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segunda-feira

GRANDES OLHOS

GRANDES OLHOS (Big eyes, 2014, The Weinstein Pictures/Tim Burton Productions, 106min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski. Fotografia: Bruno Delbonnel. Montagem: JC Bond. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Craig Lewis. Produção executiva: Katterli Frauenfelder, Derek Frey, Jamie Patricof, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Scott Alexander, Tim Burton, Larry Karaszewski, Lynette Howell. Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Danny Huston, Jason Schwartzman, Terence Stamp, Jon Polito. Estreia: 13/11/14

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Amy Adams)
O diretor Tim Burton tem, aparentemente, algumas obsessões que fazem de seu cinema algo único dentro de uma indústria cada vez menos afeita a riscos financeiros desnecessários. Sua filmografia, coerente e por vezes quase previsível, começou a conquistar fãs com o humor negro de “Os fantasmas se divertem” (88) – a história de um casal de ectoplasmas tentando livrar-se dos novos proprietários de sua casa recém-comprada – e atingiu o ápice com a sua visão sombria pero no mucho do homem-morcego em “Batman” (89) e “Batman, o retorno” (92). Depois disso, com o bolso cheio de dólares e a liberdade artística que somente o dinheiro pode comprar em Hollywood, começou uma carreira repleta de altos e baixos, onde sucessos de crítica ignorados pelo público – “Ed Wood” (94) – e êxitos comerciais massacrados pela imprensa – “Alice no País das Maravilhas” (10) – tinham em comum apenas sua predileção por personagens exóticos e pelo visual criativo (além da participação frequente de seus parceiros habituais Johnny Depp e Helena Bonham Carter). O fim do casamento com Carter e o fracasso de seu “Sombras da noite” (12), porém, o empurraram em direção a uma obra que, a rigor, difere muito de sua filmografia. Baseado em fatos reais e isento dos excessos que frequentemente eclipsavam outros aspectos de seus filmes, “Olhos grandes” é um Tim Burton quase atípico – algo assim como o foram “História real” na carreira de David Lynch e “Kundun” na trajetória de Martin Scorsese.
Dialogando muito mais com a melancolia carinhosa de “Ed Wood” – sintomaticamente escrito pelos mesmos Larry Alexander e Scott Karaszewski – do que com a histeria quase infantil de “A fantástica fábrica de chocolates” (05), “Olhos grandes” revela em Burton um cineasta plenamente capaz de extrair emoção e interesse de histórias comuns, protagonizada por gente de carne e osso cujas preocupações não são evitar invasões alienígenas – como no horroroso “Marte ataca” (96) – ou vingar-se sanguinariamente dos algozes de seus familiares – caso de “Sweeney Todd: o barbeiro demoníaco da Rua Fleet” (08) – mas simplesmente sobreviver em um mundo tão glamouroso quanto cruel: o das artes plásticas. Visualmente o mais sutil de seus filmes, “Olhos grandes” concentra sua atenção basicamente na história de Margaret Keane, a autora de uma série de quadros que, sempre apresentando crianças com olhos tristes e desproporcionalmente grandes, tornou-se coqueluche nos EUA dos anos 60. Sem recorrer a fantásticas reconstituições de época e/ou criar mundos imaginários – artifícios que fizeram com que “A lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, “Sweeney Todd” e “Alice no País das Maravilhas” fossem premiados com o Oscar de melhor direção de arte – Burton apresenta ao público um filme simples e encantador.



Interpretada por uma sensacional Amy Adams – vencedora do Golden Globe e injustamente esnobada pela Academia – a protagonista Margaret é introduzida ao público em 1958, quando, demonstrando uma coragem admirável para a época, abandona o marido abusivo e parte com a filha pequena para São Francisco, disposta a ganhar a vida sem depender da bondade alheia. Ao salário ganho em uma fábrica de móveis ela tenta adicionar uma grana extra pintando retratos de eventuais clientes em uma feira de rua – já imprimindo nas telas a sua assinatura pessoal. É nessa feira que ela trava conhecimento com Walter Keane (Christoph Waltz), também pintor e que, depois de uma temporada em Paris, usa suas memórias afetivas como temática de sua obra. Em pouco tempo os dois acabam se casando – como forma de proteger a guarda da menina, ameaçada pelo ex-marido – e não demora muito para que Keane comece a perceber que o trabalho de sua mulher chama muito mais a atenção do que o seu. Astuciosamente – e com a ajuda do jornalista Dick Nolan (Danny Huston), que narra a história em off – ele toma para si a autoria dos quadros e passa a administrar o êxito financeiro que vem deles. Dono de uma ambição tão grande quanto seu mau-caráter e seu senso de marketing pessoal, o medíocre Keane se torna um sucesso comercial incontestável: ainda que rechaçados pela crítica séria, representada pelo inclemente John Canaday (Terence Stamp), os quadros de Keane (na verdade a incansável e inconsolável Margaret) são cobiçados até por gente influente como as atrizes Natalie Wood e Joan Crawford e o empresário italiano Dino Olivetti.
Quando Margaret resolve dar um basta na farsa – que a impediu por anos de obter seu próprio lugar ao sol mesmo fugindo de seu estilo clássico – “Olhos grandes” muda de registro. O tom quase ingênuo mostrado até então dá lugar a um viés mais sombrio, transformando definitivamente Walter Keane no vilão cuja maldade se disfarçava através de um verniz de simpatia e sorrisos constantes. Um gigantesco painel oferecido à Unicef serve como pomo da discórdia e, mais uma vez fugitiva de um casamento fracassado, a protagonista põe as cartas na mesa, revelando as mentiras contadas ao povo americano por anos. Uma batalha nos tribunais – com marido e mulher tentando provar, cada um à sua maneira, a autoria das pinturas – dá início ao terceiro e final ato, em que ficam evidentes dois pontos: o carisma delicado de Adams e o histrionismo às raias do patético de Christoph Waltz. Merecido vencedor de seu primeiro Oscar de coadjuvante, por “Bastardos inglórios” – mas nem tanto pelo segundo, por “Django livre” – o ator austríaco repete perigosamente os trejeitos de seus trabalhos anteriores, tornando a cena em que Keane assume simultaneamente os papéis de advogado de defesa e testemunha um deslize que quase compromete o filme como um todo. Mesmo que o caráter bufão de Keane justifique o abuso do ator de caretas e um pretenso humor, a sequência destoa nitidamente do restante da narrativa proposta pelo diretor, de um naturalismo que só cede ao lúdico quando Margaret passa a ver em todas as pessoas os olhos grandes de seus quadros. Felizmente, a cena é rápida o bastante para que não esconda do público as outras (muitas) qualidades do filme.
Bem distante de sua zona de conforto, Tim Burton acertou em cheio em dar um bem-vindo respiro de normalidade à sua carreira tão excêntrica. Assim como ele, a figurinista Colleen Atwood e o músico Danny Elfman – parte de seu leal time de colaboradores – apresentam trabalhos discretos e eficientes que mostram outro lado de seu talento. Todos estão em estado de graça, apelando para a beleza quase invisível da simplicidade – que, afinal de contas, era o maior encanto das crianças de Margaret Keane. Um belo e emocionante filme sobre o amor à arte e aos ideais estéticos acima das convenções da moda e do sucesso comercial. No fundo, um filme sobre a carreira do próprio Tim Burton.

