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sábado

CREED: NASCIDO PARA LUTAR

CREED: NASCIDO PARA LUTAR (Creed, 2015, MGM/Warner Bros/New Line Cinema, 133min) Direção: Ryan Coogler. Roteiro: Ryan Coogler, Aaron Covington, estória de Ryan Coogler, personagens criados por Sylvester Stallone. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Claudia Castello, Michael P. Shawver. Música: Ludwig Goransson. Figurino: Antoinette Messam, Emma Potter. Direção de arte/cenários: Hannah Beachler/Amanda Carroll. Produção executiva: Nicolas Stern. Produção: Robert Chartoff, William Chartoff, Sylvester Stallone, Kevin King-Templeton, Charles Winkler, David Winkler, Irwin Winkler. Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Andre Ward, Tony Bellew. Estreia: 19/11/15

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Sylvester Stallone)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Sylvester Stallone)

Em 1977, "Rocky, um lutador" surpreendeu aos desavisados e saiu da cerimônia do Oscar com os prêmios de filme e direção - contra obras como "Taxi driver", "Rede de intrigas" e "Todos os homens do presidente". Desde então, seu criador e intérprete, Sylvester Stallone vem passando por altos e baixos, intercalando sucessos de bilheteria e crítica com bombas que quase acabaram com sua carreira. Para sua sorte, porém, seu personagem mais famoso - ao lado do questionável John Rambo - volta e meia ressurge para dar um novo gás à sua carreira. Em 2006, por exemplo, ele parecia ter encerrado sua trajetória, com o êxito quase inesperado de "Rocky Balboa", que ele mesmo estrelou e dirigiu e que arrecadou mais de 150 milhões de dólares mundo afora - provando que sua popularidade ainda estava longe de diminuir. Mas eis que, quase uma década mais tarde, um jovem cineasta negro chamado Ryan Coogler, aplaudido por um filme-denúncia de grande importância - "Fruitvale Station: a última parada" - resolveu que ainda não era hora de aposentar o icônico lutador. Depois de muito insistir com o próprio Stallone, Coogler finalmente o convenceu a abençoar o projeto de "Creed: nascido para matar" - onde Balboa, para surpresa de muitos, é um personagem coadjuvante. Tal demonstração de humildade do ator não passou despercebida - ele levou pra casa o Golden Globe, foi unanimemente elogiado pela imprensa e só não ganhou o Oscar porque Mark Rylance, de "Ponte dos espiões", lhe passou a perna na última hora.

Na verdade, o projeto de "Creed" surgiu antes mesmo da estreia de "Fruitvale Station" - e foi o sucesso do filme, baseado em uma história real, que fez com que o desejo de Ryan Coogler se tornasse realidade. A princípio relutantes em retornar ao universo de Rocky Balboa, tanto Sylvester Stallone quanto o produtor Irwin Winkler só aceitaram diante da ideia proposta pelo jovem diretor: contar não mais uma história sobre Balboa, mas sim utilizá-lo como uma ponte para a introdução de um outro personagem, consistente com a  mitologia dos filmes e de fácil comunicação até mesmo com a plateia que não foi criada tendo Rocky como referência cultural. Surgia assim a história de Adonis Creed, filho bastardo de um antigo rival e amigo do lutador, o igualmente memorável Apollo Creed (interpretado por Carl Weathers nos quatro primeiros capítulos da série), que aparece na vida de Rocky como uma lembrança do passado e inicia com ele uma relação de pai e filho que ajuda o aposentado atleta a enfrentar uma batalha ainda mais dolorosa e aparentemente invencível: um câncer.


A relação entre Creed e Balboa acabou sendo o principal atrativo para Stallone, que durante a pré-produção teve que lidar com um golpe dos mais devastadores: a morte de seu filho Sage, aos 36 anos de idade, vítima de um ataque cardíaco. Em uma ironia das mais cruéis, o veterano ator estava em vias de fazer um filme que tinha como um dos principais temas um relacionamento paternal e tinha sua vida pessoal virada do avesso com uma perda irreparável. Inteligente, Coogler usou tal tristeza a seu favor: não apenas fez o ator perceber que o trabalho lhe faria bem como explorou ao máximo o sentimento de finitude que ele vinha experimentando. O resultado não poderia ter sido melhor, e a crítica reconheceu: desde "Copland" (97), Stallone não recebia elogios tão calorosos a uma atuação, e a indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante (na condição inédita de favorito) apenas coroou um sucesso também comercial. Com uma renda de mais de 100 milhões de dólares apenas no mercado doméstico, "Creed" comprovou a perenidade de Rocky Balboa no coração do público.

