Mostrando postagens com marcador CHRISTINE BARANSKI. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CHRISTINE BARANSKI. Mostrar todas as postagens

quarta-feira

MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO


MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO (Mamma Mia: Here we go again, 2018, Universal Pictures, 114min) Direção: Ol Parker. Roteiro: Ol Parker, estória de Richard Curtis, Ol Parker, Catherine Johnson, personagens de Catherine Johnson. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Peter Lambert. Música: Benny Andersson, Anne Dudley, Bjorn Ulvaeus. Figurino: Michele Clapton. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Anita Dujic. Produção executiva: Benny Andersson, Nicky Kentish Barnes, Richard Curtis, Tom Hanks, Phyllida Lloyd, Bjorn Ulvaeus, Rita Wilson. Produção: Claudia Balboa, Judy Craymer, Raphael Benoliel, Gary Goetzman, Anna Sofia Morck. Elenco: Amanda Seyfried, Pierce Brosnan, Lilly James, Stellan Skarsgaard, Colin Firth, Dominic Cooper, Meryl Streep, Julie Walters, Christine Baranski, Andy Garcia, Cher, Jeremy Irvine, Alexa Davies, Jessica Keenan Wynn, Hugh Skinner, Josh Dylan, Celia Imrie. Estreia: 20/7/2018

Quando surgiu a ideia - aparentemente estapafúrdia - de uma continuação do musical "Mamma Mia!",  pouca gente levava fé no projeto. Não apenas porque todo mundo sabia que seria quase impossível repetir o impressionante êxito do primeiro filme - que arrecadou assombrosos 700 milhões de dólares em sua carreira nos cinemas -, mas porque havia a dificuldade extra de encontrar-se um roteiro coerente com o desfecho do original e, mais ainda, de encaixar nele canções do ABBA não utilizadas no primeiro capítulo. Porém, nenhum desafio é grande o bastante para um estúdio em busca de um sucesso de bilheteria, e poucos repertórios são tão fortes quanto o do grupo sueco - em que até mesmo as músicas menos conhecidas são capazes de empolgar. Com isso, "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" não chegou a surpreender quando, dez anos depois da estreia do primeiro filme, encerrou sua carreira nas salas de exibição com uma respeitável renda de 365 milhões - nada mal para uma produção sem efeitos visuais dispendiosos, super-heróis devidamente testados e aprovados e uma campanha de marketing maciça. Mesmo com a ousadia de abdicar da presença marcante de Meryl Streep - aqui apenas em uma rápida participação especial -, o filme do britânico Ol Parker é divertido o bastante para não fazer feio diante da memória afetiva das plateias. 

De certa forma aprisionados pelo final redondinho do primeiro filme - cujo desfecho não abria espaço para novos desdobramentos -, os roteiristas de "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" (dentre os quais está o experiente Richard Curtis) encontraram uma solução interessante ao intercalar presente e passado: Sophie (Amanda Seyfried) está passando por dias conturbados, já que a reinauguração do hotel de sua mãe, Donna (Meryl Streep), morta há um ano, está ameaçado por questões naturais (uma tempestade que pode atrapalhar as festividades) e por situações mais prosaicas, como uma possível crise em seu relacionamento com Sky (Dominic Cooper) e a ausência de dois de seus pais afetivos, envolvidos em projetos profissionais. Enquanto lida com tais atribulações, nunca deixa de lembrar da encorajadora história de Donna, que em 1979 (e vivida por Lilly James), saiu de sua zona de conforto para realizar seu sonho de viajar pelo mundo - e de quebra, viveu uma surpreendente história de amor/desejo/paixão/liberdade com o romântico Harry (Hugh Skinner), o sexy Bill (Josh Dylan) e o misterioso Sam (Jeremy Irvine). Contando com a ajuda de Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski) - fiéis escudeiras de sua mãe - e com o apoio do novo gerente do hotel, o charmoso Fernando Cienfuegos (Andy Garcia), Sophie descobre que o legado de Donna é maior do que simplesmente a bela propriedade na Grécia... e até mesmo sua excêntrica avó reaparece, para sua surpresa.

 

Com uma direção mais ágil e segura do que a do primeiro filme - e apresentando coreografias mais elaboradas que tornam as canções ainda mais energéticas - "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" faz uso inteligente de flashbacks, que disfarçam o fiapo de história e a falta de conflitos relevantes. Cientes de que o mais importante do projeto eram as músicas e as personagens amadas pelo público, os roteiristas se dedicaram a criar uma nova trama de acordo com a trilha sonora - e acertaram em cheio ao dar prioridade à juventude de Donna em detrimento aos pouco interessantes problemas sentimentais e profissionais de Sophie: mesmo que Amanda Seyfried seja talentosa o suficiente para sustentar uma produção (como já fez em outras ocasiões), sua personagem quase desaparece diante da energia de Lilly James - mesmo que elas não dividam nenhuma cena, por razões óbvias. Centro do filme, James tira de letra o desafio de dividir um papel com Meryl Streep - e sua química com o elenco jovem aponta o talento do diretor Ol Parker, em sua primeira grande produção, depois dos pouco ambiciosos "Imagine eu e você" (2005) e "Agora e para sempre" (2012): sem o objetivo de aprofundar um estilo ou aparecer mais do que a história que deseja contar, Parker oferece ao público duas horas de diversão escapista, leve e alto-astral, que em nada mancha o legado do filme original - cujos maiores atrativos eram, a rigor, a trilha sonora e a presença ensolarada e rara (em um musical) de Streep. Se há algo a reclamar é apenas o pouco tempo em cena dos veteranos do "Mamma Mia!" original - em especial as excelentes Julie Walters e Christine Baranski. Mas, em compensação, há a surpresa da presença da sempre luminosa Cher, aqui no papel da apoteótica (como não poderia deixar de ser) Ruby, a bissexta avó de Sophie.

"Mamma Mia: lá vamos nós de novo" cumpre o que promete. É divertido, é despretensioso e é, acima de tudo, uma ode à alegria, ao amor e à amizade. Não tem o frescor do primeiro filme - e nem o carisma de Meryl Streeep a não ser em poucos minutos, no final -, mas não deixa a peteca cair em termos de energia e honestidade. Para o seu público-alvo é uma festa: dançante, contagiante e sem contra-indicações. Não é uma obra-prima e nem mudou a história do cinema, mas é um filme conforto dos mais agradáveis - exceto para quem busca produções cabeça ou repletas de testosterona pura e simples.