domingo

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (Alice in Wonderland, 2010, Walt Disney Pictures, 108min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Linda Woolverton, romances de Lewis Carroll. Fotografia: Darius Wolski. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Robert Stromberg/Karen O'Hara. Produção executiva: Chris Lebenzon, Peter Tobyansen. Produção: Joe Roth, Jennifer Todd, Suzanne Todd, Richard D. Zanuck. Elenco: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Christopher Lee, Crispin Glover. Estreia: 05/3/10

Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

Primeiro, a pergunta que não quer calar: por que mais uma versão para o cinema do clássico livro de Lewis Carroll, imortalizado na memória coletiva pela animação dos estúdios Disney lançada em 1951? Depois, uma questão ainda mais pertinente: por que escolher para protagonista uma jovem da idade de Mia Wasikowska e não uma criança, como se poderia esperar de uma adaptação fiel? Ambas as perguntas tem a mesma resposta, que fica clara logo nos primeiros minutos da versão Tim Burton de "Alice no País das Maravilhas": ao transpor para as telas os dois livros de Carroll estrelados por Alice - suas aventuras no País das Maravilhas e Através do Espelho - o excêntrico cineasta por trás de obras essenciais do cinema americano dos anos 90, como "Ed Wood" e "A fantástica fábrica de chocolates", resolveu expandir o universo criado pelo escritor, inventando uma história nova que fizesse uma Alice adulta revisitar seu passado justamente em um momento crucial de seu amadurecimento. Sendo assim, apesar dos personagens clássicos da obra estarem presentes no filme - a Rainha de Copas, o Chapeleiro Maluco, o Gato - o público que esperava uma versão fiel da famosa história se viu diante de um filme visualmente excitante (característica indissociável da obra do diretor) mas bem diferente do previsto. Pior ainda, uma obra desprovida de encanto: sob o comando de Tim Burton, "Alice no País das Maravilhas" é um filme lindo de se ver, mas chatíssimo de acompanhar.

Prejudicado por uma atriz central insossa e sem carisma, "Alice no País das Maravilhas" tem a seu favor todo o esmero que sempre acompanha uma produção com a assinatura de Tim Burton. Do figurino de Colleen Atwood (premiado com o Oscar) à direção de arte (também premiada pela Academia), passando pela fotografia caprichada de Darius Wolszki e pela caracterização visual de todos os personagens, tudo no filme é espetacular e brilhantemente executado. Uma pena, porém, que todo esse cuidado não se reflete no roteiro, confuso e enfadonho a ponto de deixar o público totalmente indiferente à sorte da protagonista bem antes do clímax - uma batalha centrada basicamente em efeitos visuais e desprovida de qualquer emoção. Em sua tentativa de dar um espaço mais generoso ao Chapeleiro Maluco (provavelmente para aumentar a participação de seu habitual colaborador e amigo Johnny Depp) Burton acabou por esvaziar a importância de Alice, transformando-a em um atônito peão em um jogo de xadrez violento e sem muita razão de ser entre duas rainhas irmãs e rivais, vividas por Helena Bonham Carter e Anne Hathaway - aliás, os dois únicos acertos do elenco.


Trabalhando pela sexta vez com o então marido, Bonham Carter mais uma vez rouba a cena, dessa vez na pele da enlouquecida Rainha Vermelha - misturada aqui com a Rainha de Copas, em uma fusão no mínimo ousada, mas eficaz. Fazendo uso de sua tendência ao exotismo, a atriz que trocou os babados dos filmes baseados na literatura inglesa clássica - como "Uma janela para o amor" e "Retorno a Howards End" - pela excentricidade do cinema moderno - como a doentia Marla de "Clube da luta" ou suas colaborações anteriores com Tim Burton - parece estar se divertindo aos montes em cena, em uma composição que mistura o excesso das histórias em quadrinhos com a pop art de Andy Wharol. Sempre que está em cena, ela engole tudo à sua volta, em um desempenho louvável, que encontra eco somente na doçura e serenidade emprestada por Anne Hathaway à sua Rainha Branca - um contraste interessante que poderia ter rendido cenas antológicas não fosse a preguiça do roteiro em aprofundar quaisquer das tramas que propõe durante o caminho de sua protagonista.

Quando a trama começa, a Alice que todos conhecem já está com 19 anos de idade e apavorada com a possibilidade de ser obrigada a casar-se com um homem a quem não ama e com quem não tem a menor ligação. Antes que seja obrigada a dar uma resposta ao pedido de casamento, porém, ela acaba por surpreender a todos os convidados da festa promovida para tal ocasião ao sair correndo atrás de um coelho que julga já conhecer de outro lugar. Em sua busca, ela acaba caindo em um buraco que a leva a uma misteriosa terra chamada Underland. Lá, fazendo contato com seres estranhos que conhece através de vários sonhos que a perseguem há anos, ela descobre que é peça fundamental na batalha entre as duas rainhas que disputam o poder. Além disso, descobre também que já esteve em tal lugar, quando ainda era uma criança.

