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sexta-feira

MATADORES DE VELHINHA

 


MATADORES DE VELHINHA (The ladykillers, 2004, Touchstone Pictures, 104min) Direção: Ethan Coen, Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, filme original de William Rose. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes (Ethan Coen, Joel Coen). Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Tom Jacobson, Barry Josephson, Barry Sonnenfeld. Elenco: Tom Hanks, Irma P. Hall, Marlon Wayans, J.K. Simmons, Tzi Ma, Ryan Hurst, George Wallace. Estreia: 26/3/2004

Poucos cineastas hollywoodianos - tão propensos à autocensura para melhor caberem nos ditames da indústria - são capazes de forjar seu estilo de forma tão marcante quanto Joel e Ethan Coen. Desde sua chegada ao mundo do cinema, com "Gosto de sangue" (1984), uma releitura original e criativa dos filmes noir, a dupla de irmãos transitou entre gêneros variados - comédia, policial, musical - sempre deixando em cada filme sua marca autoral, facilmente reconhecível por fãs e jornalistas. Como prova da força de seu estilo, em 2004 eles adentraram em uma nova seara - os remakes - sem abandonar nem por um minuto a personalidade de sua filmografia. Releitura da comédia britânica "Quinteto da morte", estrelado por Peter Sellers e Alec Guinness em 1955, "Matadores de velhinha" não chegou a ser uma unanimidade por parte da crítica mas tampouco decepcionou em termos de bilheteria mundial - rendeu mais que o premiado "Fargo" (1996), por exemplo. Contando com a presença de Tom Hanks (certamente um dos motivos de sua razoável receptividade) e abusando sem medo do humor sombrio que tanto lhes agrada, o filme não é um dos maiores destaques na carreira dos Coen, mas apresenta, em seus melhores momentos, tudo aquilo que faz deles os queridinhos de parte da plateia menos tradicional. 

O roteiro de "Matadores de velhinha" - escrito, como de costume, pelos próprios irmãos -, transfere a ação do filme original de Londres para uma pequena cidade do Mississipi, local de um cassino cuja renda é o objeto de desejo de uma gangue que planeja o crime perfeito. O líder do grupo é o excêntrico Goldthwaite H. Dorr (Tom Hanks), que bate à porta da devotada Marva Munson (Irma P. Hall) para pedir a ela que alugue seu amplo porão. Sob o pretexto de usar o lugar como espaço de ensaios para seu grupo musical, Dorr é aceito pela pouco paciente Sra. Munson, que nem de longe desconfia das reais intenções de seu inquilino e seus amigos. Sendo assim, a casa da velha senhora passa a ser frequentada por tipos no mínimo estranhos, cada um com sua missão dentro do plano criminoso: Lump (Ryan Hurst), um jovem e burro jogador de futebol americano; o General (Tzi Ma), experiente em túneis; Garth Pancake (J.K. Simmons), especialista em explosivos e Gawain (Marlon Wayans), que trabalha infiltrado no cassino para passar informações aos companheiros. Conforme a data do roubo vai se aproximando, porém, as coisas começam a dar errado - e eliminar a proprietária da casa passa a ser uma possibilidade real.

 

Trocando o fino humor inglês pela ironia quase absurda, o roteiro de "Matadores de velhinha" encontra na direção afiada dos Coen um de seus maiores trunfos. Apesar da demora em engrenar, a trama vai se tornando cada vez mais repleta de situações bizarras e inesperadas, um prato cheio para a criatividade dos cineastas. Se Tom Hanks soa um tanto exagerado - ainda que dentro da proposta do filme -, o elenco coadjuvante brilha sem muito esforço, em especial a ótima Irma P. Hall, que faz se sua Marva Munson uma personagem das mais surpreendentes. Explorando ao máximo a fotografia de seu colaborador habitual, Roger Deakins - que cria sequências ao mesmo tempo belas e extremamente eficientes em sua forma de contar a história -, os diretores parecem brincar com as expectativas do público ao mesmo tempo que demonstram pleno domínio de seu ofício ao conduzir a trama por caminhos cada vez mais inusitados. Nem tudo funciona - algumas (poucas) situações soam um tanto deslocadas -, mas é perceptível o cuidado com cada detalhe da produção, desde o visual impecável até a escalação do elenco, ao mesmo tempo coeso e heterogêneo. 

Dono de algumas sequências hilariantes e diálogos que exploram com inteligência as diferenças culturais e sociais entre seus personagens, "Matadores de velhinha" é um dos filmes menos celebrados de Ethan e Joel Coen, cujo trabalho seguinte, "Onde os fracos não tem vez" (2007), sairia da cerimônia do Oscar com quatro estatuetas - incluindo melhor filme, direção e roteiro. Ao imprimir sua assinatura mesmo na refilmagem de um clássico do humor britânico, os cineastas comprovaram, mais uma vez, uma personalidade rara dentro de uma indústria pouco afeita a novidades. Não é seu melhor filme, mas é muito acima da média do cinema comercial de Hollywood - e um dos menos celebrados desempenhos de Tom Hanks (corajosamente indo contra a sua imagem popular). E não envergonha, nem de longe, o legado da dupla.

terça-feira

MELINDA E MELINDA


MELINDA E MELINDA (Melinda and Melina, 2004, Fox Searchlight Pictures, 99min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem,: Alisa Lepselter. Figurino: Judy Ruskin Howell. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves. Produção executiva: Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson. Elenco: Radha Mitchell, Chloe Sevigny, Jonny Lee Miller, Will Ferrell, Amanda Peet, Wallace Shawn, Brooke Smith, Steve Carrell, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin. Estreia: 17/9/2004 (Festival de San Sebastian)

A carreira de Woody Allen é repleta de altos e baixos. Para cada "Noivo neurótico, noiva nervosa" e "Crimes e pecados", ele entrega produções pouco memoráveis como "Trapaceiros" e "Dirigindo no escuro" - que, por mais simpáticas que sejam, estão longe de seu auge criativo. "Melinda e Melinda", lançado em 2004, infelizmente faz parte do rol de seus trabalhos menos brilhantes. Com um roteiro pouco inspirado (escrito em um mês) e um elenco de bons atores subaproveitados, seu 33° longa falha tanto no drama quanto na comédia - e sim, sua estrutura é totalmente baseada nessa dicotomia que é, a rigor, o centro da obra do cineasta nova-iorquino. Prejudicado ainda pela falta de carisma de Radha Mitchell - que substituiu Winona Ryder em um momento complicado junto aos investidores -, o filme foi solenemente ignorado pelas cerimônias de premiação e, apesar do potencial de sua ideia central, é frustrante e apático (o que raramente pode ser dito de uma produção do diretor).

Como em quase todos os filmes de Allen, "Melinda e Melinda" usa e abusa de diálogos rápidos, com personagens que transitam no sofisticado mundo cultural e social de sua filmografia - mas que aqui soa um tanto pedante, sem a autocrítica de seus melhores trabalhos. O ponto de partida da trama é uma discussão aparentemente banal a respeito da superioridade do drama em relação à comédia - talvez uma cutucada do cineasta quanto à sempre relevante polêmica que relega produções mais leves ao limbo das premiações e do prestígio da indústria. Max (Larry Pine) é um dramaturgo especializado em tragédias e seu amigo, Sy (Wallace Shawn), é famoso por suas comédias. Durante um jantar ao lado de outros amigos, surge a questão sobre qual dos gêneros teatrais melhor sintetiza a natureza humana. Como uma espécie de exercício de imaginação, Al conta ao grupo a história de Melinda Robicheaux (Radha Mitchell), uma mulher problemática que surge inesperadamente à porta de um casal de amigos durante um importante jantar de negócios. Separada do homem por quem terminou um casamento e com um histórico de tentativas de suicídio, Melinda transforma, mesmo involuntariamente, a vida daqueles que entram em seu caminho, e não é diferente em sua nova fase. 

 

A chegada de Melinda ao lar de Laurel (Chloe Sevigny) e Lee (Jonny Lee Miller) acontece durante um jantar oferecido a um produtor teatral que pode escalar o jovem para uma de suas próximas peças. Passando a morar com o casal, Melinda tenta firmar-se na vida procurando emprego e um novo amor - que pode surgir na figura do músico Ellis Moonsong (Chiwetel Ejiofor), caso a própria Laurel não se descubra interessada no rapaz. Em outra versão da história, Melinda interrompe o jantar de seus vizinhos Hobie (Will Ferrell) e Susan (Amanda Peet) - uma cineasta que busca investidores para seu novo filme, no qual ela espera poder empregar o marido. Passando por uma crise no casamento, Hobie se vê atraído por Melinda - que, por sua vez, vê no bem-sucedido Greg Earlinger (Josh Brolin) a última chance de uma vida relativamente normal. Enquanto a primeira Melinda tem sua história contada por um viés dramático, a segunda é apresentada com um tom de humor - ainda que bastante sutil.

O principal problema de "Melinda e Melinda" é sua incapacidade de criar qualquer tipo de empatia por sua personagem central - uma questão que mina completamente sua ambição de emocionar ou fazer rir. Apesar de escolhida pelo próprio Woody Allen depois de seu trabalho em "Ten tiny love stories" (2002), Radha Mitchell não encontra o tom certo em seu desempenho, não oferecendo diferenças entre a Melinda dramática e a cômica - mesmo contando com atores como Will Ferrell e Steve Carell, seu timing de comédia fica muito aquém do esperado, o que torna sua personagem apenas desinteressante e cansativa. Conhecido também por conceber personagens coadjuvantes marcantes - e frequentemente premiados ou indicados ao Oscar -, dessa vez Allen falhou em criar papéis fortes o bastante para sustentar uma história frágil por si só. Para sua sorte (e dos fãs), seu projeto seguinte seria o extraordinário "Match point: ponto final", que lhe devolveria o prestígio e o sucesso de seus melhores filmes.

