Mostrando postagens com marcador ADRIAN LYNE. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ADRIAN LYNE. Mostrar todas as postagens

terça-feira

ALUCINAÇÕES DO PASSADO

ALUCINAÇÕES DO PASSADO (Jacob's ladder, 1990, Carolco Films, 113min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Bruce Joel Rubin. Fotografia: Jeffrey L. Kimball. Montagem: Tom Rolfe. Música: Maurice Jarre. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Kathleen Dolan. Produção executiva: Mario Kassar, Andrew Vajna. Produção: Alan Marshall. Elenco: Tim Robbins, Elizabeth Peña, Danny Aiello, Matt Craven, Pruitt Taylor Vince, Jason Alexander, Patricia Kalember, Eriq La Salle, Ving Rhames. Estreia: 02/11/90

Não deixa de ser interessante que um dos filmes mais corajosos, assustadores e surpreendentes de 1990 - e por consequência totalmente ignorado pelas cerimônias de premiação e até pelo público que lotava as salas de cinema para assistir a produções leves como "Esqueceram de mim" e "Uma linda mulher" - tenha sido dirigido por um cineasta até então massacrado e desacreditado quase unanimemente pela crítica, o inglês Adrian Lyne. Autor de filmes tão populares quanto desprezados pelos especialistas como "Flashdance" (84), "9 1/2 semanas de amor" (86) e "Atração fatal" (87) - pelo qual foi surpreendentemente indicado a um Oscar - Lyne saiu da publicidade para transformar-se em sinônimo de filmes rápidos, de estética moderna e pouco afeitos a detalhes como roteiro. Por isso, quando "Alucinações do passado" - escrito pelo mesmo Bruce Joel Rubin que viu seu "Ghost, do outro lado da vida" ganhar milhares de espectadores e uma estatueta da Academia - estreou, no final do ano, todo mundo que havia virado a cara para suas produções anteriores teve que repensar suas convicções. Denso, cruel, poético e intrigante, o conto de horror estrelado por Tim Robbins mistura paranoia militar, suspense e espiritualidade em um conjunto hipnotizante que é - e provavelmente sempre será - o melhor trabalho de seu diretor.

As primeiras tomadas, de uma emboscada na Guerra do Vietnã, podem dar a impressão de tratar-se de mais um capítulo da leva de filmes sobre o assunto tornados moda desde que Oliver Stone levou seus Oscar por "Platoon" (86) e "Nascido em 4 de julho" (89), mas esse é apenas o primeiro erro dos espectadores menos pacientes: é esse episódio no conflito oriental que está o cerne de toda a torturante trajetória posterior do protagonista, Jacob Singer (Tim Robbins em atuação espetacular), que já na cena seguinte está em Nova York, anos mais tarde, trabalhando em uma agência de correios. Separado da primeira mulher e ainda lamentando a morte do filho pequeno - ocorrida ainda antes de sua viagem para a guerra - Jacob vive no apartamento da nova namorada, Jezzie (Elizabeth Peña) e, quando o filme começa, está sofrendo de violentas e angustiantes visões que remetem aos piores pesadelos kafkianos. Pessoas sem rosto, humanos com características de répteis e até sonhos constantes com sua antiga vida passam a ser parte de sua rotina. Desesperado, ele é procurado por um grupo de soldados que lhe sugerem a ideia de que todos fizeram parte de um experimento do governo americano durante o Vietnã. Ele parte em busca da verdade, mas será que as coisas são assim tão simples?


Outro fator que surpreende bastante em "Alucinações do passado" é o roteiro de Bruce Joel Rubin, que abdica de toda a delicadeza e o senso de humor presentes em seu "Ghost" para oferecer um banquete de sensações desagradáveis e desconfortáveis que perpassam o caminho de Jacob em direção a seu desfecho. Se no filme estrelado por Patrick Swayze e Demi Moore o plano espiritual parecia pacífico e etéreo - exceto para os vilões, como convém a um produto com ambições mercadológicas - aqui a coisa é bem diferente. Somado à direção firme de Lyne - que se inspirou na obra mórbida de Francis Bacon, William Blake e da fotógrafa Diane Arbus para compor suas cenas mais impactantes - o roteiro de Rubin constroi uma nova faceta para os filmes a respeito de experiências sensoriais. É impressionante como é negada ao público, até seus minutos finais, a possibilidade de um completo entendimento de tudo que se passa em seus 113 minutos. Afinal, o que está se passando com Jacob? É alucinação, como diz o título nacional? São resquícios do experimento do governo? Ele está simplesmente embarcando na loucura tão comum aos soldados veteranos? Ou a explicação é outra, mais corriqueira... e ainda mais apavorante?

