ANIMAIS
NOTURNOS (Nocturnal animals, 2016, Focus Features, 116min) Direção: Tom
Ford. Roteiro: Tom Ford, romance "Tony & Susan", de Austin
Wright. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Joan Sobel. Música: Abel
Korzeniowski. Figurino: Ariane Phillips. Direção de arte/cenários: Shane
Valentino/Meg Everist. Produção: Tom Ford, Robert Salerno. Elenco: Amy
Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Armie
Hammer, Laura Linney, Isla Fisher, Michael Sheen, Ellie Bamber, Karl
Glusman, Robert Aramayo, Jena Malone. Estreia: 02/9/16 (Festival de
Veneza)
Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Michael Shannon)
Os
créditos de abertura de "Animais noturnos" - estranhos,
desconfortáveis, quase agressivos ao olhar - já preparam o espectador
para o que virá nas próximas duas horas: em seu segundo filme como
cineasta, o estilista Tom Ford não brinca em serviço e apresenta ao
público um dos mais claustrofóbicos estudos sobre a culpa e o desespero
produzidos por Hollywood nos últimos anos. Não quer dizer que seja
completamente bem-sucedido em tudo que ambiciona dizer, mas é preciso
reconhecer sua coragem em nadar contra a corrente do cinemão médio
americano e realizar uma obra tão perturbadora e ao mesmo tempo tão
visualmente atraente. Baseado no romance "Tony & Susan", de
Austin Wright, Ford forjou um exercício de estilo que equilibra lampejos
de brilhantismo com um ritmo claudicante que quase põe tudo a perder.
Calorosamente aclamado no Festival de Veneza - onde teve seus direitos
de distribuição comprados pelo valor recorde de 10 milhões de dólares - e
indicado a surpreendentes oito estatuetas no BAFTA (o Oscar britânico),
"Animais noturnos" não é nem a obra-prima que muitos aplaudem nem a
fraude que outros tantos denunciam: é um filme acima da média, mas com
sérios defeitos que o impedem de atingir a todas as notas a que se
propõe.
Alternando liberdade criativa e fidelidade à
sua fonte original, Tom Ford repete a estrutura do livro de Wright ao
mesmo tempo em que acrescenta outras nuances a uma trama já naturalmente
densa e repleta de simbolismos: a protagonista é Susan Morrow (Amy
Adams em mais uma interpretação extraordinária), dona de uma galeria de
arte sofisticada e bem frequentada. Casada com um executivo bonito e
igualmente bem-sucedido (Armie Hammer), ela não consegue deixar de lado
uma constante solidão, que se agrava com as viagens do marido e a
distância dos filhos. Em uma dessas crises de melancolia, ela recebe o
manuscrito de um livro escrito por Tony Hastings (Jake Gyllenhaal), com
quem foi casada anos antes, em uma relação que acabou de forma bastante
traumática. Junto com o livro, chega uma nota, onde Tony pede à
ex-mulher que o leia e dê sua opinião. Temerosa com as possíveis
intenções de Tony - que saiu do relacionamento extremamente magoado e
ofendido - ela inicia a leitura e se vê envolvida em uma história
repleta de uma inesperada violência.
No
livro de Tony, chamado "Animais noturnos", o protagonista é Edward
Sheffield (também interpretado por Gyllenhaal), um homem comum que, em
viagem de férias com a mulher e a filha adolescente, é abordado na
estrada por três desconhecidos que transformam sua vida em um pesadelo.
Tendo a família sequestrada e depois morta, Edward se une a um policial
da pequena cidade onde ocorreu o crime, Bobby Andes (Michael Shannon,
indicado ao Oscar de ator coadjuvante) - também passando por um grave
problema pessoal - para buscar justiça pelas próprias mãos. Seu
silencioso desespero encontra eco em Susan, que começa a perceber nas
entrelinhas do romance uma sórdida e sutil vingança do homem a quem
amava contra alguns dos acontecimentos que aceleraram sua separação.
Conforme o livro vai chegando ao seu final - e seu reencontro com Tony
se aproxima - a mulher segura e confiante vai dando lugar a uma outra,
triste e consumida por uma série de arrependimentos.
Como
todo artista consciente da força das imagens, Tom Ford faz de seus
"Animais noturnos" um show visual, graças à belíssima fotografia de
Seamus McGarvey e a direção de arte sofisticada de Shane Valentino. Mas,
mais do que simplesmente enfeitar a tela com uma cuidadosa seleção de
cores e contrastes, ele as utiliza como ferramentas para enfatizar
ideias e pensamentos, o que é, sem dúvida, um dos maiores méritos de seu
filme. Ao contrário de muitas obras que soam redundantes por não
confiar na potência dos enquadramentos e da edição, "Animais noturnos"
usa e abusa de silêncios e de pequenos detalhes que vão compondo o
quadro geral proposto pelo roteiro. Conforme vai iluminando a história
entre Susan e Edward - e de como ela é a base para o livro dele - o
cineasta vai também empurrando o público rumo à uma conclusão que, longe
de ser facilmente digerida, é igualmente brutal e desconcertante - o
que seria impossível sem o elenco impecável escolhido a dedo. Se Aaron
Taylor-Johnson (como um dos criminosos) saiu vencedor do Golden Globe e
Michael Shannon recebeu uma indicação ao Oscar, eles são apenas peões em
um jogo de xadrez comandado por dois atores em momentos brilhantes da
carreira: Jake Gyllenhaal e Amy Adams.
Em um
espetacular trabalho de interpretação, tanto Adams quanto Gyllenhaal
encaram o desafio de trazer à luz dois personagens complexos, ricos em
nuances e psicologicamente ambíguos de forma irretocável: enquanto Adams
(injustamente esquecida pelo Oscar também por seu trabalho arrebatador
em "A chegada") cria duas Susans distintas - um passado romântico e
sonhador e um presente carente e solitário - com uma coerência
impressionante, Gyllenhaal explora com meticulosidade um jovem repleto
de sonhos profissionais pouco práticos e um personagem criado na sua
imaginação, bem mais propenso a explicitar sua revolta através da
violência. O uso constante de metáforas e símbolos pode até excessivo em
determinados momentos, mas a garra do casal central de atores e a
maneira sutil com que conduzem seus personagens praticamente anula os
pecados do filme de Ford. Corajoso, inteligente e dono de uma
personalidade rara no cinemão, "Animais noturnos" também é exagerado,
pretensioso e de uma crueldade poética. Incoerências que fazem dele, no
mínimo, um filme muito interessante mesmo àqueles que não concordem com
seu estilo único.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
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quinta-feira
terça-feira
JOGOS VORAZES - EM CHAMAS
JOGOS
VORAZES: EM CHAMAS (The Hunger Games: Catching Fire, 2013, LionsGate,
146min) Direção: Francis Lawrence. Roteiro: Simon Beaufoy, Michael
deBruyn, romance de Suzanne Collins. Fotografia: Jo Willems. Montagem:
Alan Edward Bell. Música: James Newton Howard. Figurino: Trish
Summerville. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Larry Dias.
Produção executiva: Suzanne Collins, Joseph Drake, Michael Paseornek,
Louise Rosner, Ali Shearmur. Produção: Nina Jacobson, Jon Kilik. Elenco:
Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Philip Seymour
Hoffman, Donald Sutherland, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Stanley
Tucci, Lenny Kravitz, JeffreY Wright, Amanda Plummer, Jena Malone, Toby
Jones, Lynn Cohen. Estreia: 18/11/13
Já está virando meio tradição dentro da indústria hollywoodiana: talvez por não precisar apresentar seus personagens e poder partir direto pra ação, talvez porque seus criadores sabem que a exigência do público aumenta ou talvez porque existe uma maior familiaridade com o material, os segundos capítulos da maioria das franquias cinematográficas contemporâneas conseguem ser melhores que o original. Foi assim com o "Homem-aranha 2" de Sam Raimi, com o "Batman, o cavaleiro das trevas", de Christopher Nolan e com "X-Men 2", de Bryan Singer. E foi assim também com "Jogos vorazes, em chamas", continuação do mega bem-sucedido filme de 2012 , baseado na trilogia escrita por Suzanne Collins. Agora sob a batuta de Francis Lawrence - cujo currículo inclui o interessante "Constantine" e a adaptação de "Eu sou a lenda" com Will Smith - a história de Katniss Everdeen em sua luta pela sobrevivência em um jogo de vida ou morte cada vez mais violento (e com intenções sociopolíticas nada justas) e empolgante.