 

quarta-feira

O ÂNCORA: A LENDA DE RON BURGUNDY

 


O ÂNCORA: A LENDA DE RON BURGUNDY (Anchorman: the legend of Ron Burgundy, 2004, DreamWorks Pictures/Apatow Productions, 94min) Direção: Adam McKay. Roteiro: Adam McKay, Will Ferrell. Fotografia: Thomas E. Ackerman. Montagem: Brent White. Música: Alex Wurman. Figurino: Debra McGuire. Direção de arte/cenários: Clayton R. Hartley/Jan Pascale. Produção executiva: Shauna Robertson, David O. Russell. Produção: Judd Apatow. Elenco: Will Ferrell, Christina Applegate, Paul Rudd, Steve Carell, David Koechner, Fred Willard, Seth Rogen, Vince Vaughn, Ben Stiller, Owen Wilson, Kathryn Hahn, Jack Black, Tim Robbins. Estreia: 28/6/2004

Na segunda metade da década de 1970 nenhum jornalista era mais importante e prestigiado em San Diego do que Ron Burgundy, âncora do programa de maior audiência da televisão regional, admirado pelo público e desejado pelas mulheres. Em uma emissora dominada por uma mentalidade machista, ele era o símbolo máximo de uma sociedade ainda impermeável às conquistas profissionais femininas. Porém, seu poder considerado definitivo sofreu um baque violento com a chegada de Veronica Corningstone, uma repórter dedicada e ambiciosa da Carolina do Norte, decidida a buscar seu lugar ao sol como o primeiro nome do telejornal. A disputa entre os dois - e o inesperado romance entre eles - movimentou os bastidores do telejornalismo da época, e precipitou a ascensão das mulheres no mercado de notícias televisivas. Uma história empolgante - mas que existiu apenas nas mentes dos roteiristas Will Ferrell e Adam McKay, responsáveis por "O âncora: a lenda de Ron Burgundy", uma comédia despretensiosa que, depois de ter sido esnobada diversas vezes pelo estúdio (a DreamWorks), surpreendeu ao ultrapassar a marca de 80 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico (EUA e Canadá) e tornar-se cult por parte do público a ponto de render uma continuação, lançada mais dez anos depois. Com um humor que beira o ofensivo e flerta abertamente com a estupidez, o filme é ideal para quem gosta de rir sem precisar ligar o cérebro - mas, paradoxalmente, faz um crítica sagaz ao machismo e à indústria do jornalismo televisivo.

Com um elenco que é praticamente um quem é quem do humor norte-americano do começo dos anos 2000 - incluindo um Steve Carrel pré-estrelato - e participações especiais de nomes como Tim Robbins, Jack Black e Ben Stiller, "O âncora" parte de uma estrutura clássica narrativa para permitir a seus atores todo tipo de improviso, ampliando consideravelmente seu tom debochado e anárquico. Will Ferrell - também um dos autores do roteiro - deita e rola com um personagem sob medida para seu humor histriônico, que a tantos agrada e a muitos outros repele, e encontra no carisma de Christina Applegate um equilíbrio muito bem-vindo. Juntos em cena, os dois ilustram com perfeição o casamento entre a comédia rasgada e um romantismo que, por mais distorcido que seja, ameniza os exageros de uma produção que não tem medo de ir fundo na palhaçada e não poupa nada nem ninguém. Adam McKay - que pouco mais de uma década depois levaria um Oscar de roteiro por "A grande aposta" (2015), que também lhe renderia uma indicação à estatueta de direção - demonstra segurança ao comandar o que poderia facilmente transformar-se em um absoluto caos: com atores craques no improviso, ele mantém uma surpreendente coesão no desenvolvimento da narrativa mesmo diante de situações propensas ao bizarro.



Se Ron Burgundy é o retrato perfeito do líder de um universo falocêntrico e egoísta, seu séquito de colaboradores/admiradores/amigos não fica atrás - e é um grande mérito que seus intérpretes tenham sido tão bem escalados. Paul Rudd vive Brian Fantana, um repórter de campo mulherengo e que considera irresistíveis suas qualidades físicas e suas táticas amorosas; Steve Carell dá vida a Brick Tamland, o responsável pela divulgação da previsão de tempo e com o raciocínio lento além da conta; e David Koechner é o ator ideal para criar Champion Kind, especialista em esportes e dono de um talento natural para a grosseria. Agindo como uma gangue de adolescentes rebeldes, o grupo não apenas é uma metralhadora giratória de absurdos verbais como também volta e meia se envolve em brigas físicas com o time da emissora rival, liderado por Wes Mantooth (Vince Vaughn), cuja principal ameaça é fisgar o primeiro lugar na audiência. Quando Veronica entra em cena, conquistá-la (e impedi-la de chegar à bancada do telejornal) passa a ser o objetivo principal de todos - e nem mesmo a aparentemente dócil forasteira parece imune a tal desejo. A forma com que McKay e Ferrell demonstram tais anseios (através de momentos que brincam até mesmo com filmes musicais e melodramas) é o que faz de "O âncora" uma pérola: é difícil não se deixar conquistar por pelo menos uma das táticas do roteiro, que abrange todos os tipos de comédia sem cair na falta de foco ou ritmo.

Apesar de ser engraçadíssimo e apresentar um elenco impecável, "O âncora" não chega a ser uma unanimidade. Seu humor pouco sutil pode não agradar a quem busca comédias sofisticadas ou menos explícitas - apesar de o roteiro apresentar nuances raras no típico besteirol americano -, e Will Ferrell, apesar de seu talento cômico preciso, não é exatamente um astro muito popular fora dos Estados Unidos. Mas o filme de McKay é a demonstração, além de qualquer dúvida, de que é possível fazer rir equilibrando inteligência, sarcasmo e um pouquinho de escatologia. Pena que demorou dez anos para que ganhasse um segundo - e igualmente divertido - segundo capítulo.

terça-feira

NINA


NINA (Nina, 2004, Branca Filmes/Fábrica Brasileira de Imagens/Gullane, 90min) Direção: Heitor Dhalia. Roteiro: Marçal Aquino, Heitor Dhalia. Fotografia: José Roberto Elieser. Montagem: Estevan Santos. Música: Antonio Pinto. Figurino: Verônica Julian, Juliana Prysthon. Direção de arte: Guta Carvalho, Akira Goto. Produção executiva: Caio Gullane, Fabiano Gullane. Produção: Akira Goto, Fabiano Gullane. Elenco: Guta Stresser, Myrian Muniz, Wagner Moura, Guilherme Weber, Selton Mello, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele, Aílton Graça, Renata Sorrah, Juliana Galdino, Sabrina Greve, Milhem Cortaz, Abrahão Farc. Estreia: 05/11/2004

É preciso coragem para mexer em "Crime e castigo", clássico absoluto da literatura russa e uma das mais emblemáticas obras do escritor Fiódor Dostoiévski. Mas é justamente isso que o paulista Heitor Dhalia faz em "Nina", seu primeiro longa-metragem: inspirado (nem tão livremente assim) no livro publicado em 1866, o filme estrelado por Guta Stresser (então no auge da popularidade graças à série "A grande família") mistura elementos do romance, linguagem de quadrinhos e um visual de estética gótica para contar uma história de solidão, desespero e culpa. Nem sempre atinge todos os seus objetivos - e nem sempre é fiel à sua fonte -, mas merece aplausos por sua ousadia narrativa e pela busca em romper com os padrões narrativos do cinema nacional. Contando com participações luxuosas - e em algumas vezes quase imperceptíveis de nomes consagrados como Renata Sorrah, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele e Selton Mello -, "Nina" surgiu como um estranho no ninho dentro da filmografia brasileira de 2004, que apostou em cinebiografias ("Cazuza: o tempo não para" e "Olga"), comédias com elencos globais ("Sexo, amor e traição", "Como fazer um filme de amor"; "A dona da história") e documentários ("Pelé eterno"; "Entreatos").  Pode não ter se tornado um sucesso de bilheteria, mas foi o pontapé inicial na carreira de Dhalia, que em poucos anos chegaria a Hollywood com seu "12 horas" (2012).

Em uma atuação cujos excessos servem com perfeição ao visual estilizado proposto pelo conceito original, Guta Stresser vive a personagem-título, uma jovem atormentada por pesadelos e traumas de infância que alivia seu sofrimento mental através de seu talento como desenhista. Sobrevivendo aos trancos e barrancos em empregos nos quais se sente explorada, Nina passa as noites em festas regadas à álcool, drogas e sexo fácil, como forma de aguentar um dia-a-dia sufocante e opressivo. Ela aluga um quarto no amplo apartamento de Eulália (Myrian Muniz) e sofre com a falta de dinheiro que a faz ser constante humilhada. Mesquinha e cruel, Eulália não pensa duas vezes em trancar a geladeira, violar sua correspondência e até obrigá-la a fazer a pesada limpeza da casa como pagamento. Com a mente cada vez mais desestabilizada, Nina começa a ter pensamentos violentos - e uma tragédia a joga inexoravelmente no caminho da loucura.

 
 
Se utilizando de desenhos de Lourenço Mutarelli para ilustrar a mente em turbilhão de sua protagonista e de uma fotografia que retrata com precisão a atmosfera claustrofóbica da narrativa, "Nina" mergulha o espectador em um pesadelo sensorial, explicitada por ângulos de câmera inusitados, uma trilha sonora distorcida, personagens que flertam com o bizarro e uma edição intrincada, sempre a um passo do caos. O roteiro, por vezes superficial (até mesmo por sua estrutura episódica) retrata também o cotidiano de sua torturada personagem central, perdida em um comportamento errático e de relacionamentos superficiais - como o cego interpretado por Wagner Moura, em uma sequência de soluções visuais interessantes e criativas -, mas falha em conectá-la com o espectador. Mesmo que exista a empatia em relação às maldades de Eulália, é incômodo perceber seu viés maniqueísta, que reforça a impressão de uma produção audiovisual com alma de história em quadrinhos. Se encanta em termos estéticos e artísticos, é frágil quanto dramaturgia - apesar do desempenho memorável da veterana Myrian Muniz em seu primeiro trabalho no cinema, e do esforço de Guta Stresser em ser maior do que os clichês da caracterização de sua Nina.

