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quinta-feira

VEJA COMO ELES CORREM


VEJA COMO ELES CORREM (See how they run, 2022, Searchlight Pictures, 98min) Direção: Tom George. Roteiro: Mark Chappell. Fotografia: Jamie D. Ramsay. Montagem: Gary Dollner, Peter Lambert. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Amanda McArhur/Celia De La Hey. Produção: Gina Carter, Damian Jones. Elenco: Sam Rockwell, Saoirse Ronan, Adrien Brody, David Oyelowo, Harris Dickinson, Gregory Cox, Maggie McCarthy, Charlie Cooper, Ruth Wilson, Reece Shearsmith, Sian Clifford, Jacob Fortune-Lloyd, Shirley Henderson. Estreia: 08/9/2022

Em 25 de novembro de 1952, em Londres, estreava a peça "A ratoeira", da escritora policial Agatha Christie - depois de uma pequena turnê por outras cidades inglesas. Desde então, com exceção de um período de 14 meses de paralisação por conta da Covid-19, nunca mais saiu de cartaz, tendo seu elenco substituído todo ano e se mantendo como uma das obras mais duradouras do teatro mundial. Nunca adaptado por Hollywood - uma cláusula de seu contrato estipula que nenhuma versão para as telas pode ser realizada antes de transcorridos seis meses desde o encerramento das apresentações -, mas com um versão indiana e outra russa, devidamente disfarçadas, o texto de Christie é considerado um exemplo perfeito de seu estilo e um clássico do gênero whodunit? (quem matou?). "Veja como eles correm", estrelado por Sam Rockwell e Saoirse Ronan, é uma divertida e criativa homenagem, tanto à peça em si quanto à obra da escritora. Repleto de referências sutis (ou nem tanto) e dotado de um humor britânico em toda a sua mordacidade, o filme de Tom George oferece ao espectador uma hora e meia de inteligência, valorizada por um visual caprichado e um elenco em dias de graça.

A trama de "Veja como eles correm" - título que copia o segundo verso da canção infantil "Três ratos cegos", que também deu nome à peça radiofônica e ao conto que mais tarde se transformaram em "A ratoeira" - se passa em 1953, quando a peça de Agatha Christie está comemorando sua 100ª apresentação em Londres. O sucesso estrondoso da produção acaba de chamar a atenção de produtores de cinema, que tencionam levá-la às telas o quanto antes, sob a direção do excêntrico Leo Kopernick (Adrien Brody), que chega dos EUA com a missão de comandar a adaptação - que, como se sabe, só será possível seis meses depois do encerramento da temporada teatral. Quando o pouco simpático Kopernick é assassinado e tem seu corpo deixado no cenário do teatro, é chamado o inspetor de polícia Stoppard (Sam Rockwell), que, com seu jeito desleixado, inspira pouca confiança. Com a ajuda da jovem policial Constable Stalker (Saoirse Ronan) - deslumbrada com a possibilidade de investigar um crime acontecido no meio artístico, pelo qual é fascinada -, Stoppard passa a conviver com produtores, atores, roteiristas e demais membros da companhia teatral, em busca do nome do assassino, que não demora em fazer novas vítimas.


 

Com um roteiro recheado de brincadeiras que frequentemente escapam ao público médio - o inspetor tem o nome em homenagem ao dramaturgo Tom Stoppard, que escreveu uma paródia de "A ratoeira", e o mordomo de Agatha Christie tem o mesmo sobrenome de Julian Fellowes, premiado com o Oscar de roteiro original por "Assassinato em Gosford Park" (2001), que bebe na fonte da autora inglesa - e um visual criativo que mescla ângulos de câmera inusitados com uma edição que usa e abusa de pontos de vista alternativos, "Veja como eles correm" funciona como comédia satírica e como filme policial, com direito a reviravoltas e um desfecho típico da criadora de Hercule Poirot e Miss Marple - e que inclusive tem participação efetiva no clímax da história, sendo interpretada por Shirley Henderson. Com uma fotografia de cores fortes e uma direção de arte cuidadosamente elaborada, o filme de Tom George - estreando no cinema, em um gênero do qual não é exatamente fã, segundo suas próprias palavras - faz lembrar, em alguns momentos, o brilhante "Assassinato por morte" (1976), de Robert Moore, que unia, no mesmo ambiente, os mais famosos detetives policiais da literatura para investigar um crime: enquanto o espectador tenta adivinhar a identidade do culpado (a), acompanhando as aventuras de Stoppard e Constable, se diverte com diálogos espirituosos e a união certeira entre personagens fictícios e personalidades reais, como o ator e diretor Richard Attenborough (vivido aqui por Harris Dickinson).

