michael Hausman, Larry McMurtry, William Pohlad. Produção: Diana Ossana, James Schamus. Elenco: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams, Anne Hathaway, Randy Quaid, Linda Cardelini, Anna Faris, David Harbour, Kate Mara. Estreia: 02/9/05 (Festival de Veneza)
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ang Lee), Ator (Heath Ledger), Ator Coadjuvante (Jake Gyllenhaal), Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Ang Lee), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Ang Lee), Roteiro, Canção ("A love that will never grow old")
Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza
Para meu Yodinha....
A lista de prêmios que "O segredo de Brokeback Mountain" arrebatou em todo e qualquer segmento crítico na temporada 2006 só deixa ainda mais explícito o que qualquer fã de cinema com um mínimo de discernimento enxerga de longe: não há outra explicação para que a obra-prima de Ang Lee não tenha levado também o Oscar de Melhor Filme senão puro e simples preconceito. Seria demais pedir que os veteranos membros da Academia de Hollywood - tão arraigados a valores antigos e defasados - abraçassem a causa de um filme que, mesmo falando do mais nobre dos sentimentos (o amor), o faz colocando como protagonistas não um casal considerado "apropriado" ao consumo de massa que não ameaça a tradição e sim dois homens viris, fortes e cientes de sua masculinidade que, mesmo assim, não resistem ao apelo de seus desejos e de sua paixão. Como resultado, a estatueta de melhor filme do ano foi parar nas mãos do medíocre "Crash, no limite" - que brincava de ser corajoso com sua temática anti-racismo e provavelmente virará apenas nota de rodapé da história do cinema com seu amontoado de clichês.
Ao contrário disso, "O segredo de Brokeback Mountain" é cinema em estado puro, é poesia em celulóide, é drama tão real como a vida. Independente da orientação sexual de seu espectador, é difícil não se deixar emocionar com a história do conto da escritora Anne Proulx, publicado em 1997 pela revista New Yorker. Depois de despertar o interesse de cineastas como Joel Schumacher e Gus Van Sant - ambos homossexuais assumidos, o que talvez desse um tom mais panfletário e menos sutil à narrativa - o roteiro finalmente chegou às mãos de Ang Lee, conhecido por injetar humanismo mesmo em projetos comerciais como a adaptação de "Hulk" para os cinemas (cujo fracasso talvez tenha vindo justamente dessa tendência ao drama pessoal ao invés do espetáculo). Autor de obras consagradas pela critica como "Razão e sensibilidade", "Tempestade de gelo" e "O tigre e o dragão" - que, sem exceção, tinham na força das personagens seu maior destaque - Lee deu às palavras de Proulx a profundidade que somente seu talento em vislumbrar a alma humana poderia conseguir. E para isso teve também a sorte de contar com um elenco nunca aquém de espetacular.

Vindo de filmes que oscilavam entre o bobo - "10 coisas que eu odeio em você" - e o pretensamente épico - "O patriota" - o australiano Heath Ledger deu um salto fenomenal em sua carreira na pele de Ennis Del Mar, que lhe rendeu elogios rasgados e uma indicação ao Oscar de melhor ator. Seu trabalho é intenso, forte e perturbador, como um homem que luta contra os próprios instintos por não ter a capacidade de lutar contra si mesmo - a ponto de usar da violência física como arma de autodestruição. Como Jack Twist, o jovem Jake Gyllenhaal também atingiu o auge de sua carreira - que incluía o sombrio "Donnie Darko" e o elogiado "Soldado anônimo": seu trabalho como o lado romântico e idealista do casal é delicado na medida certa, nunca escapando para o afetado ou o exagerado. Sua indicação ao Oscar na categoria de coadjuvante, porém, é questionável, uma vez que é tão protagonista quanto Ledger. E se os protagonistas são excepcionais, o mesmo pode-se dizer de suas companheiras de cena: Anne Hathaway e Michelle Williams nunca estiveram tão bem quanto em suas interpretações das esposas relegadas a um melancólico segundo plano na vida de seus maridos. Williams em especial merece aplausos por suas cenas encharcadas de tensão e tristeza - é antológico o momento em que flagra o apaixonado beijo entre seu marido e o melhor amigo.