Fascinante em sua concepção visual e decepcionante em sua construção dramática, "Alice no País das Maravilhas" acabou conquistando o público mesmo com seus sérios defeitos de roteiro e rendeu mais de 300 milhões de dólares pelo mundo. Uma prova (mais uma) de que nem sempre os melhores filmes são os mais bem-sucedidos comercialmente.

quinta-feira

SWEENEY TODD, O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET

SWEENEY TODD - O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET (Sweeney Todd: the demon barber of Flet Street, 2007, Warner Bros/DreamWorks SKG, 116min) Direção: Tim Burton. Roteiro: John Logan, musical de Hugh Wheeler, adaptação musical de Christopher Bond. Fotografia: Darius Wolszki. Montagem: Chris Lebenzon. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Patrick McCormick. Produção: John Logan, Laurie MacDonald, Walter Parkes, Richard D. Zanuck. Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Timothy Spall, Sacha Baron Cohen. Estreia: 03/12/07

3 indicações ao Oscar: Ator (Johnny Depp), Figurino, Direção de Arte & Cenários
Vencedor do Oscar de Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Ator Comédia/Musical (Johnny Depp) 

Depois que "Moulin Rouge, o amor em vermelho" recolocou os filmes musicais em alta no mercado hollywoodiano - e "Chicago" abocanhou seis cobiçadas estatuetas da Academia, incluindo melhor filme - o gênero voltou a frequentar as telas de cinema com assiduidade, para alegria dos fãs e desgosto dos detratores. Logicamente, a Broadway tornou-se a fonte mais rica de inspiração para os estúdios, que não viam como uma produção bem-sucedida nos palcos não poderia repetir o êxito nas telas - e nem o fracasso de crítica do pretensamente infalível "O fantasma da ópera" (que Joel Schumacher transformou em uma tortura musical em 2004 a despeito das belas canções de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber) alterou essa percepção. Não foi surpresa de ninguém, no entanto, quando a Warner e a Dream Works se uniram para lançar "Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da Rua Fleet", adaptação da peça de Hugh Wheeler e Stephen Sondheim que desde 1979 levava multidões aos teatros. Cobiçado pelos estúdios desde sua estreia, o musical quase chegou às telas por diversas vezes, e a lista de atores que quase interpretaram o papel-título incluía nomes tão diversos quanto William Hurt, Harrison Ford, Dustin Hoffman, Robert Redford, Warren Beatty, Al Pacino, Jack Nicholson, Robert DeNiro, Steve Martin e até Gene Hackman. Quando finalmente o projeto recebeu o sinal verde do próprio Sondheim, o cineasta Sam Mendes pulou para a cadeira de diretor, com Russell Crowe no papel central. Felizmente, as coisas deram mais uma vez para trás (felizmente não por causa de Mendes, um grande diretor, mas por causa de Crowe, cujos dotes vocais mostrados posteriormente em "Os miseráveis" não deixam dúvidas de que sua escolha teria sido a sentença de morte para o filme).

Sem Mendes e Crowe na liderança da produção, chegou a vez daquele que provavelmente era o nome certo para comandar o barco: Tim Burton, com sua visão criativa e seu reconhecido gosto pelo bizarro e pelo lado sombrio da humanidade, agarrou com unhas e dentes a chance de realizar seu primeiro musical e, com ele, como era esperado, entraram em cena Johnny Depp (parceiro artístico em cinco outros projetos anteriores) e Helena Bonham Carter (sua esposa e, conforme descoberto em meio às filmagens, grávida de seu segundo filho). Mas, comprovando que suas escolhas não tinham nada a ver com nepotismo (mesmo porque o papel de Carter era disputado por gente como Kate Winslet, Nicole Kidman, Annette Bening e Toni Collette), Burton buscou a aprovação de Sondheim em pessoa antes mesmo de rodar a primeira cena. O resultado final chegou ao público no final de 2007 e toda e qualquer dúvida a respeito das opções de Burton dissiparam-se imediatamente. Mesmo que não tenha se tornado um sucesso arrasador de bilheteria, "Sweeney Todd" encantou a crítica e deu a Depp sua terceira indicação ao Oscar de melhor ator em cinco anos - além de ter conquistado o Golden Globe de melhor comédia/musical do ano. E, mesmo aqueles que não tem muito entusiasmo por musicais tem de reconhecer que, a despeito das características inerentes ao gênero, há muito mais a apreciar do que reclamar no filme de Burton.


Aqueles que se chateiam com a cantoria interminável dos filmes musicais - e "Sweeney Todd" é daqueles praticamente todo narrado através de canções - podem deliciar-se com a fotografia irrepreensível de Dariusz Wolski, que capta o tom soturno de uma Londres pouco afável e bastante sufocante (e, por contraste, ilumina com cores brilhantes o período áureo do protagonista e os sonhos dourados de sua parceira de negócios/crimes). Podem ficar encantados com a reconstituição de época impecável de Dante Ferretti e Francesca LoSchiavo - colaboradores frequentes de Scorsese e que ganharam o Oscar por seu trabalho. Podem surpreender-se com o tom de violência explícita das imagens imaginadas pelo cineasta, que fez questão de manter o sangue aos borbotões propostos na história como forma de enfatizar a catarse emocional que cada morte tem para seu personagem-título. E podem, principalmente, reconhecer o excelente trabalho dramático de Johnny Depp e Helena Bonham Carter, provavelmente em algumas de suas melhores interpretações: Depp deixa de lado sua tendência a suavizar o personagem com tiques cômicos e sai-se muito bem cantando, e Carter consegue demonstrar toda a gama de emoções de sua personagem com uma sutileza raras vezes vista em sua carreira. Não bastasse tudo isso, o final trágico e inesperado fecha com inteligência uma trama sangrenta e sufocante que destoa dos normalmente sadios e alegres ambientes do gênero.

