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quarta-feira

MEU PRIMEIRO AMOR


MEU PRIMEIRO AMOR (My girl, 1991, Columbia Pictures/Imagine Entertainment, 102min) Direção: Howard Zieff. Roteiro: Laurice Elehwany. Fotografia: Paul Elliott. Montagem: Wendy Greene Bricmot. Música: James Newton Howard. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: Joseph T. Garrity/Linda Allen. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, David T. Friendly. Produção: Brian Grazer. Elenco: Anna Chlumsky, Dan Aykroyd, Jamie Lee Curtins, Macaulay Culkin, Griffin Dunne. Estreia: 27/11/91

No começo dos anos 1990, pouca gente estava mais na crista da onda do que Macaulay Culkin. Com o sucesso estratosférico de "Esqueceram de mim" (1990) - que arrecadou inacreditáveis 470 milhões de dólares ao redor do mundo -, o pequeno astro, então com apenas dez anos de idade era visto como uma mina de ouro, pelos estúdios e, como se soube mais tarde, principalmente pela família. Portanto, não chegou a surpreender que "Meu primeiro amor", uma comédia romântica infantojuvenil apenas simpática e sem grandes nomes no elenco tenha se tornado um êxito comercial tendo seu nome como principal chamariz. Mesmo sem o mesmo impacto de seu filme anterior - um fenômeno mundial que lhe rendeu até mesmo uma indicação ao Golden Globe -, a produção dirigida pelo pouco inspirado Howard Zieff confirmou seu status dentro da indústria (que seria ainda reforçado por "Esqueceram de mim 2" e "O anjo malvado") e, de quebra, levou milhares de fãs às lágrimas com sua história de amizade, amadurecimento e perdas. O que nem todo mundo percebeu, no entanto - ao menos na época do lançamento - é que, apesar de Culkin ter sido o principal ponto de interesse do filme, seu maior destaque atendia pelo nome de Anna Chlumsky. É ela que, tão jovem quanto seu colega mais famoso, carrega, com seu carisma e talento, a responsabilidade de encantar e emocionar as plateias - adulta e juvenil - com a história de Vada Sultenfuss.

No verão de 1972, Vada tem onze anos de idade e vive sozinha com o pai, Harry (Dan Ayckroyd), em uma pequena cidade da Pensilvânia. Esperta, hipocondríaca e alvo do despeito das meninas de sua idade, ela encontra consolo nas aulas de seu professor de Inglês, Mr. Bixler (Griffin Dunne), e em suas tardes com o melhor amigo, Thomas Sennett (Macaulay Culkin), também pouco popular e solitário. Órfã de mãe e obcecada com qualquer assunto relacionado à morte - em parte devido ao fato de seu pai ser dono de uma casa funerária -, Vada sofre com a falta de uma figura materna, mas vê sua rotina ser transformada com a chegada da excêntrica Shelley Devoto (Jamie Lee Curtis): contratada como maquiadora dos cadáveres/clientes de Harry, ela logo se torna interesse romântico do desajeitado viúvo e a nova configuração familiar abala o até então tranquilo cotidiano da menina, também em fase de autodescobertas. A princípio relutante em ter que dividir o amor do pai com outra mulher, Vada vai aos poucos percebendo que crescer muitas vezes é um processo doloroso, com perdas inevitáveis - ao mesmo tempo em que novas relações surgem e podem deixar o caminho menos árduo.

 

Lançado com o duvidoso título de "Meu primeiro amor" como forma de capitalizar em cima da presença bastante coadjuvante de Macaulay Culkin - ainda que seu nome original não seja exatamente um primor de criatividade, sendo apenas mais um exemplar de filmes batizados depois de sucessos musicais -, o filme de Howard Zieff não se limita apenas à história do pueril e encantador relacionamento entre Vada e Thomas, por mais que o marketing tenha se esmerado em explorá-lo e a memória afetiva do público assim o tenha percebido. A jovem protagonista, defendida com garra por Anna Chlumsky, tem o verão como rito de passagem, uma ponte de amadurecimento que vai além de um beijo rápido à beira de um lago. Nos poucos meses nos quais a história é contada, ela experimenta também a decepção romântica e ingênua com o professor adulto, o fato de que a solidão compulsória de seu pai tem data de vencimento, a percepção de que novas amizades podem estar onde menos se espera e, golpe de misericórdia, o encontro com a morte como algo bem mais palpável e cruel do que aquilo que, de certa forma, fazia parte de seu cotidiano. O roteiro não chega a aprofundar nenhuma dessas questões - afinal de contas, é apenas um filme com pretensões comerciais estrelado por duas crianças -,  mas sua evidente sinceridade em tratar de relações humanas torna impossível não se deixar comover. Para isso ajuda o frescor do elenco - não apenas o infantil, mas também o adulto, liderado por Dan Aykroyd e Jamie Lee Curtis (reunidos oito anos depois do sucesso de "Trocando as bolas").

Vindo do fracasso retumbante de "Nada além de problemas" (1991) - que estrelou e dirigiu, Dan Aykroyd demonstra, em suas cenas, uma mescla bem equilibrada de sensibilidade e humor. Escolhido pelo produtor Brian Grazer depois que Steve Martin e Bill Murray recusaram o papel por causa de outros compromissos - e pelas dúvidas sobre a capacidade de Chevy Chase de realizar um bom trabalho dramático -, Aykroyd se situa no meio do caminho entre duas forças femininas de gerações distintas. Enquanto Chlmusky representa a inocência infantil, Jamie Lee Curtis oferece um lado sensual, maduro e maternal - uma figura que irá, definitivamente, moldar a persona adulta de Vada e colocar nos eixos uma estrutura familiar capenga. E é justamene do crescimento emocional da menina - o que inclui, logicamente, o tal primeiro do amor do título brasileiro - que se trata o filme de Zieff, e nesse ponto pode-se dizer que, se não é uma obra-prima, ao menos ele é honesto e delicado. Não à toa, tornou-se filme conforto de milhares de espectadores através dos anos.

quinta-feira

A MULHER DO AÇOUGUEIRO


A MULHER DO AÇOUGUEIRO (The butcher's wife, 1991, Paramount Pictures, 107min) Direção: Terr Hughes. Roteiro: Ezra Litwak, Marjorie Schwartz. Fotografia: Frank Tidy. Montagem: Donn Cambern. Música: Michael Gore. Figurino: Theadra Van Runkle. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/Donald J. Remacle. Produção executiva: Arne Schmidt. Produção: Lauren Lloyd, Wallis Nicita. Elenco: Demi Moore, Jeff Daniels, George Dzunza, Frances McDormand, Mary Steenburgen, Margaret Colin, Max Perlich. Estreia: 25/10/91

Em 1987, quando ainda não era uma estrela de primeira grandeza, Demi Moore tentou convencer a Tri-Star Pictures a comprar um roteiro escrito por Ezra Litak e Marjorie Schwartz,  chamado "A mulher do açougueiro". O estúdio não demonstrou entusiasmo e o script acabou nas mãos da Paramount. Em 1990, com o mega-sucesso "Ghost: do outro lado da vida" no currículo, a então sra. Bruce Willis finalmente teve a oportunidade de ver seu desejo atendido. Já considerada um nome em ascensão em Hollywood, porém, Demi já não tinha mais interesse no projeto, mas foi convencida a reconsiderar a decisão diante de um polpudo salário oferecido pelos executivos - que viam no encontro da estrela do filme de Jerry Zucker com uma produção de temática espiritualista a receita para mais um êxito incontestável. Mas logo o que parecia uma aposta sem riscos se mostrou um tiro n'água: atacado pela crítica e com uma bilheteria decepcionante, o primeiro longa-metragem de Terry Hughes acabou sendo um dos inúmeros fracassos comerciais que pavimentaram o caminho de Demi rumo ao limbo sacramentando com fiascos como "Striptease" (1996) e "Até o limite da honra" (1997).

Conhecido na indústria principalmente pelos 108 episódios que dirigiu da série "Super gatas", Terry Hughes assumiu o comando de "A mulher do açougueiro" com a saída do cineasta inicialmente contratado para o projeto, o polonês Yurek Bogayevicz, dispensado por causa das famosas "diferenças artísticas". Sem experiência cinematográfica, Hughes apresenta um tom apropriadamente leve à sua estreia, mas falha em imprimir personalidade à lúdica história criada por Litak e Schwartz em sua única incursão hollywoodiana. Talvez seja o maior defeito de uma produção que, apesar do massacre da imprensa, não é melhor nem pior que boa parte das comédias românticas que lotam as salas de cinema mesmo sem acrescentar nada ao gênero. Dono de uma atmosfera mágica - sublinhada pela bela trilha sonora de Michael Gore - e recheado de personagens encantadores (ainda que não necessariamente aprofundados pelo roteiro), o filme de Hughes se beneficia da beleza de Demi e do talento de seu elenco coadjuvante para disfarçar uma trama quase simplória, cuja ingenuidade tanto pode ser vista como defeito quanto qualidade.


 

Demi, de peruca loura - e em papel que chegou a ser pensado para Meg Ryan -, interpreta a misteriosa Marina, uma bela clarividente que vê, em seus sonhos a chegada do amor de sua vida à ilha onde vive com sua idosa avó. Quando o açougueiro Leo Lemke (George Dzunza) surge à sua frente, então, ela imediatamente o reconhece como o homem que irá mudar o rumo de sua existência. Casada com ele mesmo sem conhecê-lo direito, ela se muda para Nova York e, com seus poderes, passa a alterar a rotina da pacata vizinhança - quase toda envolvida pessoal ou profissionalmente com o terapeuta Alex Tremor (Jeff Daniels): é graças a seus conselhos, por exemplo, que a tímida Stella Keefover (Mary Steenburgen) cria coragem para dar vazão a seu talento musical; que a vendedora de roupas Grace (Frances McDormand) parte em busca do amor; e que Robyn Graves (Margaret Colin) resolve pressionar o namorado - justamente o indeciso Alex, que, incomodado, confronta a bela esposa de seu vizinho e se apaixona por ela. A ciranda de amores - correspondidos ou não - se completa com a presença de Eugene (Max Perlich), empregado de Leo que vê em Marina a única pessoa capaz de compreendê-lo e aceitar seu passado contraventor.

Não há nada em "A mulher do açougueiro" que seja ofensivamente ruim, como fizeram crer boa parte dos críticos à época de seu lançamento. Se o romance central, entre Marina e Alex, não chega a ser fascinante, tampouco é irritante ou aborrecido. Se os personagens periféricos carecem de profundidade, também não deixam de ser encantadores em sua simplicidade. E se Demi Moore não é exatamente uma atriz de recursos ilimitados, seus colegas compensam o suficiente - e vale lembrar que Demi, carismática ao extremo, foi uma das atrizes mais atacadas dentro da indústria hollywoodiana, talvez pelo sucesso profissional, talvez pelo casamento (até então) bem-sucedido com Bruce Willis, talvez pela beleza irretocável. A má-vontade contra ela talvez explique o fracasso monumental de "A mulher do açougueiro" - menos de dez milhões de dólares arrecadados no total -, mas o fato é que sua carreira ainda emplacaria alguns sucessos de bilheteria ("Questão de honra", em 1992, e "Assédio sexual", em 1993) antes de seus maiores fiascos. "A mulher do açougueiro" é, para o bem ou para o mal, um filme que se sustenta na presença de Demi. Quem é fã não tem do que se queixar. Aos detratores, resta apenas ignorar.


