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segunda-feira

ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

 


ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (Before the devil knows you're dead, 2007,  Capitol Films/Funky Buddha Productions/Unity Productions, 117min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Kelly Masterson. Fotografia: Ron Fortunato. Montagem: Tom Swartwout. Música: Carter Burwell. Figurino: Tina Nigro. Direção de arte/cenários: Christopher Nowak/Diane Lederman. Produção executiva: Belle Avery, Jane Barclay, David Bergstein, J. J. Hoffman, Eli Klein, Hannah Leader, Jeffry Melnick, Sam Zaharis. Produção: Michael Cerenzie, William S. Gilmore, Brian Linse, Paul Parmar. Elenco: Phillip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei, Albert Finney, Rosemary Harris, Amy Ryan, Michael Shannon. Estreia: 07/9/2007 (Deauville Festival of American Cinema)

No mínimo desde "12 homens e uma sentença" (1957) - passando por clássicos absolutos como "Serpico" (1973), "Um dia de cão" (1975) e "Rede de intrigas" (1976) -, o cineasta Sidney Lumet acostumou-se a entregar ao público produções que apresentavam personagens dúbios, falíveis e dispostos a correrem riscos em nomes de objetivos quase sempre suicidas. Depois de um longo período de obras menores e/ou sem repercussão popular e de crítica, ele voltou a seu tema preferido em "Antes que o diabo saiba que você está morto", uma poderosa mescla de filme policial e drama familiar que acabou por ser, sem que ele mesmo soubesse disso, seu canto do cisne. Dirigindo com precisão cirúrgica o trágico e surpreendente primeiro roteiro de Kelly Masterson, o veterano Lumet demonstra uma vitalidade rara para um artista octogenário, mantendo o espectador atento a cada reviravolta e cada nuance revelada por seus protagonistas. E é lógico que ajuda muito contar, no elenco, com atores brilhantes como Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke e Albert Finney - em uma de suas últimas aparições nas telas.

Com ecos de Shakespeare em sua trama - imprevisível e pessimista -, "Antes que o diabo saiba que você está morto" apresenta dois irmãos de personalidades opostas que se unem para cometer um crime aparentemente perfeito: o roubo a uma joalheria familiar em uma manhã de pouco movimento. Andy (Philip Seymour Hoffman) está em vias de ter descoberto o desfalque que deu na empresa onde trabalha, enquanto Hank (Ethan Hawke) vive sob a pressão de dever a pensão para a ex-mulher ao mesmo tempo em que se culpa por não conseguir ser o filho que seu pai, Charles (Albert Finney), sonhava ter. Com o fracasso do assalto - que acaba em duas mortes - a vida da família vira do avesso: chantageados pelo irmão de uma das vítimas (que sabe de sua responsabilidade na tragédia), Andy e Hank entram em um caminho de sangue, violência e traições, que envolve Gina (Marisa Tomei) - esposa de um e amante do outro - e o próprio patriarca.

 

Contada de forma não linear, recheada de idas e vindas no tempo que servem para oferecer ao público as peças que formam seu quebra-cabeças, a trama do filme de Lumet se utiliza de tal artifício não como muleta narrativa, mas como parte fundamental de sua estrutura. Conforme novas informações a respeito dos acontecimentos que levaram ao crime - e suas consequências - vão surgindo diante do espectador, mais potentes as camadas vão se revelando, reafirmando o tom fatalista da expressão irlandesa que empresta o nome à produção. As surpresas reservadas a cada capítulo - com uma edição primorosa, que explicita apenas o que é necessário no momento - tornam "Antes que o diabo saiba que você está morto" um drama policial que rompe com as tradicionais engrenagens do gênero, aprofundando as relações interpessoais até o limite da inevitável ruptura. Com três focos distintos - Andy, Hank e Charles - que se intercalam e se completam, o roteiro de Kelly Masterson empolga exatamente por sua capacidade de surpreender e por sua coragem em chegar a desdobramentos que a maioria das produções do gênero evita a todo custo. E não atrapalha em nada que Lumet possa contar com um elenco absolutamente impecável.

Assim como seus personagens, Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke são atores de personalidades distintas, e o experiente cineasta explora com precisão tais diferenças, em cenas de crescente tensão que enfatizam suas qualidades como intérpretes e potencializam cada linha de diálogo. O veterano Albert Finney tampouco fica atrás, com ao menos duas sequências arrepiantes - uma delas encerrando de forma chocante o drama familiar estabelecido nos primeiros minutos. E em um elenco tão incrível, o único senão é o pouco aproveitamento de Rosemary Harris e Amy Ryan - partes femininas de um clã onde apenas Marisa Tomei tem reais chances de brilhar. Forte e coeso, o conjunto de atores (premiado por várias associações de críticos) é a tradução perfeita de um roteiro inteligente, uma direção energética e, o que é mais importante de tudo, uma história envolvente. Um adeus digno da grandeza de seu diretor.