Baseado em uma lenda inglesa e na peça teatral de Christopher Bond - de onde saíram os detalhes sobre a origem do personagem - o musical de Wheeler e Sondheim conta a história de Benjamin Barker (Depp), um jovem barbeiro londrino que, por armações do invejoso Juiz Turpin (Alan Rickman), se vê condenado a quinze anos de prisão na Austrália, longe da esposa e da filha recém-nascida. Quando retorna à sua cidade natal, emocionalmente abalado e repleto de ódio, ele descobre que sua amada mulher, depois de ter sido violentada pelo juiz, tomou veneno e teve sua filha arrancada de seu convívio. Com o objetivo de vingar-se de Turpin, Barker assume o nome de Sweeney Todd, torna-se o mais conhecido barbeiro da cidade e, com o conluio de sua senhoria, Sra. Lovett (Bonham Carter), passa a matar seus clientes para transformá-los em matéria-prima para as tortas servidas por ela em seu restaurante. Enquanto isso, sua filha, Johanna (Jayne Weisener) faz de tudo para fugir das garras de seu "tutor", especialmente quando se apaixona pelo jovem marinheiro Anthony (Jamie Campbell Bower).

Visualmente deslumbrante e tratado com a seriedade apropriada, "Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da Rua Fleet" é um musical sério, intenso e realizado com uma perfeição técnica admirável. Pode não agradar a todos por causa do gênero, mas merece ser aplaudido por suas inúmeras qualidades, que o elevam a grande cinema.

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATES

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATES (Charlie and the Chocolate Factory, 2005, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 115min) Direção: Tim Burton. Roteiro: John August, romance de Roald Dahl. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Danny Elfman. Figurino: Gabriella Pescucci. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/Peter Young. Produção executiva: Bruce Berman, Graham Burke, Felicity Dahl, Patrick McCormick, Michael Siegel. Produção: Brad Grey, Richard D. Zanuck. Elenco: Johnny Depp, Freddie Highmore, Helena Bonham Carter, Noah Taylor, Missi Pyle, James Fox, Deep Roy, Christopher Lee, David Kelly, Adam Godley. Estreia: 10/7/05

Indicado ao Oscar de Figurino

Quando foi anunciado que a Warner planejava um remake de "A fantástica fábrica de chocolate" - cuja primeira versão, estrelada por Gene Wilder em 1971, havia se tornado um clássico instantâneo e cult por excelência - uma torrente de boatos inundou as páginas de jornais que cobriam Hollywood. Segundo tais notícias, nomes como Martin Scorsese, Robert Zemeckis, Barry Levinson e Gary Ross estavam em negociação com os produtores para comandar o projeto - antes que Tim Burton, talvez a escolha desde sempre mais apropriada, fosse formalmente anunciado como diretor e garantisse seu ator preferido, Johnny Depp, como dono do papel principal, o excêntrico Willy Wonka, que Wilder imortalizou no início da década de 70. Com Depp dentro do barco, acabaram-se as especulações também a respeito de quem lideraria o elenco adulto da adaptação - uma briga que incluía tanto atores previsíveis, como Nicolas Cage, Jim Carrey, Bill Murray, Mike Meyers e Michael Keaton quanto absurdos inimagináveis, como Brad Pitt, Patrick Stewart, John Cleese, Leslie Nielsen, Robert DeNiro e... Dwayne Johson (até o cantor Marilyn Manson declarou interesse no papel) - e também com a briga pelo papel do ingênuo e sonhador Charlie Bucket, o protagonista infantil: Depp recomendou a Burton o talentoso Freddie Highmore, com quem havia trabalhado no sensível "Em busca da Terra do Nunca" e na tela, parece impossível que o escritor inglês Roal Dahl tenha pensado em outro ator quando escreveu seu romance (mesmo que Highmore, à época, nem estivesse planejando nascer).

Exterminando o tom kitsch do filme original, Tim Burton cercou-se de um respeitável time de profissionais para levar às telas a história de Dahl - com muito mais fidelidade do que a versão de 1971 e sob as bênçãos da família do escritor. Além de seus habituais colaboradores - Chris Lebenzon na edição e Danny Elfman na trilha sonora - o cineasta ainda contou com o talento da figurinista Gabriella Pescucci (Oscar por "A época da inocência" e que acabou recebendo uma nova indicação ao prêmio por seu trabalho em vestir Wonka e cia) e do desenhista de produção Alex McDowell (que criou um mundo fascinante e colorido que é uma festa para os olhos da audiência e um universo dos sonhos para as crianças). Substituindo o exército de atores que interpretavam os Oompa-Loompas do primeiro filme (os operários pigmeus da fábrica) por um único ator (o extraordinário Deep Roy, uma revelação que quase rouba a cena interpretando centenas de extravagantes criaturas) e imprimindo seu estilo visual inconfundível a cada sequência, Tim Burton literalmente reinventa (e quase ignora) o filme de Mel Stuart.


A trama, logicamente, é a mesma, e o roteiro de John August (que também escreveu "Peixe grande" para Tim Burton) é brilhante, equilibrando com precisão a ironia, o sentimentalismo e o apelo ligeiramente bizarro do livro de Dahl: Willy Wonka (Johnny Depp exercitando sua tendência ao exagero em papel sob medida para seu histrionismo) é o recluso e singular dono de uma gigantesca fábrica de chocolate que, anos depois de tê-la fechado a qualquer contato humano após atos de traição, resolve lançar um concurso que agita consumidores do mundo inteiro. Para escolher uma criança para ganhar um grande e misterioso prêmio, ele distribui cinco convites dourados dentro de suas barras de chocolate, que dão direito a uma visita guiada à fábrica, acompanhados de um dos pais. É assim que o guloso Augustus Gloop, a mimada Veruca Salt, a competitiva Violet Beauregarde e o nerd Mike Teavee conseguem - cada um por um meio duvidoso e/ou antiético - seu passaporte para o programa, ao contrário do que acontece com o ingênuo Charlie Bucket, de família extremamente humilde e cujo pai acaba de perder o emprego. Cada um com seu interesse, todos se reunem diante da imponente fábrica no dia marcado e, sob os auspícios de Wonka - que teve uma infância complicada e ainda sofre com os traumas relativos a seu pai dentista (participação especialíssima do veterano Christopher Lee) - fazem uma excursão inesquecível por um colorido mundo de fantasia.