AS CRIATURAS ATRÁS DAS PAREDES


AS CRIATURAS ATRÁS DAS PAREDES (The people under the stairs, 1991, Universal Pictures, 102min) Direção e roteiro: Wes Craven. Fotografia: Sandi Sissel. Montagem: James Coblentz. Música: Don Peake. Figurino: Ileane Meltzer. Direção de arte/cenários: Bryan Jones/Molly Flanegin. Produção executiva: Wes Craven, Shep Gordon. Produção: Stuart M. Besser, Marianne Maddalena. Elenco: Brandon Adams, Ving Rhames, Everett McGill, Wendy Robie, A. J. Langer, Sean Whalen. Estreia: 01/11/91

Tudo começou no final dos anos 1970, quando Wes Craven ainda não era o cineasta consagrado por "A hora do pesadelo" (1984) mas já tinha no currículo "Aniversário maldito" (1972) e "Quadrilha de sádicos" (1977): uma matéria publicada em um jornal da Califórnia falava sobre o caso bizarro e assustador de vários adolescentes mantidos em cativeiro por seus pais, que nunca permitiram que eles tivessem acesso ao mundo exterior. Seus pais, considerados cidadãos normais da classe média de Los Angeles, nunca haviam despertado qualquer tipo de suspeita entre sua vizinhança até que, chamada para atender uma ocorrência de possível invasão, a polícia descobriu um assustador caso de cárcere privado. Impressionado com a história, Craven imediatamente dedicou-se a escrever um argumento de 80 páginas. Mais de dez anos depois, já navegando nos louros do merecido sucesso de seu Freddy Krueger, Craven transformou tal sinopse em um filme que, apesar de não compartilhar da mesma popularidade de seus trabalhos anteriores - e os posteriores exemplares da série "Pânico" - conquistou seus fãs com uma narrativa surpreendente e ousada, com um protagonista inusitado e momentos de legítimo suspense.

O personagem principal de "As criaturas atrás das paredes" é Fool (Brandon Adams), um garoto negro de 13 anos de idade passando pelo pior período de sua curta vida: a mãe está seriamente doente a ponto de não conseguir sequer levantar da cama e sua família tem os dias contados para pagar os alugueis atrasados caso não queiram ser despejados pelo cruel proprietário de seu apartamento (Everett McGill). Sem encontrar saída para resolver ao menos o problema financeiro que o assombra, Fool se deixa levar pela conversa de LeRoy (Ving Rhames), namorado de sua irmã. Segundo ele, o proprietário de seu apartamento tem escondido, em sua casa, um grande tesouro em moedas de ouro, o que poderia ser muito útil em sua difícil situação. Certo de que ajudar LeRoy a invadir a propriedade de seu insensível senhorio é o melhor a fazer, o menino concorda em participar de um ousado plano que os colocará diante da solução de seus problemas. Logo depois de entrar na casa, porém, Fool percebe que está muito encrencado. Além de maltratarem sua filha adolescente, Alice (A. J. Langer), o senhorio e sua cruel esposa (Wendy Robie), mantém presos, dentro das paredes da propriedade, um grupo de adolescentes, crianças e jovens - todos aprisionados depois de não seguirem os desejos doentios de seus raptores.

 

Realizado em 1991, quando Craven já praticamente não tinha mais o controle criativo de seu personagem mais famoso, "As criaturas atrás das paredes" mostrou que seu talento em surpreender a audiência se mantinha absolutamente intocado: sem abrir mão de sustos e personagens bizarros, o cineasta conduz o espectador em uma experiência das mais satisfatórias no gênero. Tudo graças a um roteiro que vai introduzindo seus elementos aos poucos, com uma atmosfera claustrofóbica cada vez mais densa e um par de vilões dos mais empolgantes, interpretados por Everett McGill e Wendy Robie, também casados na série "Twin Peaks". Ainda que ocasionalmente caricata - em uma escolha artística acertada -, a dupla de criminosos (cujos nomes jamais são citados em cena, já que se chamam por Pai e Mãe) é um dos trunfos do filme: cruéis e desumanos, sim, mas dotados de uma quase inabilidade em lidar com oponentes inesperados, como Fool e seus comparsas. Aliás, não deixa de ser irônico que todos os adultos do filme sejam facilmente suplantados pelas crianças e adolescentes que os confrontam: não é LeRoy nem seu comparsa que ameaçam a rotina de crimes da mansão, mas sim o pequeno Fool, a sofrida Alice e as tais criaturas atrás das paredes - bem caracterizadas mas nunca excessivamente assustadoras, já que se tornam, no decorrer da sessão, os heróis da história.

É surpreendente como Wes Craven consegue, em "As criaturas atrás das paredes", manter a atenção do espectador mesmo depois de um pretenso clímax no meio do filme - ao invés de perder o ritmo, a produção parece iniciar um novo e ainda mais violento capítulo. Sem apelar para sangue aos borbotões - ainda que não fuja de sequências bem gráficas - e confiando na empatia da plateia em relação a Fool e seus aliados, o diretor comprova que nem sempre é preciso ter grandes astros estampando os cartazes para levar público às salas de exibição. Sem nenhum ator conhecido no elenco, seu filme, que custou exíguos 6 milhões de dólares, recuperou o orçamento em poucos dias de exibição e ultrapassou a marca de 30 milhões de arrecadação mundial. Apostando em protagonistas negros (o jovem Brandon Adams fez parte do musical "Moonwalker", de Michael Jackson, e Ving Rhames poucos anos depois ganharia o mundo como o vilão Marcellus Wallace, de "Pulp fiction: tempo de violência") e em uma trama que poderia facilmente descambar para o grotesco, Craven acabou por abrir caminho para, em 1994, retomar as rédeas de sua mais famosa criação, em "O novo pesadelo: o retorno de Freddy Krueger". 

Tornado cult movie por excelência, "As criaturas atrás das paredes" parecia morar no coração de Craven: antes de sua morte, em 2015, ele estava por trás da produção de um remake televisivo do filme, a ser transmitido pelo SyFy Channel e dirigido por F. Javier Gutiérrez, projeto que não parece ter ido para a frente depois de sua partida.

segunda-feira

SEGREDOS DE UMA NOVELA


SEGREDOS DE UMA NOVELA (Soapdish, 1991, Paramount Pictures, 97min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Robert Harling, estória de Robert Harling, Andrew Bergman. Fotografia: Ueli Steiger. Montagem: Garth Craven. Música: Alan Silvestri. Figurino: Nolan Miller. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti/Lee Poli. Produção executiva: Herert Ross. Produção: Alan Greisman, Aaron Spelling. Elenco: Sally Field, Kevin Kline, Whoopi Goldberg, Elisabeth Shue, Robert Downey Jr,, Cathy Moriarty, Gary Marshall, Teri Hatcher, Kathy Namiji. Estreia: 31/5/91

Ao contrário do que acontece no Brasil, onde gozam de relativo prestígio junto ao público e à crítica, as telenovelas produzidas nos EUA não são exatamente um veículo nobre para atores. Normalmente apresentadas no horário vespertino, as novelas norte-americanas (ao contrário das séries, hoje alçadas a filé mignon das emissoras) frequentemente apelam para tramas rocambolescas e inverossímeis, anos e mais anos de duração e um tom que raramente escapa do dramalhão mais cafona. A julgar pela comédia "Segredos de uma novela", seus bastidores também não são nada tranquilos: exageros cômicos à parte, o filme de Michael Hoffman - que posteriormente assinaria o romântico "Um dia especial" (1996), o shakespereano "Sonho de uma noite de verão" (1999) e o subestimado "A última estação" (2009) - retrata o dia-a-dia da produção de uma dessas novelas tão populares quanto inacreditáveis de forma ao mesmo tempo debochada e carinhosa. Co-produzido por Aaron Spelling - ele mesmo vindo do mundo da televisão, onde produziu sucessos como "As panteras" e  "Barrados no baile" - e estrelado por um elenco de sonhos, "Segredos de uma novela" diverte enquanto dura, mas, assim como os produtos que critica, é provável que desapareça da memória do espectador tão logo acabe sua sessão.

Longe de querer ser a obra definitiva sobre o assunto - soa bem mais como uma descompromissada sessão da tarde do que um tratado a respeito de teledramaturgia popular -, o filme de Hoffman brinca com as percepções do público a respeito de astros, estrelas, roteiristas e produtores sem preocupar-se com a fidelidade absoluta - e acerta em cheio ao utilizar-se de metalinguagem como forma de enfatizar  os absurdos que circundam a criação de uma obra aberta. Ao criticar as reviravoltas que abundam nas produções televisivas, o roteiro também faz uso delas para efeito histriônico: na trama criada pelo dramaturgo Robert Harling e desenvolvida por ele e Andrew Bergman, há espaço para romances interrompidos, maternidades escondidas, traições e sexualidades duvidosas - tudo revelado ao vivo, diante de um público ávido por ser surpreendido a cada capítulo.

A protagonista do filme é Celeste Talbert (Sally Field,  estrela absoluta da telenovela "The sun also sets", no ar há anos com espantosos índices de audiência e prêmios acumulados pela crítica. Idolatrada pelos fãs, Talbert parece estar entrando em seu inferno astral: abandonada pelo marido, ela ainda precisa lidar com a velada perseguição do jovem produtor David Barnes (Robert Downey Jr.), que seduzido pela promessa de uma noite de amor com a ambiciosa Montana Moorehead (Cathy Moriarty), procura um jeito de aumentar seu papel na novela mesmo ameaçando sua coerência interna. Protegida pela roteirista principal, Rose Schwartz (Whoopi Goldberg), Talbert tenta não se deixar abater pela crise, mas vê as coisas se complicarem ainda mais quando, para seu desespero, seu antigo amante, Jeffrey Anderson (Kevin Kline), volta à cena como seu novo par romântico, o que traz à luz um passado traumático e um segredo que pode abalar sua popularidade. Não bastasse tudo isso, ela começa a sentir o peso da idade, principalmente quando sua sobrinha, Lori Craven (Elisabeth Shue), passa a disputar com ela, involuntariamente, o posto de atriz preferida pelas plateias, e ilustrar capas de revistas.

