sexta-feira

NOÉ

 


NOÉ (Noah, 2014, Paramount Pictures/New Regency Productions, 138min) Direção: Darren Aronofsky. Roteiro: Darren Aronofsky, Ari Handel. Fotografia:Matthew Libatique. Montagem: Andrew Weisblum. Música: Clint Mansell. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Debra Schutt. Produção executiva: Chris Brigham, Ari Handel. Produção: Darren Aronofsky, Scott Franklin, Arnon Milchan, Mary Parent. Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connely, Ray Winstone, Anthony Hopkins, Emma Watson, Logan Lerman, Finn Wittrock, Douglas Booth, Nick Nolte. Estreia: 26/3/2014

Os protagonistas dos filmes de Darren Aronofsky não são exatamente banais. Mas quem poderia imaginar que depois de um cientista que acreditava ter descoberto o nome de Deus, uma família destruída pelo vício em drogas, um homem que atravessa dimensões atrás da mulher que ama, um lutador decadente, uma bailarina presa à sua incapacidade de assumir seus desejos mais profundos e dois irmãos pugilistas radicalmente diversos em seus destinos profissionais o cineasta elegeria como personagem principal de uma grande produção de estúdio um patriarca bíblico? Pois foi o que aconteceu: "Noé", uma das grandes apostas da Paramount para a temporada 2014 (com um orçamento generoso de 125 milhões de dólares), encontrou no pouco tradicional diretor um de seus maiores trunfos - e, paradoxalmente, seu maior problema. Ao recusar-se a contar a história da Arca que marcou a aliança entre Deus e a humanidade da forma mais previsível - ou seja, com um viés religioso que não ofenderia as plateias mais conservadoras -, Aronofsky perdeu parte do público que transformou "A paixão de Cristo" (2004) em um dos maiores êxitos comerciais da história, mas não todo o respeito acumulado por anos de elogios e prêmios (inclusive uma indicação ao Oscar por "Cisne negro"). Apesar do meio-termo entre a reverência com a história e o desejo de questionar seu anti-herói e levantar questionamentos modernos (meio ambiente, fanatismo, o ser humano em si), "Noé" não chegou a decepcionar em termos de bilheteria e chegou a quase 360 milhões de dólares de renda mundial - mais dinheiro do que um congênere lançado no final do mesmo ano, "Êxodo: deuses e reis", dirigido por Ridley Scott e estrelado por Christian Bale, coincidentemente a primeira escolha de Aronofsky para viver seu protagonista.

Acrescentando trechos de outras religiões e aspectos pouco conhecidos de uma história aparentemente já contada e recontada através de milênios, o roteiro de "Noé" retorna até Adão e Eva - e consequentemente a descendência de Caim, responsável por transformar o mundo em um lugar sombrio, violento e egoísta que precisa, pelos desígnios de Deus, ser limpo por um dilúvio que, dizimando toda a população (com exceção do patriarca e sua família), dará origem a um recomeço, a um tempo de purificação. Com uma montagem interessante que dita um ritmo de blockbuster a uma produção com pretensões mais sérias, os primeiros minutos de "Noé" conduzem o espectador a um universo que mescla a formalidade de uma narrativa tradicional com elementos de filmes de verão - o visual dos guardiões (seres mitológicos que são o elo entre o paraíso perdido e a vida atual na Terra), por exemplo, é nitidamente pensado como forma de atingir um público mais fã de efeitos visuais do que de enredos elaborados, e, paradoxalmente, é um dos maiores defeitos do filme, ao tirar o foco dos personagens humanos em momentos cruciais e remeter a obras de apelo infanto juvenil, como a série "Harry Potter". Para uma obra que pretende analisar os eventos da Bíblia sob um ponto de vista mais realista e menos fantasioso, não deixa de ser incoerente.