Vencedor de quatro estatuetas do Prêmio Guarani - distribuídos aos destaques do cinema nacional - e homenageado com o prêmio da crítica no Festival de Moscou, "Nina" é um filme atípico dentro da filmografia brasileira, tanto por sua temática quanto por seu conceito. Feito para um público disposto a experimentar novos formatos e realizado quase como uma ação entre amigos - o que fica claro com as participações muito especiais que se espalham pelos noventa minutos de duração -, é uma das produções mais interessantes do começo dos anos 2000, mesmo com todos os pecadilhos que o impedem de ser completamente satisfatório.

 

REENCARNAÇÃO

 


REENCARNAÇÃO (Birth, 2004, New Line Cinema/Fine Line Features, 100min) Direção: Jonathan Glazer. Roteiro: Jonathan Glazer, Jean-Claude Carrière, Milo Addica. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Sam Sneade, Claus Wehlisch. Música: Alexandre Desplat. Figurino: John Dunn. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Ford Wheeler. Produção executiva: Xavier Marchand, Mark Ordesky, Kerry Ordent. Produção: Lizie Gower, Nick Morris, Jean-Louis Piel. Elenco: Nicole Kidman, Cameron Bright, Danny Huston, Lauren Bacall, Anne Heche, Arliss Howard, Peter Stormare, Cara Seymour, Ted Levine. Estreia: 08/9/2004 (Festival de Veneza)

Um dos filmes mais polêmicos da temporada 2004 de cinema começou sua trajetória de controvérsias já em sua estreia, no Festival de Veneza, quando foi recebido com vaias e críticas contundentes por parte da imprensa. Em pouco tempo, uma cena em que sua estrela, Nicole Kidman, dividia (nua) uma banheira com uma criança (igualmente sem roupa) tornou-se motivo de gritaria entre os mais conservadores, e acabou por eclipsar o que a própria atriz chamou de uma história sobre luto e vulnerabilidade. Dirigido por Jonathan Glazer - que vários anos depois seria indicado ao Oscar por "Zona de interesse" (2023) - e tendo entre seus corroteiristas o experiente Jean-Claude Carrière, "Reencarnação" demorou a ser visto sem a capa de imoral, imposta por uma parcela conservadora da plateia, e ter suas qualidades reconhecidas pelo público. É um filme que se equilibra com razoável destreza entre o drama psicológico e o suspense, amparado por um visual sóbrio e uma trilha sonora que reflete o tom inquietante de sua premissa - além de contar com uma das mais profundas e subestimadas atuações de Kidman, então recém premiada com o Oscar por "As horas" (2002).

De cabelos curtíssimos e uma elegância à toda prova, Kidman interpreta a delicada Anna, uma mulher arrasada pela morte repentina e precoce do marido, vítima de um ataque cardíaco. Depois de um ano de sofrimento e luto, ela finalmente parece estar disposta a prosseguir sua vida ao casar-se com um antigo apaixonado, Joseph (Danny Huston). Seus planos, porém, são interrompidos quando entra em cena o pequeno Sean (Cameron Bright), um menino de dez anos de idade que alega ser a reencarnação de seu falecido marido. Munido de informações a respeito de seu relacionamento com Anna que são apenas do conhecimento do casal, o garoto insiste em manter contato com a jovem viúva, que, para angústia de sua família - atônita com a situação -, passa a levar a sério a possibilidade de ter reencontrado o amor de sua vida. Se aproximando cada vez de Sean, Anna passa a questionar seu novo relacionamento e as escolhas de sua vida, enquanto Joseph tenta provar a ela que tudo não passa de um absurdo sem tamanho.

 

Se existe um adjetivo que acompanha "Reencarnação" em cada minuto, esse adjetivo é "elegante". Não apenas devido aos ambientes chiques de Nova York onde circulam seus personagens ou à sofisticação inerente à Nicole Kidman, no auge de sua fase mais etérea. Tampouco é responsabilidade apenas da fotografia de enquadramentos discretos de Harris Savides ou da trilha sonora marcante de Alexandre Desplat. A elegância do filme de Glazer advém principalmente de seu ritmo plácido, quase contemplativo, que reflete em imagens a alma melancólica de sua protagonista. Dotado de expressões minimalistas que transmitem de forma sutil o turbilhão de sua Anna, o rosto de Nicole Kidman é o instrumento perfeito do diretor para contar sua história, repleta de silêncios e mistérios que vão se revelando sem pressa diante dos olhos do público e de seus familiares - entre as quais uma subaproveitada Lauren Bacall. O único (e grande) senão é a mudança radical de rumo no terço final, quando a trama toma rumos que mudam tudo que se poderia imaginar até então. Para alguns uma reviravolta muito bem-vinda; para outros o enfraquecimento de um interessante estudo sobre a quebra de paradigmas e certezas absolutas.

Fascinante em seu modo de desenrolar a narrativa, provocando o espectador até o limite de seu conservadorismo - segundo a atriz Christina Applegate o roteiro final amenizou consideravelmente o teor sexual da trama, com a chegada de Nicole Kidman ao projeto -, "Reencarnação" já demonstrava em Jonathan Glazer um diretor sensível e atento aos detalhes visuais e dramáticos de seus trabalhos. Ao fugir do óbvio - como o fez em "Zona de interesse" quase duas décadas mais tarde -, ele imprime uma personalidade própria a seu filme, mesmo correndo o risco de ser incompreendido ou simplesmente taxado de chato. "Reencarnação" é lento. É sutil. E é ousado. Pode não ser um grande filme (talvez lhe falte coragem de encerrar dignamente), mas é um filme ainda subestimado por boa parte do público acostumado a mais do mesmo.

sexta-feira

O VIOLINISTA QUE VEIO DO MAR

 


O VIOLINISTA QUE VEIO DO MAR ( Ladies in Lavender, 2004, UK Film Council/Baker Street/Future Films, 104min) Direção: Charles Dance. Roteiro: Charles Dance, conto de William J. Locke. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Michael Parker. Música: Nigel Hess. Figurino: Barbara Kidd. Direção de arte/cenários: Caroline Amies/David Hindle. Produção executiva: Bill Allan, Charles Dance, Emma Hayter, Robert Jones. Produção: Elizabeth Karlsen, Nik Powell. Elenco: Judi Dench, Maggie Smith, Daniel Bruhl, Natascha McElhone, Freddie Jones, Toby Jones, Miriam Margoyles. Estreia: 14/6/2004 (Festival de Taormina)

Conhecido por seu trabalho como intérprete em produções de prestígio como "Assassinato em Gosford Park" (2001) e "O jogo da imitação" (2014) e séries premiadas como "Game of thrones" e "The crown", o ator britânico Charles Dance tem, em seu currículo, uma interessantíssima incursão como diretor. Lançado discretamente em 2004, "O violinista que veio do mar" já seria imperdível por ter seu elenco liderado pelas espetaculares Judi Dench e Maggie Smith, mas, além disso - e de ser o primeiro trabalho em língua inglesa do alemão Daniel Bruhl -, a adaptação do conto de William J. Locke é um filme acima da média, com um ritmo delicado que ecoa as belas paisagens da costa inglesa e brinda o espectador com personagens fascinantes e uma trama que surpreende pelos desdobramentos inusitados (mas nunca inverossímeis ou tirados da manga). Valorizado pelos desempenhos exemplares de Dench e Smith - o que não chega a ser uma surpresa -, o filme de Dance é um deleite para os fãs de histórias contadas com sutileza e sobriedade.

A trama gira em torno de Ursula (Judi Dench) e Janet (Maggie Smith), duas irmãs viúvas que moram juntas em um chalé na costa da Cornualha, poucos anos antes da II Guerra Mundial. Sua rotina pacata e sem grandes acontecimentos é abalada depois de uma violenta tormenta, quando um jovem desacordado é encontrado na praia. A princípio temerosas de colocar um desconhecido dentro de casa, logo elas resolvem cuidar do rapaz, que não fala sua língua e cuja origem é uma incógnita. Aos poucos sua comunicação vai ficando menos complicada: ao aprender noções rudimentares de inglês, o novo hóspede se identifica como Andrea, um polonês que, a caminho dos EUA para tentar a sorte como violonista, sobreviveu a um naufrágio. Enquanto se recupera dos ferimentos, Andrea, sem perceber, despertar sentimentos há muito enterrados nas duas solitárias idosas - que passam a temer sua partida especialmente quando ele inicia uma amizade com a extrovertida Olga (Natasha McElhone), uma bela russa que mora nas proximidades do chalé.

 

Fazendo pequenas alterações na história original - como a transferência para os anos pré-I Guerra Mundial e o desfecho da relação entre os protagonistas -, o roteiro do também diretor se apoia em pequenos momentos, emoções discretas e diálogos curtos (mas repletos de subtextos). Acostumadas a atuações minimalistas e sutis, Judi Dench e Maggie Smith voltam a encantar com desempenhos comoventes, pontuadas pelo bom trabalho do alemão Daniel Bruhl em seu primeiro filme falado em inglês: a interação entre os três personagens principais são o que há de melhor na obra, em uma dinâmica pontuada de mistério, sedução e até um pouco de suspense. Deixando sempre no ar uma série de possibilidades que impedem que o espectador adivinhe os próximos acontecimentos, o filme de Dance imprime uma sensação deliciosa de uma história contada em frente à lareira, com personagens humanos e bem escritos diante de situações que caminham entre o romântico e trágico. Só não é ainda melhor por sua falha em explorar a contento a relação entre o misterioso violinista e Olga - um relacionamento que nunca deixa exatamente claro a que veio (a não ser precipitar o ato final da trama).

