O MESTRE DOS GÊNIOS (Genius, 2016, Desert Wolf Productions/Riverstone Pictures, 104min) Direção: Michael Grandage. Roteiro: John Logan, livro de A. Scott Berg. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Chris Dickens. Música: Adam Cork. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: James J. Bagley, A. Scott Berg, Tim Bevan, Nik Bower, Tim Christian, Ivan Dunleavy, Arielle Tepper Madover, Deepak Nayar. Produção: James Bierman, Michael Grandage, John Logan. Elenco: Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman, Guy Pearce, Laura Linney, Dominic West, Vanessa Kirby. Estreia:16/02/16 (Festival de Berlim)
Foi em 1983 que John Logan leu o livro "Max Perkins: editor of genius", de A. Scott Berg, que foi o vencedor National Book Award de 1978. De lá até 2016, quando finalmente viu sua adaptação ganhar as telas de cinema, Logan tornou-se um dos roteiristas mais conceituados de Hollywood, com três indicações ao Oscar no currículo ("Gladiador", "O aviador" e "A invenção de Hugo Cabret") e crédito em duas aventuras de James Bond ("007 - Operação Skyfall" e "007 contra Spectre"). Seu prestígio, no entanto, não ajudou muito a alavancar "O mestre dos gênios", que, mesmo contando com um elenco de vencedores e indicados ao Oscar e falando de alguns dos maiores escritores americanos do século XX, naufragou fragorosamente nas bilheterias e sequer foi lembrado pelas cerimônias de premiação - o mais perto que chegou disso foi concorrer ao Urso de Ouro no Festival de Berlim. Tal resultado não deixa de ser um reflexo da qualidade do filme de estreia do ator Michael Grandage como diretor: a biografia de Max Perkins, editor de nomes consagrados da literatura, como Thomas Wolfe, Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, é apenas correta, passando bem longe de ser uma experiência memorável.
Na pele de um Colin Firth contido e sem cacoetes, Max Perkins surge como um visionário editor da celebrada Scribners, capaz de enxergar nas caudalosas páginas do novato Thomas Wolfe (Jude Law substituindo Michael Fassbender e saindo-se bastante bem) um provável sucesso de crítica. Wolfe, por sua vez, é um gênio excêntrico e dotado de todas as características típicas de pessoas como ele: quase arrogante, inteligente e capaz de escrever milhares de páginas apenas para descrever um objeto. Casado com Aline Bernstein (Nicole Kidman), uma mulher que o apoia mas se ressente de ser frequentemente deixada em segundo plano em relação à sua arte, o autor de obras elogiadas mas difíceis como "Olhe para casa, anjo" e "Do tempo e do rio" (ambos inéditos no Brasil) encontra em Law um retrato não exatamente fiel fisicamente, mas energético e fascinante a ponto de eclipsar seus colegas de cena. A relação entre ele e Perkins, um homem de família discreto e dedicado à sua profissão, é mostrada com delicadeza por Grandage - especialmente quando o filme lança luz a seus maiores desafios: cortar os excessos do romancista, tornando palatáveis suas obras escandalosamente prolixas. De certa forma, Perkins era quase um coautor dos livros de Wolfe, o que lhes alterava a relação puramente comercial em algo muito mais emocional e fraterno. Assim, o escritor frequentava a casa do editor, convivia com sua esposa, Louise (Laura Linney) e os filhos e o levava para suas farras noturnas.
Mas nem só da amizade entre Wolfe e Perkins trata o roteiro de "O mestre dos gênios". De forma ligeira e quase superficial, entram em cena, para deleite dos fãs de literatura, outros nomes de suma importância para o mundo das letras do século XX. Guy Pearce vive um decadente e sofrido F. Scott Fitzgerald, já na época em que sua esposa, Zelda (Vanessa Kirby), passava por graves crises depressivas e ele mesmo sentia-se incapaz de escrever qualquer obra que lembrasse vagamente seus melhores trabalhos. Ernest Hemingway também surge, interpretado com precisão por Dominic West, que empresta ao escritor ares de sujeito mundano, mais interessado em pescarias do que em máquinas de escrever. Tais respiros, mais do que simplesmente tirar um pouco o foco da amizade entre os protagonistas, serve também para localizar o espectador em um período específico do século e desmistificar alguns dos maiores autores da história, oferecendo a eles uma aura mais humana e menos inalcançável. O artifício funciona: Guy Pearce está particularmente bem como um Fitzgerald cansado e desiludido e Dominic West, mesmo em uma única cena, dá um belo vislumbre da personalidade de Hemingway, assim como Corey Stoll fez com maestria em "Meia-noite em Paris", de Woody Allen. São esses momentos, fora do arco narrativo principal de "O mestre dos gênios" que, paradoxalmente, fazem dele um filme interessante e o salvam do lugar-comum.
Não deixa de ser surpreendente, no entanto, que, mesmo com um profissional experiente como John Logan, seja justamente o roteiro um dos principais problemas do filme de Grandage. Sem conseguir imprimir em seus protagonistas o grau de empatia suficiente para conquistar o espectador, a história acaba por tentar impor-se mesmo sem ter força para isso. Escorando-se basicamente em um relacionamento profissional/fraternal sem maiores lances dramáticos, a trama acaba por arrastar-se por longos 104 minutos, tentando encontrar atrativos além do elenco excepcional para cativar a atenção da plateia. É uma produção caprichada, com uma reconstituição de época cuidadosa e personagens lendários vividos por atores de primeira linha, mas esbarra em uma falta absoluta do que contar em seu terço final. É um desperdício, mas mesmo com seus pecados, ainda é um filme que pode agradar a quem procura conhecer um pouco mais de seus autores favoritos. Uma pena que até mesmo nesse ponto é superficial demais para acrescentar algo a mais na carreira dos envolvidos.
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ANIMAIS NOTURNOS
ANIMAIS
NOTURNOS (Nocturnal animals, 2016, Focus Features, 116min) Direção: Tom
Ford. Roteiro: Tom Ford, romance "Tony & Susan", de Austin
Wright. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Joan Sobel. Música: Abel
Korzeniowski. Figurino: Ariane Phillips. Direção de arte/cenários: Shane
Valentino/Meg Everist. Produção: Tom Ford, Robert Salerno. Elenco: Amy
Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Armie
Hammer, Laura Linney, Isla Fisher, Michael Sheen, Ellie Bamber, Karl
Glusman, Robert Aramayo, Jena Malone. Estreia: 02/9/16 (Festival de
Veneza)
Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Michael Shannon)
Os créditos de abertura de "Animais noturnos" - estranhos, desconfortáveis, quase agressivos ao olhar - já preparam o espectador para o que virá nas próximas duas horas: em seu segundo filme como cineasta, o estilista Tom Ford não brinca em serviço e apresenta ao público um dos mais claustrofóbicos estudos sobre a culpa e o desespero produzidos por Hollywood nos últimos anos. Não quer dizer que seja completamente bem-sucedido em tudo que ambiciona dizer, mas é preciso reconhecer sua coragem em nadar contra a corrente do cinemão médio americano e realizar uma obra tão perturbadora e ao mesmo tempo tão visualmente atraente. Baseado no romance "Tony & Susan", de Austin Wright, Ford forjou um exercício de estilo que equilibra lampejos de brilhantismo com um ritmo claudicante que quase põe tudo a perder. Calorosamente aclamado no Festival de Veneza - onde teve seus direitos de distribuição comprados pelo valor recorde de 10 milhões de dólares - e indicado a surpreendentes oito estatuetas no BAFTA (o Oscar britânico), "Animais noturnos" não é nem a obra-prima que muitos aplaudem nem a fraude que outros tantos denunciam: é um filme acima da média, mas com sérios defeitos que o impedem de atingir a todas as notas a que se propõe.
Alternando liberdade criativa e fidelidade à sua fonte original, Tom Ford repete a estrutura do livro de Wright ao mesmo tempo em que acrescenta outras nuances a uma trama já naturalmente densa e repleta de simbolismos: a protagonista é Susan Morrow (Amy Adams em mais uma interpretação extraordinária), dona de uma galeria de arte sofisticada e bem frequentada. Casada com um executivo bonito e igualmente bem-sucedido (Armie Hammer), ela não consegue deixar de lado uma constante solidão, que se agrava com as viagens do marido e a distância dos filhos. Em uma dessas crises de melancolia, ela recebe o manuscrito de um livro escrito por Tony Hastings (Jake Gyllenhaal), com quem foi casada anos antes, em uma relação que acabou de forma bastante traumática. Junto com o livro, chega uma nota, onde Tony pede à ex-mulher que o leia e dê sua opinião. Temerosa com as possíveis intenções de Tony - que saiu do relacionamento extremamente magoado e ofendido - ela inicia a leitura e se vê envolvida em uma história repleta de uma inesperada violência.
No livro de Tony, chamado "Animais noturnos", o protagonista é Edward Sheffield (também interpretado por Gyllenhaal), um homem comum que, em viagem de férias com a mulher e a filha adolescente, é abordado na estrada por três desconhecidos que transformam sua vida em um pesadelo. Tendo a família sequestrada e depois morta, Edward se une a um policial da pequena cidade onde ocorreu o crime, Bobby Andes (Michael Shannon, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) - também passando por um grave problema pessoal - para buscar justiça pelas próprias mãos. Seu silencioso desespero encontra eco em Susan, que começa a perceber nas entrelinhas do romance uma sórdida e sutil vingança do homem a quem amava contra alguns dos acontecimentos que aceleraram sua separação. Conforme o livro vai chegando ao seu final - e seu reencontro com Tony se aproxima - a mulher segura e confiante vai dando lugar a uma outra, triste e consumida por uma série de arrependimentos.
Como todo artista consciente da força das imagens, Tom Ford faz de seus "Animais noturnos" um show visual, graças à belíssima fotografia de Seamus McGarvey e a direção de arte sofisticada de Shane Valentino. Mas, mais do que simplesmente enfeitar a tela com uma cuidadosa seleção de cores e contrastes, ele as utiliza como ferramentas para enfatizar ideias e pensamentos, o que é, sem dúvida, um dos maiores méritos de seu filme. Ao contrário de muitas obras que soam redundantes por não confiar na potência dos enquadramentos e da edição, "Animais noturnos" usa e abusa de silêncios e de pequenos detalhes que vão compondo o quadro geral proposto pelo roteiro. Conforme vai iluminando a história entre Susan e Edward - e de como ela é a base para o livro dele - o cineasta vai também empurrando o público rumo à uma conclusão que, longe de ser facilmente digerida, é igualmente brutal e desconcertante - o que seria impossível sem o elenco impecável escolhido a dedo. Se Aaron Taylor-Johnson (como um dos criminosos) saiu vencedor do Golden Globe e Michael Shannon recebeu uma indicação ao Oscar, eles são apenas peões em um jogo de xadrez comandado por dois atores em momentos brilhantes da carreira: Jake Gyllenhaal e Amy Adams.
Em um espetacular trabalho de interpretação, tanto Adams quanto Gyllenhaal encaram o desafio de trazer à luz dois personagens complexos, ricos em nuances e psicologicamente ambíguos de forma irretocável: enquanto Adams (injustamente esquecida pelo Oscar também por seu trabalho arrebatador em "A chegada") cria duas Susans distintas - um passado romântico e sonhador e um presente carente e solitário - com uma coerência impressionante, Gyllenhaal explora com meticulosidade um jovem repleto de sonhos profissionais pouco práticos e um personagem criado na sua imaginação, bem mais propenso a explicitar sua revolta através da violência. O uso constante de metáforas e símbolos pode até excessivo em determinados momentos, mas a garra do casal central de atores e a maneira sutil com que conduzem seus personagens praticamente anula os pecados do filme de Ford. Corajoso, inteligente e dono de uma personalidade rara no cinemão, "Animais noturnos" também é exagerado, pretensioso e de uma crueldade poética. Incoerências que fazem dele, no mínimo, um filme muito interessante mesmo àqueles que não concordem com seu estilo único.
Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Michael Shannon)
Os créditos de abertura de "Animais noturnos" - estranhos, desconfortáveis, quase agressivos ao olhar - já preparam o espectador para o que virá nas próximas duas horas: em seu segundo filme como cineasta, o estilista Tom Ford não brinca em serviço e apresenta ao público um dos mais claustrofóbicos estudos sobre a culpa e o desespero produzidos por Hollywood nos últimos anos. Não quer dizer que seja completamente bem-sucedido em tudo que ambiciona dizer, mas é preciso reconhecer sua coragem em nadar contra a corrente do cinemão médio americano e realizar uma obra tão perturbadora e ao mesmo tempo tão visualmente atraente. Baseado no romance "Tony & Susan", de Austin Wright, Ford forjou um exercício de estilo que equilibra lampejos de brilhantismo com um ritmo claudicante que quase põe tudo a perder. Calorosamente aclamado no Festival de Veneza - onde teve seus direitos de distribuição comprados pelo valor recorde de 10 milhões de dólares - e indicado a surpreendentes oito estatuetas no BAFTA (o Oscar britânico), "Animais noturnos" não é nem a obra-prima que muitos aplaudem nem a fraude que outros tantos denunciam: é um filme acima da média, mas com sérios defeitos que o impedem de atingir a todas as notas a que se propõe.
