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quarta-feira

SETE HOMENS E UM DESTINO

SETE HOMENS E UM DESTINO (The magnificent seven, 2016, MGM/Columbia Pictures, 132min) Direção: Antoine Fuqua. Roteiro: Nic Pizzolatto, Richard Wenk, roteiro original de Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, Hideo Oguni. Fotografia: Mauro Fiore. Montagem: John Refoua. Música: James Horner. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Bradford Johnson, Melissa Lombardo. Produção executiva: Bruce Berman, Antoine Fuqua, Walter Mirisch, Ben Waisbren. Produção: Roger Birnbaum, Todd Black. Elenco: Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Haley Bennett, Vincent D'Onofrio, Peter Sarsgaard, Matt Bomer, Byung Hu-Lee, Manuel Garcia-Rulfo, Martin Seinsmeier, Luke Grimes, Cam Gigandet. Estreia: 08/9/16 (Festival de Toronto)

Não deixou de ser irônica a gritaria em torno da refilmagem de "Sete homens e um destino", quando ela foi anunciada pelo cineasta Antoine Fuqua. Primeiro porque o filme de 1960, dirigido por John Sturges, foi uma decepção de bilheteria quando estreou nos EUA, tornando-se cult somente anos mais tarde, depois do sucesso comercial na Europa. E segundo porque ele mesmo não era uma ideia original, e sim o remake americano do japonês "Os sete samurais" (54), de Akira Kurosawa, este sim um êxito internacional incontestável e atemporal. Estrelado por um elenco de astros do gabarito de Yul Brinner, Steve McQueen e Charles Bronson, a versão de Sturges acabou se transformando em um clássico do western americano, uma espécie de patrimônio intocável - o que resultou na série de questionamentos a respeito dos motivos que levariam Fuqua (um diretor apenas razoável, cujo maior cartão de visita é "Dia de treinamento", que deu o Oscar de melhor ator a Denzel Washington em 2002) a mexer com tal vespeiro. A boa notícia é que, apesar das alterações em pequenos detalhes da trama (ou talvez justamente por causa delas), a versão século XXI de "Sete homens e um destino" - politicamente correta, representativa e multicultural - é um faroeste à moda antiga filmado com os recursos da moderna Hollywood. Em resumo, o melhor dos dois mundos em um resultado final que agrada aos neófitos (aqueles que jamais assistiram a nenhum dos originais) e não ofende aos fãs dos clássicos.

Como não poderia deixar de ser ao tratar-se de um filme dirigido por um cineasta afro-americano engajado e militante, a principal mudança de "Sete homens e um destino" em relação à versão de Sturges foi eleger como protagonista um ator negro (algo impensável em uma Hollywood que somente no final da década de 60 começaria a dar os primeiros e tímidos passos em direção ao assunto, com a presença de Sidney Poitier em sucessos de bilheteria e crítica). Na pele do destemido oficial de justiça Sam Chilsom - que anda pelo país à caça de bandidos procurados pela polícia - está Denzel Washington, um dos mais representativos astros negros dos EUA, respeitado e admirado tanto pelo público quanto pela indústria. Sua imponência física e seu ar de autoconfiança cai como uma luva na história, reescrita por Nic Pizzolatto e Richard Wenk de acordo com os tempos modernos: não apenas o grupo de protagonistas é liderado por um negro, mas conta também com um oriental, um indígena, um mexicano e, surpresa das surpresas, tem até mesmo uma forte presença feminina na figura de Emma Cullen (Haley Bennett), a responsável por pedir ajuda a Chilsom na sua batalha para livrar sua pequena cidade, Rose Creek, dos desmandos do implacável e truculento Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard, assustadoramente magro e cruel). É Emma, que acaba de perder o marido pelas mãos sanguinárias de Bogue, quem contrata os serviços de Chilsom - mas, como manda o figurino do cinema do século XXI, não se faz de rogada e não foge à luta, encarando em pé de igualdade (ou quase) o batalhão de capangas que aceita o desafio de invadir a cidade e tomá-la a custo de sangue.


A primeira parte do filme, como não poderia deixar de ser, serve para que Fuqua apresente seus personagens e mostre como cada um dos sete homens do título é recrutado. Assim, surge em cena o falastrão e carismático Josh Faraday (Chris Pratt em papel sob medida para seu talento em roubar cenas), o traumatizado e famoso atirador Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke) - junto com seu associado Billy Rocks (Byung-hun Lee) - e o veterano e excêntrico Jack Horner (Vincent D'Onofrio). O grupo é completo pelo mexicano fora-da-lei Vasquez (Manuel Garcia-Rulfo em papel que quase ficou com o brasileiro Wagner Moura) e o indígena Red Harvest (Martin Seinsmeier), que partem em direção à Rose Creek com o objetivo de resolver a questão definitivamente. Além deles, estão Emma e seu amigo Teddy Q (Luke Grimes), que tem razões mais do que suficientes para odiar Bogue e o que ele representa - algo que os une à Chilsom, que também tem questões mal-resolvidas com o ambicioso latifundiário. Depois de um tiroteio que anuncia sua chegada à cidade, o bando de Chilsom então marca o duelo com seu antagonista - e é aí que Fuqua surpreende positivamente.

Dirigindo com firmeza longas sequências de ação, o cineasta não apenas consegue o feito de não soar tedioso ou repetitivo como ainda vai mais longe, orquestrando uma coreografia milimetricamente criada para manter o público de olhos grudados na tela. Para isso, colabora a edição de John Refoua - que mantém mais de uma linha narrativa ao mesmo tempo - e o trabalho de sonorização, impecável e eficiente. Se até então o maior mérito do filme era desenvolver os personagens com a maior clareza possível em tão pouco tempo (a duração mal passa de duas horas, um milagre em tempos de obras que chegam a 180 minutos sem necessidade), a partir do começo da briga entre mocinhos e bandidos ,"Sete homens e um destino" se apresenta como um legítimo representante do western moderno - sem complexidades existenciais ou autoparódia, mas como um filme que deixa bem claro a linha que separa o bem do mal, a luz das trevas, a honra da traição. Seus protagonistas - por mais falíveis que sejam -, carregam a aura de heróis, uma aura que forjou um dos gêneros mais queridos e influentes da indústria hollywoodiana. Ao respeitar os cânones de tal gênero e filtrá-lo sob uma luz moderna, Fuqua criou seu melhor trabalho, um filme que encanta pelos valores de produção - como a bela fotografia de Mauro Fiore e a trilha sonora de James Horner, que homenageia a clássica composição de Elmer Bernstein para a produção de 1960 nos letreiros finais - e pela capacidade de contar uma velha e conhecida história lhe dando ares de novidade e inteligência. Um belo filme, uma bela surpresa e um dos raros remakes dignos já feitos em Hollywood!

