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segunda-feira

CORPO EM EVIDÊNCIA

 


CORPO EM EVIDÊNCIA (Body of evidence, 1992, Constantin Film/Dino De Laurentiis Company, 99min) Direção: Uli Edel. Roteiro: Brad Mirman. Fotografia: Douglas Milsome. Montagem: Thom Noble. Música: Graeme Revell. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Victoria Paul/Jerie Kelter. Produção executiva: Stephen Deutsch, Melinda Jason. Produção: Dino De Laurentiis, Martin Moscowicz. Elenco: Madonna, Willem Dafoe, Joe Mantegna, Jurgen Prochnow, Frank Langella, Anne Archer, Julianne Moore. Estreia: 15/01/93

Apenas noventa dias separam o lançamento do livro "Sex", do álbum "Erotica" e do filme "Corpo em evidência" e este fato não é mera coincidência. Além de girarem em torno de sexo (em suas mais complexas variações), os três produtos tem algo mais em comum: a cantora/atriz Madonna, então no auge de sua cruzada contra o conservadorismo e a hipocrisia vigente no mundo em geral e nos EUA em particular. Dirigido pelo alemão Uli Edel e produzido pelo veterano Dino De Laurentiis (que escolheu a estrela pop pessoalmente para o projeto), "Corpo em evidência" serviu como uma luva para os interesses messiânicos da artista, mas acabou se espatifando nas bilheterias. Com uma renda mundial de apenas 13 milhões de dólares - nem metade de seu custo - e críticas nem um pouco alvissareiras (em especial relacionadas ao fraco desempenho de sua atriz central), o filme acabou se tornando um dos maiores fiascos da década de 1990 e provou que, apesar do descomunal talento de Madonna em provocar e despertar polêmicas (além de suas óbvias qualidades musicais), sua trajetória no cinema ainda era um desafio a ser vencido. E nem mesmo a presença de atores respeitados como Willem Dafoe e Frank Langella conseguiu salvar o filme do desastre.

Assim como em "Instinto selvagem" - grande sucesso lançado meses antes e que também se utilizava do erotismo como chamariz de bilheteria -, "Corpo em evidência" lança mão de elementos policiais para contar uma história repleta de reviravoltas e com uma protagonista feminina de comportamento dúbio e sexualmente agressivo. Aqui a personagem central é Rebecca Carlson, a dona de uma galeria de arte que é acusada de provocar a morte de seu amante mais velho, Andrew Marsh (Michael Foster), vítima de um ataque cardíaco fulminante depois de uma agitada noite de sexo. O fato de cocaína ser encontrada no organismo da vítima - o que apressou a tragédia - e a notícia de que Rebecca é a maior beneficiária de seu testamento bastam para que a polícia a indicie e a leve a julgamento. Para defendê-la, Rebecca contrata os serviços do conservador Frank Dulaney (Willem Dafoe), que acaba sendo enredado em uma teia de sedução engendrada por sua cliente: os dois iniciam uma relação baseada em dominação e sexo violento, situação que o faz questionar a inocência de sua cliente. Conforme o relacionamento vai avançando, Dulaney parte em busca da verdade, que pode estar ligada à secretária de Marsh, a bela e discreta Joanne Braslow (Anne Archer).

 

Centrado em sequências que usam e abusam do corpo de Madonna e de sua falta de pudor em testar os limites da censura - o filme teve cenas cortadas em sua exibição nos EUA -, "Corpo em evidência" peca, no entanto, em desenvolver a contento os conflitos paralelos de sua trama. Não há profundidade alguma no roteiro de Brad Mirman, que perde preciosas oportunidades de explorar a tensa relação entre seus protagonistas - tanto em termos sexuais quanto éticos - e seus desdobramentos dramáticos (Julianne Moore interpreta a esposa de Dulaney, mas é subaproveitada em cenas quase constrangedoras). A trama policial tampouco é empolgante, caminhando em um ritmo que impede a conexão do espectador - e portanto seu interesse. Edel não consegue nem mesmo transformar as cenas eróticas em algo sexy, com uma fotografia escura que esconde os corpos de Madonna e Defoe mesmo em seus momentos mais quentes. Também não ajuda em nada o texto repleto de clichês e a atuação quase mecânica de seus atores - a começar por Madonna, incapaz de convencer como mulher fatal apesar de seus nítidos esforços. Nem particularmente bonita ela está, prejudicada por um figurino sóbrio em excesso, que apaga seu carisma de estrela - algo que ela recuperaria poucos anos depois, quando assumiu o papel-título do musical "Evita" (1996) e chegou a ganhar um Golden Globe de melhor atriz.