 

A saga de Noé é conhecida até mesmo por quem não é especialista em religião, mas o roteiro de Aronofsky e Ari Handel insere elementos dramáticos e personagens inexistentes na mitologia, até como forma de intensificar os conflitos familiares e éticos da releitura. É o caso de Ila, interpretada por Emma Watson: única sobrevivente de um massacre que vitimou todos os seus parentes, a menina é adotada por Noé (Russell Crowe) e Naameh (Jennifer Connelly) em seu caminho para encontrar o velho Matusalém (Anthony Hopkins), a quem Noé procura em busca de conselhos a respeito de uma visão relacionada a uma violenta enxurrada. Avô de Noé, Matusalém, um homem sábio e um dos últimos descendentes de Caim, confirma ao neto que a visão é um sinal vindo de Deus. Entendendo que sua missão é construir uma arca para salvar os animais de um dilúvio que irá devastar a Terra - e assim limpá-la de um período de iniquidade e trevas -, o patriarca torna-se obcecado em levar a cabo o que lhe foi ordenado. Para isso, entra em rota de colisão com o irascível Tubal-Cain (Ray Winstone), assassino de seu pai e disposto a qualquer coisa para fazer parte do grupo a ser salvo do dilúvio - inclusive jogar um dos filhos de Noé, o jovem Ham (Logan Lerman) contra o próprio genitor. Desafios superados, resta a ele cumprir os desígnios de Deus - e perceber que lidar com chuva ininterrupta, animais de todas as espécies e inimigos pessoais é apenas o início de uma saga.

Como cinema "Noé" não chega nem perto de tudo que Darren Aronofsky realizou anteriormente - nem em termos de ousadia narrativa nem em termos de direção de atores. Enquanto Jennifer Connely mais uma vez apresenta um desempenho consistente (apesar de sua Naameh não ser explorada o bastante), o trabalho de Russell Crowe esbarra em um personagem que falha em conquistar a simpatia da plateia e, por consequência, de envolvê-la em seus desvarios. O elenco coadjuvante faz o que pode com um roteiro que por vezes parece sem um foco definido e os efeitos visuais - que poderiam ser um destaque em uma produção cuja trama clama por eles - mais atrapalham do que encantam. Por incrível que pareça, no entanto, mesmo sem as características que fizeram de Aronofsky um dos cineastas mais interessantes do começo do século XXI, "Noé" é uma produção acima da média. Não é um filme religioso no sentido mais tradicional do termo - mas não se poderia esperar isso de alguém tão pouco convencional.

quinta-feira

O REINO DE DEUS

 


O REINO DE DEUS (God's own country, 2017, BFI/Creative England/MetFilm Production, 104min) Direção e roteiro: Francis Lee. Fotografia: Joshua James Richards. Montagem: Chris Wyatt. Figurino: Sian Jenkins. Direção de arte: Stéphane Collonge. Produção executiva: Cavan Ash, Mary Burke, Anna Dufield, Celine Haddad, Richard Holmes, Emma Jouannet, Diarmid Scrimshaw, Paul Webster, Christopher Granier-Deferre. Produção: Manon Ardisson, Jack Tarling. Elenco: Josh O'Connor, Alec Secareanu, Gemma Jones, Ian Hart. Estreia: 23/01/2017 (Festival de Sundance)

É praticamente impossível não lembrar-se de "O segredo de Brokeback Mountain" (2005) ao assistir-se ao belo "O reino de Deus". Se não pela temática homossexual, ao menos sua desconstrução da masculinidade em ambientes francamente viris, seu uso sensível dos cenários naturais como personagens de vital importância e sua história de amor que contraria os preconceitos remetem diretamente à obra-prima do diretor Ang Lee. Ao contrário do sucesso do filme estrelado por Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, porém, o trabalho do diretor Francis Lee não chegou a ser abraçado tão entusiasticamente pelas plateias e ficou restrito ao carinho de seu público-alvo e de uma parcela bem menos barulhenta de espectadores: aqueles que acompanham festivais de cinema e buscam alternativas ao cinema comercial de Hollywood. Sorte de quem se arriscou: "O reino de Deus" não é um filme de emoções pausterizadas, mas sim um belo conto sobre como o amor pode ser o motor de uma existência previamente sem sentido.