quinta-feira

GUARDIÕES DA GALÁXIA

GUARDIÕES DA GALÁXIA (Guardians of the Galaxy, 2014, Marvel Studios/Marvel Enterprises, 121min) Direção: James Gunn. Roteiro: James Gunn, Nicole Perlman, comic books de Dan Abnett, Andy Lanning, personagens de Bill Mantlo, Keith Giffen, Jim Starlin, Steve Englehart, Steve Gan, Steve Gerber, Val Mayerik. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Fred Raskin, Hughes Winborne, Craig Wood. Música: Tyler Bates. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Charles Wood/Richard Roberts. Produção executiva: Victoria Alonso, Louis D'Esposito, Alan Fine, Nik Korda, Jeremy Latcham, Stan Lee. Produção: Kevin Feige. Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Lee Pace, Michael Rooker, Djimon Houson, John C. Reilly, Karen Gillan, Glenn Close, Benicio Del Toro. Estreia: 21/7/14

2 indicações ao Oscar: Maquiagem, Efeitos Visuais

Quem disse que apenas de super-heróis conhecidos e consagrados vive a Marvel? Em 2014, um filme que não tinha um personagem adorado pelo público (como Homem-Aranha, Thor, Capitão América ou Homem de Ferro) nem um astro capaz de arrastar multidões apenas por sua causa (o maior sucesso de seu ator central havia sido "Jurassic World", de 2013, que tinha nos dinossauros seu principal ponto de venda e interesse) surpreendeu a todos com uma bilheteria mundial de mais de 770 milhões de dólares. Confirmação absoluta do poder da marca Marvel, "Guardiões da galáxia" faz parte do mesmo universo dos Vingadores - do qual fazem parte os personagens citados acima - mas suas ligações com ele são apenas circunstanciais, perceptíveis apenas aos fãs mais antenados, que percebem cada detalhe que une todas as histórias em uma só. Àqueles que não tem o mesmo encantamento ou interesse pelo mundo de super-heróis que vem povoando as telas de cinema há quase uma década - os primeiros filmes dessa nova concepção foram "Homem de Ferro" e "O incrível Hulk", ambos de 2008 - o filme de James Gunn serve perfeitamente como uma divertida, agitada e descompromissada comédia de ação, comandada por um espetacular Chris Pratt e recheada de efeitos visuais caprichados e personagens coadjuvantes carismáticos e interessantes. Não à toa, apesar da incerteza acerca de sua bilheteria antes da estreia, o final já deixa claro que a aposta não era tão às cegas assim. Cinema de verão, afinal, é exatamente como "Guardiões da galáxia".

Visualmente impecável, o filme de James Gunn é quase infantil em seu humor fácil e personagens que prescindem de todo tipo de realismo, mas ainda assim consegue cativar todos os tipos de público. O roteiro - coescrito pelo diretor e por Nicole Perlman, primeira mulher a ter seu nome nos créditos de um roteiro da Marvel - usa e abusa do bom-humor, inserindo piadas nas horas exatas e fazendo de seu protagonista um personagem de quem é impossível desgostar. Sem levar-se demais a sério, a história é quase uma desculpa para uma sequência de bons momentos de ação e comédia, embalados em uma direção de arte de um colorido quase kitsch e uma trilha sonora deliciosa - uma seleção de hits da década de 80 que chegou ao número 1 da revista Billboard e foi indicada ao Grammy. Ilustrando espirituosamente uma trama recheada de efeitos visuais, explosões e personagens de aparência excêntrica (o filme concorreu ao Oscar de maquiagem, mas perdeu para "O Grande Hotel Budapeste"), as músicas escolhidas pelo diretor transformam o que já era entretenimento de primeira em uma viagem de montanha-russa na companhia de um grupo de adoráveis defensores da galáxia (ainda que alguns com intenções bem menos nobres do que simplesmente colocar a vida em risco por puro altruísmo).


A história começa na Terra, em 1988, quando o adolescente Peter Quill é abduzido por uma nave espacial logo depois da morte de sua mãe. Sem saber nem mesmo quem é seu pai, o rapaz leva consigo apenas uma fita cassete gravada por sua mãe com sucessos musicais da época e um pacote de presente ainda não aberto. Vinte e seis anos mais tarde, Quill trabalha como mercenário das galáxias, vendendo sua mão-de-obra e seu jogo de cintura em lidar com os mais variados tipos de alienígenas para resolver pequenos problemas interplanetários. Bem-humorado e feliz com sua atividade profissional (além de reconhecido e prestigiado por ela), Quill subitamente vê sua cabeça à prêmio quando, depois de roubar uma misteriosa esfera com o poder de destruir o mundo, passa a ser caçado pelo perigoso Ronan (Lee Pace) e seus violentos asseclas. Para defender-se (e ao mundo), ele se une então a um grupo no mínimo excêntrico, formado pelo ambicioso guaxinim Rocket (voz de Bradley Cooper), a árvore mutante Groot (voz de Vin Diesel), o agressivo Drax (Dauve Batista) e a vingativa Gamora (Zoe Saldana). Juntos, eles são a última esperança de impedir a destruição do universo.