Em seu primeiro (e até agora único) trabalho como diretor, Charles Dance mostra-se atento às sutilezas, tanto de sua trama quanto de suas estupendas atrizes. Talvez pelo fato de ser também um intérprete, Dance valoriza a construção paulatina de climas e relações entre seus personagens, enfatizando-as mais do que à própria trama, que serve, na verdade, como uma forma de retrato da solidão e suas vicissitudes. Narrado em um ritmo delicado que não deixa espaço para cortes bruscos e catarses exageradas, "O violinista que veio do mar" é um oásis de paz e sensibilidade - e mais um exemplo do talento dos colaboradores envolvidos.

quarta-feira

DE-LOVELY: VIDA E AMORES DE COLE PORTER


DE-LOVELY: VIDA E AMORES DE COLE PORTER (De-lovely, 2004, MGM Pictures, 125min) Direão: Irwin Winkler. Roteiro: Jay Cocks. Fotografia: Tony Piece-Roberts. Montagem: Julie Monroe. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Eve Stewart/John Bush. Produção executiva: Simon Channing Williams, Gail Egan. Produção: Rob Cowan, Charles Winkler, Irwin Winkler. Elenco: Kevin Line, Ashley Judd, Jonathan Pryce, Kevin McNally, Sandra Nelson, Allan Corduner, Kevin McKidd. Estreia: 22/5/2004 (Festival de Cannes)

Um dos mais influentes compositores populares dos EUA, Cole Porter deixou sua marca indelével de elegância e inteligência em centenas de canções antológicas, que ultrapassaram os limites dos palcos da Broadway, dos estúdios de Hollywood e de gravações clássicas de nomes como Frank Sinatra, Bing Crosby e Gene Kelly. Símbolo de um período de glamour que o surgimento de gêneros musicais bem menos sutis fez desaparecer, Porter viu sua vida ser transformada em filme - o romântico e pouco confiável "Canção inesquecível" (1946) - e morreu em 1964 depois de uma série de problemas de saúde e perdas irreparáveis que fizeram de seus últimos anos um período melancólico e pouco produtivo. E levando-se em conta sua importância para a cultura - tanto em termos locais quanto internacionais -, não deixa de ser surpreendente que tenham levado quatro décadas desde sua morte para que finalmente contassem sua história de forma digna. "De-lovely: vida e amores de Cole Porter" pode não ser a obra-prima que poderia, mas é uma produção que faz jus a tudo que seu protagonista representou, representa e representará no futuro, ao aproximar suas inesquecíveis canções do tom de modernidade que sempre foram sua maior característica. Com um Kevin Kline impecável no papel central - a ponto de cantar e dançar sem artifícios baratos -, o filme do bissexto Irwin Winkler (seis filmes em treze anos) é uma ode ao artista e ao homem, recheada de excelentes números musicais e com uma caprichada reconstituição de época.

Contada em formato de musical, como convém, a história de Cole Porter é mostrada, em "De-lovely", em três atos, através de flashbacks, onde o próprio Porter vê sua vida reconstituída enquanto um espetáculo sobre ele é montado sob a supervisão do atencioso Gabe (Jonathan Pryce). O primeiro ato se concentra nos primeiros anos do relacionamento entre o compositor e a socialite Linda Lee Thomas (Ashley Judd) - ela divorciada e presença frequente nas melhores festas da alta sociedade, ele notoriamente homossexual e a alma das recepções, com seu humor afiado e sofisticação à toda prova. Casado e compreendido, Porter se vê encorajado a tornar-se compositor profissional, depois de temporadas em Veneza e Nova York. O segundo ato já lhe mostra bem-sucedido na carreira, criando obras-primas para a Broadway e Hollywood, o que de certa forma aprofunda a crise no casamento - cada vez mais atraído pela boemia e por rapazes, Porter aos poucos passa a abandonar Linda e seu relacionamento mais estável. O terceiro e final ato - mais dramático e trágico - começa com um grave acidente, que irá determinar seus últimos anos de vida, além de reaproximá-lo de sua mulher e fortalecer de vez seus laços afetivos, principalmente quando ela também se descobre gravemente doente.


"De-lovely" é uma produção com inúmeras qualidades. O desenho de produção requintado e o figurino de Janty Yates conduz o público por uma viagem no tempo, pelo glamour das altas rodas da Europa e dos EUA desde o final da década de 1910 até os anos 1960, ocasião da morte de Porter. Os números musicais são preciosos, apresentando artistas contemporâneos como Alanis Morissette, Robbie Williams, Elvis Costelo, Sheryl Crow, Diana Krall, Lara Fabian e Natalie Cole entoando as canções imortais do compositor em sequências organicamente inseridas no contexto onírico criado pelo roteirista Jay Cocks - colaborador frequente de Martin Scorsese. Ashley Judd, apesar de jovem demais para o papel de Linda - na verdade quase uma década mais velha do que Porter -, sai-se muito bem no desafio de encarnar uma mulher à frente do seu tempo, ao mesmo tempo confiante o bastante para encarar um casamento com um homem cuja orientação sexual só poderia lhe trazer sofrimento e romântica o suficiente para acreditar que seu amor poderia evitar tais lágrimas. E Kevin Kline deita e rola em um papel capaz de mostrar à plateia - se é que ela ainda não sabe - todos os seus dotes como ator, cantor e dançarino. Mesmo assim, com tantos elementos admiráveis, algo falta ao filme de Irwin Winkler para torná-lo uma produção inesquecível. E não é difícil perceber o que.

Sem experiência na direção de musicais, Winkler não parece à vontade em comandar um filme do gênero, ficando no meio-termo entre um musical assumido ou um drama biográfico de narrativa clássica.. Logicamente seria inaceitável falar de Cole Porter sem que suas obras atravessassem a tela, e nesse ponto o filme de Winkler é feliz, sabendo espalhar canções pela tela sem deixar o programa cansativo. O problema é que, como frequentemente acontece com filmes que tentam abraçar vidas inteiras em poucas horas, é inevitável que haja falta de profundidade no desenvolvimento dos personagens. Até mesmo a relação entre Cole e Linda deixa dúvidas na mente do espectador - até que ponto a homossexualidade do compositor atrapalhava o casamento, por exemplo? E como ele passou de novato a estrela da Broadway? E como foi sua passagem pelo cinema, já que não é dada muita atenção a essa parte de sua carreira? Como o subtítulo em português deixa claro, o filme se dedica às relações interpessoais do músico - com sua esposa e seus ocasionais amantes -, mas mesmo elas não são desenvolvidas a contento. Resta a excelência visual, o desempenho de Kline e as canções, essas sim eternas.

quinta-feira

HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN


HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN (Harry Potter and the prisoner of Azkaban, 2004, Warner Bros, 142min) Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Steve Kloves, romance de J.K. Rowling. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Steven Weisberg. Música: John Williams. Figurino: Jany Temine. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, Callum McDougall, Tanya Seghatchian. Produção: Chris Columbus, David Heyman, Mark Radcliffe. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Michael Gambon, Maggie Smith, Gary Oldman, Emma Thompson, Julie Walters, Alan Rickman, David Thewliss, Tom Felton, Richard Griffiths, Fiona Shaw, Julie Christie, Robbie Coltrane. Estreia: 23/5/2004

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Efeitos Visuais

Quando Chris Columbus voltou atrás em sua decisão de comandar todos os filmes da série "Harry Potter" - da qual ele já havia dirigido os dois primeiros - uma nova odisseia de bastidores começou. A Warner, afinal, tinha um investimento dos mais preciosos em mãos (os direitos de todos os sete livros da saga) para entregá-lo a qualquer um. Entre os candidatos a assumir as rédeas do terceiro capítulo da milionária obra da britânica J.K. Rowling, então, surgiram nomes tão díspares quanto M. Night Shyamalan e Marc Forster. O primeiro tinha no currículo o megasucesso "O sexto sentido" (1999), que havia lhe rendido indicações ao Oscar de filme, direção e roteiro; o outro havia sido responsável por "A última ceia" (2001), que deu à Hale Berry a estatueta de melhor atriz. A responsabilidade de estar à frente de um blockbuster dos mais esperados da temporada 2004, porém, não foi tão sedutora assim, e ambos declinaram do convite: Shyamalan para realizar "A vila" (2004), e Forster para assinar "Em busca da Terra do Nunca" (2004). Foi aí que entrou em cena o mexicano Guillermo Del Toro, cujo currículo até então (com filmes como "Mutação", de 1997, "A espinha do diabo", de 2001, e "Blade II: O caçador de vampiros", de 2002) pouco recomendava para uma produção cujo público-alvo era infanto-juvenil. Para surpresa de muitos, Del Toro recusou o convite para penetrar no mundo de Hogwarts, mas não sem antes recomendar um amigo: enquanto preferiu tocar adiante um projeto de estimação - a adaptação de "Hellboy", baseado nas HQs de Mike Mignola -, ele apontou para seu conterrâneo Alfonso Cuarón. Em um primeiro olhar, Cuarón não poderia estar mais distante de Harry Potter, com filmes como o sexy "E sua mãe também" - que havia lhe rendido uma indicação ao Oscar de roteiro original - no portfolio. No entanto, Cuarón também sabia ser sensível e apropriado aos espectadores juvenis, como mostrou em 1995, ao adaptar o clássico "A princesinha", de Frances Hodgson Burnett, com a dose certa de emoção e delicadeza.

Com Cuarón no comando - aprovado por Rowling, fã de seus trabalhos anteriores - e um orçamento de estimados 130 milhões de dólares, "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" começava a dar os primeiros passos da série em direção à seriedade que os últimos capítulos apresentariam. Com um visual diferente dos dois primeiros filmes - cortesia da bela fotografia de Michael Seresin - e com sequências inteiras filmadas com câmeras em movimento, o terceiro filme da série apresenta também diferenças no figurino (especialmente os protagonistas) e um ritmo que equilibra cenas de ação, suspense e até comédia (como sempre acontece no começo do filme, Potter sofre nas mãos de seus tios e resolve a situação da melhor maneira que pode, com a ajuda de seus dons de bruxo, é claro). O roteiro, novamente adaptado por Steve Kloves, apresenta ao espectador novos elementos da saga, como o misterioso Sirius Black (interpretado com gosto por Gary Oldman), o padrinho do protagonista, que foge da prisão de Azkaban e, segundo a lenda, tem o objetivo de assassinar Harry, uma vez que é um dos mais fiéis seguidores do temido Voldemort (Ralph Fiennes). O que acontece, porém, é que Potter acaba descobrindo que o que sempre foi tido como verdade pode muito bem ser apenas parte dela. Com a ajuda de Hermione (Emma Watson) e Ron (Rupert Grint) - assim como também de alguns professores que conhecem a real história de Black -, o adolescente enfrenta o ano letivo mais perigoso de sua vida, visto até mesmo pelas previsões da professora Trelwaney (Emma Thompson, em papel pequeno que ela tira de letra).