"Alucinações do passado" é um triunfo. Tecnicamente é impecável, contando com a fotografia em tons escuros de Jeffrey L. Kimball, a edição ágil de Tom Rolfe e a música nunca invasora de Maurice Jarre. Como suspense é admirável, tanto por seu roteiro corajoso e inteligente quanto pela direção nunca aquém de surpreendente de Adrian Lyne. E seu elenco, liderado pelo ótimo Tim Robbins (que ficou com um papel que por pouco não esteve nas mãos de Tom Hanks, Don Johnson, Mickey Rourke ou Richard Gere), mantém o nível de tensão nas alturas - em especial a participação do sempre estranho e eficaz Pruitt Taylor Vince, como um colega de batalhas do protagonista. Também é louvável seu final, coerente, emocionante e poético, dando ao espectador o alívio buscado durante toda a projeção. Grande filme, que merece ser conhecido. Por causa dele, Lyne pode ser perdoado pelas (muitas) bobagens que já fez na carreira.

quinta-feira

INFIDELIDADE

INFIDELIDADE (Unfaithful, 2002, Fox 2000 Pictures, 112min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Alvin Sargent, William Broyles Jr., roteiro original de Claude Chabrol. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Anne V. Coates. Música: Jan A.P. Kaczmarek. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Susan Tyson. Produção executiva: Lawrence Steven Meyers, Arnon Milchan, Pierre-Richard Muller. Produção: G. Mac Brown, Adrian Lyne. Elenco: Richard Gere, Diane Lane, Olivier Martinez, Chad Lowe, Erik Per Sullivan, Michelle Monaghan, Myra Lucretia Taylor. Estreia: 10/5/02

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Diane Lane)

Em 1986 o cineasta inglês Adrian Lyne inspirou centenas de casais mundo afora com as tórridas fantasias retratadas no cult "9 1/2 semanas de amor". No ano seguinte, apavorou homens casados e foi indicado ao Oscar por "Atração fatal" e em 1993 aproveitou o auge da beleza de Demi Moore para provocar polêmica com "Proposta indecente". Utilizando mais uma vez seus ingredientes "infalíveis" ele voltou à a baila com "Infidelidade", que mistura a sensualidade de "9 1/2" com a temática adulta de "Atração" e a controvérsia de "Proposta". O resultado é um filme que não se decide entre o drama, o erotismo e o suspense e que tem como maior trunfo a atuação irrepreensível de Diane Lane.

Lane mereceu uma surpreendente indicação ao Oscar por seu trabalho como Connie Sumner, uma dona-de-casa que leva uma vida tranquila e sem maiores sobressaltos em um subúrbio de Nova York, ao lado do marido, Edward (Richard Gere no atípico papel de marido sem sex-appeal) e do filho pequeno. Em uma tarde como outra qualquer em Manhattan, durante uma ventania ela esbarra no sexy Paul Martel (o inexpressivo francês Olivier Martinez), um comerciante de livros usados e vai pra casa dele cuidar de um ferimento no joelho. Intrigada com o rapaz, logo ela passa a encontrar-se regularmente com ele, iniciando um quente e passional relacionamento extra-conjugal. Em breve a relação começa a atrapalhar a rotina de Connie e despertar a suspeita do marido, que, desconfiado, contrata um detetive para seguir a mulher. Quando a verdade vem à tona, uma tragédia transforma a vida de todos.


O problema maior de "Infidelidade" é justamente sua falta de foco. O que parecia um drama familiar - casal sendo obrigado a lidar com a falta de novidades e uma traição - logo transforma-se em um romance com um erotismo tórrido e de bom gosto - marca registrada do diretor - e, no terço final, vira um filme de suspense de pouco alcance, que ainda consegue decepcionar com mais uma conclusão decepcionante e ambígua, que enfraquece o conjunto (e isso vindo do homem que não teve medo de fazer Glenn Close cozinhar um coelhinho de estimação!) Se tivesse se concentrado em qualquer uma das vertentes que a história - baseada em um filme de Claude Chabrol - oferece, Lyne com certeza teria tido mais sucesso, principalmente porque daria a seu elenco personagens menos unidimensionais e um tanto inverossímeis.