Conforme dito acima, "Em chamas" tem a vantagem de não precisar perder tempo explicando sua trama e apresentando seus personagens - e para isso é crucial que a audiência já tenha assistido ao primeiro capítulo. Quando o filme começa, com eventos que acontecem um ano após o término do filme original, Katniss (Jennifer Lawrence, tornada queridinha de Hollywood pelo Oscar de melhor atriz conquistado por "O lado bom da vida") e seu parceiro Peeta Mellark (Josh Hutcherson), vencedores da 74ª edição dos jogos do título, começam uma turnê por todos os distritos, como forma de aproximar-se da população e dar credibilidade ao governo. Porém, ao perceber a desilusão do povo em relação os problemas sociais que os cercam, o casal (forjado para vencer os jogos) passa a questionar a liderança do Presidente Snow (Donald Sutherland). Temendo uma revolução liderada por Katniss, o presidente cria uma nova regra, que obriga todos os vencedores prévios a lutar novamente - sua intenção é acabar com a vida da jovem, impedindo assim que ela se torne a voz de um levante popular.
Acrescentando à série rostos conhecidos - Amanda Plummer, Jeffrey Wright, Jena Malone como novos competidores e Philip Seymour Hoffman como o novo diretor do torneio - "Em chamas" é mais violento do que seu primeiro capítulo, já apontando a direção que os dois últimos filmes tomarão: cada vez mais acossado, o vilão vivido por Donald Sutherland não hesita em transformar seu governo em uma carnificina e os jogos em uma série de armadilhas cruéis e traiçoeiras. Enquanto aprofunda também a relação entre Katniss e Peeta, o roteiro embaralha as cartas de forma a confundir a plateia até os minutos finais: em um golpe de mestre, a trama cerca a protagonista de aliados e inimigos sem deixar claro nem a ela nem ao público quem é quem - e qual é a sua real missão para acabar com os desmandos de um governo exponencialmente mais sádico. Para isso cresce a importância de Haymitch Abernathy (Woody Harrelson), que deixa de ser apenas um mentor bêbado para mostrar sua verdadeira face em relação à revolução - enquanto outros personagens transitam entre o bem e o mal aguardando a oportunidade de tomar um partido definitivo.
Sob a forma de um filme de ação direcionado ao público infanto-juvenil - o que explica a violência apenas moderada considerando as possibilidades da trama - Lawrence aproveita a história de Suzanne Collins para, exatamente como aconteceu no primeiro, discutir temas de relevância, como desigualdade social, fascismo e manipulação por parte da mídia. Logicamente, por tratar-se de uma produção cujo público-alvo não estar exatamente disposto a querelas políticas, o subtema é tratado apenas superficialmente (ainda que seja bastante claro para qualquer pessoa minimamente esclarecida), como pano de fundo para uma obra que oferece exatamente aquilo que sua plateia deseja: cenas de ação bem realizadas, um triângulo amoroso eficiente, personagens cativantes (interpretados por atores de qualidade inquestionável, como Philip Seymour Hoffman e Jeffrey Right) e um ritmo incapaz de cansar, apesar dos longos 146 minutos de projeção. Somadas a um criativo visual - refletido no figurino irreverente de Trish Summerville - e um roteiro redondinho - co-escrito por Simon Beaufoy, vencedor do Oscar por "Quem quer ser um milionário?" - essas qualidades fazem com que o único problema do filme seja justamente ter que esperar até o próximo capítulo - que, segundo mais uma nova tradição imposta pela busca por lucros, será dividido em dois filmes.
Já está virando meio tradição dentro da indústria hollywoodiana: talvez por não precisar apresentar seus personagens e poder partir direto pra ação, talvez porque seus criadores sabem que a exigência do público aumenta ou talvez porque existe uma maior familiaridade com o material, os segundos capítulos da maioria das franquias cinematográficas contemporâneas conseguem ser melhores que o original. Foi assim com o "Homem-aranha 2" de Sam Raimi, com o "Batman, o cavaleiro das trevas", de Christopher Nolan e com "X-Men 2", de Bryan Singer. E foi assim também com "Jogos vorazes, em chamas", continuação do mega bem-sucedido filme de 2012 , baseado na trilogia escrita por Suzanne Collins. Agora sob a batuta de Francis Lawrence - cujo currículo inclui o interessante "Constantine" e a adaptação de "Eu sou a lenda" com Will Smith - a história de Katniss Everdeen em sua luta pela sobrevivência em um jogo de vida ou morte cada vez mais violento (e com intenções sociopolíticas nada justas) e empolgante.
Conforme dito acima, "Em chamas" tem a vantagem de não precisar perder tempo explicando sua trama e apresentando seus personagens - e para isso é crucial que a audiência já tenha assistido ao primeiro capítulo. Quando o filme começa, com eventos que acontecem um ano após o término do filme original, Katniss (Jennifer Lawrence, tornada queridinha de Hollywood pelo Oscar de melhor atriz conquistado por "O lado bom da vida") e seu parceiro Peeta Mellark (Josh Hutcherson), vencedores da 74ª edição dos jogos do título, começam uma turnê por todos os distritos, como forma de aproximar-se da população e dar credibilidade ao governo. Porém, ao perceber a desilusão do povo em relação os problemas sociais que os cercam, o casal (forjado para vencer os jogos) passa a questionar a liderança do Presidente Snow (Donald Sutherland). Temendo uma revolução liderada por Katniss, o presidente cria uma nova regra, que obriga todos os vencedores prévios a lutar novamente - sua intenção é acabar com a vida da jovem, impedindo assim que ela se torne a voz de um levante popular.
Acrescentando à série rostos conhecidos - Amanda Plummer, Jeffrey Wright, Jena Malone como novos competidores e Philip Seymour Hoffman como o novo diretor do torneio - "Em chamas" é mais violento do que seu primeiro capítulo, já apontando a direção que os dois últimos filmes tomarão: cada vez mais acossado, o vilão vivido por Donald Sutherland não hesita em transformar seu governo em uma carnificina e os jogos em uma série de armadilhas cruéis e traiçoeiras. Enquanto aprofunda também a relação entre Katniss e Peeta, o roteiro embaralha as cartas de forma a confundir a plateia até os minutos finais: em um golpe de mestre, a trama cerca a protagonista de aliados e inimigos sem deixar claro nem a ela nem ao público quem é quem - e qual é a sua real missão para acabar com os desmandos de um governo exponencialmente mais sádico. Para isso cresce a importância de Haymitch Abernathy (Woody Harrelson), que deixa de ser apenas um mentor bêbado para mostrar sua verdadeira face em relação à revolução - enquanto outros personagens transitam entre o bem e o mal aguardando a oportunidade de tomar um partido definitivo.
Sob a forma de um filme de ação direcionado ao público infanto-juvenil - o que explica a violência apenas moderada considerando as possibilidades da trama - Lawrence aproveita a história de Suzanne Collins para, exatamente como aconteceu no primeiro, discutir temas de relevância, como desigualdade social, fascismo e manipulação por parte da mídia. Logicamente, por tratar-se de uma produção cujo público-alvo não estar exatamente disposto a querelas políticas, o subtema é tratado apenas superficialmente (ainda que seja bastante claro para qualquer pessoa minimamente esclarecida), como pano de fundo para uma obra que oferece exatamente aquilo que sua plateia deseja: cenas de ação bem realizadas, um triângulo amoroso eficiente, personagens cativantes (interpretados por atores de qualidade inquestionável, como Philip Seymour Hoffman e Jeffrey Right) e um ritmo incapaz de cansar, apesar dos longos 146 minutos de projeção. Somadas a um criativo visual - refletido no figurino irreverente de Trish Summerville - e um roteiro redondinho - co-escrito por Simon Beaufoy, vencedor do Oscar por "Quem quer ser um milionário?" - essas qualidades fazem com que o único problema do filme seja justamente ter que esperar até o próximo capítulo - que, segundo mais uma nova tradição imposta pela busca por lucros, será dividido em dois filmes.
segunda-feira
GALERA DO MAL
GALERA DO MAL (Saved!, 2004, United Artists/Single Cell Pictures, 92min) Direção: Brian Dannelly. Roteiro: Brian Dannelly, Michael Urban. Fotografia: Bobby Bukowski. Montagem: Pamela Martin. Música: Christophe Beck. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Tony Devenyi/Laura Kilam, James Willcock. Produção: Michael Ohoven, Sandy Stern, Michael Stipe, William Vince. Elenco: Jena Malone, Mandy Moore, Patrick Fugit, Mary-Louise Parker, Martin Donova, Eva Amurri, Macaulay Culkin, Heather Matarazzo. Estreia: 21/01/04 (Festival de Sundance)
Em uma época onde o fundamentalismo religioso vem se tornando cada vez mais perigoso, amputando direitos civis com o apoio de muitos setores da sociedade, um filme como "Galera do mal" chega a ser mandatório. Mesmo em tom de comédia adolescente - daquelas bastante sarcásticas e repletas de uma deliciosa acidez que a distingue de produções similares - o filme de Brian Dannelly, que estreou no Festival de Sundance em 2004 e foi eleito o preferido do público no Festival de Nashville, no mesmo ano, faz uma crítica contundente ao fanatismo religioso e à intolerância sexual, usando para isso arquétipos das comédias estudantis que fizeram a glória de John Hughes na década de 80. Tendo o roqueiro Michael Stipe - da banda R.E.M. - como um dos produtores, "Galera do mal" é corajoso, debochado e dotado de um senso iconoclasta que muito faz falta nas anódinas e vazias comédias hollywoodianas que tentam soar modernas e relevantes.