Substituindo o falecido Richard Harris no crucial papel do professor Dumbledore, que foi oferecido também a Ian McKellen, Peter O'Toole e Christopher Lee, mantém em alto nível o elenco coadjuvante da série. Nomes como Maggie Smith, Alan Rickman, Fiona Shaw e Julie Walters continuam servindo de apoio a seus jovens colegas de cena, com generosidade ímpar. Conforme a trajetória de Harry Potter vai ficando cada vez menos infantil e se aproxima de momentos bastante tensos e violentos, a importância do corpo docente de Hogwarts se torna ainda mais importante e presente - e é admirável que a direção de Cuarón seja sensível ao ritmo da trama: o cineasta acelera quando precisa e mantém-se delicada ao examinar a relação de Potter com os personagens a seu lado. Daniel Radcliffe - assim como seus colegas mais próximos - mostra um amadurecimento tanto físico quanto artístico: não é um grande ator, mas é difícil imaginar outro intérprete para o jovem bruxo, um dos personagens mais populares da literatura e do cinema, um perfeito exemplo de entretenimento divertido e realizado com extremo cuidado e talento.

E "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" é justamente isso: entretenimento de primeira, capaz de agradar aos fãs dos livros e até mesmo àqueles que nunca abriram uma página sequer da saga de Rowling. Apesar de tratar - metaforicamente - com temas como depressão (representada pelos aterrorizantes dementadores), o filme de Cuarón se mantém no limite entre a fantasia e o terror, que ficaria a cada filme mais próximo dos protagonistas. Único filme da saga a não alcançar (por pouco) a marca de 800 milhões de dólares de bilheteria mundial, "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" concorreu a dois Oscar (trilha sonora original e efeitos visuais) e provou que, a despeito das mudanças na cadeira de diretor, mantém uma coerência interna e uma qualidade à prova das grandes expectativas de seu público. Cuarón, que assumiu não ter lido nenhum dos livros quando convidado para comandar esse terceiro filme - e que levaria o Oscar de direção por "Gravidade" (2013) - mostrou-se uma escolha certeira, que manteve o alto nível da série e emprestou-lhe um prestígio que apenas colaborou para seu sucesso de crítica e público.

domingo

A CASA DO FIM DO MUNDO

A CASA DO FIM DO MUNDO (A home at the end of the world, 2004, Warner Independent Pictures, 97min) Direção: Michael Mayer. Roteiro: Michael Cunningham, romance de sua autoria. Fotografia: Enrique Chediak. Montagem: Andrew Marcus, Lee Percy. Música: Duncan Sheik. Figurino: Beth Pasternak. Direção de arte/cenários: Michael Shaw/Mark Steel. Produção executiva: Michael Hogan, John Sloss. Produção: John N. Hart Jr., Tom Hulce, Pamela Koffler, Katie Roumel, Jeffrey Sharp, Christine Vachon, John Wells. Elenco: Colin Farrell, Dallas Roberts, Robin Wright Penn, Sissy Spacek, Erik Smith, Harris Allan. Estreia: 09/6/94

Michael Cunningham é um excelente escritor. Vencedor do Pulitzer por "As horas" - que deu origem ao filme vencedor do Oscar de melhor atriz (Nicole Kidman) - e autor devidamente reconhecido pela qualidade consistente de seus personagens, ele achou que poderia, também, virar roteirista de cinema. Porém, uma coisa é escrever um romance, com espaço para divagações e aprofundamentos psicológicos e outra bem diferente é colocar em imagens as situações e personagens imaginadas - especialmente quando não se tem muito tempo para isso. É por isso que "A casa do fim do mundo", baseado em um livro escrito por ele mesmo, não funciona como poderia em sua transição para as telas. Enquanto "As horas" foi adaptado pelo dramaturgo David Hare, acostumado com a linguagem dramática e experiente em dotar de ritmo até mesmo um enredo truncado por uma estrutura que comportava três tempos diferentes, a versão para as telas de "Uma casa no fim do mundo" (título bem mais apropriado, apesar da pequena diferença) não chega nem aos pés do material original, esvaziando seus personagens e a trama central e banalizando sua discussão a respeito de amizade, amor e definições de família.

Prejudicado pela inexperiência de seu diretor, Michael Mayer, estreando em longas-metragem, e pelo roteiro superficial (uma decepção, haja visto que Cunningham é um escritor comprovadamente capaz), "A casa do fim do mundo" não atinge nem de longe todo o seu potencial. Começando pelas caracterizações um tanto óbvias e preguiçosas, passando por um desenvolvimento sonolento e culminando com um final anticlimático, o filme desperdiça bons atores em uma produção que nem ao menos tenta ser ousada ou corajosa. Os personagens, riquíssimos nas páginas do romance, parecem apenas estereótipos na tela, clichês ambulantes que não conseguem cativar o espectador ou sequer interessá-lo em uma trama que corre aos tropeções, sem nenhuma sutileza ou emoção. Some-se a isso a falta de carisma de Dallas Roberts - um dos protagonistas - e a falta de química entre Colin Farrell e Robin Wright (então ainda assinando com o sobrenome de Sean Penn) e o resultado é desastroso. Só não é pior porque, apesar da direção sem inspiração, Farrell e Wright são sensacionais e compensam (quase) todos os deslizes.


Assim como no livro, a estória começa mostrando o início da amizade entre Bobby e Jonathan, dois adolescentes que, em 1974, estão prestes a se aventurar no mundo das drogas e do sexo. Bobby é traumatizado pela morte trágica do irmão mais velho, e vive com o pai alcóolatra desde que perdeu a mãe - o que o faz aproximar-se ainda mais de Alice (Sissy Spacek), a mãe de Jonathan. O relacionamento dos rapazes vai ficando cada vez mais íntimo (em todos os quesitos) e eles se separam apenas quando Jonathan abandona Cleveland para estudar em Nova York. Alguns anos mais tarde, Bobby (já na pele de Colin Farrell, um tanto deslocado no papel) resolve procurar o velho amigo e tentar a vida longe da zona de conforto. É então que chega ao apartamento onde Jonathan (interpretado pelo novato Dallas Roberts) vive com Clare (Robin Wright Penn), uma mulher um pouco mais velha com quem ele mantém um relacionamento pouco tradicional. Logo Bobby e Clare se envolvem - a despeito dela ser apaixonada por Jonathan - e os três passam a viver juntos, como uma atípica família. As coisas avançam quando Clare fica grávida e todos eles resolvem se mudar para uma propriedade afastada, perto de Woodstock.

Os lances dramáticos da trama, costurados com delicadeza no romance, são jogados ao espectador sem muita parcimônia, na adaptação feita por Cunningham. Todas as nuances que envolvem o triângulo amoroso central - Bobby ama Clare, que ama Jonathan, que ama Bobby - são desenvolvidos quase com medo, sem aprofundamento algum. Temas como a homossexualidade de Jonathan, seu relacionamento com Bobby e a doença que os aproxima ainda mais, são tratados sem a delicadeza esperada - assim como a relação entre Clare e Bobby, que soa abrupta e inverossímil. O próprio Bobby é dono de uma inocência tão grande que é difícil de acreditar, principalmente porque Colin Farrell - um ótimo ator, fato já demonstrado diversas vezes - soa desconfortável em boa parte do filme. Além disso, tudo parece muito fácil para os protagonistas: não há conflitos, não há grandes problemas (ao menos na forma como tudo é tratado pelo roteiro) e até o final é completamente incoerente. Uma pena que um livro tão formidável tenha sido adaptado com tão pouco cuidado justamente por seu autor. Poderia ser mais uma obra-prima, mas é apenas um filme muito aquém de suas possibilidades.

quarta-feira

HERÓIS IMAGINÁRIOS

HERÓIS IMAGINÁRIOS (Imaginary heroes, 2004, Signature Pictres, 111min) Direção e roteiro: Dan Harris. Fotografia: Tim Orr. Montagem: James Lyons. Música: Deborah Lurie. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Rick Butler/Mila Khalevich. Produção executiva: Rudy Cohen, Jan Fantl. Produção: Illana Diamant, Moshe Diamant, Frank Hubner, Art Linson, Gina Resnick, Denise Shaw. Elenco: Sigourney Weaver, Jeff Daniels, Emile Hirsch, Michelle Williams, Kip Pardue, Deirde O'Connell, Ryan Donowho, Suzanne Santo. Estreia: 14/9/04 (Festival de Toronto)

A princípio, tem-se a nítida impressão de que "Heróis imaginários" é uma versão modernizada de "Gente como a gente", estreia de Robert Redford como cineasta, que ganhou os Oscar de melhor filme e direção de 1980: uma família já com uma saudável cota de problemas precisa lidar com o suicídio do primogênito enquanto o caçula, ainda adolescente, tenta encontrar o equilíbrio necessário para sobreviver em um mundo pouco hostil. Porém, não precisa-se de muito tempo para perceber, com uma dose de alívio, que o filme de Dan Harris pode até ter se inspirado na produção estrelada por Donald Sutherland e Mary Tyler Moore, mas tem personalidade própria. Em seu primeiro longa-metragem como diretor - em seu currículo já constava o roteiro de "X-Men 2" (2003) - Harris, com 35 anos à época do lançamento do filme, demonstra maturidade surpreendente ao falar de luto, desajuste social e angústias de todo tipo sem cair na armadilha do sentimentalismo barato nem mesmo quando ameaça descambar para o dramalhão.