Mas para não dizer que não falei das flores, nem tudo é fraco em "Infidelidade". Como já foi dito, as cenas de sexo entre Diane Lane e Olivier Martinez são fotografadas com maestria por Peter Biziou - vencedor de um Oscar por "Mississipi em chamas" - e o clima de tensão que permeia o filme são realmente competentes. Mas é a presença luminosa de Lane que definitivamente salva a obra de Adrian Lyne da vala dos dramas corriqueiros que infestam as sessões de sábado à noite na televisão. Madura e bonita como nunca, ele consegue transmitir toda a gama de emoções que o roteiro limitado lhe proporciona (um exemplo claro dessa afirmação é a cena em que, em um trem, ela relembra o primeiro encontro sexual com o amante, uma cena filmada em um único take e que é suficiente para deixar claros os sentimentos da personagem). Apesar de todos os problemas do filme, ela vale cada minuto de projeção, em uma interpretação que lhe colocou entre os grandes nomes de sua geração.

segunda-feira

PROPOSTA INDECENTE

PROPOSTA INDECENTE (Indecent proposal, 1993, Paramount Pictures, 117min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Amy Holden Jones, romance de Jack Engelhard. Fotografia: Howard Atherton. Montagem: Joe Hutsching. Música: John Barry. Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor, Bernie Pollack, Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Etta Leff. Produção executiva: Alex Gartner. Produção: Sherry Lansing. Elenco: Robert Redford, Demi Moore, Woody Harrelson, Oliver Platt, Seymour Cassel, Billy Bob Thornton. Estreia: 07/4/93

Quando foi lançado, em 1993, o filme "Proposta indecente", de Adrian Lyne, foi chamado, por um crítico, de "filme dos sonhos de qualquer cinéfilo de shopping-center". De uma certa maneira a afirmação não deixa de ser verdadeira. Utilizando elementos de obras anteriores do cineasta - o apuro visual de "9 1/2 semanas de amor" e a aura polêmica de "Atração fatal" - a adaptação livre do romance de Jack Engelhard é o típico produto de sua época: atraente por fora e sem substância nenhuma por dentro. Aliás, apenas a premissa inicial do livro de Engelhard foi utilizada no roteiro, e é preciso reconhecer que é uma senhora premissa.

Durante meses a fio a imprensa do mundo todo discutiu a ideia central do filme: você emprestaria sua mulher a outro homem, por apenas uma noite, em troca de um milhão de dólares? Pois é exatamente esta a proposta indecente do título. Em um cassino de Las Vegas, o multimilionário John Gage (Robert Redford em uma rara aparição nas telas na década de 90) conhece o jovem e atraente casal David e Diana Murphy (Woody Harrelson em um de seus primeiros papéis de destaque e a deslumbrante Demi Moore no auge da beleza). O casal, ambos belos, interessantes e apaixonados também estão absolutamente quebrados financeiramente e não tem dinheiro nem mesmo para pagar as prestações da casa que o rapaz está construindo para eles. Fascinado pela beleza de Diana, o ricaço propõe então a controversa questão: uma noite com ela e um milhão de verdinhas na conta do casal.



Não é difícil prever o que vem a partir daí, uma vez que o filme se concentra mesmo é no pós-proposta, apesar dela ser o pontapé inicial da trama. Ciúme, desconfiança e a eterna busca sobre o que é mais importante na vida acabam sendo os ingredientes da segunda metade do filme, que, em mãos pouco capazes, é a parte menos interessante do filme. Adrian Lyne, que não é um grande diretor de atores, mostra aqui toda sua fragilidade. Robert Redford nunca esteve tão desconfortável em cena, herdando um papel que, nos primórdios do projeto, seria de Warren Beatty. E se Demi Moore não precisa muito esforço para desfilar bela e sensual pela tela, é justamente o menos conhecido do trio, Woody Harrelson, quem se destaca, em uma atuação que tenta dar dignidade a uma história de telenovela.