Já começando com ironia - a canção "God only knows", da banda Beach Boys em uma bela versão interpretada pela cantora teen Mandy Moore, que vive a vilã do filme - "Galera do mal" (um título nacional pra variar sem imaginação e genérico) não tem medo em pegar pesado em sua crítica à obstinação religiosa doentia, focando sua trama na batalha radical travada entre dois grupos de adolescentes que frequentam uma escola protestante de uma pequena cidade de Maryland. Às vésperas do início do ano letivo, a ingênua Mary (Jena Malone) recebe a notícia que seu namorado, Dean (Chad Faust), é gay e, acreditando que Deus falou com ela e lhe deu a missão de curá-lo, resolve perder a virgindade com ele. A artimanha não apenas falha (por motivos óbvios) como a põe em uma situação delicada quando o rapaz é enviado para uma clínica de reabilitação cristã: para seu desespero, Mary se descobre grávida. Sentindo-se traída por Deus, ela renega o grupo musical do qual faz parte e que é liderado pela fervorosa Hilary Faye (Mandy Moore saindo-se bem em papel herdado de Anne Hathaway), que toma para si a tarefa de reconquistá-la para sua turma nem que, para isso, tenha que utilizar-se de artimanhas radicais como exorcismo. Não bastasse tais problemas, Mary começa a sentir-se atraída por Patrick (Patrick Fugit), filho do Pastor Skip (Martin Donovan) - que por sua vez está iniciando um relacionamento com sua mãe, Lilian (Mary-Louise Parker).
Utilizando-se de uma narração em off que lembra em diversos momentos o igualmente perverso "O oposto do sexo" - sintomaticamente também estrelado por Martin Donovan, o ator preferido do cineasta independente Hal Hartley - "Galera do mal" deita e rola em seu deboche aos dogmas radicais do cristianismo doentio sem que, para isso, ofenda ou desrespeite qualquer crença, exceto, é claro, quando ela permite tal insubordinação. Hilary Faye e seu séquito de adoradoras fieis e cegas em sua fé imposta por uma série de regras jamais questionadas são o retrato mais que perfeito da atual sociedade centrada em preceitos arcaicos e preconceituosos. Seu contraponto dramático (ou cômico, como é mais apropriado ao gênero) é Cassandra (Eva Amurri, filha da atriz Susan Sarandon), uma judia que desafia as leis da escola e bate de frente com Faye ao contestar seus princípios e se envolver com o irmão da garota, Roland (Macaulay Culkin), paraplégico que não compartilha dos mesmos ideais religiosos da escola. São esses três - Mary, Cassandra e Roland - que irão desafiar Hilary em sua luta por transformar a todos em cegos seguidores de suas convicções.
Mesmo que em sua segunda metade o roteiro caia de ritmo e siga os caminhos mais esperados do gênero, "Galera do mal" está acima da média justamente por fazer rir de temas sérios sem a condescendência normalmente atrelada a eles. Jena Malone é a escolha perfeita para viver a desiludida Mary, com seu olhar perdido e desanimado, enquanto Mandy Moore surpreende com uma atuação inspirada e de exato timing cômico. O humor momentoso e relevante - que faz pensar enquanto faz rir - também é digno de aplausos, a ponto de o roteiro ter se transformado em musical nos palcos nova-iorquinos em 2008, o que apenas reitera sua importância e inteligência. Um filme a ser descoberto!
Em uma época onde o fundamentalismo religioso vem se tornando cada vez mais perigoso, amputando direitos civis com o apoio de muitos setores da sociedade, um filme como "Galera do mal" chega a ser mandatório. Mesmo em tom de comédia adolescente - daquelas bastante sarcásticas e repletas de uma deliciosa acidez que a distingue de produções similares - o filme de Brian Dannelly, que estreou no Festival de Sundance em 2004 e foi eleito o preferido do público no Festival de Nashville, no mesmo ano, faz uma crítica contundente ao fanatismo religioso e à intolerância sexual, usando para isso arquétipos das comédias estudantis que fizeram a glória de John Hughes na década de 80. Tendo o roqueiro Michael Stipe - da banda R.E.M. - como um dos produtores, "Galera do mal" é corajoso, debochado e dotado de um senso iconoclasta que muito faz falta nas anódinas e vazias comédias hollywoodianas que tentam soar modernas e relevantes.
Já começando com ironia - a canção "God only knows", da banda Beach Boys em uma bela versão interpretada pela cantora teen Mandy Moore, que vive a vilã do filme - "Galera do mal" (um título nacional pra variar sem imaginação e genérico) não tem medo em pegar pesado em sua crítica à obstinação religiosa doentia, focando sua trama na batalha radical travada entre dois grupos de adolescentes que frequentam uma escola protestante de uma pequena cidade de Maryland. Às vésperas do início do ano letivo, a ingênua Mary (Jena Malone) recebe a notícia que seu namorado, Dean (Chad Faust), é gay e, acreditando que Deus falou com ela e lhe deu a missão de curá-lo, resolve perder a virgindade com ele. A artimanha não apenas falha (por motivos óbvios) como a põe em uma situação delicada quando o rapaz é enviado para uma clínica de reabilitação cristã: para seu desespero, Mary se descobre grávida. Sentindo-se traída por Deus, ela renega o grupo musical do qual faz parte e que é liderado pela fervorosa Hilary Faye (Mandy Moore saindo-se bem em papel herdado de Anne Hathaway), que toma para si a tarefa de reconquistá-la para sua turma nem que, para isso, tenha que utilizar-se de artimanhas radicais como exorcismo. Não bastasse tais problemas, Mary começa a sentir-se atraída por Patrick (Patrick Fugit), filho do Pastor Skip (Martin Donovan) - que por sua vez está iniciando um relacionamento com sua mãe, Lilian (Mary-Louise Parker).
Utilizando-se de uma narração em off que lembra em diversos momentos o igualmente perverso "O oposto do sexo" - sintomaticamente também estrelado por Martin Donovan, o ator preferido do cineasta independente Hal Hartley - "Galera do mal" deita e rola em seu deboche aos dogmas radicais do cristianismo doentio sem que, para isso, ofenda ou desrespeite qualquer crença, exceto, é claro, quando ela permite tal insubordinação. Hilary Faye e seu séquito de adoradoras fieis e cegas em sua fé imposta por uma série de regras jamais questionadas são o retrato mais que perfeito da atual sociedade centrada em preceitos arcaicos e preconceituosos. Seu contraponto dramático (ou cômico, como é mais apropriado ao gênero) é Cassandra (Eva Amurri, filha da atriz Susan Sarandon), uma judia que desafia as leis da escola e bate de frente com Faye ao contestar seus princípios e se envolver com o irmão da garota, Roland (Macaulay Culkin), paraplégico que não compartilha dos mesmos ideais religiosos da escola. São esses três - Mary, Cassandra e Roland - que irão desafiar Hilary em sua luta por transformar a todos em cegos seguidores de suas convicções.
Mesmo que em sua segunda metade o roteiro caia de ritmo e siga os caminhos mais esperados do gênero, "Galera do mal" está acima da média justamente por fazer rir de temas sérios sem a condescendência normalmente atrelada a eles. Jena Malone é a escolha perfeita para viver a desiludida Mary, com seu olhar perdido e desanimado, enquanto Mandy Moore surpreende com uma atuação inspirada e de exato timing cômico. O humor momentoso e relevante - que faz pensar enquanto faz rir - também é digno de aplausos, a ponto de o roteiro ter se transformado em musical nos palcos nova-iorquinos em 2008, o que apenas reitera sua importância e inteligência. Um filme a ser descoberto!
quinta-feira
O MENSAGEIRO
O MENSAGEIRO (The messenger, 2009, Oscilloscope Laboratories, 113min) Direção: Oren Moverman. Roteiro: Oren Moverman, Alessandro Camon. Fotografia: Bobby Bukowski. Montagem: Alex Hall. Música: Nathan Larson. Figurino: Catherine George. Direção de arte/cenários: Stephen Beatrice/Cristina Casanas. Produção executiva: Steffen Aumuller, Claus Clausen, Ben Goldhirsh, Christopher Mapp, Shaun Redick, Glenn M. Stewart, Matthew Street, David Whealy, Bryan Zuriff. Produção: Mark Gordon, Lawrence Inglee, Zach Miller. Elenco: Ben Foster, Woody Harrelson, Jena Malone, Samantha Morton, Eamonn Walker, Steve Buscemi, Brendan Sexton III. Estreia: 19/01/09 (Festival de Sundance)
2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Woody Harrelson), Roteiro Original
O tema de "O mensageiro" é, de certa forma, a guerra do Iraque. No entanto, ela não aparece em nenhum fotograma. Ela é, isso sim, um fantasma que assombra suas personagens, afetadas direta ou indiretamente por sua aura violenta e absurda. O protagonista do filme é o jovem Sargento Will Montgomery (em uma assombrosa atuação de Ben Foster, injustamente esquecido em cerimônias de premiação). Depois de um acidente em combate - que lhe prejudica a visão - ele recebe a missão dolorosa de, ao lado do Capitão Tony Stone (Woody Harrelson, indicado ao Oscar de coadjuvante), ser o responsável por dar as trágicas notícias de baixas na guerra aos familiares das vítimas. Sem saber como lidar friamente com todas as cenas tristes que passa a testemunhar e trocado pela namorada (Jena Malone), ele acaba se envolvendo emocionalmente com Olivia Pitterson (a sempre ótima Samantha Morton), viúva de um soldado e mãe de um filho pequeno. Enquanto luta com essa questão ética, não percebe que seu colega voltou a se entregar ao alcoolismo.