Alternando liberdade criativa e fidelidade à sua fonte original, Tom Ford repete a estrutura do livro de Wright ao mesmo tempo em que acrescenta outras nuances a uma trama já naturalmente densa e repleta de simbolismos: a protagonista é Susan Morrow (Amy Adams em mais uma interpretação extraordinária), dona de uma galeria de arte sofisticada e bem frequentada. Casada com um executivo bonito e igualmente bem-sucedido (Armie Hammer), ela não consegue deixar de lado uma constante solidão, que se agrava com as viagens do marido e a distância dos filhos. Em uma dessas crises de melancolia, ela recebe o manuscrito de um livro escrito por Tony Hastings (Jake Gyllenhaal), com quem foi casada anos antes, em uma relação que acabou de forma bastante traumática. Junto com o livro, chega uma nota, onde Tony pede à ex-mulher que o leia e dê sua opinião. Temerosa com as possíveis intenções de Tony - que saiu do relacionamento extremamente magoado e ofendido - ela inicia a leitura e se vê envolvida em uma história repleta de uma inesperada violência.
No livro de Tony, chamado "Animais noturnos", o protagonista é Edward Sheffield (também interpretado por Gyllenhaal), um homem comum que, em viagem de férias com a mulher e a filha adolescente, é abordado na estrada por três desconhecidos que transformam sua vida em um pesadelo. Tendo a família sequestrada e depois morta, Edward se une a um policial da pequena cidade onde ocorreu o crime, Bobby Andes (Michael Shannon, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) - também passando por um grave problema pessoal - para buscar justiça pelas próprias mãos. Seu silencioso desespero encontra eco em Susan, que começa a perceber nas entrelinhas do romance uma sórdida e sutil vingança do homem a quem amava contra alguns dos acontecimentos que aceleraram sua separação. Conforme o livro vai chegando ao seu final - e seu reencontro com Tony se aproxima - a mulher segura e confiante vai dando lugar a uma outra, triste e consumida por uma série de arrependimentos.
Como todo artista consciente da força das imagens, Tom Ford faz de seus "Animais noturnos" um show visual, graças à belíssima fotografia de Seamus McGarvey e a direção de arte sofisticada de Shane Valentino. Mas, mais do que simplesmente enfeitar a tela com uma cuidadosa seleção de cores e contrastes, ele as utiliza como ferramentas para enfatizar ideias e pensamentos, o que é, sem dúvida, um dos maiores méritos de seu filme. Ao contrário de muitas obras que soam redundantes por não confiar na potência dos enquadramentos e da edição, "Animais noturnos" usa e abusa de silêncios e de pequenos detalhes que vão compondo o quadro geral proposto pelo roteiro. Conforme vai iluminando a história entre Susan e Edward - e de como ela é a base para o livro dele - o cineasta vai também empurrando o público rumo à uma conclusão que, longe de ser facilmente digerida, é igualmente brutal e desconcertante - o que seria impossível sem o elenco impecável escolhido a dedo. Se Aaron Taylor-Johnson (como um dos criminosos) saiu vencedor do Golden Globe e Michael Shannon recebeu uma indicação ao Oscar, eles são apenas peões em um jogo de xadrez comandado por dois atores em momentos brilhantes da carreira: Jake Gyllenhaal e Amy Adams.
Em um espetacular trabalho de interpretação, tanto Adams quanto Gyllenhaal encaram o desafio de trazer à luz dois personagens complexos, ricos em nuances e psicologicamente ambíguos de forma irretocável: enquanto Adams (injustamente esquecida pelo Oscar também por seu trabalho arrebatador em "A chegada") cria duas Susans distintas - um passado romântico e sonhador e um presente carente e solitário - com uma coerência impressionante, Gyllenhaal explora com meticulosidade um jovem repleto de sonhos profissionais pouco práticos e um personagem criado na sua imaginação, bem mais propenso a explicitar sua revolta através da violência. O uso constante de metáforas e símbolos pode até excessivo em determinados momentos, mas a garra do casal central de atores e a maneira sutil com que conduzem seus personagens praticamente anula os pecados do filme de Ford. Corajoso, inteligente e dono de uma personalidade rara no cinemão, "Animais noturnos" também é exagerado, pretensioso e de uma crueldade poética. Incoerências que fazem dele, no mínimo, um filme muito interessante mesmo àqueles que não concordem com seu estilo único.
sábado
O QUINTO PODER
O
QUINTO PODER (The fifth state, 2013, DreamWorks SKG/Reliance
Entertainment, 128min) Direção: Bill Condon. Roteiro: Josh Singer,
livros "Inside WikiLeaks: my time with Julian Assange at the world's
most dangerous website", de Daniel Domscheit-Berg e "WikiLeaks: inside
Julian Assange's war on secrecy", de David Leigh, Luke Harding.
Fotografia: Tobias Schliesser. Montagem: Virginia Katz. Música: Carter
Burwell. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Mark
Tildesley/Veronique Melery. Produção executiva: Paul Green, Jonathan
King, Jim Shamoon, Richard Sharkey, Jeff Skoll. Produção: Steve Golin,
Michael Sugar. Elenco: Benedict Cumberbatch, Daniel Bruhl, Alicia
Vikander, Laura Linney, David Thewlis, Stanley Tucci, Alexander Beyer,
Dan Stevens. Estreia: 05/9/(Festival de Toronto)
A história real de Julian Assange e a criação do WikiLeaks - um site que revelava ao público documentos confidenciais de governos do mundo inteiro e que por consequência ganhou o status de ameaça internacional - tem todos os elementos dos melhores thrillers políticos, na melhor tradição de "Todos os homens do presidente" e "A trama", sintomaticamente dirigidos pelo mesmo Alan J. Pakula. Porém, assim que o projeto foi anunciado, um problema (previsível mas mesmo assim preocupante) surgiu no horizonte dos produtores: como contar ao espectador uma história cujo final ainda não aconteceu - e mais importante ainda, é passível de ter novos capítulos pelos próximos anos? Somado a essa dúvida cruel - mais ou menos resolvida com a decisão de adaptar dois livros escritos sobre o assunto (um deles pelo assessor mais próximo de Assange, que tornou-se desafeto) - veio ainda, antes do começo das filmagens, outras pedras no caminho. Um roteiro ainda não oficial caiu nas mãos de Assange (nenhuma surpresa, uma vez que ele tinha acesso até mesmo a telegramas da CIA) e o próprio começou uma campanha contra o filme, chamando-o de "mentiroso e tendencioso" e escrevendo um e-mail ao ator Benedict Cumberbatch implorando para que ele não aceitasse o papel central. Tal súplica não funcionou: não apenas Cumberbatch aceitou protagonizar "O quinto poder" - substituindo a escolha inicial, Jeremy Renner - como o filme estreou no Festival de Toronto de 2013 cercado de expectativas. Para alegria de Assange, no entanto, a obra de Bill Condon não entusiasmou muita gente - a crítica se dividiu e o público praticamente ignorou.
Tal indiferença em relação a "O quinto poder" não deixa de ser injusta, porém. Mesmo que esteja longe de ser um "A rede social" - brilhante filme de David Fincher sobre Mark Zuckerberg e a fundação do Facebook - o trabalho de Condon é visualmente criativo, quase didático em sua forma de explicar a forma com que o WikiLeaks funcionava e conta com um elenco excelente defendendo personagens dúbios e longe do tradicional maniqueísmo de Hollywood. Talvez essa opção do roteiro de Josh Singer seja sua maior ousadia: ao tirar do público a chance de torcer por um herói bem definido - Assange tem sérios problemas éticos e nem mesmo seu homem de confiança pode ser considerado um exemplo de conduta, mesmo quando se revolta contra os métodos pouco louváveis do colega - Singer entra no perigoso território dos filmes que propõem à audiência o pacto poucas vezes aceito de ser conquistado por uma história sem certo ou errado. É corajoso, mas não funciona em todos os momentos, principalmente porque o protagonista não apenas carece de limites morais bem definidos: ele sofre de uma crucial falta de carisma.
Não que Benedict Cumberbatch não seja um ator carismático, pelo contrário. Mas exatamente por seu enorme talento em transformar-se nos personagens que interpreta, ele desaparece debaixo dos cabelos brancos de Assange e de sua paranoia (muitas vezes justificável), deixando ao público a dura tarefa de compreender seus atos e sua arrogância diante dos inimigos - que vão se acumulando perigosamente conforme ele avança em seu objetivo de escancarar aos leitores todas as mazelas governamentais do mundo (literalmente). Solitário como somente os paranoicos conseguem e petulantes como apenas os gênios sabem, Assange tornou-se, do dia para a noite, em inimigo público número 1 do poder, especialmente ao bater de frente contra ditaduras sanguinárias e expor as reais intenções do governo americano em relação à guerra no Afeganistão. Unindo-se a expoentes da mídia internacional, ele acabou por - segundo o roteiro, é bom sempre lembrar - entrar em rota de colisão com a única pessoa em quem confiava cegamente, seu amigo e parceiro de site Daniel Berg (Daniel Bruhl, herdando papel de James McAvoy e entregando uma segunda performance impecável no mesmo ano, depois do Niki Lauda que viveu em "Rush, no limite da emoção"). Recusando-se a ficar ao lado de Assange em uma situação crítica que pode ter resultados sangrentos, Daniel se afasta e passa a ser visto como traidor.
"O quinto poder" é um belo filme. Bill Condon (roteirista de "Chicago" e diretor de "Deuses e monstros" e "Kinsey") é um cineasta cuidadoso, inteligente e criativo - e isso fica óbvio em sequências sensacionais, como aquelas que mostram metaforicamente a destruição do site. Até mesmo as participações pequenas mas essenciais de Laura Linney e Stanley Tucci são precisas, bem dirigidas e elegantes, como sempre acontece nas obras de Condon, e a edição ágil transmite com exatidão o clima de urgência da trama. Típico caso de filme mal-compreendido (ou mal vendido, ou mal divulgado), "O quinto poder" merece uma segunda chance, se não pela história empolgante ao menos pelo elenco espetacular e a condução esperta de Bill Condon. E além do mais, é uma essencial maneira de entender um dos períodos mais cruciais da política internacional do século e uma de suas personalidades mais fascinantes.
A história real de Julian Assange e a criação do WikiLeaks - um site que revelava ao público documentos confidenciais de governos do mundo inteiro e que por consequência ganhou o status de ameaça internacional - tem todos os elementos dos melhores thrillers políticos, na melhor tradição de "Todos os homens do presidente" e "A trama", sintomaticamente dirigidos pelo mesmo Alan J. Pakula. Porém, assim que o projeto foi anunciado, um problema (previsível mas mesmo assim preocupante) surgiu no horizonte dos produtores: como contar ao espectador uma história cujo final ainda não aconteceu - e mais importante ainda, é passível de ter novos capítulos pelos próximos anos? Somado a essa dúvida cruel - mais ou menos resolvida com a decisão de adaptar dois livros escritos sobre o assunto (um deles pelo assessor mais próximo de Assange, que tornou-se desafeto) - veio ainda, antes do começo das filmagens, outras pedras no caminho. Um roteiro ainda não oficial caiu nas mãos de Assange (nenhuma surpresa, uma vez que ele tinha acesso até mesmo a telegramas da CIA) e o próprio começou uma campanha contra o filme, chamando-o de "mentiroso e tendencioso" e escrevendo um e-mail ao ator Benedict Cumberbatch implorando para que ele não aceitasse o papel central. Tal súplica não funcionou: não apenas Cumberbatch aceitou protagonizar "O quinto poder" - substituindo a escolha inicial, Jeremy Renner - como o filme estreou no Festival de Toronto de 2013 cercado de expectativas. Para alegria de Assange, no entanto, a obra de Bill Condon não entusiasmou muita gente - a crítica se dividiu e o público praticamente ignorou.
Tal indiferença em relação a "O quinto poder" não deixa de ser injusta, porém. Mesmo que esteja longe de ser um "A rede social" - brilhante filme de David Fincher sobre Mark Zuckerberg e a fundação do Facebook - o trabalho de Condon é visualmente criativo, quase didático em sua forma de explicar a forma com que o WikiLeaks funcionava e conta com um elenco excelente defendendo personagens dúbios e longe do tradicional maniqueísmo de Hollywood. Talvez essa opção do roteiro de Josh Singer seja sua maior ousadia: ao tirar do público a chance de torcer por um herói bem definido - Assange tem sérios problemas éticos e nem mesmo seu homem de confiança pode ser considerado um exemplo de conduta, mesmo quando se revolta contra os métodos pouco louváveis do colega - Singer entra no perigoso território dos filmes que propõem à audiência o pacto poucas vezes aceito de ser conquistado por uma história sem certo ou errado. É corajoso, mas não funciona em todos os momentos, principalmente porque o protagonista não apenas carece de limites morais bem definidos: ele sofre de uma crucial falta de carisma.
Não que Benedict Cumberbatch não seja um ator carismático, pelo contrário. Mas exatamente por seu enorme talento em transformar-se nos personagens que interpreta, ele desaparece debaixo dos cabelos brancos de Assange e de sua paranoia (muitas vezes justificável), deixando ao público a dura tarefa de compreender seus atos e sua arrogância diante dos inimigos - que vão se acumulando perigosamente conforme ele avança em seu objetivo de escancarar aos leitores todas as mazelas governamentais do mundo (literalmente). Solitário como somente os paranoicos conseguem e petulantes como apenas os gênios sabem, Assange tornou-se, do dia para a noite, em inimigo público número 1 do poder, especialmente ao bater de frente contra ditaduras sanguinárias e expor as reais intenções do governo americano em relação à guerra no Afeganistão. Unindo-se a expoentes da mídia internacional, ele acabou por - segundo o roteiro, é bom sempre lembrar - entrar em rota de colisão com a única pessoa em quem confiava cegamente, seu amigo e parceiro de site Daniel Berg (Daniel Bruhl, herdando papel de James McAvoy e entregando uma segunda performance impecável no mesmo ano, depois do Niki Lauda que viveu em "Rush, no limite da emoção"). Recusando-se a ficar ao lado de Assange em uma situação crítica que pode ter resultados sangrentos, Daniel se afasta e passa a ser visto como traidor.