Apesar de ser Sigourney Weaver o grande nome do elenco, o real protagonista de "Heróis imaginários" é o jovem Emile Hirsch, que quatro anos mais tarde se consagraria no papel central de "Na natureza selvagem", dirigido por Sean Penn. Hirsch interpreta Tim Travis, o filho mais novo de uma família aparentemente normal que vê seu mundo virar de cabeça para baixo quando o primogênito, Matt (Kip Pardue), comete suicídio. Exímio nadador e orgulho do pai, Ben (Jeff Daniels), Matt só consegue manifestar sua infelicidade crônica com a vida dando um tiro na cabeça. Sua morte violenta e inesperada joga toda a família em uma espiral de angústia da qual cada um só consegue emergir da própria maneira. Ben, o pai, passa a andar a esmo pelas ruas e faltar ao trabalho. A mãe, Sandy (Sigourney Weaver), apela para pequenas transgressões, como fumar maconha e flertar com rapazes mais jovens. A filha universitária, Penny (Michelle Williams dando início a uma série de filmes dramáticos que passariam a lhe dar prestígio), passa a frequentar cada vez menos o lar. E Tim, que teve o azar de encontrar o corpo do irmão, luta para enfrentar os problemas da adolescência ao mesmo tempo em que procura encaixar-se em um núcleo familiar cada vez menos atraente e significativo.


Emprestando a Tim seu talento em parecer vulnerável e introvertido, Emile Hirsch cabe como uma luva no papel do protagonista, sem carregar nas tintas dramáticas nem quando segredos de família e a verdade sobre sua relação com o irmão surgem com a força de um caminhão desgovernado. Amparado pela atuação sensível e discreta de Sigourney Weaver - responsável por alguns dos melhores momentos do filme - o jovem ator alcança a rara façanha de criar um personagem melancólico na medida certa, sem forçar a compaixão da plateia ou buscar o caminho mais fácil de conquistar sua simpatia. Seu Tim é repleto de nuances - todas exploradas com delicadeza e bom senso, graças ao roteiro do diretor - e é louvável como o cineasta consegue atingir todas as notas de sua trama mesmo quando opta por revelar todos os seus elementos aos poucos, como uma jornada de autodescoberta dolorida mas imprescindível. Como em todos os bons filmes sobre a difícil travessia da infância para a vida adulta, "Heróis imaginários" tem em seu caminho decepções, alegrias e uma bem-vinda dose de otimismo que dá o equilíbrio exato entre a tristeza das perdas e a felicidade de se estar vivo.

Sem pretensões a tornar-se retrato de uma geração, "Heróis imaginários" é o recorte de um ritual de passagem, pura e simplesmente. Torna-se especial graças ao roteiro sensível, à direção inspirada de um cineasta ainda bastante jovem e antenado e a um elenco em estado de graça, capaz de transformar sentimentos comuns em matéria-prima de uma história que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo, em qualquer classe social ou qualquer tipo de família. É a essência de "Gente como a gente", mas tornada mais acessível a uma plateia jovem e com valores um tanto diferentes daqueles revelados por Redford no final da década de 70 - um exemplo disso são as relações de Tim com sua namorada, Steph (Suzanne Santo) e com seu melhor amigo e vizinho, Kyle (Ryan Donowho), bem mais ousadas do que no filme oscarizado. O conteúdo principal ainda é forte e contundente, mas a forma é mais moderna e atraente para as novas plateias. Vale ser descoberto e apreciado por quem procura bons dramas familiares, mas sua despretensão o impede de ser ainda melhor.

segunda-feira

MEU TIO MATOU UM CARA

MEU TIO MATOU UM CARA (Meu tio matou um cara, 2004, Casa de Cinema de Porto Alegre/Natasha Filmes, 87min) Direção: Jorge Furtado. Roteiro: Jorge Furtado, Guel Arraes, conto de Jorge Furtado. Fotografia: Alex Sernambi. Montagem: Giba Assis Brasil. Música: André Moraes, Caetano Veloso. Figurino: Rosângela Cortinhas. Direção de arte/cenários: Fiapo Barth. Produção executiva: Nora Goulart, Luciana Tomasi. Produção: Guel Arraes, Paula Lavigne. Elenco: Darlan Cunha, Sophia Reis, Lázaro Ramos, Dira Paes, Aílton Graça, Renan Gioelli, Júlio Andrade, Janaina Kremer Motta. Estreia: 31/12/04

Talvez a mais marcante característica da constante e simpática filmografia do diretor Jorge Furtado seja a despretensão que a permeia. Em filmes como "Houve uma vez dois verões" e "O homem que copiava", seus dois primeiros longas, o cineasta gaúcho nunca deixou de lado seu apego ao humor inteligente, um bairrismo encantador e orgulhoso e um naturalismo raro no cinema nacional, além do objetivo claro de contar histórias simples e banhadas em uma ingenuidade cativante. Em seu terceiro trabalho no formato, "Meu tio matou um cara", Furtado segue sem ambições a receita vitoriosa, ao adaptar um conto de sua própria autoria em uma trama policial sob o ponto de vista de um adolescente apaixonado pela melhor amiga. Leve e enxuto (tem pouco menos de uma hora e meia de duração, contando os créditos), seu filme serve como um alívio certeiro para a violência e a densidade temática que assolou o cinema brasileiro a partir de "Cidade de Deus".

A trama começa quando Éder (Làzaro Ramos, em sua segunda parceria com Furtado) chega à casa de seu irmão, Laerte (Aílton Graça), apavorado com o fato de ter assassinado, em legítima defesa, o ex-marido de sua namorada. Azarado por natureza - todas as suas inclinações empresariais foram por água abaixo sem deixar maiores vestígios - Éder acaba se tornando o assunto principal das conversas de seu sobrinho adolescente, Duca (Darlan Cunha), com a colega de classe/melhor amiga/paixão recolhida Isa (Sophia Reis, filha do cantor Nando Reis). Empolgada com a situação - que lhe permite sair da rotina do dia-a-dia - Isa se torna a parceira de Duca em suas visitas ao tio na cadeia e acaba, sem querer, envolvendo na situação outro amigo em comum, Kid (Renan Gioelli), também apaixonado por ela. Porém, quando conhece a namorada de Éder, a estonteante Soraia (Deborah Secco), o esperto Duca passa a desconfiar que seu tio está apenas servindo de bode expiatório para uma história bem mais complexa do que aparenta.


Co-produzido pela Natasha Filmes - companhia de Paula Lavigne de grande penetração nacional - e co-escrito por Guel Arraes, "Meu tio matou um cara" é, apesar de sua despretensão e simplicidade narrativa (com menos artifícios de linguagem que o habitual na obra do diretor), um passo adiante na carreira de Furtado. Não tanto por sua qualidade - "O homem que copiava" consegue ser melhor em todos os quesitos - mas pelo alcance da produção, que conseguiu inclusive uma trilha sonora original composta por ninguém menos que Caetano Veloso. No mais, a edição se mantém ágil e cadenciada, o visual é caprichado (mas sem os exageros que normalmente transformam os cenários em composições mais vistosas que a trama e os atores) e a direção de atores, como sempre, é a cereja do bolo. Se Lázaro Ramos tem relativamente pouco a fazer como Éder e Deborah Secco faz uso de seu status de símbolo sexual aparecendo seminua em praticamente todas as suas cenas, o elenco jovem acaba por chamar a atenção. Darlan Cunha transmite com perfeição o ar sonhador e esperto de Duca, facilitando ao espectador uma cumplicidade imprescindível, e Sophia Reis, linda, justifica a paixão de seu melhor amigo, além de não se deixar intimidar pelos colegas mais experientes. O vértice final do triângulo, Renan Gioelli, também não compromete.

Assim como os demais filmes de Jorge Furtado, "Meu tio matou um cara" é uma produção esperta, ligeira e bem-humorada, capaz de envolver o público sem maior esforço. Mesmo que o roteiro não se aprofunde em muitas das questões levantadas - e ter um final um tanto abrupto - é simpático o suficiente para que seus pecadilhos sejam facilmente perdoáveis. Um belo passatempo.

domingo

DESVENTURAS EM SÉRIE

DESVENTURAS EM SÉRIE (Lemony Snicket's a series of unfortunate events, 2004, Paramount Pictures, 108min) Direção: Brad Silberling. Roteiro: Robert Gordon, romances "The bad beggining", "The reptile room" e "The wide window", de Daniel Handler. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Michael Kahn. Música: Thomas Newman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Cheryl A. Carasik. Produção executiva: Albie Hecht, Julia Pistor, Scott Rudin, Barry Sonnenfeld. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jim Van Wyck. Elenco: Jim Carrey, Meryl Streep, Jude Law, Liam Aiken, Emily Browning, Timothy Spall, Catherine O'Hara, Billy Connolly, Luis Guzman, Jennifer Coolidge, Jane Adams, Cedric The Entertainer. Estreia: 16/12/04

4 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Oscar de Maquiagem

Não é preciso muito tempo de projeção da comédia infantojuvenil "Desventuras em série" para que os desavisados fãs de cinema julguem estar diante de um típico Tim Burton: o humor negro, o tom sinistro, os personagens bizarros e o capricho visual, afinal, são características da filmografia do cineasta que fez do Homem-morcego um negócio dos mais lucrativos para a Warner no final da década de 80. Porém, apesar das semelhanças, a adaptação da obra de Robert Gordon para a as telas não leva a assinatura de Burton -  que esteve atrelado ao projeto por um tempo com seu mais constante parceiro artístico Johnny Depp mas depois abandonou o barco - e sim de Brad Silberling, o homem por trás da versão live-action de "Gasparzinho", com Christina Ricci e da reinvenção livre do existencial "Asas do desejo" chamada "Cidade dos anjos", com Meg Ryan. Mesmo não sendo um cineasta cujo nome seja facilmente reconhecível pelas plateias, porém, ele não pode ser responsabilizado pelo relativo fracasso financeiro do filme: mesmo estrelado por um Jim Carrey em momento inspiradíssimo e contando com as luxuosas participações especiais de Meryl Streep e Jude Law, "Desventuras em série" rendeu menos do que o esperado nos EUA - inviabilizando uma esperada sequência - mais por fugir da fórmula das produções insossas e protegidas de qualquer ousadia do que por culpa alheia. Uma injustiça, já que é, de longe, mais divertido e bem realizado do que a maioria dos filmes que tentaram pegar carona na onda de adaptações literárias infantis que virou febre com o sucesso de "Harry Potter".