A partir daí, dá-lhe cenas de ação que equilibram com destreza efeitos especiais caprichadíssimos (que perderam o Oscar para "Interestelar", de Christopher Nolan) e piadas realmente engraçadas e que surgem organicamente no roteiro - não como artifício narrativo, mas sim como parte essencial de um conjunto de extrema coesão. Agarrando com unhas e dentes o papel principal, Chris Pratt parece ter nascido para interpretar Peter Quill, com um misto de heroísmo, sarcasmo e pureza que o torna irresistível. Sua química com o restante da equipe é admirável, conduzida com leveza por James Gunn, um cineasta sem vasta experiência mas com inteligência o suficiente para explorar as maiores qualidades da trama (o humor, os personagens carismáticos, a despretensão) sem tentar impor um estilo próprio ou ousadias desnecessárias. Um excelente meio-termo entre entretenimento rápido e eficaz e um produto comercial gigantesco (por menores que fossem as expectativas trata-se de um filme da Marvel, afinal de contas), "Guardiões da galáxia" não conquistou às exigentes plateias mundiais à toa: é uma das mais gratificantes experiências do universo dos gibis, entregando mais do que prometia e apresentando ao público uma gama de personagens encantadores e simpáticos. Uma pérola do gênero!

domingo

PASSAGEIROS

PASSAGEIROS (Passengers, 2016, Columbia Pictures, 116min) Direção: Morten Tyldum. Roteiro: Jon Spaihts. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Maryann Brandon. Música: Thomas Newman. Figurino: Jany Temime. Direção de arte/cenário: Guy Hendrix Dyas/Gene Serdena. Produção executiva: Greg Basser, Bruce Berman, Ben Browning, David B. Householter, Jon Spaihts, Lynwood Spinks, Ben Waisbren. Produção: Stephen Hamel, Michael Maher, Ori Marmur, Neal H. Moritz. Elenco: Chris Pratt, Jennifer Lawrence, Laurence Fishburne, Michael Sheen, Andy Garcia. Estreia: 14/12/16

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários

Quando um cineasta de fora de Hollywood consegue romper a barreira do bairrismo e chegar a uma indicação ao Oscar de melhor filme e direção, o que se espera que ele faça em seguida? Várias respostas seriam as corretas, mas o norueguês Morten Tyldum surpreendeu a todos optando pelo caminho menos provável: encarar uma ficção científica produzida por um grande estúdio e com um orçamento acima dos 100 milhões de dólares. Depois do contido e delicado "O jogo da imitação" - a história do matemático inglês que praticamente inventou o computador, abreviou a II Guerra Mundial em anos e foi condenado pelo governo por ser homossexual - Tyldum deixou a discrição de lado e abraçou sem medo o cinemão comercial com "Passageiros", realizado com todos os recursos de uma superprodução e dois atores em ascensão na liderança do elenco. Logicamente não obteve as mesmas críticas entusiasmadas de seu longa anterior, mas demonstrou um inesperado talento em lidar com as engrenagens de um gênero com regras próprias e bastante rígidas. Com um roteiro que equilibra com parcimônia ação, romance e suspense sem se preocupar com elocubrações metafísicas ou filosóficas, "Passageiros" cumpre o que promete, mesmo que jamais ouse.


Pensado inicialmente como um veículo para o ator Keanu Reeves - cuja companhia desenvolveu o projeto em seus primeiros estágios - "Passageiros" passou pelas mãos de vários nomes importantes de Hollywood antes de cair no colo de Tyldum, inclusive do criterioso David Fincher e do eclético Marc Forster. Depois da saída de Reeves - e consequentemente de sua cogitada colega de cena Rachel McAdams - a escolha de Chris Pratt, em alta depois do sucesso de "Guardiões da Galáxia" (2014) e "Jurassic World" (2015), pareceu uma escolha natural. Carismático e talentoso, Pratt conquista a plateia já em suas cenas iniciais, e sua simpatia consegue até mesmo fazer com que alguns de seus atos - bastante questionáveis - pareçam mais românticos do que realmente são. A seu lado, Jennifer Lawrence comprova que foi uma aposta certeira da indústria quando levou seu Oscar por "O lado bom da vida" (2012): bela, simpática e capaz de alcançar a nota certa em cada momento, ela ainda demonstra uma invejável química com seu parceiro de cena, transformando o que poderia ser mais uma experiência claustrofóbica e quase monótona em um agradável entretenimento, que agrada aos fãs do gênero sem afastar o espectador menos afeito a ele.


A história se passa na Starship Avalon, uma nave espacial que está levando 5.000 passageiros e mais duas centenas de tripulantes para uma das colônias da Terra, chamada Homestead Colony e que promete uma qualidade de vida muito superior à de seu planeta de origem. Atingida por uma chuva de asteroides, a nave sofre uma pane e acaba por despertar um dos viajantes, o engenheiro Jim Preston (Chris Pratt), que não demora a descobrir, para seu desespero, que ele acordou muito antes do esperado e que não há como chegar a seu destino final em menos de 90 anos. Tendo apenas o garçom androide Arthur (Michael Sheen) para conversar, ele leva um ano para chegar à conclusão de que a única maneira que tem de se relacionar com uma pessoa de verdade é acordando outro passageiro. Depois de examinar o perfil da escritora Aurora Lane (Jennifer Lawrence), ele acaba a escolhendo para ser sua parceira de desventura. A princípio acreditando que também despertou por acidente, ela ajuda o rapaz a procurar um modo de consertar a espaçonave e eles acabam se apaixonando. O despertar de um tripulante, Gus Mancuso (Laurence Fishburne) e a descoberta de que outros problemas ameaçam o sucesso da viagem - assim como a realidade sobre o despertar de Aurora (cujo nome é uma homenagem explícita à Bela Adormecida) - agitam ainda mais as coisas, obrigando a todos a forjar uma união para salvar suas vidas.