"O quinto poder" é um belo filme. Bill Condon (roteirista de "Chicago" e diretor de "Deuses e monstros" e "Kinsey") é um cineasta cuidadoso, inteligente e criativo - e isso fica óbvio em sequências sensacionais, como aquelas que mostram metaforicamente a destruição do site. Até mesmo as participações pequenas mas essenciais de Laura Linney e Stanley Tucci são precisas, bem dirigidas e elegantes, como sempre acontece nas obras de Condon, e a edição ágil transmite com exatidão o clima de urgência da trama. Típico caso de filme mal-compreendido (ou mal vendido, ou mal divulgado), "O quinto poder" merece uma segunda chance, se não pela história empolgante ao menos pelo elenco espetacular e a condução esperta de Bill Condon. E além do mais, é uma essencial maneira de entender um dos períodos mais cruciais da política internacional do século e uma de suas personalidades mais fascinantes.
terça-feira
DAVE - PRESIDENTE POR UM DIA
DAVE,
PRESIDENTE POR UM DIA (Dave, 1993, Warner Bros, 110min) Direção: Ivan
Reitman. Roteiro: Gary Ross. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem:
Sheldon Kahn. Música: James Newton Howard. Figurino: Richard Hornung.
Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Michael Taylor. Produção
executiva: Michael C. Gross, Joe Medjuck. Produção: Ivan Reitman, Lauren
Schuler-Donner. Elenco: Kevin Kline, Sigourney Weaver, Frank Langella,
Ving Rhames, Ben Kingsley, Charles Grodin, Laura Linney, Bonnie Hunt.
Estreia: 07/5/93
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Do cinismo agridoce de Frank Capra até o realismo controverso de Oliver Stone, a política norte-americana frequentou as telas de cinema com certa regularidade, nem sempre com muita simpatia por parte dos produtores e cineastas - que viam nos filmes a chance de expor seus pontos de vista nem sempre compatíveis com quem estava no poder. Por isso não nada surpreendente que "Dave, presidente por um dia", a simpática e inofensiva comédia de Ivan Reitman lançada em 1993 tenha se tornado, já em seu lançamento, um dos filmes preferidos do então morador da Casa Branca, Bill Clinton. Sem despertar polêmicas e apresentando um personagem principal que refletia a popularidade de Clinton junto aos eleitores, o filme acabou se saindo bem nas bilheterias - rendeu mais de 60 milhões de dólares somente nos EUA - e, o que de resto não é nada mal, chegou ao Oscar, concorrendo à estatueta de roteiro original (que perdeu para o mais sério e mais "artístico" "O piano").
O Dave do título original é o altruísta dono de uma agência de empregos que complementa a renda doméstica servindo de sósia do presidente americano, Bill Mitchell, em feiras agrícolas e eventos afins. Depois de se passar por Mitchell para a imprensa e o público em um grande evento na Casa Branca, porém, ele tem sua vida transformada radicalmente: durante um ato sexual com uma secretária (uma iniciante Laura Linney), o presidente sofre um derrame grave e que o deixa em coma irreversível. Com a aparente intenção de proteger o país de um escândalo de tais proporções, o assistente da presidência, Bob Alexander (Frank Langella caprichando na cara de vilão) convence Dave a assumir o papel de líder da nação por mais algum tempo. No entanto, seus planos - que são bem outros, e incluem afastar o vice-presidente, Nance (Ben Kingsley) do caminho e ser nomeado para o cargo de homem mais poderoso dos EUA - passam a ser ameaçados pela boa índole de Dave, que, influenciado pela boa política da primeira-dama, Ellen (Sigourney Weaver), começa a criar novas medidas de governo que beneficiam a população mais pobre. Tais atitudes o põem em rota de colisão com Alexander, mas o aproximam tanto de Nance quanto de Ellen, que vivia um casamento de aparências e subitamente passa a sentir uma indefinível atração pelo marido.
Escrito por Gary Ross - que posteriormente assinaria também como diretor o belo "A vida em preto-e-branco" (03) - "Presidente por um dia" não é uma comédia de gargalhadas. Seu humor, um tanto mais sofisticado mas popular o bastante para não afastar a plateia avessa a filmes com conotação política, nasce basicamente como uma comédia de erros dos velhos tempos de Frank Capra e Preston Sturgess, com sua inocência devidamente adequada aos anos 90. É assim, por exemplo, que o romance entre Dave e a primeira-dama inconsciente de sua real personalidade começa com um diálogo furioso quando ele está se deliciando com um bom banho quente (nu, portanto) mas nunca ultrapassa as longas conversas, os passeios às escondidas e os olhares apaixonados. Sigourney Weaver, aliás, nunca esteve tão classuda e bonita em cena, a anos-luz de distância da guerreira Tenente Ripley da série "Aliens". Seu timing cômico, mostrado em "Uma secretária de futuro" (88), mantém-se intocado, principalmente ao lado de Kevin Kline, mostrando (mais uma vez) que é um dos atores mais versáteis e talentosos de Hollywood, em papel recusado por Warren Beatty e Kevin Costner e que encontra nele o intérprete ideal. E seu semblante de adorável pateta - que graças à sua ingenuidade consegue conquistar até os mais arraigados rivais políticos - encontra o contraponto perfeito em Frank Langella, sempre competente quando brinca de vilão.
Feito de pequenas piadas - como a participação sensacional de Oliver Stone como ele mesmo, discutindo uma provável conspiração na Casa Branca e a presença de inúmeros políticos comentando os acontecimentos que se desenrolam no roteiro - "Presidente por um dia" é uma comédia à moda antiga: charmosa, esperta e visualmente atraente, além de bem dirigida e interpretada com energia e simpatia. Não muda a vida de ninguém, mas diverte e inspira.
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Do cinismo agridoce de Frank Capra até o realismo controverso de Oliver Stone, a política norte-americana frequentou as telas de cinema com certa regularidade, nem sempre com muita simpatia por parte dos produtores e cineastas - que viam nos filmes a chance de expor seus pontos de vista nem sempre compatíveis com quem estava no poder. Por isso não nada surpreendente que "Dave, presidente por um dia", a simpática e inofensiva comédia de Ivan Reitman lançada em 1993 tenha se tornado, já em seu lançamento, um dos filmes preferidos do então morador da Casa Branca, Bill Clinton. Sem despertar polêmicas e apresentando um personagem principal que refletia a popularidade de Clinton junto aos eleitores, o filme acabou se saindo bem nas bilheterias - rendeu mais de 60 milhões de dólares somente nos EUA - e, o que de resto não é nada mal, chegou ao Oscar, concorrendo à estatueta de roteiro original (que perdeu para o mais sério e mais "artístico" "O piano").
O Dave do título original é o altruísta dono de uma agência de empregos que complementa a renda doméstica servindo de sósia do presidente americano, Bill Mitchell, em feiras agrícolas e eventos afins. Depois de se passar por Mitchell para a imprensa e o público em um grande evento na Casa Branca, porém, ele tem sua vida transformada radicalmente: durante um ato sexual com uma secretária (uma iniciante Laura Linney), o presidente sofre um derrame grave e que o deixa em coma irreversível. Com a aparente intenção de proteger o país de um escândalo de tais proporções, o assistente da presidência, Bob Alexander (Frank Langella caprichando na cara de vilão) convence Dave a assumir o papel de líder da nação por mais algum tempo. No entanto, seus planos - que são bem outros, e incluem afastar o vice-presidente, Nance (Ben Kingsley) do caminho e ser nomeado para o cargo de homem mais poderoso dos EUA - passam a ser ameaçados pela boa índole de Dave, que, influenciado pela boa política da primeira-dama, Ellen (Sigourney Weaver), começa a criar novas medidas de governo que beneficiam a população mais pobre. Tais atitudes o põem em rota de colisão com Alexander, mas o aproximam tanto de Nance quanto de Ellen, que vivia um casamento de aparências e subitamente passa a sentir uma indefinível atração pelo marido.
Escrito por Gary Ross - que posteriormente assinaria também como diretor o belo "A vida em preto-e-branco" (03) - "Presidente por um dia" não é uma comédia de gargalhadas. Seu humor, um tanto mais sofisticado mas popular o bastante para não afastar a plateia avessa a filmes com conotação política, nasce basicamente como uma comédia de erros dos velhos tempos de Frank Capra e Preston Sturgess, com sua inocência devidamente adequada aos anos 90. É assim, por exemplo, que o romance entre Dave e a primeira-dama inconsciente de sua real personalidade começa com um diálogo furioso quando ele está se deliciando com um bom banho quente (nu, portanto) mas nunca ultrapassa as longas conversas, os passeios às escondidas e os olhares apaixonados. Sigourney Weaver, aliás, nunca esteve tão classuda e bonita em cena, a anos-luz de distância da guerreira Tenente Ripley da série "Aliens". Seu timing cômico, mostrado em "Uma secretária de futuro" (88), mantém-se intocado, principalmente ao lado de Kevin Kline, mostrando (mais uma vez) que é um dos atores mais versáteis e talentosos de Hollywood, em papel recusado por Warren Beatty e Kevin Costner e que encontra nele o intérprete ideal. E seu semblante de adorável pateta - que graças à sua ingenuidade consegue conquistar até os mais arraigados rivais políticos - encontra o contraponto perfeito em Frank Langella, sempre competente quando brinca de vilão.
Feito de pequenas piadas - como a participação sensacional de Oliver Stone como ele mesmo, discutindo uma provável conspiração na Casa Branca e a presença de inúmeros políticos comentando os acontecimentos que se desenrolam no roteiro - "Presidente por um dia" é uma comédia à moda antiga: charmosa, esperta e visualmente atraente, além de bem dirigida e interpretada com energia e simpatia. Não muda a vida de ninguém, mas diverte e inspira.
sexta-feira
O EXORCISMO DE EMILY ROSE
O EXORCISMO DE EMILY ROSE (The exorcism of Emily Rose, 2005, Screen Gems, 119min) Direção: Scott Derrikson. Roteiro: Paul Harris Boardman, Scott Derrikson. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Jeff Betancourt. Música: Christopher Young. Figurino: Tish Monaghan. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Lesley Beale. Produção executiva: Andre Lamal, David McIlvan, Terry McKay, Julie Yorn. Produção: Paul Harris Boardman, Beau Flynn, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg, Tripp Vinson. Elenco: Laura Linney, Tom Wilkinson, Jennifer Carpenter, Campbell Scott, Colm Feore, Joshua Close, Kenneth Welsh, Henry Czerny, Shoreh Aghdashloo, Mary Beth Hurt. Estreia: 01/9/05 (Festival de Veneza)
Na metade dos anos 70, na Alemanha, uma jovem de 23 anos chamada Anneliese Michel, diagnosticada como epilética, morreu de subnutrição e desidratação depois de ter sido submetida a 67 (!!) tentativas de exorcismo. O caso levou os pais da jovem e os dois padres responsáveis pelas cerimônias aos tribunais, acusados de negligência - e ao lançamento de um livro que contava sua trágica história, chamado "The exorcism of Anneliese Michel" e escrito pela antropóloga Felicitas D. Goodman. Com base nesse drama - que pedia desesperadamente por uma adaptação para o cinema - os dois jovens roteiristas Paul Harris Boardman e Scott Derrikson criaram um filme único, que mistura com inteligência dois gêneros bastante caros à indústria de Hollywood (filmes de terror e filmes de tribunal) e que surpreendeu por jamais subestimar a inteligência de sua plateia. Realizado com cerca de 20 milhões de dólares, "O exorcismo de Emily Rose" coletou mais de 140 milhões pelo mundo. A melhor notícia? Mereceu cada centavo.
Para efeitos dramáticos, o roteiro de Boardman e Derrikson precisou fazer alterações na história original, todas elas responsáveis por deixar o ritmo e a narrativa mais ricos e palatáveis à audiência média - e que, por definição, é quem decide a sorte de um filme nas bilheterias. Sendo assim, a protagonista alemã cede lugar a uma estudante americana, a dedicada e esforçada Emily Rose (em uma performance aterradora de Jennifer Carpenter, que mais tarde se tornaria a irmã da personagem-título da série "Dexter"). Quando o filme começa, Rose já está morta e a competente advogada Erin Bruner (Laura Linney) é chamada para defender o padre Richard Moore (Tom Wilkinson), acusado de ter causado sua morte durante um exorcismo. A ambição da advogada é subir na firma onde trabalha, e ela esbarra na ferrenha ideia do sacerdote, que insiste em contar toda a história da jovem em pleno tribunal. Batendo de frente com o promotor Ethan Thomas (Campbell Scott), Bruner começa a investigar a fundo todos os acontecimentos que levaram à morte de Emily - que foi diagnosticada como epilética e psicótica. Segundo Thomas, o padre é culpado por ter impedido a vítima de ter um acompanhamento médico e cabe a ela provar - mesmo sendo totalmente cética - que Rose estava possuída por uma legião de demônios.

O melhor de "O exorcismo de Emily Rose" é que ele funciona em todos os níveis nos quais se propõe. Como drama de tribunal, é capaz de prender o espectador na poltrona como se estivesse nos melhores livros de John Grisham, com o drama na medida certa e dando oportunidades raras para seu elenco coadjuvante - que inclui a ótima Shohreh Aghdashloo, Colm Feore e Henry Czerny. Como suspense é aterrorizante, tenso e dramaticamente consistente, dando ao público momentos assustadores e revelando o talento intenso da jovem Jennifer Carpenter. E como drama religioso é capaz de emocionar sem apelar para clichês católicos - ou de qualquer outra doutrina. Tal equilíbrio só é possível devido ao talento de seus diretores/roteiristas, que nunca caem na tentação de privilegiar uma ou outra linha narrativa, intercalando-as de forma inteligente e intrigante - e que só dá uma resposta ao público nos comoventes momentos finais.