O roteiro de "Proposta indecente" jamais consegue ultrapassar o lugar-comum. Enquanto a proposta de John Gage não é aceita e a dúvida a seu respeito atrapalha o sono de seus protagonistas o interesse do espectador é mantido aceso. Depois que o ciúme e a desconfiança assumem o papel central da história, tudo perde o foco. O romance entre Diana e Gage e a luta de David para reconquistá-la nunca consegue convencer a plateia, que é privada, a partir daí, da tensão inicial e das quentes cenas de sexo, marca registrada do diretor. Depois de uma primeira hora razoavelmente correta, tudo escorrega para uma trama inverossímil e capenga.

Porém, mesmo que não seja um filme dos melhores, "Proposta indecente" não é uma total perda de tempo.  Poucos diretores tem tanto talento para cenas de amor quanto Lyne e ele as executa com o costumeiro zelo, ajudado por uma ótima trilha sonora de John Barry -  a canção que encerra o filme é a belíssima "A love so beautiful", cantada por Roy Orbison - e pela plástica dos atores (aliás, a ideia do filme era utilizá-lo como veículo para o então casal Tom Cruise e Nicole Kidman). Pode não ser uma obra de arte do cinema, e justifica sua descrição de "filme para cinéfilos de shopping-center". Mas ao menos é bem realizado e esteticamente atraente.

quinta-feira

ATRAÇÃO FATAL


ATRAÇÃO FATAL (Fatal attraction, 1987, Paramount Pictures, 119min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: James Dearden. Fotografia: Howard Atherton. Montagem: Peter E. Berger, Michael Kahn. Música: Maurice Jarre. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/George DeTitta. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção: Stanley R. Jaffe, Sherry Lansing. Elenco: Michael Douglas, Glenn Close, Anne Archer, Ellen Hamilton Latzen, Stuart Pankin, Fred Gwyne. Estreia: 18/9/87

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Adrian Lyne), Atriz (Glenn Close), Atriz Coadjuvante (Anne Archer), Roteiro Adaptado, Montagem

O bem-sucedido advogado Dan Gallagher (Michael Douglas) vive há nove anos um casamento quase impecável com a bela Beth (Anne Archer), com quem tem uma filha pequena. Caindo na rotina de um relacionamento estável, Dan acaba tendo um caso com a sedutora Alex Forest (Glenn Close), uma mulher solteira e aparentemente bem resolvida. No entanto, o que para Dan seria apenas um romance passageiro para matar o tempo em um fim de semana de solidão acaba tornando-se um pesadelo quando Alex, grávida, ameaça expor o fim de semana que passaram juntos. Quanto mais Dan tenta fugir da ex-amante mais ela se aproxima, disposta a acabar com a família do homem que a rejeitou.

Na época de seu lançamento, em 1987 - quando a AIDS começava a espalhar sua ameaça mortal indiscriminadamente -, esse filme, dirigido pelo esteta Adrian Lyne ganhou manchetes do mundo todo, causando polêmicas sem fim. Sucesso de bilheteria e indicado para vários Oscar, inclusive de melhor filme, direção, atriz e roteiro, a trágica história de amor e ressentimento entre Dan Gallagher e Alex Forest apavorou os maridos da América e do continente e acabou servindo como uma luva para os interesses de um país a cada dia mais assustadoramente conservador.


Deixando de lado análises sociais, o fato é que “Atração fatal” serve muito bem a seus propósitos de assustar e prender o público do início ao fim. O roteiro de James Dearden (que, dizem, foi inspirado em sua ex-namorada, a atriz Sean Young) nem demora muito a chegar ao que interessa. Em quinze minutos de ação, o tórrido caso entre os protagonistas, ilustrados por cenas de sexo pra lá de quentes já acabou e a vilã (interpretada com uma dose de exagero por Glenn Close, que ficou marcada pela personagem) começa a mostrar suas garras. Aos poucos, ela se transforma de doce amante em psicótica e enlouquecida algoz, chegando ao ponto de cozinhar o coelhinho de estimação da filha do casal - uma das cenas mais famosas da história do cinema desde então.

"Atração fatal" foi a segunda maior bilheteria de 1987 nos EUA, um sucesso estrondoso que acabou se refletindo nas indicações ao Oscar. Até mesmo o normalmente rechaçado Adrian Lyne arrumou sua vaga entre os candidatos à estatueta de diretor, o que prova a força com que o filme bateu no inconsciente americano. Os reacionários de plantão não poderiam ter encontrado um veículo melhor para disseminar seus ideais de instituição familiar, e a Academia de Hollywood, como bom baluarte de "bons sentimentos" assinou embaixo. Tudo bem que "Atração" não levou nenhum prêmio, mas com certeza é bem mais lembrado pelo público do que o vencedor do ano, o épico "O último imperador".