 

quinta-feira

A GAIOLA DAS LOUCAS

 


A GAIOLA DAS LOUCAS (The Birdcage, 1996, United Artists, 117min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Elaine May, original de Francis Veber, Édouard Molinaro, Marcello Danon, Jean Poiret, peça teatral "La cage aux folles", de Jean Poiret. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Arthur Schmidt. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Produção executiva: Marcello Danon, Nil Machlis. Produção: Mike Nichols. Elenco: Robin Williams, Nathan Lane, Gene Hackman, Dianne Wiest, Hank Azaria, Christine Baranski, Dan Futterman, Calista Flockhart. Estreia: 08/3/96

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Um dos filmes franceses de maior sucesso dentro no normalmente hermético mercado norte-americano, "A gaiola das loucas", lançado em 1978, não apenas conquistou a plateia e a crítica, mas também chegou a ser indicado a três Oscar - incluindo melhor roteiro adaptado e direção (Édouard Molinaro). Não demorou, portanto, para que Hollywood pensasse em uma versão doméstica, sem legendas que afugentassem o público médio e que apresentasse a trama (baseada em uma peça teatral de Jean Poiret) para uma nova audiência. Porém, depois de uma tentativa frustrada ainda nos anos 1980 - que poderia ter sido estrelada pela inusitada dupla Dudley Moore e Frank Sinatra (!!) -, o projeto ficou no limbo até a década seguinte, quando finalmente encontrou o caminho para as telas com um elenco sob medida e um tom moderno que, para surpresa de muitos, corrigiu alguns erros do original (amenizando alguns estereótipos exagerados) e revelou o talento de Nathan Lane, até então relegado a pequenos papéis em filmes nem sempre memoráveis. Indicado ao Golden Globe de melhor ator, Lane consegue o quase impensável: roubar a cena em uma comédia contracenando com o furacão Robin Williams.

Já consagrado no teatro mas sem um grande sucesso para chamar de seu, Nathan Lane agarrou com unhas e dentes a chance oferecida pelo veterano Mike Nichols (incentivado pelo sempre generoso Robin Williams), e só não engole tudo a sua volta porque a seu lado estão nomes como Williams, Gene Hackman e Dianne Wiest, todos conhecidos por seu talento em brilhar não importa o tamanho de seus papéis. Nichols - respeitado por sua capacidade de transitar entre diversos gêneros - dirige a todos com a elegância habitual e extrai o melhor de cada um, criando uma estrutura cômica irresistível, com piadas que fazem rir não apenas o público gay (com referências ao universo homossexual) mas também plateias mais tradicionais. Não à toa, o filme arrecadou mais de 180 milhões de dólares no mercado internacional - um feito e tanto quando se sabe o quão hermético ao tema é o público médio. Em parte devido à presença de Williams, em parte devido ao êxito do filme francês, "A gaiola das loucas" surpreendeu até mesmo o estúdio (a United Artists) - e provou que, nas mãos certas e com respeito ao material original, um remake pode acrescentar camadas antes não percebidas (e eliminar problemas, especialmente para audiências mais suscetíveis).



A trama do filme quase todo mundo já conhece, de uma forma ou outra: Gaiola das Loucas é uma boate de drag queens localizada em South Beach. Seu proprietário é Armand Goldman (Robin Williams), que é casado com a principal atração do local, o transformista Albert (Nathan Lane) - que se apresenta com o nome artístico de Starina e é admirado por todos os frequentadores. A rotina relativamente tranquila do casal (que inclui crises nervosas de Albert a qualquer contrariedade) é abalada quando Val (Dan Futterman) - filho de uma aventura casual de Armand na juventude - surge com a notícia de que irá se casar com a delicada Barbara (Calista Flockhart), filha de um senador cujas posições extremamente conservadoras batem de frente com o estilo de vida de seus futuros sogros. A notícia cai como uma bomba no pouco tradicional lar, mas as coisas ficam ainda piores quando Val pede aos pais que aceitem fingir uma falsa normalidade em um jantar para o encontro das duas famílias. Para isso, Albert precisa sair de cena - e ser substituído pela mãe do rapaz, Katherine (Christine Baranski) - e todos os detalhes da casa considerados "gay demais" (ou seja, todos) precisam ser escondidos, incluindo o empregado, Agador Spartacus (Hank Azaria), que sonha com sua chance na boate dos patrões. A situação, caótica por si própria, se complica quando o Senador Kevin Keeley (Gene Hackman) se vê envolvido involuntariamente em uma polêmica relacionada ao partido e passa a ser perseguido pela imprensa. O jantar - que já prometia ser um desastre - se completa quando, na ausência de Katherine, Albert assume o papel de matriarca da família.

Uma comédia de erros das mais felizes, "A gaiola das loucas" versão americana se beneficia do calor das praias de South Beach para acrescentar uma energia solar que talvez falte no original francês. Se Nathan Lane dá seu show particular em cada aparição - a sequência em que tenta caminhar de modo viril, como John Wayne, é um primor -, seu parceiro de cena também não decepciona: ao optar por viver o menos espalhafatoso Armand (que a princípio seria interpretado por Steve Martin), um dos atores mais populares de sua geração (e também dos mais ocupados na metade da década de 1990) abre espaço para o brilho de seus colegas de cena e mesmo assim chama a atenção com um desempenho que explora seu dom para o humor popular. Gene Hackman, por sua vez, surpreende ao entregar uma atuação que rompe com sua persona sisuda e consagrada junto ao grande público - sua última cena é, sem dúvida, um dos grandes momentos da comédia americana moderna. Ao atualizar e melhorar um clássico contemporâneo (sem perder sua essência e seu senso de humor sagaz e irônico), o filme de Mike Nichols mereceu o enorme sucesso de bilheteria - e, caso raro em se tratando de remakes, conquistou inclusive a crítica, sendo indicado aos Golden Globes de melhor comédia e melhor ator e saindo vencedor de melhor elenco na cerimônia do Screen Actors Guild, batendo nada menos que "O paciente inglês", grande vencedor do Oscar em sua temporada. Não é pouca coisa!

segunda-feira

ARMAS NA MESA

ARMAS NA MESA (Miss Sloane, 2016, Transfilm/Archery Pictures/Canal + Distribution, 132min) Direção: John Madden. Roteiro: Jonathan Perera. Fotografia: Sebastian Blenkov. Montagem: Alexander Berner. Música: Max Richter. Figurino: Georgina Yarhi. Direção de arte/cenários: Matthew Davies/Peter P. Nicolakakos. Produção executiva: Patrick Chu, Claude Léger, Jonathan Vanger. Produção: Ben Browning, Khris Thykier, Ariel Zeitoun. Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Alison Pill, John Litghow, Christine Baranski, Michael Stuhlbarg, Sam Waterston, Jake Lacy, Dylan Baker, Gugu Mbatha-Raw. Estreia: 11/11/16