Quem procura um bom filme de tribunal ou um filme de terror adulto e que foge da sanguinolência habitual no gênero só tem a ganhar com uma sessão de "O exorcismo de Emily Rose". É o filme de terror mais arrepiante de sua época. No bom sentido!
Na metade dos anos 70, na Alemanha, uma jovem de 23 anos chamada Anneliese Michel, diagnosticada como epilética, morreu de subnutrição e desidratação depois de ter sido submetida a 67 (!!) tentativas de exorcismo. O caso levou os pais da jovem e os dois padres responsáveis pelas cerimônias aos tribunais, acusados de negligência - e ao lançamento de um livro que contava sua trágica história, chamado "The exorcism of Anneliese Michel" e escrito pela antropóloga Felicitas D. Goodman. Com base nesse drama - que pedia desesperadamente por uma adaptação para o cinema - os dois jovens roteiristas Paul Harris Boardman e Scott Derrikson criaram um filme único, que mistura com inteligência dois gêneros bastante caros à indústria de Hollywood (filmes de terror e filmes de tribunal) e que surpreendeu por jamais subestimar a inteligência de sua plateia. Realizado com cerca de 20 milhões de dólares, "O exorcismo de Emily Rose" coletou mais de 140 milhões pelo mundo. A melhor notícia? Mereceu cada centavo.
Para efeitos dramáticos, o roteiro de Boardman e Derrikson precisou fazer alterações na história original, todas elas responsáveis por deixar o ritmo e a narrativa mais ricos e palatáveis à audiência média - e que, por definição, é quem decide a sorte de um filme nas bilheterias. Sendo assim, a protagonista alemã cede lugar a uma estudante americana, a dedicada e esforçada Emily Rose (em uma performance aterradora de Jennifer Carpenter, que mais tarde se tornaria a irmã da personagem-título da série "Dexter"). Quando o filme começa, Rose já está morta e a competente advogada Erin Bruner (Laura Linney) é chamada para defender o padre Richard Moore (Tom Wilkinson), acusado de ter causado sua morte durante um exorcismo. A ambição da advogada é subir na firma onde trabalha, e ela esbarra na ferrenha ideia do sacerdote, que insiste em contar toda a história da jovem em pleno tribunal. Batendo de frente com o promotor Ethan Thomas (Campbell Scott), Bruner começa a investigar a fundo todos os acontecimentos que levaram à morte de Emily - que foi diagnosticada como epilética e psicótica. Segundo Thomas, o padre é culpado por ter impedido a vítima de ter um acompanhamento médico e cabe a ela provar - mesmo sendo totalmente cética - que Rose estava possuída por uma legião de demônios.
O melhor de "O exorcismo de Emily Rose" é que ele funciona em todos os níveis nos quais se propõe. Como drama de tribunal, é capaz de prender o espectador na poltrona como se estivesse nos melhores livros de John Grisham, com o drama na medida certa e dando oportunidades raras para seu elenco coadjuvante - que inclui a ótima Shohreh Aghdashloo, Colm Feore e Henry Czerny. Como suspense é aterrorizante, tenso e dramaticamente consistente, dando ao público momentos assustadores e revelando o talento intenso da jovem Jennifer Carpenter. E como drama religioso é capaz de emocionar sem apelar para clichês católicos - ou de qualquer outra doutrina. Tal equilíbrio só é possível devido ao talento de seus diretores/roteiristas, que nunca caem na tentação de privilegiar uma ou outra linha narrativa, intercalando-as de forma inteligente e intrigante - e que só dá uma resposta ao público nos comoventes momentos finais.
Quem procura um bom filme de tribunal ou um filme de terror adulto e que foge da sanguinolência habitual no gênero só tem a ganhar com uma sessão de "O exorcismo de Emily Rose". É o filme de terror mais arrepiante de sua época. No bom sentido!
segunda-feira
KINSEY - VAMOS FALAR DE SEXO
KINSEY (Kinsey, 2004, Fox Searchlight Pictures, 118min) Direção e roteiro: Bill Condon. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Virginia Katz. Música: Carter Burwell. Figurino: Bruce Finlayson. Direção de arte/cenários: Richard Sherman/Andrew Baseman. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Kirk D'Amico, Michael Kuhn, Bobby Rock. Produção: Gail Mutrux. Elenco: Liam Neeson, Laura Linney, Peter Sarsgaard, Timothy Hutton, Chris O'Donnell, Oliver Platt, John Lithgow, Tim Curry, Veronica Cartwright, Julianne Nicholson, John Krasinski, Luke McFarlane, Dylan Baker, Lynn Redgrave. Estreia: 04/9/04 (Festival de Telluride)
Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Laura Linney)
Nascido em 1894 e morto em 1956, o entomologista e zoológo norte-americano Alfred Kinsey publicou, em 1948, um estudo detalhado sobre a sexualidade masculina que escandalizou a sociedade dos EUA. Em 1953, repetiu a dose, dessa vez focando sua atenção às mulheres. Uma das mais controversas personalidades do século XX, o cientista é, também, o protagonista de "Kinsey - Vamos falar de sexo", dirigido pelo mesmo Bill Condon que escreveu os roteiros dos premiados "Deuses e monstros" e "Chicago". Elogiado pela crítica ianque, o projeto não fez grande barulho nas bilheterias e tampouco conseguiu fazer o sucesso esperado nas cerimônias de premiação - com exceção de uma duvidosa indicação ao Oscar de coadjuvante para Laura Linney, passou batido pelos tapetes vermelhos. Mas é competente ao extremo, dotado de um senso de ironia raro e, melhor ainda, ousado na medida certa.
Ao concentrar seu roteiro no período mais prolífico das pesquisas de Kinsey - com um pequeno prólogo mostrando a juventude do protagonista - Condon tem a felicidade de poder se dedicar com ênfase tanto ao lado profissional quanto doméstico do cientista, sem ter que compactar em duas horas toda uma vida repleta de controvérsias e problemas pessoais. Contando com uma atuação excepcional de Liam Neeson - injustamente esquecido pela Academia - o filme começa mostrando a adolescência e a juventude do cientista, criado por um pai repressor (grande momento de John Lithgow), seus estudos de zoologia, o casamento com aquela que lhe acompanharia pela vida toda (Laura Linney) e a descoberta de sua real vocação: o estudo da sexualidade humana. E é a partir daí que "Kinsey" mostra a que veio. Com uma edição inteligente e um roteiro ágil, Condon conduz sua trama de forma um tanto didática, mas jamais enfadonha. Quando surge em cena seu colaborador Clyde Martin (Peter Sarsgaard), um jovem bissexual que se envolve tanto com o cientista quanto com sua mulher, tudo se torna ainda mais interessante.

Ao inserir no roteiro a possibilidade de Kinsey experimentar na carne toda a teoria de seu vasto estudo - e Condon nem precisou inventar nada disso, o que é ainda melhor - o filme ganha em peso e dramaticidade. Ao se ver quase obrigada a dividir o marido com outro homem (com quem também se envolve sexualmente), a personagem de Laura Linney dá a atriz a chance de sair da sombra de Neeson e mostrar um trabalho igualmente poderoso. E, sob tudo isso, há a ironia subjacente que faz com que os colaboradores do cientista comecem a sentir que o objeto de sua pesquisa tem muito mais poder sobre suas vidas (e seus casamentos) do que supunham a princípio. Esse efeito que o sexo causa em todos eles é a prova de que "Kinsey" não é apenas uma biografia, e sim um estudo sobre o sexo em si - e tudo que ele movimenta. Não foi à toa que o protagonista chegou à capa da revista Time e provocou polêmica por onde passou. Falar sobre sexo nos anos 40 em uma América ainda mais pudica do que a de hoje era corajoso e quase temerário - em vários momentos de seu filme, o diretor espalha cenas em que Kinsey era alvo de piadas e preconceito (e é especialmente interessante a cena em que um de seus colegas abandona uma entrevista por recusar-se a ouvir o relato de um pedófilo). A neutralidade de Alfred Kinsey diante de seus objetos de estudo só cai quando ele ouve o agradecimento de uma mulher de meia-idade que revela ter mudado de vida graças a ele. Com uma interpretação emocionante de Lynn Redgrave, essa cena - já no final da projeção - resume toda a importância do protagonista para a sociedade ocidental.
Longe de ser uma biografia quadradinha e sem graça, "Kinsey" é um belo exemplo de que um roteiro consistente, um diretor talentoso e um elenco bem escalado fazem muito mais por um filme do que orçamentos milionários e piadas apelativas. Mesmo tocando em um assunto que ainda hoje assusta os mais pudicos, é um filme imperdível e brilhantemente atual.
Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Laura Linney)
Nascido em 1894 e morto em 1956, o entomologista e zoológo norte-americano Alfred Kinsey publicou, em 1948, um estudo detalhado sobre a sexualidade masculina que escandalizou a sociedade dos EUA. Em 1953, repetiu a dose, dessa vez focando sua atenção às mulheres. Uma das mais controversas personalidades do século XX, o cientista é, também, o protagonista de "Kinsey - Vamos falar de sexo", dirigido pelo mesmo Bill Condon que escreveu os roteiros dos premiados "Deuses e monstros" e "Chicago". Elogiado pela crítica ianque, o projeto não fez grande barulho nas bilheterias e tampouco conseguiu fazer o sucesso esperado nas cerimônias de premiação - com exceção de uma duvidosa indicação ao Oscar de coadjuvante para Laura Linney, passou batido pelos tapetes vermelhos. Mas é competente ao extremo, dotado de um senso de ironia raro e, melhor ainda, ousado na medida certa.
Ao concentrar seu roteiro no período mais prolífico das pesquisas de Kinsey - com um pequeno prólogo mostrando a juventude do protagonista - Condon tem a felicidade de poder se dedicar com ênfase tanto ao lado profissional quanto doméstico do cientista, sem ter que compactar em duas horas toda uma vida repleta de controvérsias e problemas pessoais. Contando com uma atuação excepcional de Liam Neeson - injustamente esquecido pela Academia - o filme começa mostrando a adolescência e a juventude do cientista, criado por um pai repressor (grande momento de John Lithgow), seus estudos de zoologia, o casamento com aquela que lhe acompanharia pela vida toda (Laura Linney) e a descoberta de sua real vocação: o estudo da sexualidade humana. E é a partir daí que "Kinsey" mostra a que veio. Com uma edição inteligente e um roteiro ágil, Condon conduz sua trama de forma um tanto didática, mas jamais enfadonha. Quando surge em cena seu colaborador Clyde Martin (Peter Sarsgaard), um jovem bissexual que se envolve tanto com o cientista quanto com sua mulher, tudo se torna ainda mais interessante.
Ao inserir no roteiro a possibilidade de Kinsey experimentar na carne toda a teoria de seu vasto estudo - e Condon nem precisou inventar nada disso, o que é ainda melhor - o filme ganha em peso e dramaticidade. Ao se ver quase obrigada a dividir o marido com outro homem (com quem também se envolve sexualmente), a personagem de Laura Linney dá a atriz a chance de sair da sombra de Neeson e mostrar um trabalho igualmente poderoso. E, sob tudo isso, há a ironia subjacente que faz com que os colaboradores do cientista comecem a sentir que o objeto de sua pesquisa tem muito mais poder sobre suas vidas (e seus casamentos) do que supunham a princípio. Esse efeito que o sexo causa em todos eles é a prova de que "Kinsey" não é apenas uma biografia, e sim um estudo sobre o sexo em si - e tudo que ele movimenta. Não foi à toa que o protagonista chegou à capa da revista Time e provocou polêmica por onde passou. Falar sobre sexo nos anos 40 em uma América ainda mais pudica do que a de hoje era corajoso e quase temerário - em vários momentos de seu filme, o diretor espalha cenas em que Kinsey era alvo de piadas e preconceito (e é especialmente interessante a cena em que um de seus colegas abandona uma entrevista por recusar-se a ouvir o relato de um pedófilo). A neutralidade de Alfred Kinsey diante de seus objetos de estudo só cai quando ele ouve o agradecimento de uma mulher de meia-idade que revela ter mudado de vida graças a ele. Com uma interpretação emocionante de Lynn Redgrave, essa cena - já no final da projeção - resume toda a importância do protagonista para a sociedade ocidental.
Longe de ser uma biografia quadradinha e sem graça, "Kinsey" é um belo exemplo de que um roteiro consistente, um diretor talentoso e um elenco bem escalado fazem muito mais por um filme do que orçamentos milionários e piadas apelativas. Mesmo tocando em um assunto que ainda hoje assusta os mais pudicos, é um filme imperdível e brilhantemente atual.
sexta-feira
SIMPLESMENTE AMOR
SIMPLESMENTE AMOR (Love actually, 2003, Universal Pictures, 135min) Direção e roteiro: Richard Curtis. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Nick Moore. Música: Craig Armstrong. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Caroline Smith. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Duncan Kenworthy. Elenco: Hugh Grant, Emma Thompson, Liam Neeson, Colin Firth, Laura Linney, Alan Rickman, Bill Nighy, Lucia Moniz, Keira Knightley, Rodrigo Santoro, Martin Freeman, Andrew Lincoln, Chiwetel Ejiofor, Billy Bob Thornton, Heike Makatsch, Nina Sosanya. Estreia: 07/11/03
Definitivamente não dá pra não simpatizar com uma comédia romântica como “Simplesmente amor”. Ao contar diversas histórias de personagens das mais diversas classes sociais e culturais na Inglaterra – todas de amor, mas de inúmeros tipos de amor – o roteiro do diretor Richard Curtis atinge qualquer tipo de pessoa, seja essa pessoa fã de romance, comédia ou drama. E conta suas histórias com tanta simpatia e generosidade que o difícil é não querer ver e rever para emocionar-se a cada revisão com uma personagem diferente.