Ainda que o terço final carregue um pouco no exagero ao criar cenas de ação que justifiquem os gastos com efeitos especiais e o custo de 110 milhões de dólares, o roteiro de "Passageiros" tem uma vantagem em relação a alguns de seus congêneres: ao não se levar tão a sério como poderia, oferece ao público uma alternativa menos densa do que produções como "Gravidade" (2013), "Interestelar" (2014) e "A chegada" (2016), que se utilizaram dos elementos de ficção científica para discutir temas complexos e deixaram de lado, muitas vezes, a premissa básica do cinema de entretenimento: diversão. Sem intenção nenhuma a não ser levar a plateia a um passeio de duas horas em uma montanha-russa, Tyldum atinge plenamente seu objetivo, graças a um departamento técnico impecável - a direção de arte e a trilha sonora foram indicados ao Oscar - e a uma escalação certeira de elenco. Não muda a história da ficção científica e até pode ter alguns furos no roteiro, mas é praticamente impossível não se deixar envolver pela trama e por seu bom-humor contagiante. Uma ótima pedida.

terça-feira

JURASSIC WORLD: O MUNDO DOS DINOSSAUROS

JURASSIC WORLD: O MUNDO DOS DINOSSAUROS (Jurassic World, 2015, Universal Pictures/Amblin Entertainment/Legendary Pictures, 124min) Direção: Colin Trevorrow. Roteiro: Rick Jaffa, Amanda Silver, Colin Trevorrow, Derek Connolly, estória de Rick Jaffa, Amanda Silver, personagens criados por Michael Crichton. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Kevin Stitt. Música: Michael Giacchino. Figurino: April Ferry, Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Ed Verreaux/Ronald R. Reiss. Produção executiva: Steven Spielberg, Thomas Tull. Produção: Patrick Crowley, Frank Marshall. Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Irrfan Khan, Vincent D'Onofrio, Ty Simpkins, Omar Sy, BD Wong, Judy Greer, Nick Robinson, Jake Johnson. Estreia: 2/5/15 (Paris)

Em 1993, o que parecia uma aposta arriscada - lançar um filme de verão sem grandes astros no elenco e calcado basicamente em efeitos visuais e na garantia de qualidade com que o nome de Steven Spielberg acenava - transformou-se rapidamente em um dos maiores sucessos da história do cinema, batendo até mesmo o idolatrado "E.T, o extra-terrestre" (82) na bilheteria. O impressionante êxito, os três Oscar - efeitos visuais, som, efeitos sonoros - e o burburinho em torno de "Jurassic Park: parque dos dinossauros" não deixava dúvidas de que uma sequência viria em seguida. Em 1997, ela veio - com o título "Jurassic Park: O Mundo Perdido" - e voltou a fazer estardalhaço nos cofres da Universal Pictures, ainda que praticamente repetisse a trama do primeiro capítulo. Foi somente em 2001 que a série começou a dar sinais de cansaço: com Joe Johnston na direção, "Jurassic Park III" foi o episódio com menor renda (e ainda assim chegou perto de 200 milhões de arrecadação só nos EUA) e não entusiasmou ninguém, apesar de marcar o retorno de um dos atores do original, Sam Neil. Quatorze anos se passaram até que Spielberg, já com dois Oscar de melhor diretor na prateleira, voltasse a demonstrar interesse nos bichanos: acreditando que já estava na hora de apresentá-los a uma nova geração, assumiu a cadeira de produtor executivo de "Jurassic World: O mundo dos dinossauros", entregou a direção nas mãos do praticamente desconhecido Colin Trevorrow - do praticamente ignorado "Sem segurança nenhuma" (2012) - e correu para contar os dividendos. Não deu outra: logo em seu lançamento, o filme tornou-se a maior bilheteria no fim-de-semana da estreia de toda a história do cinema, com uma arrecadação de 208,8 milhões de dólares contra um custo estimado de 150 milhões. Como ficou bastante claro, o público ainda se mantém fascinado pelo universo criado pelo escritor Michael Crichton.

Um pirralho de treze anos de idade na ocasião da estreia do primeiro filme - a que assistiu na primeira sessão do primeiro dia - o ator Chris Pratt acabou com o principal papel masculino dessa nova incursão às aventuras jurássicas. Seu personagem, Owen Grady, é um jovem veterano do Exército contratado pelos novos donos do Jurassic World - que ao contrário do parque original abrange também shows aquáticos de dinossauros marinhos ao lado de outras atrações inéditas, criadas geneticamente pelo cientista Henry Wu (BD Wong) - para treinar velociraptors e mantê-los sob controle. O talento de Grady é percebido pelo ambicioso Vic Hoskins (Vincent D'Onofrio), que vê a possibilidade de utilizar os animais como armas militares. Enquanto isso, o parque temático, supervisionado pelas empresas do milionário Simon Masrani (Irrfan Khan) se prepara para revelar ao público sua nova atração, o temível Indominus Rex, cuja mistura genética é mantida em segredo de estado, e a gerente do local, a dedicada Claire Dearing (Bryce Dallas Howard), recebe a visita de seus dois sobrinhos - que estão passando por uma severa crise doméstica. Como não poderia deixar de ser, o imprevisível Indominus acaba fugindo de sua cerca de segurança máxima, obrigando Grady e Claire (que já tiveram um relacionamento problemático) a se unirem para salvar as crianças e impedir uma nova tragédia de grandes proporções.


Praticamente uma reedição do primeiro filme - com crianças em perigo, dinossauros assustadores e fora de controle atacando sem dó nem piedade e efeitos especiais de primeira categoria - "Jurassic world" acrescenta algumas poucas novidades à receita. A primeira é o tom de tensão sexual entre Grady e Claire, valorizando a juventude e a química entre Chris Pratt e Bryce Dallas Howard. A segunda é a violência bem mais radical em relação ao original: dessa vez o diretor não hesita em mostrar sangue e tornar os ataques bem mais realistas, ao contrário do tom quase censura livre da produção de 1993. Talvez ciente de que a molecada de hoje em dia está mais do que acostumada à exposição a vísceras e mutilações - em filmes, games e quadrinhos - Colin Trevorrow usa e abusa de sequências bem pouco prováveis de resistir aos cortes na versão dirigida por Spielberg (sempre preocupado em realizar obras para toda a família). É óbvio que não há exagero, mas é perceptível que Trevorrow é partidário assumido de mostrar mais do que sugerir, ao contrário do que fez Spielberg na primeira parte da franquia - e isso faz toda a diferença, já que em "Jurassic world" não há nenhuma cena marcante ou exatamente inovadora. Até mesmo o clímax, que reúne os velociraptors, o Tiranossauro Rex e o infame Indominus Rex, chega com certo sabor de dèja-vu, ainda que seja tecnicamente impecável. Mas faz falta a tensão crescente impressa por Spielberg em "Jurassic Park", quando elevou a curiosidade da plateia a níveis insuportáveis com artifícios simples e certeiros, como um copo d'água sentindo a chegada do gigantesco vilão - momento inesquecível da magia do entretenimento puro e simples.