Criada por Robert Harling durante os bastidores das filmagens de "Flores de aço" - baseado em uma peça de sua autoria, e estrelado por Sally Field em 1989 -, a trama de "Segredos de uma novela" foi desenvolvida pelo próprio Harling e pelo roteirista/cineasta Andrew Bergman, que poucos anos depois cometeria o infame "Striptease" (1996), com Demi Moore. Brincando com os excessos dramáticos atrelados às produções televisivas (onde parece não haver limites para a falta de verossimilhança), eles não hesitam em forçar situações que, por um lado refletem o tom do gênero, e por outro fazem rir desse mesmo tom. Field, ela mesma um ícone da televisão norte-americana dos anos 1960, com "A noviça voadora" e figurinha fácil nas telinhas nas últimas décadas, com participações em "Plantão médico" e papel central em "Brothers and sisters", está precisa em seu timing cômico, e encontra em Kevin Kline o parceiro ideal: seu Jeffrey Anderson é o retrato perfeito do ator de teatro respeitado (mas sem sucesso popular) que encontra na teledramaturgia barata a forma de sobreviver de sua arte. A presença de Kline, um dos grandes e mais subestimados atores de Hollywood, não apenas valoriza o filme de Hoffman, mas acrescenta sabor aos bastidores em si - não fosse ele a interpretar Anderson o papel poderia ter ficado com Burt Reynolds, que, por coincidência ou não, é ex-namorado da própria Sally Field. Uma ironia que seria bem-vinda ao propósito da produção - mas que não aconteceu por receio do próprio Reynolds.

A energia caótica de "Segredos de uma novela" é um trunfo: reuniões de diretoria - com ideias absurdas jorrando de mentes mais interessadas em índices de audiência do que integridade artística -, intrigas rocambolescas, ressentimentos pouco disfarçados e a fogueira das vaidades queimando tudo à sua volta fazem da produção um entretenimento cujo teor narcisista é facilmente perdoável. Mesmo que o roteiro por vezes exagere na superficialidade - o que talvez seja uma crítica a mais à indústria - e não permita que parte do elenco tenha seu potencial explorado a contento - caso de Robert Downey Jr., Elisabeth Shue e até mesmo Whoopi Goldberg -, o saldo final é no mínimo agradável. Rindo do que acontece por trás das câmeras de um programa de televisão, o filme acaba, de certa forma, homenageando sua capacidade de reinvenção e perenidade junto ao público. A sensação de assistí-lo é, de certa forma, a mesma de tomar um café da tarde junto a seus personagens mais queridos - e suas idiossincrasias mais extraordinárias.

sábado

CULPADO POR SUSPEITA


CULPADO POR SUSPEITA (Guilty for suspicion, 1991, Warner Bros, 105min) Direção e roteiro: Irwin Winkler. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Priscilla Nedd. Música: James Newton Howard. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Nancy Haigh. Produção executiva: Steven Reuther. Produção: Arnon Milchan. Elenco: Robert DeNiro, Annette Bening, George Wendt, Chris Cooper, Patricia Wettig, Sam Wanamaker, Luke Edwards, Ben Piazza, Martin Scorsese, Tom Sizemore. Estreia: 15/3/91

Levando-se em consideração que o cinema foi um dos ramos mais atingidos pela  famigerada caça às bruxas promovida pelo Senador republicano norte-americano Joseph McCarthy na década de 1950 - que, sob o pretexto de salvar os EUA do comunismo, ceifou carreiras e reputações, arruinando vidas e famílias inteiras - até que demorou para que Hollywood tratasse do assunto com a seriedade merecida. Talvez por medo de tocar em uma ferida ainda dolorida mesmo depois de quarenta anos, os executivos  evitaram, por décadas, ressuscitar um fantasma que havia posto colegas contra colegas e deixado a indústria em tensão constante por um longo e tenebroso período. Foi somente em 1991 que a Warner Bros finalmente rompeu a barreira de silêncio e lançou "Culpado por suspeita" - uma produção classuda, estrelada por um astro de primeira grandeza (Robert DeNiro) e que marcava a estreia na direção de um produtor consagrado - Irwin Winkler, o nome por trás de clássicos contemporâneos, como "Touro indomável" (1980), "Os eleitos" (1983) e "Os bons companheiros" (1990). Tais créditos, no entanto, não impediram que o filme fracassasse nas bilheterias - o que era, de certa forma, esperado, devido à seriedade do tema, pouco atrativo ao público médio - e falhasse na tentativa de arrebatar estatuetas do Oscar - não apenas por ter estreado longe do período mais propício à atenção da Academia mas por sua falta de brilho e personalidade.

 


Morno e quase apático - a despeito do tema explosivo -, "Culpado por suspeita" provavelmente perdeu sua chance de ser a obra definitiva sobre o macartismo (ou ao menos uma produção memorável e relevante artisticamente) logo em sua gênese. Ao assumir o projeto, uma das primeiras coisas que Winkler fez foi trabalhar em alterações no roteiro original de Abraham Polonsky e transformar David Merill, seu personagem principal, de comunista assumido em um menos "perigoso" liberal. Polonsky - ele mesmo uma vítima da lista negra promovida pelas investigações de McCarthy - sentiu-se pessoalmente ofendido com a mudança e não fez a menor questão de esconder a insatisfação com a novidade. Segundo ele - e com razão, a história não era sobre alguém falsamente acusado e sim sobre alguém que tinha plena consciência de suas visões políticas e se recusava a abrir mão de seus ideais. Polonsky se identificava com o protagonista e sua integridade a tal ponto que simplesmente obrigou a retirada de seu nome dos créditos também na função de produtor executivo (o que poderia lhe render dividendos, caso o filme se tornasse um hit). A opção de Winkler em tornar Merrill um liberal teve suas razões comerciais - um filme sobre um cineasta comunista certamente incomodaria muita gente - mas acabou por mostrar-se quase tão covarde quanto àqueles que tenciona criticar em sua trama. Isso e o excesso de didatismo acabaram diminuindo o impacto que o filme poderia ter.

O roteiro de Winkler - depois das alterações feitas para desgosto de Polonsky - tenta ser acessível até mesmo ao público que desconhece detalhes das investigações promovidas pelo Comitê de Atividades Antiamericanas, mas esbarra em uma profusão de cenas redundantes, que fazem com que o filme, apesar de suas intenções quase louváveis, pareça andar em círculos. Os personagens constantemente repetem o que a plateia já cansou de ouvir - todas as cenas em que Merrill tenta ser convencido a testemunhar diante do comitê, por exemplo, soam incomodamente semelhantes, e nem mesmo o talento superlativo de Robert DeNiro é capaz de disfarçar tamanha falta de criatividade. Aliás, se há algo em que "Culpado por suspeita" se escora com sucesso é em seu elenco: além de DeNiro (que mesmo sem estar em um momento particularmente memorável da carreira ainda é um ator fenomenal), Winkler conta com a estrela (então) em ascensão Annette Bening (no mesmo ano em que estaria no elenco do aclamado "Bugsy", ao lado do marido Warren Beatty), o ainda pouco conhecido Chris Cooper, a ótima Patricia Wettig (que anos mais tarde estaria no elenco da série "Brothers and sisters") e até mesmo Martin Scorsese em um de seus raros trabalhos como ator (na pele de um cineasta perseguido que prefere abandonar os EUA a delatar amigos, uma história que espelha a do veterano Joseph Losey). Com atores tão bons em mãos (além do veterano Sam Wanamaker, que esteve, assim como o roteirista original, Abraham Polonsky, na lista de profissionais impedidos de trabalhar), Winkler tropeça ao apresentar um filme burocrático que somente em seu terço final consegue empolgar - e mesmo assim o faz ao colocar na boca de seu protagonista um discurso real ouvido no Comitê: o do advogado Joseph N. Welch.

A trama de "Culpado por suspeita" acompanha o consagrado cineasta David Merrill (DeNiro), que retorna da Europa aos EUA, no começo dos anos 1950, e encontra Hollywood em polvorosa com a caça aos comunistas promovida pelo Senador Joseph McCarthy. Merrill - citado como provável membro do partido por ter participado de reuniões anos antes - passa a ser pressionado pelo comitê e até mesmo por colegas para testemunhar e, obviamente, listar nomes que possam ser punidos por suas atividades. Impedido de trabalhar até que concorde em fazer parte da lista de delatores, Merril vê sua vida ruir em questão de semanas. Sem emprego, dinheiro ou oportunidades, ele recorre à família como porto seguro: a ex-mulher, Ruth (Annette Bening), e o filho pequeno. Enquanto mantém firme sua integridade, porém, o cineasta fica atônito ao perceber que nem todo mundo tem a mesma força de caráter. Tal constatação o leva a questionar a força devastadora da mentira e do medo - uma reflexão contada de forma muito mais ousada e memorável em "Boa noite, e boa sorte" (2005), filme de George Clooney que retratava o mesmo período histórico mas dentro do universo televisivo, assim como a comédia "Testa-de-ferro por acaso", estrelada por Woody Allen em 1977. Importante apenas por ser o primeiro filme a resgatar o assunto dentro do mundo do cinema, "Culpado por suspeita" é uma produção agradável e interessante - mas jamais ultrapassa os limites que impôs a si mesma. Uma pena.

quarta-feira

BRINCANDO NOS CAMPOS DO SENHOR

 


BRINCANDO NOS CAMPOS DO SENHOR (At play in the fields of the Lord, 1991, The Saul Zaentz Company, 189min) Direção: Hector Babenco. Roteiro: Jean-Claude Carrière, Hector Babenco, Vincent Patrick, romance de Peter Mathiessen. Fotografia: Lauro Escorel. Montagem: William M. Anderson, Armen Minasian. Música: Zbiniew Preisner. Figurino: Aggie Guerard-Rodgers, Rita Murtinho. Direção de arte/cenários: Clovis Bueno/Dagoberto Assis. Produção executiva: David Nichols, Francisco Ramalho Jr.. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Tom Berenger, John Lithgow, Daryl Hannah, Aidan Quinn, Tom Waits, Kathy Bates, Stênio Garcia, Nelson Xavier, José Dumont. Estreia: 06/12/91

Desde que foi publicado, em 1965, o romance "Brincando nos campos do Senhor" esteve na mira do cinema. Fascinado com o belo livro de Peter Mathiessen, que discutia temas relevantes e que estariam em voga no final do milênio, como ecologia, tolerância religiosa e racismo, o produtor Saul Zaentz imediatamente pensou em transportá-lo para as telas - mas chegou tarde demais em sua tentativa de adquirir os direitos de adaptação, comprados pela MGM. Persistente, ele viu o projeto nascer e morrer em diversas ocasiões - sob o comando de nomes fortes, como John Huston e Milos Forman e com estrelas do porte de Marlon Brando, Paul Newman e Richard Gere no elenco - sem nunca desistir de seus planos. Foi somente em 1989, porém, que o sonho se tornou realidade: mediante o pagamento de 1,4 milhão de dólares, Zaentz tinha, em mãos, a possibilidade de apresentar ao público de cinema uma história poderosa, intensa e emocionante como só os maiores épicos conseguem ser. Mal poderia imaginar, no entanto, que apesar das imensas qualidades que seu filme viria a ter, ele não conquistaria a audiência da maneira imaginada: com um custo estimado de 36 milhões de dólares e uma renda mundial de pouco mais de 1 milhão, a versão cinematográfica de "Brincando nos campos do Senhor" foi um dos mais retumbantes fracassos da década de 1990 e colocou a carreira do diretor Hector Babenco - vindo do prestígio de "O beijo da mulher-aranha" (1985) e "Ironweed" (1987) - em um hiato do qual só saiu sete anos mais tarde com "Coração iluminado" (1998).