OS PIRATAS DO ROCK

 


OS PIRATAS DO ROCK (The boat that rocked, 2009, Universal Pictures/Working Title Films/StudioCanal, 135min) Direção e roteiro: Richard Curtis. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Emma E. Hickox. Música: Hans Zimmer. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Dominic Capon. Produção executiva: Liza Chasin, Richard Curtis, Debra Hayward. Produção: Hilary Bevan Jones, Tim Bevan, Eric Fellner. Elenco: Philip Seymour Hoffman, Bill Nighy, Rhys Ifans, Kenneth Branagh, Emma Thompson, Tom Sturridge, Jack Davenport, Nick Frost, Chris O'Dowd, Gemma Arterton, January Jones, Will Adamsdale. Estreia: 01/4/2009

O ano era 1966. O rock britânico dominava as paradas de sucesso, as vendagens e os corações de milhares de jovens, encantados com a aura de rebeldia e liberdade. Em um movimento oposto a esse, no entanto, o governo local tentava impedir o avanço do que considerava uma cultura "perigosa", com uma lei que restringia a execução de música popular na rádio oficial do país a apenas uma hora por dia. Inconformadas com tal arbitrariedade, várias emissoras piratas entravam nos lares ingleses com uma programação recheada de sucessos - sintonizadas a partir de navios ancorados fora dos limites da Inglaterra. Uma dessas emissoras era a Radio Caroline, cujo estilo anárquico, debochado e informal ficou na mente do diretor e roteirista Richard Curtis - que, décadas mais tarde, resolveu homenageá-la com "Os piratas do rock", uma divertida e calorosa comédia que emula, de forma fictícia, sua personalidade e dia-a-dia. Narrado em forma anedótica e pontuado por uma trilha sonora das mais empolgantes - além de um elenco perfeitamente escalado -, o filme pode não ter feito um sucesso avassalador (na verdade nem chegou a pagar seu custo de produção), mas é, como o normal na carreira de Curtis, o equivalente cinematográfico a um abraço carinhoso.

Conhecido principalmente pelo roteiro de "Quatro casamentos e um funeral" (1994) - que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar e lhe abriu as portas para outras pérolas do gênero, como "Um lugar chamado Notting Hill" (1999) e "O diário de Bridget Jones" (2001) -, Curtis estreou na direção com o sublime "Simplesmente amor" (2003) e tornou-se um cineasta de poucos mas consistentes filmes. "Os piratas do rock" é apenas seu segundo longa, mas já enfatiza seu estilo delicado e generoso de contar histórias centradas em seres humanos, com todas as suas idiossincrasias e possíveis tendências ao ridículo - até mesmo quando o personagem central é um barco. Com uma galeria de tipos capazes de arrancar risadas (e talvez até algumas discretas lágrimas), "Os piratas do rock" aposta em uma trama sem um protagonista único, que espalha seu foco em uma série de acontecimentos que, juntos, formam um retrato dos mais festivos de uma das mais prolíficas eras do rock - vista por seus bastidores mais distantes.

 

O cenário estabelecido por Curtis para contar sua história é a Rock Radio, uma das várias emissoras piratas que desafiavam a lei britânica para agradar a uma legião de fiéis fãs. O filme começa quando o adolescente Carl (Tom Sturridge), expulso da escola pelo supremo ato de rebeldia de fumar maconha, chega ao QG da rádio para passar uns tempos ao lado do padrinho, Quentin (Bill Nighy), o dono do lugar. Assim que chega, Carl se torna parte da rotina doméstica - que inclui duas visitas mensais de um grupo de mulheres para a diversão dos funcionários - e amigo dos radialistas, todos donos de personalidades distintas que dividem o amor pelo rock e pelas liberdades individuais. Dentre todas as bizarras situações que ele testemunha, destaca-se a nem sempre sutil rivalidade entre o americano The Count (Philip Seymour Hoffman) - um dos mais famosos de seu país - e o maior DJ da Inglaterra, o arrogante Gavin (Rhys Ifans) - que retorna depois de um período dedicado a prazeres ilícitos. Mas como a felicidade de uns é sempre o suplício de quem não é feliz, a existência da Rock Radio passa a ser ameaçada por Alistair Dormandy (Kenneth Branagh), homem de confiança do Primeiro Ministro, que faz da missão de acabar com as transmissões piratas a prioridade de seus dias.