Utilizando-se da música inconfundível de John Williams apenas como apoio - a trilha sonora é assinada por Michael Giacchino - e explorando sem pudor todos os clichês possíveis herdados dos primeiros filmes da série, "Jurassic world" é uma sessão da tarde de extrema competência. Apresenta tudo aquilo que fez a fama de Spielberg como Midas do cinema-pipoca (famílias em crise, redenções finais, senso de humor adequado, sequências de ação alternadas com cenas dramáticas) e as reinventa de maneira respeitosa e um tantinho modernizada. Conquista a plateia adolescente e infantil com os personagens de sua faixa etária - donos de uma das melhores cenas - e chama o público jovem com o carisma de Chris Pratt, um ídolo do cinema de ação que tem mais talento e mais cérebro do que seus colegas de gênero. Não à toa, tem uma continuação engatilhada para estrear em 2018. Alguém duvida que novamente fará o chão tremer?

quinta-feira

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO (Moneyball, 2011, ColumbiaPictures, 131min) Direção: Bennett Miller. Roteiro: Steven Zaillian, Aaron Sorkin, livro de Michael Lewis. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Mychael Danna. Figurino: Kasia Malicja Maione. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Mark Bakshi, Andrew Karsch, Sidney Kimmel, Scott Rudin. Produção: Michael De Luca, Rachael Horovitz, Brad Pitt. Elenco: Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Chris Pratt, Spike Jonze, Stephen Bishop, Brent Jennings, Tammy Blanchard, Arliss Howard. Estreia: 09/9/11 (Festival de Toronto)

06 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Brad Pitt), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado, Montagem, Mixagem de Som

Poucas pessoas em Hollywood conseguiriam convencer um estúdio a bancar um filme a respeito de beisebol e matemática, dois assuntos não exatamente populares - especialmente fora dos EUA, onde o esporte é praticamente veneno de bilheteria. E uma dessas poucas pessoas é o diretor Steven Soderbergh, que desde 1989, quando ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes com "sexo, mentiras e videotape", consagrou-se como o cineasta independente mais bem-sucedido do cinema norte-americano. Nem mesmo alguns tiros n'água foram o suficiente para diminuir seu prestígio na indústria - e o Oscar de melhor diretor por "Traffic" (2000) no mesmo ano em que também concorria por "Erin Brokovich, uma mulher de talento" só aumentou seu cacife. Portanto, quando Soderbergh surgiu com a ideia de fazer um filme sobre o esporte com o elenco formado por ex-jogadores e profissionais da liga, poucos se surpreenderam com a aquiescência da Columbia Pictures em bancar os custos da produção. A surpresa veio mesmo quando o próprio diretor saiu fora do projeto, por divergências em relação ao roteiro, escrito pelo premiado Steven Zaillian. A entrada em cena de um novo comandante - Bennett Miller, indicado ao Oscar por "Capote" (05) - e um astro de primeira grandeza no papel principal - Brad Pitt - imediatamente inchou o orçamento, e o que seria uma produção menor ganhou destaque na mídia e nas cerimônias de premiação. Indicado a seis Oscar - incluindo melhor filme e ator - e com uma considerável bilheteria doméstica de mais de 75 milhões de dólares, "O homem que mudou o jogo" talvez tenha sido super-apreciado, mas é um filme bastante interessante, a despeito de seu tema pouco atraente.

Desprovido de seu charme de galã e de seu carisma irresistível, Brad Pitt arrancou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho como Billy Beane, o gerente geral de um time de beisebol de Oakland que tenta, com a ajuda de seu novo assistente, Peter Brand (Jonah Hill, lembrado como coadjuvante pela Academia), melhorar os índices de aproveitamento de sua equipe mesmo com um orçamento irrisório em comparação com os rivais. Perdendo os atletas-astros para times maiores, Beane e Brand - formado em Economia e sem nenhuma relação com o esporte em si - criam uma nova forma de calcular o quanto cada jogador pode render em campo, através de gráficos e percentuais. Contratando homens até então desacreditados ou relegados ao banco de reservas, eles enfrentam a descrença dos analistas técnicos e até do treinador, Art Howe (Philip Seymour Hoffman); Mas, para surpresa de todos, depois de um período de tempo as vitórias começam a acumular-se, transformando o Oakland Athletics em uma espécie de fenômeno inesperado.


Baseado em uma história real, contada por Michael Lewis em seu livro "Moneyball", o filme de Bennet Miller se beneficia de uma edição inteligente, que mergulha o espectador dentro não apenas dos jogos em si - cujas regras não são tão facilmente compreensíveis quanto as do futebol - mas das entranhas do esporte em geral. A melancolia dos estádios vazios, a frieza das negociações contratuais, a agonia das derrotas e a euforia das vitórias são retratadas de forma quase documental, com a câmera de Wally Pfister (diretor de fotografia preferido de Christopher Nolan) sempre atenta a qualquer detalhe capaz de humanizar cada um de seus personagens. Mesclando imagens de arquivo com cenas feitas especialmente para o filme, Miller consegue a proeza de enfatizar a emoção do esporte sem precisar, para isso, abdicar de uma certa dose de racionalidade que dá ao resultado final uma curiosa mescla entre cérebro e coração: é impossível não torcer pelos desacreditados jogadores menosprezados, mesmo que a direção quase cirúrgica evite qualquer traço de sentimentalismo. Até mesmo a relação entre Beane e a filha pré-adolescente é tratada com discrição, apesar de permitir à Pitt que demonstre a sutileza de sua atuação.