Filmado inteiramente na Amazônia, entre junho e dezembro de 1990, o filme tomou quase dois anos da vida de Babenco antes mesmo do começo das filmagens. Ocupado em escolher locações e escrever o roteiro ao lado do experiente Jean-Claude Carrière - colaborador habitual de Buñuel -, o cineasta argentino/brasileiro ainda teria maus momentos pela frente. Da desistência de Laura Dern - que recusou-se a mergulhar em um rio com águas não exatamente limpas - às reclamações de parte da equipe, trabalhando em situação quase insalubre, a produção enfrentou problemas constantes que em nada ajudavam a amenizar o clima de constante insatisfação. Babenco, tenso e ciente da responsabilidade de comandar um projeto tão ambicioso e arriscado, orquestrava uma sinfonia das mais complicadas, com astros hollywoodianos misturados a atores brasileiros, extras locais e condições climáticas que impediam qualquer planejamento a longo prazo. Diante de tantos percalços, portanto, não apenas é notável que o filme tenha sido lançado, como que tenha resultado em um produto tão bom. A despeito de seu fiasco comercial - talvez explicável pelo teor controverso da trama -, "Brincando nos campos do Senhor" é o melhor filme da carreira do cineasta, e uma das produções mais subestimadas da década de 1990.


Em um breve resumo - que apenas dá as coordenadas para uma trama com desdobramentos complexos e surpreendentes -, o filme de Babenco conta a história de dois casais de missionários evangélicos que chegam à Amazônia com o objetivo de converter os índios locais, depois do violento fracasso de seus predecessores católicos. O líder do grupo é o ambicioso Leslie Huben (John Lithgow), que se preocupa mais em disputar os nativos com os rivais católicos do que exatamente salvar suas almas, e é ele quem recebe a família Quarrier, formada pelo idealista Martin (Aidan Quinn), pela fanática Hazel (Kathy Bates) e pelo pequeno Billy (Niilo Kivirinta) - que não demora a encantar-se com a liberdade dos indígenas, para desespero de sua mãe. O embate entre missionários e nativos deixa claro o choque entre culturas quase irreconciliáveis, especialmente quando fica claro que interesses financeiros estão por trás da chegada dos religiosos, que sem o saber, estão colaborando com empresários dispostos a dizimar tribos inteiras para ter acesso a minerais valiosos. Complicando ainda mais a situação, o piloto americano Lewis Moon (Tom Berenger) resolve se deixar seduzir por suas origens indígenas e se junta a seus ancestrais - o que não o impede de ser irremediavelmente atraído pela bela Andy (Daryl Hannah), esposa de Leslie.

A princípio a longa duração do filme - mais de três horas - pode assustar ao espectador menos paciente. Porém, tão logo as belas imagens de Lauro Escorel surjam na tela, fica claro que uma metragem menor prejudicaria consideravelmente a coerência interna e a solidez da história. Não há nenhuma cena desnecessária no filme de Babenco, e cada sequência empurra a trama em direção ao clímax - triste, chocante, infelizmente realista. Cuidadosamente produzido - seja em termos de composição visual, sonora e de construção de personagens -, o filme envolve justamente por não se deixar seduzir pelos caminhos narrativos mais fáceis. O roteiro, fluido, dá o tempo necessário a cada um de seus vários personagens, deixando claro ao espectador cada motivação e sentimento - o que, em muitos casos no cinemão hollywoodiano, é algo raro. E se em "O beijo da mulher-aranha" a mescla de atores brasileiros e estrangeiros deixava tudo um tanto caótico, o mesmo não se repete aqui: todos os atores estão em excelente momento, especialmente Kathy Bates (dona de alguns dos momentos mais catárticos) e Tom Berenger (cuja atuação é, sem favor, uma das melhores de sua carreira, apesar da opinião contrária do próprio Babenco). As caracterizações - outro ponto sensível em produções do gênero - são fascinantes e verossímeis (responsabilidade de especialistas no assunto), e a opção de colocar a Amazônia como um personagem a mais e não apenas um cenário passivo é um golpe de mestre - talvez pressionado pela própria natureza do local, mas mesmo assim brilhante.

Por fim, não é difícil entender os motivos que levaram "Brincando nos campos do Senhor" ao fracasso comercial. Não apenas o filme de Babenco foi lançado em um período complicado - final do ano, quando os estúdios mostram suas maiores armas para a temporada de premiações - como apresenta um tema bastante indigesto para o público médio frequentador de salas de exibição. É difícil imaginar famílias indo ao cinema assistir a uma produção que bate tão violentamente contra a colonização anglo-saxã e que discute com seriedade assuntos que só viriam a se tornar prementes algum tempo mais tarde. "Brincando" é um filme sério demais, feito com respeito demais para plateias acostumadas a blockbusters - ironia das ironias, o filme de Babenco é uma das maiores inspirações de James Cameron na sua concepção de "Avatar" (2010), o suprassumo do cinemão comercial feito em Hollywood. Que um dia a obra-prima do cineasta seja descoberta e avaliada como merece!

sexta-feira

FRANKIE & JOHNNY

FRANKIE & JOHNNY (Frankie & Johnny, 1991, Paramount Pictures, 118min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Terrence McNally, baseado em sua peça teatral "Frankie and Johnny in the Clair de Lune". Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Jacqueline Cambas, Battle Davis. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Kathe Klopp. Produção executiva: Michael Lloyd, Charles Mulvehill, Alexandra Rose. Produção: Garry Marshall. Elenco: Michelle Pfeiffer, Al Pacino, Kate Nelligan, Hector Elizondo, Glenn Plummer. Estreia: 11/10/91

Quase uma década separa o primeiro encontro nas telas entre Al Pacino e Michelle Pfeiffer. Em 1983, quando fizeram "Scarface", de Brian De Palma, Pacino já era um grande nome em Hollywood, com várias indicações ao Oscar e alguns clássicos no currículo, enquanto a bela Pfeiffer tentava emplacar no cinema e provar-se mais capaz do que simplesmente arrancar suspiros do público masculino. Oito anos mais tarde, muita coisa havia mudado: o veterano ator, depois de um exílio voluntário no teatro, retornava às telas com garra total (e elogios rasgados por filmes como "O poderoso chefão - parte 3" e "Dick Tracy", ambos de 1990), e a deslumbrante ex-modelo finalmente estava estabelecida como atriz de primeira grandeza, com duas indicações à estatueta e o respeito da indústria. Não é de admirar, portanto, que em "Frankie & Johnny", o filme responsável por seu reencontro, o que se veja é um amigável duelo de interpretações, entre dois astros consagrados e sem mais nada a provar a ninguém. O que surpreende, na verdade, é o quanto Michelle consegue se destacar mesmo diante de um monstro como Pacino!

Dirigidos por Garry Marshall - recém saído do estrondoso sucesso de "Uma linda mulher" (90) - e com base em uma peça teatral que contou com F. Murray Abraham e Kathy Bates em uma de suas montagens, "Frankie & Johnny" é um drama romântico que abre mão de vários dos clichês do gênero em busca de um tom mais realista e menos fantasioso. Os protagonistas, por exemplo, estão longe de serem jovens atléticos e milionários em busca de um romance de cinema: Johnny é um ex-presidiário solitário, que não tem coragem de reaproximar-se da ex-mulher e dos filhos mas deseja uma vida menos à margem da sociedade; e Frankie, depois de um relacionamento abusivo e violento, só quer ter paz para poder assistir a filmes no sossego de seu pequeno apartamento - e ocasionalmente divertir-se com o vizinho e melhor amigo, Tim (Nathan Lane). O encontro entre eles não se dá em um cenário paradisíaco e fotogênico de Nova York, mas sim no pequeno restaurante onde ela é garçonete e ele começa a trabalhar como cozinheiro. E não, não há intrigas e mal-entendidos durante o percurso entre seu primeiro contato e o amor que enfim surge: o autor da peça (e do roteiro), Terrence McNally, faz questão de manter tudo o mais perto possível do dia-a-dia, do mundano, do crível. Talvez por isso as plateias não tenham correspondido tão bem: com uma bilheteria de pouco mais de 20 milhões de dólares nos EUA, o filme de Marshall acabou conquistando apenas a crítica - e mesmo assim, com reservas. Pfeiffer foi indicada ao Golden Globe de melhor atriz dramática, mas Pacino foi simplesmente ignorado por todas as cerimônias de premiação do ano.


É fácil compreender o motivo pelo qual Pfeiffer chamou mais a atenção do que seu experiente colega de cena: enquanto ela opta por um caminho mais sutil e delicado de atuação, de acordo com o passado e o presente de sua personagem, Pacino encara seu Johnny como um homem que, apesar dos pesares, ainda mantém o bom humor e a esperança, frequentemente exagerando em suas tentativas de conquistar Frankie através de sua personalidade despachada. Nem sempre Pacino acerta o tom, e essa irregularidade acaba por jogar luz no trabalho minimalista de Michelle, cujo sorriso reflete com segurança a complexidade interna de uma mulher que não acredita no amor, mas que de certa forma precisa dele para sentir-se completa. Os diálogos de McNally são inteligentes e certeiros - respeitam seus protagonistas e a plateia com sensibilidade e humor - e a direção de Marshall, apesar de quadradinha em excesso, não atrapalha a dinâmica de seu elenco ou a fluidez da trama: como sempre em sua filmografia, ele sabe como transformar cenas simples em momentos no mínimo agradáveis. E se, em determinadas passagens parece tudo verborrágico demais, é bom lembrar das origens teatrais do texto e embarcar em uma história que (felizmente) dispensa artifícios narrativos e lances folhetinescos.