Uma das mais poderosas e importantes dos EUA, a indústria bélica afeta diretamente a economia e a sociedade norte-americanas, uma das mais benevolentes em leis de porte e compra de armas - e cujas consequências frequentam o noticiário com assustadora regularidade, com atentados violentos e mortais contra civis. O tema chegou a ser tema do impressionante documentário "Tiros em Columbine", de Michael Moore, vencedor do Oscar da categoria em 2001, e volta e meia serve de assunto para discussões sérias e polêmicas que envolvem políticos, empresários e a sociedade em geral, mas Hollywood, sintomaticamente, poucas vezes entrou na controvertida questão. Por isso não deixa de ser uma surpresa que um filme como "Armas na mesa" tenha surgido - ainda que timidamente, uma vez que não foi bem nas bilheterias e foi injustamente ignorado pelo Oscar - e tocado nesse nervo tão dolorido do american way of life. Dirigido por John Madden, que já conheceu o gostinho do sucesso com "Shakespeare apaixonado" (98) e estrelado por uma avassaladora Jessica Chastain, merecidamente indicada ao Golden Globe de melhor atriz dramática, o filme não aprofunda a questão, mas a utiliza como pano de fundo para uma trama inteligente e envolvente, que surpreende até os minutos finais.

A fascinante e complexa protagonista é Elizabeth Sloane, uma lobista talentosa e afeita a métodos pouco ortodoxos para atingir seus objetivos profissionais - mas que, paradoxalmente, só aceita trabalhos que vão ao encontro de seus princípios pessoais. É por essa razão que ela recusa a oferta milionária de um grupo de empresários que a procuram para que ela batalhe contra uma emenda constitucional que propõe mais rigidez na liberação de licenças para porte de arma no país. Conforme o raciocínio das velhas raposas, o fato de Elizabeth ser mulher poderia lhe dar ainda mais confiabilidade junto ao público feminino - seu maior alvo. Sentindo-se pressionada até mesmo por seu chefe, George Dupont (Sam Waterston), ela surpreende a todos ao aliar-se com uma firma de advocacia concorrente, que tenta justamente o oposto no Congresso. Liderada por Rodolfo Schmidt (Mark Strong), a nova equipe da ousada lobista passa a ser formada por antigos colaboradores, que entram, então, em rota de colisão com os remanescentes de seu antigo grupo, como o ambicioso Pat Connors (Michael Stuhlbarg) e a jovem Jane Molloy (Alisson Pill). Disposta a qualquer coisa para manter seu currículo, Elizabeth Sloane não medirá esforços para conquistar a opinião pública - inclusive usar o trauma de uma colega, Esme Manucharian (Gugu Mbatha-Raw), cujo passado esconde um terrível acontecimento.


Com um roteiro que vai revelando aos poucos todos os seus desdobramentos e uma personagem central repleta de nuances, "Armas na mesa" é um filme feito para adultos, para uma plateia exigente que busca tramas consistentes e imprevisíveis. Sua protagonista é uma das mais impressionantes da temporada 2016, e a interpretação irretocável de Jessica Chastain (mais uma, na verdade) é, além de sua maior qualidade, seu ponto de sustentação. Ao dotar Elizabeth Sloane de uma série de defeitos e aproximá-la do espectador médio - com suas frustrações pessoais, sua solidão, sua inadequação à normalidade - o filme trabalha de maneira exemplar a intersecção entre a trama política e o drama pessoal, que o leva a um clímax poderoso e surpreendente. Chastain está brilhante e rouba todas as cenas em que aparece, seja humilhando opositores, discutindo com inimigos, conversando com o terapeuta ou ensaiando uma hesitante relação com o garoto de programa Forde (Jake Lacy), que lhe faz repensar algumas de suas atitudes. Seu desempenho é tão forte que eclipsa até mesmo gente talentosa como John Lithgow e Sam Waterston, que pouco tem a fazer senão pontuar seu show. Não foi à toa que John Madden pensou imediatamente nela quando leu o roteiro - ambos já tem outro trabalho em conjunto, o subestimado "A grande mentira" (2010), mas aqui atingem um outro nível de entendimento profissional, absolutamente mais sofisticado.

De ritmo mais lento que a maioria das produções hollywoodianas - que privilegiam uma edição histérica em detrimento do desenvolvimento de personagens e de sua história - "Armas na mesa" convida o público a não apenas refletir sobre um tema relevante, mas também a mergulhar em um universo poucas vezes retratados com fidelidade no cinema. Ao testemunhar as artimanhas de Elizabeth em sua trajetória rumo ao sucesso profissional, a plateia se vê diante de um mundo de negociações escusas, de mentiras, chantagens e jogos baixos que em muito reflete a realidade não só norte-americana, mas de todos os países democráticos do mundo. Sem forçar a mão nas discussões políticas e preferindo enfatizar a personalidade dúbia de sua protagonista, o roteiro de Jonathan Perera torna-se universal e brinda a audiência com diálogos acima da média e um desenvolvimento gradual, que conquista a cada cena, até seu final explosivo. Um filme que merece ser descoberto - e que injustamente não rendeu à sua atriz principal todos os aplausos que ela merece.

sábado

OS PICARETAS

OS PICARETAS (Bowfinger, 1999, Universal Pictures, 97min) Direção: Frank Oz. Roteiro: Steve Martin. Fotografia: Ueli Steiger. Montagem: Richard Pearson. Música: David Newman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Jackson DeGovia/K.C. Fox. Produção executiva: Karen Kehela, Bernie Williams. Produção: Brian Grazer. Elenco: Steve Martin, Eddie Murphy, Heather Graham, Robert Downey Jr., Terence Stamp, Christine Baranski, Jamie Kennedy, Adam Alexi-Malle. Estreia: 13/8/99

Quando o cineasta Frank Oz dirigiu Steve Martin ao lado de Michael Caine em "Os safados" (88) - refilmagem livre de "Dois farristas irresistíveis", com Marlon Brando e David Niven - a comédia norte-americana ganhou um clássico instantâneo, um filme repleto de humor inteligente e irônico que misturava a tradicional fleuma britânica de Caine com a picardia ianque e quase vulgar de Martin. Cineasta ciente dos meandros da comédia - um gênero que frequentemente escorrega no mau-gosto ou simplesmente na falta de graça - Oz voltou a colaborar com Martin em outras ocasiões, como no apenas simpático "Como agarrar um marido", mas foi somente em 1999 que os dois voltaram a acertar a mão juntos. Tendo os bastidores do cinema como pano de fundo e a adição luxuosa de Eddie Murphy ao time vencedor, "Os picaretas" não só fez mais sucesso que os outros filmes de Murphy lançados quase à mesma época - "Até que a fuga nos separe" e "O professor aloprado 2" - como recebeu elogios rasgados da crítica, que encantou-se com a mordacidade carinhosa com que a indústria de Hollywood foi retratada. Recheado de piadas engraçadíssimas, atuações inspiradas e um cinismo irresistível, "Os picaretas" é uma comédia sem contra-indicações.