"Os piratas do rock" não é tão redondo ou brilhante como os outros filmes de Richard Curtis - demora a engrenar e em alguns momentos sofre de uma perda de ritmo -, mas apresenta, como em todos eles, um humor contagiante. É difícil não torcer por seus anti-heróis, assim como é quase impossível não se deixar envolver por sua amizade e por sua busca por liberdade e arte. Ilustrado por uma bela trilha sonora (por vezes ligeiramente anacrônica, mas sempre funcional) e impregnado por uma ingenuidade encantadora, é uma comédia que foge do riso fácil e prefere sorrisos emocionados a gargalhadas vazias. Em suma, é tudo que a obra de seu diretor/roteirista/produtor sempre ofereceu às plateias: humor inteligente e sensibilidade.

QUANDO UM HOMEM AMA UMA MULHER

 


QUANDO UM HOMEM AMA UMA MULHER (When a man loves a woman, 1994, Touchstone Pictures, 126min) Direção: Luis Mandoki. Roteiro: Ron Bass, Al Franken. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Garth Craven. Música: Zbigniew Preisner. Figurino: Linda Bass. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Kara Lindstrom. Produção executiva: Ron Bass, Al Franken, Simon Maslow. Produção: Jon Avnet, Jordan Kerner. Elenco: Meg Ryan, Andy Garcia, Lauren Tom, Philip Seymour Hoffman, Ellen Burstyn, Tina Majorino, Mae Whitman. Estreia: 29/4/94

Por incrível que pareça - levando-se em conta o quanto o filme em si não é nada memorável e pouco acrescentou às carreiras dos envolvidos -, a ideia central de "Quando um homem ama uma mulher" surgiu de um rascunho de dez páginas escritas por ninguém menos que Orson Welles. Isso mesmo: o homem responsável por abalar a indústria do cinema com seu "Cidadão Kane" (1941) foi quem escreveu os primeiros rascunhos do filme lançado em 1994 e que conta a história de uma família ameaçada pelo fantasma do alcoolismo. Parte das tentativas de Meg Ryan em abandonar a imagem doce de estrela de comédias românticas, no entanto, a produção dirigida pelo inexpressivo Luis Mandoki não encontrou seu público e, se não foi um fracasso imenso nas bilheterias, tampouco tornou-se um sucesso comercial. Em parte por culpa do tema sombrio - ainda que revestido de uma leveza típica dos filmes Disney (através da Touchstone, sua subsidiária para filmes adultos) -, em parte pela falta de ousadia em mergulhar mais fundo no tema, o filme de Mandoki fica no meio-termo entre o que é e o que poderia ter sido. Pode emocionar aos mais sensíveis, mas sua superficialidade não deixa de incomodar.

Assumindo um papel que foi pensado para Debra Winger (e que também foi oferecido à Michelle Pfeiffer), a adorável Meg Ryan deixa de lado sua persona agradável e encantadora para dar vida (e lágrimas) à Alice Green, uma mãe de família dedicada que esconde, por trás de seus modos gentis e carinhosos, um vício quase paralisante por álcool. Quem sabe de seu problema é Michael (Andy Garcia), um piloto de avião que passa seus dias tentando encobrir as crises da mulher - às vezes sutis, outras bastante violentas. Suas filhas pequenas, Jess (Tina Majorino) e Casey (Mae Whitman), são testemunhas dos acessos da mãe, e sofrem a cada discussão entre os pais - além de serem potenciais vítimas da violência que pode surgir a qualquer momento. Depois de uma crise particularmente grave, Alice aceita ir para uma clínica de reabilitação - mas seu retorno acaba tendo efeitos colaterais graves em sua relação com o marido: antes o pilar que mantinha a família de pé, o responsável e amoroso Michael se vê repentinamente sem função na dinâmica da casa e o casamento encontra, então, uma nova ameaça.

 

Não é que o filme de Mandoki seja exatamente ruim. O problema é que, comparado a outras (e mais corajosas) produções sobre o mesmo tema, "Quando um homem ama uma mulher" empalidece irremediavelmente. Não há, nele, a sensação de urgência de "Farrapo humano" (1945) e "Vício maldito" (1962), que não à toa são referenciais em relação ao assunto. "Despedida em Las Vegas", que seria lançado no ano seguinte, também tem a ousadia que lhe falta, ao mergulhar Nicolas Cage em um espiral de desespero poucas vezes agradável ao olhos do espectador. Visualmente asséptico e emocionalmente superficial, o resultado final soa mais como uma telenovela do que como cinema - para isso conta também o roteiro quadradinho, escrito pelo vencedor do Oscar (por "Rain Man", de 1988) Ron Bass: a relação entre o casal de protagonistas, por exemplo, nunca atinge todo o seu potencial dramático, sendo ofuscado em diversas ocasiões pela dupla de atrizes mirins que interpretam suas filhas. Por mais que a intenção seja retratar o estrago feito pelo vício em um núcleo familiar, não deixa de ser frustrante ver o esvaziamento de uma questão tão séria em uma realização tão pouco ousada e que prefere o melodrama a discussões mais contundentes.