E por falar em Stoppard e Constable, a química entre Sam Rockwell e Saoirse Ronan é preciosa: ele vive um policial pouco exemplar (e inspirado em Peter Sellers e seu Inspetor Clouseau) e ela, uma das atrizes mais elogiadas de sua geração, demonstra um timing cômico dos mais agradáveis, na pele de uma ambiciosa e ansiosa aspirante a maiores voos profissionais. Além deles, brilha Adrien Brody como Leo Kopernick, o detestável cineasta que encontra a morte logo nos minutos iniciais - mas que permanece em cena, em flashbacks que conduzem a investigação dos protagonistas: sem medo de mostrar uma persona pouco simpática, Brody parece se divertir em cada cena, em cada diálogo. E é exatamente esse tom irônico e bem-humorado o maior trunfo de "Veja como eles correm", um passatempo dos mais interessantes e sagazes da temporada.

 

sexta-feira

LADY BIRD: A HORA DE VOAR


LADY BIRD: A HORA DE VOAR (Ladybird, 2017, A24, 94min) Direção e roteiro: Greta Gerwig. Fotografia: Sam Levy. Montagem: Nick Houy. Música: Jon Brion. Figurino: April Napier. Direção de arte/cenários: Chris Jones/Traci Spadorcia. Produção executiva: Lila Yacoub. Produção: Eli Bush, Evelyn O'Neil, Scott Rudin. Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Lois Smith, Beanie Feldstein, Odeya Rush. Estreia: 01/9/2017 (Festival de Telluride)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Greta Gerwig), Atriz (Saoirse Ronan), Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf), Roteiro Original

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Saoirse Ronan) 

Filmes que retratam o fim da adolescência e entrada na vida adulta são comuns, e frequentemente deslizam no sentimentalismo ou no humor grosseiro. Raramente surge uma produção que consegue unir sensibilidade, bom humor e inteligência. Talvez por isso "Lady Bird: a hora de voar" tenha se tornado um dos maiores sucessos de sua temporada. Realizado com um orçamento minúsculo (aproximadamente 10 milhões de dólares, o que não paga nem o cachê de nomes como Julia Roberts e Angelina Jolie), o filme de estreia da atriz Greta Gerwig como cineasta rendeu quase cinco vezes isso no mercado doméstico e chegou perto de 80 milhões em arrecadação internacional. Tal êxito - refletido também no aplauso unânime da crítica e das cerimônias de premiação, incluindo presença no Oscar e no Golden Globe - tem inúmeras explicações, mas talvez a maior delas seja justamente sua falta de pretensão: sem lances rocambolescos ou truques dramáticos lacrimosos, "Lady Bird" se desenrola diante do espectador como uma deliciosa crônica de amadurecimento pessoal, com uma protagonista adorável mas falível interpretada pela cada vez melhor Saiorse Ronan.

Revelada no elogiado "Desejo e reparação", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante ainda na adolescência, Ronan conquistou a confiança da diretora logo de cara, ao fazer uma leitura do roteiro durante o Festival de Toronto de 2015. Ao deixar de lado o sotaque irlandês e assumir o visual de uma adolescente (mesmo que já tivesse passado dos vinte anos durante as filmagens), a jovem atriz dá continuidade a uma carreira que, apesar de ainda curta, já é uma das mais consistentes de Hollywood. Graças à direção segura de Gerwig, Ronan veste a personagem com naturalidade admirável e não teme soar desagradável de vez em quando - especialmente em sua relação com a mãe, Marion (Laurie Metcalf), e em suas tentativas de tornar-se popular mesmo sacrificando sua amizade com Julie (a ótima Beanie Feldstein, do igualmente ótimo "Fora de série"). Enquanto aguarda as respostas das universidades a que almeja, Lady Bird (cujo nome verdadeiro é Christine) ainda lida com os problemas inerentes à sua idade, como, por exemplo, sua busca por amor. Nessa busca, ela esbarra em Danny (Lucas Hedges), seu colega do grupo de teatro, e no personalíssimo Kyle (Timothée Chalamet).