Fotografado magistralmente e ilustrado com uma trilha sonora de deixar qualquer um arrepiado, "O segredo de Brokeback Mountain" é um filme raro, daqueles que só acontecem quando todas as estrelas estão alinhadas. Não fala apenas de um casal gay: fala de solidão, de tolerância, de preconceito, de autoaceitação. Mas fala principalmente sobre amor, mesmo que ele traga dor e angústia. É provavelmente a mais importante história de amor da década. Quem precisa de um Oscar?
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ang Lee), Ator (Heath Ledger), Ator Coadjuvante (Jake Gyllenhaal), Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Ang Lee), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Ang Lee), Roteiro, Canção ("A love that will never grow old")
Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza
Para meu Yodinha....
A lista de prêmios que "O segredo de Brokeback Mountain" arrebatou em todo e qualquer segmento crítico na temporada 2006 só deixa ainda mais explícito o que qualquer fã de cinema com um mínimo de discernimento enxerga de longe: não há outra explicação para que a obra-prima de Ang Lee não tenha levado também o Oscar de Melhor Filme senão puro e simples preconceito. Seria demais pedir que os veteranos membros da Academia de Hollywood - tão arraigados a valores antigos e defasados - abraçassem a causa de um filme que, mesmo falando do mais nobre dos sentimentos (o amor), o faz colocando como protagonistas não um casal considerado "apropriado" ao consumo de massa que não ameaça a tradição e sim dois homens viris, fortes e cientes de sua masculinidade que, mesmo assim, não resistem ao apelo de seus desejos e de sua paixão. Como resultado, a estatueta de melhor filme do ano foi parar nas mãos do medíocre "Crash, no limite" - que brincava de ser corajoso com sua temática anti-racismo e provavelmente virará apenas nota de rodapé da história do cinema com seu amontoado de clichês.
Ao contrário disso, "O segredo de Brokeback Mountain" é cinema em estado puro, é poesia em celulóide, é drama tão real como a vida. Independente da orientação sexual de seu espectador, é difícil não se deixar emocionar com a história do conto da escritora Anne Proulx, publicado em 1997 pela revista New Yorker. Depois de despertar o interesse de cineastas como Joel Schumacher e Gus Van Sant - ambos homossexuais assumidos, o que talvez desse um tom mais panfletário e menos sutil à narrativa - o roteiro finalmente chegou às mãos de Ang Lee, conhecido por injetar humanismo mesmo em projetos comerciais como a adaptação de "Hulk" para os cinemas (cujo fracasso talvez tenha vindo justamente dessa tendência ao drama pessoal ao invés do espetáculo). Autor de obras consagradas pela critica como "Razão e sensibilidade", "Tempestade de gelo" e "O tigre e o dragão" - que, sem exceção, tinham na força das personagens seu maior destaque - Lee deu às palavras de Proulx a profundidade que somente seu talento em vislumbrar a alma humana poderia conseguir. E para isso teve também a sorte de contar com um elenco nunca aquém de espetacular.

Vindo de filmes que oscilavam entre o bobo - "10 coisas que eu odeio em você" - e o pretensamente épico - "O patriota" - o australiano Heath Ledger deu um salto fenomenal em sua carreira na pele de Ennis Del Mar, que lhe rendeu elogios rasgados e uma indicação ao Oscar de melhor ator. Seu trabalho é intenso, forte e perturbador, como um homem que luta contra os próprios instintos por não ter a capacidade de lutar contra si mesmo - a ponto de usar da violência física como arma de autodestruição. Como Jack Twist, o jovem Jake Gyllenhaal também atingiu o auge de sua carreira - que incluía o sombrio "Donnie Darko" e o elogiado "Soldado anônimo": seu trabalho como o lado romântico e idealista do casal é delicado na medida certa, nunca escapando para o afetado ou o exagerado. Sua indicação ao Oscar na categoria de coadjuvante, porém, é questionável, uma vez que é tão protagonista quanto Ledger. E se os protagonistas são excepcionais, o mesmo pode-se dizer de suas companheiras de cena: Anne Hathaway e Michelle Williams nunca estiveram tão bem quanto em suas interpretações das esposas relegadas a um melancólico segundo plano na vida de seus maridos. Williams em especial merece aplausos por suas cenas encharcadas de tensão e tristeza - é antológico o momento em que flagra o apaixonado beijo entre seu marido e o melhor amigo.