Mas, apesar do apelo de Stallone junto às plateias, é injusto creditar apenas a ele o êxito de "Creed": com um roteiro que não tenta inventar a roda e faz uso apropriado de todos os clichês que fizeram da série um fenômeno cultural, Ryan Coogler  criou uma história universal de amor - aos amigos, à família, à namorada, ao esporte. E de quebra , acertou em cheio ao escolher seu ator principal. Carismático e talentoso, Michael B. Jordan já havia trabalhado com o diretor em "Fruitvale Station" - e foi responsável por boa parte da recepção positiva ao filme. Em "Creed" ele demonstra ainda mais poder de fogo ao dividir suas cenas com um monstro sagrado como Stallone e não se deixar eclipsar. Na pele de Adonis Creed, o jovem ator vai da fúria à tristeza, da solidão à paixão e do medo à ousadia em um piscar de olhos - e leva a plateia junto, até o final (quase previsível, mas ainda assim emocionante como nos melhores momentos dos filmes da série). Uma bem-vinda injeção de sangue novo em um personagem constantemente em reinvenção, "Creed: nascido para lutar" é um programa e tanto para os fãs - e até para aqueles raros espectadores que nunca ouviram falar em Rocky Balboa.

sexta-feira

BANANAS

BANANAS (Bananas, 1971, MGM/United Artists, 82min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Mickey Rose. Fotografia: Andrew M. Costykan. Montagem: Ron Kalish, Ralph Rosenblum. Música: Marvin Hamlish. Figurino: Gene Coffin. Direção de arte/cenários: Ed Wittstein/Herbert F. Mulligan. Produção executiva: Charles H. Joffe. Produção: Jack Grossberg. Elenco: Woody Allen, Louise Lasser, Carlos Montalbán, Natividad Abascal, Jacobo Morales, Sylvester Stallone.Estreia: 28/4/71

Antes de tornar-se uma griffe, com estilo próprio e facilmente reconhecível, prestigiado com o Oscar em várias ocasiões - a primeira delas em 1977, por "Noivo neurótico, noiva nervosa" - e um dos mais respeitados cineastas e roteiristas de Hollywood, o nova-iorquino de corpo e alma Woody Allen era considerado apenas mais um diretor de comédias ligeiras, surgido dos palcos de stand-up e capaz de rir de si mesmo e de suas origens judaicas. Seus dois primeiros filmes, "O que há, tigresa" (66) - na verdade um filme chinês dublado com diálogos nonsense - e "Um assaltante bem trapalhão" (69), mostravam de forma clara seu talento para um humor verbal impiedoso e inteligente, mas careciam de uma linha narrativa mais forte. Não foi o que aconteceu com sua terceira incursão às telas, como pode ser visto em "Bananas", lançado em 1971 e que mantém o estilo de suas primeiras produções. Com mais liberdade criativa do que antes - mas ainda preso a uma forma já testada e aprovada - Allen faz rir equilibrando com maestria (desde então) simplicidade e sofisticação.

A ideia central de "Bananas" surgiu quando Sam Katzman, produtor de filmes B, ofereceu à Allen e seu corroteirista Mickey Rose a adaptação de um livro sobre as ditaduras da América do Sul. Sofrendo com a mediocridade do material original, os dois resolveram começar do zero, criando a história (tênue, mas essencial) de um homem comum jogado no olho de um furacão político com o qual não tem a menor compatibilidade. Tal protagonista, perfeito para as limitações de Woody Allen como ator (que ele mesmo reconhece publicamente), é Fielding Mellish, que tem o emprego pouco empolgante de testar produtos para empresas comerciais - como uma mesa de escritório para executivos que querem manter a forma sem ir à academia. Desajeitado com as mulheres, ele se apaixona pela ativista política Nancy (Louise Lasser, a primeira mulher do diretor) e, para não perdê-la, resolve pedir demissão e seguí-la até San Marcos, um país da América do Sul que acaba de tornar-se vítima de um golpe de estado ditatorial. Sua intenção é juntar-se aos rebeldes e provar a ela seu potencial de líder, mas é claro que as coisas não acontecem como o previsto em seu caminho para o coração da amada.