Trabalhando com um elenco predominantemente inglês, Curtis escolheu a dedo seus atores estrangeiros – e aí inclui-se o brasileiro Rodrigo Santoro, a americana Laura Linney, o irlandês Liam Neeson e a portuguesa Lucia Moniz – para traçar um painel de sentimentos e relações aparentemente ambicioso, mas que funciona como um relógio. Ao contrário dos dramas psicológicos intensos como os retratados em “Magnólia”, por exemplo, o objetivo do diretor é entreter e emocionar durante duas horas sem no entanto castigar a plateia com abuso sexual, alcoolismo, vício em drogas, etc.... A proposta de “Simplesmente amor” é encantar. E para isso não faltam trunfos.

“Simplesmente amor” começa poucas semanas antes do Natal e conta várias histórias. É perto do Natal que o novo Primeiro-Ministro (vivido por um divertido Hugh Grant) assume seu cargo e se apaixona por Natalie (Martine McCutcheon), a moça do cafezinho – um romance que o fará desafiar o todo-poderoso presidente americano (Billy Bob Thornton em participação especial). É pouco antes do Natal também que o astro decadente de rock Billy Mack (Bill Nighy roubando descaradamente a cena) começa a tentar sua volta às paradas de sucesso, regravando a clássica “Love is all around” com a letra modificada para acompanhar a data comemorativa. É também quando acontece o funeral da esposa de Daniel (Liam Neeson), que passa a ter que lidar com a viuvez e com o enteado, o pequeno Sam (Thomas Sangster), apaixonado por uma coleguinha de escola. Também é por essa época que o jovem Mark (Andrew Lincoln) entra em depressão por estar apaixonado pela bela Juliet (Keira Knightley), esposa do seu melhor amigo.
Como já foi dito anteriormente, é difícil não se apaixonar por “Simplesmente amor”. Engraçado, terno, verdadeiro, sensível e de partir o coração, o roteiro de Richard Curtis encontra em seu elenco multi-estelar a encarnação perfeita de personagens carismáticos e extremamente humanos, capazes de atos enlouquecidos de amor, renúncia e até egoísmo. Somados a uma edição ágil e precisa e uma trilha sonora que é quase (mais) uma personagem à parte, o filme mais romântico de 2003 é também um dos mais românticos das últimas décadas. Irresistível!
Definitivamente não dá pra não simpatizar com uma comédia romântica como “Simplesmente amor”. Ao contar diversas histórias de personagens das mais diversas classes sociais e culturais na Inglaterra – todas de amor, mas de inúmeros tipos de amor – o roteiro do diretor Richard Curtis atinge qualquer tipo de pessoa, seja essa pessoa fã de romance, comédia ou drama. E conta suas histórias com tanta simpatia e generosidade que o difícil é não querer ver e rever para emocionar-se a cada revisão com uma personagem diferente.
Trabalhando com um elenco predominantemente inglês, Curtis escolheu a dedo seus atores estrangeiros – e aí inclui-se o brasileiro Rodrigo Santoro, a americana Laura Linney, o irlandês Liam Neeson e a portuguesa Lucia Moniz – para traçar um painel de sentimentos e relações aparentemente ambicioso, mas que funciona como um relógio. Ao contrário dos dramas psicológicos intensos como os retratados em “Magnólia”, por exemplo, o objetivo do diretor é entreter e emocionar durante duas horas sem no entanto castigar a plateia com abuso sexual, alcoolismo, vício em drogas, etc.... A proposta de “Simplesmente amor” é encantar. E para isso não faltam trunfos.

“Simplesmente amor” começa poucas semanas antes do Natal e conta várias histórias. É perto do Natal que o novo Primeiro-Ministro (vivido por um divertido Hugh Grant) assume seu cargo e se apaixona por Natalie (Martine McCutcheon), a moça do cafezinho – um romance que o fará desafiar o todo-poderoso presidente americano (Billy Bob Thornton em participação especial). É pouco antes do Natal também que o astro decadente de rock Billy Mack (Bill Nighy roubando descaradamente a cena) começa a tentar sua volta às paradas de sucesso, regravando a clássica “Love is all around” com a letra modificada para acompanhar a data comemorativa. É também quando acontece o funeral da esposa de Daniel (Liam Neeson), que passa a ter que lidar com a viuvez e com o enteado, o pequeno Sam (Thomas Sangster), apaixonado por uma coleguinha de escola. Também é por essa época que o jovem Mark (Andrew Lincoln) entra em depressão por estar apaixonado pela bela Juliet (Keira Knightley), esposa do seu melhor amigo.
Se não fossem suficientes, a essas tramas outras se juntam aos poucos: é o caso do romance hesitante entre o escritor Jamie (Colin Firth) e sua empregada doméstica portuguesa Aurélia (Lucia Moniz); a crise no casamento de Karen (Emma Thompson) e Harry (Alan Rickman), causada pela secretária dele, Mia (Heike Makatasch); o início tímido do namoro entre a dedicada Sarah (Laura Linney) e seu colega de trabalho Karl (Rodrigo Santoro), atrapalhado pelas crises de saúde do irmão dela; a ilusão do jovem Colin (Kris Marshall) de que vai encontrar o amor nos EUA e o começo da relação entre dois dublês de filmes pornô.
Como já foi dito anteriormente, é difícil não se apaixonar por “Simplesmente amor”. Engraçado, terno, verdadeiro, sensível e de partir o coração, o roteiro de Richard Curtis encontra em seu elenco multi-estelar a encarnação perfeita de personagens carismáticos e extremamente humanos, capazes de atos enlouquecidos de amor, renúncia e até egoísmo. Somados a uma edição ágil e precisa e uma trilha sonora que é quase (mais) uma personagem à parte, o filme mais romântico de 2003 é também um dos mais românticos das últimas décadas. Irresistível!
SOBRE MENINOS E LOBOS
SOBRE MENINOS E LOBOS (Mystic River, 2003, Warner Bros, 138min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Brian Elgeland, romance de Dennis Lehane. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Joel Cox. Música: Clint Eastwood. Figurino: Roger Furse (Deborah Hopper). Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Richard C. Goddard. Produção executiva: Bruce Berman. Produção: Clint Eastwood, Judy G. Hoyt, Robert Lorenz. Elenco: Sean Penn, Kevin Bacon, Tim Robbins, Laurence Fishburne, Laura Linney, Marcia Gay Harden, Eli Wallach, Tom Guiry, Emmy Rossum, Spencer Treat Clark. Estreia: 23/5/03 (Festival de Cannes)
6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Clint Eastwood), Ator (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Tim Robbins), Atriz Coadjuvante (Marcia Gay Harden), Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Tim Robbins)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Tim Robbins)
O filme começa quando três adolescentes são abordados por dois homens que se apresentam como policiais. Um dos meninos é levado por eles e é submetido por vários dias a espancamentos e abusos sexuais. Logicamente a amizade dos três rapazes sofre um abalo e eles acabam por distanciar-se. Quase trinta anos depois, no entanto, eles são obrigados a se reencontrar quando a filha adolescente de um deles, Jimmy Markum (um espetacular Sean Penn) é violentamente assassinada. Markum, que deixou uma vida de crimes pra trás para virar um pai de família, entra em desespero e deseja vingar a morte da filha. O detetive encarregado do caso é Sean Devine (Kevin Bacon), seu amigo de infância cuja esposa o abandonou em uma crise de depressão pós-parto, e investigações feitas pelas vizinhanças do crime acabam levando tanto a polícia quanto Markum e seus violentos companheiros de farra ao nome de Dave Boyle (Tim Robbins), que superou o trauma que lhe marcou a infância casando com Celeste (Márcia Gay Harden), a prima da segunda esposa de Markum, Annabeth (Laura Linney). Julgando que Boyle é o assassino, resta a Sean impedir que Markum cometa um ato de vingança com as próprias mãos.
O grande diferencial de “Sobre meninos e lobos” é sem dúvida o teor psicológico de suas personagens. Ao invés de dedicar-se somente à investigação do asssassinato da jovem Katie (Emmy Rossum) – cujo desfecho chocante só confirma o alto nível de verossimilhança da trama – o roteiro de Helgeland trata de temas como amizade, confiança, traumas de infância e destino com uma precisão cirúrgica. Não há cenas desnecessárias nem personagens descartáveis em suas mais de duas horas de duração. Cada peça no jogo proposto por Eastwood tem sua devida importância, nem que ela seja revelada apenas em suas dramáticas cenas finais, cujo peso conta com a ajuda da edição eficaz de Joel Cox e da atuação de seus (grandes) atores.
Apesar de Laura Linney estar mal-aproveitada (culpa do papel pequeno) e Marcia Gay Harden exagerar um pouco na performance como a catalisadora da tragédia final (mesmo tendo sendo indicada ao Oscar de coadjuvante), “Sobre meninos e lobos” é sobretudo um filme de personagens fortes, defendido por atores de talento inquestionável. Kevin Bacon foi injustamente deixado de lado nas premiações, mas tanto Tim Robbins quanto Sean Penn levaram merecidos Oscar por seus desempenhos. O embate final entre os dois, quando Markum confronta Boyle sobre a morte de sua filha é dolorosamente real e cruel, digno de figurar entre as cenas antológicas da carreira de ambos.
Um poderoso estudo sobre o poder do destino e das conseqüências de atos aparentemente insignificantes, “Sobre meninos e lobos” é um dos melhores filmes de Clint Eastwood e um dos policiais mais inteligentes e sérios já realizados. É triste e é pesado, mas é um inesquecível trabalho de um grande diretor cercado por grandes atores e trabalhando sobre um roteiro espetacular.
6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Clint Eastwood), Ator (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Tim Robbins), Atriz Coadjuvante (Marcia Gay Harden), Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Tim Robbins)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Tim Robbins)
Às vezes Clint Eastwood mira, mira e erra feio quando resolve dirigir
adaptações literárias para as telas de cinema. Foi assim com "Poder
absoluto", baseado em David Baldacci e "Meia-noite no jardim do bem e do
mal", que nem Kevin Spacey, John Cusack e Jude Law conseguiram salvar.
No entanto, quando acerta, o veterano ator e diretor se dá muitíssimo
bem. Foi assim com o belo "As pontes de Madison", inspirado no romance
de Robert James Waller. E é assim também com "Sobre meninos e lobos",
uma história forte e poderosa criada pelo escritor Dennis Lehane.
Ao contrário do que muitas vezes acontece em adaptações para o cinema, onde o clima e os detalhes do livro muitas vezes são sacrificados a favor de ritmo e convenções comerciais, o filme de Eastwood é bastante fiel ao estilo seco de Lehane, não se importando nem mesmo com o possível pessimismo do final. Provavelmente isso se deva bastante ao roteiro de Brian Helgeland, que já havia assumido a hercúlea tarefa de transformar as mais de 500 páginas de “Los Angeles, Cidade Proibida”, de James Ellroy em um palatável e brilhante filme de duas horas, em 1997 (pelo qual ganhou um merecido Oscar). Aqui, Helgeland teve menos trabalho, uma vez que a prosa de Lehane é seca, direta e mesmo que fuja em vários momentos da tradição do cinema policial – a construção psicológica das personagens é muito mais rica do que o comum – se presta facilmente a uma adaptação menos complexa e bem mais fiel do que normalmente se espera nesses dias em que as páginas de um livro são apenas a idéia para filmes completamente diferentes. Quem leu o livro pode esperar uma adaptação quase literal, o que, levando-se em consideração a trama formidável criada por Lehane, é uma bênção.
Ao contrário do que muitas vezes acontece em adaptações para o cinema, onde o clima e os detalhes do livro muitas vezes são sacrificados a favor de ritmo e convenções comerciais, o filme de Eastwood é bastante fiel ao estilo seco de Lehane, não se importando nem mesmo com o possível pessimismo do final. Provavelmente isso se deva bastante ao roteiro de Brian Helgeland, que já havia assumido a hercúlea tarefa de transformar as mais de 500 páginas de “Los Angeles, Cidade Proibida”, de James Ellroy em um palatável e brilhante filme de duas horas, em 1997 (pelo qual ganhou um merecido Oscar). Aqui, Helgeland teve menos trabalho, uma vez que a prosa de Lehane é seca, direta e mesmo que fuja em vários momentos da tradição do cinema policial – a construção psicológica das personagens é muito mais rica do que o comum – se presta facilmente a uma adaptação menos complexa e bem mais fiel do que normalmente se espera nesses dias em que as páginas de um livro são apenas a idéia para filmes completamente diferentes. Quem leu o livro pode esperar uma adaptação quase literal, o que, levando-se em consideração a trama formidável criada por Lehane, é uma bênção.
O filme começa quando três adolescentes são abordados por dois homens que se apresentam como policiais. Um dos meninos é levado por eles e é submetido por vários dias a espancamentos e abusos sexuais. Logicamente a amizade dos três rapazes sofre um abalo e eles acabam por distanciar-se. Quase trinta anos depois, no entanto, eles são obrigados a se reencontrar quando a filha adolescente de um deles, Jimmy Markum (um espetacular Sean Penn) é violentamente assassinada. Markum, que deixou uma vida de crimes pra trás para virar um pai de família, entra em desespero e deseja vingar a morte da filha. O detetive encarregado do caso é Sean Devine (Kevin Bacon), seu amigo de infância cuja esposa o abandonou em uma crise de depressão pós-parto, e investigações feitas pelas vizinhanças do crime acabam levando tanto a polícia quanto Markum e seus violentos companheiros de farra ao nome de Dave Boyle (Tim Robbins), que superou o trauma que lhe marcou a infância casando com Celeste (Márcia Gay Harden), a prima da segunda esposa de Markum, Annabeth (Laura Linney). Julgando que Boyle é o assassino, resta a Sean impedir que Markum cometa um ato de vingança com as próprias mãos.