Como dito anteriormente, "O mensageiro" é um filme de guerra sem cenas de batalha. As únicas guerras mostradas na obra são aquelas travadas dentro da cabeça de seus protagonistas, que, humanamente, não sabem como acostumar-se à dor e ao desespero. A luta pela sanidade é quase inglória, que os leva ao álcool, à auto-destruição e à carência extrema. É um filme de silêncios, de dramas íntimos, construído em detalhes e grandes atuações. As cenas em que os dois protagonistas dão as tristes notícias às famílias são exemplos de sutileza e elegância. Emocionam e nunca caem no piegas.
E o elenco merece um capítulo à parte. Enquanto Woody Harrelson tenta dar um novo impulso à carreira vivendo uma personagem distante de seus adoráveis bobalhões e Samantha Morton mais uma vez mostra porque é uma atriz ainda subaproveitada, é Ben Foster que domina o filme, com um trabalho impecável. Seu olhar, seu jeito de andar, sua voz, tudo é instrumento para que ele assuma a personalidade de Will Montgomery, um jovem envelhecido pelas atrocidades de uma guerra desnecessária e cruel e que tenta encontrar uma razão para seguir a vida.
sábado
NA NATUREZA SELVAGEM
NA NATUREZA SELVAGEM (Into the wild, 2007, Paramount Vantage, 148min) Direção: Sean Penn. Roteiro: Sean Penn, livro de Jon Krakauer. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Jay Cassidy. Música: Michael Brook, Kaki King, Eddie Vedder. Figurino: Mary Claire Hannan. Direção de arte/cenários: Derek Hill/Danielle Berman, Christopher Nelly. Produção executiva: David Blocker, Frank Hildebrand, John J. Kelly. Produção: Art Linson, Sean Penn, Bill Pohlad. Elenco: Emile Hirsch, William Hurt, Marcia Gay Harden, Jena Malone, Hal Holbrook, Vince Vaughn, Catherine Keener, Kristen Stewart. Estreia: 01/9/07 (Festival de Telluride)
2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Hal Holbrook), Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Guaranteed")
Que Sean Penn é um ator superlativo qualquer fã de cinema sabe. Mas que por detrás da persona agressiva com que ficou conhecido nos anos 80 - quando era casado com Madonna e tinha por hobby espancar paparazzi - existe um cineasta sensível e talentoso pouca gente sabia até o lançamento de "Na natureza selvagem", adaptação do livro de Jon Krakauer. Tudo bem que ele já tinha três filmes no currículo, mas pouca gente notou "Unidos pelo sangue" (91), "Acerto final" (95) e "A promessa" (01), por mais qualidades que eles tivessem. Mas foi somente com a história triste/pungente/libertadora de Christopher McCandless, jovem que abandona uma vida abastada para buscar um contato com a liberdade que só mesmo a natureza poderia lhe oferecer é que Penn carimbou de vez seu passaporte rumo ao panteão dos grandes cineastas.
Depois de um flerte de mais de uma década com a história de McCandless, Penn finalmente conseguiu o apoio da família do rapaz para realizar um dos filmes mais emocionantes e pungentes a chegar às telas dos cinemas no século XXI. Versando sobre liberdade pessoal, o amor à natureza e a importância das relações interpessoais, "Na natureza selvagem" é um espetáculo de delicadeza, inteligência e sensibilidade, valorizado por um roteiro maduro, um elenco excepcional - que consegue arrancar atuações convincentes até mesmo de Kirsten Stewart e Vince Vaughn - e uma trilha sonora que, mais do que comentar a ação, é uma personagem importante e onipresente.
Vivido por um sensacional Emile Hirsch - que ficou com o papel felizmente recusado por Leonardo DiCaprio - o jovem Christopher McCandless salta das páginas do livro de Krakauer para ganhar uma dimensão de herói moderno, um homem capaz de correr atrás de uma vida que fuja de tudo que ele sempre desprezou em relação aos pais (William Hurt e Marcia Gay Harden) e à sociedade em geral. Livrando-se dos cartões de crédito, do nome verdadeiro (e assumindo o pseudônimo de Alexander Supertramp) e das amarras de qualquer tipo de relacionamento (inclusive com a irmã com quem se dá bem, interpretada por Jena Malone), ele parte em busca da realização pessoal junto à natureza. Logicamente, sem preparo algum para tal aventura, ele passa por situações nada convencionais e bastante arriscadas, somente para descobrir, surpreso, que são as pessoas - e o carinho que surge entre elas - que dá sentido à vida. "A felicidade só é real quando compartilhada" é o que ele aprende, talvez tarde demais.
Pontuado por uma belíssima trilha sonora, composta por canções deslumbrantes de Eddie Vedder (da banda Pearl Jam) que ilustram com extraordinária perfeição as cenas captadas pelo editor de fotografia Eric Gautier e editadas com maestria por Jay Cassidy, "Na natureza selvagem" emociona por proporcionar ao espectador uma viagem para dentro de seus próprios desejos de fuga de uma realidade massacrante e muitas vezes estéril. Alexander Supertramp vive, na tela, tudo que o público sonha em realizar mas tem medo (ou acomodação em demasia). As lágrimas que brotam ao final da projeção - e elas surgem, com toda certeza - limpam a alma, espelham vontades e, mais do que tudo, são a catarse mais absoluta de que o bom cinema é capaz.
"Na natureza selvagem" é uma obra-prima. Lindo, delicado, emocionante, inesquecível. E que atire a primeira pedra quem não se arrepiar com a fantástica atuação do veterano Hal Holbrook como Ron Franz, o aposentado que se oferece para adotar o protagonista em uma cena devastadora. Para ver, rever, trever e chorar sempre.
quinta-feira
ORGULHO E PRECONCEITO
ORGULHO E PRECONCEITO (Pride & Prejudice, 2005, Focus Features/Universal Pictures, 127min) Direção: Joe Wright. Roteiro: Deborah Moggach, romance de Jane Austen. Fotografia: Roman Osin. Montagem: Paul Tothill. Música: Dario Marianelli. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Liza Chasin, Debra Hayward. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Paul Webster. Elenco: Keira Knightley, Matthew McFayden, Judi Dench, Rosamund Pike, Carey Mulligan, Donald Sutherland, Brenda Blethyn, Jena Malone, Talulah Riley. Estreia: 25/7/05
4 indicações ao Oscar: Atriz (Keira Knightley), Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de arte/cenários
Publicado em 1813, o romance "Orgulho e preconceito" acabou tornando-se o mais popular e amado dentre toda a obra da escritora inglesa Jane Austen - também autora de obras conhecidas que foram adaptadas para o cinema, como "Razão e sensibilidade" e "Emma". Transformado em filme pela primeira vez em 1940 - com Greer Garson e Laurence Olivier nos papéis principais - a história de amor entre a orgulhosa Elizabeth Benneth e o circunspecto Mr. Darcy sempre esteve no inconsciente coletivo das milhares de leitoras que nunca deixaram que a obra caísse no esquecimento. Porém, depois de uma bem-sucedida adaptação para a tv britânica em 1995 - mesmo ano em que Austen tornou-se febre entre os estúdios de cinema - parecia que não havia mais espaço para mais uma releitura. Foi aí que entrou em cena o cineasta Joe Wright, estreando com o pé direito no cinema.