Como já havia feito em "Um assaltante bem trapalhão", Woody Allen se utiliza dessa história quase simplória para servir de base de um filme que é, na verdade, uma série de sequências cômicas que exploram ao máximo seu talento em extrair o máximo de situações aparentemente imunes ao deboche. Desde as primeiras cenas, quando um repórter narra o assassinato do presidente de San Marcos e entrevista o novo ditador (vivido por Carlos Montalbán), o roteiro é uma sucessão de momentos histriônicos dos mais variados níveis. Há desde as piadas visuais - que mostram Fielding testando produtos bizarros e seu treinamento como revolucionário - até alguns momentos em que Allen pode exibir seus dotes de grande autor de diálogos absurdos. Mesmo que seus méritos como diretor de atores ainda não estivesse em alta (talvez até pela falta da força de seus personagens coadjuvantes, que servem basicamente de escada para seu show particular), é perceptível sua força em criar uma unidade narrativa e um arco dramático para seu protagonista, uma tentativa que culminaria em seu primeiro grande sucesso de crítica, o já citado "Noivo neurótico, noiva nervosa", que mantém suas características de comédia, mas unidas a um todo mais coeso e relevante.

"Bananas" é, na verdade, mais um excelente campo de treinamento para o grande cineasta que Woody Allen viria a tornar-se em poucos anos. Engraçado, inteligente e rápido como uma boa piada, está a anos-luz de seus maiores filmes, mas diverte sem fazer muito esforço ou exigir do espectador mais do que a disposição de se deixar levar por um humor inconsequente mas de grande qualidade. E de quebra, há ainda a participação de um ainda desconhecido Sylvester Stallone em uma cena no metrô - ninguém diria que dali a quatro anos, o ator estaria sendo consagrado pela Academia por seu "Rocky, um lutador" (antes mesmo do reconhecimento ao próprio Allen!). Coisas de Hollywood.

quarta-feira

COPLAND

COPLAND (Copland, 1997, Miramax Films, 104min) Direção e roteiro: James Mangold. Fotografia: Eric Alan Edwards. Montagem: Craig McKay. Música: Howard Shore. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Lester Cohen/Karen Wiesel. Produção executiva: Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad, Ezra Swerdlow, Cary Woods. Elenco: Sylvester Stallone, Robert DeNiro, Harvey Keitel, Ray Liotta, Peter Berg, Janeane Garofalo, Robert Patrick, Michael Rapaport, Annabella Sciorra, Cathy Moriarty, Noah Emmerich, John Spencer, Eddie Falco. Estreia: 06/8/97

James Mangold é um diretor atípico. Mesmo que seu nome não seja imediatamente reconhecível por fãs menos antenados, sua carreira é repleta de filmes bastante competentes, dos mais variados gêneros. Seu primeiro longa, o estranho "Paixão muda", aproveitou-se da estrela ascendente de Liv Tyler para fazer sucesso entre os espectadores de cinema independente. E seu segundo, "Copland", lançado em 1997, chamou a atenção mais pela mudança de visual de Sylvester Stallone do que por seus inúmeros méritos. Emulando o cinema policial cerebral dos anos 70 - que tinha na corrupção policial um de seus temas preferidos - o filme acabou sendo elogiado mas esquecido nas cerimônias de premiação. Um esquecimento que não faz jus à sua qualidade.