Mesmo sendo um cineasta com tendência ao exagero - e tendo como protagonista um ator com igual pendor - Tim Burton consegue o que parecia impossível com sua versão de "A fantástica fábrica de chocolate": agradar a gregos e troianos, ou seja, a todos àqueles que assistiram à primeira versão da história e também à gorda fatia de público que nunca teve acesso à tresloucada atuação de Gene Wilder (e bota gorda nisso, já que o filme de 2005 faturou mais de 200 milhões de dólares nas bilheterias americanas). Sua visão do livro é feérica, engraçada, frequentemente cafona e impossível de desagradar. É Tim Burton em um de seus melhores momentos sem nunca deixar de lado a origem literária da história ou perder de vista o tom infantil da trama - e ainda é fascinante para qualquer tipo de audiência. Uma vitória.

sexta-feira

OS FANTASMAS SE DIVERTEM

OS FANTASMAS SE DIVERTEM (Beetlejuice, 1988, Geffen Company, 92min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Michael McDowell, Warren Skaaren, estória de Michael McDowell, Larry Wilson. Fotografia: Thomas Ackerman. Montagem: Jane Kurson. Música: Danny Elfman. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Catherine Mann. Produção: Michael Bender, Richard Hashimoto, Larry Wilson. Elenco: Alec Baldwin, Geena Davis, Winona Ryder, Michael Keaton, Catherine O'Hara, Jeffrey Jones, Glenn Shadix. Estreia: 29/3/88

Vencedor do Oscar de Maquiagem

Era uma vez o roteiro de um filme de terror cujo protagonista era um demônio cujo objetivo era se disfarçar-se de humano para interagir com duas famílias normais, matar uma delas e estuprar a filha adolescente de outra. Conforme os anos iam passando e o roteiro ia sendo reescrito, as coisas começavam a mudar, até que um dia, com a entrada de Tim Burton no projeto, o que seria um apavorante exercício de horror transmutou-se em uma comédia de humor negro repleta das bizarrices e excentricidades que fariam a fama do diretor no futuro - a despeito de seu desvio para o cinemão comercial com os dois primeiros capítulos de "Batman" que ele comandou e encheram os bolsos da Warner Bros.. Visualmente criativo e dotado de um senso de ironia e mordacidade poucas vezes vistos nascidos dentro dos estúdios de Hollywood, "Os fantasmas se divertem" ainda teve um belo desempenho nas bilheterias americanas, arrecadando mais de 70 milhões de dólares contra um custo estimado de 15 milhões, e dobrou até mesmo os conservadores eleitores da Academia, arrebatando o Oscar de maquiagem, um trabalho artesanal que remava contra a maré dos dispendiosos efeitos visuais pós-"Star Wars".

Visto hoje, à luz dos anos, "Os fantasmas se divertem" é um típico filme de Tim Burton, que na época ainda era um talento pouco reconhecido, tendo dirigido apenas "As grandes aventuras de Pee-Wee" (85). O visual kitsch misturado com personagens excêntricos e tramas que desafiam os padrões de normalidade do american way of life estão no âmago de sua filmografia e são elementos cruciais em sua história sobre um casal de fantasmas camaradas que tentam, de todas as maneiras possíveis e imagináveis, retomar sua casa das mãos de uma família mais apavorante do que eles mesmos. Pontuado pela trilha sonora de Danny Elfman - que se tornaria colaborador habitual de Burton - o filme consegue a façanha de agradar ao público adulto da mesma forma com que conquista a plateia infantil, com suas brincadeiras visuais, humor insano e um elenco de personalidade que começa com um Michael Keaton pré-Batman na pele do asqueroso, lunático e francamente desagradável personagem-título, o bio-exorcista (!!) Beetlejuice e apresenta uma jovem Winona Ryder começando a carreira e Geena Davis no mesmo ano em que surpreendeu Hollywood levando o Oscar de coadjuvante por "O turista acidental".


Davis - que já tinha o sucesso de "A mosca" no currículo - interpreta Barbara, uma das metades do casal Maitland, completado pelo dedicado Adam (Alec Baldwin). Apaixonados um pelo outro e pela casa que construiram, eles morrem inesperadamente em um acidente de carro e não só precisam lidar com a nova realidade, mas também com o fato de que seu lar agora pertence à excêntrica família Deetz, que chegaram até mesmo a contratar um decorador para deixá-lo de acordo com sua personalidade. A mãe da família, Delia (Catherine O'Hara, substituindo Anjelica Huston com graça e timing perfeito) é uma bizarra escultora dada a aceitar conselhos de seu guru, e a filha do casal, Lydia (Winona Ryder) é a única que percebe que alguma coisa está errada no local. Desesperados com a possibilidade de serem obrigados a assistir seu sonho de consumo transformar-se em pesadelo, o casal Maitland acaba tendo que recorrer a Beetlejuice, um exorcista de seres vivos. Porém, uma vez que eles descobrem que o estranho ser é mais aterrador ainda do que os Deetz, somente a jovem Lydia pode ajudá-los.