Fotografado magistralmente e ilustrado com uma trilha sonora de deixar qualquer um arrepiado, "O segredo de Brokeback Mountain" é um filme raro, daqueles que só acontecem quando todas as estrelas estão alinhadas. Não fala apenas de um casal gay: fala de solidão, de tolerância, de preconceito, de autoaceitação. Mas fala principalmente sobre amor, mesmo que ele traga dor e angústia. É provavelmente a mais importante história de amor da década. Quem precisa de um Oscar?
quarta-feira
A ÚLTIMA CEIA
A ÚLTIMA CEIA (Monster's ball, 2001, Lions Gate Films, 111min) Direção: Marc Forster. Roteiro: Milo Addica, Will Rokos. Fotografia: Roberto Schaefer. Montagem: Matt Chessé. Música: Asche and Spencer. Figurino: Frank Fleming. Direção de arte/cenários: Monroe Kelly/Leonard R. Spears. Produção executiva: Michael Burns, Michael Paseornek. Elenco: Billy Bob Thornton, Halle Berry, Heath Ledger, Peter Boyle, Sean Combs, Mos Def, Coronji Calhoun. Estreia: 26/12/01
2 indicações ao Oscar: Atriz (Halle Berry), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Halle Berry)
Halle Berry foi a primeira (e até agora a única) negra a ganhar o Oscar de Melhor Atriz, abrindo um importante precedente na história do cinema. Bela e sensual, ela despojou-se de todo o seu arsenal sedutor para encarar sua personagem em "A última ceia", uma viúva amargurada e com uma vida infeliz, que se envolve em um romance melancólico com um homem igualmente desesperançado. Seu trabalho intenso e forte mereceu a estatueta, ainda que o fato de ela ter levado o prêmio no mesmo ano em que Denzel Washington foi eleito o Melhor Ator pelo banal "Dia de treinamento" tenha sido considerado por muitos como um ato de diplomacia da formal Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.
Especulações paranoicas à parte, a atuação de Berry é, sem dúvida, um atrativo e tanto ao filme de Marc Foster, um trabalho pesado, denso e dono de um ritmo que foge léguas dos dramas mais convencionais que costumam ganhar o Oscar. Ela vive Leticia, uma garçonete que acaba de ficar viúva do criminoso Lawrence Musgrove (o cantor Sean "Puff Daddy" Combs, se saindo melhor do que se poderia esperar), executado na cadeira elétrica. Como se viver ameaçada de despejo e ter perdido o marido em circunstâncias tão cruéis não fosse o suficiente, Leticia ainda passa por uma outra experiência devastadora, o que a leva a travar conhecimento com Hank Grotoski (Billy Bob Thornton), que acaba de passar por uma tragedia envolvendo seu filho único, Sonny (Heath Ledger começando a demonstrar que era um excelente ator), com quem mantinha uma relação fria e de quase ódio. Os dois começam uma relação baseada no apoio mútuo, mas, além de ter que enfrentar o racismo de Buck (Peter Boyle), pai de Hank - e até dele mesmo - Leticia também terá de enfrentar a revelação de que Hank e seu filho foram os guardas responsáveis pelos últimos dias de seu marido na prisão.
"A última ceia" não é um filme leve e recomendável a quem procura dramas pasteurizados ao estilo "Filme da Semana". Sem dar espaço para um mínimo de senso de humor ou leveza - até mesmo suas polêmicas cenas de sexo são secas, duras, sem glamour ou qualquer tipo de romantismo - o roteiro narra o encontro de seus protagonistas como uma válvula de escape, a última chance de viverem seus dias com menos peso e tristeza. Os personagens defendidos por Berry e Thornton (em um ano excepcional que também ofereceu a ele os filmes "O homem que não estava lá" e "Vida bandida") são duas pessoas desencantadas e cansadas da vida que levam, e isso se reflete em seus olhares desprovidos de empolgação ou paixão. Billy Bob vive um Hank cuja vida não passa de um dia-a-dia enfadonho e que vislumbra em Leticia uma possibilidade de redenção (e uma prova para si mesmo de que é capaz de sentir algo mais do que desprezo). Hale Berry interpreta Leticia como uma mulher que precisa de sustentação, de alguém que a apoie, de um respiro de tranquilidade e paz. E a cena final, de uma sutileza ímpar no cinema americano talvez incomode àqueles que procuram roteiros simplistas. Mas tem uma verdade e uma honestidade difícil de se encontrar em filmes comerciais.