Estrelado por Josh O'Connor muito antes de o ator virar um queridinho do público e da crítica - o que aconteceu ao intercalar produções independentes e projetos comerciais, quase uma década depois -, "O reino de Deus" tem, em sua origem, as memórias do diretor e roteirista Francis Lee de seu período como trabalhador rural em uma fazenda no interior do Reino Unido. Homossexual, Lee via em sua rotina um empecilho quase intransponível a seus desejos de seguir uma carreira no teatro. Seu protagonista, o jovem Johnny Saxby (interpretado com uma sutileza palpável por O'Connor) também lida com a repressão a seus instintos: morando em uma fazenda no interior do país e ajudando o pai doente, Martin (Ian Hart, de "Os cinco rapazes de Liverpool") e a avó pouco dada a afetos, Deirdre (Gemma Jones), o rapaz dribla a solidão em encontros fortuitos e efêmeros em bares e feiras agrícolas. Sem maiores expectativas na vida, ele passa os dias bebendo e trabalhando - muitas vezes sem o devido reconhecimento de seus familiares. As coisas mudam quando, para ajudar no período em que as ovelhas do rebanho dão cria, seu pai contrata o imigrante romeno Gheorghe (Alec Secareanu): experiente e dedicado, o jovem acaba por derrubar as barreiras impostas por Johnny a sua chegada e, depois de um começo conturbado, os dois acabam se apaixonando. Mas Johnny não é uma pessoa fácil - resiste bravamente a qualquer aproximação menos casuais - e sua personalidade arredia, somada aos preconceitos em relação à sua sexualidade são uma ameaça ao relacionamento.

 

Filmado em ordem cronológica em Yorkshire - terra natal do diretor Francis Lee -, "O reino de Deus" chama a atenção também pela veracidade que circunda toda a produção. Suas cenas extremamente gráficas ao retratar a vida rural do interior britânico (com direito a partos bastante sangrentos filmados sem uso de dublês ou qualquer outro artifício) aproximam o espectador da trama e do universo de seu protagonista de forma quase asfixiante. A fotografia de Joshua James Richards comenta a ação de maneira discreta, utilizando os cenários naturais como tela para um panorama de emoções represadas - é exemplar o modo como a luz forte das primeiras tomadas vai se tornando mais quente conforme a relação entre Johnny e Gheorghe progride. Da mesma forma, até mesmo elementos discretos como o uso de tempero na comida serve como metáfora para a revolução de que um amor (por mais complexo) é capaz. Tais detalhes visuais (nada óbvios, mas bastante eficientes) demonstram o talento de Lee em equilibrar o visual com o emocional, amparado em uma direção de atores das mais inteligentes. Josh O'Connor se destaca com seu olhar triste e expressivo, mas é sua química com o romeno Al Secareanu que transforma "O reino de Deus" em uma produção especial e acima da média, celebrada em diversos festivais de cinema, como Berlim e Sundance: ao contrário da maioria dos filmes do gênero, que privilegiam histórias assépticas e rasas, o trabalho de Francis Lee parte em busca de uma história de amor que mergulha o público em uma espiral de angústia e fluidos corporais - que podem ou não resultar em um final feliz.

Inspirado no cinema dos irmãos Dardenne e de Jacques Audiard - segundo declarações do próprio diretor Francis Lee - e proibido no Oriente Médio e em vários países da Europa Oriental devido à temática homossexual (foi exibido apenas na Romênia, graças à participação do ator Alec Secareanu), "O reino de Deus" busca a conexão com seu público através da emoção, da sensibilidade e da identificação com temas universais, como o amor, a solidão e o medo de um um mundo hostil a qualquer diferença. Talvez por isso comova e seja mais consistente do que muitos congêneres que se contentam apenas com a superfície. Com silêncios mais loquazes do que seus diálogos, é uma produção que permanece com o espectador mesmo depois dos créditos finais.

quarta-feira

O VIRGEM DE 40 ANOS

 


O VIRGEM DE 40 ANOS (The 40 year old virgin, 2005, 116min) Direção: Judd Apatow. Roteiro: Judd Apatow, Steve Carell. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Brent White. Música: Lyle Workman. Figurino: Debra McGuire. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/K.C. Fox. Produção executiva: Steve Carell, Jon Poll. Produção: Judd Apatow, Shauna Robertson, Clayton Townsend. Elenco: Steve Carell, Catherine Keener, Paul Rudd, Romany Malco, Seth Rogen, Elizabeth Banks, Leslie Mann, Jane Lynch, Kat Dennings, Jonah Hill, Mindy Kaling. Estreia: 19/8/2005 