Mesmo que Stallone chame a atenção com sua performance - corajosa por romper a imagem heroica que sempre acompanhou sua carreira - o mais interessante em "Copland" é seu roteiro, que liga com maestria várias tramas paralelas que acabam revelando-se a mesma. Eclipsado pela genialidade de "Los Angeles, cidade proibida", que também falava sobre o assunto (ainda que com enfoque substancialmente diferente) e foi lançado à mesma época, o filme de Mangold é menos ambicioso do que a obra-prima de Curtis Hanson, mas, apostando no realismo e na crueza de sua trama, atinge todos os seus objetivos: é inteligente, bem dirigido, bem interpretado e surpreendente na medida certa. E Stallone é apenas a ponta do iceberg.


O eterno Rambo vive Freddy Heflin, o xerife de uma cidade próxima a Nova York que é predominantemente habitada por policiais, a chamada "Copland". Impossibilitado de tornar-se policial devido à surdez em um dos ouvidos - consequência de um salvamento que fez na juventude - Heflin não é muito considerado pelos moradores da cidade, mas é ele quem acaba desvendando uma rede de corrupção que envolve até mesmo os respeitados veteranos da corporação. Tudo começa quando o jovem Murray Babitch (Michael Rapaport), considerado um exemplo de dedicação e coragem, se envolve na morte de uma dupla de rapazes negros e tem a cena do crime alterada. Seu suicídio forjado abre a porta para uma série de irregularidades investigadas pela Corregedoria - na figura de Moe Tilden (Robert DeNiro). Além disso, Heflin também começa a desvendar uma teia de relações extra-conjugais que inclui até mesmo a sua grande paixão, Liz (Annabella Sciorra), a jovem que ele salvou de afogar-se e que é casada com Joey Randone (Peter Berg).

Equilibrando com talento raro uma história de sujeiras escondidas debaixo do tapete com o drama de um homem frustrado que tenta superar suas limitações por amor à justiça e à verdade, Mangold criou um espetáculo capaz de agradar a qualquer fã de cinema policial - mesmo que deixe o sempre esperado tiroteio para as cenas finais, onde a carnificina só não é exagerada porque é coerente com o resto da trama. Mesmo quando deixa de lado as tramoias corruptas que são a base de seu roteiro, o cineasta consegue o feito raro de prender a atenção do público com diálogos diretos e atuações nunca aquém de excelentes - até mesmo de atores jovens como Michael Rapaport. E é também bastante ousado, especialmente para um filme realizado sob os auspícios de Hollywood, que os personagens caminhem na tênue linha entre a honestidade e seus próprios interesses - com é o caso de Ray Liotta, que conquista justamente por sua dubiedade de caráter.

Filmado de forma direta, sem maiores arroubos de criatividade - talvez mais uma herança da geração 70 que deu ao mundo filmes como "Serpico" e "Operação França" - "Copland" é uma grata surpresa. Um filme simples, inteligente e que empolga muito mais pelo que diz do que pela forma como o faz. E isso é sempre raro em um gênero onde cortes histéricos são mais valorizados do que roteiros coesos.

sexta-feira

ROCKY, UM LUTADOR


ROCKY, UM LUTADOR (Rocky, 1976, United Artists, 119min) Direção: John G. Avildsen. Roteiro: Sylvester Stallone. Fotografia: James Crabe. Montagem: Scott Conrad, Richard Halsey. Música: Bill Conti. Direção de arte/cenários: Bill Cassidy/Raymond Molyneaux. Casting: Caro Jones. Produção executiva: Gene Kirkwood. Produção: Robert Chartoff, Irvin Winkler. Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Youg, Burgess Meredith, Carl Wheaters. Estreia: 21/11/76

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John G. Avildsen), Ator (Sylvester Stallone), Atriz (Talia Shire), Ator Coadjuvante (Burgess Meredith, Burt Young), Roteiro Original, Montagem, Canção ("Gonna fly now"), Som
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Diretor (John G. Avildsen), Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama


A festa de entrega do Oscar para os melhores de 1976 tinha no páreo a obra-prima "Taxi driver", de Martin Scorsese e o festejado e politicamente importante "Todos os homens do presidente", de Alan J. Pakula, além do merecidamente incensado "Rede de intrigas", de Sidney Lumet (que tem previsão de lançamento em DVD no Brasil para 23/6/10). Com esse trio forte de candidatos, não deixou de ser uma enorme surpresa que a estatueta de melhor filme tenha ficado justamente com "Rocky, um lutador", uma produção pequena e simples que louvava, acima de tudo, a auto-superação de um homem comum, gente como a gente. Escrito e estrelado por um jovem Sylvester Stallone (30 anos em 1976), o filme tornou-se um sucesso instântaneo, rendendo milhares de dólares e gerando várias continuações com o passar dos anos (a última, intitulada "Rocky Balboa", foi lançada em 2006, três décadas depois da estreia do primeiro filme).