sexta-feira
10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ
10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ (10 things I hate about you, 1999, Touchstone Pictures, 97min) Direção: Gil Junger. Roteiro: Karen McCullah Lutz, Kirsten Smith, peça teatral "A megera domada", de William Shakespeare. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: O. Nicholas Brown. Música: Richard Gibbs. Figurino: Kimberly A. Tillman. Direção de arte/cenários: Carol Winstead Wood/Charles Graffeo. Produção executiva: Jeffrey Chernov, Seth Jaret. Produção: Andrew Lazar. Elenco: Heath Ledger, Julia Stiles, Joseph Gordon-Levitt, Larisa Oleynik, David Krumholtz, Andrew Keegan, Allison Janney. Estreia: 31/3/99
A primeira vez em que o ator australiano Heath Ledger chamou a atenção dos frequentadores de cinema foi na pele de Patrick Verona, o rebelde com cara de mau de "10 coisas que eu odeio em você", uma despretensiosa comédia romântica inspirada em "A megera domada", de Shakespeare. Antes mesmo de encantar a plateia com seu Ennis Del Mar de "O segredo de Brokeback Mountain", chocar o mundo com sua morte precoce ou ser um dos raros atores a levar um Oscar póstumo - por sua brilhante atuação em "Batman, o Cavaleiro das Trevas", ele já demonstrava que, por trás de um adolescente enfurecido, havia um ator de alto gabarito. Não é por morbidez de espécie alguma, mas é Ledger a principal atração do filme de Gil Junger, que, no saldo final, não vai muito além das comédias juvenis que volta e meia fabricam novos (e efêmeros) ídolos.
O jovem Cameron James (Joseph Gordon-Levitt, uma década antes de ser reconhecido por "(500) dias com ela") chega à Escola Pádua e logo de cara se apaixona pela bela e quase fútil Bianca Stratford (Larisa Oleynik). Seus planos de conquistá-la caem por terra, no entanto, quando seu cicerone na escola, Michael (David Krumholtz) deixa bem claro que ela é um amor impossível. Além de cobiçada por metade dos colegas, ela é a irmã caçula da detestada Kat (Julia Stiles), uma garota mal-humorada e briguenta que desperta raiva e desprezo de todos. Ao saber que Bianca só poderá sair com rapazes quando sua irmã também o fizer, Cameron tem a brilhante ideia de contratar alguém para o sacrifício. O escolhido é Patrick Verona (Heath Ledger), que, segundo lendas que o desenham como praticamente um marginal, é a pessoa mais apropriada para lidar com a jovem megera. Precisando de dinheiro, Patrick aceita a proposta e passa a assediar Kat, que logo cede a seus encantos grosseiros. Quando eles se descobrem apaixonados, porém, a farsa ameaça vir à tona.

O que diferencia "10 coisas que eu odeio em você" de seus congêneres é a boa vontade do roteiro em homenagear a obra de William Shakespeare (sempre uma homenagem justa). A base da trama é, logicamente, "A megera domada", mas encontra-se ecos de "Romeu e Julieta", "Hamlet" e alguns sonetos, além de referências ao local de nascimento do bardo, através do sobrenome - Stratford - da protagonista. Também é bastante divertido o romance entre Mandella (Susan May Pratt), a melhor amiga de Kat, com o atrapalhado Michael (David Krumholtz), que utiliza da paixão da menina pelo dramaturgo inglês para seduzí-la. Ao contrário de muitas comédias para adolescentes, no filme de Junger os coadjuvantes também tem função importante na narrativa, não servindo apenas de escada para piadas sem graça. Aqui, o humor é um nível acima do corriqueiro, ainda que isso não signifique que seja brilhante ou imperdível - e em alguns momentos emperra na nulidade dramática de sua atriz central.