Para quem não exige muito de um filme policial com pitadas de erotismo, "Corpo em evidência" pode agradar, justamente por não tentar fugir dos elementos clássicos do gênero e tentar surpreender com um final tirado da manga. Como cinema é bastante problemático - desde o roteiro morno até a direção apática - e nem mesmo a oportunidade de discutir a polêmica prática do sadomasoquismo é aproveitada de forma inteligente. Não fosse a ousadia de apresentar cenas mais adultas do que a maioria das produções hollywoodianas, seria uma produção bastante esquecível - se não absolutamente medíocre. E não deixa de ser sintomático que um filme policial seja mais lembrado por uma sequência específica - Madonna queimando o peito de Willem Dafoe com cera quente - do que por sua trama.

domingo

W.E: O ROMANCE DO SÉCULO

W.E: O ROMANCE DO SÉCULO (W.E, 2011, The Weinstein Company, 119min) Direção: Madonna. Roteiro: Madonna, Alek Keshishian. Fotografia: Hagen Bogdanski. Montagem: Danny B. Tull. Música: Abel Korzeniowski. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Celia Bobak. Produção executiva: Scott Franklin, Donna Gigliotti, Harvey Weinstein. Produção: Madonna, Kris Thykier. Elenco: Abbie Cornish, Andrea Riseborough, James D'Arcy, Oscar Isaac, Richard Coyle, James Fox, Edward Fox, Judy Parfitt, Natalie Dormer. Estreia: 01/9/11 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Figurino

A primeira coisa que é preciso ter em mente quando se propõe a uma sessão de "W.E. - O romance do século" é o fato de Madonna ter contra si a imensa má-vontade dos críticos e da própria indústria do cinema. Salvo raríssimas exceções - e mesmo assim longe de uma margem confortável de elogios - a estrela pop é sistematicamente bombardeada com uma animosidade quase inexplicável sempre que tenta a sorte na sétima arte. Um exemplo claro e insofismável dessa antipatia generalizada pela ex-mulher de Sean Penn e Guy Ritchie - ambos bem-sucedidos nas carreiras de cineastas - foi a forma violenta com que seu segundo longa-metragem como diretora foi recebido de forma quase unânime. Malhado impiedosamente pela crítica, "W.E" não mereceu toda essa enxurrada de pedras. Mesmo que esteja bem longe de ser uma obra-prima e também peque em alguns itens cruciais a história de amor entre o rei Eduardo VIII e a americana duas vezes divorciada Wallis Simpson - é contada por Madonna com um senso estético e um refinamento que revelam que suas três décadas como estrela de videoclipes certamente lhe ensinaram muita coisa em termos visuais.

Fotografado com requinte e sutileza pelo alemão Hagen Bogdanski, "W.E" começa com uma cena de inegável impacto, quando Wallis (Andrea Riseborough) é violentamente espancada pelo primeiro marido durante a gravidez. Essa cena - aparentemente gratuita - fará eco mais tarde com a situação triste vivida pela jovem Wally Winthrop (Abbie Cornish), que passa por uma séria crise em seu casamento justamente por desejar ardentemente um bebê. Wally - assim batizada justamente porque sua mãe era fã da famosa Wallis - é a verdadeira protagonista do filme, deixando o romance entre a americana à frente de seu tempo e o rei que abdicou do trono por amor (e o deixou com o irmão, protagonista do filme "O discurso do rei") quase como uma trama secundária que comenta (às vezes sem a força necessária, às vezes de forma acertadamente delicada) a trajetória da Wally contemporânea e seu tímido romance com Evgeni (Oscar Isaac), o segurança russo do museu nova-iorquino onde acontece uma exposição sobre o célebre casal. E é justamente essa opção do roteiro - escrito pela cantora e por Alek Keshishian, que a dirigiu em "Na cama com Madonna" - que acaba sendo sua maior e mais crítica falha.


Ao dividir a atenção em duas histórias que não precisariam necessariamente estar conectadas - ao menos de forma tão frágil - Madonna tira o foco daquela que poderia ser a trama mais interessante e que dá título a seu filme. A história de amor que abalou a realeza inglesa é contada de maneira um tanto confusa e superficial, obrigando a plateia a adivinhar certos acontecimentos e encontrar-se sozinha no emaranhado de imagens que sublinham a ligação entre as duas protagonistas. Demora um pouco para que o público finalmente perceba as intenções do roteiro e essa confusão é quase fatal, em especial para uma audiência não exatamente acostumada a pensar. Prejudicado ainda pelo fato de não ter astros de primeira grandeza em seu elenco - Ewan McGregor chegou a ser confirmado como Eduardo VIII mas teve de cair fora por problemas de agenda - o filme rendeu pouco mais de 500 mil dólares no mercado americano contra seu custo estimado de 15 milhões (bancados pela própria Madonna), o que apenas reitera o desprezo do público pela Madonna cineasta. Uma injustiça, já que os trabalhos de Andrea Riseborough como Wallis Simpson - papel oferecido a Vera Farmiga e Amy Adams - e Oscar Isaac - em seu primeiro papel de destaque - são dignos de nota.