Centrando todo seu foco nos dois protagonistas, "O homem que mudou o jogo" conta com participações especiais ilustres - além de Philip Seymour Hoffman como o treinador Art Howe, aparecem em cena Robin Wright (como a ex-mulher de Beane), o diretor Spike Jonze (como o novo marido dela) e Chris Pratt, antes de tornar-se popular como o herói de "Guardiões da galáxia" (2014), como um dos jogadores resgatados pelo método audacioso de Beane e Brand. Como um filme que se propõe a narrar uma história quase inacreditável sem apelar para grandes reviravoltas ou artifícios dramáticos, se utiliza de um excelente roteiro - que, inicialmente escrito por Steven Zaillian, foi burilado por Aaron Sorkin e indicado ao Oscar a categoria, perdendo para "Os descendentes" - para celebrar a persistência e o amor ao esporte, na figura de um protagonista falível e realista, iluminado por flashbacks reveladores que explicam sua trajetória de atleta promissor a gerente em crise profissional. Sem excesso de nenhuma natureza - característica de seu diretor - é uma obra que cresce em uma revisão, desde que se saiba exatamente quais são seus objetivos e seu estilo narrativo. Mais uma bola dentro na carreira de Brad Pitt.

segunda-feira

ELA

ELA (Her, 2013, Annapurna Pictures, 126min) Direção e roteiro: Spike Jonze. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Jeff Buchanan, Eric Zumbrunnen. Música: Arcade Fire. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Chelsea Barnard, Natalie Farrey, Daniel Lupi. Produção: Megan Ellison, Spike Jonze, Vincent Landay. Elenco: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams, Rooney Mara, Chris Pratt, Matt Letscher. Estreia: 12/10/13 (Festival de Nova York)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Canção Original ("The moon song"), Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original

Deve ser interessante conversar com Spike Jonze. Em um carreira como cineasta que conta com apenas quatro obras, o ex-marido de Sofia Coppola, cujo inicio de carreira foi dirigir videoclipes de artistas como Bjork e Fatboy Slim é, sem qualquer dúvida, uma das mais criativas mentes da engessada Hollywood do século XXI, capaz de legar ao público trabalhos que tem como principal característica a ousadia temática e narrativa. Foi assim com o bizarro "Quero ser John Malkovich" - que lhe deu, de cara, uma indicação ao Oscar de diretor - com o metalinguístico "Adaptação" - que deu a Meryl Streep um de seus papéis mais desafiadores - e até com o infantil "Onde vivem os monstros" - que fugiu da esfera limitadora da faixa etária para emocionar muitos adultos. Não é de estranhar, portanto, que seja seu nome que esteja nos créditos de "Ela", o estranho no ninho entre os indicados ao Oscar de melhor filme de 2013.

Estranho no ninho? Sim. Em um ano em que o favoritismo estava entre o superestimado "Gravidade" - que à parte os efeitos visuais é apenas mais um filme comercial bem feitinho - e o socialmente relevante "12 anos de escravidão" - que apesar das qualidades é o tipo de obra que a Academia adora cobrir de láureas - é surpreendente que uma obra como "Ela" tenha encontrado seu espaço. Bizarro desde seu tema - a história de amor entre um homem e um sistema operacional de última geração criado a partir das necessidades do proprietário - até a forma com que lida com ele - sem apelos sentimentais mas ainda assim emocionalmente potente - o filme de Jonze foge bastante do padrão dos tradicionais romances produzidos em Hollywood por pelo menos mais uma razão: exigir que o público não desligue o cérebro para acompanhar sua trama.


Em um futuro não muito distante, o introvertido Theodore (Joaquin Phoenix), ainda machucado pelo fim de seu casamento com a bela Catherine (Rooney Mara), compra um novo sistema operacional, que pode ser moldado de acordo com a personalidade e as necessidades do proprietário. Batizado com o nome de Samantha, o SO passa a lhe fazer companhia em seus momentos de solidão e, surpreendentemente, surge entre eles um relacionamento que ultrapassa os limites tecnológicos. Apaixonados um pelo outro, os dois precisam aprender a lidar com a nova situação - não tanto por causa das pessoas a seu redor, acostumadas com os avanços da informática, mas por causa das próprias limitações físicas e emocionais da bizarra situação, bem como a dificuldade de Theodore de conviver com seus próprios sentimentos.

Interpretado magistralmente por Joaquin Phoenix - a escolha ideal para personagens à margem do convencional - Theodore retrata com perfeição um geração insegura em termos sentimentais que, mesmo cercada de tecnologia e até mesmo de pessoas de carne e osso, não consegue libertar-se do medo da solidão e do sofrimento. Perito em escrever cartas de amor para estranhos - sua profissão - ele é incapaz de deixar para trás um relacionamento fracassado e apela para o que deveria ser um porto seguro, apenas para descobrir que o amor é, definitivamente, algo intangível e imensurável, que foge de qualquer padrão e cálculo. É apaixonante a maneira com que Jonze consegue contar sua história sem contar muito mais do que com o trabalho de Phoenix, a voz de Scarlett Johansson, pouquíssimos coadjuvantes (destaque para a sempre ótima Amy Adams) e um visual clean, que transmite a sensação de vazio que perpassa a existência do protagonista até seu encontro com Samantha. A bela trilha sonora - indicada ao Oscar, assim como a canção "The moon song", delicada e comovente - completa o quadro, comentando a ação sem interferir em excesso nos devaneios de Theodore.

Ao mesmo tempo de uma complexidade brilhante e uma simplicidade estontente, "Ela" talvez seja o melhor filme da carreira de Jonze. E isso não é pouco. Merecido vencedor do Oscar de roteiro original - delicado, engraçado, comovente e realmente original - o trabalho do cineasta é daqueles raros projetos em que tudo está no lugar certo, funcionando como um relógio. A fotografia sóbria, a direção de arte caprichada que cria um universo particular sem excessos, a música suave, o figurino bizarro e a escalação do elenco são peças fundamentais para que o resultado final seja primoroso, uma pequena obra-prima de sua geração.