O próprio Steve Martin escreveu a história de Robert K. Bowfinger, um produtor de filmes B que, decadente e sem perspectivas profissionais imediatas, vê sua grande chance de sair do marasmo quando põe os olhos no roteiro de um amigo, uma ficção científica chamada "Chuva gorda". Entusiasmado com a possibilidade de voltar aos sets de filmagens, ele reúne um grupo de antigos colaboradores - como a dedicada atriz Carol (Christine Baranski) e o leal Dave (Jamie Kennedy) - para levar a novidade adiante, mas percebe que, para conseguir competir como gente grande com produções de orçamentos milionários, precisa necessariamente de um grande astro. Entra em cena, então, Kit Ramsey (Eddie Murphy), um dos mais populares atores do momento: sem que ninguém saiba, Bowfinger resolve filmar o ator em seu dia-a-dia e forçar situações em sua rotina para encaixar no script. Assim, Ramsey - um astro paranoico e mulherengo que acredita estar sendo perseguido por extra-terrestres - entra à sua própria revelia na bagunça, que fica ainda mais complicada com a chegada de um sósia seu, o tímido Jiff (também Murphy), que serve como dublé nas cenas perigosas.


Criando situações cada vez mais insanas e contando com um elenco de personagens hilariantes, Martin fez do roteiro de seu "Os picaretas" uma comédia de muitas risadas, fato raro em uma Hollywood tomada por filmes formulaicos e pouco ousados, que tentam arrancar gargalhadas com piadas sobre fluidos corporais e constrangimentos dos mais variados. Sua trama, reta e simples, busca o humor na identificação com as várias referências (diretas ou não) com o mundo a que retrata - e a graça da piada fica ainda maior quando se sabe de onde ela vem. Daisy, a personagem de Heather Graham, por exemplo, pode ser apenas a ambiciosa moça do interior que sonha em tornar-se atriz e assim vai pulando de cama em cama para conseguir atingir seus objetivos como pode ser uma sátira à Anne Heche, que teve um caso com Martin e ficou famosa no final da década de 90 ao envolver-se com Ellen De Generes. Rindo ainda da moda dos astros em terem um guru espiritual - aqui representado pelo personagem do sempre sinistro Terence Stamp - e do vício em sexo do personagem de Murphy (que encaixou o filme em sua complicada agenda apenas por ser fã de Steve Martin), "Os picaretas" é, ainda, uma homenagem aos que fazem cinema por amor, sendo assim uma espécie de "Ed Wood" - filmaço de Tim Burton sobre o pior diretor de todos os tempos - que não se leva a sério.

Superando de longe a média das comédias lançadas em sua época, "Os picaretas" é uma pérola de humor que consegue ao mesmo tempo ser sofisticado e popular, um equilíbrio raro e louvável conquistado pela experiência de Oz - que recentemente havia marcado outro golaço com o sucesso "Será que ele é?", estrelado por Kevin Kline - e pelo talento de Martin e Eddie Murphy, este último em um de seus melhores trabalhos nas telas. Com um elenco coadjuvante afiadíssimo (com destaque para a sempre incrível Christine Baranski e uma participação especial de Robert Downey Jr. como um executivo da indústria de cinema) e uma história espertíssima que brinca com o cinema e com aqueles que o fazem, não deixa de ser também uma bela homenagem à sétima arte.

terça-feira

JEFFREY, DE CASO COM A VIDA

JEFFREY, DE CASO COM A VIDA (Jeffrey, 1995, The Booking Office, 92min) Direção: Christopher Ashley. Roteiro: Paul Rudnick, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Jeffery J. Tufano. Montagem: Cara Silverman. Música: Stephen Endelman. Direção de arte/cenários: Michael Johnston/Andrew Baseman. Produção executiva: Kevin McCollum. Produção: Mark Balsam, Mitchell Maxwell, Victoria Maxwell. Elenco: Steven Weber, Sigourney Weaver, Patrick Stewart, Victor Garber, Christine Baranski, Camryn Manheim, Kathy Najimy, Nathan Lane, Olympia Dukakis. Estreia: 04/8/95

Filmes como "Meu querido companheiro" (90) e "E a vida continua" (92) retrataram, com uma boa dose de melancolia e realismo, a devastação causada pela AIDS na comunidade gay norte-americana. A doença, que espalhou paranoia, preconceito e dor entre os homossexuais - até que assumiu o status de epidemia a ultrapassar os limites da sexualidade para encontrar suas vítimas - é também o motor propulsor de "Jeffrey, de caso com a vida", que, apesar do tema sombrio é, surpresa, uma comédia. Baseado em uma peça off-Broadway lançada em 1993, o filme de Christopher Ashley - que também comandou a montagem nos palcos - o filme brinca com os clichês relativos ao mundo gay sem desrespeitá-lo e, através da ironia e do humor debochado, tenta fazer um inventário das relações amorosas entre homens. Em alguns momentos até consegue atingir seus objetivos, mas acaba preso a uma irregularidade que o impede de se tornar melhor do que é.

Jeffrey, o protagonista vivido com gosto e carisma por Steven Weber - que em seguida seria corajoso o bastante para substituir Jack Nicholson em uma versão para a TV de "O iluminado", escrita pelo próprio Stephen King em formato de minissérie - é um ator desempregado que, para ganhar a vida, trabalha como garçons em eventos. Traumatizado com uma sequência de aventuras sexuais frustradas pelo medo da contaminação pelo vírus da AIDS, ele toma uma decisão radical: abdicar totalmente de sexo. Essa categórica decisão não é bem-vista nem por seus pais liberais nem tampouco por seu melhor amigo, Sterling (Patrick Stewart), cujo amante Darius (Bryan Batt) é soropositivo. Todos eles acreditam que o rapaz não precisa do celibato e sim de um novo amor. Esse novo amor surge na pele de Steve Howard (Michael T. Weiss), que ele conhece na academia e por quem imediatamente sente-se atraído. A atração e o apoio dos amigos, porém, não são o suficiente para Jeffrey, que tem medo de envolver-se em uma relação amorosa que pode acabar em dor e sofrimento.