Apesar do final moralista – a ponto de o filme acabar com o close de um porta-retrato mostrando a feliz família principal – que insiste em colocar o bem (a família) contra o mal (a amante deixada de lado) em uma guerra física e violenta, o filme de Lyne cumpre o que promete. A edição ágil, a trilha sonora competente e principalmente a interpretação de Close - que ficou com um papel que foi cogitado para praticamente TODAS as atrizes de Hollywood em atividade na época - , dão o tom exato à obra, que grudou feito tatuagem na mente dos maridos dos anos 80.

terça-feira

9 1/2 SEMANAS DE AMOR


9 1/2 SEMANAS DE AMOR (9 1/2 weeks, 1986, MGM Pictures, 112min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Sarah Kernochan, Zalman King, Patricia Louisianna Knop, romance de Elizabeth McNeill. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Caroline Biggerstaff, Ed Hansen, Tom Rolf, Mark Winitsky. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Ken Davis/Christian Kelly. Casting: Nan Dutton, Vicki Huff, Mary Jo Slater, Lynn Stalmaster. Produção executiva: Keith Barish, Frank Konigsberg. Produção: Mark Damon, Sidney Kimmel, Zalman King, Antony Rufus-Isaacs. Elenco: Mickey Rourke, Kim Basinger, Margaret Whitton, David Margulies, Christine Baranski, Karen Young. Estreia: 21/02/86

Adrian Lyne é um cineasta que, a julgar por seus filmes, dispensa um bom roteiro se puder contar com um visual interessante. Exemplo disso é "9 1/2 semanas de amor", um dos filmes ícones dos anos 80, que foi um fracasso de bilheteria nos EUA, mas virou cult no resto do mundo, deflagrando o que convencionou-se chamar de “estética de videoclip”, da qual também fazem parte produtos como “Top Gun, ases indomáveis” e “Flashdance, em ritmo de embalo”, este último sintomaticamente comandado pelo mesmo Adrian Lyne.

Na verdade, o fracasso comercial do filme justifica-se plenamente pela fragilidade do roteiro, inspirado em um livro desconhecido de Elizabeth McNeill, que parte de uma premissa quase inacreditável e segue sem rumo certo por duas horas de projeção. Se não vejamos: a bela e sexy Elizabeth (homônima da autora do livro, o que de certa forma sugere um alter-ego mal disfarçado) trabalha numa galeria de arte – uma profissão “cool” - e, tirando seu ex-marido, que ela deselegantemente passa para uma colega, tem uma vida sexual bem pobrezinha. Um dia ela encontra na rua com o misterioso e charmoso John (Mickey Rourke, ainda em forma e em vias de transformar-se em promessa de astro). Depois de relutar um pouco – bem pouco, na verdade – ela acaba entregando-se em uma relação baseada em puro sexo e submissão. Aos poucos, no entanto, ela começa a temer por sua segurança física e emocional, uma vez que seu amante não lhe dá nenhum tipo de segurança fora dos domínios sexuais.


E a história resume-se a isso. Entre as – justiça seja feita – extremamente bem fotografadas e excitantes cenas de sexo, o casal não parece, em momento algum, personagens de um filme romântico e sim de um pornô light e com ambições à clássico. Kim Basinger, que não está particularmente bonita e Mickey Rourke têm uma química invejável, apesar dos boatos de que não se suportaram durante as filmagens - o ator preferia Isabella Rosselini para o papel e nunca fez questão de esconder a preferência. Também não ajudou em nada o fato de Lyne proibir os dois de se falaram fora dos sets de filmagem - se bem que, a julgar pela declaração de Basinger de que beijar Rourke causava a mesma sensação de levar um cinzeiro aos lábios nem mesmo os dois atores faziam questão de um relacionamento social...