Resumir a trama de "Os fantasmas se divertem" é tarefa inglória, uma vez que o roteiro não se furta a brincar com as expectativas do público, alternando-se entre o humor escrachado de Beetlejuice, a ironia quase sutil do núcleo da família Deetz e a impotência do casal Maitland diante de circunstâncias tão estranhas para eles quanto para o público. Tim Burton deita e rola com as inúmeras possibilidades oferecidas pela trama, oferecendo tanto efeitos especiais criados com técnicas quase primitivas quanto brincadeiras visuais que se equilibram entre o grotesco e o francamente engraçado. Para isso, ele conta com uma equipe digna dos maiores elogios, como o músico Danny Elfman e o designer de produção Bo Welch, que criou cenários perceptivelmente fakes que combinam com o tom artesanal do conceito do cineasta - não à toa, Burton dirigiria alguns anos depois, a cinebiografia de "Ed Wood", cujos filmes também eram quase um elogio ao kitsch e ao falso. Além deles, o elenco não é menos que espetacular: se Michael Keaton tem aqui a maior chance de mostrar-se um ator bancável (fato que comprovaria em seus trabalhos seguintes com o diretor, na pele do homem-morcego), Winona Ryder dava os primeiros passos de uma carreira que amadureceria bastante na década seguinte e Geena Davis também se fazia notar com ótima química com Alec Baldwin. No entanto, é difícil não destacar o trabalho de Catherine O'Hara, genial como Delia Deetz - é inesquecível, por exemplo, a sequência em que a família é assombrada por Beetlejuice durante um jantar com convidados e é obrigada a dançar a ritmada "Day-O (The Banana Boat Song)".

"Os fantasmas se divertem" é uma espécie de cartão de visitas de Tim Burton para Hollywood. Deu certo, como ficou comprovado com sua carreira bem-sucedida desde então. E é, também, um inventário das obsessões, das piadas e dos conceitos de seu diretor, um dos mais autorais e respeitados de uma terra tão pródiga em sepultar a criatividade alheia.

segunda-feira

PEIXE GRANDE

PEIXE GRANDE (Big fish, 2003, Columbia Pictures, 125min) Direção: Tim Burton. Roteiro: John August, romance de Daniel Wallace. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Arne L. Schmit. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks, Richard D. Zanuck. Elenco: Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup, Jessica Lange, Alison Lohmann, Danny DeVito, Marion Cottilard, Steve Buscemi, Helena Bonham-Carter. Estreia: 10/12/03

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora

Dizem que a paternidade amolece o coração dos homens. E quando se assiste a “Peixe grande” a teoria ganha ainda mais força. Afinal de contas, o novo filme do diretor Tim Burton deixa de lado monstros, assassinos e criaturas bizarras para concentrar-se em uma bela história de amor entre marido e mulher, pai e filho, passado e presente. Tudo bem, o gosto por personagens excêntricos ainda se mantém intocado, mas dessa vez o criador de Edward Mãos de Tesoura pega bem mais leve em sua atração pelos tons sombrios e de humor negro. “Peixe grande” é o primeiro filme de Burton depois do nascimento de seu filho e talvez por isso seja tão delicado ao lidar com os temas que propõe.
    
Baseado em um romance de Daniel Wallace que quase foi filmado por Steven Spielberg com Jack Nicholson no papel central, “Peixe grande” conta duas histórias que se fundem em uma só, tendo como protagonista Edward Bloom, um homem incapaz de levar uma vida monótona. Quando o filme começa ele está à beira da morte (sendo brilhantemente interpretado por Albert Finney) e recebe a visita do filho único, William (Billy Crudup), com quem não tem uma relação das melhores, e que está prestes a também ser pai. Na verdade, o relacionamento entre os dois sempre esteve perto da superficilidade, uma vez que William não consegue aceitar o jeito de ser do pai, capaz de inventar histórias mirabolantes para contar cada momento de sua vida. Sentindo que não conhece a verdade sobre seu progenitor, o rapaz tenta separar o que é delírio e o que realmente aconteceu, contando pra isso com a ajuda da mãe, Sandra (Jessica Lange) e da esposa, a francesa Josephine (Marion Cottilard). Enquanto tenta lidar com a possibilidade da morte dele, William passa a recordar as histórias narradas por seu pai.

 

Mas a verdadeira pérola do filme de Burton – apesar da excelência dos atores que vivem o presente – encontra-se nas histórias contadas por Bloom. É lá, entre os visuais deslumbrantes criados por Dennis Gassner e fotografados por Phillipe Rousselot que está a essência do cineasta. Vivido na juventude por um carismático Ewan McGregor, Edward Bloom cai de amores pela jovem Sandra Templeton (interpretada por Alison Lohman) e vive aventuras inacreditáveis que incluem gêmeas siamesas, um dono de circo que vira lobisomem, um gigante de bom coração, uma cidade abandonada e até mesmo uma bruxa cujo olho de vidro prevê a morte dos interlocutores (vivida pela sra. Tim Burton, Helena Bonham Carter). Dentro do universo extremamente onírico que o cineasta acostumou seu público, são nas sequências da juventude de Bloom que “Peixe grande” deixa transparecer quem é seu capitão, mesmo que dessa vez ele fale mais suavemente à sua platéia.
    
“Peixe grande” é mais uma pequena obra-prima de Tim Burton, capaz de enternecer qualquer coração empedernido com seu belo discurso sobre amor, família, liberdade e principalmente sobre o poder da fantasia em ajudar a suportar a realidade de uma vida comum. Engraçado e terno, é o filme família que o diretor devia desde “Edward Mãos de Tesoura”.

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (Sleepy hollow, 1999, Paramount Pictures, 105min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Andrew Kevin Walker, história de Kevin Yagher, Andrew Kevin Walker, romance de Washington Irving. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Chris Lebenzon, Joel Negron. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Peter Young. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Larry Franco. Produção: Scott Rudin, Adam Schroeder. Elenco: Johnny Depp, Christina Ricci, Christopher Walken, Miranda Richardson, Casper Van Dien, Michael Gambon, Jeffrey Jones, Lisa Marie, Christopher Lee. Estreia: 19/11/99

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Direção de Arte/Cenários

Um conto gótico de terror, estrelado por um detetive exótico, coadjuvado por bruxas e que contata com um vilão sem cabeça só poderia mesmo ser contado por Tim Burton. Em “A lenda do cavaleiro sem cabeça”, o cineasta buscou em uma história clássica americana a inspiração para mais um trabalho autoral, visualmente arrebatador. Dessa vez, porém, ele não conseguiu atingir a força de suas duas obras-primas “Edward Mãos de Tesoura” (1990) e “Ed Wood” (1994), sintomaticamente estreladas pelo mesmo Johnny Depp que aqui completa sua terceira colaboração com Burton.