Fazia pouco menos de seis meses que a versão norte-americana da série "The office" havia estreado nos EUA quando "O virgem de 40 anos" chegou às telas. Era a primeira oportunidade do ator Steve Carell como protagonista no cinema - depois de ter roubado a cena em "Todo poderoso" (2003) e ter trabalhado com Woody Allen (em "Melinda e Melinda") - e havia certo receio de que o humor quase vulgar do filme de Judd Apatow (também em sua primeira incursão fora do circuito de televisão) pudesse ofender às plateias mais suscetíveis e, por consequência, afundasse nas bilheterias. Tudo, porém, não passou de um medo infundado: graças principalmente ao carisma inconteste de Carell, a comédia romântica mais inusitada da temporada encheu os bolsos da Universal (mais de 175 milhões de dólares de arrecadação mundial), abriu caminho para a consagração do seriado estrelado por seu ator central a partir da segunda temporada e apresentou Apatow como o diretor ideal de comédias adultas no começo dos anos 2000. Com um elenco coadjuvante recheado de nomes que fariam parte do imaginário do gênero pelos anos seguintes - como Paul Rudd e Seth Rogen -, o filme acabou por tornar-se, também, um capítulo importantíssimo nas carreiras de todos os envolvidos. 

Carell já tinha 43 anos de idade, dez anos de casado e dois filhos quando apresentou ao mundo o tímido e desajeitado Andy Stitzer, um homem cuja vida gira em torno de um emprego sonolento em uma loja de aparelhos eletrônicos, partidas de videogame e bonecos colecionáveis que são sua maior paixão. Seus amigos são seus colegas de trabalho, e suas relações com o sexo oposto nunca ultrapassam o nível mais superficial - para não dizer que elas praticamente não existem. Para Andy a vida parece ter chegado a um patamar do qual jamais sairá, e de certa forma ele chega a se conformar com o fato, ao menos até ter sua situação amorosa nula descoberta por seus companheiros profissionais. Surpresos (mas não muito) ao perceberem sua total inexperiência no campo sexual, David (Paul Rudd), Jay (Romani Malco) e Cal (Seth Rogen) se unem, então, em uma força-tarefa para resolver o problema do amigo. Nesse meio-tempo - onde encontra mulheres dos mais variados tipos e com as mais variadas expectativas -, Andy tenta lidar com um sentimento novo: a atração/paixão por Trish (Catherine Keener), uma mulher madura que nem de longe desconfia de sua condição de virgem.

 

Repleto de momentos cômicos inspirados - vários deles improvisados por um elenco coeso e homogêneo -, "O virgem de 40 anos" conseguiu a proeza de equilibrar o humor quase ofensivo de Judd Apatow, centrado em piadas de duplo sentido, trocadilhos infames e tiradas a respeito de sexo sem o menor pudor, com um tom de comédia romântica adulta, com personagens convivendo com angústias condizentes (ao menos em parte) com uma faixa etária muito acima da média para o gênero. Abaixo da camada mais óbvia da trama, existe, pairando como uma névoa de melancolia, as preocupações com a solidão, com o amadurecimento, com as relações pessoais em um mundo em constante evolução. O roteiro (coescrito por Apatow e Carell) não tem por objetivo discutir a sério nenhum desses temas, mas de certa forma os apresenta em um nível subjacente bastante interessante - e que em nenhum momento sobrepuja seu principal ponto: fazer rir com situações que beiram o ridículo e que escapam milagrosamente do excesso por mérito de seus intérpretes. Steve Carell mescla o humor histérico e o tom quase triste de Andy com uma maestria que seria ainda mais desenvolvida em trabalhos seguintes - como em "Foxcatcher: a história que chocou o mundo", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, dez anos mais tarde - e Catherine Keener oferece uma base sólida de seriedade à trama, sem que a faça perder o ritmo (e chegou a ser premiada pelos críticos de Boston e Los Angeles). Além deles, o trio de amigos de Andy conquistam o público sem fazer esforço - não à toa são um dos grandes destaques do filme, com personagens mais ricos do que se poderia pressupor: são eles os responsáveis pelo contraste entre a teoria e a prática que sustenta a trama.