"Frankie & Johnny" é, em suma, um drama romântico para adultos. Sensível, delicado e inteligente, peca apenas por ser simples demais em sua essência - o que muitas vezes afugenta um público acostumado com excessos de todo tipo. Ao contrário da maioria de seus congêneres, não é o final feliz a todo custo que almeja, mas sim a empatia com seus protagonistas, a compreensão de suas idiossincrasias e a torcida para que, no desfecho, tudo saia como eles procuram - independentemente se isso virá com eles juntos ou não. É louvável que seu diretor tenha conseguido realizá-lo logo em seguida a seu êxito maior - justamente uma comédia romântica típica - sem deixar-se contaminar por maneirismos: são dois filmes opostos, apesar de seu tema comum (o amor), e Marshall comprovou que talento em perceber o humano em cada personagem era algo que realmente não lhe faltava. Vale experimentar, mas sem esperar os lugares-comuns do gênero.

domingo

PENSAMENTOS MORTAIS

PENSAMENTOS MORTAIS (Mortal thoughts, 1991, Columbia Pictures, 102min) Direção: Alan Rudolph. Roteiro: William Reilly, Claude Kerven. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Tom Walls. Música: Mark Isham. Figurino: Hope Hanafin. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Beth Kushnick. Produção executiva: Stuart Benjamin, Taylor Hackford. Produção: John Fiedler, Mark Tarlov. Elenco: Demi Moore, Bruce Willis, Glenne Headly, Harvey Keitel, John Pankow. Estreia: 19/4/91

Louvado desde sua estreia por sua sofisticação visual e pelo não convencionalismo de sua narrativa, exemplificados em filmes como "Choose me" (84) e "Moderns" (88), o cineasta Alan Rudolph, que começou a carreira como assistente de Robert Altman sempre foi considerado um estranho no ninho dentro da indústria de Hollywood. Por isso, não deixa de ser uma surpresa ver seu nome nos créditos de "Pensamentos mortais", um produto puramente comercial que, lançado em 1991, surfava na onda do sucesso e do prestígio de Demi Moore - recém saída do estrondoso sucesso de "Ghost: do outro lado da vida" (90). Um policial acadêmico e sem maiores arroubos de criatividade - ainda que contado de maneira razoavelmente envolvente -, o filme de Rudolph carece da personalidade própria de seu diretor, mas merece aplausos por tirar tanto Demi quanto seu então marido Bruce Willis de sua zona de conforto, apresentando personagens pouco simpáticos e desprovidos de glamour ou empatia. Com um custo irrisório de apenas 8 milhões de dólares, "Pensamentos mortais" não fez o sucesso esperado - rendeu menos de 20 milhões no mercado doméstico - e tampouco agradou à crítica. É um filme que fica em um incômodo meio-termo entre suas pretensões comerciais e seu desejo de sobressair-se artisticamente de outras produções do gênero.

Na verdade, Rudolph assumiu o comando depois que o diretor escolhido, Claude Kerven, um dos roteiristas, foi demitido, às vésperas do começo das filmagens. A essa altura do campeonato, outras mudanças já haviam sido efetuadas no projeto, como a entrada de Demi Moore como co-produtora e a subsequente escalação de Bruce Willis para o papel crucial - mas no primeiro tratamento de roteiro bastante pequeno - de James Urbanski, o pivô de toda a trama. Ficando com o papel que foi cogitado para Robin Wright, Demi não foi a única substituição do elenco: devido ao atraso no início dos trabalhos, Peter Gallagher pulou do barco e deu lugar a John Pankow para interpretar Arthur, o outro personagem masculino da história. Para viver a melhor amiga de Demi, foi escolhida Glenne Headly - recém-vinda do sucesso "Dick Tracy" - e na pele do detetive de polícia John Woods, ficou o veterano Harvey Keitel (em vias de embarcar no imenso êxito de "Thelma & Louise", de Ridley Scott). Equipe (bem) escolhida e uma corajosa escolha de tema - bem distante dos romances açucarados estrelados por Demi ou dos filmes de ação com Willis. Mas algo não deu certo na combinação de ingredientes.


Não que "Pensamentos mortais" seja um filme irremediavelmente ruim. Pelo contrário, tem algumas ideias muito boas, ainda que não necessariamente novas, como a utilização de flashbacks como forma principal de narrativa. Tal recurso, utilizado com razoável competência (em parte graças à edição de Tom Walls), é que serve de base para o desenvolvimento de um roteiro cujos personagens não são, a princípio, exatamente o que parecem ser. A ciranda de acontecimentos trágicos e inesperados que se sucedem conforme a trama vai se desenrolando é apresentada com um tom seco, apropriado à história, e mantém o interesse do espectador até os últimos minutos, quando finalmente toda a verdade vem à tona. É um enredo simples, tornado complexo pelas constantes reviravoltas. É um filme que cairia como uma luva nas mãos de um cineasta menos sutil, mais afeito ao roteiro do que ao estilo. Talvez Alan Rudolph seja cool demais para uma história tão sórdida, com personagens tão pequenos e rotinas tão mundanas. A impressão que se tem é que o diretor tenta enfeitar a crueldade e a aridez da trama com uma aura de cinema europeu - o que não apenas não funciona como acaba por estragar a maior qualidade do texto.

Tudo bem, Demi Moore tampouco funciona no papel principal, ainda que se esforce. Mas é louvável que tenta tentado fugir do estereótipo de símbolo sexual para viver Cynthia Kellogg, uma cabeleireira que é chamada à delegacia para dar seu depoimento a respeito de um violento homicídio. Não demora a ser revelado que a vítima é James Urbanski (Bruce Willis), o detestável marido de Joyce (Glenne Headly), sua sócia e melhor amiga. Aos poucos o detetive John Woods (Harvey Keitel) vai arrancando de Cynthia todos os detalhes da rotina doméstica do casal, recheada de brigas violentas, e chega até o dia do crime. Quem matou James? Por que? Em que circunstâncias? E o que Arthur (John Pankow), o marido de Cynthia, tem a ver com a história? Tentando responder a essas perguntas clássicas de um filme policial, o roteiro joga pistas e informações sem muita criatividade, seguindo apenas a estrutura clássica de gato e rato há muito consagrada pela literatura e pelo cinema. Bruce Willis é o grande destaque do elenco, excelente como o odioso James Urbanski, e é uma pena que sua participação seja tão curta. Mas ainda assim, a beleza de Demi e o final (mais ou menos) surpreendente fazem do resultado final um produto a que se assiste com facilidade - o problema é que, além de facilmente assistível, é também facilmente esquecível. Um Supercine de luxo!

quarta-feira

GRAND CANYON, ANSIEDADE DE UMA GERAÇÃO

GRAND CANYON, ANSIEDADE DE UMA GERAÇÃO (Grand Canyon, 1991, 20th Century Fox, 134min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Lawrence Kasdan, Meg Kasdan. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Carol Littleton. Música: James Newton Howard. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Produção: Michael Grillo, Lawrence Kasdan, Charles Okun. Elenco: Kevin Kline, Steve Martin, Danny Glover, Mary McDonnell, Mary-Louise Parker, Alfre Woodard, Jeremy Sisto, Tina Lifford, Clifton Collins Jr.. Estreia: 25/12/91

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Em 2005, quando o filme "Crash, no limite" foi lançado, muita gente elogiou sua coragem em tocar no assunto do racismo efervescente da cidade de Los Angeles ao contar várias histórias paralelas que se tocavam tenuemente. O filme de Paul Haggis, repleto de clichês, preconceituoso e superficial ao extremo, conseguiu enganar até mesmo aos membros da Academia, que o escolheram como o melhor filme do ano sobre o infinitamente superior "O segredo de Brokeback Mountain" - não que enganar os vetustos da Academia seja exatamente difícil, que o digam os produtores de "Dança com lobos" (90) e mais recentemente "O discurso do rei" (10). Mas o que pouca gente sabia é que, quase quinze anos antes, um filme mais corajoso, sutil, inteligente e bem escrito também já havia mexido nessa ferida tão dolorosa das diferenças sociais e raciais que flagelam a América. "Grand Canyon, ansiedade de uma geração", dirigido e co-escrito por Lawrence Kasdan, é um sensível e esperançoso retrato de um grupo de pessoas que, a despeito de suas angústias, tentam transformar o seu mundo - e principalmente o dos outros - em um lugar melhor para se viver.

Ao contrário de "Crash", que tinha uma visão pessimista da sociedade e de seus integrantes, fossem eles quais fossem, a visão de Kasdan é repleta de carinho e calor humano, retratando seus personagens como pessoas e não estereótipos rasos. Embora nenhum deles seja perfeito, existe neles um tom de humanismo comovente, que impede tanto o sentimentalismo quanto a generalização rasteira. E até mesmo a metáfora pertinente e esperta utilizada pelo roteiro - e que dá título ao filme - soa poética e como uma lufada de ar fresco diante de um mundo tão atribulado e povoado de mesquinharias. Segundo a visão otimista de Kasdan, o Grand Canyon mostra a real dimensão dos problemas humanos e da própria natureza insignificante de qualquer um diante da imensidão do universo. E é por essa medida que os personagens de seu filme irão avaliar o que o destino põe diante de seus olhos, seja na forma de uma mão que impedem um deles de ser estraçalhado por um ônibus ou do dono de um guincho que salva o mesmo personagem de ser vítima de uma gangue. Sim, existe gangues no universo criado por Kasdan e sua mulher, Meg, mas elas não estão no roteiro apenas para justificar uma teoria racista, e sim para evitar o maniqueísmo que poderia impor-se em uma trama tão, digamos assim, inspiradora.


Se existe um protagonista em "Grand Canyon" pode-se dizer que é Mack (Kevin Kline, ótimo como sempre), um advogado de imigração bem-sucedido, bem-casado com a analista Claire (Mary McDonnell) e pai de um adolescente ajustado e saudável. Uma noite, voltando de um jogo de basquete, ele resolve pegar um atalho para fugir do congestionamento e acaba vendo seu carro - moderno, bem equipado e caro - pifar no meio da rua deserta de um subúrbio nada afável. Quando está em vias de ser assaltado por um grupo de jovens agressivos, ele é salvo pelo gongo, na pele de Simon (Danny Glover), o dono do guincho que o resgata do perigo. De uma conversa casual entre eles surge a vontade irrefreável em Mack de ajudá-lo, seja arrumando uma moradia mais segura para sua irmã - que cria sozinha dois filhos, sendo o mais velho um projeto de marginal graças ao grupo que frequenta - ou apresentando-lhe uma colega de trabalho, Jane (Alfre Woodard). Enquanto isso, sua esposa, durante o tradicional cooper matinal encontra um bebê abandonado em um grupo de arbustos e resolve adotá-lo - mesmo enfrentando a hesitação do marido, que a questiona a respeito de tal vontade por julgar que não passa de uma tentativa de repor na casa o filho que está em vias de ir para a faculdade. Fechando o círculo, está Davis (Steve Martin), amigo de Mack que, produtor de filmes violentos, vê seu próprio mundo voltando-se contra ele depois que é assaltado e ferido gravemente e Dee (Mary-Louise Parker), secretária de Mack que, depois de uma noite com o patrão, se descobre perdidamente apaixonada.