Dessa vez Depp não interpreta um ser com tesouras no lugar das mãos nem mesmo um cineasta sem talento mas apaixonado por sua arte. Na história escrita no século XIX por Irving Washington e roteirizada por Andrew Kevin Walker (autor de “Seven”) ele vive Ichabod Crane, um detetive de métodos exóticos e passado traumático que é enviado de Nova York para uma cidadezinha do interior chamada Sleepy Hollow para investigar uma série de violentos crimes, onde as vítimas são decapitadas. Chegando no local, Crane logo fica sabendo que todos no vilarejo sabem que o culpado pelas mortes é um temido Cavaleiro Sem Cabeça, que quer vingar seu trágico fim. Sua investigação, no entanto, o leva a crer que os poderosos da cidade sabem bem mais do que revelam e ele então passa a correr sério risco de vida, enquanto se encanta com a doce Katrina (Christina Ricci), que também parece esconder segredos.



O visual de “A lenda do cavaleiro sem cabeça” é espetacular. Não há um ângulo sequer fotografado por Emmanuel Lubezki que não pareça uma pintura. A direção de arte (premiada com o Oscar da categoria) é impecável e algumas cenas são sublimes, apesar da violência. Apesar de tudo, falta ao filme um coração. Talvez por não ser uma história própria, onde poderia aproveitar sua criatividade a toda prova, Burton parece tímido, com medo de envolver-se emocionalmente na trama contada, o que fez muita diferença em seus trabalhos anteriores com Depp, aqui mais uma vez em sua persona cool, ainda que com os mesmos maneirismos de sempre e a eterna mania de parecer diferente e acrescentar um humor duvidoso à sua atuação, o que dilui consideravelmente a tensão da história.

Aliás, a opção de Burton em fugir da seriedade é que de certa forma estraga o prazer que se poderia tirar de "A lenda do cavaleiro sem cabeça". Se tivesse escolhido seguir um caminho mais dark, certamente o diretor faria jus à beleza plástica de sua obra, dando um toque de classe e sobriedade a um gênero que anda sempre perigosamente na corda bamba entre o grotesco e o patético. Nem mesmo a resolução do caso - quando os culpados são finalmente revelados e punidos - empolga dramaticamente, apesar de contar com um elenco de peso, onde destacam-se Miranda Richardson, Jeffrey Jones e um assustador Christopher Walken, que nem precisa falar para impressionar. A impressão que fica ao final da sessão é que algo muito importante ficou faltando. Não resta a menor dúvida de que Tim Burton é um cineasta de enorme talento e energia, mas “A lenda do cavaleiro sem cabeça” tem visual de mais pra história de menos.

sexta-feira

ED WOOD

ED WOOD (Ed Wood, 1994, Touchstone Pictures, 127min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski, livro "Nightmare of ecstasy", de Rudolph Grey. Fotografia: Stefan Czapsky. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Cricket Rowland. Produção executiva: Michael Lehmann. Produção: Tim Burton, Denise Di Novi. Elenco: Johnny Depp, Martin Landau, Patricia Arquette, Sarah Jessica Parker, Bill Murray, Jeffrey Jones, Lisa Marie, George "The Animal" Steele, Vincent D'Onofrio. Estreia: 28/9/94

Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Martin Landau), Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Martin Landau)

Edward D. Wood Jr. nasceu em 10 de outubro de 1924 e morreu em 10 de dezembro de 1978. Veterano da II Guerra Mundial, costumava combater vestido com roupas íntimas femininas e, graças a essa particularidade, realizou seu primeiro filme como cineasta, em 1953: "Glen ou Glenda?" A partir daí, pegou gosto pela coisa e, com a ajuda de seu fiel grupo de amigos e do veterano ator Bela Lugosi - em fim de carreira, viciado em morfina e falido - dirigiu alguns dos mais terríveis filmes vistos nas telas, e assumiu, com o passar dos anos, o título de pior diretor da história do cinema. Sem a menor noção de como fazer um filme - e realizando-os com o dinheiro de quem quisesse produzí-los - Wood é uma das personalidades mais fascinantes do lado B de Hollywood, e virou assunto de um dos trabalhos mais pessoais e sensíveis de Tim Burton. Estrelado pelo excêntrico Johnny Depp, "Ed Wood" não encontrou seu público - rendeu menos de 6 milhões de dólares nas bilheterias americanas - mas encantou a crítica e os fãs de bom cinema. Tudo devido à inteligência do roteiro, ao elenco impecável e ao carinho explícito do diretor pelo material.

Levemente inspirado na biografia "Nightmare of ecstasy", escrita pelo músico Rudolph Grey, "Ed Wood" não é exatamente uma cinebiografia, uma vez que concentra-se unicamente na carreira de cineasta do protagonista, deixando de lado sua vida antes de sua chegada ao cinema. Tudo começa em 1953, quando Wood (vivido com gosto por Johnny Depp), arrasado com as críticas negativas feitas a uma peça teatral que ele dirigiu, resolve iniciar uma nova fase em sua vida, realizando filmes para o cinema. O fracasso de seu primeiro filme - que contava a história de um homem em crise de identidade sexual, interpretado por ele mesmo - não o impede de manter-se esperançoso, principalmente quando conhece, por acaso, o ator Bela Lugosi (Martin Landau, impressionante e vencedor do Oscar de coadjuvante). Decadente e considerado ultrapassado, Lugosi se une a Wood em seus absurdos projetos cinematográficos, iniciando um relacionamento de amizade e admiração sinceras. Enquanto o jovem diretor insiste em filmar histórias sem pé nem cabeça - utilizando como atores médicos quiropratas, investidoras sem talento e filhos dos produtores - seu relacionamento com a namorada Dolores Fuller (Sarah Jessica Parker) vai pro brejo e ele inicia um romance com a dedicada Kathy O'Hara (Patricia Arquette).