 

A primeira versão do roteiro de Gerwig tinha, segundo a própria diretora, mais de 350 páginas - ou, se transformado em filme, algo em torno de seis horas de duração. Logicamente seu texto foi retrabalhado até chegar a aceitáveis 94 minutos. Nesse meio tempo, outro cineasta esteve envolvido nos bastidores da produção: namorado da atriz, a quem dirigiu em seu aplaudido "Frances Ha" (2012), Noah Baumbach chegou a se oferecer para comandar o filme - uma sugestão delicadamente rejeitada... e bem sucedida. Muito provavelmente Baumbach, a despeito de seu grande talento, não teria o mesmo carinho com que Gerwig trata suas criações. Mesmo quando mostra um lado pouco louvável dos personagens, o roteiro o faz com tanta verdade, tanto frescor, que é difícil não se deixar cativar. Lady Bird é uma adolescente cheia de falhas, mas também é repleta de qualidades - e é nessa dualidade, nessa complexidade que reside a genialidade do desempenho de Saoirse Ronan. Ela não cria uma personagem imaculada para conquistar a plateia, e sim um ser humano o mais perto possível do real, que envolve o público tanto por seus erros quanto por seus acertos.

"Lady Bird" estreou no Festival de Telluride, em setembro de 2017 e, a partir daí, tornou-se figurinha fácil em festivais de cinema e integrante fixo das listas de melhores filmes do ano. Levou pra casa os Golden Globes de melhor filme e melhor atriz (ambos na subcategoria musical ou comédia) e chegou à cerimônia do Oscar com cinco indicações importantíssimas, inclusive melhor filme e direção. Pode não ter sido feliz em converter as indicações em estatuetas, mas foi realizado o desejo de Gerwig em realizar um filme sobre a entrada na vida adulta de uma personagem feminina como contraponto aos bem-sucedidos "Boyhood: da infância à juventude" (2014) e "Moonlight: sob a luz do luar" (2016). Do primeiro traz o sabor de crônica do dia-a-dia, e do segundo, um tom de poesia e certa melancolia. De ambos, apresenta um produto final que mostra a força do cinema independente - e a coragem de nadar contra a maré e evitar o drama fácil. "Lady Bird: a hora de voar" é uma pérola. Um clássico instantâneo e atemporal.

sábado

BROOKLYN

BROOKLYN (Brooklyn, 2015, BBC Films/Wildgaze Films, 117min) Direção: John Crowley. Roteiro: Nick Hornby, romance de Colm Tóibín. Fotografia: Yves Bélanger. Montagem: Jake Roberts. Música: Michael Brook. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: François Séguin/Jenny Oman, Louise Tremblay. Produção executiva: Hussain Amarshi, Rory Gilmartin, Zygi Kamasa, Christine Langan, Alan Moloney, Beth Pattinson, Thorsten Schumacher. Produção: Finola Dwyer, Amanda Posey. Elenco: Saoirse Ronan, Julie Walters, Jim Broadbent, Dohmnall Gleeson, Emory Cohen. Estreia: 26/01/25 (Festival de Sundance)

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Saoirse Ronan), Roteiro Adaptado