O grande diferencial de “Sobre meninos e lobos” é sem dúvida o teor psicológico de suas personagens. Ao invés de dedicar-se somente à investigação do asssassinato da jovem Katie (Emmy Rossum) – cujo desfecho chocante só confirma o alto nível de verossimilhança da trama – o roteiro de Helgeland trata de temas como amizade, confiança, traumas de infância e destino com uma precisão cirúrgica. Não há cenas desnecessárias nem personagens descartáveis em suas mais de duas horas de duração. Cada peça no jogo proposto por Eastwood tem sua devida importância, nem que ela seja revelada apenas em suas dramáticas cenas finais, cujo peso conta com a ajuda da edição eficaz de Joel Cox e da atuação de seus (grandes) atores.
Apesar de Laura Linney estar mal-aproveitada (culpa do papel pequeno) e Marcia Gay Harden exagerar um pouco na performance como a catalisadora da tragédia final (mesmo tendo sendo indicada ao Oscar de coadjuvante), “Sobre meninos e lobos” é sobretudo um filme de personagens fortes, defendido por atores de talento inquestionável. Kevin Bacon foi injustamente deixado de lado nas premiações, mas tanto Tim Robbins quanto Sean Penn levaram merecidos Oscar por seus desempenhos. O embate final entre os dois, quando Markum confronta Boyle sobre a morte de sua filha é dolorosamente real e cruel, digno de figurar entre as cenas antológicas da carreira de ambos.
Um poderoso estudo sobre o poder do destino e das conseqüências de atos aparentemente insignificantes, “Sobre meninos e lobos” é um dos melhores filmes de Clint Eastwood e um dos policiais mais inteligentes e sérios já realizados. É triste e é pesado, mas é um inesquecível trabalho de um grande diretor cercado por grandes atores e trabalhando sobre um roteiro espetacular.
segunda-feira
A VIDA DE DAVID GALE
A VIDA DE DAVID GALE (The life of David Gale, 2003, Universal Pictures, 130min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Charles Randolph. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Alex Parker, Jake Parker. Figurino: Jennifer Williams. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirkland/Renee Ehrlich Kalfus. Produção executiva: Moritz Borman, Guy East, Nigel Sinclair. Produção: Nicolas Cage, Alan Parker. Elenco: Kevin Spacey, Kate Winslet, Laura Linney, Cleo King, Gabriel Mann, Matt Craven. Estreia: 21/02/03
Em seu currículo, o cineasta inglês Alan Parker conta com o raivoso “Expresso da meia-noite” (1978), que bradava contra o sistema jurídico e penal da Turquia e gerou controvérsias variadas na época de sua exibição. De lá pra cá, Parker novamente criou obras polêmicas (“Mississipi em chamas”), flertou com o musical (“Fama”, The Commitments, loucos pela fama" e “Evita”) e assinou um dos mais assustadores filmes de terror da história (“Coração satânico”). Dono de um talento inquestionável, ele no entanto amargou um fracasso crítico e de bilheteria com “A vida de David Gale”, que se pretendia um libelo poderoso contra a pena de morte mas acabou morrendo na praia de suas boas intenções. Com menos de 20 milhões de dólares de arrecadação nos EUA, o filme também foi ignorado nas cerimônias de premiações, apesar do elenco estelar, do tema forte e de suas qualidades, praticamente relevadas por seus detratores.
O David Gale do título é um brilhante e respeitado professor de filosofia vivido por Kevin Spacey que vê sua vida virar de cabeça pra baixo de uma hora pra outra. Traído pela esposa e acusado de estupro por uma aluna mal-intencionada, ele perde o emprego e o casamento, deixando-se levar pelo desespero e por problemas com bebidas alcóolicas. Fragilizado, ele acaba se envolvendo com Constance Harraway (Laura Linney), que junto com ele faz parte de um comitê ativo contra a pena de morte. Quando Constance aparece estuprada e morta, Gale é considerado culpado e condenado à morte. Quatro dias antes da execução, ele pede para dar uma entrevista à ambiciosa Bitsey Bloom (Kate Winslet) e a jovem repórter começa a desconfiar que sua certeza acerca da culpa do professor pode estar completamente equivocada e que um inocente pode estar às vésperas de morrer por um crime que não cometeu.
Longe de ser um petardo emocional como “Os últimos passos de um homem”, que mexe com mais paixão no assunto da pena capital, “A vida de David Gale” deixa a emoção de lado por um bom tempo, concentrando-se nos mecanismos que levaram o protagonista à delicada situação em que se encontra. Para isso não hesita em apelar para alguns clichês do gênero policial, com reviravoltas finais e um suspense que funciona bastante bem em alguns momentos mas que carece de força em outros. É inegável, no entanto, que o seu final consegue surpreender, principalmente por não ser previsível – apesar de soar um tanto inverossímil em um primeiro olhar.
Em seu currículo, o cineasta inglês Alan Parker conta com o raivoso “Expresso da meia-noite” (1978), que bradava contra o sistema jurídico e penal da Turquia e gerou controvérsias variadas na época de sua exibição. De lá pra cá, Parker novamente criou obras polêmicas (“Mississipi em chamas”), flertou com o musical (“Fama”, The Commitments, loucos pela fama" e “Evita”) e assinou um dos mais assustadores filmes de terror da história (“Coração satânico”). Dono de um talento inquestionável, ele no entanto amargou um fracasso crítico e de bilheteria com “A vida de David Gale”, que se pretendia um libelo poderoso contra a pena de morte mas acabou morrendo na praia de suas boas intenções. Com menos de 20 milhões de dólares de arrecadação nos EUA, o filme também foi ignorado nas cerimônias de premiações, apesar do elenco estelar, do tema forte e de suas qualidades, praticamente relevadas por seus detratores.
O David Gale do título é um brilhante e respeitado professor de filosofia vivido por Kevin Spacey que vê sua vida virar de cabeça pra baixo de uma hora pra outra. Traído pela esposa e acusado de estupro por uma aluna mal-intencionada, ele perde o emprego e o casamento, deixando-se levar pelo desespero e por problemas com bebidas alcóolicas. Fragilizado, ele acaba se envolvendo com Constance Harraway (Laura Linney), que junto com ele faz parte de um comitê ativo contra a pena de morte. Quando Constance aparece estuprada e morta, Gale é considerado culpado e condenado à morte. Quatro dias antes da execução, ele pede para dar uma entrevista à ambiciosa Bitsey Bloom (Kate Winslet) e a jovem repórter começa a desconfiar que sua certeza acerca da culpa do professor pode estar completamente equivocada e que um inocente pode estar às vésperas de morrer por um crime que não cometeu.
Longe de ser um petardo emocional como “Os últimos passos de um homem”, que mexe com mais paixão no assunto da pena capital, “A vida de David Gale” deixa a emoção de lado por um bom tempo, concentrando-se nos mecanismos que levaram o protagonista à delicada situação em que se encontra. Para isso não hesita em apelar para alguns clichês do gênero policial, com reviravoltas finais e um suspense que funciona bastante bem em alguns momentos mas que carece de força em outros. É inegável, no entanto, que o seu final consegue surpreender, principalmente por não ser previsível – apesar de soar um tanto inverossímil em um primeiro olhar.
Também é inegável que a maior força de “A vida de David Gale” vem de seu elenco, liderado por atores há muito consagrados e admirados. Kevin Spacey nem precisa se esforçar muito pra mostrar porque é um dos melhores atores de sua geração, principalmente quando interpreta personagens pouco heróicos e bastante comuns. Laura Linney compõe sua Constance com medidas exatas entre lucidez, estoicismo e delicadeza, o que é fundamental para a compreensão de seu destino trágico. Mas é Kate Winslet quem rouba a cena. Na pele da ambiciosa repórter Bitsey Bloom, a atriz inglesa demonstra uma variedade de nuances em sua atuação, tornando crível a sua mudança de atitudes e pensamentos do início ao final do filme, o que talvez Nicole Kidman (a escolha inicial para o papel) não conseguisse com tanta facilidade.
“A vida de David Gale” está longe de ser uma obra-prima e nem perto de ser o melhor trabalho da carreira de Alan Parker, mas merece uma segunda chance de ser descoberto e apreciado por suas inúmeras qualidades. Produzido por Nicolas Cage, que acabou deixando o papel principal de lado (assim como o fez George Clooney), é um filme sério e adulto, que mexe com as certezas arraigadas da plateia. Não é todo mundo que faz isso!
quinta-feira
CONTE COMIGO
CONTE COMIGO (You can count on me, 2000, Paramount Classics, 111min) Direção e roteiro: Kenneth Lonergan. Fotografia: Stephen Kazmierski. Montagem: Anne McCabe. Música: Lesley Barber. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Michael Shaw/Lydia Marks. Produção executiva: Steve Carlis, Donald C. Carter, Martin Scorsese. Produção: Barbara De Fina, Larry Meistrich, Jeffrey Sharp. Elenco: Laura Linney, Matthew Broderick, Mark Ruffalo, Josh Lucas, Rory Culkin, Jon Tenney, Gaby Hoffman, Amy Ryan. Estreia: 17/11/00
2 indicações ao Oscar: Atriz (Laura Linney), Roteiro Original
Em meio a tantos filmes barulhentos e caros que são empurrados garganta abaixo dos espectadores em busca de duas horas de entretenimento, obras como “Conte comigo”, do independente Kenneth Lonergan normalmente são ignorados pelo grande público, ficando restritos àqueles que buscam qualidade indepententemente do orçamento do projeto. Felizmente festivais de cinema, como o Sundance, criado por Robert Redford existem para isso, para chamar a atenção para pequenas pérolas. Graças aos prêmios de Melhor Filme e Roteiro em Sundance 2000 e as indicações para o Oscar de Melhor Atriz e Roteiro Original a bela história familiar criada por Lonergan obteve uma mínima repercussão, que permitiu que fosse descoberto por uma audiência um pouco maior. As poucas pessoas que assistiram a “Conte comigo”, no entanto, foram brindadas com um roteiro inteligente e de emoções reais, sem apelos melodramáticos e com personagens tão polidimensionais que parecem gente de verdade e não criações de um roteirista com preocupações comerciais e concessões absurdas.
A história de “Conte comigo” começa quando um acidente de carro tira a vida de um casal, pai de dois filhos pequenos. Anos depois, a irmã mais velha, Sammy (Laura Linney na melhor atuação de sua carreira) vive sozinha com o filho único (Rory Culkin, outro irmão de Macaulay) e tem uma vida quase tediosa, o que a leva a se envolver sexualmente com seu novo chefe, Brian (Matthew Broderick) mesmo tendo um relacionamento com outro homem, o apaixonado Bob (John Tenney). Sua vida sofre uma mudança quando ela reencontra seu problemático irmão, o rebelde Terry (Mark Ruffalo em surpreendente trabalho), que, saindo da cadeia, precisa de dinheiro e mesmo que não saiba, do carinho de uma família. As coisas, que pareciam tranquilas começam a dar errado quando Terry faz amizade com o filho de Sammy e acaba o levando a conhecer seu pai (Josh Lucas), um mau-caráter que abandonou Sammy durante a gravidez.

Quem procura um filme repleto de reviravoltas dramáticas, cenas de impacto emocionais e finais redentores não deve experimentar “Conte comigo”. Kenneth Lonergan, inteligentemente passa longe das fórmulas e dos clichês que povoam dramas familiares, preferindo expor as emoções de suas personagens através de seus atos incoerentes e nem sempre acertados – como fazem pessoas de verdade, diga-se de passagem. As cenas entre Laura Linney e Mark Ruffalo – com uma química invejável – comprovam o fato, com uma tensão intrínseca que nem mesmo o amor difícil entre os dois consegue esconder - e que a bela trilha sonora apenas sublinha. A cena em que o próprio diretor, na pele de um pastor tenta ajudar o rebelde Terry em sua busca pela felicidade é um primor de sensibilidade com seu diálogo encantador e comovente que encontra em Mark Ruffalo o ator ideal. Sua atuação como Terry é comovente, mostrando ao público um ator em vias de tornar-se um dos coadjuvantes mais subestimados de Hollywood.
Aplausos a Laura Linney, a Mark Ruffalo e ao produtor executivo Martin Scorsese, que não permitiu interferências supérfulas no trabalho de Lonergan. E, se ao final de "Conte comigo" é possível derramar algumas lágrimas, elas são verdadeiras, vertidas por motivos reais e por pessoas que, mesmo não existindo em carne e osso, existem em alma.
2 indicações ao Oscar: Atriz (Laura Linney), Roteiro Original
Em meio a tantos filmes barulhentos e caros que são empurrados garganta abaixo dos espectadores em busca de duas horas de entretenimento, obras como “Conte comigo”, do independente Kenneth Lonergan normalmente são ignorados pelo grande público, ficando restritos àqueles que buscam qualidade indepententemente do orçamento do projeto. Felizmente festivais de cinema, como o Sundance, criado por Robert Redford existem para isso, para chamar a atenção para pequenas pérolas. Graças aos prêmios de Melhor Filme e Roteiro em Sundance 2000 e as indicações para o Oscar de Melhor Atriz e Roteiro Original a bela história familiar criada por Lonergan obteve uma mínima repercussão, que permitiu que fosse descoberto por uma audiência um pouco maior. As poucas pessoas que assistiram a “Conte comigo”, no entanto, foram brindadas com um roteiro inteligente e de emoções reais, sem apelos melodramáticos e com personagens tão polidimensionais que parecem gente de verdade e não criações de um roteirista com preocupações comerciais e concessões absurdas.