Enquanto Heath Ledger - que bateu Ashton Kutscher e Josh Hartnett na disputa pelo papel principal - seduz a audiência com seu rude Patrick Verona, sua companheira de cena nunca ultrapassa o comum. Julia Stiles não é particularmente bonita nem tampouco é boa atriz. Seu desempenho chega a atrapalhar o resultado final do filme, que fica capenga em algumas cenas cruciais - em especial no clímax que justifica o título. Ao lado de gente talentosa como Ledger e Gordon-Levitt, a jovem que seria figurinha carimbada nas comédias românticas do final dos anos 90 mostra toda as suas deficiências. Porém, se for levado em consideração que analisar talento dramático é a última coisa que o público-alvo do filme pretende, "10 coisas que eu odeio em você" funciona muito bem. É um dos melhores produtos direcionados ao público jovem de sua época.
A primeira vez em que o ator australiano Heath Ledger chamou a atenção dos frequentadores de cinema foi na pele de Patrick Verona, o rebelde com cara de mau de "10 coisas que eu odeio em você", uma despretensiosa comédia romântica inspirada em "A megera domada", de Shakespeare. Antes mesmo de encantar a plateia com seu Ennis Del Mar de "O segredo de Brokeback Mountain", chocar o mundo com sua morte precoce ou ser um dos raros atores a levar um Oscar póstumo - por sua brilhante atuação em "Batman, o Cavaleiro das Trevas", ele já demonstrava que, por trás de um adolescente enfurecido, havia um ator de alto gabarito. Não é por morbidez de espécie alguma, mas é Ledger a principal atração do filme de Gil Junger, que, no saldo final, não vai muito além das comédias juvenis que volta e meia fabricam novos (e efêmeros) ídolos.
O jovem Cameron James (Joseph Gordon-Levitt, uma década antes de ser reconhecido por "(500) dias com ela") chega à Escola Pádua e logo de cara se apaixona pela bela e quase fútil Bianca Stratford (Larisa Oleynik). Seus planos de conquistá-la caem por terra, no entanto, quando seu cicerone na escola, Michael (David Krumholtz) deixa bem claro que ela é um amor impossível. Além de cobiçada por metade dos colegas, ela é a irmã caçula da detestada Kat (Julia Stiles), uma garota mal-humorada e briguenta que desperta raiva e desprezo de todos. Ao saber que Bianca só poderá sair com rapazes quando sua irmã também o fizer, Cameron tem a brilhante ideia de contratar alguém para o sacrifício. O escolhido é Patrick Verona (Heath Ledger), que, segundo lendas que o desenham como praticamente um marginal, é a pessoa mais apropriada para lidar com a jovem megera. Precisando de dinheiro, Patrick aceita a proposta e passa a assediar Kat, que logo cede a seus encantos grosseiros. Quando eles se descobrem apaixonados, porém, a farsa ameaça vir à tona.
O que diferencia "10 coisas que eu odeio em você" de seus congêneres é a boa vontade do roteiro em homenagear a obra de William Shakespeare (sempre uma homenagem justa). A base da trama é, logicamente, "A megera domada", mas encontra-se ecos de "Romeu e Julieta", "Hamlet" e alguns sonetos, além de referências ao local de nascimento do bardo, através do sobrenome - Stratford - da protagonista. Também é bastante divertido o romance entre Mandella (Susan May Pratt), a melhor amiga de Kat, com o atrapalhado Michael (David Krumholtz), que utiliza da paixão da menina pelo dramaturgo inglês para seduzí-la. Ao contrário de muitas comédias para adolescentes, no filme de Junger os coadjuvantes também tem função importante na narrativa, não servindo apenas de escada para piadas sem graça. Aqui, o humor é um nível acima do corriqueiro, ainda que isso não signifique que seja brilhante ou imperdível - e em alguns momentos emperra na nulidade dramática de sua atriz central.
Enquanto Heath Ledger - que bateu Ashton Kutscher e Josh Hartnett na disputa pelo papel principal - seduz a audiência com seu rude Patrick Verona, sua companheira de cena nunca ultrapassa o comum. Julia Stiles não é particularmente bonita nem tampouco é boa atriz. Seu desempenho chega a atrapalhar o resultado final do filme, que fica capenga em algumas cenas cruciais - em especial no clímax que justifica o título. Ao lado de gente talentosa como Ledger e Gordon-Levitt, a jovem que seria figurinha carimbada nas comédias românticas do final dos anos 90 mostra toda as suas deficiências. Porém, se for levado em consideração que analisar talento dramático é a última coisa que o público-alvo do filme pretende, "10 coisas que eu odeio em você" funciona muito bem. É um dos melhores produtos direcionados ao público jovem de sua época.
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