Nascido em 1972 e egresso da televisão inglesa, Wright surpreendeu crítica e público ao assinar um filme elegante e que mantinha em perfeito equilíbrio o romance e o senso de humor da obra de Austen - algo que o bem mais experiente Ang Lee também havia conseguido na versão de "Razão e sensibilidade" de 1995. Sem preocupar-se com as adaptações anteriores, Wright construiu seu filme como se fosse uma história de amor inédita e surpreendente, e seu frescor fica patente logo em suas primeiras cenas, onde ele apresenta a barulhenta e vital família Bennett, liderada por um Donald Sutherland particularmente inspirado e uma Brenda Blethyn mostrando porque era uma das inglesas preferidas da Academia no final dos anos 90 - quando concorreu ao Oscar por "Segredos e mentiras" e "Little Voice, a voz de uma estrela". Os veteranos atores vivem os pais de uma ninhada de cinco meninas, todas em idade de arrumar um marido - de preferência ricos e bem educados. A protagonista é sua primogênita, Elizabeth (Keira Knightley), de personalidade forte e ideias à frente de seu tempo, que a levam a declinar de propostas tidas como irrecusáveis. Seu jeito pouco afeito às convenções sociais acabam por aproximá-la - e ao mesmo tempo afastá-la - do aparentemente esnobe Mr. Darcy (Matthew Macfadyen), um rico proprietário vizinho de sua família.

Tirando proveito do estilo gracioso e um tanto sardônico do romance de Jane Austen, "Orgulho e preconceito" é um vitorioso principalmente por não ter vergonha das origens plenamente folhetinescas e romanescas de seu original. O roteiro - que contou com a colaboração preciosa e não creditada de Emma Thompson - ao mesmo tempo em que descreve o estilo de vida de sua época com carinho e romantismo não deixa de criticá-lo de maneira sutil e divertida. A história de amor entre Elizabeth e Mr. Darcy, por exemplo, cede espaço em muitos momentos, para tramas paralelas sempre bastante interessantes e com os dois pés fincados no classicismo vitoriano de sua autora - tramas repletas de reviravoltas, mal-entendidos e principalmente amores eternos e dramáticos. E Wright tem a sorte - ou o talento de escolha - para contar com um elenco extraordinário, onde Donald Sutherland e Brenda Blethyn são apenas a ponta do iceberg.
Na pele de Elizabeth Bennett, a frágil Keira Knightley - em alta na época pelo sucesso de "Piratas do Caribe" - oferece uma de suas atuações mais felizes, onde mescla a força de sua personagem com uma delicadeza ímpar diante do amor. Matthew Macfadyen cria um Mr. Darcy impecável, rivalizando com dois grandes intérpretes da personagem, Laurence Olivier e Colin Firth. Mesmo que soe muito mais antipático do que deveria em um filme que apesar de tudo é uma história de amor, Macfadyen faz o contraponto perfeito à sutileza de Knightley - indicada ao Oscar por seu desempenho. Juntos, eles conseguem conquistar a audiência, que passa a torcer por seu final feliz logo que os dois cruzam os olhares - e dos quais vão adiante com diálogos de uma mordacidade deliciosa.
Fotografado com requinte e dono de uma reconstituição de época brilhante, "Orgulho e preconceito" não faz feio diante de suas versões anteriores, revelando em Joe Wright um cineasta competente e criativo - qualidades que seu trabalho seguinte, o estarrecedor "Desejo e reparação" deixaria ainda mais claro. Um programa obrigatório para os românticos.
4 indicações ao Oscar: Atriz (Keira Knightley), Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de arte/cenários
Publicado em 1813, o romance "Orgulho e preconceito" acabou tornando-se o mais popular e amado dentre toda a obra da escritora inglesa Jane Austen - também autora de obras conhecidas que foram adaptadas para o cinema, como "Razão e sensibilidade" e "Emma". Transformado em filme pela primeira vez em 1940 - com Greer Garson e Laurence Olivier nos papéis principais - a história de amor entre a orgulhosa Elizabeth Benneth e o circunspecto Mr. Darcy sempre esteve no inconsciente coletivo das milhares de leitoras que nunca deixaram que a obra caísse no esquecimento. Porém, depois de uma bem-sucedida adaptação para a tv britânica em 1995 - mesmo ano em que Austen tornou-se febre entre os estúdios de cinema - parecia que não havia mais espaço para mais uma releitura. Foi aí que entrou em cena o cineasta Joe Wright, estreando com o pé direito no cinema.
Nascido em 1972 e egresso da televisão inglesa, Wright surpreendeu crítica e público ao assinar um filme elegante e que mantinha em perfeito equilíbrio o romance e o senso de humor da obra de Austen - algo que o bem mais experiente Ang Lee também havia conseguido na versão de "Razão e sensibilidade" de 1995. Sem preocupar-se com as adaptações anteriores, Wright construiu seu filme como se fosse uma história de amor inédita e surpreendente, e seu frescor fica patente logo em suas primeiras cenas, onde ele apresenta a barulhenta e vital família Bennett, liderada por um Donald Sutherland particularmente inspirado e uma Brenda Blethyn mostrando porque era uma das inglesas preferidas da Academia no final dos anos 90 - quando concorreu ao Oscar por "Segredos e mentiras" e "Little Voice, a voz de uma estrela". Os veteranos atores vivem os pais de uma ninhada de cinco meninas, todas em idade de arrumar um marido - de preferência ricos e bem educados. A protagonista é sua primogênita, Elizabeth (Keira Knightley), de personalidade forte e ideias à frente de seu tempo, que a levam a declinar de propostas tidas como irrecusáveis. Seu jeito pouco afeito às convenções sociais acabam por aproximá-la - e ao mesmo tempo afastá-la - do aparentemente esnobe Mr. Darcy (Matthew Macfadyen), um rico proprietário vizinho de sua família.
Tirando proveito do estilo gracioso e um tanto sardônico do romance de Jane Austen, "Orgulho e preconceito" é um vitorioso principalmente por não ter vergonha das origens plenamente folhetinescas e romanescas de seu original. O roteiro - que contou com a colaboração preciosa e não creditada de Emma Thompson - ao mesmo tempo em que descreve o estilo de vida de sua época com carinho e romantismo não deixa de criticá-lo de maneira sutil e divertida. A história de amor entre Elizabeth e Mr. Darcy, por exemplo, cede espaço em muitos momentos, para tramas paralelas sempre bastante interessantes e com os dois pés fincados no classicismo vitoriano de sua autora - tramas repletas de reviravoltas, mal-entendidos e principalmente amores eternos e dramáticos. E Wright tem a sorte - ou o talento de escolha - para contar com um elenco extraordinário, onde Donald Sutherland e Brenda Blethyn são apenas a ponta do iceberg.
Na pele de Elizabeth Bennett, a frágil Keira Knightley - em alta na época pelo sucesso de "Piratas do Caribe" - oferece uma de suas atuações mais felizes, onde mescla a força de sua personagem com uma delicadeza ímpar diante do amor. Matthew Macfadyen cria um Mr. Darcy impecável, rivalizando com dois grandes intérpretes da personagem, Laurence Olivier e Colin Firth. Mesmo que soe muito mais antipático do que deveria em um filme que apesar de tudo é uma história de amor, Macfadyen faz o contraponto perfeito à sutileza de Knightley - indicada ao Oscar por seu desempenho. Juntos, eles conseguem conquistar a audiência, que passa a torcer por seu final feliz logo que os dois cruzam os olhares - e dos quais vão adiante com diálogos de uma mordacidade deliciosa.
Fotografado com requinte e dono de uma reconstituição de época brilhante, "Orgulho e preconceito" não faz feio diante de suas versões anteriores, revelando em Joe Wright um cineasta competente e criativo - qualidades que seu trabalho seguinte, o estarrecedor "Desejo e reparação" deixaria ainda mais claro. Um programa obrigatório para os românticos.
terça-feira
COLD MOUNTAIN
COLD MOUNTAIN (Cold Mountain, 2003, Miramax Pictures, 154min) Direção: Anthony Minghella. Roteiro: Anthony Minghella, romance de Charles Frazier. Fotografia: John Seale. Montagem: Walter Murch. Música: Gabriel Yared. Figurino: Ann Roth, Carlo Poggioli. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Bob Osher, Iain Smith, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Albert Berger, Wiiliam Horberg, Sydney Pollack, Ron Yerxa. Elenco: Jude Law, Nicole Kidman, Renee Zelwegger, Donald Sutherland, Ray Winstone, Philip Seymour Hoffman, Natalie Portman, Giovanni Ribisi, Kathy Baker, Jack White, Melora Walters, Jena Malone. Estreia: 25/12/03
7 indicações ao Oscar: Ator (Jude Law), Atriz Coadjuvante (Renee Zelwegger), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Scarlet tide", "You will be my ain true love")
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Renee Zelwegger)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Renee Zelwegger)
Quando “O talentoso Ripley” estreou, em 1999, uma das maiores reclamações da crítica em relação ao filme do ultra-oscarizado Anthony Minghella era o fato dele ter escalado Matt Damon no papel central e o ótimo Jude Law como coadjuvante. O griteiro foi tanto que Law, que concorreu ao Oscar daquele ano acabou sendo a escolha mais coerente de Minghella para protagonizar seu projeto seguinte, este “Cold Mountain”, baseado em um romance relativamente pouco conhecido de Charles Frazier, ele próprio um ilustre desconhecido no Brasil. Considerado como uma versão moderna do clássico “E o vento levou”, “Cold Mountain” decepcionou em termos de bilheteria e não chegou a entusiasmar muito a crítica. No entanto, é um espetáculo que mostra como Hollywood ainda domina a arte de se contar uma história de forma majestosa e glamourosa. Não deixa de ser sintomática a escalação da bela Nicole Kidman como atriz principal, uma vez que a ex-mulher de Tom Cruise, além de linda era, à época das filmagens, o mais perto de diva que o cinema tinha em mãos. Cruise, que havia se interessado pelo papel central, ficou de fora. Nicole se manteve.