Mas a definição de que é um filme que analisa os limites da sexualidade da mulher é balela. Nem adiantou Lyne tentar profundidades subliminares como vestir Elizabeth de roupas escuras quando encontra John, em oposição a suas roupas claras nas outras cenas. O que fica depois de uma sessão de “9 ½ semanas de amor” são as lembranças de sua adequada trilha sonora e de duas ou três cenas quentes e bem coreografadas. Não é muito para um filme que fez a cabeça de muitos casais de sua época. Mas provavelmente os fãs não estão nem aí pra isso...

quarta-feira

FLASHDANCE, EM RITMO DE EMBALO


FLASHDANCE, EM RITMO DE EMBALO (Flashdance, 1983, Paramount Pictures, 95min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Tom Hedley, Joe Eszterhas, história de Tom Hedley. Fotografia: Don Peterman. Montagem: Walt Mulconery, Bud Smith. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/Marvin March. Casting: Gretchen Rennell. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Jerry Bruckheimer, Don Simpson. Elenco: Jennifer Beals, Michael Nouri, Lilia Skala, Sunny Johnson. Estreia: 15/4/83

4 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Canção ("Flashdance... what a feeling", "Maniac")
Vencedor do Oscar de Canção ("Flashdance... what a feeling")
Vencedor de 2 Golden Globes: Trilha Sonora, Canção ("Flashdance... what a feeling")


É impressionante como, ao contrário da coragem e da ousadia do cinema americano dos anos 70, a filmografia da década de 80 conseguiu esvaziar - e muito - seu conteúdo psicológico e temático. Filmes como "Taxi driver" e "Amargo pesadelo" jamais teriam sido feitos se dependesse da visão oca de produtores como Don Simpson e Jerry Bruckheimer, que, na primeira metade da década entregaram aos frequentadores de cinema sucessos de bilheteria que não eram nada mais do que histórias de densidade dramática nulas embrulhadas em um visual atraente. Um exemplo claro disso é "Flashdance, em ritmo de embalo", que, apesar da fotografia caprichada e da trilha sonora pop cuidadosamente selecionada - e que vendeu mais de 700 mil cópias - é tão desprovido de inteligência que chega a ser constrangedor pensar que fez tanto sucesso.

"Flashdance" conta a história - se é que se pode chamar algo assim de história - de Alex Owens (Jennifer Beals com 18 anos que aparentam 25), uma jovem que sonha em ter uma carreira de dançarina e ganha a vida como soldadora (!!!). Incentivada por uma veterana bailarina, Hannah (Lilia Skala), e por uma dupla de amigos que aguardam o sucesso enquanto trabalham em bares e restaurantes, ela deseja inscrever-se em um curso profissionalizante. Enquanto isso não acontece ela inicia um romance com seu chefe, Nick Hurley (Michael Nouri). E o filme é só isso.


Quase metade do filme de Adrian Lyne (que se especializaria em projetos visualmente interessantes mas artisticamente capengas) é formado por sequências de dança, todas elas extremamente bem fotografadas, ainda que com a cara um tanto cafona dos anos 80. De cinco em cinco minutos a plateia é bombardeada com Beals e cia dançando de forma sexy em palcos, academias, em casa ou em ringues de patinação, ao som de uma trilha sonora marcante que apresenta inclusive a vencedora do Oscar cantada por Irene Cara. Os conflitos das personagens chegam a ser risíveis e é tudo tão, mas tão previsível e forçado que tem-se a impressão que o filme realmente não é pra ser levado a sério. Mas o problema é que é!

O roteiro de Joe Ezsterhas - que no início dos anos 90 ficaria rico com "Instinto selvagem" - não se dá ao trabalho de aprofundar nenhuma relação entre suas personagens, fazendo-as rasas e sem muito carisma. Nem mesmo a protagonista é suficientemente bela e/ou sensual para angariar a simpatia por méritos físicos. Não foi à toa que a carreira de Beals não decolou (sorte de Demi Moore, que quase ficou com o papel) e que Michael Nouri também não teve muito êxitos de bilheteria na sequência (e seu papel esteve em vias de ser interpretado por Kevin Costner...)

"Flashdance, em ritmo de embalo" é, na verdade, o tipo de filme que lembra uma época, que tem valor nostálgico, que serve de piada e que pode servir de telão de fundo em uma festa temática anos 80. Mas enquanto cinema não convence em momento algum. Pelo menos serviu de inspiração para Jennifer Lopez criar o vídeo-clipe "I'm glad", bem mais sensual e interessante.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...