Nitidamente se esforçando em demonstrar uma nova faceta de seu talento, Meg Ryan nem sempre dá conta do recado, muitas vezes caindo na armadilha do exagero que o papel cria a cada cena - mas é louvável que leve a sério sua tarefa (a ponto de ter sido lembrada pelos colegas com uma indicação ao Screen Actors Guild). Andy Garcia, por sua vez, faz o que pode com um personagem que é praticamente o apoio para as crises de Ryan - é de se imaginar como Tom Hanks, a primeira escolha para o papel, se sairia em cena ao lado de Debra Winger. E no elenco coadjuvante, um jovem Philip Seymour Hoffman mal consegue destacar-se, assim como a veterana Ellen Burstyn - mal-aproveitada como a mãe de Alice. Amparando-se na força do tema, mas sem conseguir desenvolvê-lo a contento, "Quando um homem ama uma mulher" é um filme sobre alcoolismo para quem não tem a intenção de vê-lo com toda a feiura e dor que ele traz.

quinta-feira

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO (Moneyball, 2011, ColumbiaPictures, 131min) Direção: Bennett Miller. Roteiro: Steven Zaillian, Aaron Sorkin, livro de Michael Lewis. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Mychael Danna. Figurino: Kasia Malicja Maione. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Mark Bakshi, Andrew Karsch, Sidney Kimmel, Scott Rudin. Produção: Michael De Luca, Rachael Horovitz, Brad Pitt. Elenco: Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Chris Pratt, Spike Jonze, Stephen Bishop, Brent Jennings, Tammy Blanchard, Arliss Howard. Estreia: 09/9/11 (Festival de Toronto)

06 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Brad Pitt), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado, Montagem, Mixagem de Som

Poucas pessoas em Hollywood conseguiriam convencer um estúdio a bancar um filme a respeito de beisebol e matemática, dois assuntos não exatamente populares - especialmente fora dos EUA, onde o esporte é praticamente veneno de bilheteria. E uma dessas poucas pessoas é o diretor Steven Soderbergh, que desde 1989, quando ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes com "sexo, mentiras e videotape", consagrou-se como o cineasta independente mais bem-sucedido do cinema norte-americano. Nem mesmo alguns tiros n'água foram o suficiente para diminuir seu prestígio na indústria - e o Oscar de melhor diretor por "Traffic" (2000) no mesmo ano em que também concorria por "Erin Brokovich, uma mulher de talento" só aumentou seu cacife. Portanto, quando Soderbergh surgiu com a ideia de fazer um filme sobre o esporte com o elenco formado por ex-jogadores e profissionais da liga, poucos se surpreenderam com a aquiescência da Columbia Pictures em bancar os custos da produção. A surpresa veio mesmo quando o próprio diretor saiu fora do projeto, por divergências em relação ao roteiro, escrito pelo premiado Steven Zaillian. A entrada em cena de um novo comandante - Bennett Miller, indicado ao Oscar por "Capote" (05) - e um astro de primeira grandeza no papel principal - Brad Pitt - imediatamente inchou o orçamento, e o que seria uma produção menor ganhou destaque na mídia e nas cerimônias de premiação. Indicado a seis Oscar - incluindo melhor filme e ator - e com uma considerável bilheteria doméstica de mais de 75 milhões de dólares, "O homem que mudou o jogo" talvez tenha sido super-apreciado, mas é um filme bastante interessante, a despeito de seu tema pouco atraente.

Desprovido de seu charme de galã e de seu carisma irresistível, Brad Pitt arrancou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho como Billy Beane, o gerente geral de um time de beisebol de Oakland que tenta, com a ajuda de seu novo assistente, Peter Brand (Jonah Hill, lembrado como coadjuvante pela Academia), melhorar os índices de aproveitamento de sua equipe mesmo com um orçamento irrisório em comparação com os rivais. Perdendo os atletas-astros para times maiores, Beane e Brand - formado em Economia e sem nenhuma relação com o esporte em si - criam uma nova forma de calcular o quanto cada jogador pode render em campo, através de gráficos e percentuais. Contratando homens até então desacreditados ou relegados ao banco de reservas, eles enfrentam a descrença dos analistas técnicos e até do treinador, Art Howe (Philip Seymour Hoffman); Mas, para surpresa de todos, depois de um período de tempo as vitórias começam a acumular-se, transformando o Oakland Athletics em uma espécie de fenômeno inesperado.