Além disso, apesar de ter custado barato"W.E" em nenhum momento passa essa impressão. Cuidadosamente produzido - chegou a concorrer ao Oscar de figurino e rendeu à cantora uma indicação ao Golden Globe pela bela canção "Masterpiece" - e visualmente excitante, com uma reconstituição de época opulenta e detalhista, é um produto que seduz sua audiência pela sutileza e pela delicadeza. Vindo de Madonna - não exatamente um exemplo de discrição - não deixa de ser positivamente surpreendente.

segunda-feira

UMA EQUIPE MUITO ESPECIAL

UMA EQUIPE MUITO ESPECIAL (A league of their own, 1992, Columbia Pictures, 128min) Direção: Penny Marshall. Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel, estória de Kim Wilson, Kelly Kandaele. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Adam Bernardi, George Bowers. Música: Hans Zimmer. Figurino: Cynthia Flynt. Direção de arte/cenários: Bill Groom/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Penny Marshall. Produção: Elliot Abbot, Robert Greenhut. Elenco: Tom Hanks, Geena Davis, Lori Petty, Madonna, Rosie O'Donnell, Bill Pullman, David Straithairn, Jon Lovitz, Garry Marshall. Estreia: 01/7/92

No auge da II Guerra, enquanto a maioria dos homens americanos estavam defendendo o país nas trincheiras inimigas, restava às mulheres manter os EUA, até mesmo em funções até então consideradas masculinas. E se nessa época havia fazendeiras, caminhoneiras e empresárias, por que não jogadoras de baseball? Um dos esportes mais amados pelo público ianque, ele estava em sérias dificuldades com o êxodo de seus mais populares jogadores, que estavam jogando por suas vidas nas mais distantes plagas. Com medo de perder as generosas bilheterias que o jogo lhes proporcionava, os empresários tiveram então uma ideia brilhante: criar uma liga feminina de baseball, com o objetivo de manter acesa a chama até o retorno dos (esperava-se) vencedores soldados. Assim começa "Uma equipe muito especial", a divertida comédia que Penny Marshall - diretora dos sucessos "Quero ser grande" (88) e "Tempo de despertar" (90) - fez alcançar mais de 100 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico no verão de 1992. Sucesso de público e crítica, o filme cria uma história de ficção em cima de uma situação verídica (a criação de tal liga) que até então era desconhecida da maior parte dos americanos e faz rir e emociona com um roteiro enxuto escrito pela dupla mais quente da época, Baballo Mandel e Lowell Ganz.

A trama criada pelos roteiristas começa em 1943, no Oregon, quando o descobridor de talentos Ernie Capadino (Jon Lovitz) propõe à talentosa Dotti Hinson (Geena Davis em momento especialíssimo da carreira, acumulando sucesso atrás de sucesso) que o acompanhe para um teste em Chicago: se aprovada, ela entraria em um time de baseball profissional com um salário tentador (ao menos para uma fazendeira cujos dias se resumem a ordenhar vacas, cuidar da casa, esperar que o marido retorne da guerra e ocasionalmente jogar com um grupo de amigas). Dottie a princípio recusa o convite, mas acaba aceitando a proposta, desde que possa levar junto sua irmã caçula, Kit (Lori Petty), com quem mantém uma relação carinhosa porém de certa rivalidade. Em pouco tempo, ambas estão escaladas para serem treinadas por Jimmy Dugan (Tom Hanks, divertidíssimo), que, de uma lenda do esporte acabou por tornar-se um pária por seu vício em álcool. Juntamente com outras mulheres igualmente talentosas, elas encaram o machismo do mundo esportivo - antes de jogadoras elas são tratadas como fêmeas, que precisam saber comportar-se socialmente e manter-se atraentes fisicamente - e iniciam uma bem-sucedida carreira.


O fio condutor da história de "Uma equipe muito especial" - a amizade e a competitividade entre Dotti e Kit - é apenas desculpa para Penny Marshall divertir o público com piadas sutis e ácidas sobre o comportamento feminino da década de 40 e o universo machista e ganancioso do baseball. Enquanto Dotti está vivenciando apenas uma fase de sua vida, que ela pretende que volte aos eixos quando seu marido (Bill Pullman) retornar do conflito, suas colegas tem no jogo e no campeonato o centro de suas existências. É somente ao lado das demais jogadoras que Doris Murphy (Rosie O'Donnell) sente-se enturmada, que a desbocada e liberal Mae Mordabito (Madonna) pode ser quem ela realmente é, que a feiosa Marla (Megan Cavanagh) sente-se valorizada (mesmo que nos documentários sobre o time ela seja sempre filmada de longe para não atrapalhar a ideia de que todas as atletas da liga são bonitas e sensuais). Essa espécie de família que é criada a partir da união entre todas elas é o que dá ao filme seu sabor especial, mesclando momentos de humor com cenas quase comoventes - em especial quando uma das jogadoras recebe a triste notícia da morte de seu marido. Buscando um humor simples e familiar, ela atinge o espectador aos poucos, até mesmo aquele que entende de baseball tanto quanto de física quântica.