Kidman interpreta a mimada e sensível Ada Monroe, que, às vésperas do início da Guerra de Secessão vai morar com o pai, o Pastor Monroe (Donald Sutherland, em atuação simpática) em Cold Mountain, um lugarejo afastado e pacífico. Lá, conquista o amor do tímido e igualmente sensível Inman (Jude Law, que recebeu nova indicação ao Oscar por seu papel), que em seguida parte para o front. Sozinha e sem condições de cuidar da fazenda, Monroe escreve uma carta sofrida para seu amor, implorando que ele volte. Tendo visto os horrores da guerra, o rapaz resolve desertar e parte em busca da mulher amada, que tenta levantar suas economias ao lado da valente Ruby (Renée Zelwegger, que levou o Oscar de coadjuvante, apesar de certos exageros em sua caracterização).

A odisséia de Inman para alcançar sua felicidade e sua paz, levemente inspirada na travessia escrita por Homero, dá ao filme muito mais substância do que os sofrimentos de Ada Monroe, ainda que Kidman e Zelwegger tenham uma química invejável. A aventura do jovem vivido por Law faz com que ele cruze com personagens extremamente interessantes e vividos por atores sensacionais. Phillip Seymour-Hoffman oferece seu imenso talento no papel de um pastor bastante mulherengo. Natalie Portman é dona da cena mais forte, como uma jovem viúva e mãe de um bebê que enfrenta soldados bastante violentos. E até Jack White, da banda White Stripes dá sua colaboração como um jovem músico que se apaixona por Ruby - e conquistou o coração de Zelwegger nos bastidores.
“Cold Mountain” é sem dúvida um belo espetáculo. A fotografia de John Seale e a trilha sonora de Gabriel Yared são impecáveis. A reconstituição de época e as cenas de guerra nunca estão aquém de fantásticas. Nicole Kidman está no auge da beleza e do carisma de estrela. Mas é injusto negar que é o trabalho de Jude Law que torna o filme de Anthony Minghella uma experiência inesquecível. O jovem inglês foi merecidamente indicado ao Oscar, uma vez que brilha intensamente em qualquer cena em que esteja presente. E dessa vez Minghella acertou colocando-o no papel central, felizmente deixando de lado escolhas bizarras como Tom Hanks, Daniel Day-Lewis, Matt Damon, Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e Eric Bana. Prova de que um elenco bem escalado faz metade do serviço.
7 indicações ao Oscar: Ator (Jude Law), Atriz Coadjuvante (Renee Zelwegger), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Scarlet tide", "You will be my ain true love")
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Renee Zelwegger)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Renee Zelwegger)
Quando “O talentoso Ripley” estreou, em 1999, uma das maiores reclamações da crítica em relação ao filme do ultra-oscarizado Anthony Minghella era o fato dele ter escalado Matt Damon no papel central e o ótimo Jude Law como coadjuvante. O griteiro foi tanto que Law, que concorreu ao Oscar daquele ano acabou sendo a escolha mais coerente de Minghella para protagonizar seu projeto seguinte, este “Cold Mountain”, baseado em um romance relativamente pouco conhecido de Charles Frazier, ele próprio um ilustre desconhecido no Brasil. Considerado como uma versão moderna do clássico “E o vento levou”, “Cold Mountain” decepcionou em termos de bilheteria e não chegou a entusiasmar muito a crítica. No entanto, é um espetáculo que mostra como Hollywood ainda domina a arte de se contar uma história de forma majestosa e glamourosa. Não deixa de ser sintomática a escalação da bela Nicole Kidman como atriz principal, uma vez que a ex-mulher de Tom Cruise, além de linda era, à época das filmagens, o mais perto de diva que o cinema tinha em mãos. Cruise, que havia se interessado pelo papel central, ficou de fora. Nicole se manteve.
Kidman interpreta a mimada e sensível Ada Monroe, que, às vésperas do início da Guerra de Secessão vai morar com o pai, o Pastor Monroe (Donald Sutherland, em atuação simpática) em Cold Mountain, um lugarejo afastado e pacífico. Lá, conquista o amor do tímido e igualmente sensível Inman (Jude Law, que recebeu nova indicação ao Oscar por seu papel), que em seguida parte para o front. Sozinha e sem condições de cuidar da fazenda, Monroe escreve uma carta sofrida para seu amor, implorando que ele volte. Tendo visto os horrores da guerra, o rapaz resolve desertar e parte em busca da mulher amada, que tenta levantar suas economias ao lado da valente Ruby (Renée Zelwegger, que levou o Oscar de coadjuvante, apesar de certos exageros em sua caracterização).
A odisséia de Inman para alcançar sua felicidade e sua paz, levemente inspirada na travessia escrita por Homero, dá ao filme muito mais substância do que os sofrimentos de Ada Monroe, ainda que Kidman e Zelwegger tenham uma química invejável. A aventura do jovem vivido por Law faz com que ele cruze com personagens extremamente interessantes e vividos por atores sensacionais. Phillip Seymour-Hoffman oferece seu imenso talento no papel de um pastor bastante mulherengo. Natalie Portman é dona da cena mais forte, como uma jovem viúva e mãe de um bebê que enfrenta soldados bastante violentos. E até Jack White, da banda White Stripes dá sua colaboração como um jovem músico que se apaixona por Ruby - e conquistou o coração de Zelwegger nos bastidores.
“Cold Mountain” é sem dúvida um belo espetáculo. A fotografia de John Seale e a trilha sonora de Gabriel Yared são impecáveis. A reconstituição de época e as cenas de guerra nunca estão aquém de fantásticas. Nicole Kidman está no auge da beleza e do carisma de estrela. Mas é injusto negar que é o trabalho de Jude Law que torna o filme de Anthony Minghella uma experiência inesquecível. O jovem inglês foi merecidamente indicado ao Oscar, uma vez que brilha intensamente em qualquer cena em que esteja presente. E dessa vez Minghella acertou colocando-o no papel central, felizmente deixando de lado escolhas bizarras como Tom Hanks, Daniel Day-Lewis, Matt Damon, Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e Eric Bana. Prova de que um elenco bem escalado faz metade do serviço.
quinta-feira
DONNIE DARKO
DONNIE DARKO (Donnie Darko, 2001, Pandora Cinema/Flower Films, 113min) Direção e roteiro: Ricjard Kelly. Fotografia: Steven Poster. Montagem: Sam Bauer, Eric Strand. Música: Michael Andrews. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Alexander Hammond/Jennie Harris. Produção executiva: Chris J. Ball, Drew Barrymore, Casey La Scala, Hunt Lowry, Aaron Ryder, William Tyrer. Produção: Adam Fields, Nancy Juvonen, Sean McKittrick. Elenco: Jake Gyllenhaal, Jena Malone, Maggie Gyllenhaal, Drew Barrymore, Patrick Swayze, Noah Wyle, Mary McDonnell, Seth Rogen. Estreia: 19/01/01 (Sundance Festival)
"Donnie Darko" é tão desconcertante em sua mistura de gêneros que conseguiu dar um nó na cabeça dos críticos e do público em geral, que ignorou sua passagem pelos cinemas. Mas é justamente esse sincretismo que fez dele um cult movie por excelência, adorado por fãs que viram nele um suspense acima da média, com elementos fortes de ficção científica e até pitadas de romance. Co-produzido pela atriz Drew Barrymore (através de sua Flower Films), o filme escrito e dirigido por Richard Kelly (então com meros 25 anos) subverte algumas regras do cinema mainstream e consegue conquistar o espectador, mesmo que apenas em seus minutos finais ele faça algum sentido.
É preciso embarcar na viagem de Kelly para se curtir "Donnie Darko", deixando de lado qualquer preconceito. A trama começa em 02 de outubro de 1988, quando dois acontecimentos transformam a rotina do personagem-título, um adolescente vivido por Jake Gylenhaal (e que quase foi interpretado por Mark Wahlberg): a turbina de um avião cai sobre seu quarto enquanto ele está fora de casa em um ataque de aparente sonambulismo e ele conhece Frank, um coelho do tamanho de um homem, que torna-se seu "amigo imaginário". Dependente de remédios e sessões de terapia, o jovem Darko fica sabendo, através de Frank, que o mundo tem data para acabar: no Halloween, dia 31 de outubro, ou seja, dali a 29 dias. Enquanto tenta descobrir como será o final dos tempos, ele arruma tempo para se apaixonar pela problemática Gretchen (Jena Malone) e busca uma maneira de viajar no tempo. Nos momentos vagos, obedece a ordens cada vez mais agressivas de Frank, que o incitam a atos quase terroristas.