A história de “Conte comigo” começa quando um acidente de carro tira a vida de um casal, pai de dois filhos pequenos. Anos depois, a irmã mais velha, Sammy (Laura Linney na melhor atuação de sua carreira) vive sozinha com o filho único (Rory Culkin, outro irmão de Macaulay) e tem uma vida quase tediosa, o que a leva a se envolver sexualmente com seu novo chefe, Brian (Matthew Broderick) mesmo tendo um relacionamento com outro homem, o apaixonado Bob (John Tenney). Sua vida sofre uma mudança quando ela reencontra seu problemático irmão, o rebelde Terry (Mark Ruffalo em surpreendente trabalho), que, saindo da cadeia, precisa de dinheiro e mesmo que não saiba, do carinho de uma família. As coisas, que pareciam tranquilas começam a dar errado quando Terry faz amizade com o filho de Sammy e acaba o levando a conhecer seu pai (Josh Lucas), um mau-caráter que abandonou Sammy durante a gravidez.
Quem procura um filme repleto de reviravoltas dramáticas, cenas de impacto emocionais e finais redentores não deve experimentar “Conte comigo”. Kenneth Lonergan, inteligentemente passa longe das fórmulas e dos clichês que povoam dramas familiares, preferindo expor as emoções de suas personagens através de seus atos incoerentes e nem sempre acertados – como fazem pessoas de verdade, diga-se de passagem. As cenas entre Laura Linney e Mark Ruffalo – com uma química invejável – comprovam o fato, com uma tensão intrínseca que nem mesmo o amor difícil entre os dois consegue esconder - e que a bela trilha sonora apenas sublinha. A cena em que o próprio diretor, na pele de um pastor tenta ajudar o rebelde Terry em sua busca pela felicidade é um primor de sensibilidade com seu diálogo encantador e comovente que encontra em Mark Ruffalo o ator ideal. Sua atuação como Terry é comovente, mostrando ao público um ator em vias de tornar-se um dos coadjuvantes mais subestimados de Hollywood.
Aplausos a Laura Linney, a Mark Ruffalo e ao produtor executivo Martin Scorsese, que não permitiu interferências supérfulas no trabalho de Lonergan. E, se ao final de "Conte comigo" é possível derramar algumas lágrimas, elas são verdadeiras, vertidas por motivos reais e por pessoas que, mesmo não existindo em carne e osso, existem em alma.
quarta-feira
O SHOW DE TRUMAN, O SHOW DA VIDA
O SHOW DE TRUMAN, O SHOW DA VIDA (The Truman Show, 1998, Paramount Pictures, 103min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Andrew Niccol. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: William Anderson, Lee Smith. Música: Burkhard Dallwitz. Figurino: Marilyn Matthews. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Lynn Pleshette. Produção: Edward S. Feldman, Andrew Niccol, Scott Rudin, Adam Schroeder. Elenco: Jim Carrey, Ed Harris, Laura Linney, Noah Emmerich, Natasha McLeone, Peter Krause. Estreia: 05/6/98
3 indicações ao Oscar: Diretor (Peter Weir), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Roteiro Original
Vencedor de 3 Golden Globes: Ator/Drama (Jim Carrey), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Trilha Sonora Original
Um dos mais populares astros de Hollywood da década de 90, o canadense Jim Carrey lotou salas de exibição com "Ace Ventura", "Débi & Lóide" e "O Máskara" - filmes divertidos, mas um tanto vulgares e bastante longe do que se convém chamar de bom cinema. Adorado pelo público e execrado pela crítica, ele logo fez o que faz todo ator disposto a transformar sua imagem: mudou de gênero. Seu primeiro passo nessa direção, a comédia de humor negro "O pentelho", foi impiedosamente ignorado nas bilheterias. Sua segunda tentativa, porém, acertou em cheio. "O show de Truman, o show da vida" não só demonstrou que Carrey poderia atingir níveis dramáticos mais altos do que demonstrava como também é um dos filmes essenciais dos anos 90, graças à sua oportuna crítica à mídia.
Dirigido pelo sempre competente australiano Peter Weir, "O show de Truman" estreou na hora certa, em que plateias do mundo inteiro se rendiam aos infames reality shows, elevando o nível de voyeurismo da população a níveis jamais imaginados - talvez apenas por George Orwell no clássico "1984". Escrito por Andrew Niccol, que depois assumiria a direção da distópica ficção científica "Gattaca", o filme de Weir se encaixa em diversas classificações. Tanto pode ser uma comédia sarcástica, ou um drama existencial ou até mesmo um suspense dramático, dependendo do ponto de vista do espectador e da maneira com que ele percebe o mundo ao seu redor. Essa inteligência é que justifica sua indicação ao Oscar de roteiro original: poucas vezes o cinema americano foi tão original e irônico a respeito do modo de vida do país e de sua cultura média.

No filme de Weir (que merecidamente recebeu sua indicação ao Oscar de direção), "O show de Truman" é um programa de TV extremamente popular, no ar há mais de 30 anos, que acompanha, desde o nascimento, a vida de seu protagonista, Truman Burbanks (Jim Carrey em uma atuação surpreendente, que equilibra seu costumeiro humor físico com uma melancolia nunca antes vista). Truman vive uma rotina sem sobressaltos, em um emprego burocrático e com uma vida familiar discreta e tranquila ao lado da esposa Meryl, na verdade, uma atriz contratada para o papel (Laura Linney, ótima). Apesar de julgar-se um felizardo, porém, ele nunca esquece seu primeiro amor (Natasha McLeone), que lhe foi abruptamente afastada do caminho em sua juventude. Um belo dia, chegando ao trabalho, Truman escapa por pouco de ser atingido por um holofote e, a partir daí, acontecimentos bizarros o levam a desconfiar que algo muito estranho está lhe acontecendo. Nem mesmo os conselhos de seu melhor amigo, Marlon (Noah Emmerich) o impedem de tentar, então, sair de sua pacata Seaheaven. Quando as coisas ameaçam sair do controle, o criador do programa, o misterioso Christof (Ed Harris) resolve interferir diretamente no desenvolvimento do show.
O roteiro de Niccol é um primor de ritmo e bom-humor, sem nunca apelar para risadas fáceis. Ele critica tudo aquilo que faz da TV americana - e mundial - algo viciante. Merchandisings explícitos, interferências financeiras dos produtores e manipulação da opinião pública são massacradas impiedosamente, sem que, no entanto, transmita uma imagem agressiva. De certa forma, tudo é tratado com carinho pelo autor e pelo diretor, que envolvem a plateia (do show e do filme) em uma trama tão absurda que chega a soar verdadeira. E para isso, é claro, contam com trabalhos acima da média de todos os envolvidos. Laura Linney quase rouba a cena como a esposa de Truman (em especial quando ele começa a ter a certeza absoluta de que sua paranoia não é assim tão paranoia...) Ed Harris concorreu ao Oscar de coadjuvante depois de ficar com o papel que era de Dennis Hopper (e era o favorito da noite até que James Coburn lhe roubasse a estatueta) por seu poderoso trabalho como o silencioso Christof. E Jim Carrey finalmente conquistou a crítica em um trabalho complicado que tirou de letra (não foi à toa que abocanhou um Golden Globe e desapontou os fãs sendo deixado de lado nas indicações da Academia).
"O show de Truman" é um filme com a cara de sua época, com preocupações éticas e estéticas absolutamente pertinentes. Somado a isso suas qualidades extraordinárias em termos de entretenimento (é divertido e emocionante), é uma obra obrigatória de um dos diretores mais íntegros da indústria de Hollywood.
3 indicações ao Oscar: Diretor (Peter Weir), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Roteiro Original
Vencedor de 3 Golden Globes: Ator/Drama (Jim Carrey), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Trilha Sonora Original
Um dos mais populares astros de Hollywood da década de 90, o canadense Jim Carrey lotou salas de exibição com "Ace Ventura", "Débi & Lóide" e "O Máskara" - filmes divertidos, mas um tanto vulgares e bastante longe do que se convém chamar de bom cinema. Adorado pelo público e execrado pela crítica, ele logo fez o que faz todo ator disposto a transformar sua imagem: mudou de gênero. Seu primeiro passo nessa direção, a comédia de humor negro "O pentelho", foi impiedosamente ignorado nas bilheterias. Sua segunda tentativa, porém, acertou em cheio. "O show de Truman, o show da vida" não só demonstrou que Carrey poderia atingir níveis dramáticos mais altos do que demonstrava como também é um dos filmes essenciais dos anos 90, graças à sua oportuna crítica à mídia.
Dirigido pelo sempre competente australiano Peter Weir, "O show de Truman" estreou na hora certa, em que plateias do mundo inteiro se rendiam aos infames reality shows, elevando o nível de voyeurismo da população a níveis jamais imaginados - talvez apenas por George Orwell no clássico "1984". Escrito por Andrew Niccol, que depois assumiria a direção da distópica ficção científica "Gattaca", o filme de Weir se encaixa em diversas classificações. Tanto pode ser uma comédia sarcástica, ou um drama existencial ou até mesmo um suspense dramático, dependendo do ponto de vista do espectador e da maneira com que ele percebe o mundo ao seu redor. Essa inteligência é que justifica sua indicação ao Oscar de roteiro original: poucas vezes o cinema americano foi tão original e irônico a respeito do modo de vida do país e de sua cultura média.
No filme de Weir (que merecidamente recebeu sua indicação ao Oscar de direção), "O show de Truman" é um programa de TV extremamente popular, no ar há mais de 30 anos, que acompanha, desde o nascimento, a vida de seu protagonista, Truman Burbanks (Jim Carrey em uma atuação surpreendente, que equilibra seu costumeiro humor físico com uma melancolia nunca antes vista). Truman vive uma rotina sem sobressaltos, em um emprego burocrático e com uma vida familiar discreta e tranquila ao lado da esposa Meryl, na verdade, uma atriz contratada para o papel (Laura Linney, ótima). Apesar de julgar-se um felizardo, porém, ele nunca esquece seu primeiro amor (Natasha McLeone), que lhe foi abruptamente afastada do caminho em sua juventude. Um belo dia, chegando ao trabalho, Truman escapa por pouco de ser atingido por um holofote e, a partir daí, acontecimentos bizarros o levam a desconfiar que algo muito estranho está lhe acontecendo. Nem mesmo os conselhos de seu melhor amigo, Marlon (Noah Emmerich) o impedem de tentar, então, sair de sua pacata Seaheaven. Quando as coisas ameaçam sair do controle, o criador do programa, o misterioso Christof (Ed Harris) resolve interferir diretamente no desenvolvimento do show.
O roteiro de Niccol é um primor de ritmo e bom-humor, sem nunca apelar para risadas fáceis. Ele critica tudo aquilo que faz da TV americana - e mundial - algo viciante. Merchandisings explícitos, interferências financeiras dos produtores e manipulação da opinião pública são massacradas impiedosamente, sem que, no entanto, transmita uma imagem agressiva. De certa forma, tudo é tratado com carinho pelo autor e pelo diretor, que envolvem a plateia (do show e do filme) em uma trama tão absurda que chega a soar verdadeira. E para isso, é claro, contam com trabalhos acima da média de todos os envolvidos. Laura Linney quase rouba a cena como a esposa de Truman (em especial quando ele começa a ter a certeza absoluta de que sua paranoia não é assim tão paranoia...) Ed Harris concorreu ao Oscar de coadjuvante depois de ficar com o papel que era de Dennis Hopper (e era o favorito da noite até que James Coburn lhe roubasse a estatueta) por seu poderoso trabalho como o silencioso Christof. E Jim Carrey finalmente conquistou a crítica em um trabalho complicado que tirou de letra (não foi à toa que abocanhou um Golden Globe e desapontou os fãs sendo deixado de lado nas indicações da Academia).
"O show de Truman" é um filme com a cara de sua época, com preocupações éticas e estéticas absolutamente pertinentes. Somado a isso suas qualidades extraordinárias em termos de entretenimento (é divertido e emocionante), é uma obra obrigatória de um dos diretores mais íntegros da indústria de Hollywood.
segunda-feira
AS DUAS FACES DE UM CRIME
AS DUAS FACES DE UM CRIME (Primal fear, 1996, Paramount Pictures, 129min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Steve Shagan, Ann Biderman, romance de William Diehl. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: David Rosenbloom. Música: James Newton Howard. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Cindy Carr. Produção executiva: Howard W. Koch Jr.. Produção: Gary Lucchesi. Elenco: Richard Gere, Laura Linney, Edward Norton, John Mahoney, Alfre Woodard, Frances McDormand, Terry O'Quinn, Andre Braugher, Steven Bauer, Maura Tierney, Jon Seda. Estreia: 03/4/96
Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Edward Norton)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Edward Norton)
Desde que teve sua carreira ressuscitada com os sucessos de "Justiça cega", de Mike Figgis e principalmente "Uma linda mulher", de Garry Marshall, o ator Richard Gere correu o sério risco de tê-la novamente perdido, devido a escolhas equivocadas como "Lancelot", com Sean Connery, "Mr. Jones", com Lena Olin e até mesmo o interessante mas fracassado comercialmente "Intersection", onde trabalhou ao lado de Sharon Stone. Para sua sorte, no entanto, um pouco ambicioso filme de tribunal devolveu a ele as boas graças da crítica e do público. Dirigido por um então desconhecido Gregory Hoblit, "As duas faces de um crime" é um policial que, a despeito de não fugir dos elementos tradicionais do gênero, o faz com respeito e sobriedade. Além disso, o filme, baseado no romance de William Diehl, tem para si a distinção de ter revelado um dos melhores jovens atores da década: Edward Norton.