Baseado em uma história real, contada por Michael Lewis em seu livro "Moneyball", o filme de Bennet Miller se beneficia de uma edição inteligente, que mergulha o espectador dentro não apenas dos jogos em si - cujas regras não são tão facilmente compreensíveis quanto as do futebol - mas das entranhas do esporte em geral. A melancolia dos estádios vazios, a frieza das negociações contratuais, a agonia das derrotas e a euforia das vitórias são retratadas de forma quase documental, com a câmera de Wally Pfister (diretor de fotografia preferido de Christopher Nolan) sempre atenta a qualquer detalhe capaz de humanizar cada um de seus personagens. Mesclando imagens de arquivo com cenas feitas especialmente para o filme, Miller consegue a proeza de enfatizar a emoção do esporte sem precisar, para isso, abdicar de uma certa dose de racionalidade que dá ao resultado final uma curiosa mescla entre cérebro e coração: é impossível não torcer pelos desacreditados jogadores menosprezados, mesmo que a direção quase cirúrgica evite qualquer traço de sentimentalismo. Até mesmo a relação entre Beane e a filha pré-adolescente é tratada com discrição, apesar de permitir à Pitt que demonstre a sutileza de sua atuação.

Centrando todo seu foco nos dois protagonistas, "O homem que mudou o jogo" conta com participações especiais ilustres - além de Philip Seymour Hoffman como o treinador Art Howe, aparecem em cena Robin Wright (como a ex-mulher de Beane), o diretor Spike Jonze (como o novo marido dela) e Chris Pratt, antes de tornar-se popular como o herói de "Guardiões da galáxia" (2014), como um dos jogadores resgatados pelo método audacioso de Beane e Brand. Como um filme que se propõe a narrar uma história quase inacreditável sem apelar para grandes reviravoltas ou artifícios dramáticos, se utiliza de um excelente roteiro - que, inicialmente escrito por Steven Zaillian, foi burilado por Aaron Sorkin e indicado ao Oscar a categoria, perdendo para "Os descendentes" - para celebrar a persistência e o amor ao esporte, na figura de um protagonista falível e realista, iluminado por flashbacks reveladores que explicam sua trajetória de atleta promissor a gerente em crise profissional. Sem excesso de nenhuma natureza - característica de seu diretor - é uma obra que cresce em uma revisão, desde que se saiba exatamente quais são seus objetivos e seu estilo narrativo. Mais uma bola dentro na carreira de Brad Pitt.

terça-feira

JOGOS VORAZES - EM CHAMAS

JOGOS VORAZES: EM CHAMAS (The Hunger Games: Catching Fire, 2013, LionsGate, 146min) Direção: Francis Lawrence. Roteiro: Simon Beaufoy, Michael deBruyn, romance de Suzanne Collins. Fotografia: Jo Willems. Montagem: Alan Edward Bell. Música: James Newton Howard. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Larry Dias. Produção executiva: Suzanne Collins, Joseph Drake, Michael Paseornek, Louise Rosner, Ali Shearmur. Produção: Nina Jacobson, Jon Kilik. Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Philip Seymour Hoffman, Donald Sutherland, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Stanley Tucci, Lenny Kravitz, JeffreY Wright, Amanda Plummer, Jena Malone, Toby Jones, Lynn Cohen. Estreia: 18/11/13

Já está virando meio tradição dentro da indústria hollywoodiana: talvez por não precisar apresentar seus personagens e poder partir direto pra ação, talvez porque seus criadores sabem que a exigência do público aumenta ou talvez porque existe uma maior familiaridade com o material, os segundos capítulos da maioria das franquias cinematográficas contemporâneas conseguem ser melhores que o original. Foi assim com o "Homem-aranha 2" de Sam Raimi, com o "Batman, o cavaleiro das trevas", de Christopher Nolan e com "X-Men 2", de Bryan Singer. E foi assim também com "Jogos vorazes, em chamas", continuação do mega bem-sucedido filme de 2012 , baseado na trilogia escrita por Suzanne Collins. Agora sob a batuta de Francis Lawrence - cujo currículo inclui o interessante "Constantine" e a adaptação de "Eu sou a lenda" com Will Smith - a história de Katniss Everdeen em sua luta pela sobrevivência em um jogo de vida ou morte cada vez mais violento (e com intenções sociopolíticas nada justas) e empolgante.