sábado

PARA MAIORES

PARA MAIORES (Movie 43, 2013, Relativity Media, 94min) Direção: Elizabeth Banks, Steven Brill, Steve Carr, Rusty Candief, James Duffy, Griffin Dunne, Peter Farrelly, Patrik Forsberg, Will Graham, James Gunn, Brett Ratner, Jonathan van Tulleken. Roteiro: Rocky Russo, Jeremy Sosenko, Ricky Blitt, Bill O'Malley, Will Graham, Jack Kukoda, Matt Portenoy, Claes Kjellstrom, Jonas Wittenmark, Tobias Carlson, Will Carlough, Jonathan van Tulleken, Elizabeth Shapiro, Patrik Forsberg, Olle Sarri, Jacob Fleisher, Greg Pritkin, James Gunn. Fotografia: Mattian Anderssonn Rudh, Frank G. DeMarco, Steve Gainer, Matthew F. Leonetti, Daryn Okada, William Rexer, Eric Scherbarth, Newton Thomas Sigel, Tim Suhrstedt. Montagem: Debra Chiate, Patrick J. Don Vito, Suzy Elmiger, Mark Helfrich, Craig Herring, Myron I. Kerstein, Joe Randall-Cutler, Sam Seig, Cara Silverman, Sandy S. Solowitz, Jonathan van Tulleken, Hakan Warn, Paul Zucker. Música: Tyler Bates, Christophe Beck, Leo Birenberg, William Goodrum, Dave Hodge. Figurino: Anna Bingemann, Nancy Ceo, Roseanne Fiedler, Florence Kemper, Judianna Makovsky, Sydney Maresca, Salvador Pérez Jr.. Direção de arte/cenários: Toby Corbett, Jade Healy, Nolan Hooper, Robb Wilson King, Dina Lipton, Happy Massee, Arlan Jay Vetter, Inbal Weinberg/Jasmine E. Ballou, Robert Covelman, Andrea Mae Fenton, Isaac Gabaeff, Amber Haley, Jean Landry, Lance Lombardo, Jessica Panuccio, Halina Siwolop. Produção executiva: Ron Burkle, Jason Felts, Tucker Tooley, Tim Williams. Produção: Peter Farrelly, Ryan Kavanaugh, John Penotti, Charles B. Wessler. Elenco: Hugh Jackman, Kate Winslet, Liev Schreiber, Naomi Watts, Anna Faris, Chris Pratt, Kieran Culkin, Emma Stone, Richard Gere, Kate Bosworth, Justin Long, Jason Sudeikis, Uma Thurman, Bobby Cannavale, Kristen Bell, Christopher Mintz-Plasse, Chloe Grace Moretz, Gerard Butler, Sean William Scott, Johnny Knoxville, Halle Berry, Stephen Merchant, Terrence Howard, Elizabeth Banks, Josh Duhamel. Estreia: 25/01/13

A primeira pergunta que surge na cabeça do espectador enquanto sobem os créditos finais da comédia "Para maiores" é a tradicional em casos do tipo: "Por que diabos atores tão bons e tão consagrados aceitaram fazer essa porcaria?" De fato a lista de nomes envolvidos no projeto é de causar inveja a qualquer diretor de elenco de Hollywood - há desde indicados e vencedores do Oscar, como Hugh Jackman, Kate Winslet e Halle Berry, até astros em franca ascensão, como Emma Stone, Chris Pratt e Chloe Grace Moretz - especialmente se for levado em consideração que o orçamento total não ultrapassou os seis milhões de dólares, o que normalmente não paga nem um terço do cachê de alguns dos atores escalados. Mas a gritaria quase unânime contra o filme - apedrejado sem dó nem piedade por crítica e público - não deixa de ser um tanto quanto exagerada. Ok, o humor de alguns quadros está realmente no limite do bom-gosto e nem sempre funciona como poderia. Tudo bem, a história que os liga é pífia e em muitos momentos tem-se a nítida impressão de que o roteiro foi escrito por um grupo de adolescentes escatológicos no auge da puberdade. Mas outros grandes sucessos de bilheteria também não eram exatamente assim? Não é à toa que um dos roteiristas e diretores do filme seja Peter Farrelly - um dos irmãos responsáveis por "Debi & Loide", que, apesar de ter o mesmo tipo de humor, serviu de trampolim milionário para a carreira de Jim Carrey.

Talvez o maior estranhamento em relação à "Para maiores" seja justamente o fato de contar com atores de prestígio e respeito se prestando a situações constrangedoras normalmente relegadas a elencos de segundo ou terceiro escalões. Não é sempre que se vê Hugh Jackman interpretando um homem com os testículos localizados no queixo ou Halle Berry fazendo guacamole com um seio. Sim, é esse o nível de humor do filme, que usa e abusa do politicamente incorreto e de algumas piadas francamente ofensivas para conquistar as gargalhadas da audiência. De acordo com a bilheteria - pouco mais de 8 milhões em casa, cerca de 23 no mercado internacional - nem todo mundo entendeu (ou quis entender) a brincadeira. O estigma de humor pouco sofisticado pesou mais do que o elenco milionário, mas não é difícil de imaginar que, deixando o preconceito de lado (junto com qualquer tipo de suscetibilidade), o público possa ter alguns bons momentos de diversão, mesmo que jamais assuma isso diante dos outros.

Quem quiser encarar o desafio de experimentar a brincadeira quase insana que é "Para maiores" tem que se preparar para quase tudo. Literalmente. Tudo começa quando dois adolescentes, em busca de vingança contra um amigo nerd, falam a ele sobre a existência de um filme maldito, proibido em todos os países do mundo e que só pode ser localizado no submundo da Internet. Tal premissa - boba como convém - serve como elo de ligação entre todos os esquetes da produção, que fazem as vezes de alguns dos filmes encontrados durante a procura dos jovens. A partir daí é bobagem atrás de bobagem, com níveis variáveis de graça e escatologia. Se não, vejamos: no primeiro encontro com um solteirão cobiçadíssimo (Hugh Jackman), uma mulher (Kate Winslet) descobre que ele tem uma particularidade física desconcertante; Naomi Watts e Liev Schreiber (casados na vida real) contam a um casal de amigos como fazem para fazer de seu lar o ambiente escolar ideal para o filho adolescente que estuda em casa; às vésperas de pedir sua namorada (Anna Faris) em casamento, rapaz (Chris Pratt, casado com Faris também atrás das câmeras) se surpreende com uma proposta pouco usual da moça para apimentar suas relações sexuais; caixa de um supermercado (Kieran Culkin) reencontra a namorada (Emma Stone) e resolve por a relação em pratos limpos esquecendo de desligar o microfone e faz todos os clientes de testemunhas de suas palavras pouco sutis.