"Uma equipe muito especial" talvez seja apenas mais um filme de esportes americanos feito para americanos, mas é impossível negar as qualidades que o fazem conquistar também o público internacional. O timing cômico do roteiro é invejável (todas as cenas com o filho obeso de uma das jogadoras é sensacional), a direção é convencional mas eficaz, a trilha sonora de Hans Zimmer cumpre sua função com louvor (e tem direito até a uma canção feita especialmente por Madonna, "This used to be my playground", que concorreu ao Golden Globe) e o elenco está em dias inspirados. Tom Hanks engordou para o papel e construiu um Jimmy Dugan irascível e ao mesmo encantador; Geena Davis pegou o papel de Debra Winger dias antes do início das filmagens e tornou-se exímia jogadora; e até Madonna sai-se bem como a sexy Mae Topa Tudo (o que dá origem a uma ótima piada). No final das contas, é uma comédia acima da média, capaz de arrancar sorrisos até do mais exigente espectador.

DICK TRACY

DICK TRACY (Dick Tracy, 1990, Touchstone Pictures, 105min) Direção: Warren Beatty. Roteiro: Jim Cash, Jack Epps Jr., personagem criado por Chester Gould. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Richard Marks. Música: Danny Elfman. Canções: Stephen Sondheim. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Rick Simpson. Produção executiva: Art Linson, Floyd Mutrux, Barrie M. Osborne. Produção: Warren Beatty. Elenco: Warren Beatty, Al Pacino, Madonna, Glenne Headley, Charles Durning, Dustin Hoffman, William Forsythe, Mandy Patinkin, James Caan, Charlie Korsmo, Estelle Parsons, Kathy Bates. Estreia: 14/6/90

7 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Al Pacino), Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Canção ("Sooner or later"), Maquiagem, Som
Vencedor de 3 Oscar: Canção ("Sooner or later"), Direção de Arte/Cenários, Maquiagem 

Depois que "Batman", dirigido por Tim Burton e estrelado por Michael Keaton e Jack Nicholson tomou o mundo de assalto em 1989, surpreendendo até mesmo as mais altas e megalômanas expectativas da Warner, ninguém duvidava que outros filmes de super-heróis das histórias em quadrinhos surgissem no horizonte, pegando carona no sucesso do homem-morcego. E nem demorou muito até que uma produção caprichada, sob os auspícios da Disney e comandada por um dos mais confiáveis homens da indústria dominasse as atenções: Dick Tracy, o detetive de queixo quadrado criado por Chester Gould em 1931, chegou às telas em pleno verão americano de 1990, dirigido, produzido e estrelado por Warren Beatty, na companhia de nomes de peso, como Al Pacino e Madonna (com quem o astro esteve envolvido durante as filmagens, como era de seu feitio). Com um custo estimado de 46 milhões de dólares, o filme pode não ter repetido o êxito da obra de Burton, mas com uma renda superior a 100 milhões somente no mercado doméstico (EUA e Canadá), não decepcionou nem o estúdio - que queria encher os bolsos - nem o público - que buscava entretenimento puro e simples.

A bem da verdade, apesar de seu roteiro frouxo - que mistura vários vilões criados por Gould em uma única trama - "Dick Tracy" pode ser considerado um passo à frente do Batman de Burton, que só conseguiria equilíbrio entre visão pessoal e comercial com sua sequência, "Batman, o retorno" (92). A começar por sua estupenda direção de arte (merecidamente premiada com o Oscar), a visão de Beatty dos quadrinhos de Gold se aproxima genialmente do original, anos antes que "Sin City, a cidade do pecado" (05) tornasse tão tênue a fronteira entre o cinema e os comic books. Colorido ao ponto de quase ferir os olhos, fotografado com precisão pelo veterano Vittorio Storaro (que também chegou a concorrer à estatueta da Academia) e com uma galeria de tipos recriados com um preciosismo fascinante pela maquiagem de John Caglione Jr. - que deixa atores conhecidos como Al Pacino e Dustin Hoffman irreconhecíveis atrás da maquiagem - o visual do filme é, sem dúvida, seu maior e mais saboroso atrativo. Mesmo que Warren Beatty tenha preferido (acertadamente) deixar de lado em sua caracterização o queixo proeminente que é a marca de Tracy, todo o resto é absolutamente apaixonante, feito com o objetivo claro de seduzir a audiência pela visão. Uma pena, porém, que o roteiro, com dito anteriormente, deixe muito a desejar.