Esse grupo de personagens, ligados por um roteiro compassado e discreto, que não abusa das emoções e nem enfatiza desnecessariamente as tragédias (maiores ou menores) que os acometem, é o centro de "Grand Canyon". Através deles - e das inspiradas atuações, em especial as de Kline e Mary McDonnell - o filme de Kasdan apresenta ao espectador um panorama de emoções discretas mas profundamente pertinentes à sua época, discutindo sem lugares-comuns temas como a violência urbana, a diferença de classes, a solidão e o vazio existencial. Pode-se dizer que seus personagens principais - Mack, Claire e Davis - pertencem a um nicho restrito de Los Angeles (aqueles que possuem bons empregos, carros e propriedades) e que suas ações soam como paternalistas, mas é inegável que existe neles uma boa vontade e um caráter admiráveis (com a possível exceção de Davis, em uma interpretação contida de Steve Martin), que deixam essa afirmação com um tom bastante cínico. Lawrence Kasdan quis mostrar em seu filme que o calor humano e os laços formados a partir deles são as únicas formas de comunicação em um mundo frio e frequentemente hostil a sentimentos mais nobres. Conseguiu com louvor, apesar do filme estender-se um pouquinho em seu terço final. É um belo filme - seu roteiro foi indicado ao Oscar e perdeu para o genial "Thelma & Louise" - que merecia ter tido mais sorte em seu lançamento.

terça-feira

DE SALTO ALTO

DE SALTO ALTO (Tacones lejanos, 1991, El Deseo S/A, 112min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Alfredo Mayo. Montagem: José Salcedo. Música: Ryuichi Sakamoto. Figurino: José Maria de Cossío. Direção de arte/cenários: Pierre Thevenet/Julian Mateos. Produção executiva: Agustin Almodovar. Elenco: Victoria Abril, Marisa Paredes, Miguel Bosé, Ana Lizaran, Feodor Atkine. Estreia: 23/10/91

Quando estava na fase final de filmagens de "Ata-me" (90), filme seguinte ao imenso sucesso de "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (88), que chegou a lhe dar uma inédita indicação ao Oscar de melhor produção estrangeira, o espanhol Pedro Almodovar já tinha em mente o argumento de seu novo projeto. A trama, que contaria a estória de duas irmãs precisando lidar com o reaparecimento de sua mãe tida como morta, acabou não vingando - pelo menos até 2006 quando o cineasta retomou o tema de forma mais burilada no excelente "Volver" - mas o diretor manteve na cabeça a ideia de falar sobre o relacionamento entre mãe e filha, assim como utilizar uma cena que adorava, onde uma apresentadora de telejornal confessava um crime em rede nacional. Surgia assim, a partir de uma ideia vaga e uma cena aparentemente aleatória, o roteiro de "De salto alto", o primeiro de seus filmes a mergulhar sem medo no melodrama rasgado - gênero com que ele ainda flertaria em "A flor do meu segredo" (96) e que lhe daria a consagração mundial com "Tudo sobre minha mãe" (99).

Quem estava acostumado com o estilo iconoclasta de Almodovar - e com seu humor todo particular - deve ter levado um susto ao deparar-se com seu novo filme, uma história de amor e solidão com tom sério e pouco afeito a brincadeiras (e mesmo quando elas aparecem soam dotadas de um cinismo que somente ele poderia apresentar sem parecer amargurado). Mesmo que mantenha algumas de suas maiores características bem explícitas - a desinibida cena de sexo entre Victoria Abril e Miguel Bosé é um exemplo, assim como o uso exemplar das cores e da trilha sonora - o diretor não hesita em conduzir o espectador a um outro nível emocional e sensorial, que superficialmente lembra a estrutura de uma telenovela mas que, em suas diversas camdas, fica entre a profundidade psicológica de Ingmar Bergman (citado em um belo diálogo) e a exuberância visual de Douglas Sirk (referência maior do diretor quando se fala em melodrama).


A protagonista de "De salto alto" é Becky Del Páramo (Marisa Paredes), cantora pop do passado e hoje grande dama da canção espanhola, cujo retorno a Madri depois de quinze anos serve como catalisador de profundas transformações na vida de sua filha única, Rebeca (Victoria Abril), a quem não vê desde criança, quando mudou-se para o México em busca de novos desafios profissionais. O relacionamento distante entre as duas está ainda mais complicado desde que Rebeca, apresentadora de um popular telejornal do país, casou-se com Manuel (Feodor Atkine), antigo amante de sua mãe. O casamento entre eles vai de mal a pior, principalmente porque Manuel ainda sente-se atraído por Becky - uma situação que acaba, mesmo sem querer, aproximando a jovem de Hugo (Miguel Bosé), um conhecido que faz shows vestido como uma drag queen em que imita sua mãe. O imbroglio familiar fica ainda mais complicado, porém, quando Manuel é assassinado com um tiro, o juiz encarregado do caso descobre que ele ainda mantinha um caso com a famosa cantora - e Rebeca assume a autoria do crime em rede nacional.

Desafiando as convenções do gênero policial - o "quem matou" acaba sendo um tema apenas incidental da narrativa - em favor de um viés melodramático, Pedro Almodovar costura sua trama através de dolorosas reminiscências familiares (através de flashbacks que elucidam a dúbia relação entre mãe e filha) que resultam em um presente opressivo e conflituoso. Poucas vezes até então seu cinema se permitiu mergulhar tão fundo na psicologia de seus personagens, seja através de diálogos brilhantes (recitados por Victoria Abril e Marisa Paredes em momento fundamental de suas carreiras), do figurino caprichado (que se utiliza da sofisticação das roupas Chanel para comentar a personalidade das protagonistas) e da música, escolhida a dedo - apesar da trilha sonora ter sido composta pelo veterano Ryuchi Sakamoto, o diretor optou por coalhar a estória com canções populares regravadas especialmente para o filme, como forma de sublinhar as emoções da trama. Até mesmo algumas ousadias como usar o mesmo ator - Miguel Bosé - para interpretar dois personagens (ou três, dependendo do ponto de vista) soa, mais do que um artíficio, como um golpe de mestre do cineasta, que embaralha suas cartas de forma a surpreender a plateia - coisa que também faz em um momento inusitado no meio do filme, quando um grupo de presidiárias, do nada, começa uma coreografia.

"De salto alto" foi, sem dúvida, o primeiro grande passo de Pedro Almodovar rumo à sofisticação narrativa com a qual seria reconhecido mundialmente em poucos anos. Substituindo o humor corrosivo e absurdo com que salpicava suas obras por um tom menos debochado mas ainda assim não totalmente desprovido de ironia e sarcasmo (mesmo que bem disfarçado por metáforas visuais e conceituais), o cineasta provou que tinha talento de sobra para sair de sua zona de conforto e buscar mais alcance com as estórias recheadas de personagens deliciosos que habitavam sua mente. O resultado dividiu a crítica, mas hoje, mais de duas décadas depois de seu lançamento, pode ser considerado, sem dúvida, um de seus filmes mais importantes.

segunda-feira

NO MUNDO DA LUA

NO MUNDO DA LUA (The man in the moon, 1991, MGM Pictures, 99min) Direção: Robert Mulligan. Roteiro: Jenny Wingfield. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Trudy Ship. Música: James Newton Howard. Figurino: Dawni Saldutti, Peter Saldutti. Direção de arte/cenários: Gene Callahan/Daril Alder. Produção executiva: William S. Gilmore, Shari Rhodes. Produção: Mark Rydell. Elenco: Sam Waterston, Tess Harper, Gail Strickland, Reese Witherspoon, Jason London. Estreia: 30/8/91 (Festival de Deauville)

Em 1971, o cineasta Robert Mulligan conquistou a plateia com a sensível história do primeiro amor de um adolescente dos anos 40 no belo e etéreo "Houve uma vez um verão" - cuja música-tema marcou uma geração inteira. Vinte anos depois, ele novamente voltou seu olhar poético para a descoberta da paixão em "No mundo da lua", um drama simples e delicado que, se não obteve o mesmo resultado nas bilheterias e na crítica, ao menos serviu para lançar uma atriz que se tornaria extremamente popular alguns anos depois: Reese Witherspoon. Com 14 anos de idade à época das filmagens, Witherspoon tomou para si sem medo a responsabilidade de ser o centro de uma história de amor e sofrimento juvenil e acabou se tornando o maior destaque do filme, embalado por uma trilha sonora na voz de Elvis Presley e um tom melancólico que dialoga com delicadeza com o clássico de Mulligan.

De uma cidadezinha litorânea em 1942 a história se desloca para uma região agrária da Louisianna no final da década de 50. Sai um adolescente tímido sedento por perder a virgindade e entra uma menina de 14 anos, Dani Trant, fã de Elvis e curiosa a respeito dos fatos da vida. Seu cotidiano, formado pela escola dominical, ajuda doméstica à mãe grávida pela quarta vez e brincadeiras pelos arredores que incluem mergulhos na propriedade vizinha, é chacoalhado com a chegada da família Foster, amiga de seus pais, que retorna à cidade depois da morte do patriarca. Dani imediatamente se sente atraída pelo filho mais velho dos rapazes, Court (Jason London), de 17 anos, com quem inicia uma amizade hesitante - ela está disposta a experimentar com ele todas as sensações amorosas possíveis, mas ele a considera jovem demais para ele. O relacionamento entre eles - idílico para ela, inconsequente para ele - sofre um baque quando Court se apaixona pela irmã mais velha de Dina, a responsável Maureen (Emily Warfield), que vê nele um rapaz totalmente diferente daqueles machistas e aventureiros com quem vem convivendo desde sempre.


Não há nada em "No mundo da lua" que seja diferente do já visto, mas Robert Mulligan consegue, mais uma vez, transmitir, através de seus personagens e ambientação um estilo de vida e uma época distantes do espectador. A música de James Newton Howard é um dos principais elementos responsáveis por tal êxito, mergulhando o público em um universo bucólico e nostálgico, cercado de natureza e liberdade. O roteiro de certa forma surpreende por deixar de lado assuntos polêmicos como a sexualidade na adolescência, concentrando-se basicamente nas relações familiares da protagonista - carinhosas e até mesmo libertárias, levando-se em conta a situação feminina nos anos 50, especialmente no interior dos EUA. Defendidos por atores de respeito - Sam Waterston e Tess Harper - os pais de Dani servem como um contraponto pacífico em meio ao turbilhão efervescente de hormônios de suas filhas mais velhas, cuja amizade e união são postas a prova quando uma tragédia se anuncia no horizonte.