Adaptando apenas os três primeiros livros de uma extensa série de treze, o filme de Silberling já começa com uma dose de inteligente ironia, quando um inocente desenho animado sobre um elfo feliz é bruscamente interrompido por um narrador chamado Lemony Snicket (pseudônimo do autor Robert Gordon e interpretado nas telas por um Jude Law que aparece apenas nas sombras), que adverte os espectadores que a história que virá a seguir não terá a inocência e a felicidade com que pode estar acostumada a audiência do cinema infantojuvenil. É então que o público começa a acompanhar as tais desventuras em série do título, sofridas pelos três órfãos dos milionários Baudelaires: a criativa Violet (Emily Browning), o inteligente Klaus (Liam Aiken) e a esperta Sunny (as irmãs Kara e Shelby Hoffman), que, mesmo bebê, não fica atrás em termos de vivacidade. De forma inesperada, os três perdem os pais em um incêndio que destroi sua mansão e, de acordo com a lei - na forma do bem-intencionado mas pouco perspicaz Mr. Poe (Timothy Spall) - são obrigados a viver na companhia de um parente próximo, no caso o bizarro Conde Olaf (Jim Carrey), um ator medíocre e ambicioso que mora em uma casa caindo aos pedaços e que vê nas três crianças a sua grande chance de sair da miséria financeira.


Não demora muito, porém, para que as crianças percebam as reais intenções do Conde - que os trata como empregados e deseja matá-los para por as mãos em seu dinheiro - e iniciem uma via-crucis através de outros parentes (honestos mas ingênuos o bastante para cair nas garras do pernicioso vilão): o cientista Monty (Billy Connolly), especialista em répteis, e a tia Josephine (Meryl Streep), uma viúva paranoica que vive em uma casa localizada em um perigoso abismo. Usando e abusando de seus dons histriônicos - e de pesada maquiagem - Olaf penetra invariavelmente em todas as famílias que recebem os jovens, que conseguem sobreviver graças a seu talento em ludibriar o pretensamente esperto artista que tem em seus planos até mesmo um casamento com a pré-adolescente Violet.

Visualmente impressionante, "Desventuras em série" é uma bem-azeitada mistura entre comédia de humor negro e aventura infantojuvenil, capaz de agradar as crianças mais velhas e até mesmo os adultos que se propuserem a entrar sem preconceitos na brincadeira. Jim Carrey foi a escolha perfeita para o papel principal, que lhe dá mil oportunidades para um show à parte, especialmente com a ajuda da maquiagem - premiada com o Oscar - e de coadjuvantes brilhantes, que sustentam seu espetáculo com simpatia e generosidade. Meryl Streep, por exemplo, não precisa de muito tempo em cena para brilhar com sua afável tia Josephine, responsável por algumas das melhores sequências do filme, também admirável por sua estupenda direção de arte, que concorreu ao Oscar e perdeu para um filme mais "sério", a biografia "O aviador", de Martin Scorsese. Seu relativo fracasso de bilheteria - que deixou os espectadores fãs dos livros desolados - não condiz com suas qualidades. É uma deliciosa produção que merecia ter sido melhor recebida pelo público.

sábado

HOTEL RUANDA

HOTEL RUANDA (Hotel Rwanda, 2004, MGM/United Artists,121min) Direção: Terry George. Roteiro: Keir Pearson, Terry George. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: Naomi Geraghty. Música: Afro Celt Sound System, Rupert Gregson-Williams, Andrea Guerra. Figurino: Ruy Filipe. Direção de arte/cenários: Johnny Breedt, Tony Burrough/Estelle "Flo" Ballack. Produção executiva: Sam Bhembe, Roberto Cicutto, Martin F. Katz, Francesco Melzi D'Eril, Duncan Reid, Hal Sadoff. Produção: Terry George, A. Kitman Ho. Elenco: Don Cheadle, Sophie Okonedo, Joaquin Phoenix, Nick Nolte, Jean Reno. Estreia: 11/9/04 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Ator (Don Cheadle), Atriz Coadjuvante (Sophie Okonedo), Roteiro Original

Tendo em vista alguns dos filmes de seu currículo - os engajados "Em nome do pai", do qual é roteirista, e "Mães em luta", que também dirigiu - o cineasta Terry George era o nome perfeito para assinar a versão cinematográfica de um dos atos mais sangrentos da história da África contemporânea. Inspirado em fatos reais, "Hotel Ruanda" narra, de forma seca e brutal (e posteriormente questionada por sobreviventes que rechaçaram a versão heroica do protagonista como revisionista) o impressionante desenrolar de um genocídio que exterminou mais de um milhão de pessoas em plena década de 90 - e que foi devidamente ignorado pela maior parte da mídia internacional devido à pouca importância política de suas vítimas. Mantendo seu estilo de evitar sentimentalismos, George acabou conquistando a crítica e abiscoitou uma indicação ao Oscar de roteiro original - além de ter proporcionado a Don Cheadle, um sempre valoroso coadjuvante, seu primeiro papel de protagonista (que também lhe rendeu a chance de concorrer à estatueta dourada da Academia).

Cheadle - que ficou com o papel principal mesmo quando os produtores preferiam nomes mais comerciais como Denzel Washington, Wesley Snipes e Will Smith - vive com intensidade o sofisticado Paul Rusesabagina, gerente de um hotel quatro estrelas de proprietários belgas na cidade de Kigali, capital de Ruanda. Um país em constante tensão racial que divide a maioria hutu e a minoria tutsi (em uma divisão étnica inexplicável e totalmente política), Ruanda vê os conflitos ampliados a um nível extremo quando, após assinar um acordo de paz, seu presidente morre assassinado, o que acaba por selar a guerra aberta entre os dois grupos. Testemunhando o extermínio generalizado dos tutsis - origem de sua esposa Tatiana (Sophie Okonedo) - o hutu Rusesabagina resolve proteger sua família escondendo-a no hotel, comprando favores dos líderes do exército. Aos poucos, porém, outras potenciais vítimas pedem auxílio a ele, que, incapaz de negar ajuda, transforma o local em um campo de refugiados. Suas esperanças de ter socorro de órgãos do governo acabam, no entanto, quando um grupo de soldados belgas retira todos os estrangeiros hospedados no hotel, deixando bem claro sua indiferença em relação aos nativos do país. É aí que ele, contando com o apoio de um Coronel da ONU (personagem fictício interpretado por Nick Nolte), toma a decisão de proteger a todos que puder e tornar a situação notícia ao redor do mundo.


Apesar da polêmica em torno da veracidade do heroísmo de seu protagonista - comparado, à época do lançamento do filme com Oskar Schindler, por ter salvado mais de 1200 vidas - o filme de Terry George cumpre com bastante competência seu objetivo de dar luz a um dos episódios mais chocantes do final do século XX, e até então relegado a uma tímida nota de rodapé da história da sociedade contemporânea. Sem apelar para a violência gráfica exagerada - para desgosto dos espectadores mais sádicos - o diretor não foge de mostrar a crueldade dos exércitos hutus em sequências dolorosas e realistas, mas não transforma seu filme em um catálogo de horrores, preferindo concentrar-se nos esforços de Rusesabagina em livrar seu povo da quase inevitável tragédia. Independente do quanto é real ou não na história, ele dá a seu personagem central uma aura heroica difícil de ignorar: complexo em seus sentimentos e tão corajoso em seus atos quanto frágil em sua intimidade (complexidade que Don Cheadle tira de letra), ele soa mais humano do que a maioria dos herois retratados no cinema americano. Contando com a ajuda da ótima Sophie Okonedo - indicada ao Oscar de coadjuvante, que perdeu para Cate Blanchett em "O aviador" - Cheadle apresenta um trabalho impecável, que valoriza cada cena e disfarça um certo excesso no tempo de projeção.

Forte, intenso e interpretado com calor, "Hotel Ruanda" é um filme de suprema importância política e social. Narrado com sobriedade e uma discreta indignação, é uma obra que reafirma o talento de Terry George em transformar histórias engajadas em tramas de intensa emoção sem que, para isso, seja preciso apelar para o sentimentalismo forçado. Afinal, como ele mesmo mostra em suas cenas, a história já é comovente o bastante para que seja necessários adendos piegas. De acordo com sua filmografia, nenhum vilão é mais cruel e odioso que o ser humano - e depois de assistir a seus filmes, duvidar quem há de?

sexta-feira

MISTÉRIOS DA CARNE

MISTÉRIOS DA CARNE (Mysterious skin, 2004, Antidote Films/Desperate Pictures,105min) Direção: Gregg Araki. Roteiro: Gregg Araki, romance de Scott Heim. Fotografia: Steve Gainer. Montagem: Gregg Araki. Música: Harold Budd, Robin Guthrie. Figurino: Alix Hester. Direção de arte/cenários: Devorah Herbert/Erin K. Smith. Produção executiva: Wouter Barendrecht, Michael J. Werner. Produção: Gregg Araki, Mary Jane Skalski. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Elisabeth Shue, Brady Corbet, Bill Sage, Lisa Long, Chris Mulkey, David Lee Smith, Michelle Trachtenberg. Estreia: 03/9/04 (Festival de Veneza)

Falar sobre assuntos polêmicos como abuso sexual infantil e prostituição homossexual juvenil não é tarefa das mais fáceis e assustaria qualquer cineasta cioso dos riscos que isso pode trazer a uma carreira no conservador cinema norte-americano. Porém, se existe algo que o independente Gregg Araki sabe é desafiar as convenções morais com seus filmes, que frequentemente abordam temas que os grandes estúdios tentam evitar a todo custo, como triângulos amorosos desprovidos de culpa, uso farto de drogas, todas as modalidades de sexo e violência. Por isso, não é de surpreender que seu nome esteja por trás de "Mistérios da carne", uma trama forte e perturbadora sobre as consequências traumáticas do estupro na vida de dois adolescentes de uma pequena cidade do interior do Kansas. Baseado em romance de Scott Heim - ele mesmo habitante do local e que emprestou a seus protagonistas algumas características de sua própria juventude - e roteirizado por Araki, o filme apresenta duas narrativas paralelas que, a despeito de suas diferenças de tom, acabam por encontrar-se em um clímax coerente e melancólico, ainda que previsível desde seus primeiros momentos.