Dick Tracy, o protagonista vivido por Beatty com seu habitual ar blasé, é o detetive mais corajoso de uma cidade cada vez mais dominada pelos gângsteres, que, depois de um desentendimento mais violento do que o normal, passam a ser liderados por Big Boy Caprice (Al Pacino, nitidamente se divertindo aos montes em um papel atípico que lhe deu uma indicação ao Oscar de coadjuvante no mesmo ano em que ele merecia uma lembrança na categoria principal por "O poderoso chefão, parte 3").  Incorruptível, Tracy tenta de todas as maneiras acabar com a festa de Caprice, inclusive tentando cooptar para seu lado a sensual Breathless Mahoney (Madonna), principal atração do night-club utilizado pelos bandidos como quartel-general. A aproximação entre o detetive e Mahoney - cujo comportamento ambíguo ao mesmo tempo o repele e seduz - passa a incomodar sua eterna namorada, a fiel e dedicada Tess Trueheart (Glenne Headley) e até o pequeno Kid (Charlie Korsmo), um menino de rua que o admira e que tem intenções de ser adotado por ele. Não bastasse tudo isso, Tracy ainda é preso, vítima de uma armadilha criminosa, e a cidade passa a ser ameaçada por um misterioso bandido sem rosto.

A superficialidade da trama de "Dick Tracy" de certa forma combina com o tom de entretenimento ligeiro proposto por Warren Beatty e companhia, mas não deixa de ser um balde de água fria naqueles que procuram no filme algo mais do que um simples passatempo inócuo. Além de ter um começo um tanto confuso, o roteiro não desenvolve a contento nenhum personagem - nem mesmo seu protagonista - deixando a plateia órfã daqueles sentimentos tão procurados em um blockbuster: a identificação com o herói e a torcida pela derrota do vilão. Aqui, tanto o Tracy de Beatty soa quase apático a maior parte do tempo quanto o Big Boy de Pacino - apesar da performance inspirada do ator - arranca no máximo gargalhadas. Nem mesmo a identidade do misterioso criminoso sem rosto chega a causar alguma reação, talvez por sua previsibilidade. Sobra para o deleite do público, então, o visual acachapante, a curiosidade de ver Madonna como atriz (e, apesar de genial artista sobre os palcos ela não chega a convencer no papel de Mahoney) e as belas canções do veterano compositor da Broadway Stephen Sondheim - uma delas, a balada "Sooner or later" também chegou a ser premiada com o Oscar. Para um filme com tantas ambições, é pouco.

NA CAMA COM MADONNA

NA CAMA COM MADONNA (Madonna: Truth or Dare, 1991, Boy Toy/Miramax Films, 120min) Direção: Alek Keshishian. Montagem: Barry Alexander Brown. Produção executiva: Madonna. Produção: Tim Clawson, Jay Roewe. Elenco: Madonna, Donna DeLory, Niki Harris, Luis Camacho, Oliver Crumes, Salim Gauwloos, Jose Guitierrez, Kevin Stea, Gabriel Trupin, Carlton Wilborn. Estreia: 10/5/90

Em 1991, Madonna estava em um momento especial de sua carreira, iniciada quase uma década antes: divorciada de seu primeiro marido (o ator Sean Penn, com quem manteve uma relação no mínimo atribulada), elogiada por seu desempenho no filme "Dick Tracy" (em cujos bastidores conheceu e seduziu o diretor/ator/Don Juan Warren Beatty) e contando os milhares de dólares arrecadados por sua turnê mundial "Blonde Ambition", a material girl planejava a dominação do planeta com um pacote ousado em três frentes: o cinema, a literatura e a música. Com o álbum "Erotica", o polêmico livro de fotos sensuais chamado "Sex" e o filme "Corpo em evidência" - onde interpretaria uma mulher acusada de matar o amante de exaustão sexual que envolve seu advogado em uma teia de sadomasoquismo - ela selaria de vez junto a seu fiel público o compromisso de manter sempre viva a chama da controvérsia e das discussões sobre os limites entre arte e pornografia. Antes disso, porém, ela chamou a atenção de todo mundo com outra obra que lhe dirigiu os holofotes até mesmo do sério Festival de Cannes: seu documentário-musical "Na cama com Madonna", que misturava apresentações de seus shows (fotografadas em cores e que mostrava a excelência da produção) e os bastidores da turnê (em um preto-e-branco que revelava detalhes tanto engraçadíssimos quanto chocantes perante os olhos dos mais puritanos). Com o irrisório custo de U$ 4,5 milhões, o filme tornou-se rapidamente na segunda maior bilheteria de um filme do gênero, perdendo apenas para o icônico "Woodstock", de 1969.