"Donnie Darko" é, definitivamente, um filme de difícil classificação - e qualquer tentativa de resumí-lo soaria superficial e inútil. Um público menos paciente, mal-acostumado com tramas mastigadinhas desde os créditos de abertura provavelmente irá abominar e passar ao largo das aventuras de Darko, aparentemente herméticas mas convincentes e plausíveis dentro de seu universo próprio. Kelly fez de seu filme de estreia um quebra-cabeças sombrio que encontra na atuação quase propositalmente apática de Jake Gylenhaal um de seus maiores trunfos. Misturando conceitos científicos com uma alta dose de suspense e dubiedade, o diretor/roteirista tornou-se uma promessa das mais consistentes do início do século XXI - ainda que depois tenha cometido coisas indescritíveis como "A caixa", estrelado por Cameron Diaz, que, em sua tentativa de mesclar gêneros acabou tranformando-se em um samba do crioulo doido.
No final das contas, "Donnie Darko" é um conto sobre segundas chances e autosacrifícios, ainda que pareça mais um pesadelo criado por David Lynch do que um sensível drama semiaçucarado imaginado por Frank Capra. Contando com um elenco de coadjuvantes de primeira linha - a própria Drew Barrymore, Patrick Swayze como um suspeito guru de autoajuda e Noah Wyle, da série "Plantão médico" como um professor - e um clima dark e opressivo, o filme ainda apresenta uma nostálgica trilha sonora composta de hits dos anos 80, cantados por gente como Eccho & The Bunnymen (cuja "The killing moon" abre o filme), Duran Duran e Joy Division - além de encerrar com uma bela versão de "Mad world" do Tears for Fears. Quem procura fugir dos padrões, gosta de obras estranhas e encarar uma história para pensar já encontrou seu filme de cabeceira.
"Donnie Darko" é tão desconcertante em sua mistura de gêneros que conseguiu dar um nó na cabeça dos críticos e do público em geral, que ignorou sua passagem pelos cinemas. Mas é justamente esse sincretismo que fez dele um cult movie por excelência, adorado por fãs que viram nele um suspense acima da média, com elementos fortes de ficção científica e até pitadas de romance. Co-produzido pela atriz Drew Barrymore (através de sua Flower Films), o filme escrito e dirigido por Richard Kelly (então com meros 25 anos) subverte algumas regras do cinema mainstream e consegue conquistar o espectador, mesmo que apenas em seus minutos finais ele faça algum sentido.
É preciso embarcar na viagem de Kelly para se curtir "Donnie Darko", deixando de lado qualquer preconceito. A trama começa em 02 de outubro de 1988, quando dois acontecimentos transformam a rotina do personagem-título, um adolescente vivido por Jake Gylenhaal (e que quase foi interpretado por Mark Wahlberg): a turbina de um avião cai sobre seu quarto enquanto ele está fora de casa em um ataque de aparente sonambulismo e ele conhece Frank, um coelho do tamanho de um homem, que torna-se seu "amigo imaginário". Dependente de remédios e sessões de terapia, o jovem Darko fica sabendo, através de Frank, que o mundo tem data para acabar: no Halloween, dia 31 de outubro, ou seja, dali a 29 dias. Enquanto tenta descobrir como será o final dos tempos, ele arruma tempo para se apaixonar pela problemática Gretchen (Jena Malone) e busca uma maneira de viajar no tempo. Nos momentos vagos, obedece a ordens cada vez mais agressivas de Frank, que o incitam a atos quase terroristas.

"Donnie Darko" é, definitivamente, um filme de difícil classificação - e qualquer tentativa de resumí-lo soaria superficial e inútil. Um público menos paciente, mal-acostumado com tramas mastigadinhas desde os créditos de abertura provavelmente irá abominar e passar ao largo das aventuras de Darko, aparentemente herméticas mas convincentes e plausíveis dentro de seu universo próprio. Kelly fez de seu filme de estreia um quebra-cabeças sombrio que encontra na atuação quase propositalmente apática de Jake Gylenhaal um de seus maiores trunfos. Misturando conceitos científicos com uma alta dose de suspense e dubiedade, o diretor/roteirista tornou-se uma promessa das mais consistentes do início do século XXI - ainda que depois tenha cometido coisas indescritíveis como "A caixa", estrelado por Cameron Diaz, que, em sua tentativa de mesclar gêneros acabou tranformando-se em um samba do crioulo doido.
No final das contas, "Donnie Darko" é um conto sobre segundas chances e autosacrifícios, ainda que pareça mais um pesadelo criado por David Lynch do que um sensível drama semiaçucarado imaginado por Frank Capra. Contando com um elenco de coadjuvantes de primeira linha - a própria Drew Barrymore, Patrick Swayze como um suspeito guru de autoajuda e Noah Wyle, da série "Plantão médico" como um professor - e um clima dark e opressivo, o filme ainda apresenta uma nostálgica trilha sonora composta de hits dos anos 80, cantados por gente como Eccho & The Bunnymen (cuja "The killing moon" abre o filme), Duran Duran e Joy Division - além de encerrar com uma bela versão de "Mad world" do Tears for Fears. Quem procura fugir dos padrões, gosta de obras estranhas e encarar uma história para pensar já encontrou seu filme de cabeceira.
segunda-feira
LADO A LADO
De um lado uma das maiores estrelas de Hollywood. De outro, uma atriz de prestígio, vencedora do Oscar. Entre elas, um ator respeitado por seu talento e sua personalidade. Comandando a todos, um cineasta experiente em dialogar de forma direta com seu público, sem firulas e maneirismos. Não tinha como dar errado. E não deu. "Lado a lado", dirigido pelo mesmo Chris Columbus do megasucesso "Esqueceram de mim", reuniu Julia Roberts, Susan Sarandon e Ed Harris em um drama familiar que, apesar de contar com uma doença terminal entre suas tramas, jamais escorrega para o sentimentalismo barato. Pode até ser acusado de ser superficial (e de certo modo o é), mas sua opção em não buscar a lágrima exagerada do público mostrou-se acertada, o que sua bilheteria de quase 160 milhões de dólares apenas comprovou em números.
A trama é simples: a bem-sucedida fotógrafa de moda Isabel Kelly (Julia Roberts, linda) vive um relacionamento estável e caloroso com Luke Harrison (Ed Harris), um homem mais velho mas apaixonado e dedicado. A relação tranquila entre os dois só é atrapalhada pela resistência dos dois filhos de seu primeiro casamento, a pré-adolescente Anna (Jena Malone) e o pequeno Ben (Liam Aiken), que tem verdadeira adoração pela mãe, Jackie (Susan Sarandon). Uma mulher que abandonou a carreira de editora para dedicar-se ao casamento e à família, Jackie não aceita o novo romance do ex-marido com Isabel e incentiva os filhos a sabotarem todas as tentativas da jovem de aproximar-se deles. A relação conflituosa entre todos sofre uma reviravolta quando Jackie descobre sofrer de um câncer intratável. A partir daí, ela começa a trabalhar uma forma de fazer com que seus filhos não apenas aceitem a nova mulher de seu pai, mas que também a respeitem como uma nova mãe.
O roteiro de "Lado a lado" é bastante leve, apesar de ter uma segunda metade que poderia facilmente descambar para o dramalhão. Columbus não exagera na sacarina, sempre cuidando em tratar com delicadeza até mesmo as cenas mais emocionantes, defendidas com garra por suas duas atrizes centrais, também produtoras executivas do filme. São elas, do alto de seu carisma, que sustentam as pequenas falhas do roteiro, um tanto superficial mas adequado a suas pretensões comerciais. Logicamente não era do interesse do estúdio mostrar Sarandon definhando em cena - o que afugentaria a audiência - e, levando-se isso em consideração, o resultado final cumpre o que promete: é ágil, comovente e por vezes até caloroso. O fato de ser plasticamente asséptico - as casas são lindas, a doença é apenas mencionada e nunca mostrada em todas as suas proporções, não há ninguém que não seja lindo ou carismático - atrapalha um pouco em fazê-lo ser levado a sério, mas mais uma vez surge a pergunta: o público-alvo tem esse tipo de preocupação estética?