A sessão de humor descompromissado segue adiante mostrando uma reunião de acionistas de um IPod em forma de boneca que vem mutilando os pênis dos usuários adolescentes e que encontra no diretor da empresa (Richard Gere) um empecilho para as mudanças necessárias solicitadas por uma colega do sexo oposto (Kate Bosworth); Justin Long aparece como Robin, que frequenta uma sessão de encontros-relâmpagos e dá de cara com Lois Lane (Uma Thurman), a Supergirl (Kristen Bell), o Batman (Jason Sudeikis) e o Superman (Bobby Cannavale); Chloe Grace Moretz é uma adolescente que tem a primeira menstruação na casa do namorado e, desesperada, não consegue a ajuda dele e do cunhado (Christopher Mintz-Plasse) para resolver o problema; para limpar a barra com o melhor amigo (Sean William Scott), Johnny Knoxville lhe dá de presente um duende irlandês desbocado e violento (Gerard Butler), o que irá lhes causar grandes dores de cabeça (e em outras partes do corpo); Halle Berry e Stephen Merchant se encontram às cegas e iniciam uma brincadeira de "Verdade ou desafio" que logo descamba para consequências impensáveis; Terrence Howard é um treinador de basquete dos anos 50 que tenta convencer seus atletas negros que eles tem possibilidade de vencer os rivais brancos somente porque são negros; e Elizabeth Banks (diretora do esquete estrelado por Chloe Grace Moretz) tenta, no último quadro, convencer seu noivo (Josh Duhamell) que o gato que ele trata como filho a odeia e nutre por ele sentimentos pouco fraternais e muito sexuais.

É de frequente mau-gosto? Sim. É ofensivo e por vezes inacreditável? Também. Mas "Para maiores" atinge plenamente seu objetivo de jogar para o alto o politicamente correto que vem minando a comédia no cinema e fazer rir, mesmo que de nervoso. Como cinema - em termos técnicos e narrativos - é uma nulidade, mas sua coragem em nadar contra a corrente merece ser louvada até mesmo por todos aqueles que rejeitam ferozmente seu resultado final. Não é uma comédia para todo mundo - pode-se até dizer que é para poucos, em um extremo oposto à sofisticação de Woody Allen, por exemplo - mas pode encontrar seu público, desde que este esteja disposto a mergulhar sem medo na baixaria explícita de um filme que jamais se leva a sério. Questão apenas de querer se arriscar!

domingo

A HORA MAIS ESCURA

A HORA MAIS ESCURA (Zero dark thirty, 2012, Columbia Pictures, 157min) Direção: Kathryn Bigelow. Roteiro: Mark Boal. Fotografia: Greig Fraser. Montagem: William Goldenberg, Dylan Tichenor. Música: Alexandre Desplat. Figurino: George L. Little. Direção de arte/cenários: Jeremy Hindle/Lisa Chugg. Produção executiva: Ted Schipper, Greg Shapiro, Colin Wilson. Produção: Stephanie Antosca, Kathryn Bigelow, Mark Boal, Megan Ellison. Elenco: Jessica Chastain, Jason Clarke, Kyle Chandler, Jennifer Ehle, Harold Perrineau, Jeremy Strong, Mark Strong, Édgar Ramírez, James Gandolfini, Joel Edgerton, Chris Pratt. Estreia: 19/12/12

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Jessica Chastain), Roteiro Original, Montagem, Edição de Som
Vencedor do Oscar de Edição de Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jessica Chastain)

 Em 2009 a cineasta Kathryn Bigelow tornou-se a primeira mulher a ganhar um Oscar de direção por "Guerra ao terror", que lançava um olhar particular sobre a guerra do Iraque e os soldados americanos. Em seu filme seguinte, "A hora mais escura", a ex-mulher de James Cameron volta a falar sobre o conflito no Oriente Médio, mas dessa vez com um enfoque muito mais ambicioso: ao retratar a caçada que levou à morte de Osama Bin Laden, ela deixa de lado o intimista para se dedicar a um panorama maior e, portanto, mais sujeito a equívocos. Para sorte do público - e da crítica - ela deu um passo à frente em sua carreira. Indicado ao Oscar de Melhor Filme - mas não de melhor direção - seu novo trabalho é tecnicamente empolgante e, apesar de seu roteiro um tanto complexo para quem não é entendido nos conflitos descritos e das polêmicas que sempre acompanham produções do tipo, lindamente executado.

Longe de ser o petardo patriota que poderia ser ao tratar de um tema como esse, "A hora mais escura" ganha pontos por deixar de lado a condescendência típica dos produtos ufanistas que tanto infestam o gênero. No roteiro do jornalista Mark Boal os americanos não são os inocentes heroicos que povoam os filmes de ação de Michael Bay tampouco os vilões sem alma retratados em filmografias anti-imperialistas. Logo de cara o público é jogado em uma cena de tortura - método que será utilizado inúmeras vezes durante a projeção - para que a agente da CIA Maya (vivida por uma sempre competente Jessica Chastain) e seus colegas descubram informações a respeito do paradeiro do maior algoz terrorista já caçado pelos EUA. A partir daí a caçada é mostrada em detalhes, descrevendo Maya como uma obcecada e dedicada funcionária do governo que não desiste de jeito nenhum de seus objetivos, nem que isso tenha que colocá-la em rota de colisão com alguns superiores. E é ela quem liderará a busca por Bin Laden até o fatídico dia 06 de maio de 2011, quase dez anos depois da explosão das Torres Gêmeas.


Ao tentar dar a seu filme um aspecto de documentário - cortes abruptos, ângulos secos e uma edição linear - Bigelow se distancia do thriller político e dá uma cara nova a uma história que, apesar de ter estampado as manchetes de jornais do mundo inteiro, ainda não havia sido contada de maneira definitiva. Fotografado com extrema competência, "A hora mais escura" peca, no entanto, em não apresentar um ritmo mais ágil, o que acaba cansando a audiência antes de seu extraordinário clímax, que descreve detalhadamente o cerco ao terrorista e seu assassinato. Realizada com luz natural e câmera na mão, a sequência dura 25 minutos que valem o filme inteiro, deixando o público inserido de tal maneira na ação que é difícil não se deixar conquistar inteiramente.

Amplamente elogiado e premiado, "A hora mais escura" é a prova da inteligência e do talento de sua realizadora, uma cineasta engajada e politicamente ativa que sabe como poucas equilibrar técnica com arte - e a atuação de Jessica Chastain comprova a teoria. Não é um filme excepcional como vem sendo festejado, mas é relevante e potente. Bom programa para quem gosta de cinema sério.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...