Delicadeza. Simplicidade. Pureza. Com esses três elementos em mão - mais o belo roteiro do escritor Nick Hornby, adaptado do romance de Colm Tóibín - o cineasta John Crowley conseguiu em seu quarto longa-metragem o que muitos diretores mais experientes jamais alcançaram: uma indicação ao Oscar de melhor filme. Desde sua estreia e ovação no Festival de Sundance, em janeiro de 2015, o singelo "Brooklyn" passou a colecionar prêmios da crítica e de festivais, cativados por sua extrema facilidade em transmitir uma imensa gama de sentimentos sem apelar para o dramalhão. Ao contar uma história de autodescoberta e amadurecimento, o filme, estrelado pela ótima Saoirse Ronan - a adolescente inconsequente de "Desejo e reparação" (2007) - é um oásis de inteligência e sutileza em uma época na qual orçamentos gigantescos e desnecessárias continuações mandam e desmandam nas bilheterias. Não por acaso, disputou a estatueta principal com "Mad Max: estrada da fúria", de George Miller e "Perdido em Marte", de Ridley Scott - dois sucessos comerciais que, apesar das inúmeras qualidades, passam longe de qualquer tipo de delicadeza ou despretensão.

A protagonista do filme - verossímil, real, falível e por isso mesmo apaixonante - é Eilis, uma jovem irlandesa que aproveita a chance de viajar para a Nova York pós-guerra (o ano em que a ação começa é 1952) para tentar uma vida melhor, mais próspera e promissora em termos profissionais. Amparada pela ajuda do Padre Flood (Jim Broadbent) e hospedada na pensão da atenciosa Sra. Kehoe (Julie Walters), ela começa a trabalhar em uma loja de departamentos, enquanto estuda para uma carreira como escriturária. Sua vida pacata e repleta de saudades de casa começa a mudar quando ela conhece Tony (Emory Cohen), um descendente de italianos que trabalha como encanador e que se apaixona perdidamente por ela. O romance faz com que Eilis finalmente comece a sentir-se em casa em um país estranho, mas um acontecimento inesperado a leva de volta para a Irlanda, onde ela conhece outro rapaz, Jim (Dohmnall Gleeson), o que a faz questionar seus sentimentos e suas ambições.


Contando sua história sem atropelos e sem grandes reviravoltas, "Brooklyn" conquista o espectador aos poucos, conforme vai apresentando todas as suas qualidades, com um ritmo próprio e suave. Coerente com a proposta do diretor em apostar no minimalismo emocional e visual, a reconstituição de época é detalhista sem jamais chamar a atenção para si em detrimento da trama ou dos personagens - o figurino é sensacional - e a fotografia de Yves Bélanger explora com sensibilidade a beleza dos olhos de sua atriz central, expressivos a ponto de revelarem sozinhos boa parte do turbilhão de sentimentos que a assolam. Para isso é essencial o talento superlativo de Saoirse Ronan, que consegue destacar-se mesmo sem apoiar-se em cenas grandiloquentes ou lacrimosas: quando Eilis sofre, sua angústia é compreensível e verdadeira; quando está feliz, seu brilho é contagiante e sincero. E quando toma atitudes talvez duvidosas, é impossível não perdoá-la e torcer para sua redenção. Com desenvoltura de veterana, Ronan fez por merecer sua indicação ao Oscar: ela consegue fugir de todas as armadilhas do roteiro com extrema segurança, e conquista a empatia do público justamente por assumir para si a responsabilidade de tornar inesquecível uma trama que, a despeito de seu desenvolvimento poético e fluido, não apresenta nenhuma novidade. E talvez seja justamente essa a chave para seu sucesso.

Tomando poucas liberdades em relação ao romance de Tóibín, o roteiro de Nick Hornby - que perdeu o Oscar para o chato "A grande aposta" - mantém seu tom lírico e nostálgico, calcado mais nos personagens do que nas situações dramáticas expostas durante a narrativa. Inteligente e com um sutil senso de humor, o desenvolvimento da ação se concentra em Eilis e naqueles que a rodeiam, desde as colegas de pensão - que para surpresa do espectador NÃO se tornam inimigas da protagonista como acontece normalmente em filmes do gênero - até sua família, cerne de suas preocupações e saudades. O triângulo amoroso formado no ato final do filme também soa orgânico, especialmente devido à química entre Ronan e seus dois colegas de cena, principalmente o encantador Emory Cohen - revelado no seriado "Smash" - na pele de um rapaz pouco instruído que ganha o coração não apenas da personagem principal, mas também da plateia. O romance pueril, ingênuo e sincero dos personagens contrasta com a incipiente relação da garota com Jim, centrado em um futuro mais prático e realista - uma mudança de perspectiva facilmente constatável na palheta de cores utilizada pela fotografia de Bélanger e pelos cenários e figurinos, que vão se tornando mais coloridos conforme a percepção de mundo de Eilis vai mudando. Esse cuidado a pequenos detalhes - quase invisíveis em um primeiro olhar - é que impressiona e seduz em "Brooklyn", um pequeno grande filme capaz de deixar qualquer um com um enorme sorriso estampado no rosto.