Mesmo que vez ou outra apele para um humor quase chulo - o que preocupou Steve Carell no início da produção -, "O virgem de 40 anos" acerta ao brindar o espectador com um nível de inteligência e autoironia que raramente se vê nas comédias hollywoodianas. Em muitos momentos ele soa exatamente o que é - uma comédia tipicamente fruto de seu tempo e sua geografia -, mas consegue, ao mesmo tempo, soar universal e atemporal em seu retrato de uma masculinidade a um passo da toxicidade e da imaturidade geracional. Mas nem mesmo seus pequenos desvios de rota esconde sua principal qualidade: fazer rir descompromissadamente enquanto fala de assuntos sérios (ou nem tão sérios assim).  

terça-feira

UMA NOITE NA ÓPERA

 


UMA NOITE NA ÓPERA (A night at the Opera, 1935, MGM, 96min) Direção: Sam Wood. Roteiro: George S. Kaufman, Morrie Ryskind, história de James Kevin McGuinness. Fotografia: Merritt B. Gerstad, Montagem: William LeVanWay. Música: Herbert Stothart. Direção de arte: Cedric Gibbons. Elenco: Groucho Marx, Harpo Marx, Chico Marx, Kitty Carslile, Allan Jones, Walter King, Sig Ruman, Margaret Dumont. Estreia: 01/11/1935

A boa relação entre Chico Marx e Irving G. Thalberg (todo-poderoso chefão da MGM nos anos 1930), e seu gosto por partidas de bridge podem ser considerados os principais responsáveis por "Uma noite na ópera" ter chegado às telas. Sabendo que a relação entre os executivos da Paramount e os irmãos Marx - gênios da comédia e extremamente populares no começo da década - estavam abaladas com o fracasso financeiro de "O diabo a quatro" (1933), Thalberg não demorou em mexer seus pauzinhos para levar o grupo para seu estúdio: as negociações, iniciadas em uma mesa de jogo e que incluíram a promessa de uma turnê onde os atores testariam as piadas antes mesmo do começo das filmagens, acabaram resultando em uma das comédias mais insanas da carreira do grupo. A princípio rejeitado - a primeira exibição, em Long Beach, foi um fiasco monumental que obrigou o roteirista George S. Kaufman e o próprio Irvin Thalberg a reeditarem pessoalmente o produto que tinham em mãos -, "Uma noite na ópera" acabou estreando com nove minutos a menos e finalmente agradou às plateias. Quando foi relançado pouco depois - em programa duplo com "São Francisco: a cidade do pecado" (1936) - fez ainda mais sucesso e imediatamente tornou-se um clássico absoluto. 

Tecnica e narrativamente mais sofisticado do que os filmes anteriores dos irmãos Marx, "Uma noite na ópera" foi o primeiro trabalho do grupo sem Zeppo, de certa forma substituído por Allan Jones como o galã da trama. Dirigido pelo cineasta Sam Wood, a quem o próprio Jones considerava desagradável e inseguro - e que tampouco era chegado a improvisações, para desespero de Groucho e de todo o elenco, que sofria com repetições infinitas de cada cena -, o filme foi o mais ambicioso e caro da carreira dos astros, acostumados a lidar com orçamentos apertados e nem sempre condizentes com seu status dentro da indústria. Com um roteiro que foi sendo escrito e reescrito conforme avançavam as filmagens - e deixando uma série de autores demitidos no processo -, "Uma noite na ópera" foge da estrutura de piada atrás de piada para apostar em uma trama bem definida e quase convencional (dentro do estilo anárquico típico dos Marx). Apresentando diálogos ágeis característicos de Groucho e piadas físicas de extrema precisão que entraram para a história (em especial a antológica sequência em uma cabine onde não para de entrar entrar gente), o filme de Wood abandonou a primeira sinopse - cujo rascunho foi aproveitado por Mel Brooks em seu genial "Primavera para Hitler" (1968) - e teve sua cena de abertura (passada na Itália) cortada em sua exibição nos anos 1940, durante a guerra, para remover qualquer menção ao país, aliado do Japão e da Alemanha. Seus três primeiros minutos estão, desde então, perdidos - o que não atrapalha em nada seu resultado final.