É difícil não simpatizar com "No mundo da lua", apesar (ou exatamente por causa) de sua falta de grandes ambições. Sua história quase adocicada é contada de maneira sossegada e sem pressa, por um elenco discreto mas bastante eficaz. Jason London constroi um Court Foster encantador, um rapaz obrigado a lidar inesperadamente com as dificuldades da vida depois da morte do pai e Waterston (que fez alguns filmes com Woody Allen) e Harper (que chegou a ser indicada ao Oscar de coadjuvante por "Crimes do coração" (86)) pontuam com discrição o show particular de Reese Witherspoon, que já demonstrava seu carisma em um papel difícil e desafiador. Se nenhum motivo é o suficiente para arriscar uma sessão, só a possibilidade de vê-la em início de carreira - e talvez derramar algumas lágrimas - já seria um bom começo.

domingo

O PESCADOR DE ILUSÕES

O PESCADOR DE ILUSÕES (The fisher king, 1991, Columbia Pictures, 137min) Direção: Terry Gillian. Roteiro: Richard LaGravenese. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Lesley Walker. Música: George Fenton. Figurino: Beatrix Pasztor. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Cindy Carr. Produção: Debra Hill, Lynda Obst. Elenco: Robin Williams, Jeff Bridges, Amanda Plummer, Mercedes Ruhel, David Hyde Pierce. Estreia: 13/9/91 (Festival de Toronto)

5 indicações ao Oscar: Ator (Robin Williams), Atriz Coadjuvante (Mercedes Ruehl), Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Mercedes Ruehl)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Comédia/Musical (Robin Williams), Atriz Coadjuvante (Mercedes Ruehl) 

Mendigos. Irresponsabilidade da mídia. Depressão. Solidão. A busca pelo Santo Graal. Não é preciso ser um analista comercial para perceber que elementos tão díspares não são exatamente o que um estúdio cioso de suas finanças procura quando deseja lançar um filme - principalmente quando o diretor escolhido é um ex-integrante de uma trupe inglesa famosa por não deixar pedra sobre pedra quando se trata de retratar a sociedade, o Monthy Python. Por que, então, já que une todos esses ingredientes tão amargos, "O pescador de ilusões" caiu tanto na graça de todo mundo, a ponto de ter sido apontado, já em sua estreia no Festival de Toronto, como um dos mais fortes candidatos ao Oscar do ano? Simplesmente porque a amizade travada entre um radialista caído em desgraça e um mendigo delirante com um passado trágico, dirigida com extrema sensibilidade por Terry Gillian - cujo trabalho anterior, "As aventuras do Barão de Munchausen" (89) deu mais trabalho do que dinheiro - é um daqueles filmes de aquecer o coração, sem que para isso precise apelar para o sentimentalismo ou os clichês. É uma pérola de poesia, uma tragicomédia enfeitada com diálogos preciosos e atuações nunca aquém de espetaculares.

Quando o filme começa, o radialista Jack Lucas (Jeff Bridges, brilhante) está no auge do sucesso com seu programa onde fala pelos cotovelos contra tudo e contra todos. Em vias de assinar um contrato milionário para estrear no cinema, ele acaba vendo seus conselhos irresponsáveis causarem uma tragédia: um de seus ouvintes, menos capacitados a filtrar o que é ironia ou não em seus discursos demagogos, invade um restaurante com uma arma, mata sete pessoas e se suicida em seguida. Três anos depois, Jack está na pior: vive de favor na casa da compreensiva e dedicada namorada, Anne (Mercedes Ruehl, ótima em todas as cenas), a dona de uma locadora de vídeo, está desempregado e passando por uma séria crise de depressão. Uma noite, bêbado e em vias de ser espancado por um grupo de jovens delinquentes (incluindo um iniciante Dan Futterman, que anos depois seria indicado ao Oscar de roteiro adaptado por "Capote"), ele é resgatado por Parry (Robin Williams), um mendigo que, conforme ele fica sabendo a seguir, tem como objetivo na vida resgatar o Santo Graal - o cálice utilizado por Cristo na Última Ceia - da casa de um milionário nova-iorquino. A perspectiva de Jack a respeito de Parry - a quem a princípio considera apenas mais um sem-teto da cidade - se transforma radicalmente, porém, quando ele descobre o passado do excêntrico novo amigo: professor de História renomado e conceituado, ele foi parar nas ruas depois de um período de catatonia provocado pelo assassinato da esposa - justamente pelo ouvinte radical de Jack. Sentindo-se responsável pelo destino de Parry, ele então decide ajudar-lhe a conquistar o coração de sua nova amada, a estranha Lydia (Amanda Plummer).


Fotografado com assustadora competência por Roger Pratt, que encontra beleza e poesia mesmo nos becos mais sujos e perigosos de Nova York, "O pescador de ilusões" tem na sensibilidade um dos seus pontos mais altos: sem preocupar-se com a lógica ou com o realismo, Terry Gillian surpreende o espectador com sequências deslumbrantes e mágicas, como o baile inusitado em meio ao burburinho da estação de metrô da cidade quando Parry vê Lydia passando ou a sui generis reconstituição, em um hospital público, da "Pietá", de Michelangelo, protagonizada por Jack e um mendigo homossexual que tem por hábito imitar números musicais pelas ruas. Esses momentos lúdicos - e aqueles em que Parry precisa enfrentar seu maior medo, um cavaleiro medieval vestido de vermelho que lança fogo pelas ruas - não deixam, no entanto, que o filme perca sua essência totalmente humana. O roteiro de Richard LaGravenese - que concorreu ao Oscar da categoria mas perdeu para o sensacional "Thelma & Louise" - é recheado de bons diálogos, sustentados por personagens sólidos, que conquistam pela veracidade com que transmitem seus sentimentos, por mais bizarros que possam parecer em um primeiro vislumbre. E é seu mérito que nenhum dos quatro protagonistas seja unidimensional, sempre pegando o espectador de surpresa com atitudes raras em uma produção comercial hollywoodiana.

E na verdade, "O pescador de ilusões" pode parecer tudo, menos uma típica produção hollywoodiana. Não fosse pela presença de nomes conhecidos no elenco, como os de Robin Williams (indicado ao Oscar por sua performance) e Jeff Bridges, poderia facilmente passar por um filme europeu, por suas escolhas pouco convencionais de narrativa, por seu visual que foge dos clichês cartões-postais e até mesmo por seu transgressor final feliz, que renega as expectativas construídas para deixar a plateia com um sorriso no rosto, feliz por ter investido pouco mais de duas horas em um dos mais satisfatórios dramas americanos dos anos 90. Um filme praticamente sem erros, é, sem dúvida, a obra-prima da carreira de Terry Gillian.

sábado

GAROTOS DE PROGRAMA

GAROTOS DE PROGRAMA (My own private Idaho, 1991, New Line Cinema, 104min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Gus Van Sant, inspirado livremente em "Henry IV", de William Shakespeare. Fotografia: John Campbell, Eric Alan Edwards. Montagem: Curtiss Clayton. Música: Bill Stafford. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Melissa Stewart. Produção: Laurie Parker. Elenco: River Phoenix, Keanu Reeves, James Russo, William Richert, Chiara Caselli, Flea, Udo Kier, Grace Zabriskie. Estreia: 12/9/91 (Festival de Toronto)

Quando "Garotos de programa" estreou, no Festival de Toronto de 1991, o diretor Gus Van Sant já era um queridinho do mundo do cinema independente, graças ao sucesso de seu filme de estreia, "Drugstore cowboy", que contava as aventuras de um grupo de jovens viciados em drogas que repunham seu estoque assaltando farmácias. Seu filme seguinte, que misturava três projetos que estavam em seu colo sem conseguir levantar voo, conquistou ainda mais a crítica especializada, levando prêmios por festivais mundo afora (Veneza, Toronto, Deauville) e dando a River Phoenix, um de seus protagonistas, o status de grande ator com que ele acenava desde os tempos de "Conta comigo" (86): na pele do prostituto juvenil e narcoléptico Mike Waters, ele foi eleito o melhor ator do Festival de Veneza e levou o prêmio da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema, além do Independent Spirit Award do ano. Não é pouca coisa para quem tinha apenas 20 anos de idade durante as filmagens - e que infelizmente morreu tragicamente aos 23 anos, vítima de overdose.

Não é exagero afirmar que o trabalho de Phoenix - discreto, lúdico e comovente - é a maior qualidade de "Garotos de programa", e o que justifica todo o oba-oba em relação ao filme de Van Sant, um retrato mezzo poetico mezzo pé no chão do dia-a-dia de jovens que vendem o corpo para sobreviver nas ruas de Portland, Oregon. Centrando sua trama em dois personagens com passados bastante distintos mas com realidades muito semelhantes, o roteiro do diretor (livremente inspirado em "Henry IV", de Shakespeare) passeia por cenários diversos (Portland, Idaho e até Roma) para contar a história de busca e tentativa de redenção do jovem Mike (papel de Phoenix, que, inspirado, chegou a reescrever uma cena crucial do filme, com o apoio do diretor), rapaz abandonado pela família, narcoléptico (tem crises irrefreáveis de sono em momentos de stress), gay e apaixonado pelo melhor amigo, que acredita que o reencontro com a mãe mudará seu destino. Ele conta com o apoio de Scott Favor (Keanu Reeves), filho de família influente que tornou-se michê como forma de afrontar ao pai - afronta esta que tem data limite para expirar - e insiste em declarar-se heterossexual. Os dois partem em uma odisseia passional, sem lenço nem documento, contando apenas com sua juventude e seus corpos como forma de ganhar dinheiro.


A trama de "Garotos de programa" beira o melodrama barato, com filhos abandonados pela mãe, amores impossíveis, juventude radical contra os convencionalismos arcaicos, mas Van Sant tem o mérito de mesclar com todos esses elementos clássicos uma forma de narrativa criativa e por vezes desconcertante. Em seu universo, capas de revistas direcionadas ao público gay conversam entre si nas bancas onde estão expostas, bêbados de rua declamam Shakespeare e as cenas de sexo são estilizadas a ponto de parecer slides ou fotografias - tanto o ménage-à-trois entre os dois amigos e um milionário alemão vivido pelo sempre bizarro Udo Kier quanto a cena pretensamente tórrida entre Keanu Reeves e uma jovem italiana por quem ele se apaixona, para desespero de Mike, são propositalmente chocantes não pelo que mostram (pouco) mas pela maneira como isso acontece. Essa criatividade de Van Sant é enfatizada constantemente pelos ângulos inusitados de câmera, pelas elipses narrativas que dão ao espectador a mesma sensação de angústia de Mike e pela edição pouco convencional, que borra as fronteiras entre o cinemão comercial americano e o mais puro cinema independente - que pouco depois seria desvirtuado em função de objetivos comerciais até pelo próprio diretor (que se venderia à indústria com filmes com "Gênio indomável" (87)). Essa importância, a de dar voz a um cinema realmente desvinculado dos grandes estúdios americanos, ninguém pode tirar do filme, por mais que ele possa desagradar parte da plateia.