sexta-feira

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE (The Grand Budapest Hotel, 2014, Fox Searchlight Pictures/Indian Paintbrush, 99min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, estória de Wes Anderson, Hugo Guinness, inspirado em escritos de Stefan Zweig. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Barney Pilling. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Anna Pinnock. Produção executiva: Molly Cooper, Christoph Fisser, Henning Molfenter, Charlie Woebcken. Produção: Wes Anderson, Jeremy Dawson, Steven Rales, Scott Rudin. Elenco: Ralph Fiennes, F. Murray Abraham, Jude Law, Willem Dafoe, Adrien Brody, Jeff Goldblum, Saoirse Ronan, Mathieu Amalric, Harvey Keitel, Bill Murray, Edward Norton, Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Owen Wilson, Tony Revolori, Fisher Stevens, Bob Balaban. Estreia: 06/02/14 (Festival de Berlim)

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Wes Anderson), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme (Comédia/Musical) 

 Dentre os filmes pouco convencionais selecionados pela Academia de Hollywood para concorrer ao principal Oscar de 2015 - "Birdman" e "Boyhood", por exemplo - nenhum é tão radicalmente a cara de seu autor quanto "O Grande Hotel Budapeste", escrito, dirigido e produzido por Wes Anderson, um dos cineastas menos afeitos a concessões comerciais que o cinema norte-americano gerou nos últimos quinze anos, desde que lançou o elogiado - e ignorado pelo público - "Três é demais", em 1998. Dono de um estilo facilmente reconhecível que equilibra com rara inteligência personagens excêntricos, histórias inusitadas e um visual milimetricamente planejado, Anderson faz parte de um time de poucos realizadores que tem uma marca própria dentro do cinema, como Tim Burton, Woody Allen e Pedro Almodovar. No entanto, ainda faltava a ele uma espécie de reconhecimento oficial por parte da indústria, que lhe desse o passaporte definitivo para a elite dos cineastas. Com as surpreendentes nove indicações conquistadas por seu novo filme (e a vitória em quatro categorias) tal passaporte já está carimbado. Só o fato de ter lutado de igual pra igual com produções bem menos criativas (e por conseguinte mais facilmente digeríveis pelos tradicionais e vestutos eleitores da Academia), "O Grande Hotel Budapeste" já pode ser considerado um campeão.

A trama - contada através de uma história dentro de uma história, em uma opção narrativa arriscada mas extremamente bem-sucedida - é aparentemente simples, mas repleta de bifurcações inusitadas e personagens surreais: quem começa a contá-la é um escritor consagrado (vivido por Tom Wilkinson na maturidade e Jude Law na juventude), que transmite ao público a história do misterioso Mr. Moustafa (F. Murray Abraham), dono do decadente Hotel Budapeste, localizado em um país fictício da Europa que teve seu auge no período entre-guerras. Solitário e discreto, Moustafa relembra, através de flashbacks, as reviravoltas que fizeram com que a imensa propriedade fosse parar em seu nome. Tais reviravoltas tem início quando ele, ainda jovem (e interpretado por Tony Revolori) consegue emprego como empregado do hotel, sob o comando do rígido e dedicado Gustave H. (Ralph Fiennes), que, além de ser o melhor concierge da região, não hesita em agradar as hóspedes de mais idade com noites regadas a champagne e sexo. Quando uma dessas visitantes frequentes, a milionária Céline Villeneuve Desgoffe und Taxis (Tilda Swinton irreconhecível sob pesada maquiagem vencedora do Oscar), morre aos 84 anos em sua mansão, ele resolve prestar suas últimas homenagens, atendendo a seu funeral. Para sua surpresa, porém, ele fica sabendo - junto com a ambiciosa família da falecida - que herdou um quadro de valor milionário, o que acaba lhe colocando em sérios apuros com a polícia: recusando-se a aceitar que a mãe tenha deixado tão valioso bem para um mero serviçal, o psicótico Dimitri (Adrien Brody) o acusa de assassinato e parte em sua captura, ao lado de seu violento capanga Jopling (Willem Dafoe). Quando eclode a II Guerra, cabe a Gustave provar sua inocência - contando, para isso, com o apoio de um clube secreto de concierges espalhados pelo mundo.