A história começa em 1991, quando o protagonista, Neil, aos oito anos de idade, é abusado sexualmente pelo treinador de seu time de baseball (Bill Sage)- aparentemente inofensivo e dedicado à profissão- e outro menino do time, Brian, é encontrado desacordado e com sangramento nasal pela família - o que o leva a crer que foi vítima de uma abdução extra-terrestre. Dez anos depois, Neil (na pele de Joseph Gordon-Levitt) ganha dinheiro fazendo programas com os homens casados de sua cidade, sem que tal atividade seja de conhecimento de sua mãe (Elisabeth Shue), tão carinhosa quanto desligada. Ciente da atração que exerce sobre os homens, o imberbe Neil os usa e despreza com a mesma intensidade, para preocupação de seu melhor amigo, Eric (Jeff Licon), que nem de longe desconfia dos acontecimentos da infância do rapaz. Quando Neil resolve ir para Nova York a exemplo de sua amiga Deborah (Michelle Trachtenberg), sua mãe é procurada por Brian (Brady Corbet): sofrendo de lapsos de memória que remetem a seus dias como criança, o jovem acredita que Neil é a chave para desvendar os fatos que lhe sumiram da mente. Primeiramente acreditando que tudo tem a ver com alienígenas - com o que é incentivado pela igualmente paranoica Avalyn Friesen (Mary Lynn Rajskub) - Brian nem de longe imagina tudo que o liga a Neil e seu passado.

Apesar do tema pesado e de nunca fugir de momentos que transitam entre o triste e o chocante - principalmente quando retrata o cotidiano de Neil em seus dias nova-iorquinos - "Mistérios da carne" tem a seu favor a sensibilidade de jamais utilizar-se deles com morbidez ou julgamentos morais. Mantendo-se sempre imparcial ao contar sua história, Araki contenta-se em mirar sua câmera para testemunhar momentos íntimos, sem fazer deles mais glamourosos ou tristes do que podem ser normalmente. Isso acontece, por exemplo, quando Neil encontra um cliente soropositivo que pede apenas que o toque (uma cena que equilibra sensacionalmente a melancolia e o grostesco) e quando ele acaba sendo vítima de uma violência inesperada que o tira do domínio da situação e o transforma em mais uma estatística (novamente tudo é filmado sem comentários excessivos de trilha sonora ou edição, o que acaba sublinhando a sensação de solidão e dor). Tais cenas contrastam com as polêmicas sequências que mostram (não explicitamente, é claro), o abuso sexual sofrido pelo rapaz na infância: corajosamente, o cineasta não descreve o ato como algo desagradável, mas sim como uma experiência aprazível ao menino, que sempre lembra dela envolta em uma chuva de jujubas a despeito das consequências de tal relação. Aliás, também é corajoso da parte do roteiro mostrar um Neil ainda criança tendo consciência de seus desejos homossexuais pelo namorado da mãe - o que Freud aplaudiria certamente pode chocar alguns espectadores, mas em nenhum momento isso é tratado com desrespeito ou como forma de capitalizar em cima de um assunto ainda tabu e controverso. Esse viés em narrar algo tão delicado é, provavelmente, o maior mérito do filme, que ainda conta com a presença já magnética de Joseph Gordon-Levitt em um papel difícil e desafiador.

Ainda sendo lembrado por sua participação na comédia romântica adolescente "10 coisas que eu odeio em você" - onde atuou ao lado de Heath Ledger - Gordon-Levitt arriscou a rejeição das fãs do filme ao apresentar um Neil arrogante, antipático e muitas vezes desagradável que carrega consigo uma carga emocional que nunca deixa transparecer por trás de suas atitudes egoístas e até preconceituosas. Seu poder em cena até mesmo acaba por eclipsar a atuação de seu jovem companheiro de cena, Brady Corbet, que, de posse de um personagem menos agressivo dramaticamente, surge em cena como o responsável por unir passado e presente, que se encontram como em uma tragédia grega - mas, coerente com o restante minimalista da narrativa de Araki, de forma bem menos melodramática do que se poderia esperar. Fugindo do previsível e do maniqueísmo, o diretor marca um gol de placa, perturba e, como se fosse pouco, atinge o espectador sem que para isso seja preciso espancá-lo visualmente. Um belo filme!

quinta-feira

O TERMINAL

O TERMINAL (The terminal, 2004, DreamWorks SKG/Amblin Entertainment, 128min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Sacha Gervasi, Jeff Nathanson, estória de Sacha Gervasi, Andrew Niccol. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/Anne Kuljian. Produção executiva: Jason Hoffs, Andrew Niccol, Patricia Witcher. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Catherine Zeta-Jones, Stanley Tucci, Chi McBride, Diego Luna, Zoe Saldana. Estreia: 09/6/94

Um dos mais bem sucedidos cineastas da história, Steven Spielberg pode se gabar de ter em seu currículo êxitos impressionantes de bilheteria, como "Tubarão", "Caçadores da Arca Perdida", "ET, o extraterrestre" e "Jurassic Park, parque dos dinossauros" - entre tantos outros - e filmes generosamente premiados e louvados como "A lista de Schindler" e "O resgate do soldado Ryan", mas nem essa admirável lista de sucessos o impede de, vez ou outra, tropeçar em suas boas intenções e experimentar o amargo sabor da frustração. Foi o que aconteceu com "O terminal", simpática comédia dramática estrelada de 2004 que, apesar de não ter sido um desastre comercial do porte de outros malogros do diretor, como o subestimado "Além da eternidade", ficou muito aquém do que se poderia esperar de um novo encontro entre o cineasta e Tom Hanks, um dos mais populares astros de sua geração - e com quem já havia trabalhado em "Ryan" e "Prenda-me se for capaz". Com uma bilheteria doméstica de menos de 80 milhões de dólares (contra um orçamento de cerca de 60 milhões), o filme também encontrou uma recepção apenas morna da crítica e acabou sendo relegado a segundo plano na carreira do diretor. Uma injustiça, uma vez que é agradável o suficiente para manter a atenção do público do início ao fim e apresenta mais uma inspirada atuação de Hanks, voltando a fazer humor - mas dessa vez de forma bem mais sutil do que no início de sua vitoriosa trajetória.

Ligeiramente inspirado na história real de um iraniano que em 1988 teve seu visto de entrada na Inglaterra negado por ter tido seu passaporte e certificado de refugiado roubados e que acabou por morar no aeroporto Charles De Gaulle - na França - enquanto sua saúde mental se deteriorava, o roteiro de "O terminal" prefere deixar de lado as consequências trágicas da trama para manter sua narrativa no terreno mais leve da comédia de situações. Essa opção, acertada, permite a Spielberg exercitar um lado pouco conhecido de sua filmografia, normalmente marcada por blockbusters milionários ou pesados dramas de guerra. Seguindo o ritmo de "Prenda-me se for capaz", seu filme anterior, o cineasta imprime um registro ameno à história de Viktor Navorski (Hanks), um cidadão de um fictício país do leste europeu chamado Krakozhia que chega aos EUA justamente quando seu país sofre um golpe de estado e fica à mercê das decisões políticas da ONU para poder ou voltar para casa ou entrar como turista em Nova York. Prejudicado pelas ambições do chefe de segurança da alfândega do aeroporto, Frank Dixon (Stanley Tucci), Navorski acaba por se conformar com seu destino e faz de uma ala em reformas do JFK seu novo lar.


Enquanto seu personagem em "Náufrago" era obrigado a conviver com um novo modo de vida desprovido de quaisquer luxos e confortos de uma sociedade civilizada quando se via sozinho em uma ilha deserta, em "O terminal" o Viktor Navorski de Tom Hanks também precisa se acostumar com uma nova situação de vida: empreiteiro em seu país de origem, ele não vê outra alternativa em seu novo cotidiano a não ser buscar comida através de moedas coletadas em máquinas de devolução de carrinhos de carga, dorme em bancos de espera e aprende inglês comparando as traduções dos guias de viagem que carrega em sua bagagem. Tal condição se transforma, porém, quando ele supera a barreira do idioma e inicia uma série de relações interpessoais dentro do aeroporto que transformam seu dia-a-dia: assim, ele ajuda o jovem latino Enrique Cruz (Diego Luna) a conquistar a bela Dolores Torres (Zoe Saldana) - que trabalha no setor de imigração - faz amizade com o paranoico faxineiro Gupta Rajan (Kumar Pallana) e até se apaixona pela bela comissária de bordo Amelia Warren (Catherine Zeta-Jones). Tais encontros acabam por mudar seu destino.

Apesar da química entre Hanks e Zeta-Jones não ser das mais convincentes - um problema que dificilmente pode ser creditado à dupla de atores, sempre eficientes - e parecer um tanto arrastado em seus quinze minutos finais, quando Navorski finalmente parte em busca de cumprir sua missão nos EUA, "O terminal" não deixa de ser um filme extremamente simpático e delicado, capaz de agradar a todos os tipos de público. Não deixa de ser um paradoxo, portanto, que justamente quando tenta cativar todas as camadas da plateia, o cineasta mais popular de sua geração falhe na missão. É inexplicável, no entanto, a quase indiferença com que o filme foi tratado por crítica e público. Talvez por ser uma obra de Spielberg - alguém acostumado a elevar o nível do cinema comercial americano - a plateia esperasse mais uma obra-prima, ou no mínimo, algo que ficasse marcado na memória como a maioria de seus filmes. Não foi a intenção do cineasta, como se percebe pela despretensão - e jamais desleixo - da produção, que, caprichando na direção de arte ao reconstruir o aeroporto JFK, trata tudo com sutileza e um bom-humor muito adequado. É uma sessão da tarde reforçada, com a assinatura de um grande diretor em um momento de pouca ambição. Vale a pena fazer justiça e reconsiderar tanto desinteresse pelo divertido resultado final.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...