Conforme dito acima, "Em chamas" tem a vantagem de não precisar perder tempo explicando sua trama e apresentando seus personagens - e para isso é crucial que a audiência já tenha assistido ao primeiro capítulo. Quando o filme começa, com eventos que acontecem um ano após o término do filme original, Katniss (Jennifer Lawrence, tornada queridinha de Hollywood pelo Oscar de melhor atriz conquistado por "O lado bom da vida") e seu parceiro Peeta Mellark (Josh Hutcherson), vencedores da 74ª edição dos jogos do título, começam uma turnê por todos os distritos, como forma de aproximar-se da população e dar credibilidade ao governo. Porém, ao perceber a desilusão do povo em relação os problemas sociais que os cercam, o casal (forjado para vencer os jogos) passa a questionar a liderança do Presidente Snow (Donald Sutherland). Temendo uma revolução liderada por Katniss, o presidente cria uma nova regra, que obriga todos os vencedores prévios a lutar novamente - sua intenção é acabar com a vida da jovem, impedindo assim que ela se torne a voz de um levante popular.



Acrescentando à série rostos conhecidos - Amanda Plummer, Jeffrey Wright, Jena Malone como novos competidores e Philip Seymour Hoffman como o novo diretor do torneio - "Em chamas" é mais violento do que seu primeiro capítulo, já apontando a direção que os dois últimos filmes tomarão: cada vez mais acossado, o vilão vivido por Donald Sutherland não hesita em transformar seu governo em uma carnificina e os jogos em uma série de armadilhas cruéis e traiçoeiras. Enquanto aprofunda também a relação entre Katniss e Peeta, o roteiro embaralha as cartas de forma a confundir a plateia até os minutos finais: em um golpe de mestre, a trama cerca a protagonista de aliados e inimigos sem deixar claro nem a ela nem ao público quem é quem - e qual é a sua real missão para acabar com os desmandos de um governo exponencialmente mais sádico. Para isso cresce a importância de Haymitch Abernathy (Woody Harrelson), que deixa de ser apenas um mentor bêbado para mostrar sua verdadeira face em relação à revolução - enquanto outros personagens transitam entre o bem e o mal aguardando a oportunidade de tomar um partido definitivo.

Sob a forma de um filme de ação direcionado ao público infanto-juvenil - o que explica a violência apenas moderada considerando as possibilidades da trama - Lawrence aproveita a história de Suzanne Collins para, exatamente como aconteceu no primeiro, discutir temas de relevância, como desigualdade social, fascismo e manipulação por parte da mídia. Logicamente, por tratar-se de uma produção cujo público-alvo não estar exatamente disposto a querelas políticas, o subtema é tratado apenas superficialmente (ainda que seja bastante claro para qualquer pessoa minimamente esclarecida), como pano de fundo para uma obra que oferece exatamente aquilo que sua plateia deseja: cenas de ação bem realizadas, um triângulo amoroso eficiente, personagens cativantes (interpretados por atores de qualidade inquestionável, como Philip Seymour Hoffman e Jeffrey Right) e um ritmo incapaz de cansar, apesar dos longos 146 minutos de projeção. Somadas a um criativo visual - refletido no figurino irreverente de Trish Summerville - e um roteiro redondinho - co-escrito por Simon Beaufoy, vencedor do Oscar por "Quem quer ser um milionário?" - essas qualidades fazem com que o único problema do filme seja justamente ter que esperar até o próximo capítulo - que, segundo mais uma nova tradição imposta pela busca por lucros, será dividido em dois filmes.

quinta-feira

O MESTRE

O MESTRE (The master, 2012, The Weinstein Company, 144min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Mihai Malaimare Jr.. Montagem: Leslie Jones, Peter McNulty. Música: Johnny Greenwood. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: David Crank, Jack Fisk/Amy Wells. Produção executiva: Ted Schipper, Adam Somner. Produção: Paul Thomas Anderson, Megan Ellison, Daniel Lupi, JoAnne Sellar. Elenco: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Madisen Beaty. Estreia: 01/9/12 (Festival de Veneza)

 3 indicações ao Oscar: Ator (Joaquin Phoenix), Ator Coadjuvante (Philip Seymour Hoffman), Atriz Coadjuvante (Amy Adams)

O cinema de Paul Thomas Anderson não é para qualquer um. A forma bastante peculiar com que o cineasta trata de personagens complexas/problemáticas não é exatamente o que os fãs de produções mainstrean procuram quando se dispõem a frequentar salas de exibição. Posto isso, é bom que o espectador saiba exatamente o que esperar quando se dispuser a assistir a "O mestre", um dos mais complexos trabalhos do cineasta que, desde seu segundo longa, "Boogie nights", se tornou uma espécie de queridinho da crítica mas nunca chegou a emplacar um enorme sucesso de bilheteria - justamente por não se render a concessões comerciais. Erroneamente descrito por gente mal-informada como uma crítica à Cientologia - culto bastante popular nos EUA e especialmente em Hollywood, onde tem seguidores fervorosos como Tom Cruise e John Travolta - a trama criada por Anderson vai mais fundo do que simplesmente expor as entranhas de qualquer culto ou religião, dando ênfase muito mais à alma de seu protagonista, torturado por questões pessoais mal resolvidas e uma insegurança cruel em relação a como tratar de sua própria vida.