Dotado de um humor sofisticado que provoca mais sorrisos do que gargalhadas e de uma trama tão cheia de informações visuais que uma segunda sessão é mandatória, "O Grande Hotel Budapeste" é, tranquilamente, o melhor filme de Wes Anderson, refinando as características narrativas de "Os excêntricos Tenenbauns" e estilísticas de "Moonrise kingdom" e unindo-as em um espetáculo de qualidade estética ímpar. Único dos candidatos ao Oscar de fotografia a ser filmado em película - um feito digno de nota, especialmente quando se percebe a qualidade irretocável do meticuloso trabalho de Robert Yeoman - a obra de Anderson também é um triunfo de desenho de produção (também premiada pela Academia), tão impressionante com seus cenários grandiosos quanto a segurança do cineasta em equilibrar narrativas múltiplas sem perder o fio da meada ou confundir o espectador. Contando com um elenco acima de qualquer crítica - com destaque para Ralph Fiennes em raro registro cômico e Edward Norton em sua segunda parceria com o diretor, além da revelação Tony Revolori - o filme ainda se beneficia da inspirada trilha sonora (mais uma) de Alexandre Desplat, que comenta a ação como se fosse um personagem a mais e deu a ele uma merecida estatueta dourada. Ela é mais uma peça essencial em um dos mais empolgantes produtos cinematográficos dos últimos anos, um filme capaz de encantar qualquer fã da sétima arte e a prova cabal do talento de seu criador, até então escondido em pérolas de cinemateca - vulgo filmes amados por uma parcela de espectadores que não tem medo do diferente.

Ousado, criativo, original, inteligente. Faltam adjetivos para explicar porque "O Grande Hotel Budapeste" merece ser visto, revisto, trevisto e aplaudido todas as vezes. É um dos mais excitantes e inovadores produtos a sair de um lugar cada vez menos disposto a riscos como Hollywood. E além de tudo é uma comédia muito engraçada e excêntrica, que não precisa de um humor pastelão para arrancar risos. Precisa de mais motivos para ser genial?

terça-feira

CAMINHO DA LIBERDADE

CAMINHO DA LIBERDADE (The way back, 2010, Exclusive Films/National Geographic Films, 133min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Keith Clarke, Peter Weir, livro "The long walk: the true story of a trek to freedom", de Slavomir Rawicz. Fotografia: Russell Boyd. Montagem: Lee Smith. Música: Burkhard Dallwitz. Figurino: Wendy Stites. Direção de arte/cenários: John Stoddart/Goro Deyanov. Produção executiva: Mohammed Khalaf, Tobin Armbrust, Edward Borgerding, Keith Clark, Guy East, Jake Eberts, Simon Oakes, John Ptak, Scott Rudin, Jonathan Schwartz. Produção: Duncan Henderson, Joni Levin, Nigel Sinclair, Peter Weir. Elenco: Jim Sturgess, Ed Harris, Colin Farrell, Saoirse Ronan, Mark Strong. Estreia: 03/9/10 (Festival de Telluride)

Indicado ao Oscar de Maquiagem

Demorou sete anos até que o australiano Peter Weir voltasse para trás das câmeras e presenteasse o público com mais um de seus belos trabalhos. Responsável por alguns dos clássicos dos anos 80, como "A testemunha" e "Sociedade dos poetas mortos", Weir estava sumido desde "Mestre dos mares", de 2003 e sua volta não poderia ter sido mais festejada pelos fãs de cinema. Mesmo que "Caminho da liberdade" tenha fracassado nas telas americanas e sido praticamente ignorado pelas cerimônias de premiação que cumularam de láureas o previsível e aborrecido "O discurso do rei", o filme é um belo drama de superação que não apela para emoções fáceis e que é narrado de forma discreta e elegante, como é normal na obra do cineasta.