É preciso louvar a coragem do dramaturgo e roteirista Paul Rudnick em transformar um tema tão pesado quanto a AIDS em uma comédia leve e despretensiosa: a sombra da doença paira densa sobre os personagens do filme, sempre lembrando-os de sua existência perniciosa, mas os diálogos e o desenvolvimento da trama fogem com destreza do dramalhão, até mesmo quando ele esmurra com força a porta. Patrick Stewart, por exemplo, usou a tristeza que sentiu ao ler o roteiro como elemento para uma cena dramática de "Jornada nas estrelas: generations" (94). Mas, talvez como maneira de exorcizar o tema, Rudnick preenche suas cenas com um humor ácido e recheado de referências culturais típicas do universo gay, como filmes musicais, programas de auditório cafonas e as mães exageradamente liberais - caso da personagem interpretada pela sempre sensacional Olympia Dukakis, que vive a mãe de um homem gay que se tornou lésbica (!!) e que está em vias de fazer uma operação de mudança de sexo.

Contada de forma episódica - o que enfraquece o desenvolvimento de seus personagens, até mesmo os principais - "Jeffrey" tem a seu favor também a participação especial de nomes consagrados em papéis pequenos. Sigourney Weaver brilha como uma espécie de palestrante de autoajuda a quem o protagonista recorre em seu desejo de aprovação - e que se mostra preconceituosa e arrogante. Patrick Stewart - ícone da série "Star Trek" e dos filmes "X-Men" - vive um gay extremamente afetado mas muito carinhoso e dedicado aos amigos e ao amante. Christine Baranski interpreta uma milionária que dá festas beneficentes como quem troca de sapatos. Victor Garber faz uma ponta como um viciado em sexo que participa do grupo que Jeffrey passa a frequentar. E Dukakis, como já citado, brilha como uma mãe orgulhosa do rebelde rebento. Essas participações dão credibilidade ao filme de Ashley - iniciante em cinema - e disfarçam suas inconsistências dramáticas. A criatividade de muitos momentos - criados para o palco e que nem sempre funcionam na transição para a tela grande - se perde na falta de coesão do resultado final, mas mesmo assim é refrescante ver a praga da AIDS sob um novo - e menos fatalista - ângulo.

quarta-feira

O ÁRBITRO

O ÁRBITRO (The ref, 1994, Touchstone Pictures, 93min) Direção: Ted Demme. Roteiro: Richard LaGravenese, Marie Weiss, estória de Marie Weiss. Fotografia: Adam Kimmel. Montagem: Jeffrey Wolf. Música: David A. Stewart. Figurino: Juddiana Makovsky. Direção de arte/cenários: Dan Davis/Jaro Dick. Produção executiva: Jerry Bruckheimer, Don Simpson. Produção: Ronald M. Bozman, Richard LaGravenese, Jeff Weiss. Elenco: Denis Leary, Judy Davis, Kevin Spacey, Robert J. Steinmiller Jr., Glynis Johns, Christine Baranski, Raymond J. Barry, J.K. Simmons, BD Wong. Estreia: 09/3/94

Aclamado como um dos maiores atores de sua geração depois de seu segundo Oscar - e primeiro na categoria principal - por sua atuação em "Beleza americana" (99), Kevin Spacey tem, em seu currículo prévio, alguns filmes pouco vistos pelo público e que, no entanto, já demonstravam sua enorme capacidade de interpretar homens comuns em circunstâncias corriqueiras. Aliás, um de seus últimos filmes antes da explosão que seguiu-se a "Seven, os sete crimes capitais" e "Os suspeitos" - ambos de 1995 - pode ser considerado um ensaio para o elogiado drama de Sam Mendes que lhe rendeu a estatueta da Academia em 2000: na comédia de humor negro "O árbitro", lançada em 1993 e pouco vista pelo público em geral, ele vive com sua naturalidade característica, uma das partes de um casal em crise que se vê obrigado a enfrentar seus problemas conjugais quando é capturado como refém de um assaltante em fuga.

Dirigido por Ted Demme - sobrinho de Jonathan que morreu de overdose em 2002, pouco depois de ter dirigido "Profissão de risco", um filme sobre o tráfico de drogas estrelado por Johnny Depp e Penelope Cruz - "O árbitro" é uma comédia natalina atípica, que brinca com os elementos do gênero - como "A felicidade não se compra" (46), de Frank Capra, o filme-símbolo do período - enquanto devassa o american way of life de maneira menos cáustica e trágica de "Beleza americana", mas ainda assim com uma dose generosa de humor ácido e ironia. Se na obra-prima de Sam Mendes a hipocrisia e o adultério levavam ao crime e ao cinismo melancólico, no filme de Demme a coisa é bem menos séria, até porque leva o selo da Touchstone Pictures, braço da Disney para filmes direcionados ao público adulto - o que já sinaliza tratar-se de um produto para a família, ou seja, sem excesso de nenhuma espécie. Ainda assim - e apesar de um roteiro irregular - tudo funciona a contento, desde que não se exija muito.


Duas situações distintas - que convergem para uma terceira - abrem o filme: em uma o casal Caroline e Lloyd Chasseur (a ótima Judy Davis e Spacey) discutem seu falido relacionamento, prejudicado por uma pulada de cerca dela, com um terapeuta de casais. Em outra, o ladrão de joias Gus (Denis Leary) é surpreendido pelo alarme de uma residência que estava invadindo e foge antes de conseguir entrar em contato com seu cúmplice. Sem ter para onde escapar antes do previsto, o gatuno entra no carro do magoado casal e os leva como reféns para sua sofisticada casa - que espera convidados para a ceia de Natal. O que ele jamais poderia esperar é que, diante de tanto desprezo recíproco mantido pelos discretos Chasseur, ele fosse acabar se tornando uma espécie de juiz de suas discussões - que vão desde o adultério de Caroline até a dificuldade de Lloyd em se impor diante de sua mãe (Glynis Johns) autoritária e espaçosa. Quando o restante da família chega para o jantar - e isso inclui a mãe, o irmão, a cunhada e os sobrinhos de Lloyd - o circo fica ainda maior, com acusações sendo jogadas de um lado para outro na mesa natalina. E para piorar, o filho do casal, o adolescente Jesse (Robert J. Steinmiller Jr.), está sendo procurado pela polícia por viver de chantagem - e pode ser desmascarado na mesma noite.