Vivido por um sensacional Joaquin Phoenix na única atuação masculina de 2012 que era capaz de tirar o Oscar das mãos de Daniel Day-Lewis, o veterano da Marinha americana Freddie Quell é uma das mais fortes personagens criadas por Paul Thomas Anderson - e isso que estamos falando do homem por trás de crias antológicas como Dirk Diggler e Jack Horner, de "Boogie nights", Frank McKey, de "Magnólia" e Daniel Plainview, de "Sangue negro" (este último criado pelo romancista Upton Sinclair mas adequado perfeitamente à obra do cineasta). Sofrendo de um alcoolismo crônico oriundo de seu stress pós-guerra e incapaz de manter-se em qualquer emprego - além de ter sérios problemas de relacionamento com as pessoas que o rodeiam - ele acaba, em uma de suas crises, invadindo o iate de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), criador e líder de um culto chamado A Causa. Percebendo em Freddie uma alma presa a questões traumáticas de seu passado, Dodd também vê no jovem um grande potencial e o aceita junto a seu grupo e sua família. O comportamento errático e violento de Freddie, porém, vai entrar em rota de colisão com as regras e ensinamentos de Dodd, que se vê pressionado a tomar uma séria decisão entre manter ou não o rapaz junto dele.


"O mestre" é o típico filme que é muito melhor quando assistido do que quando resumido em palavras - e que cresce a cada revisão. Apesar da história ser interessante por si só, são as imagens cuidadosamente planejadas de Paul Thomas Anderson e a atuação de seus magníficos atores que dão a ele seu status de grande obra. Mesmo que o ritmo por vezes seja claudicante - e exija um nível de paciência extra de seus espectadores - a narrativa de Anderson é instigante o suficiente para prender a atenção, em especial porque, assim como em seus trabalhos anteriores, o roteiro nunca escorrega para o previsível, tanto em termos visuais quanto em níveis de história. Como poucos cineastas de seu tempo, Paul Thomas Anderson tem o dom de mexer em feridas adormecidas de suas personagens, que sofrem para atingir uma redenção que nem sempre existe, e o faz com maestria admirável. Em "O mestre", enquanto questiona a possibilidade das pessoas em ser donas da própria vida (sem depender de muletas de quaisquer tipos, incluindo aí e principalmente a religião) ele brinda o público com interpretações esplêndidas de seu elenco - outra característica marcante de sua filmografia.

É simplesmente hipnotizante, por exemplo, a cena em que Lancaster Dodd tem seu primeiro embate psicológico com Freddie Quell, com uma espécie de interrogatório que leva a uma catarse emocional empolgante: só por essa cena Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman já poderiam sair da cerimônia do Oscar com suas estatuetas douradas debaixo do braço. O mesmo pode ser dito da sequência em que os métodos e o culto de Dodd são questionados pelo convidado de uma festa - cena que tem consequências aterradoras que certamente justificam a má-vontade com que os cientologistas receberam o filme nos EUA. É essencial dizer, no entanto, que "O mestre" não é um filme sobre a Cientologia e nem tampouco critica qualquer espécie de grupo religioso. O filme - que poderia tranquilamente figurar entre os finalistas ao Oscar principal - é mais um impactante estudo psicológico de Paul Thomas Anderson, caminhando para se tornar um dos maiores cineastas americanos em atividade.