Baseado em fatos reais, "Caminho da liberdade" começa quando o jovem polonês Janusz (Jim Sturgess, de "Across the universe", visivelmente entregue ao personagem) é preso pelos soviéticos durante a divisão russo-germânica em seu país. Acusado de traição e separado da esposa, ele é condenado a um campo de concentração. Em 1941, movido por uma coragem inabalável, ele lidera um grupo de presos em uma fuga insana: a pé, eles atravessam milhares de quilômetros, saindo da Sibéria e chegando até a Índia munidos apenas de um machado e uma faca. Enfrentando nevascas, o clima do deserto de Gobi e as condições inóspitas do Himalaia, o grupo - que inclui o criminoso Valka (um irreconhecível Colin Farrell), o misterioso e calado americano Mr. Smith (Ed Harris) e a adolescente Irena (Saoirse Ronan, indicada ao Oscar de coadjuvante por "Desejo e reparação") - nunca desiste de seu objetivo, mesmo que em muitos momentos o cansaço, o medo e o desespero tomem conta de seus pensamentos.


É fácil encontrar, na narrativa de "Caminho da liberdade", todas as qualidades do bom cinema de Peter Weir: personagens fortes, ritmo cadenciado e o cuidado com os detalhes técnicos, como a estupenda fotografia de Russell Boyd e a trilha sonora discreta e eficiente de Burkhard Dallwitz. Acompanhando a trajetória sofrida e repleta de armadilhas de seus protagonistas, o roteiro inspirado no livro de Slawomir Rawicz é contado de forma episódica, explorando a cada momento a personalidade de cada um e mostrando facetas até então soterradas pela violência e pela humilhação. É um sopro de frescor, por exemplo, a entrada em cena da única mulher do grupo, Irena - vivida pela ótima Saoirse Ronan com extrema competência - que, mesmo sob suspeita, traz à tona os resquícios de humanidade de todos. Sem medo de chocar ou surpreender o espectador com mortes inesperadas ou sequências graficamente cruéis (membros em estado de putrefação, por exemplo), Weir fez um retorno triunfal ao cinema, mostrando que seu afastamento voluntário em nada prejudicou seu maior talento: saber contar uma história sem perder a cumplicidade da plateia.

Com tudo isso, fica difícil entender porque a Academia ignorou "Caminho da liberdade", que tinha todos os ingredientes para conquistar uma penca de Oscar: uma história real de superação e coragem durante a II Guerra Mundial, atuações marcantes, uma técnica impecável e um conjunto inspirador de qualidades. Indicado apenas ao prêmio de maquiagem - uma indicação justíssima, aliás - o filme de Weir acabou sendo mais uma das injustiças cometidas pelo Oscar 2011. Mesmo que não seja extraordinário ou inesquecível, é forte e inteligente o bastante para emocionar àqueles que procuram histórias de verdade, com personagens que fogem do tradicional heroísmo hollywoodiano. Um grande filme!

quinta-feira

DESEJO E REPARAÇÃO


DESEJO E REPARAÇÃO (Atonement, 2007, Universal Pictures, 123min) Direção: Joe Wright. Roteiro: Christopher Hampton, romance "Reparação", de Ian McEwan. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Paul Tothill. Música: Dario Marianelli. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Liza Chasin, Richard Eyre, Robert Fox, Debra Hayward, Ian McEwan. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Paul Webster. Elenco: James McAvoy, Keira Knightley, Saoirse Ronan, Romola Garai, Brenda Blethyn, Juno Temple, Benedict Cumberbatch, Vanessa Redgrave. Estreia: 29/8/07 (Festival de Veneza)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Saoirse Ronan), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original