Aos 26 anos, Norton é apenas o quinto nome a aparecer nos créditos de abertura de "As duas faces de um crime", mas quem assiste ao filme sabe que ele é seu maior trunfo. Desconhecido da audiência, ele ficou com um papel que foi oferecido a Leonardo DiCaprio e cobiçado por Matt Damon, e logo de cara recebeu uma merecida indicação ao Oscar de ator coadjuvante - que perdeu para a histérica atuação de Cuba Gooding Jr. em "Jerry Maguire". Sua interpretação, repleta de nuances, foge das armadilhas que o roteiro oferece e consegue fazer até com que o normalmente inexpressivo Gere saia de sua zona de conforto para entregar um trabalho bastante consistente.

Gere interpreta Martin Vail, um advogado narcisista e talentoso que não mede esforços para aparecer na mídia. Uma chance de ouro para aumentar sua popularidade surge quando um respeitado arcebispo é violentamente assassinado e um de seus coroinhas, o tímido Aron Stampler (Edward Norton) é preso e acusado pelo crime. Tentando inocentar seu cliente, Vail vai aos tribunais contra a promotora Janet Venable (Laura Linney), sua ex-amante. Conforme as investigações de Vail e seus assessores vão transcorrendo, novas revelações sobre a personalidade da vítima começam a aparecer, e ligações dele com poderosos homens de negócio - inclusive o procurador do Estado, John Shaugnessy (John Mahoney), o patrão de Janet - levam a outros e surpreendentes rumos.
A maior qualidade do roteiro de "As duas faces de um crime" é embaralhar as cartas de sua trama para jamais deixar o público matar a charada antes das cenas finais. Durante toda a projeção há sempre aquela virtual pulga atrás da orelha sobre quais os reais motivos que levaram o arcebispo a ser assassinado e Gregory Hoblit - demonstrando uma firmeza admirável na direção - conduz a audiência por vários caminhos até finalmente apresentar seu desfecho, coerente e um tanto chocante. Quem já assistiu não tem mais o elemento surpresa que lhe dá mais destaque ao lado de seus congêneres, mas mesmo quem o assiste mais de uma vez é obrigado a concordar que mesmo assim o filme é muito superior que a média. E novamente voltamos a Edward Norton.
A estreia alvissareira de Norton - que no mesmo ano seria dirigido por Milos Forman e Woody Allen - dá um charme especial a "As duas faces de um crime". Talentoso e inteligente, ele não confunde a fragilidade de sua personagem com fragilidade na atuação, apresentando uma atuação visceral e hipnotizante. Se Richard Gere e Laura Linney são os reais protagonistas do filme - e se saem bem, aliás - é Norton, com seu rosto capaz de expressar emoções díspares em questão de segundos que rouba o filme para si. Por ele, vale a pena ver e rever.
Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Edward Norton)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Edward Norton)
Desde que teve sua carreira ressuscitada com os sucessos de "Justiça cega", de Mike Figgis e principalmente "Uma linda mulher", de Garry Marshall, o ator Richard Gere correu o sério risco de tê-la novamente perdido, devido a escolhas equivocadas como "Lancelot", com Sean Connery, "Mr. Jones", com Lena Olin e até mesmo o interessante mas fracassado comercialmente "Intersection", onde trabalhou ao lado de Sharon Stone. Para sua sorte, no entanto, um pouco ambicioso filme de tribunal devolveu a ele as boas graças da crítica e do público. Dirigido por um então desconhecido Gregory Hoblit, "As duas faces de um crime" é um policial que, a despeito de não fugir dos elementos tradicionais do gênero, o faz com respeito e sobriedade. Além disso, o filme, baseado no romance de William Diehl, tem para si a distinção de ter revelado um dos melhores jovens atores da década: Edward Norton.
Aos 26 anos, Norton é apenas o quinto nome a aparecer nos créditos de abertura de "As duas faces de um crime", mas quem assiste ao filme sabe que ele é seu maior trunfo. Desconhecido da audiência, ele ficou com um papel que foi oferecido a Leonardo DiCaprio e cobiçado por Matt Damon, e logo de cara recebeu uma merecida indicação ao Oscar de ator coadjuvante - que perdeu para a histérica atuação de Cuba Gooding Jr. em "Jerry Maguire". Sua interpretação, repleta de nuances, foge das armadilhas que o roteiro oferece e consegue fazer até com que o normalmente inexpressivo Gere saia de sua zona de conforto para entregar um trabalho bastante consistente.
Gere interpreta Martin Vail, um advogado narcisista e talentoso que não mede esforços para aparecer na mídia. Uma chance de ouro para aumentar sua popularidade surge quando um respeitado arcebispo é violentamente assassinado e um de seus coroinhas, o tímido Aron Stampler (Edward Norton) é preso e acusado pelo crime. Tentando inocentar seu cliente, Vail vai aos tribunais contra a promotora Janet Venable (Laura Linney), sua ex-amante. Conforme as investigações de Vail e seus assessores vão transcorrendo, novas revelações sobre a personalidade da vítima começam a aparecer, e ligações dele com poderosos homens de negócio - inclusive o procurador do Estado, John Shaugnessy (John Mahoney), o patrão de Janet - levam a outros e surpreendentes rumos.
A maior qualidade do roteiro de "As duas faces de um crime" é embaralhar as cartas de sua trama para jamais deixar o público matar a charada antes das cenas finais. Durante toda a projeção há sempre aquela virtual pulga atrás da orelha sobre quais os reais motivos que levaram o arcebispo a ser assassinado e Gregory Hoblit - demonstrando uma firmeza admirável na direção - conduz a audiência por vários caminhos até finalmente apresentar seu desfecho, coerente e um tanto chocante. Quem já assistiu não tem mais o elemento surpresa que lhe dá mais destaque ao lado de seus congêneres, mas mesmo quem o assiste mais de uma vez é obrigado a concordar que mesmo assim o filme é muito superior que a média. E novamente voltamos a Edward Norton.
A estreia alvissareira de Norton - que no mesmo ano seria dirigido por Milos Forman e Woody Allen - dá um charme especial a "As duas faces de um crime". Talentoso e inteligente, ele não confunde a fragilidade de sua personagem com fragilidade na atuação, apresentando uma atuação visceral e hipnotizante. Se Richard Gere e Laura Linney são os reais protagonistas do filme - e se saem bem, aliás - é Norton, com seu rosto capaz de expressar emoções díspares em questão de segundos que rouba o filme para si. Por ele, vale a pena ver e rever.
quarta-feira
O ÓLEO DE LORENZO
O ÓLEO DE LORENZO (Lorenzo's oil, 1992, Universal Pictures, 129min) Direção George Miller. Roteiro: George Miller, Nick Enright. Fotografia: John Seale. Montagem: Marcus D'Arcy, Richard Francis-Bruce. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Casting: Canice Kennedy, John S. Lyons. Produção executiva: Arnold Burk. Produção: George Miller, Doug Mitchell. Elenco: Nick Nolte, Susan Sarandon, Peter Ustinov, Zach O'Malley, Laura Linney, James Rebhorn. Estreia: 30/12/92
2 indicações ao Oscar: Atriz (Susan Sarandon), Roteiro Original
Se o filme "O campeão" (1979), de Franco Zefirelli, era o pesadelo de qualquer criança, pode-se considerar este "O óleo de Lorenzo" como o mais aterrador sonho de quaisquer pais. Baseado em uma história real, o filme de George Miller - que apesar do background inusitado que inclui "Mad Max" e "As bruxas de Eastwick" é formado em Medicina - versa sobre o mais profundo medo que uma mãe ou um pai possa ter em relação aos filhos: uma doença rara e incurável.
É justamente uma doença rara e incurável - adrenoleucodistrofia, uma doença degenerativa que mata os pacientes (sempre meninos antes da adolescência) poucos anos após seu diagnóstico - que ataca o pequeno Lorenzo Odone (o impressionante Zack O'Malley Greenburg) aos cinco anos de idade. Filho único da dona-de-casa Michaela (Susan Sarandon) e caçula do professor Augusto (Nick Nolte), ele torna-se agressivo repentinamente e, aos poucos, começa a perder o controle sobre os membros e a capacidade de comunicar-se verbalmente. Desesperados com a falta de conhecimento a respeito do mal que está destruindo o menino, o casal resolve investigar por conta própria e tentar encontrar uma maneira de deter o avanço da enfermidade. Desencorajado por outros pais que lideram uma associação, eles contam com a ajuda de um dedicado médico (Peter Ustinov) para atingir seu objetivo e impedir a morte de Lorenzo.
George Miller não poupa o espectador em sua jornada médico-familiar. Escorado em uma atuação quase miraculosa de Susan Sarandon, "O óleo de Lorenzo" não tenta fugir do dramalhão inerente à sua história: é um filme pesado, triste, sofrido, mas ao mesmo tempo é um conto repleto de esperança, amor e tenacidade. A batalha do casal Odone pela cura inexistente para a doença do filho é narrada de forma clássica pelo cineasta, que utiliza a trilha sonora barroco/religiosa para sublinhar os momentos de maior dramaticidade - um pequeno exagero que não chega a atrapalhar sua paixão pela história. Editado de forma ágil, com cenas curtas mas eficientes, o calvário de Lorenzo conquista a plateia devido principalmente à sua honestidade e extremo senso humano. Tudo coroado por uma Susan Sarandon que mereceria ter ganho o Oscar para o qual foi indicada - ela perdeu para Emma Thompson, em "Retorno a Howards End".

Com total entrega à sua personagem, Sarandon criou uma "mater dolorosa" como poucas vezes se viu no cinema americano nos anos 90, onde imperou o cinismo e a violência exarcebada. Seu estoicismo e sua coragem em encarar de frente uma situação desesperadora seguram o filme no limite do tolerável - afinal de contas, testemunhar um sofrimento como o de Lorenzo (interpretado com surpreendente talento pelo pequeno Zack O'Malley Greenburg) não é programa dos mais palatáveis. E sua performance memorável torna-se ainda mais fantástica quando comparada ao trabalho quase caricato de seu parceiro de cena: como o italiano Augusto Odone, Nick Nolte força a barra em inúmeros momentos, fazendo de sua trágica personagem um quase pastiche: um sotaque equivocado é o um dos defeitos de sua interpretação quase risível. Um ator mais sutil ao lado de Sarandon com certeza faria de "O óleo de Lorenzo" um filme ainda melhor.
Mesmo que não possa ser considerado jamais como um entretenimento agradável ou alto-astral, "O óleo de Lorenzo" é uma ode ao amor paterno e um elogio consagrador à esperança.
2 indicações ao Oscar: Atriz (Susan Sarandon), Roteiro Original
Se o filme "O campeão" (1979), de Franco Zefirelli, era o pesadelo de qualquer criança, pode-se considerar este "O óleo de Lorenzo" como o mais aterrador sonho de quaisquer pais. Baseado em uma história real, o filme de George Miller - que apesar do background inusitado que inclui "Mad Max" e "As bruxas de Eastwick" é formado em Medicina - versa sobre o mais profundo medo que uma mãe ou um pai possa ter em relação aos filhos: uma doença rara e incurável.
É justamente uma doença rara e incurável - adrenoleucodistrofia, uma doença degenerativa que mata os pacientes (sempre meninos antes da adolescência) poucos anos após seu diagnóstico - que ataca o pequeno Lorenzo Odone (o impressionante Zack O'Malley Greenburg) aos cinco anos de idade. Filho único da dona-de-casa Michaela (Susan Sarandon) e caçula do professor Augusto (Nick Nolte), ele torna-se agressivo repentinamente e, aos poucos, começa a perder o controle sobre os membros e a capacidade de comunicar-se verbalmente. Desesperados com a falta de conhecimento a respeito do mal que está destruindo o menino, o casal resolve investigar por conta própria e tentar encontrar uma maneira de deter o avanço da enfermidade. Desencorajado por outros pais que lideram uma associação, eles contam com a ajuda de um dedicado médico (Peter Ustinov) para atingir seu objetivo e impedir a morte de Lorenzo.
George Miller não poupa o espectador em sua jornada médico-familiar. Escorado em uma atuação quase miraculosa de Susan Sarandon, "O óleo de Lorenzo" não tenta fugir do dramalhão inerente à sua história: é um filme pesado, triste, sofrido, mas ao mesmo tempo é um conto repleto de esperança, amor e tenacidade. A batalha do casal Odone pela cura inexistente para a doença do filho é narrada de forma clássica pelo cineasta, que utiliza a trilha sonora barroco/religiosa para sublinhar os momentos de maior dramaticidade - um pequeno exagero que não chega a atrapalhar sua paixão pela história. Editado de forma ágil, com cenas curtas mas eficientes, o calvário de Lorenzo conquista a plateia devido principalmente à sua honestidade e extremo senso humano. Tudo coroado por uma Susan Sarandon que mereceria ter ganho o Oscar para o qual foi indicada - ela perdeu para Emma Thompson, em "Retorno a Howards End".
Com total entrega à sua personagem, Sarandon criou uma "mater dolorosa" como poucas vezes se viu no cinema americano nos anos 90, onde imperou o cinismo e a violência exarcebada. Seu estoicismo e sua coragem em encarar de frente uma situação desesperadora seguram o filme no limite do tolerável - afinal de contas, testemunhar um sofrimento como o de Lorenzo (interpretado com surpreendente talento pelo pequeno Zack O'Malley Greenburg) não é programa dos mais palatáveis. E sua performance memorável torna-se ainda mais fantástica quando comparada ao trabalho quase caricato de seu parceiro de cena: como o italiano Augusto Odone, Nick Nolte força a barra em inúmeros momentos, fazendo de sua trágica personagem um quase pastiche: um sotaque equivocado é o um dos defeitos de sua interpretação quase risível. Um ator mais sutil ao lado de Sarandon com certeza faria de "O óleo de Lorenzo" um filme ainda melhor.
Mesmo que não possa ser considerado jamais como um entretenimento agradável ou alto-astral, "O óleo de Lorenzo" é uma ode ao amor paterno e um elogio consagrador à esperança.
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