quarta-feira

TUDO PELO PODER

TUDO PELO PODER (The ides of March, 2011, Cross Creek Pictures, 101min) Direção: George Clooney. Roteiro: George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon, peça teatral "Farragut North", de Beau Willimon. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: Leonardo DiCaprio, Guy East, Barbara A. Hall, Jennifer Kiloran, Stephen Pevner, Nigel Sinclair, Todd Thompson, Nina Wolarsky. Produção: George Clooney, Grant Heslov, Brian Oliver. Elenco: Ryan Gosling, George Clooney, Evan Rachel Wood, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman. Estreia: 31/8/11 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado
Filmes sobre política, via de regra, são veneno de bilheteria. Mais afeitas a efeitos visuais, heróis mascarados e comédias óbvias de humor rasteiro, as plateias geralmente ignoram produções que tentam falar de assuntos mais sérios. Mesmo assim, tem gente que insiste. George Clooney é um integrante contumaz desse grupo de inconformados. Com o prestígio e o sucesso acumulado por anos de serviço à comunidade hollywoodiana – que perdoou até mesmo o fiasco que foi “Batman & Robin” (97) – Clooney conseguiu levar seu segundo longa-metragem atrás das câmeras, “Boa noite, e boa sorte” (05), às indicações ao Oscar de filme e diretor, sem falar em outras produções de notável teor sócio-político que, sem sua presença, provavelmente nem teriam visto a luz dos projetores – desde a comédia de guerra “Três reis” (00) até o altamente combustível “Syriana” (05), que lhe rendeu a estatueta de ator coadjuvante. Por isso, não é de surpreender que: a) ele tenha voltado ao tema político em seu quarto filme, e b) tal filme, “Tudo pelo poder”, tenha naufragado solenemente nas bilheterias americanas a despeito de seu nome e do grande elenco que o acompanha. Não deixa de ser uma injustiça: baseado na peça de teatro “Farraguth North”, escrita por Beau Willimon – que também co-assina o roteiro, ao lado de Clooney e de seu habitual colaborador e produtor Grant Heslov – “Tudo pelo poder” é um filmaço sobre os bastidores da luta partidária e as desilusões que inevitavelmente vem à reboque de sua podridão.
Em um ano particularmente espetacular em sua carreira, o canadense Ryan Gosling supera toda e qualquer expectativa na pele de Stephen Meyers, um jovem idealista que faz parte do comitê de campanha de Mike Morris (George Clooney em pessoa), pré-candidato do Partido Democrata à Presidência dos EUA. Morris, já aprovado como governador, é uma figura carismática, intensa e cuja plataforma eleitoral abarca os direitos civis, a ecologia e a pretensão de encerrar a sequência de guerras em que o país se viu envolvido. É também bem casado com uma mulher respeitável (Jennifer Ehle) e, mesmo não escondendo de ninguém seu ateísmo (um potencial problema em uma nação bastante religiosa), vê suas chances de ganhar a eleição aumentarem a cada dia. Convivendo diretamente com o chefe de campanha de Morris, o experiente Paul Zara (Philip Seymour Hoffman), Stephen vai tomando consciência de todos os meandros do mundo político, especialmente quando relacionados ao jogo sujo proporcionado pelo rival direto de Zara, o pouco confiável Tom Duffy (Paul Giamatti), que lhe acena com a possibilidade de mudar de time e passar a fazer parte da equipe rival. Trabalhando incansavelmente, Stephen encontra tempo para iniciar um romance com a estagiária Molly Stearns (Evan-Rachel Wood), despistar a onipresente repórter Ida Horowicz (Marisa Tomei) e descobrir, da pior forma possível, que até mesmo os mais impolutos ídolos tem pés de barro.


Sabendo da força da trama criada por Willimon – direta, simples, sem afetações e perigosamente realista – Clooney abriu mão de virtuosismos técnicos para concentrar seu foco no caminho de seu protagonista rumo à desilusão total e a consequente transformação de seu caráter diante do inesperado. O herói da história, Stephen Meyers – que Ryan Gosling vive com uma intensidade que se reflete em cada olhar, em cada expressão de angústia e desespero – serve como alter-ego do espectador, saltando de choque em choque em direção a trevas que ele jamais imaginou existir. Gosling executa com perfeição a transição de um jovem inocente e leal a uma raposa capaz dos atos mais baixos, como chantagem e mentira. É mérito do roteiro, inclusive, fazer com que essa transformação não soe repentina demais ou inverossímil: o público entende os motivos de Meyers. O público se solidariza com ele. E, para surpresa geral, o público aceita e aplaude quando a inocência se perde para sempre. No meio dos lobos, envolvido por conspirações subterrâneas, só o que resta a Meyers é tentar sobreviver da maneira mais eficiente – nem que para isso tenha que sacrificar a própria alma.
Esse pessimismo (realismo? cinismo?) do roteiro – que concorreu ao Oscar - não pode ser mais atual. Diante de uma política internacional que desrespeita até mesmo os mais óbvios conceitos de dignidade pessoal, a história de “Tudo pelo poder” soa não como um aviso, mas como um comentário ácido e perspicaz. Como forma de universalizar a trama, o roteiro foge da armadilha de tentar explicar a política americana, preferindo jogar seu foco nas relações humanas por trás dos palanques, um leque de relações tão ou mais revoltante. Para isso, conta com um elenco de coadjuvantes de ouro: Philip Seymour Hoffman dá olé em cada cena, Marisa Tomei nunca esteve tão bem, Paul Giamatti transmite com precisão o tom mefistofélico de seu personagem e Evan Rachel Wood está na medida certa de pureza e sedução. Mas o show é, sem dúvida, de Ryan Gosling. No mesmo ano em que criou o misterioso dublê envolvido com um perigoso grupo de criminosos no excepcional “Drive”, ele sustenta com firmeza de veterano um tratado doloroso sobre o desencanto. Merecia, no mínimo, uma lembrança da Academia. Mas seria esperar demais de um grupo tão conservador e arraigado a valores que o próprio filme faz questão de espatifar.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...