Extraordinariamente fotografado em preto-e-branco por Stefan Czapsky (vencedor de importantes prêmios da crítica americana por seu trabalho), "Ed Wood" foge do tradicional esquema das cinebiografias também por permitir-se brincar com a personalidade de seu homenageado. Ao narrar com bom-humor e ironia as aventuras de Wood em busca de reconhecimento e sucesso - ele se comparava a Orson Welles - Burton utiliza os elementos a seu dispor com maestria. A trilha sonora de Howard Shore - substituindo pela única vez o parceiro constante do diretor, Danny Elfman - estabelece o clima sombrio/divertido do filme logo nos créditos iniciais (que, dizem, custaram sozinhos mais do que qualquer filme de Ed Wood). A espirituosa maquiagem vencedora do Oscar faz sua parte sem apelar para exageros e o elenco não poderia estar em dias mais inspirados.

Acostumado a papéis de maluquetes, Johnny Depp criou um Ed Wood completamente obcecado por sua carreira, capaz dos atos mais inacreditáveis para transformar suas ideias malucas em filmes, mas ao mesmo tempo consegue humanizar a personagem em suas cenas com Martin Landau, que foge magnificamente das armadilhas de interpretar alguém tão conhecido como Bela Lugosi. O sotaque empregado por Landau convenceu até mesmo o filho de Lugosi e sua cadavérica aparência casa com exatidão com as intenções de Tim Burton em realizar um filme que orgulharia Wood. E seria injusto esquecer um Bill Murray hilariante e um Jeffrey Jones sempre em vias de roubar a cena. Todos os momentos em que a equipe de Ed Wood está reunida são sublimes em sua visão romântica e apaixonada do ato de fazer cinema.

"Ed Wood" é isso! Uma homenagem carinhosa, romântica, sensível, engraçada e comovente a um dos artistas mais originais e apaixonados que o cinema americano produziu. Ed Wood pode ter sido o pior diretor da história, mas inspirou o melhor filme de um cineasta que provavelmente nasceu para contar sua história.

domingo

EDWARD MÃOS DE TESOURA

EDWARD MÃOS DE TESOURA (Edward Scissorhands, 1990, 20th Century Fox, 105min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Caroline Thompson, história de Tim Burton e Caroline Thompson. Fotografia: Stefan Czapsky. Montagem: Richard Halsey. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Casting: Victoria Thomas. Produção executiva: Richard Hashimoto. Produção: Tim Burton, Denise Di Novi. Elenco: Johnny Depp, Winona Ryder, Dianne Wiest, Anthony Michael Hall, Alan Arkin, Kathy Baker, Vincent Price. Estreia: 14/12/90

Indicado ao Oscar de Maquiagem

O que David Lynch e Tim Burton tem em comum? Aparentemente nada, diriam os mais apressados. Mas basta um olhar mais atento em "Edward Mãos de Tesoura" para perceber que ambos os cineastas tem visões críticas e irônicas em relação à sociedade em que vivem. Mas enquanto Lynch brinca de forma ácida e cruel em relação a isso, Burton prefere um viés mais romântico e delicado, ainda que bastante contundente. Em tom de fábula, "Edward" é o melhor filme do diretor, um trabalho que agrada tanto pelo impressionante visual quanto por sua história, ingênua e delicada como raramente se vê em tempos de efeitos visuais utilizados para mostrar apenas violência e destruição.


A história criada por Burton e sua roteirista Caroline Thompson é simples e eficiente: no fim de um exaustivo dia de trabalho como revendedora de cosméticos, a dona-de-casa Peggy Boggs (Dianne Wiset) chega a um castelo aparentemente abandonado. Lá dentro, encontra o tímido Edward (Johnny Depp), que vive sozinho e isolado desde a morte de seu criador (o veterano Vincent Price em seu último trabalho), um cientista que criou-o com todas as características humanas mas que morreu antes de dar-lhe mãos, substituídas por tesouras. Penalizada com a situação do rapaz, ela o leva para casa, no subúrbio de uma cidadezinha americana. Lá, Edward toma contato com as vizinhas de Peggy - tornando-se atração da região -, sua família e principalmente com sua filha adolescente, Kim (Winona Ryder), por quem se apaixona. No entanto, nem tudo são flores, e o fascínio que ele inicialmente causava transforma-se em preconceito, especialmente quando ele se envolve em um assalto imaginado pelo namorado marginal de Kim (Anthony Michael Hall).




A primeira parceria entre Burton e Johnny Depp (que fala menos de 200 palavras o filme inteiro) é uma fábula deslumbrantemente concebida, tanto em termos visuais quanto emocionais. Narrada em tom de conto de fadas, a história de Edward - variação do bom selvagem - e sua paixão por Kim, é comovente, engraçada e graças principalmente à trilha sonora inspirada de Danny Elfman, tem ares de eterna. Tem cenas hilariantes, momentos de uma ternura palpável e um visual estarrecedor, cortesia principalmente da fotografia de Stefan Czapsky. A direção de arte de Bo Welch também colabora para criar a atmosfera de fantasia imaginada pelo diretor, um artista criativo e que aproveitou o sucesso absoluto de seu "Batman" para legar à plateia uma história de amor e pureza. 

Johnny Depp começou aqui sua fama como ator de personagens excêntricos, em sua mais marcante e memorável caracterização (ajudado pela ótima maquiagem de Stan Winston, indicado ao Oscar da categoria). Winona Ryder - que apaixonou-se por ele durante as filmagens - está bela e etérea, um contraponto perfeito a seu trabalho, em uma atuação delicada e sensível. E além de tudo, "Edward Mãos de Tesoura" faz pensar e seu roteiro é uma pouco disfarçada metáfora sobre os males que a sociedade é capaz de fazer à inocência.

Simbolismos e metáforas de lado, "Edward Mãos de Tesoura" é um belo filme, um oásis de inteligência em meio a um deserto de boas ideias. Emocionante e delicado, é a obra-prima de Tim Burton, capaz de conquistar o mais empedernido dos corações.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...