Sem fixar-se em assuntos polêmicos, como a prostituição masculina em si - tornada cômica em determinadas sequências, diretas em outra, mas nunca mostrada como uma condição degradante ou vitimizadora, o que por si só já é um mérito inegável - "Garotos de programa" trata seus personagens com carinho, ainda que por vezes lhes dê uma considerável carga de dramas pessoais para carregar em suas costas frágeis. A interpretação singela de River Phoenix, especialmente, imprime ao filme uma ternura e uma delicadeza que tiram o peso que o tema poderia lhe infligir, carregando-o de poesia e tristeza. O filme de Van Sant pode não ser uma unanimidade por várias razões, mas seu tom melancólico mesmo nos momentos mais leves - somado à atuação de Phoenix e sua coragem em romper com alguns padrões narrativos clássicos - merece ser louvado e respeitado.

sexta-feira

MENTES QUE BRILHAM

MENTES QUE BRILHAM (Little man Tate, 1991, Orion Pictures, 99min) Direção: Jodie Foster. Roteiro: Scott Frank. Fotografia: Mike Southon. Montagem: Lynzee Klingman. Música: Mark Isham. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Sam Schaffer. Produção executiva: Randy Stone. Produção: Peggy Rajski, Scott Rudin. Elenco: Jodie Foster, Dianne Wiest, Adam Hann-Byrd, Harry Connick Jr., David Hyde Pierce, Debi Mazar, Celia Weston. Estreia: 06/9/91 (Festival de Toronto)

Sendo uma atriz que desde a mais tenra infância foi obrigada a lidar com as benesses e os malefícios da genialidade, Jodie Foster deve ter encontrado especial ressonância na estória do pequeno Fred Tate, criada pelo roteirista Scott Frank. Superdotado mentalmente mas renegado à solidão inerente à sua condição, o pequeno Fred é o protagonista do primeiro filme de Jodie como diretora, o delicado e sensível "Mentes que brilham" - que ela assumiu, aliás, depois que Joe Dante abandonou o barco alegando as famosas diferenças artísticas. Provando que seu talento não se resume a atuar - fato que seus dois Oscar confirmam além de qualquer dúvida - Foster construiu uma pequena história familiar, discreta e sem excessos que reflete com perfeição sua personalidade e inteligência.

Deixando de lado a vaidade que normalmente acompanha a decisão de atores em se tornarem cineastas, Foster não põe o ponto de vista de sua personagem como foco central da trama, preferindo - acertadamente - manter a história em torno de seu pequeno protagonista, interpretado com frescor pelo encantador Adam Hann-Byrd. Aos sete anos de idade, Fred Tate é capaz de escrever poesias, pintar a óleo, tocar piano como um adulto profissional e realizar complicadíssimas equações matemáticas. Como não poderia deixar de ser, tais dons o afastam dos colegas (que o veem como um alienígena) e fazem dele um menino solitário e carente, apesar de manter uma relação calorosa e de extremo amor e afeto com a mãe, a garçonete Dede (vivida pela própria Jodie), que o criou sozinha desde seu nascimento. Sua inteligência acima da média acaba chamando a atenção de Jane Grierson (Dianne Wiest), uma médica que convida o garotinho para conviver com outras crianças semelhantes a ele em um programa direcionado à crianças superdotadas. Sabendo que é incapaz de prover ao filho um ambiente que lhe faça crescer ainda mais intelectualmente, Dede acaba cedendo, mas o menino percebe que o que sobra em sua mãe - amor, carinho, dedicação - falta em Jane, que, apesar de brilhante, não construiu à sua volta uma rede saudável de relacionamentos emocionais.


Sem querer impor nenhum tipo de verdade absoluta, o roteiro de "Mentes que brilham" expõe todas as dificuldades enfrentadas por Tate em sua trajetória de maneira lúdica, quase carinhosa. O olhar tristonho de Hann-Byrd fala mais do que páginas inteiras de diálogo, e Foster o capta com delicadeza, levando a plateia para dentro de sua alma torturada pelo desejo de ser uma criança normal, com amigos, uma festa de aniversário bem-sucedida, brincadeiras tolas e conversas prosaicas. Essa dualidade é bem representada pela construção sólida das protagonistas adultas do filme, interpretadas com a maestria de sempre por Jodie e Dianne Wiest. Enquanto Dede não sabe nem ao menos o número de teclas de um piano e prefere dançar com o filho ao invés de ler um livro, ao menos ela consegue lhe dar conforto e a sensação de segurança emocional de que ele precisa. Já Jane, sóbria em roupas elegantes e modos polidos, sabia tocar violino desde a infância, escreveu vários livros e dedica seus dias a exercitar em jovens os dons que eles possuem, mas é mutilada emocionalmente, tendo tido uma relação distante com os pais e uma incapacidade flagrante de ser espontânea e verdadeira.

Tendo estreado em meio a uma grave crise da Orion Pictures - que o escolheu em detrimento de "Céu azul", de Tony Richardson, uma vez que era impossível lançar os dois no mesmo ano e o estúdio estava em meio à sua bem-sucedida campanha para dar a Jodie Foster seu segundo Oscar, por "O silêncio dos inocentes" - "Mentes que brilham" colecionou críticas extremamente positivas, uma bilheteria nada desprezível em se tratando de uma obra com poucas ambições comerciais e um prestígio que poucos diretores conseguem alcançar em um primeiro trabalho (e prestígio dura bem mais do que meia dúzia de Oscar, que o diga Kevin "Dança com lobos" Costner). Uma pena que, mesmo com tanto sucesso, a diretora Jodie Foster seja ainda tão bissexta - depois deste, ela voltou para trás das câmeras apenas com "Feriados em família" (95) e o estranho e não tão bom "Um novo despertar" (2011). Que seu retorno seja rápido.

quinta-feira

VOLTAR A MORRER

VOLTAR A MORRER (Dead again, 1991, Paramount Pictures, 107min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Scott Frank. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Peter E. Berger. Música: Patrick Doyle. Figurino: Phyllis Dalton. Direção de arte/cenários: Tim Harvey/Jerry Adams. Produção executiva: Sydney Pollack. Produção: Lindsay Doran, Charles H. Maguire. Elenco: Kenneth Branagh, Emma Thompson, Derek Jacobi, Andy Garcia, Robin Williams, Hanna Schygulla, Campbel Scott, Wayne Knight. Estreia: 30/8/91

Em 1990 o cineasta irlandês Kenneth Branagh pegou o mundo de surpresa com sua visceral adaptação cinematográfica de "Henry V", de Shakespeare, pela qual foi indicado aos Oscar de ator e direção. Sua estreia nos auspícios do cinema hollywoodiano, então, surpreendeu ainda mais: quando todos esperavam uma nova versão para as telas da obra do bardo - coisa que ele faria posteriormente com o solar "Muito barulho por nada" (93) e o sublime "Hamlet" (96) - o jovem cineasta, então com meros 30 anos de idade resolveu brincar de Hitchcock. Com base em um roteiro do também jovem Scott Frank, Branagh apresentou à audiência o intrigante "Voltar a morrer", um suspense clássico com pitadas de espiritualidade - em voga desde o impressionante êxito de "Ghost, do outro lado da vida" (90), coincidentemente ou não produzido pela mesma Paramount Pictures - e um tom de seriedade sublinhado pela trilha sonora de Patrick Doyle e pelo genial elenco, que mesclava grandes atores ingleses (como a então sra. Branagh, Emma Thompson e o veterano Derek Jacobi), a musa alemã Hannah Schygulla e os hollywoodianos Robin Williams e Andy Garcia.

Não é preciso acreditar em vidas passadas e reencarnação para se envolver com a trama de "Voltar a morrer", mas é bom que se mantenha a mente aberta para melhor usufruir de todas as surpresas do filme, que começa como um policial típico dos anos 90 para depois seguir uma trilha com ecos metafísicos que funcionam com perfeição à trama - e lhe dão o molho especial que o destaca entre seus congêneres: tudo se passa em Los Angeles, quando o detetive Mike Church (Branagh com um convincente sotaque americano) é procurado pelo orfanato onde foi criado para investigar a identidade de uma mulher encontrada vagando muda pelas ruas da cidade (Emma Thompson). A contragosto - mas de certa forma atraído pela desconhecida, Church acaba postando um anúncio de jornal em busca de informações a seu respeito. Quem chega até seu apartamento é o misterioso Franklyn Madson (Derek Jacobi), dono de um antiquário que também trabalha como hipnotista e se oferece para, através de sessões em sua casa, tentar descobrir a identidade da desmemoriada. Durante uma dessas sessões, ele descobre que ela é a reencarnação de Margaret Strauss (também Thompson), música que, quarenta anos antes, foi assassinada a tesouradas pelo marido, o maestro europeu Roman (novamente Branagh).


Convencidos por Cozy Carlisle (Robin Williams) - um psiquiatra que teve seus direitos de exercer a profissão cassados por dormir com suas pacientes - de que seu reencontro na década de 90 tem a ver com as teorias de reencarnação, Church e Grace (o nome real da artista plástica, que tem a identidade recuperada através de investigações mais profundas do detetive) chegam à conclusão de que são, na verdade, a nova vida do casal Strauss, que, no final da década de 40, estampou as manchetes dos jornais com seu sangrento final - ela assassinada, ele condenado à morte. Certa de que Church está disposto a matá-la como forma de reviver o passado, Grace se afasta dele, mas uma reviravolta muda todo o jogo quando novas cartas são postas na mesa - e Church consegue localizar Gray Baker (Andy Garcia), o jornalista que de certa forma foi o pivô da tragédia e testemunhou os últimos momentos do maestro.

Mesmo que não fique tão à vontade dirigindo um thriller quanto o faz no comando de uma obra shakespereana, não dá para negar que Branagh acertou na maior parte de suas escolhas. Ainda que o roteiro por vezes o obrigue a apelar para os mais deslavados clichês - o clímax do final, por exemplo, incomoda por fugir do registro discreto e elegante que o filme vinha adotando - o cineasta consegue impor seu bom-gosto em sequências recheadas de um suspense que surge da sugestão e do clima enfatizado pela bela fotografia de Matthew F. Leonetti - sensual e sinistra no preto-e-branco do passado e quente e luminosa no colorido do presente. Ao contar duas histórias em tempos distintos que se cruzam pela força do destino - ou carma, ou talento do roteirista - Branagh conduz a plateia por um labirinto de lembranças sufocadas, por antiquários claustrofóbicos e por mistérios que deveriam manter-se sepultados, explorando, para isso, todos os artifícios que o bom cinema pode proporcionar.

Hitchcock teria orgulho, por exemplo, de todas as cenas (desprovidas de cores) que mostram os antecedentes do violento assassinato na mansão Strauss: a câmera passeia pelo suntuoso cenário, onde festas e reuniões escondem segredos e possíveis adultérios por trás de seu véu de sofisticação. São nesses momentos que Branagh mostra o requinte de sua direção, acompanhando lentamente seus personagens rumo ao abismo - é sensacional, por exemplo, a cena em que Strauss e Gray Baker conversam, antes da morte do maestro, sob um clima construído delicadamente com música, fotografia e atuações excepcionais. Tal cuidado se reflete também na escalação do elenco coadjuvante: não existe um único personagem da trama que não mereça do cineasta a atenção necessária, deixando claro que Branagh é um grande diretor de atores mesmo quando não está diante do material ideal. Sua brincadeira de Hichcock pode não ter sido perfeita, mas alcançou notas muito superiores a gente bem mais experiente no assunto. Um ótimo jogo de gato-e-rato, que, descontando-se alguns pecadilhos, é muito superior à média.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...