 
A trama (pela primeira vez importante e coesa em um filme do grupo) gira em torno dos preparativos de uma companhia lírica europeia para uma turnê pelos EUA - com uma inesperada história de amor em segundo plano. O protagonista é o picareta Otis Driftwood (Groucho Marx), que insiste em conquistar a milionária Sra. Claypool (Margaret Dumont) para abocanhar parte de sua fortuna. Tentando fazer parte da alta sociedade, a riquíssima solteirona é convencida por ele a investir na Companhia de Ópera de Nova York, dirigida pelo pouco confiável Herman Gottlieb (Sig Ruman), que tem a intenção de contar com o protagonismo do tenor Rodolfo Lassparri (Walter Woolf King), seu protegido. Rodolfo, por sua vez, passa seus dias assediando a estrela do grupo, Rosa Castaldi (Kitty Carlisle), que o renega por estar apaixonada por um tenor mais jovem, Riccardo Barone (Allan Jones). Embarcando clandestinamente em um navio rumo a Nova Iorque, o calado Tomasso (Harpo Marx) - demitido pelo arrogante Rodolfo - e o esperto Fiorello (Chico Marx) - amigo de Riccardo, que se faz passar por seu empresário -, juntam-se a Ottis em seu objetivo de unir o casal de enamorados e elevá-los à condição de grandes nomes da ópera.

Dotado de um notável equilíbrio entre diálogos espirituosos (recitados como uma locomotiva pelo elenco excepcional) e momentos do mais puro humor nonsense, "Uma noite na ópera" foi considerado pelo próprio Groucho como seu filme preferido dentre todos que fez com seus irmãos. Sem ressentir-se do fato de ter um roteiro mais caprichado - o que, pelo contrário, apenas aumenta sua perenidade e seu alcance popular e crítico -, o trabalho de Sam Wood é, certamente, a mais importante e bem-acabada produção dos Marx, capaz de arrancar gargalhadas do público mesmo quase um século depois de seu lançamento.

segunda-feira

O GALANTE MR. DEEDS

 


O GALANTE MR. DEEDS (Mr. Deeds goes to town, 1936, Columbia Pictures, 115min) Direção: Frank Capra. Roteiro: Robert Riskin, estória de Clarence Budington Kelland. Fotografia: Joseph Walker. Montagem: Gene Havlick. Música: Howard Jackson. Direção de arte: Stephen Gooson. Figurino: Samuel Lange. Produção: Frank Capra. Elenco: Gary Cooper, Jean Arthur, George Bancroft, Lionel Stander, Douglass Dumbrille. Estreia: 08/4/36

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Frank Capra), Ator (Gary Cooper), Roteiro Original, Som

Vencedor do Oscar de Diretor (Frank Capra)

Quando "O galante Mr. Deeds" estreou, em abril de 1936, fazia pouco mais de um ano que "Aconteceu naquela noite" havia se tornado a primeira produção da história a arrebatar os cinco principais Oscar (filme, diretor, roteiro, ator e atriz), e Frank Capra já era considerado um dos mais populares cineastas de Hollywood, a ponto de ter seu nome com destaque nos cartazes, acima inclusive do título - privilégio concedido por Harry Cohn, chefão da Columbia Pictures com fama de poucos amigos e muitos desafetos. Dono de uma obra que exalava um otimismo entusiasmado em relação ao ser humano (mesmo que tentasse disfarçá-lo sob um verniz de sarcasmo), Capra não chegou a surpreender quando levou uma segunda estatueta da Academia por uma comédia dramática que reforçava seus ideais. Grande sucesso de crítica e bilheteria, "O galante Mr. Deeds" quase rendeu uma continuação - a ideia resultou em outro êxito do diretor, "A mulher faz o homem" (1939) - e rendeu a Gary Cooper sua primeira indicação ao Oscar: sua atuação como o ingênuo e caloroso Longfellow Deeds justifica a teimosia do diretor em tê-lo como astro a ponto de esperar seis meses por sua liberação de compromissos anteriores (e a um considerável custo extra de cem mil dólares ao orçamento inicial do projeto). 