Mesmo que muitas vezes perca o foco em sua narrativa - com desnecessários minutos dedicados aos policiais que estão caçando Gus - e demore para realmente engrenar, o que só acontece quando a ceia de Natal mostra a que veio na dinâmica familiar dos Chasseur, "O árbitro" funciona como uma comédia despretensiosa e de inteligência acima da média. Com um texto afiado e uma segura direção de atores, ele ainda tem o privilégio enorme de contar com dois grandes protagonistas, capazes de tirar leite de pedra se necessário. Judy Davis não é uma das atrizes preferidas de Woody Allen à toa - consegue como poucas equilibrar neurose e sentimento. E Kevin Spacey, às vésperas de sua consagração como o psicopata John Doe de "Seven", deita e rola com um personagem repleto de cinismo e ironia, uma de suas maiores especialidades. Diversão leve e sem contra-indicações, mas nada muito além disso.

MAMMA MIA!

MAMMA MIA! (Mamma Mia!, 2008, Universal Pictures, 108min) Direção: Phyllida Lloyd. Roteiro: Catherine Johnson, peça musical de Catherine Johnson. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Lesley Walker. Música: Benny Andersson, Bjorn Ulvaeus. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Barbara Herman-Skelding. Produção executiva: Benny Andersson, Tom Hanks, Mark Huffam, Bjorn Ulvaeus, Rita Wilson. Produção: Judy Craymer, Gary Goetzman. Elenco: Meryl Streep, Pierce Brosnan, Colin Firth, Stelan Skarsgard, Amanda Seyfried, Dominic Cooper, Christine Baranski, Julie Walters. Estreia: 30/6/08 (Londres)

Durante os anos 70, não havia no mundo quem não conhecesse ao menos uma canção do grupo sueco ABBA. Depois de uma década restrita apenas a fãs mais ardorosos, os anos 90 ressuscitaram seus sucessos nos filmes australianos "O casamento de Muriel" e "Priscilla, a rainha do deserto" e, quase na virada do século, hinos como "The winner takes it all" e "Dancing queen" chegaram aos palcos ingleses em uma peça musical escrita por Catherine Johnson: "Mamma Mia!" - que se utilizava do repertório da banda em uma comédia romântica - bateu recordes de bilheteria, foi transferido para a Broadway em 2001 e, para surpresa de ninguém, acabou parando no cinema. Seguindo o êxito de musicais com "Moulin Rouge" e "Chicago", a diretora Phillyda Lloyd (que também assinou o comando da versão americana) não decepcionou os produtores Tom Hanks e Rita Wilson, com uma bilheteria de mais de 140 milhões de dólares, prova da perenidade do conjunto formado do qual faziam parte Benny Anderson e Bjorn Ulvaeus, que inclusive aparecem rapidamente em cena e assinam a produção executiva do filme.

Ao contrário de "Across the universe", onde a diretora Julie Taymor, servia-se das canções dos Beatles para contar uma história de amor e liberdade nos EUA sacudidos pela Guerra do Vietnã, "Mamma Mia!" tem um registro muito mais alto-astral e leve, deixando de lado qualquer elocubração mais pesada ou densidade psicológica. Refletindo a beleza límpida e ensolarada da Grécia - onde se passa a história - o roteiro da própria autora da peça explode em colorido, alegria e bom-humor, sem espaço para nada além de uma fotografia deslumbrante, atores se divertindo nitidamente, uma trama que exige do espectador apenas um mínimo de atenção e, claro, uma trilha sonora vibrante e adequada. Aliás, não poderia deixar de ser diferente, já que são as canções que conduzem a história de Donna (uma iluminada Meryl Streep), a dona de um hotel rústico na Grécia que reencontra três ex-namorados justamente às vésperas do casamento da única filha.


Começando do começo: a jovem Sophie (Amanda Seyfried, em papel cobiçado por Mandy Moore, Rachel McAdams, Emmy Rossum e Amanda Bynes) tem um sonho (como diz "I have a dream", que abre o filme) de conhecer seu pai, uma vez que foi criada apenas pela mãe, Donna, em uma paradisíaca ilha grega. Mexendo nas coisas de sua progenitora, ela descobre um diário que lhe dá a conclusão de que ela só pode ser filha de um dos três ex-namorados da mãe, o ex-roqueiro Bill (Stelan Skarsgard), o certinho Harry (Colin Firth) e o bem-sucedido Sam (Pierce Brosnan). Em segredo, ela envia convites de seu iminente casamento para todos e, para sua surpresa, eles aparecem, mexendo com a vida tranquila de Donna, que precisará lidar com seu passado - e que, para isso, conta com a ajuda de suas duas melhores amigas, Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski), também presentes na ilha para o casamento.

O fiapo de história, porém, é o que menos importa. Phillida Lloyd não é uma cineasta capaz de grandes voos, o que fica evidente na sua total falta de ousadia visual ou segurança para compreender as diferenças de linguagem entre teatro e cinema. Como o grande público pouco se importa com essas questões técnicas, a diversão é garantida graças à explosão de alegria que o filme é. Meryl Streep brilha mais que todos, como sempre, criando uma Donna jovem, otimista e carinhosa - que passa da contagiante "Dancing queen" à dolorosa "The winner takes it all" com o talento de uma cantora nata - mas é inegável sua química com Amanda Seyfried, em especial na bela sequência em que a garota se prepara para o casamento. Julie Walters e Christine Baranski quase roubam o show como coadjuvantes e até mesmo o trio de ex-amores de Donna sai-se bem, ainda que nenhum deles possa ser considerado um grande cantor.

"Mamma Mia!" é um filme feito para divertir. Quem gosta de Meryl Streep é um prato cheio. Para quem gosta de comédias românticas com cenários deslumbrantes é um deleite. Mas é para os fãs do ABBA que o filme foi feito. E para eles é essencial!

sexta-feira

CHICAGO

CHICAGO (Chicago, 2002, Miramax Films, 113min) Direção: Rob Marshall. Roteiro: Bill Condon, peça teatral de Maurine Dallas Watkins, músicas de Bob Fosse, Fred Ebb. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Martin Walsh. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: John Myhre/Gord Sim. Produção executiva: Jennifer Berman, Sam Crothers, Julia Goldstein, Neil Meron, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Craig Zadan. Produção: Martin Richards. Elenco: Renée Zellweger, Richard Gere, Catherine Zeta-Jones, John C. Reilly, Queen Latifah, Colm Feore, Taye Diggs, Dominic West, Christine Baranski, Lucy Liu. Estreia: 27/12/02