"Lado a lado" é um filme estritamente comercial e dentro dessa restrição é um produto de grande qualidade. Fotografado luminosamente, com uma trilha sonora moderna e vibrante e um elenco irretocável (onde destaca-se também a pequena grande atriz Jena Malone), é um filme feito para emocionar. E, mesmo que poupe a audiência de um vale de lágrimas (como "Laços de ternura", por exemplo), atinge seus objetivos com extrema eficácia.
quarta-feira
CONTATO
CONTATO (Contact, 1997, Warner Bros, 150min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: James V. Hart, Michael Goldenberg, romance de Carl Sagan, história de Carl Sagan, Ann Druyan. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Ed Verreaux/Michael J. Taylor. Produção executiva: Joan Bradshaw, Lynda Obst. Produção: Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Jodie Foster, Matthew McConaughey, David Morse, Jena Malone, William Fichtner, Rob Lowe, Tom Skerritt, Angela Bassett, John Hurt. Estreia: 11/7/97
Indicado ao Oscar de Som
Um dos mais populares escritores e astrônomos do mundo, Carl Sagan, autor da famosa série "Cosmos", morreu no final de 1996, quando as filmagens de um de seus mais estimados projetos ainda em andamento. Concebido no início dos anos 80 já em formato de filme e posteriormente transformado em romance, "Contato" chegou às telas alguns meses depois da morte de Sagan, arrancando elogios unânimes da crítica e amealhando nada desprezíveis 100 milhões de dólares somente no mercado doméstico americano. Levando-se em consideração que seu diretor é Robert Zemeckis - que fez com que "Forrest Gump", a história simples de um rapaz com problemas mentais se tornasse uma das maiores bilheterias da história - não chega a ser surpresa o sucesso do filme. Surpresa é o fato de o filme ter alcançado tamanho êxito sem apelar para efeitos visuais desnecessários nem tampouco descaracterizar a trama criada por Sagan. Apesar de classificar-se, sim, como uma ficção científica, "Contato" expande os limites do gênero ao tratar a busca por vida em outros planetas de uma maneira completamente diferente do mostrado até então.
A principal preocupação do roteiro de "Contato" não é levar o espectador à Marte ou planetas outros ao lado de personagens engraçadinhos e forjados sem a menor sutileza. A conversa aqui é bem outra, graças à inteligência da história criada por Sagan. A protagonista do filme é Ellie Arroway (vivida por uma Jodie Foster madura e sempre competente), uma astrônoma dedicada a sua busca por provas de vida fora da Terra. Lutando contra seus financiadores, que acreditam que ela está perdendo dinheiro com suas pesquisas, ela conta com a ajuda de seus colegas para manter viva a esperança de fazer a grande descoberta de sua vida. Um dia, finalmente ela ouve ruídos em seu rádio e descobre, sem sombra de dúvida, que tais sons são a prova da existência de alienígenas inteligentes. Ainda através de contatos sonoros, tais seres enviam instruções para a construção de uma máquina que permitirá a um terráqueo viajar até eles. Quando tal nave fica pronta, porém, uma dúvida surge: quem é realmente digno de representar o planeta?

É a partir desse questionamento filosófico/religioso que "Contato" sai do lugar-comum dos filmes de ficção científica e penetra em um nível bem mais superior de entretenimento. Sem nunca descuidar do desenvolvimento dramático da história - que inclui a interessante relação entre a intelectual Ellie e o teólogo Joss Palmer (Matthew McConaughey) - o roteiro dá ao público um vasto material para discussões sem, por causa disso, confundí-lo com complexidades inúteis. Está tudo acomodado de forma sutil e convincente, principalmente porque, além de tudo, Zemeckis tem o dom de sempre escalar um elenco preciso. Logicamente, a dona da festa é Jodie Foster, que conduz toda a história com a majestade de sempre, mas seus coadjuvantes não podem jamais ser acusados de ficarem eclipsados por seu enorme talento.
Enquanto Matthew McConaughey aproveita seu status de "novo galã da hora em Hollywood" - foi seu primeiro trabalho após o sucesso de "Tempo de matar" - William Fichtner tem a maior chance de sua carreira ao interpretar o braço direito de Ellie, Kent, um cientista cego de importância fundamental na narrativa e John Hurt quase rouba a cena na pele de S.R. Hadden, o excêntrico milionário que possibilita à protagonista realizar seu sonho - em uma sequência belíssima realizada com extremo bom-gosto. Não bastasse isso, ainda fazem pequenas participações Tom Skerritt, Angela Bassett, Rob Lowe e até mesmo o presidente Bill Clinton, cujo discurso foi utilizado sem prévia permissão e causou controvérsia. E é inadmissível não lembrar das ótimas participações de Jena Malone e David Morse nas cenas iniciais, como a menina Ellie e seu pai, cuja morte tem ressonância em todo o filme.
"Contato" é, portanto, uma ficção científica com os dois pés na realidade. Não é um filme para o público que lotou as salas de cinema para assistir a bobagens indescritíveis como "Independence Day", mas para aquela plateia que gosta de ter seu cérebro bem tratado por duas horas e meia.
Indicado ao Oscar de Som
Um dos mais populares escritores e astrônomos do mundo, Carl Sagan, autor da famosa série "Cosmos", morreu no final de 1996, quando as filmagens de um de seus mais estimados projetos ainda em andamento. Concebido no início dos anos 80 já em formato de filme e posteriormente transformado em romance, "Contato" chegou às telas alguns meses depois da morte de Sagan, arrancando elogios unânimes da crítica e amealhando nada desprezíveis 100 milhões de dólares somente no mercado doméstico americano. Levando-se em consideração que seu diretor é Robert Zemeckis - que fez com que "Forrest Gump", a história simples de um rapaz com problemas mentais se tornasse uma das maiores bilheterias da história - não chega a ser surpresa o sucesso do filme. Surpresa é o fato de o filme ter alcançado tamanho êxito sem apelar para efeitos visuais desnecessários nem tampouco descaracterizar a trama criada por Sagan. Apesar de classificar-se, sim, como uma ficção científica, "Contato" expande os limites do gênero ao tratar a busca por vida em outros planetas de uma maneira completamente diferente do mostrado até então.
A principal preocupação do roteiro de "Contato" não é levar o espectador à Marte ou planetas outros ao lado de personagens engraçadinhos e forjados sem a menor sutileza. A conversa aqui é bem outra, graças à inteligência da história criada por Sagan. A protagonista do filme é Ellie Arroway (vivida por uma Jodie Foster madura e sempre competente), uma astrônoma dedicada a sua busca por provas de vida fora da Terra. Lutando contra seus financiadores, que acreditam que ela está perdendo dinheiro com suas pesquisas, ela conta com a ajuda de seus colegas para manter viva a esperança de fazer a grande descoberta de sua vida. Um dia, finalmente ela ouve ruídos em seu rádio e descobre, sem sombra de dúvida, que tais sons são a prova da existência de alienígenas inteligentes. Ainda através de contatos sonoros, tais seres enviam instruções para a construção de uma máquina que permitirá a um terráqueo viajar até eles. Quando tal nave fica pronta, porém, uma dúvida surge: quem é realmente digno de representar o planeta?
É a partir desse questionamento filosófico/religioso que "Contato" sai do lugar-comum dos filmes de ficção científica e penetra em um nível bem mais superior de entretenimento. Sem nunca descuidar do desenvolvimento dramático da história - que inclui a interessante relação entre a intelectual Ellie e o teólogo Joss Palmer (Matthew McConaughey) - o roteiro dá ao público um vasto material para discussões sem, por causa disso, confundí-lo com complexidades inúteis. Está tudo acomodado de forma sutil e convincente, principalmente porque, além de tudo, Zemeckis tem o dom de sempre escalar um elenco preciso. Logicamente, a dona da festa é Jodie Foster, que conduz toda a história com a majestade de sempre, mas seus coadjuvantes não podem jamais ser acusados de ficarem eclipsados por seu enorme talento.
Enquanto Matthew McConaughey aproveita seu status de "novo galã da hora em Hollywood" - foi seu primeiro trabalho após o sucesso de "Tempo de matar" - William Fichtner tem a maior chance de sua carreira ao interpretar o braço direito de Ellie, Kent, um cientista cego de importância fundamental na narrativa e John Hurt quase rouba a cena na pele de S.R. Hadden, o excêntrico milionário que possibilita à protagonista realizar seu sonho - em uma sequência belíssima realizada com extremo bom-gosto. Não bastasse isso, ainda fazem pequenas participações Tom Skerritt, Angela Bassett, Rob Lowe e até mesmo o presidente Bill Clinton, cujo discurso foi utilizado sem prévia permissão e causou controvérsia. E é inadmissível não lembrar das ótimas participações de Jena Malone e David Morse nas cenas iniciais, como a menina Ellie e seu pai, cuja morte tem ressonância em todo o filme.
"Contato" é, portanto, uma ficção científica com os dois pés na realidade. Não é um filme para o público que lotou as salas de cinema para assistir a bobagens indescritíveis como "Independence Day", mas para aquela plateia que gosta de ter seu cérebro bem tratado por duas horas e meia.
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