Dono de uma personalidade saudável e simpática, ideal para fortalecer o imaginário do americano médio pré-I Guerra Mundial, Cooper - que voltaria a trabalhar com Capra em "Adorável vagabundo" (1941) - nem parece fazer muito esforço para dar vida a seu personagem, um homem simples que vê sua rotina pacífica alterada graças a uma inesperada herança. Longfellow Deeds vive na pequena cidade de Mandrake Falls, onde trabalha escrevendo pequenas poesias para cartões de felicitações e se divertindo ocasionalmente tocando tuba na banda local. Bem quisto pela comunidade local mas sem maiores ambições pessoais, ele é, sem que saiba, o único herdeiro de Martin Semple, um tio milionário que conhecia apenas pelo nome. Seu novo status financeiro o leva até Nova Iorque, onde ele conhece o o inescrupuloso John Cedar (Douglass Drumbille), advogado de seu falecido tio que tem por objetivo manter-se como o principal responsável pela fortuna, mesmo que por meios pouco leais. Deslumbrado com a cidade grande, Deeds não percebe que sua pureza é alvo fácil de inúmeros interesses escusos - inclusive da imprensa, sedenta pela história do que passa a chamar de Cinderelo. Quando finalmente descobre que vem sendo manipulado, ele toma a decisão estarrecedora de usar sua herança para ajudar a pessoas necessitadas - o que o leva a ser interditado e ter que provar na justiça a sua sanidade mental. Para isso, precisa da ajuda de Babe Bennet (Jean Arthur), uma jovem jornalista que mentiu sua identidade para aproximar-se dele - e se apaixonou.

Escrito por Robert Riskin, habitual colaborador de Capra, o roteiro de "O galante Mr. Deeds" (também indicado ao Oscar) apresenta todas as características mais marcantes da obra do cineasta: diálogos ágeis repletos de ironia, personagens a um passo do maniqueísmo (mas dotados de uma humanidade quase palpável), uma trama a um passo do piegas (ainda que divertida a ponto de disfarçar qualquer excesso) e uma direção de atores impecável. Jean Arthur, que ficou com o principal papel feminino depois que Carole Lombard preferiu fazer "Irene, a teimosa" (1936), encontrou o tom ideal para sua Babe Bennett mesmo embarcando no projeto poucos dias antes do começo das filmagens e enfrentando a má vontade de Harry Cohn, que não a queria no filme. Gary Cooper, a primeira e única escolha de Capra para interpretar o protagonista, tem o carisma necessário para fazer com que a pureza de seu personagem soe como uma qualidade louvável e não um defeito que o afaste do público menos afeito a romantismos. O elenco coadjuvante tampouco fica atrás - outro elemento crucial do cinema de Capra é sua capacidade de escolher a dedo atores capazes de amparar sem prejuízo o universo criado a seu redor, e aqui tal capacidade atinge níveis de excelência, com atores secundários que em nada ficam atrás dos protagonistas. São eles, inclusive, que enfatizam o tom sarcástico da produção - que chega a criticar, sem muito disfarce, da chamada elite cultural do famoso Algonquin Hotel, que contava com nomes como Dorothy Parker e Robert Benchley.

Refilmado em 2002 como "A herança de Mr. Deeds" - dirigido por Steven Brill e estrelado por Adam Sandler -, "O galante Mr. Deeds" chegou a ser banido na Alemanha nazista pelo fato de contar com atores não-arianos, e é um dos filmes fundamentais da carreira de Frank Capra. Mais do que isso, no entanto, é uma comédia dramática e romântica das mais inteligentes e um exemplar perfeito do cinema comercial de Hollywood de sua época. Indicado a cinco Oscar - incluindo melhor filme, ator e roteiro -, perdeu para o hoje pouco lembrado "Ziegfeld: o criador de estrelas" mas se mantém como um dos mais queridos trabalhos do cineasta, principalmente por sua atmosfera otimista e pelo carisma de seus atores centrais. Um filme sem contraindicações.

sexta-feira

OS AGENTES DO DESTINO

 


OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto "Adjustment Team", de Philip K. Dick. Fotografia: John Toll. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Thomas Newman. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Isa Dick Hackett, Jonathan Górdon. Produção: Bill Carraro, Michael Hackett, Chris Moore, George Nolfi. Elenco: Matt Damon, Emily Blunt, Terence Stamp, Michael Kelly, Anthony Mackie, John Slattery. Estreia: 14/02/2011