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Rob Marshall), Atriz (Renée Zellweger), Ator Coadjuvante (John C. Reilly), Atriz Coadjuvante (Queen Latifah, Catherine Zeta-Jones), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Canção ("I move on"), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Catherine Zeta-Jones), Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Richard Gere), Atriz Comédia/Musical (Renée Zellweger)
Vencedor de 3 Screen Actors Guild Awards: Atriz (Renée Zellweger), Atriz Coadjuvante (Catherine Zeta-Jones), Melhor Elenco

O "Chicago" que todo mundo conhece e admira, vencedor de 6 Oscar e o maior sucesso de bilheteria da história da Miramax poderia ter sido bem diferente. Alvo do interesse dos estúdios hollywoodianos desde sua estreia nos palcos da Broadway em 1975, o musical - que chegou aos cinemas dirigido com energia e criatividade por Rob Marshall, cujo currículo tinha de marcante somente uma versão para a TV do chatinho "Annie" - demorou quase três décadas para fazer a transição dos palcos para as telas, e entre as intenções e a realização muita coisa mudou. Entre Bob Fosse (que dirigiu e coreografou a versão teatral da trama em sua estreia) e Marshall (que efetivamente comandou o espetáculo de 2002) até mesmo Nicholas Hytner esteve interessado em dirigir e na lista de atores que estiveram envolvidos com o projeto, em um momento ou outro da produção, estão nomes como Madonna, Goldie Hawn, Kathy Bates, Nicole Kidman, Charlize Theron, Cameron Diaz, Whoopi Goldberg, Hugh Jackman, Frank Sinatra, Liza Minnelli, Toni Collette, Marisa Tomei, Gwyneth Paltrow, Winona Ryder e até (ufa!) Britney Spears. Como às vezes o tempo é uma bênção, é impossível não se deixar conquistar pelo elenco que finalmente assumiu os papéis criados por Maurine Dallas Watkins e adaptados pelo ótimo Bill Condon.

A trama de "Chicago" se passa nos anos 20, quando o teatro de vaudeville estava em seu auge. Ser uma estrela dos palcos é o sonho maior de Roxie Hart (Renee Zelwegger), que, no entanto, precisa levar uma vida sem sal de dona-de-casa ao lado do marido, o mecânico Amos (John C. Reilly). Quando ela conhece o sedutor Fred Casely (Dominic West) sua sorte parece estar começando a mudar: porém, ao contrário das promessas que o rapaz faz (de que vai apresentá-la às pessoas certas no show business) ele quer apenas levá-la pra cama. Quando ela descobre isso, não vê outra alternativa senão matá-lo. Na cadeia, ela conhece seu maior ídolo, a atriz Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), que aguarda julgamento pelo assassinato duplo de sua irmã e seu amante. Para escapar da condenação à forca, Roxie contrata (com o financiamento do pobre marido) o famoso e competente Billy Flynn (Richard Gere), que também defende Velma. As duas passam, então, a disputar a atenção do advogado e as manchetes dos jornais.



Talvez a maior qualidade de "Chicago" seja mesmo seu roteiro: Bill Condon (que dirigiu o sensacional "Deuses e monstros", de 1998) consegue o feito raro de manter o tom irônico de suas primeiras cenas até os créditos de encerramento, sempre entregando à plateia diálogos inteligentes e sarcásticos, seja em falas ou canções, todas elas absolutamente bem encaixadas na história, por si só interessante o bastante. A química entre as duas protagonistas (ambas indicadas ao Oscar, mas apenas Zeta-Jones premiada, de forma um tanto estranha, como coadjuvante) é extraordinária e é perceptível sua entrega ao trabalho. Todos os belos números musicais são dirigidos com extrema competência por Marshall e belissimamente fotografados por Dion Beebe, que dá uma atmosfera de sonho a todos eles. A ideia genial do cineasta - e que deu rumo à adaptação para o cinema - foi fazer com que todos os números sejam originários da imaginação fértil de Roxie, que, assim vê a carcereira Mamma Morton (Queen Latifah, ótima) como uma sofisticada crooner e a execução de uma companheira de prisão como uma apresentação de mágica. É particularmente feliz a ideia de Marshall conduzir a entrevista coletiva de Roxie e Billy como se ela fosse um títere (e a execução da cena é, no mínimo, antológica).

Beneficiando-se do sucesso de "Moulin Rouge" - cujos elogios e popularidade abriu as portas para que novos musicais pudessem ser produzidos pela terra do cinema - "Chicago" conquista principalmente por não ousar demais como o filme de Baz Luhrmann. É um filme claramente moderno, mas com uma linguagem tradicional, que peca apenas por não surpreender em termos estilísticos. Rob Marshall segue à risca a cartilha de Bob Fosse, com coreografias excepcionais e um apurado visual, brincando muito mais com as pequenas ironias que cercam suas personagens do que com o gênero em si, como fez o filme estrelado por Nicole Kidman e Ewan McGregor. Proporciona brilhantes momentos-solos a seus atores (John C. Reilly deita e rola com "Mr.Cellophane" mas Richard Gere mostra sua fragilidade artística com "Razzle Dazzle") e revela em Marshall um cineasta atento aos detalhes e às sutilezas de um projeto tão ambicioso. E além de tudo - e o que é ainda melhor - diverte sem tratar a audiência como débil mental.

Muita gente torceu o nariz para o generoso número de Oscar para "Chicago" - em especial os fãs de seus rivais na briga pela estatueta "As horas" e "Gangues de Nova York". Mas é inegável que é um trabalho de primeira grandeza, realizado com um talento incomum e que remete aos bons tempos de uma Hollywood glamourosa e que tinha no entretenimento sua principal preocupação.

quinta-feira

SEGUNDAS INTENÇÕES


SEGUNDAS INTENÇÕES (Cruel intentions, 1999, Columbia TriStar Pictures, 97min) Direção: Roger Kumble. Roteiro: Roger Kumble, romance "As relações perigosas", de Choderlos de Laclos. Fotografia: Theo van de Sande. Montagem: Jeff Freeman. Música: Edward Shearmur. Figurino: Denise Wingate. Direção de arte/cenários: Jon Gary Steele/Tessa Posnansky. Produção executiva: Michael Fottrell. Produção: Neal H. Moritz. Elenco: Sarah Michelle Gellar, Ryan Philippe, Reese Witherspoon, Selma Blair, Louise Fletcher, Joshua Jackson, Eric Mabius, Sean Patrick Thomas, Swoosie Kurtz, Christine Baranski, Tara Reid. Estreia: 05/3/99

A história de “Segundas intenções” já frequentou as telas de cinema algumas vezes, sendo a mais notável a adaptação de Stephen  Frears de 1988 chamada adequadamente de “Ligações perigosas” e vencedora de 3 Oscar. No entanto, como é bem pouco provável que o público mais jovem – diga-se recém saído da adolescência – tenha sido atraído por uma trama passada na França pré-revolução, não deixa de ser interessante e oportunista – no bom sentido – que o roteirista e diretor Roger Kumble tenha tido a ideia de transferir a história de sexo, intrigas e vingança do escritor Choderlos de Laclos para a Nova York do final do século XX, com pequenas alterações e poucas ambições.