Dirigido por Alek Keshishian - depois que David Fincher, que havia assinado os videoclipes "Oh, father", "Express yourself" e "Vogue", da cantora - "Na cama com Madonna" é um filme para fãs, sem dúvida, mas é bem capaz de divertir até mesmo aqueles que não veem nela nada mais do que apenas a mais bem-sucedida estrela da música pop mundial até hoje. Se artistas como Lady Gaga, Britney Spears e Beyoncé hoje são reconhecidas, admiradas e tem sua legião de admiradores, muito devem à coragem de Madonna em, desde sempre, tomar as rédeas de sua carreira e fazer o que bem entendia. Essa ousadia - misturada com um tanto de arrogância que frequentemente vem junto com a genialidade - fica óbvia em cada momento do documentário. Obcecada com a perfeição de seus shows, Madonna não aceita erros, compra briga com o próprio Papa na ocasião de sua apresentação na Itália e chega a ser ameaçada de prisão graças às insinuações de sexo de suas coreografias. Esses problemas legais, inclusive, a empurram mais adiante: percebe-se claramente que o combustível da cantora é justamente a vontade de provocar a audiência. E isso, ninguém pode negar, ela faz com maestria.


As cenas de bastidores captadas pela lente indiscreta de Keshishian registram momentos antológicos da carreira de Madonna. São elas que mostram o desprezo da cantora por Kevin Costner (na época em que ele era o queridinho da América graças ao soporífero "Dança com lobos"), sua paixão enrustida por Antonio Banderas (de quem ela leva uma esnobada clássica e com quem mais tarde dividiria a cena em "Evita"), sua provocação à vaidade do então namorado Warren Beatty, o reencontro com uma amiga de infância (e sua pouca importância a ela), a relação com a família e principalmente a maneira frequentemente carinhosa com que se relacionava com a equipe do show - em especial os bailarinos que, como diz o titulo nacional do filme, revelam-se diante das câmeras em conversas na cama de sua patroa. Tais conversas - e tais revelações, especialmente - acabaram criando polêmica também após o lançamento do filme, quando três dançarinos abriram um processo por invasão de privacidade, fraude e manipulação de imagem (o que é, no mínimo, suspeito, uma vez que todos sabiam perfeitamente bem que estavam sendo filmados). Tais momentos, que incluem um surpreendente jogo da verdade onde ela revela ainda amar Sean Penn e simula sexo oral em uma garrafa, estão entre os mais marcantes em um filme repleto deles.

E se os bastidores de "Blonde Ambition" são sensacionais o show em si é ainda mais empolgante. Uma das primeiras estrelas pop a utilizar a tecnologia como algo mais do que simplesmente coadjuvante no palco, Madonna apresenta um espetáculo acima de qualquer crítica. Recheado de sucessos que vão desde o início de sua carreira, como "Like a virgin" (cuja performance é uma das mais polêmicas e que lhe rendeu as ameaças do Vaticano) até aqueles que estavam começando a bombar nas pistas de dança, com "Vogue", a turnê mostra que Madonna, mais do que simples cantora, é também uma entertainer completa, que conduz com firmeza e segurança uma série de números musicais brilhantes, concatenados como uma espécie de narrativa que fala da força feminina, da fé, da família e da liberdade sexual. Se as pessoas veem Madonna apenas como uma aberração da mídia é porque ainda não tiveram a oportunidade de assistir a seu documentário: muito antes de enveredar por outros caminhos na carreira (como a preocupação social e espiritual que deu o tom de seu "I'm going to tell you a secret", vindo anos depois), ela já mostrava que sabia, como poucas de sua geração, utilizar todas as armas disponíveis para chegar ao topo. De onde ainda não saiu, mais de vinte anos depois.

quarta-feira

EVITA

EVITA (Evita, 1996, Hollywood Pictures/Cinergi Pictures Entertainment/Dirty Hands Productions, 135min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Alan Parker, Oliver Stone, musical homônimo de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Gerry Hambling. Figurino: Penny Rose. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Philippe Turlure. Produção: Alan Parker, Robert Stigwood, Andrew G. Vajna. Elenco: Madonna, Antonio Banderas, Jonathan Pryce, Jimmy Nail. Estreia: 25/12/96

5 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Canção ("You must love me"), Som
Vencedor do Oscar de Melhor Canção ("You must love me")
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Madonna), Canção ("You must love me")

Praticamente vinte anos separam a estreia na Broadway do musical "Evita", de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice do lançamento de sua adaptação cinematográfica, dirigida pelo inglês Alan Parker e estrelado pela diva pop Madonna. Nesse vácuo de quase duas décadas, a ópera-rock de Webber e Rice - que teve montagem até mesmo no Brasil - tornou-se parte do inconsciente coletivo e sua transição para as telas mostrou-se mais complicada do que parecia a princípio. A demora, porém, foi providencial. Com a defecção de Oliver Stone do projeto, também foram deixadas de lado Barbra Streisand, Liza Minnelli, Meryl Streep e Michelle Pfeiffer. Por melhores atrizes que todas elas sejam, ninguém conseguiria ser Evita tão bem quanto Madonna. Arrebatadora em cena, ela apaga da memória de todos seus fiascos anteriores. Levou o merecido Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical e segura lindamente a barra de protagonizar um filme quase 100% cantado.