Depois de perder uma eleição praticamente ganha para o Senado americano - devido à publicação de uma foto de sua juventude -, o carismático David Norris (Matt Damon) encontra, por acaso, a bela Elise Sellas (Emily Blunt), que sonha em tornar-se uma bailarina mundialmente famosa. Inspirado pelo otimismo da moça (e por um beijo trocado), Norris faz um discurso que imediatamente o faz voltar às graças dos eleitores e à disputa pelo Congresso. Ainda abismado com o encontro com Elise - de quem não sabe nem o nome -, o ambicioso político acaba a encontrando um mês depois, novamente sem esperar. O novo encontro faz nascer entre eles um romance promissor, mas o que Norris não sabe - e irá saber da pior maneira possível - é que a história desse nascente amor vai contra os planos do destino. Perseguido por um grupo misterioso de homens de preto - autointitulados Comitê de Ajuste -, David precisa decidir entre um brilhante futuro na política (o que deixaria Elise livre para realizar seus sonhos profissionais) ou a possibilidade de um final feliz com a mulher por quem está apaixonado. Para isso, ele recorre à ajuda de um dos agentes, o empático Harry Mitchell (Anthony Mackie) - principal responsável pelo desvio da rota programada para o destino do rapaz.

Sucesso apenas razoável de bilheteria, "Os agentes do destino", estreia do cineasta George Nolfi, chegou às telas com pedigree: baseado em conto de Philip K. Dick, o mesmo autor de clássicos da ficção científica, como "Blade Runner: o caçador de androides" e "O vingador do futuro", a produção estrelada por Matt Damon e Emily Blunt merecia sorte melhor. Elegante e ágil, inteligente e instigante, o filme de Nolfi consegue o equilíbrio quase perfeito entre um thriller e uma história de amor, evitando o caminho fácil das sequências de ação alucinantes e das explicações em excesso. Deixando que o espectador vá preenchendo as lacunas conforme elas vão aparecendo, o roteiro brinca com a percepção do público em relação a conceitos como destino, amor, livre arbítrio e futuro. Com efeitos visuais discretos que não chamam mais atenção que a trama e uma trilha sonora eficiente do veterano Thomas Newman, "Os agentes do destino" se beneficia, também, da química entre seus dois atores centrais. Era imprescindível para que a história funcionasse, que os intérpretes de David Norris e Elise Sellas convencessem o público de que desafiariam o que fosse para ficarem juntos, e, ótimos atores que são, Damon e Blunt fisgam o público já em seu primeiro contato - a ponto de, mesmo separados, jamais deixarem de ser a base de toda a trama.

 

Um dos roteiristas do estupendo "O ultimato Bourne" (2007), e portanto dono de pleno domínio de ritmo e narrativa, George Nolfi apresenta, em "Os agentes do destino", uma noção visual digna de veteranos. A elegância das sequências de ação demonstra um cuidado raro em não apenas deixar o espectador mergulhado na agonia de seus protagonistas, mas também em oferecer uma experiência mais rica em termos plásticos. Detalhes do figurino - como os chapéus que permitem o acesso ao mundo dos chamados agentes - e a fotografia eficiente mas que nunca chega a desviar a atenção da trama (cortesia do duplamente oscarizado John Toll) são exemplos claros do talento do cineasta em utilizar-se da imagem para contar a história com todos os elementos à sua disposição. Se o enredo criado por Dick em 1954 - e adaptado com total liberdade por Nolfi - já é interessante por si próprio, sua transposição para para as telas realça seus questionamentos éticos e atualiza a história, contrapondo em seu cerne a discussão entre o que é mais importante: o amor ou a carreira, a chance de um futuro alvissareiro ou a felicidade de um amor verdadeiro.

Sem exagerar nos efeitos visuais e conquistando o público mais por sua história do que pela aposta na adrenalina pura e simples, "Os agentes do destino" rendeu pouco mais de 127 milhões de dólares em sua carreira internacional, em um ano que viu, em seus dez maiores sucessos comerciais nove continuações e uma produção infantil com personagens já consagrados - "Os Smurfs". Competindo com Harry Potter, Jack Sparrow, Bella & Edward, Transformers, Ethan Hunt e Dominic Toretto, o conto de amor e rebeldia criada por Philip K. Dick não fez feio - principalmente por ser um respiro de criatividade e ineditismo em um universo saturado de marcas registradas. Pode não ser uma obra-prima e talvez nem mesmo uma produção memorável na filmografia de seus envolvidos, mas é digno, decente e francamente divertido.

NOÉ

  NOÉ (Noah, 2014, Paramount Pictures/New Regency Productions, 138min) Direção: Darren Aronofsky. Roteiro: Darren Aronofsky, Ari Handel. ...