Sarah Michelle Gelar (da série de TV “Buffy, a caça-vampiros”) vive Kathryn, uma jovem milionária, viciada em cocaína e sexo, e hipócrita em todos os sentidos que não se conforma de ter sido abandonada pelo namorado, que agora está apaixonado por Cecile (Selma Blair, bela mas um tanto exagerada em sua caracterização), uma moça de família recém-saída de uma escola de freiras. Com a intenção de desmoralizá-la, Kathryn conta com a ajuda de Sebastian (Ryan Phillipe, nitidamente se divertindo com o papel), filho de seu padastro e com quem mantém uma relação quase incestuosa. Famoso por sua agitada e promíscua vida romântica, Sebastian acaba aceitando o desafio de seduzir Cecile, mas dedica mais atenção a uma missão que considera muito mais importante: convencer a virginal Anette (Reese Witherspoon) a entregar sua pureza a ele.



Utilizando de maneira exemplar uma trilha sonora moderna (Blur, Fatboy Slim, The Verve, Counting Crows, Placebo) e um elenco com nomes promissores e carismáticos, Kumble faz de seu “Segundas intenções” um filme ideal para seu público, ainda que corra o risco de desagradar os mais puristas, principalmente ao alterar o final da história, ainda que mantenha o tom de crítica à uma parcela da sociedade como acontece no livro e no filme de Frears. Enquanto no original a nobreza da França era o alvo da pena de Choderlos de Laclos, em sua versão século XXI a juventude elitista, vazia e fútil da geração de grifes e marcas famosas é que é posta na berlinda, ainda que dificilmente seja reconhecida por sua plateia, ansiosa por uma história sem maior profundidade.

Profundidade, aliás, é algo que o roteiro nem tenta atingir. Roger Kumble fez de seu filme uma história de desejo e vingança com doses de sexo (nada muito ousado, mas suficientemente atrativo) e bom humor, apesar do desfecho trágico e da seriedade com que Reese Witherspoon encara um papel difícil, em contraponto às atuações de Ryan Philippe (em seu melhor trabalho) e Sarah Michelle Gelar, que não precisam muito para deixarem claro sua satisfação em viver personagens tão cruéis. Eles ainda precisam comer muito feijão com arroz para chegarem aos pés de John Malkovich e Glenn Close - de quem herdaram seus papéis - mas colaboram bastante para o sucesso com que "Segundas intenções" atinge seus objetivos.

terça-feira

9 1/2 SEMANAS DE AMOR


9 1/2 SEMANAS DE AMOR (9 1/2 weeks, 1986, MGM Pictures, 112min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Sarah Kernochan, Zalman King, Patricia Louisianna Knop, romance de Elizabeth McNeill. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Caroline Biggerstaff, Ed Hansen, Tom Rolf, Mark Winitsky. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Ken Davis/Christian Kelly. Casting: Nan Dutton, Vicki Huff, Mary Jo Slater, Lynn Stalmaster. Produção executiva: Keith Barish, Frank Konigsberg. Produção: Mark Damon, Sidney Kimmel, Zalman King, Antony Rufus-Isaacs. Elenco: Mickey Rourke, Kim Basinger, Margaret Whitton, David Margulies, Christine Baranski, Karen Young. Estreia: 21/02/86

Adrian Lyne é um cineasta que, a julgar por seus filmes, dispensa um bom roteiro se puder contar com um visual interessante. Exemplo disso é "9 1/2 semanas de amor", um dos filmes ícones dos anos 80, que foi um fracasso de bilheteria nos EUA, mas virou cult no resto do mundo, deflagrando o que convencionou-se chamar de “estética de videoclip”, da qual também fazem parte produtos como “Top Gun, ases indomáveis” e “Flashdance, em ritmo de embalo”, este último sintomaticamente comandado pelo mesmo Adrian Lyne.

Na verdade, o fracasso comercial do filme justifica-se plenamente pela fragilidade do roteiro, inspirado em um livro desconhecido de Elizabeth McNeill, que parte de uma premissa quase inacreditável e segue sem rumo certo por duas horas de projeção. Se não vejamos: a bela e sexy Elizabeth (homônima da autora do livro, o que de certa forma sugere um alter-ego mal disfarçado) trabalha numa galeria de arte – uma profissão “cool” - e, tirando seu ex-marido, que ela deselegantemente passa para uma colega, tem uma vida sexual bem pobrezinha. Um dia ela encontra na rua com o misterioso e charmoso John (Mickey Rourke, ainda em forma e em vias de transformar-se em promessa de astro). Depois de relutar um pouco – bem pouco, na verdade – ela acaba entregando-se em uma relação baseada em puro sexo e submissão. Aos poucos, no entanto, ela começa a temer por sua segurança física e emocional, uma vez que seu amante não lhe dá nenhum tipo de segurança fora dos domínios sexuais.


E a história resume-se a isso. Entre as – justiça seja feita – extremamente bem fotografadas e excitantes cenas de sexo, o casal não parece, em momento algum, personagens de um filme romântico e sim de um pornô light e com ambições à clássico. Kim Basinger, que não está particularmente bonita e Mickey Rourke têm uma química invejável, apesar dos boatos de que não se suportaram durante as filmagens - o ator preferia Isabella Rosselini para o papel e nunca fez questão de esconder a preferência. Também não ajudou em nada o fato de Lyne proibir os dois de se falaram fora dos sets de filmagem - se bem que, a julgar pela declaração de Basinger de que beijar Rourke causava a mesma sensação de levar um cinzeiro aos lábios nem mesmo os dois atores faziam questão de um relacionamento social...

Mas a definição de que é um filme que analisa os limites da sexualidade da mulher é balela. Nem adiantou Lyne tentar profundidades subliminares como vestir Elizabeth de roupas escuras quando encontra John, em oposição a suas roupas claras nas outras cenas. O que fica depois de uma sessão de “9 ½ semanas de amor” são as lembranças de sua adequada trilha sonora e de duas ou três cenas quentes e bem coreografadas. Não é muito para um filme que fez a cabeça de muitos casais de sua época. Mas provavelmente os fãs não estão nem aí pra isso...

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...