Madonna fala meras 140 palavras em "Evita". Antonio Banderas - na melhor atuação de sua carreira em Hollywood - fala ainda menos (cerca de 18). A música fala por eles e por Jonathan Pryce, o terceiro protagonista de uma ousada e cara produção filmada em Londres, Budapeste e Buenos Aires e que despertou polêmica antes mesmo de ter sua primeira cena rodada: logicamente os argentinos, que veem Eva Perón como quase uma santa não gostaram nem um pouco de vê-la interpretada por Madonna, cuja imagem pública cabe em qualquer definição exceto às relacionadas a qualquer tipo de santidade. Furiosos com a produção do filme, eles chegaram a lançar a sua versão da história, estrelada por Esther Goris, que de certa forma complementa a visão artística e quase onírica de Rice e Lloys Webber, dirigida por maestria por um Alan Parker acostumado a musicais - afinal, foi ele quem assinou "Fama", "Pink Floyd - The Wall" e "The Commitments, loucos pela fama".


A escolha de Parker para comandar "Evita" foi um golpe de mestre. Inteligente e irônico, o cineasta imprime um ritmo espetacular a um roteiro que, em mãos menos hábeis, poderia se tornar um exercício enfadonho de paciência. Editado com precisão por seu colaborador habitual, Gerry Hambling e fotografado brilhantemente pelo iraniano Darius Khondji, "Evita" é tecnicamente impecável, repleto de toda a pompa e circunstância que exige. A impressionante sequência que mostra o funeral da primeira-dama mais amada da história da Argentina é de encher os olhos e basta uma olhada nas fotos do real evento para que se perceba o cuidado da direção de arte em reconstituir com detalhes toda a trajetória da protagonista. Àqueles que reclamaram da superficialidade do roteiro, é preciso lembrar que trata-se de um musical hollywoodiano baseado em um espetáculo da Broadway, ou seja, longe de ser um documentário com objetivos maiores do que entreter e encantar visualmente.



E visualmente "Evita" é um deslumbre. Não há uma única cena em que Alan Parker não tenha impresso seu extremo bom-gosto. Madonna troca de roupa 85 vezes em cena - batendo o recorde de Elizabeth Taylor em "Cleópatra" - e se entrega de corpo e alma à personagem, mesmo tendo que, em certos momentos, esconder a barriguinha de grávida. A estrela maior da música pop canta, dança e representa como se de sua atuação dependesse toda sua carreira - e a julgar pela carta desesperada que escreveu ao diretor implorando pelo papel, de certa forma considerava sua escalação para o filme como seu ápice. Seria injusto dizer que ela não atingiu seu objetivo de conquistar o respeito da crítica e da indústria, ainda que o tenha perdido pouco depois com mais escolhas equivocadas que acrescentou a seu currículo. Mesmo assim, é impossível dissociar, ao final do filme, a imagem de Madonna da imagem de Eva Perón.


Mas, como canta a personagem de Antonio Banderas no início do filme, quem é essa Santa Evita? O musical criado por Lloyd Webber e Tim Rice tenta responder essa questão da maneira mais lírica possível. A sequência inicial mostra a comoção argentina com a morte de sua "líder espiritual". A partir daí, a trama volta no tempo para apresentar a trajetória de uma menina bastarda que chegou ao cargo de primeira-dama da Argentina em uma época de grave crise econômica e de baixa auto-estima do país. O filme conta sua história de amor com o político Juan Peron (Jonathan Pryce, bastante eficiente), sua batalha contra a classe dominante (o que lhe causou grandes problemas de aceitação junto ao high society) e seu trágico final, vítima de um câncer que lhe tirou a vida aos 33 anos de idade. Tudo é narrado através do ponto de vista de um integrante da classe popular, vivido por um surpreendentemente capaz Antonio Banderas - e que, apesar do nome, não tem nenhuma relação com o revolucionário Che Guevara, como foi dito à época. Através de seus olhos, a ironia de toda a trama tem lugar sem nunca prejudicar seu desenvolvimento. E vale lembrar que em seu documentário "Na cama com Madonna", a cantora declarou ter grande interesse sexual no ator... uma fofoquinha de bastidor que dá um gosto ainda mais saboroso ao filme...