A distribuidora nacional bem que tentou forçar a semelhança com o filme mais famoso de Joe Wright, mas, com exceção de seu nome e da presença da atriz Keira Knightley em ambas as obras, muito poucas semelhanças existem entre "Orgulho e preconceito" e "Desejo e reparação", adaptação de Christopher Hampton da obra-prima do inglês Ian McEwan. Dono de uma prosa mais contundente e uma visão mais pessimista do mundo, McEwan criou uma poderosa história de amor e perda, que trata sem subterfúgios o poder destruidor da imaginação. Recriada com precisão pelo roteiro de Hampton e pela direção caprichada de Wright, a história do romance interrompido entre o humilde Robbie Turner e sua amada Cecilia Tallis ganha, em celulóide, uma visão perturbadora e poética, valorizada por um visual arrebatador e um elenco impressionante.

O nome mais conhecido no cartaz de "Desejo e reparação" é o da atriz Keira Knightley - que já havia trabalhado com o diretor na versão 2005 de "Orgulho e preconceito", mas é o quase desconhecido James McAvoy quem rouba a cena. Tendo sido notado pelo público e pela crítica como o médico de Idi Amin em "O último rei da Escócia" e como o fauno de "As crônicas de Nárnia", o jovem ator (indicado ao Golden Globe por sua atuação, mas injustamente esquecido pelo Oscar) brilha na pele de Robbie Turner, o filho de uma das empregadas da tradicional família Tallis que, em uma casa de campo na Inglaterra de 1935, vê sua vida transformada radicalmente devido a um incidente de consequências funestas. Apaixonado pela bela Cecilia (Knightley), filha dos patrões, ele sonha em cursar Medicina para ter condições de casar-se com ela. Dedicado e honesto, ele é também o objeto da paixão de Briony (Saoirse Ronan, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), que, aos 13 anos de idade, tem o objetivo de tornar-se escritora. É ela quem, com sua mente criativa, irá deflagrar a crise que irá levar o rapaz a uma espiral de acontecimentos trágicos que irá lhe afastar de um futuro promissor. Sentindo-se culpada, alguns anos mais tarde (e interpretada por Romola Garai), ela tentará reparar seu erro.


Mesmo que os fãs do livro voltem a apaixonar-se pela trama de McEwan, é inegável que quanto menos se souber a respeito dos desdobramentos da história, melhor. Apesar de ter um ritmo quase contemplativo em sua primeira metade - que a edição brilhante de Paul Thothill jamais permite tornar-se aborrecido - o filme de Wright leva o espectador, em sua segunda parte, a uma viagem fascinante a um universo de culpa, desejo reprimido e rancor, banhados em lágrimas e sangue. A história de amor entre Robbie e Cecilia - interrompida pelos horrores da Segunda Guerra - é ilustrada com cenas extraordinariamente orquestradas pelo cineasta, incluindo-se aí um longo plano-sequência de tirar o fôlego e um final devastador, valorizado por uma participação especialíssima de Vanessa Redgrave que mostra porque ela é uma das maiores atrizes em atividade. Vivendo Briony Tallis em sua maturidade, Redgrave dá uma aula de classe, elegância e sensibilidade que poderia tranquilamente também ter sido lembrada pela Academia.

Em mais uma prova de suas incoerências, a Academia indicou "Desejo e reparação" a oito estatuetas, incluindo melhor filme e roteiro adaptado, mas deixou de lado tanto McAvoy quanto o diretor Joe Wright. Premiando apenas sua sensacional trilha sonora, os membros eleitores deixaram de prestigiar com mais estatuetas um dos melhores filmes de sua temporada. Espetacularmente fotografado e dono de uma reconstituição de época brilhante (em especial seu figurino), o filme de Wright consegue ser tecnicamente perfeito e emocionalmente potente. É difícil manter-se incólume à sua força e à sua melancolia, traduzidas em imagens inesquecíveis que captam com maestria a essência e o clima do livro de Ian McEwan. Uma obra-prima imperdível!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...