O primeiro - e melhor filme da série - se passa na Filadélfia, onde vive o protagonista, Rocky Balboa (vivido por um inspirado Stallone, que recebeu uma inédita indicação ao Oscar de melhor ator). Outrora um promissor boxeador, Rocky trabalha como uma espécie de capanga de um agiota, utilizando seus músculos como objeto de pressão contra os inadimplentes. Logo que começa a namorar a tímida Adrian (Talia Shire), a irmã de seu melhor amigo, Paulie (Burt Young), Rocky vislumbra a maior chance de sua vida profissional: lutar contra o campeão de boxe Apollo Creed (Carl Wheaters), que quer dar a um desconhecido a oportunidade de desafiá-lo no ringue. Contando com a ajuda de seu ex-técnico Mickey (Burgess Meredith), ele inicia um treinamento intensivo, pois sabe que, mesmo que saia da luta derrotado - como é o mais provável que aconteça - ele precisa provar que não é o fracassado que todo mundo pensa que ele é.


Filmado em apenas 28 dias, com um orçamento de pouco mais de 1 milhão de dólares, "Rocky" é, na verdade, um estudo sobre um assunto sobre o medo do fracasso, que há muito fascina o público médio americano. Mas não é um estudo sério, pedante ou enfadonho. Da forma como foi escrito por Stallone - em apenas 3 dias, conforme a lenda - é uma história de amor simples e humana, capaz de atingir várias parcelas de público. Seu romance hesitante com Adrian emociona o público feminino por sua delicadeza e sensibilidade e é pouco provável que a audiência masculina não se empolgue com o teor esportivo do filme - o treinamento de Rocky, inclusive gerou cenas antológicas, casadas com a canção "Gonna fly now", que tornou-se símbolo de toda a série.

A série, aliás, nunca fez justiça à qualidade de seu primeiro capítulo, tornando-se, com o tempo, uma máquina caça-níqueis sem a mesma essência que fez da primeira parte da saga de Rocky tão especial e querida pelo público. O que provavelmente os produtores não entenderam é que o sucesso comercial e de crítica do filme surgiu principalmente pelo fato do filme ser tão azarão quanto seu protagonista. Quando escreveu a primeira versão do roteiro, Stallone estava em uma situação tão crítica quanto a de Rocky, com meros 106 dólares na conta bancária e em vias de se desfazer do próprio cachorro, a quem não conseguia alimentar decentemente. A batalha de Rocky em provar seu valor - e a urgência com que precisava fazer isso - era, de uma certa forma um reflexo bastante claro da batalha do ator em ser levado a sério em sua profissão. Essa identificação era tão forte que, mesmo praticamente falido, Stallone exigiu fazer o papel principal, mesmo quando os produtores insistiam em um nome mais bancável - que giravam em torno dos mesmos atores de sempre nessas circunstâncias; Robert Redford, Ryan ONeal, Burt Reynolds ou James Caan. Sua insistência fez o orçamento do filme diminuir, mas deu a ele a veracidade e o sentimento palpável indispensáveis a seu sucesso - ainda que o final seja consideravelmente diferente da primeira versão do script.

"Rocky, um lutador" não é uma obra-prima, aliás não passa nem perto de o ser. Seu roteiro é repleto de clichês - que não incomodam justamente por combinarem perfeitamente com o estilo simples dos protagonistas - e as interpretações não são exatamente geniais, apesar de 4 de seus atores terem levado indicações ao Oscar. Mas é extremamente bem realizado - as cenas de luta são tecnicamente corretas - e é dono de uma energia tão positiva e inspiradora que se torna quase impossível não gostar de seu resultado final. É um filme que fala ao coração mais do que ao cérebro e é justamente aí que se encontra seu ingrediente secreto.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...