Enfim, "Evita", falem o que quiserem, é um grande filme. É dirigido com brilho, interpretado com garra e tem um ritmo invejável, onde as canções, ao invés de atrapalhar a ação, a empurram adiante. Uma obra-prima do gênero e o único trabalho de Madonna em que ela pode realmente ser chamada de atriz.


PS - Aproveito o momento para afirmar minha tristeza com a morte de Elizabeth Taylor, a última diva dos áureos tempos do cinema. É clichê dizer isso, mas sua obra sobreviverá junto àqueles que amam o cinema de qualidade.

NEBLINA E SOMBRAS

NEBLINA E SOMBRAS (Shadows and fog, 1991, Orion Pictures, 85min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr., Amy Marshall. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, John Malkovich, Madonna, Donald Pleasance, Lily Tomlin, Jodie Foster, Kathy Bates, John Cusack, John C. Reilly, Philip Bosco, Kurtwood Smith, Kate Nelligan, Fred Gwyne, William H. Macy, Wallace Shawn. Estreia: 05/12/91

Os detratores adoram dizer que os filmes de Woody Allen são repetitivos, que seu estilo não é exatamente criativo e que seu humor judaico/neurótico/nova-iorquino/sofisticado não sai do chove-não molha. No entanto, se o diretor não estivesse no elenco de "Neblina e sombras" - seu filme de maior orçamento até hoje - era bem pouco provável que qualquer crítico do cineasta pudesse reconhecer no filme qualquer das características que marcaram sua carreira. Com exceção da inteligência - e da marca registrada de usar nomes famosos em papéis pequenos ou quase pontas - nada nessa bela homenagem ao expressionismo alemão do início do século XX aponta para o fato que seu diretor é Allen.

A primeira diferença entre "Neblina e sombras" e o resto da filmografia de Woody diz respeito à geografia. Enquanto a vasta maioria de seus filmes se passa em Nova York e arredores, aqui a história acontece em uma pequena cidade da Alemanha aterrorizada por um assassino serial que mata suas vítimas estranguladas. Para caçar o criminoso vários grupos se formam, com moradores buscando resolver a situação com as próprias mãos, uma vez que o governo parece não se importar com os trágicos acontecimentos. Kleinman (vivido pelo diretor) é um homem comum - preocupado em ser deixado em uma promoção no trabalho - que é escalado por uma dessas facções, que pedem sua ajuda, sem nunca lhe explicar sua missão. Enquanto vaga pela cidade, envolta em neblina e sombras como o título do filme sugere, ele dá de cara com Irmy (Mia Farrow), a engolidora de espadas de um circo que está se apresentando na cidade. Depois de flagrar o marido, o palhaço do circo (John Malkovich) nos braços de sua sedutora colega Marie (Madonna), Irmy encontra abrigo no bordel da cidade, onde desperta o desejo do jovem estudante Jack (John Cusack). Ao lado de Kleinman, ela tentará manter-se longe do assassino e reconstruir sua vida.

 

Fotografado em belíssimo preto-e-branco por Carlo Di Palma, "Neblina e sombras" também foge do estilo forjado pelo cineasta em décadas de experiência ao evitar piadas intelectualizadas demais - talvez Allen já soubesse que o projeto em si já era suficientemente arriscado comercialmente para que ele confiasse na fidelidade cega de seu público. Ao misturar um humor muito disfarçado e um suspense sem sustos, ele criou um gênero híbrido que, obviamente, não encontrou sua audiência e nem encantou a crítica. Motivos não faltam para essa frieza toda, mas não deixa de ser um exagero essa absoluta apatia em relação ao filme.

Sem dúvida nenhuma, "Neblina e sombras" não é nem de longe um Woody Allen das melhores safras: não é particularmente engraçado, nem denso ou mesmo leve. Mas é inteligente como qualquer trabalho seu - com ecos de "O processo", de Kafka e do filme "M, o vampiro de Dusseldorf", de Fritz Lang -, é extraordinariamente bem realizado - os sets foram construídos especificamente - e só o fato de reunir o elenco que reuniu é de aplaudir entusiasticamente: ao lado dos já citados, desfilam pela tela Jodie Foster, Kathy Bates, Kate Nelligan, Lily Tomlin e Donald Pleasance. Mas aparenta ser mais longo, talvez culpa da morosidade do roteiro e tem um clímax um tanto quanto fraco em relação ao que promete em seu promissor começo.

Para os fãs de Woody Allen, é obrigatório como todos os seus filmes. Para aqueles que acreditam que ele é sempre o mesmo, é necessário. Mas para quem simplesmente não gosta do diretor, não é a maneira correta de começar a gostar.

OS AGENTES DO DESTINO

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